quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

DABKE

(Video: Filme "Lavoura Arcaica", dirigido por Luiz Fernando Carvalho) 
(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR E OUVIR)

     A palavra DABKE significa “bater o pé no chão”. DABKE é uma dança folclórica de muitos países árabes. É dançada em grupo, com as pessoas de mãos dadas formando uma roda ou uma meia-lua com movimentação dos pés, que realizam uma variedade de batidas e passos no chão. A música e a dança são alegres e, em geral, são acompanhadas da flauta “mjwez”. O líder do DABKE (“raas”) conduz o cordão, olhando ora para o público, ora para os demais dançarinos. A ele é permitido improvisar no DABKE. Ele dança girando um lenço ou cordão de contas (“masbha”), enquanto os demais dançarinos mantêm o ritmo. Os dançarinos emitem sons para demonstrar energia e manter o ritmo. O líder deve ser como uma árvore, com os braços erguidos, com a postura ereta e altiva do tronco, e com os pés batendo no chão para manter o ritmo.

     Nas grandes celebrações familiares, na casa de minha avó paterna, dançava-se o DABKE. Eu, pequeno, ficava atento a cada movimento, a cada passo, a cada som. Na foto, uma dessas ocasiões festivas.

(Ocasião festiva em família - Da esq. para a direita: minha avó [parte], A. Abboud, Jorge Khalil, Musso [tio], Jorge Barouf  [tio-avô e flautista], Nogueira [tio] - foto: meados dos anos 60)

     Raduan Nassar, em “Lavoura Arcaica”, (depois transformado em filme - dirigido por Luiz Fernando Carvalho) assim descreve um grupo de familiares e amigos dançando DABKE:

"(...) e eu pude acompanhar, assim recolhido junto a um tronco mais distante, os preparativos agitados para a dança. (...) E foi então a roda dos homens se formando. Primeiro meu pai de mangas arregaçadas arrebanhando os mais jovens. Todos eles se dando rijos os braços, cruzando os dedos firmes nos dedos da mão do outro, compondo ao redor das frutas o contorno sólido de um círculo (...). E logo meu velho tio, velho imigrante, mas pastor na sua infância, puxou do bolso a flauta, um caule delicado nas suas mãos pesadas, e se pôs então a soprar nela como um pássaro; suas bochechas se inflando como as bochechas de uma criança; e elas inflavam tanto, tanto, e ele sanguineo dava a impressão de que faria jorrar pelas orelhas, feito torneiras, todo o seu vinho. E ao som da flauta a roda começou, quase emperrada, a deslocar-se com lentidão, primeiro num sentido, depois no seu contrário, ensaiando devagar a sua força num vaivém duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos virilmente contra o chão. (...) E os mais velhos que presenciavam, e mais as moças que aguardavam a sua vez, todos eles batiam palmas reforçando o ritmo..."

(Raduan Nassar, em “Lavoura Arcaica”  - extrato do cap. 29)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

DEPOIS DO ÚLTIMO ACENO, AO ÚLTIMO PASSAGEIRO, NO ÚLTIMO VAGÃO DO ÚLTIMO TREM (trecho final de um poema)

(Foto: estrada de ferro Mogiana, em Guará, SP - Fonte: arquivo Dr. Romeu)


"Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento."

(Adélia Prado)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

REVENDO SCHMIDT

“Quem contará as pequenas histórias que assisti durante minha vida? Quem falará de meus mortos? Quem se lembrará de mim mesmo, depois que essa existência se transformar numa vida verdadeira ou em nada, em sono sem despertar? Mais de 40 anos depois que eu tiver desaparecido, quem se lembrará de que passei por este mundo? Quem, abrindo os olhos da memória sobre minha ausência, me reverá?” 
(Versos derradeiros de Augusto Frederico Schmidt - minissérie JK) 

DESCOBRINDO A MÚSICA CLÁSSICA


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Canon in D Major - Pachelbel - fonte: https://www.youtube.com/watch?v=NlprozGcs80


     Nunca dei muita bola para a chamada "música clássica". Meu estilo preferido sempre esteve voltado para o popular elaborado - digamos assim. Foi em uma fase bem mais amadurecida que esse outro estilo nasceu para mim.

