sexta-feira, 4 de março de 2011

NOTÍCIAS DO ORIENTE MÉDIO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)


     Há em minha terra natal, em proporção, um número muito expressivo de imigrantes e de descendentes de imigrantes sírios e libaneses. Pelo menos havia, há uns 40 anos atrás. Neto de imigrantes libaneses que sou, pelo lado paterno, eu mesmo trago um pouquinho dessa cultura. E próprio dela é o café compartilhado ao redor de uma mesa, com assuntos que conseguem nos levar a lugares onde nunca estivemos - ou onde já estivemos e que ficaram guardados.

     Pois hoje à tarde, em uma loja de conveniências, olhando pela porta de vidro, vi um fusca grená fabricado nos anos 60. Esse carro me fez lembrar de alguns imigrantes libaneses que foram viver em Guará e que costumavam fumar cigarros de palha enquanto caminhavam lentamente às margens da estrada de ferro. Em geral eles se encontravam no final da tarde para comentar as ocorrências do dia e trocar informações à respeito da política nos países do oriente médio.

     A fonte principal dessas informações, creio eu, era o Sr. Hassan. Era ele quem, durante as tardes quentes e preguiçosas de Guará/SP, estacionava seu fusca em frente a uma loja de secos e molhados. 


(Sr. Hassan - foto: André Rodini)

     Eu por ali, com meus amigos, filhos e netos de imigrantes, gostava de observá-lo. O Sr. Hassan mantinha aberta a porta do carro e, com a camisa desabotoada, picando fumo com um canivete, cumpria seu ritual diário de debruçar-se ao lado do carro e ficar ouvir o noticiário de seu país de origem. 

(fonte: http://www.luizberto.com/coluna/historia-de-beiradeiro/page/3 - descolorizada)

     Chamava-me à atenção o volume que ele colocava no som do rádio. De longe eu percebia que ele sempre sintonizava em uma estação que, em ondas curtas, transmitia notícias em árabe. Além da língua, que me era desconhecida, a voz humana na transmissão era praticamente imperceptível e indecifrável. Os ruídos e os chiados dominavam o que se podia ouvir. Eu, um pouco afastado, procurava entender e imaginar os erros e os acertos dos governos árabes que, para mim, eram transmitidos não pelo som vindo do rádio, mas pelo semblante do Sr. Hassan que alternava-se entre satisfação e desconsolo, pouca alegria e muita tristeza, à medida que o locutor dava pausas na sua fala.

     Creio que muitas estratégias de política e de guerra foram discutidas com base nas notícias de rádio levadas pelo Sr. Hassan; e quantas soluções de paz certamente foram encontradas ali às margens da estrada de ferro! Porém, raramente parecia haver consenso no grupo.

(A estrada de ferro - fonte: Luiz Carlos Eufrosino)

     Pensando nas transformações que o tempo proporciona, fiquei sabendo que a loja de secos e molhados virou uma “lan house”; o que era notícia de rádio quase que inaudível, e em árabe, virou imagem e som instantâneos transmitidos pela internet - e em português -; o fusca grená, pelo que ouvi dizer, foi vendido há muito tempo. Apesar disso, no meu pensamento, nos finais de tarde os meus queridos “patrícios” continuam caminhando juntos e, conversando, vão agora construindo um mundo novo... na avenida principal, que um dia foi estrada de ferro.

terça-feira, 1 de março de 2011

NEVER BEFORE




(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("This never happened before" - Paul McCartney, do CD "Chaos and Creation in the Backyard" - 2005)

Em 1967 os Beatles lançaram um disco maravilhoso, inclusive que é citado como o melhor e mais influente álbum da história do rock: “Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Nesse álbum há uma música creditada a Lennon e McCartney, mas que é tipicamente McCartneana. Dizem os biógrafos que “When I’m sixty Four” foi escrita exclusivamente por Paul McCartney quando ainda era um adolescente. Essa música traz uma melodia que nos remete aos anos 20, 30, e em sua letra um jovem conta para a sua namorada seus planos de envelhecerem juntos, dizendo, perguntando e concluindo assim:

“Você ainda precisará de mim
quando eu ficar mais velho,
perdendo os meus cabelos,
daqui a muitos anos ?
Você ainda me alimentará
quando eu tiver 64 anos de idade?”

