sábado, 20 de agosto de 2011

FRIDA KAHLO: MINHAS IMPRESSÕES A RESPEITO DA CIDADE DO MÉXICO - IV


("Paloma Negra" - Chavela Vargas)

 “Coyoacán” significa “lugar dos coiotes”. É um bairro artístico e boêmio. Foi nesse lugar que Hernán Cortez, colonizador espanhol, destruidor do império asteca e sanguinário “prá caramba”, fundou a primeira prefeitura do México.

Nesse bairro, na Calle Londres, 247, Frida Kahlo nasceu, viveu com o muralista Diego Rivera, e morreu. Sua casa, hoje, é o Museu Frida Kahlo, também conhecido como “Casa Azul”.



        Frida Kahlo, uma das artistas mais importantes do século XX, despontou na arte e na vida, apesar de ter sido acometida de paralisia infantil, e dos graves problemas de coluna decorrentes de um acidente de trânsito. Todos esses sofrimentos, inclusive os de forte paixão, estão traduzidos em sua obra e na intensidade das cores dos seus trabalhos. 

   

De San Pedro de lon Pinos, com duas conexões nas estações Tacubaya e Centro Médico, descemos na estação Coyoacán ao lado de um Centro comercial. Dali caminhamos por umas oito quadras, passando pelo parque Viveros de Coyoacán, chegando ao nosso destino: Museu Frida Kahlo. A casa na esquina é de um azul bem escuro, diferente, que chama a atenção de quem por ali passa.

Compramos o boleto de ingresso (65 pesos), pagamos mais sessenta para podermos tirar fotos, e entramos. A casa é enorme. Logo na entrada subimos uma pequena escada que dá acesso às salas, onde estão expostas algumas de suas obras, além de inúmeros objetos relacionados ao seu marido, Diego Rivera. Ali, além das pinturas de Frida, estão expostos diários, cartas, cerâmicas e outros objetos. Estão ali também a cadeira de rodas de Frida e um dos coletes ortopédicos que ela usava.

        Há em exposição menos obras do que imaginávamos que tivesse. Creio que grande parte de seu trabalho encontra-se em outros museus espalhados pelo mundo. Contudo, chamou-me a atenção a vivacidade das cores dentro daquela casa/museu. Cozinha de piso amarelo ouro; cadeiras e mesa igualmente amarelas; nas paredes, há uma centena de pequenos objetos dependurados. Uma festa! Em tom de brincadeira, e tomado pelo meu espírito de brasileiro convicto, “à moda Villa-Lobos”, disse a minha companheira que a Frida certamente havia estado na Bahia, de onde brotou toda inspiração para o desenvolvimento de seu trabalho... 



 

        Depois de ter levado uma pequena bronca amistosa, e de ter esboçado espontaneamente um sorriso infantil em decorrência da brincadeira, eu e a companheira descemos as escadas internas que dão acesso a um quintal. Enorme e belíssimo. Há uma fonte ao pé dos degraus, com muitas plantas, além de um templo asteca construído em homenagem a esse povo, ainda no tempo de Frida e Diego. 



        Sentamo-nos ali no quintal por um momento, olhando tudo aquilo, conscientes de que estávamos em um lugar onde a vida pulsou forte... e ainda pulsa com toda energia que ali chega e se renova, trazida por turistas de todo o mundo... nós inclusive. Quanto a mim, especificamente, a sensação foi de que recebi muito mais energia, encanto e estímulo do que levei... 



        Dali voltamos para o Hotel, não sem antes comprarmos em uma barraquinha do bairro uma cesta com a pintura do rosto da Frida.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

EL RINCÓN DEL MARIACHI: MINHAS IMPRESSÕES A RESPEITO DA CIDADE DO MÉXICO - III


Plaza Garibaldi... Em uma das esquinas estava a casa de shows: EL RINCON DEL MARIACHI. Dali de dentro vinha o som impecável de um grupo Mariachi que acompanhava um jovem cantor vestido de branco (Gabriel Castro). Olhamos tudo, detalhadamente, e não resistmos: impossível sair dali, deixar de lado aquele universo maravilhoso... Sentamo-nos à uma mesa em frente ao palco com os ouvidos atentos e os olhos vidrados em tudo que nos estava sendo apresentado naquele ambiente: pouca luz, enfeites coloridos por todos os lados, salão pequeno, “clima” de “boteco undergroud”... música e artistas de altíssima qualidade. Um verdadeiro mundo encantado para quem simplesmente tinha guardado na mente apenas imagens projetadas pelo cinema e pelo imaginário. Era exatamente como eu queria que fosse – com exceção das “Peleas de Gallos” que ali havia, segundo mostrava o folheto promocional.