     O que me chama a atenção é observar o quanto a música popular desgasta-se com o passar do tempo. Há música que a gente ouve algumas vezes e depois, em virtude da sua repetição, cansa. Mas com a chamada música clássica não é assim: repetida, ela enseja, a cada audição, uma nova descoberta, um novo apego.

     Quando passamos a cantar uma música mecanicamente a tendência é de que ela se torne cansativa. Assim, o tempo de duração de uma música, ligada ao limite de nossa tolerância, é bastante limitado.

     Pensando nisso observei que as chamadas "clássicas" atravessam séculos e se renovam. Bach e Vivaldi, por exemplo, foram compositores da primeira metade do século XVIII; Mozart e Beethoven, do final do século XVIII e primeira metade do XIX. E ainda hoje ouvimos suas composições tão ricas e cheias de imagens. Ora, se uma música tem a capacidade de durar por tanto tempo sem se tornar enjoativa, isso só pode ser sinal de boa qualidade. 

     Compreendendo então a dimensão da minha ignorância e do meu preconceito em relação à música clássica, decidi que precisava conhecê-la. Mas daí o grande problema logo de cara: começar por onde? Como entrar no mundo da música clássica?

     Casualmente, um dia chegou às minhas mãos um artigo de jornal* que afirmava não haver nenhuma regra ou segredo para se aprender a ouvir música clássica; que, assim como ninguém entra na literatura lendo na sequência "A Bíblia", "Odisséia", "A Divina Comédia" e "Dom Quixote", na música clássica tampouco há ordem para se aprender a ouvi-la.

     Passei a acreditar, então, que o fundamental seria, inicialmente, "acostumar os meus ouvidos". Assim, eu só precisava colocar para tocar uma coletânea qualquer de música clássica, ficar quieto, e ouvir em silêncio.

     Gostei da ideia de imaginar que os sons poderiam despertar imagens, sentimentos e emoções. Entrei em contato com um amigo violoncelista, expliquei a ele o meu propósito, e pedi que gravasse para mim, aleatoriamente, um CD de músicas clássicas de diversos compositores.


Woking Art Gallery - Classical Music Collection - Classical String Quartet - Painting by Horsell Woking Surrey Artist Sera Knight
(Sera Knight: "String Quartet" - fonte: http://www.seraknight.co.uk/music-paintings/string-quartet-classical-musicians-painting.htm

     Assim, sem me preocupar em saber quem era o autor, ou o que cada música procurava transmitir, comecei a "treinar os meus ouvidos". Ouvindo o CD repetidas vezes fui percebendo que algumas características se assemelhavam em algumas composições. O uso do cravo, por exemplo, chamou-me à atenção. Em pouco tempo, e para minha surpresa, fui começando a querer identificar estilos e identidades de cada compositor. Achei o máximo esse exercício! E naturalmente fui querendo estender o aprendizado, ampliar, ouvir mais.

     Viajei muito em “Carmen”, do Bizet. Descobri que o compositor era francês e que “Carmen” pintava paisagens da Espanha; descobri que "Aranjuez Mon Amour", de que tanto gosto, é o segundo movimento do "Concierto de Aranjuez" do também espanhol Joaquin Rodrigo; que a "Ária na corda Sol da Suíte nº 3" é do Bach; que foi Vivaldi que compôs "As quatro estações"; e que uma música mais robusta, mais séria e elaborada indica ser, para mim, composição do Beethoven.

     Pois a música clássica ultrapassa o limite do tempo. Ela nos leva para todos os lugares e em todos os tempos sem que precisemos sair do lugar. Compreendo que uma música popular marca época, um momento específico que fica na nossa lembrança,  e que evidentemente tem seu valor e sua riqueza. Mas, com exceções, depois de ouvida algumas vezes, os sentimentos em relação a ela ficam anestesiados. Vide "Trem das Onze" com o Adoniran; "Garota de Ipanema" com o Tom; "Yesterday" com os Beatles; "My way" com o Frank Sinatra -  são músicas muito boas, mas que já disseram o que tinham que dizer, já transmitiram o que tinham que transmitir; estacionaram, tornaram-se retratos de uma cultura; passaram a ser símbolos de um momento na vida de cada um que as ouviu. Com a música clássica, diferente disso, a cada nova audição abre-se a possibilidade de novas descobertas, novas emoções.