Numa madrugada chuvosa há alguns poucos anos ouvi um locutor de rádio comentando a letra dessa música. Dizia ele que quando o Paul McCartney a compôs ele fazia previsões para um futuro que imaginava longínquo, distante, que nunca chegaria, prevendo que ele mesmo estaria com a esposa, ambos velhinhos, ela tricoteando à beira da lareira, e ele consertando fusíveis, cuidando do jardim...  
Feito tal comentário o locutor mudou a entonação da voz e concluiu que o Paul McCartney havia falhado, que errou em todas as suas previsões; que não estava velhinho e passivo coisa nenhuma. Que, pelo contrário, estava completando naquele dia 60 anos de idade, na plenitude da criatividade, fazendo planos e coisas que maravilham e encantam... e colocou prá tocar HOPE OF DELIVERANCE, do álbum de 1993 com esse mesmo nome.
Acordei na manhã seguinte com a sensação de que ainda tinha muito o que fazer, e que me sentia disposto a tudo. Mas, depois de algum tempo, fiquei um tanto quanto desatento às coisas criadas no mundo da música.
Com a vinda recente do Paul ao Brasil, e com uma visita de final de ano ao meu amigo D., colocamos para ouvir novamente o BAND ON THE RUN, de 1974, e cantamos NO WORDS FOR MY LOVE em altos brados, para desassossego da vizinhança.
Pois ainda agora, passeando pelo youtube, clico em THIS NEVER HAPPENED BEFORE (do disco “Chaos and Creation in the Backyard”, de 2005). Eu não conhecia essa música. Descobri o quanto é bonita, falando de coisas novas, de encontros novos, como que a fazer alertas de que há um sem fim de estímulos para aprendermos a olhar para a frente; que haverá sempre uma nova descoberta.
Sei que o Paul McCarney namorou, morou junto, casou-se ficou viúvo e divorciou-se. Teve três mulheres mais próximas. A primeira, Jane Asher, uma atriz e jornalista inglesa, com quem viveu por cinco anos. Depois, em 1969, casou-se com Linda Eastman, fotógrafa norte-americana falecida em 1998. Em seguida casou-se novamente em 2002 com a modelo Heather Mills, de quem divorciou-se em 2008. Nas minhas cogitações, quando o McCartney fez THIS NEVER HAPPENED BEFORE ele estava vendo nascer algo novo em função de desgaste no casamento com a Heather.   
Nessa música (THIS NEVER HAPPENED BEFORE), uma canção de amor, Paul McCartney fala de algo que nunca havia lhe acontecido anteriormente, que estar sozinho não é bom, e que os que se amam não deveriam seguir sozinhos. Vejo isso como um renascimento, como se a vida o estivesse convidando a viver, independente de fatos passados. Hoje, aos 69, o Paul McCartney nos mostra que ainda não está concluído, que ainda está podendo descobrir, maravilhar-se com pessoas interessantes, fazer novas amizades, encontrar novos amores... e que está compondo e fazendo shows maravilhosos.
Da minha parte, revejo o que sei e o que tenho aprendido. Concluo também que as coisas não estão prontas, que não estão encerradas; que eu, da mesma forma, não estou pronto, não estou concluído. Que há ainda muito por fazer; que cada dia, cada estímulo, cada descoberta é uma oportunidade para repensar, reavaliar, aprender e reacender anseios.
RP, 28FEV2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

UMA BENGALA PARA O "SEU" HERMÍNIO



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Baden Powell - "Na baixa do sapateiro", de Ary Barroso)

 a um taxista mineiro
que mudou-se para a Bahia

     Revendo agora uma foto antiga do senhor Hermínio, avô materno dos meus primos paternos, veio-me à lembrança a história de uma bengala comprada no Mercado Modelo - e a lição que essa história deixou.

     Foi em 1977 quando nós três, meus dois primos e eu, estivemos em Salvador. De ônibus, atravessamos todo o Estado de Minas Gerais e o sudeste da Bahia, até chegarmos ao nosso destino.

     Da rodoviária de Salvador seguimos para Itapuã, para nos hospedamos na casa dos tios dos meus primos.

     Depois de alguns dias de praia e sol resolvemos fazer compras e conhecer o centro histórico da cidade. Tomamos o ônibus urbano até a parte alta da cidade, descemos pelo Elevador Lacerda, e logo chegamos no Mercado Modelo.

(Foto: Mercado Modelo, depois da reforma de 1984 - arquivo pessoal)

     Andamos pelo Mercado numa tarde de compras cheia de cores, cheiros e sons, parando para ver as baianas fritando acarajé, passando os olhos por trabalhos artesanais, carrancas, redes, pinturas; ouvindo sons de grupos de capoeira e berimbau. No final da tarde, ao nos prepararmos para a volta, um dos meus primos viu várias bengalas expostas e lembrou-se da dificuldade do seu Hermínio (seu avô materno) caminhar. Examinou criteriosamente todas elas até conseguir escolher uma, chiquérrima, feita de jacarandá. Ficaram radiantes com a compra - e eu, totalmente contagiado em pensar na alegria do avô recebendo o presente dos netos.



(Foto: Arquivo pessoal - 2006)

     Saímos do Mercado às seis da tarde, justamente no horário de trânsito intenso, e tomamos um táxi até a parte alta da cidade. O motorista do táxi, jovem ainda, logo puxou conversa conosco. Falou da cidade e de como havia sido seu dia. Contou-nos que, tendo nascido e tendo sido criado em uma cidadezinha do triângulo mineiro, morava ali fazia pouco tempo. E o assunto se desenrolou e fluiu solto e amistoso até descermos em um ponto do ônibus urbano.

     Ficamos ali por algum tempo, bem ao lado de um poste de iluminação, aguardando o ônibus que nos levaria de volta a Itapuã.

     Ao revermos nossas compras meus primos deram conta de que haviam esquecido a bengala no banco de trás do táxi.

     Quanta tristeza naquela hora! Justo a bengala, aquela preciosidade, aquele “luxo”, aquela “obra de arte” do Mercado Modelo de Salvador. O presente que iria alegrar e surpreender o avô teria outro destino: iria para mãos desconhecidas.

     Maldissemos o motorista do táxi e fomos unânimes em concordar que aquela “prosa” toda que ele tinha era para distrair nossa atenção e fazer com que esquecêssemos alguma coisa para que ele pudesse levar alguma vantagem sobre nós.

     Depois, ficamos tristes e calados aguardando a chegada do ônibus. No meio de todo aquele movimento de carros, ônibus e pedestres, só conseguíamos ouvir nosso silêncio. A imagem da alegria do “seu” Hermínio recebendo a bengala estava desfeita.

     Alguns minutos de aborrecimento se passaram.

     Para nossa surpresa, no meio daquela confusão no trânsito, um automóvel surgiu buzinando ansiosamente, e seu motorista, com o braço para fora da janela, acenava em nossa direção. Era o mineirinho-baiano, acelerando em nossa direção, contente da vida por ter nos reencontrado ali, exatamente onde havia nos deixado.

     - "Puxa", disse-nos ele sem sair do carro. “Pensei que não fosse mais encontrar vocês. Vocês esqueceram uma bengala no carro. Toma, tá aqui, ó..." - e devolveu-nos a bengala.

     Da mesma forma que havia chegado ele foi embora, buzinando e acenando intensamente com o braço para fora da janela do carro, até sumir naquela confusão das ruas de Salvador.

     Aquele motorista nunca mais teve conhecimento da nossa existência. Mesmo assim, sem que ele saiba, nunca foi esquecido. Ainda hoje quando meus primos e eu contamos nossas histórias, lembramos dele como referência de bondade e de esperança de que as pessoas possam ter mais consideração umas com as outras sem precisar que algo seja dado em troca..

RP, 23FEV2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

LAMENTOS DE UM VIOLONCELO*


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
"Departures" ("A Partida"), dir.: Yojiro Takita
filme japonês, oscar 2009 melhor filme estrangeiro
https://www.youtube.com/watch?v=qtVf-KkpX1w


     O violoncelo é um instrumento grande e desajeitado. Parece um marmanjo, um ser alto e em sobrepeso, obeso até, impróprio para o nosso tempo que impõe objetos minúsculos, práticos, fisicamente adequados... e descartáveis. Observe-o em uma orquestra: por sua dimensão e timidez, o violoncelo fica no seu canto, ouve, precisa de amparo, espera seu tempo, aguarda sua vez.

     O Artur da Távola já havia observado que "o violoncelo é o mais humano dos instrumentos"; e que "é um instrumento masculino". Ele acrescentava ainda que "esse instrumento-homem é um ser maduro e contido". Eu também o vejo assim: tão maduro e tão contido que não precisa mostrar-se, pois fala baixo, pausadamente. É um instrumento que requer tempo para ser descoberto... Ele é próprio para quem já vislumbrou a inutilidade da pressa e da necessidade de atrair para si focos de luzes. O Violoncelo pede pouco público, pede poucas luzes e ambientes introspectivos, de muita cumplicidade com aquela que o descobre. Sim, “aquela” que o descobre, pois o violoncelo, sendo homem, realiza-se quando nos braços de uma mulher... ele, com ela, melhor dialoga, melhor sussurra seu som guardado...