     Não permanecendo estacionada no nosso tempo, a música clássica, no geral, tem a propriedade de nos conduzir muito além da nossa mente, passando do plano racional para o sensorial. Se na música clássica os sentimentos que somos capazes de experimentar ultrapassam aqueles que são passíveis de identificação, então é apropriado dizer que ela não se esgota no momento; que ela tem a propriedade de conseguir nos colocar em lugares onde nunca estivemos a cada vez que nos dispomos a ouvi-la.

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Sugestões minhas para se começar a ouvir e gostar da música clássica:
-1- Ária da Suite nº 3 BWV 1068 - Bach - https://www.youtube.com/watch?v=TTxPA4zuNbM
-2- Clarinet Concert in A major K 622 Adagio - Mozart - https://www.youtube.com/watch?v=JcIyTiKwDvU
-3- Moonlight Sonata nº 14 - Adagio Sostenuto - Beethoven - https://www.youtube.com/watch?v=MFP5mik-u9Y
-4- Arioso from Cantata BWV 156, 1st Adagio - Bach - https://www.youtube.com/watch?v=xueopsTHesw
-5- Valsa da dor - Heitor Villa-Lobos - https://www.youtube.com/watch?v=L-K_7kd4Qvs
-6- Sinfonia nº 7, 2º movimento - Beethoven - https://www.youtube.com/watch?v=J12zprD7V1k
-7- Concierto de Aranjuez - 2nd movement - Joaquin Rodrigo - https://www.youtube.com/watch?v=CBHfPh5Ibsk
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*"Para começar a escutar música clássica" - artigo de Arthur Nestrovsky escrito em 24/09/2002 - em  http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u123.shtml

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

DAS DIFERENÇAS


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
Janine de Waleyne e Baden Powell - Violão Vadio
https://www.youtube.com/watch?v=pSNDeGi6h4I


"O importante e bonito no mundo é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando"
(Guimarães Rosa)


     Ouço com frequência a afirmação de que seria maravilhoso viver caso todos nós fôssemos iguais àquela pessoa apontada como sendo perfeita: iguais em pensamentos, iguais nas interpretações, iguais nas crenças, iguais nos gestos e atitudes, iguais nos valores e interesses. Até o Vinícius de Moraes já disse isso na letra de "Se todos fossem iguais a você". Mas ele mesmo já analisou a sua própria afirmação (não me lembro em qual entrevista) concluindo que se isso acontecesse tudo seria muito chato: uma mesmice, tudo previsível, um tédio danado.

"Operários" - Tarsila do Amaral, 1933
http://artefontedeconhecimento.blogspot.com.br/2010/07/operarios-de-tarsila-do-amaral.html

     Particularmente, creio que são as divergências que fazem com que eu consiga repensar frágeis certezas e, consequentemente, progredir. Tenho procurado aprender a valorizar mais a celebração das diferenças de interpretações sobre tudo o que me é apresentado.

     Através da livre manifestação do pensamento fica evidente a singularidade de cada um; só é livre o ser humano que pode pensar com absoluta liberdade. De nada vale o pensamento livre, a criação intelectual, científica, filosófica ou política, se não pudermos manifestar nossas ideias. Afinal, a convivência social só alcançou o estágio em que estamos porque os homens passaram uns aos outros as riquezas produzidas em seus pensamentos.


Cultural Differences in Facial Expressions
Diferenças culturais em expressões faciais
Fonte - http://www.commisceo-global.com/blog/cultural-differences-in-facial-expressions

     Nada é definitivo e absoluto. Quando outros emitem pontos de vista diferentes dos meus e me fecho em minhas convicções sem querer ouvi-los não ajo com sabedoria. É na aceitação e avaliação das diferenças sustentáveis que posso evoluir. A atitude de me enclausurar em minhas próprias certezas, além de criar barreiras enormes para minha integração, traduz um autoritarismo que me impede de reavaliar quaisquer entendimentos defeituosos que eu possa ter. Longe de querer um conflito de ideias ensejando um embate entre elas, objetivando como resultado final a proclamação de um vencedor e um vencido, o importante mesmo é perceber que a combinação de entendimentos divergentes contribui para minha própria melhora pessoal. Para mim, quem se tranca em suas certezas e convicções gera uma desconfiança brutal. Isso porque a convicção impossibilita a existência de alguma porta aberta para o diálogo, o entendimento e a reflexão.