 Pintura a óleo bela jovem sentado com seu violoncelo arte não quadro da lona(China (Mainland))
  (fonte: http://www.aliexpress.com/promotion/home-office-tools_art-cello-promotion.html)

     Sua voz é a voz do homem amadurecido que observou mas não disse... que esperou ser chamado a dizer:
“As pessoas sérias e sensíveis, como ele [o violoncelo] também têm que ser levadas, carregadas, ridículas que são de realismos. Até começarem a soar. Aí elas são tudo. Soam sua lição de vida.” (Artur da Távola)
     A voz do violoncelo transmite emoção, maturidade e sabedoria. Mas não é só isso. Ele às vezes também chora... chora choro de homem que não chora, mas que é "tocado pelo arco da vida".
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*Inspirado em "O Violoncelo" - do livro de crônicas "Mevitevendo", do político e poeta fluminense Artur da Távola (Ed. Salamandra, 1977)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

"J'ACCUSE...!" (ou "O MEU CASO DREYFUS")



(Imagem: Primeira página do jornal L'Aurore com a carta escrita por Emile Zola)


     No final do século XIX aconteceu um grave erro judiciário na França. Esse caso ficou conhecido como O CASO DREYFUS.

     Uma empregada da embaixada alemã, na França, encontrou uma carta em um cesto de lixo e a entregou ao serviço secreto francês. Na carta havia indícios de que existia um oficial francês que fazia espionagem para os alemães. Alfred Dreyfus foi apontado como sendo o oficial francês, que era judeu, que poderia ter escrito a carta. Havia um forte anti-semitismo na França. Porisso ele foi considerado o principal suspeito. Submetido a um processo fraudulento, a portas fechadas, a carta foi usada como instrumento de acusação. Alfred Dreyfus foi julgado e condenado a prisão perpétua na ILHA DO DIABO, Guiana Francesa.

     Quando os oficiais de alta patente franceses se aperceberam de que havia fortes evidências da inocência de Dreyfus, tentaram ocultar o erro judicial. Tentaram acobertar essa fraude numa onda de nacionalismo que invadiu a França no final do século XIX. Realizou-se então um segundo julgamento o qual, mantendo a condenação, provocou a indignação de ÉMILE ZOLA, célebre escritor francês. Este, por sua vez, expôs o escândalo ao público por artigo publicado no jornal L'AURORE, numa famosa CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA intitulada “J’ACCUSE!” (Eu Acuso!). Nessa carta ZOLA fazia uma reprimenda à França, na pessoa de seu Presidente. Em um dos trechos, ele dizia:

     “Como poderias querer a verdade e a justiça, quando enxovalham a tal ponto todas as tuas virtudes lendárias?"

     Uma revisão do processo mostrou que um outro oficial do exército francês (Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy) fora o verdadeiro autor das cartas e que agia como espião dos alemães.

     Em decorrência disso, Dreyfus foi restabelecido parcialmente no exército francês. Ele nunca pediu nenhuma recompensa ao estado francês pela grande injustiça militar.

     Emile Zola, o consagrado escritor francês, foi presumivelmente assassinado por desconhecidos quatro anos após ter publicado “J’ACCUSE!”.

     O Caso Dreyfus é mostrado no filme “A vida de Emile Zola” (1937), dirigido por William Dieterle, e que ganhou o Oscar em 1938.

     Feitas estas considerações, sinto-me também no direito de acusar.

     Porisso, J’ACCUSE...

J’ACCUSE meus amigos Eduardo, Adnan e Abrahão, por terem me convencido de que uma garrafa de vinho tinto seco é bem melhor do que uma caixa de cerveja; dizem eles que no vinho há flavonóides, que faz bem para o coração...

J’ACCUSE minha esposa Denise, por insistir para que eu acorde às seis horas da madrugada e caminhe por uma hora, vários dias na semana, em um parque da cidade; segundo ela, um homem saudável é melhor que um desleixado...

J’ACCUSE meu tio Náufal por ter me inspirado o gosto pela música e pela literatura; afinal, sem música e literatura não há o que conversar...

J’ACCUSE meus amigos Daniel, Zé Américo e João, por insistirem em cantar comigo as músicas dos Beatles, mesmo que o dia esteja amanhecendo. Um homem é insignificante se não tem amigos...

J’ACCUSE meu amigo Renato, por gostar de ler e ouvir minhas histórias; alguém precisa nos ouvir e pensar no que dizemos, mesmo que seja alguma besteira...

J’ACCUSE meu professor Geraldo, por ter me ensinado onde fica cada nota no braço do violão; tocar violão sem respeito às cordas é uma indelicadeza, uma agressão...

J’ACCUSE meu amigo Abrahão por ter me receitado um remedinho bom prá caramba; ah... todo mundo precisa se cuidar, e eu não menos...

J’ACCUSE meu violão Di Giorgio, 1974, por me manter acordado até altas horas da madrugada; pois é ele quem abraço quando todos já foram dormir...

J’ACCUSE minha tia Anna por ter passado à minha esposa a receita do Trigo com Frango que minha avó fazia; no fim das contas, a reconciliação de Deus com o o diabo, ou de qualquer pessoa com seu inimigo se dará, não em torno de um prato de frango com quiabo conforme disse o Rubem Alves, mas sim em torno de um generoso prato de trigo com frango...

... e acuso muitos outros seres e objetos a quem quero bem. Afinal, cada um deles tem um pouco de culpa por eu ser como sou.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

CUBA E ESTADOS UNIDOS - "POR UN TIEMPO MEJOR"


("Por quién merece amor" - Silvio Rodriguez, ao vivo, em 1982, em Porto Rico

(ANTES DE LER O TEXTO OUÇA A MÚSICA ACOMPANHANDO A LETRA)


Por Quien Merece Amor 
(Silvio Rodriguez)
 
Te molesta mi amor,
mi amor de juventud,
y mi amor es un arte en virtud.

Te molesta mi amor,
mi amor sin antifaz,
y mi amor es un arte de paz.

Mi amor es mi prenda encantada,
es mi extensa morada,
es mi espacio sin fin.

Mi amor no precisa fronteras,
como la primavera
no prefiere jardín.

Mi amor no es amor de mercado,
porque un amor sangrado
no es amor de lucrar.

Mi amor es todo cuanto tengo.
Si lo niego o lo vendo,
¿para qué respirar?

Te molesta mi amor,
mi amor de humanidad,
y mi amor es un arte en su edad.

Te molesta mi amor,
mi amor de surtidor,
y mi amor es un arte mayor.

Mi amor no es amor de uno solo,
sino alma de todo
lo que urge sanar.

Mi amor es un amor de abajo
que el devenir me trajo
para hacerlo empinar.

Mi amor, el más enamorado,
es del más olvidado
en su antiguo dolor.

Mi amor abre pecho a la muerte
y despeña su suerte
por un tiempo mejor.

Mi amor, este amor aguerrido,
es un sol encendido
por quien merece amor.


"(...) por un tiempo mejor"

     Silvio Rodriguez é um músico e cantor cubano, engajado politicamente: e muito! Escreve letras utópicas, assim como utópicos são os sonhos de um mundo totalmente solidário, que ele propõe. Escreve, canta e faz letras fortes em conteúdo político e humano. 

     Conheci-o depois de ouvir a gravação de “Por quem merece amor”, feita pelo MPB-4, a qual foi composta por ele (Sílvio Rodriguez). Essa música é conhecida como HINO DA SOLIDARIEDADE, pois sua letra, propondo a solidariedade, deixa de lado qualquer traço de individualismo no amor - muito embora, assim entendo, o amor seja estritamente pessoal na forma de sentir, podendo ser coletivo na forma de ser externado.

     Vale a pena nos atentarmos para alguns dos seus versos. Eles falam de solidariedade e de entrega, à causa da humanidade.

1 - A letra começa utilizando o idealismo de todo jovem, mostrando a força e a pureza do amor juvenil, amor desinteressado, amor arte, amor virtuoso:

Te perturba esse amor amor?
Amor de juventude
Meu amor é uma arte
Em virtude

2 - Ele diz que o amor é sentimento que não envolve jogo, que não traz qualquer interesse escuso, e que precisa ser declarado, escancarado, pois só assim pode ser um instrumento de paz:

Te perturba o meu amor?
Amor sem máscaras
Meu amor, é uma arte
De paz

3 - O Sílvio Rodriguez quer mostrar também que, apesar de ser proposto um amor pelo coletivo, o amor, nele, é personalíssimo, e ele o considera “uma jóia rara”, o que de mais precioso tem, sem limites de ocupação interior:

Meu amor, é a minha “joia” encantada
É minha extensa morada,
É meu espaço sem fim.