     É um gesto de sabedoria, portanto, deixar de lado a crença de que a discordância gera afastamento. Ao contrário, partindo da compreensão de que cada um de nós tem sua própria formação, é a livre expressão do pensamento que diminui distâncias. Afinal, a vida é um eterno buscar de um amadurecimento significativo o bastante para nos fazer querer bem a quem quer que seja - apesar de eventuais diferenças de pensamento que possam existir. Assim em uma orquestra: apesar dos diferentes sons, cada instrumento tem a sua importância, sua função e sua beleza. Em harmonia, seus diálogos sonoros se respeitam... e encantam.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

PEQUENAS IMPRESSÕES SOBRE O OLHAR E O APERTO DE MÃOS



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)

("Amizade Sincera" - Renato Teixeira e Dominguinhos)



“Nunca podemos chegar à verdadeira natureza das coisas pelo lado de fora.”
(Schopenhauer)


     É natural e comum a todos nós o desejo que temos de agradar, de sermos atenciosos e simpáticos. Um sorriso no rosto, ao nos aproximarmos de alguém, opera milagres, causa boa impressão, cativa, conquista.

     Mas... pensando bem, "conquistar" corresponde a uma relação onde aparecem dominante e dominado. Há algo muito mais significativo no cumprimento.

     Mais significativa do que a formalidade contida no aperto de mãos, a mensagem que acompanha o olhar é o que mais comunica verdades. E, para quem sabe observar, isso é muito simples de ser compreendido. Aperto de mãos sem o encontro de olhares corresponde a um gesto vazio, a um objetivo frio, estudado e calculado: um gélido protocolo.



(Retorno de meu filho após 6 meses de viagem - foto: arq. pessoal)


     Aquele que liberta o coração sente e compreende o cumprimento silencioso, o olhar de amizade, de solidariedade, de companheirismo.

     O cumprimento sincero vem de dentro; não sai das mãos. A cumplicidade contida no olhar cheio de carinho e consideração, que observamos existir quando somos cumprimentados por verdadeiros amigos ou familiares que nos querem bem - e que não temem comunicar suas verdades -, está muito além de um forte e protocolar aperto de mãos.

     Melhor então: aperto de mãos com sorriso no rosto e sinceridade no olhar.

     É isso!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

RUBEM BRAGA

Gosto da clareza e da simplicidade do Rubem Braga. Transcrevo aqui, da sua coletânea "200 CRÔNICAS ESCOLHIDAS", três trechos de crônicas das quais gosto muito.  

Uma vida em uma carta

"E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta: cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa (...)."
(Em "Velhas Cartas")
 
Do reflexo de abraços e vozes distantes
 
"É noite de Natal, e estou sozinho na casa de um amigo, que foi para a fazenda. Mais tarde talvez saia. Mas vou me deixando ficar sozinho, numa confortável melancolia, na casa quieta e cômoda. Dou alguns telefonemas, abraço à distância alguns amigos. Essas poucas vozes, de homem e de mulher, que respondem alegremente à minha, são quentes, e me fazem bem. 'Feliz Natal, muitas felicidades'; dizemos essas coisas simples com afetuoso calor; dizemos e creio que sentimos, e como sentimos, merecemos. Feliz Natal!"
(Em "Natal")
 
Natal com chuva

"Saiba (...) que há duas semanas, numa velha fazenda do Brasil, numa noite de Natal de muita chuva, houve um homem que acordou de madrugada pensando em você."
(Em "Mensagem que não foi mandada")

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Dr. LEÃO


(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
Baden Powell - "Serenata do Adeus" (Vinícius de Moraes)


     Um dia, depois de sair da fábrica de fertilizantes onde trabalhava, fui à barbearia do Jerônimo para cortar meus cabelos. Como era normal, e em especial nos finais de tarde, a barbearia estava repleta de clientes; ou, ainda, de pessoas que iam ali simplesmente para conversar. Sentei-me em uma poltrona, pacientemente, na certeza de que ali ficaria por algum tempo até chegar a minha vez de ser atendido.
     Um pouco depois de conversar com alguém ao lado observei a chegada do Dr. Leão: médico respeitado, que por muitos anos cuidou da saúde dos moradores da minha cidade natal. Onde quer que fosse encontrado, estava sempre pronto para ouvir e atender a todos que o procuravam. 