4 - Ele ainda faz uma crítica à visão capitalista de dar valor as coisas; ele mostra que o amor verdadeiramente sentido, solidário, não é venal, não tem preço, pois é puro sentimento:

Meu amor, não é amor de mercado
Porque um amor sangrado
Não é amor de lucrar.

5 - Há ainda uma ligação do amor com a honra; ele diz que mesmo sendo o pouco que uma pessoa pode oferecer, ele (o amor) não pode ser manipulado, não pode ser comprado. Que, caso uma negociação qualquer macule o sentimento (de amor), de nada vale a vida pois que se perdeu a honra pela venda do mais precioso dos sentimentos... Que, nesse caso, melhor morrer...

Meu amor, é tudo quanto tenho
Se eu o nego ou o vendo,
Para que respirar?

6 - O amor desprendido, que propõe o autor, dedicado a qualquer ser humano, independente de raça, cor, sexo ou religião... e aparece aqui:

Meu amor, não precisa fronteiras,
Como a primavera,
Não escolhe jardim.

7 - O amor e a solidariedade incondicionais, pela humanidade toda, acima do amor egoísta, individual, interesseiro, são mostrados nesse verso

Meu amor, não é amor a somente um
Senão o sentimento a todos
os que precisam de ajuda

8 - A força do amor, do amor transformador, que transformando a cada um de nós, quando sentido, consegue tranformar tudo o que nos cerca, aqui também está:

Meu amor é um amor que vem de baixo
Que o destino me veste
Para fazê-lo  engrandecer-se (impor-se).

9 - Na letra, Sílvio Rodriguez aponta que o amor solidário é um amor destemido, que por um ideal encara todas as ameaças - inclusive a morte:

Meu amor, abre o peito à morte
E entrega sua sorte
Por um tempo melhor.

10 - E conclui a letra dizendo que o amor (que sente), é um amor aguerrido, determinado, forte, que tem o calor e a força de um sol aceso, dedicado a quem verdadeiramente merece esse amor:

Meu amor, este amor aguerrido,
É um sol aceso,
Por quem merece amor.


     Não é uma letra bela e forte, repleta de ideais utópicos?

     A primeira vez que a ouvi fiquei encantado... Que beleza de letra, que nobreza de ideal! Eu a ouvi inúmeras vezes seguidas, atentando-me a cada palavra, a cada frase. Sua letra, ao mesmo tempo em que nos desarranja, nos transforma e nos reconstrói.

     Mas para quem o Silvio Rodriguez pergunta se esse jeito de amar incomoda ("te molesta mi amor?")? Dizem os biógrafos que a música foi feita quando ele esteve pela primeira vez nos Estados Unidos, em 1979, e que a música traz uma crítica ao individualismo que lá ele observou existir.

     Em junho/2010 Silvio Rodriguez esteve nos Estados Unidos pela segunda vez, e apresentou-se na cidade de Oakland. Encerrada sua apresentação, retornou ao palco várias vezes. Em uma delas dedicou uma música a uma bandeira que viu na plateia: em uma metade estava a figura do Che Guevara, na outra metade a bandeira de Cuba... No meu pensamento uma outra bandeira deveria ter sido aberta para ser homenageada ali. Ela deveria trazer, em uma metade, a bandeira de Cuba, e, na outra, a dos Estados Unidos: essa bandeira imaginária estaria representando a possibilidade de "un tiempo mejor", com a reaproximação dos países, e respeito às diferenças que naturalmente existem entre todas as nações.


eua_cuba
http://noticias.cancaonova.com/eua-e-cuba-iniciam-conversa-historica-sobre-restaurar-lacos/

P.S.: Ontem, 20 de julho/15, EUA e Cuba reabriram suas respectivas embaixadas. A dos EUA em Havana, e a de Cuba em Washington - onde Silvio Rodriguez estava presente.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

NEW YORK, DEZEMBRO DE 2009


        (Itzhak Perlman, Orq. Filarm. Israel - Vivaldi, "Quatro Estações", mov. III)

Há poucos anos me deparei, já tarde da noite, com um senhor comentando peças de música clássica na TV. Era o Arthur da Távola, um poeta e político carioca falecido recentemente, que dizia que seu maior sonho era ser maestro. Ele comentava um movimento de um concerto de BRAHMS, muito cheio de energia, e que parecia nos convidar a celebrar a vida, a levantar e sair correndo prá não sei onde... talvez em busca de coisas inatingíveis. No solo, um exímio violinista de quem eu nunca tinha ouvido falar. A cada nota mais expressiva, a cada variação de mensagem musical, a face do violinista traduzia os instintos de vida que a música lhe inspirava. Fiquei maravilhado com aquela interpretação. Despertei-me por inteiro. Ao término da apresentação o violinista abaixou-se em sua cadeira para pegar duas bengalas para poder levantar-se. Só então vi que ele era paralítico. Essa observação adicionou emoção à apresentação que eu havia visto. Fiquei pensando que limitações físicas não impedem as pessoas de procurarem desenvolver talentos... E que a beleza e a mensagem de cada um não é aquela que se evidencia aos olhos, mas sim aquela que nos fala ao coração.
        Arthur da Távola volta à cena então, com sorriso nos olhos e emoção na fala, e nos apresenta o grande violinista: ITZHAK PERLMAN. Passei a conhecê-lo e a admirá-lo desde então, vendo-o acompanhado pela Orquestra Filarmônica de Berlim. A partir daí ele passou a habitar minhas impressões musicais e tornou-se um conhecido próximo, muito embora ele não saiba disso.
        Há poucos minutos, ainda juntando destroços meus após uma visita que havia feito, abro minha caixa postal e leio uma notícia encaminhada por um amigo: ITZHAK PERLMAN E ORQUESTRA FILARMÔNICA DE NOVA YORK EM UM CONCERTO PARA ELIMINAR A PÓLIO.
        Ele, o Itzhak Perlman, que contraiu a paralisia infantil aos quatro anos de idade e superou sérios desafios para tornar-se um dos músicos mais consagrados do mundo tornara-se parceiro de uma organização internacional sem fins lucrativos, com o intuito de arrecadar fundos para cumprir compromissos assumidos por essa Organização com a Fundação Bill Gates e Melinda Gates.
        Dizia a notícia que no próximo dia dois de dezembro, às 19:30 horas, em Nova Iorque, no Lincoln Center for Performing Arts, haverá uma apresentação beneficente para apoiar os esforços globais de erradicação da poliomielite. Assim, tomei conhecimento de que a possibilidade dessa apresentação resultou da junção de esforços dessa Organização Internacional com o ITZHAK PERLMAN e a Orquestra Filarmônica de Nova York, que irão se apresentar juntos. Vi que os ingressos para o concerto variam de 70 a 200 dólares, e a notícia termina convidando-nos a participarmos.
E então? Estamos todos convidados! Mas... Não dá prá ir? Muito caro? Muito longe? Outro compromisso já agendado para a mesma data? Não faz mal, fazemos nossa parte daqui mesmo. Convido a todos para colocarmos no aparelho de som o movimento numero três do concerto para violino e orquestra op. 77 de Brahms, com solo de Itzhak Perlman, fecharmos os olhos e nos deixarmos levar sem a necessidade de sairmos do lugar... e a agradecermos pessoas e Organizações assim que ainda se sensibilizam e tomam iniciativas para combater os grandes males da humanidade. 
No vídeo acima postado, podemos ver um pouquinho do talento do Itzhak Perlman.
       
RP, setembro de 2009


UM NOVO HÓSPEDE

Chega em casa agora à noite meu novo hóspede. Veio à pedido, trazendo-me uma possibilidade de expansão de conhecimento de todo o seu universo de pensamento. Vou deixá-lo estar ao meu lado na hora de dormir, no café da manhã, e nas horas vagas. Conheci-o há duas semanas por intermédio de um jornal, no qual ele falava à respeito de duas diferentes maneiras de se fazer pedidos, e de se recusar em atendê-los: a maneira norteamericana e a brasileira.