     Ao chegar na barbearia olhou atentamente para todos e entrou. Sentou-se em uma poltrona, pegou uma parte do jornal e começou a ler. Lia alto, leitura lenta, como que decifrando e refletindo a respeito de cada uma das palavras que pronunciava. Perguntei a mim mesmo o motivo que o levava a ler daquela forma. Parecia uma criança sendo alfabetizada. Ele, que por tantos anos havia cuidado de tanta gente, agora parecia precisar de alguém que olhasse por ele.

     Pensei no dia em que, graduado médico, fez planos para seu futuro. Certamente perguntou a si mesmo por onde começar, para onde ir. Imaginei um jovem cheio de sonhos, com dezenas de caminhos para seguir, guiado pelas ilusões e pelo entusiasmo de sua juventude, ansioso por começar a trabalhar.

 (Foto: Dr. Leão nos anos 60)
     Lembrei-me também, naquele momento, de uma outra noite, havia anos, pouco tempo depois da morte de meu pai. Entrando em um bar para tomar um refrigerante, fui chamado pelo Dr. Leão. Ele estava sentado em um banquinho de canto, junto do balcão, sozinho, preso em seus pensamentos, e de óculos escuros - apesar da pouca claridade na noite que se iniciava. Vi nele a emoção dos que transcendem. Disse-me que estava confuso, que coincidentemente no momento em que me viu lembrava e pensava em meu pai; que havia sido um grande amigo seu, e de quem sentia saudades. Disse-me também que minha mãe e minha irmã iriam precisar muito de mim. E, enquanto me dizia isso, percebi em sua face a expressão incontrolável dos que se esforçam para conter o pranto. Concluiu dizendo-me para voltar para casa. E continuou ali.
Andei passos tortuosos procurando compreender o que precisava aquele homem sentado em um balcão de bar, em companhia exclusiva de seus pensamentos. Quais palavras poderiam tê-lo feito um pouco menos triste? Quisera eu sabê-las para poder ter lhe oferecido. Mas eu, assustado em minha ingenuidade de então, fiquei emudecido durante todo o tempo em que ele falou comigo. E retornei à minha casa com os pensamentos desencontrados e a sensação de que já não era mais o mesmo adolescente imaturo que havia entrado naquele bar.
     Sempre via o Dr. Leão sentado em um banco de madeira na calçada do bar, preso em seus próprios pensamentos. Quantas vezes senti vontade de sentar-me ao seu lado, poder ouvi-lo falar qualquer coisa, ou mesmo somente lhe fazer companhia. Gostava de vê-lo, de cumprimentá-lo.
Naquele instante, naquela barbearia, ele que havia sido o meu médico não me reconheceu. Quis, mais uma vez, fazer-lhe companhia, ficar ali, conversar com ele. E assim, de repente, ele lia em voz alta, tal qual uma criança. Fiquei ouvindo sua leitura e refletindo sobre sua trajetória de vida: a saída da universidade, a luta pelos sonhos, a família, os pacientes, os filhos...
     Hoje, penso cá comigo: "será que ele foi feliz ?"

 
 (Foto: Avenida Dr. Francisco de Paula Leão, em Guará, numa tarde de domingo)
     De qualquer forma, imortal no coração dos que o conheceram, a cidade também o imortalizou no dia 15 de setembro de 1990: à antiga Avenida Mogiana foi atribuído o nome de Avenida Dr. Francisco de Paula Leão – o Dr. Leão. Foi o pouco que a cidade pôde fazer por ele, que tanto fez por tanta gente.