Ele chegou aqui, à pedido, pelo correio: presente da minha mulher. É norteamericano de origem, mas brasileiro por adoção. Chama-se Michael Kepp, e agora entra em minha casa pela porta do pensamento, com suas ideias contidas em seu livro de crônicas “Sonhando com Sotaque – confissões e desabafos de um gringo brasileiro” (Ed. Record, 2003).
Interessante pensarmos que dialogamos com um escritor, que suas ideias trazem coisas novas no pensamento da gente, e que ele (o autor) não recebe um feedback das coisas que suscita no leitor, e que foram por ele observadas e transmitidas por intermédio do que escreveu.
Pois o Michael Kepp, em “Sonhando com Sotaque”, na forma de livro de crônicas, meu mais novo hóspede – sem que ele saiba -, passou agora a habitar minha casa com suas ideias, com endereço na minha biblioteca. Por alguns dias vai comigo dialogar, e certamente vou ter a possibilidade de expandir meu universo de interesses à partir das observações que ele fez.
Portanto, benvindo ao meu pensamento, Michael Kepp.      


domingo, 13 de fevereiro de 2011

FLORES NAS JANELAS

(Foto, por mim: Uma janela em uma rua qualquer da cidade)

Já fui síndico em um condomínio de três andares. Foi uma experiência memorável, em especial por me fazer enfrentar as situações mais inesperadas que se possa imaginar. Encarei tudo como um belo aprendizado, e fui feliz na experiência. Fiz muitos amigos e aprendi a amar o prédio onde morava.
Em uma das situações a subsíndica me alertou para que eu tomasse alguma providência em relação aos poucos condôminos relapsos, aqueles que não cuidavam das jardineiras das janelas dos seus quartos que davam para a rua; que, descuidadas, as jardineiras comprometiam o visual do condomínio como um todo.
Foi sugerido pelo Conselho Consultivo do prédio a aplicação de uma multa; por outro condômino, que replantássemos nas jardineiras descuidadas, e que o zelador aguasse as plantas pelo lado de fora...
Pensei muito no assunto e decidi, antes de qualquer outra providência, colocar debaixo da porta de cada um dos apartamentos o seguinte comunicado:

MENSAGEM
Você já percebeu toda tristeza,
Abandono e descaso,
Que transmite um jardim mal cuidado?

Há em nosso prédio vários jardins.
Através deles, como um todo,
A impressão que transmitimos é muito positiva,
Alegre e cheia de vida.

Mas, da rua, levante os olhos.
Olhe bem para o jardim de seu apartamento:
Qual a impressão que você, por intermédio dele,
Está transmitindo?

Em pouco tempo nosso prédio, no final de uma rua tranquila, já estava se destacando pelos belos jardins existentes nas janelas de cada apartamento. Não foi preciso fazer mais nada.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

DUAS PEQUENAS HISTÓRIAS

Acabo de abrir uma pasta onde guardei escritos antigos. Dentre muitos deles, releio uma anotação que fiz em setembro de 1996 contando um diálogo com minha filha, e uma situação de sofrimento de meu filho. Transcrevo-os abaixo.
QUEM INVENTOU O SOL?
Quinta-feira passada, num calor infernal, logo depois do almoço, fui levar minha filha de seis anos para a escola. Dentro do carro tivemos o seguinte diálogo:
        Ela: “Pai, quem foi que fez o calor?”
        Eu: “Foi o sol, minha filha”.
        Ela: “Pai, quem foi que fez o sol?”
        Eu, depois de refletir um pouco sobre a resposta que lhe daria, respondi a ela:
        - Foi Deus.  
        Na sequência, a pergunta:
        - E quem fez Deus?
        Eu, já um tanto perdido, respondi a ela confusamente que aquela era uma pergunta muito difícil de ser respondida...
        Meio pensativa, um tanto conformada com a minha limitação, e ainda querendo consolar-me, ela complementou:
        - Acho que só a vovó sabe quem fez Deus, né pai? ... porque ela reza muito.

SOFRIMENTO...
Na sexta-feira passada, mesmo havendo uma festa programada na “escolinha” do meu filho de quatro anos de idade, ele, depois do almoço, disse que não queria ir à festa; que preferia ficar em casa. Parecia que estava com medo de alguma coisa, que estava meio preocupado. Concordamos, eu e minha esposa, em deixá-lo em casa, mas ficamos preocupados em tentar descobrir os motivos de tal pedido. Feitas as devidas averiguações, fomos informados de que uma colega dele havia lhe dito que a mãe dela iria amarrá-lo e levá-lo preso. Descobrimos também, em seguida, que ela - a mãe – é policial, e que todos os dias vai à “escolinha”, devidamente fardada, levar a filha. Portanto, o medo de meu filho era de ser amarrado e preso: quatro anos de idade... quanta fantasia... quanto sofrimento!!!