    (Placa no cruzamento da Av. Dr. Fco de Paula Leão com Rua Dep. João de Faria) 


RP, 29/10/1990

CANTANDO COM O VINÍCIUS


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
"Se ela quisesse" - Toquinho/Vinícius
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=tZWOSNlPwbw


     Foi pelas mãos de um de meus tios que, em 1975, fui pela primeira vez a um show musical. Lembro-me bem. Eu era ainda adolescente, estudante de cursinho pré-vestibular em Ribeirão Preto (SP). O artista era, nada mais nada menos do que o Vinícius de Moraes. Com ele, estavam no palco o Toquinho e o Trio Mocotó. Minha ansiedade era enorme. E tudo foi, deveras, memorável.


Vinícius de Moraes
Fonte: http://giragiraffa.blogspot.com/2013/10/os-100-anos-de-vinicius-de-moraes.html

     Em um ginásio de esportes, carregando um pequeno gravador, sentei-me ao lado de uma caixa de som e gravei o show inteiro. O disco "Turbilhão" estava para ser lançado.

     Em um determinado momento do show o Vinícius disse que estava muito contente, que aquela noite estava sendo para ele muito especial, pois ali estava presente uma pessoa que tornara-se muito especial em sua vida. Para homenagear tal pessoa, e sem mencionar seu nome, o poeta pediu que a plateia toda cantasse, com ele, "Eu sei que vou te amar". E assim foi. Cantaram todos. Cantei também.

     Terminado o show, saí dali maravilhado, deslumbrado. Estava convencido de que o poeta, naquela noite, estava, de fato, embriagado de amor.

     Anos mais tarde ao ler "O Poeta da Paixão", do José Castello, no soneto de introdução à vida do Vinícius com a Marta, “Soneto de Marta”, o poeta datou: “Ribeirão Preto, 5/6/1975”.

     Portanto, de uma certa forma, também fui parceiro vocal do Vinícius, em uma noite de muita inspiração sua, quando ele prestou uma homenagem memorável à Marta, sua então companheira.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

OS CABELOS E A BOLA

     (Foto: Portão de entrada do Estádio Arthur Alves dos Santos, em Guará, SP - "campo da Associação")

     Há pessoas que se vão como se nunca tivessem passado por aqui. Vão embora sem podermos saber para onde, enfiam-se no mundo e aventuram-se na vida. No entanto permanecem nas nossas lembranças e fazem parte da nossa formação, mesmo que nunca tenham sabido isso. Somos importantes por tudo que fazemos; deixamos nossas marcas, nossos exemplos àqueles que por algum motivo ou por um algum momento passaram pela gente.
    
     Guardo uma lembrança de alegria e simplicidade de um amigo de quem não tinha notícias havia uns vinte anos. Foi amigo de jogos de futebol no asfalto das ruas, no Clube ou na Associação que frequentávamos, e amigo de muitas conversas despreocupadas nos bancos da praça da igreja. Ele queria ser jogador de futebol. Após as partidas nas quais atuava perguntava-nos, a mim e aos nossos amigos comuns, com simplicidade, se os seus cabelos esvoaçavam conforme corria dentro de campo. Era vaidoso, de uma vaidade adolescente com seus cabelos. Eu o via sempre alegre, sempre pronto a jogar futebol. Foi embora da nossa cidade, não mandava notícias, e aparecia raramente nas festas de finais de ano. Eu sempre perguntava a seus outros irmãos notícias do meu amigo.
    
     Na semana passada fui reconhecido por uma jovem, com quem troquei saudações. Percebendo que eu não a reconhecia, contou-me ela quem eram seus pais, quem eram seus irmãos. De imediato a lembrança alegre do meu amigo, a satisfação de estar falando dele - seu irmão - me trouxe a pergunta: "por onde anda?"; "como vai ele?" De fisionomia repentinamente alterada contou-me ela que seu irmão, havia poucos meses, morrera sozinho longe de casa, sem ter constituído família, sem ter deixado nada, vítima de doença incurável. Surpreso e comovido, com um engasgo na fala, senti naquela hora a triste perda do amigo. Contudo também sinto hoje uma alegria e um carinho comovente ao me lembrar do "Fio", meu amigo, filho do "Chico Barbeiro".

RP, 05/abr/00