Embalados pela Cerveza Indio, de fabricação mexicana, tequila e tacos, assistimos a apresentação de dois cantores, uma cantora, e um casal de bailarinos. No intervalo de uma música para outra os artistas perguntavam para cada casal da platéia de onde vinham e o que gostariam que cantassem. Ao descobrirem-nos brasileiros, gingavam o corpo e cantarolavam “Aquarela do Brasil”, do Ary Barroso. Claro que eu os ajudava na letra... O terceiro cantor, Juan Manuel, vestido de roupa de couro preta justíssima e também de sombrero preto - apelidado “El Bohemio de Mexico” -, ofereceu-me o microfone para “ilustrar” sua interpretação de uma das músicas que apresentava. Eu, com a timidez deixada para trás lá nos meus trinta anos, fazia o que podia para não decepcionar a ele ou a todos que ali estavam... e, “por supuesto”, não desapontar a mim mesmo. No final, disse que queria que lhe pedíssemos uma música. Eu, embalado pelo entusiasmo constante de minha companheira, sugeri de imediato “La Calandria”. Ele admitindo não se lembrar da letra, cantarolou trechos com a ajuda dos mariachis que o acompanhavam. Em seguida apresentou-a brilhantemente - com meu auxílio, modéstia à parte - nos trechos onde as palavras da letra lhe faltavam. No final foram muitos os aplausos (a ele, obviamente). 

(foto de cima - com Juan Manuel - "El Bohemio de Mexico"; foto do meio - Hafze-Ba no palco - "La Voz Angelical"; foto de baixo - com Hafze-Ba)

Trouxemos daquela praça e daquela apresentação vários abraços e muitas fotos dos cantores com esse brasileiro que, com muito prazer, escolheu de cada artista um CD com dedicatória e autógrafo marcando nossa estada ali naquela noite... que ficará eternamente na minha lembrança.

Ciudad de Mexico, 02ago2011    

PLAZA GARIBALDI: MINHAS IMPRESSÕES A RESPEITO DA CIDADE DO MÉXICO - II

Num final de tarde tomamos o metrô na estação Chilpancingo. Depois de duas conexões chegamos ao nosso destino: Estación Garibaldi! Saímos do metrô exatamente dentro de uma feira enorme de artesanato. Caminhamos por entre as barraquinhas dos artesãos e depois pelas ruas, já no final do horário comercial, a procura da Plaza Garibaldi. Eu havia lido em algum guia que a visita era imperdível para aqueles que são movidos a música, e que gostam de “enfronhar-se” pelas coisas tradicionais do povo: ver gente, barracas, sentir cheiro de rua, ouvir sons, enxergar luzes coloridas, cantar, tomar tequila...

No final de uma das ruas de segurança suspeita, com as lojas já fechadas e os trabalhadores se dirigindo para o metrô em direção oposta à que seguíamos, deparamo-nos com uma região fechada para o tráfego de veículos, repleta de cores e bandeiras do México, bares e restaurantes animados, cheios de vida... e de gente.  



Ainda não havia escurecido, apesar de já serem mais de oito horas da noite. À medida que seguíamos nessa enorme calçada, sem trânsito de veículos, o movimento de pessoas aumentava. Percebi que estava caminhando por entre estátuas de ídolos da música mexicana, sentindo como se estivesse caminhando por sobre um tapete vermelho, e recebendo as boas vindas de Pedro Infante, Jorge Negrete, Javier Solis e muitos outros... 





Chegamos, então, à praça. “Plaza Garibaldi”. Do meu lado direito, em um restaurante com uma grande quantidade de mesas e cadeiras na calçada, um grupo mariachi cantava alegremente para uma família. Parei para olhar...



À minha frente estava a “Plaza Garibaldi”, repleta de gente alegre, mariachis e vendedores de lenços femininos coloridos e roupas com motivos mexicanos. Presenteei minha companheira com um lenço bordô maravilhoso, comprado de um ambulante simpaticíssimo que em agradecimento pediu-me para que eu vestisse um poncho com as cores do México e tirasse uma foto ao seu lado.



Os Mariachis ali na praça estavam vestidos com roupas justas, em geral com sombreros, e ainda carregavam por todo lado seu instrumento musical. Fiquei parado, olhando, até que um dos membros de um dos grupos Mariachis veio com muita cordialidade e simpatia oferecer-me, ao custo de cién pesos, uma música, com toda pompa e requinte do estilo mexicano. Perguntei como era a dinâmica da praça, com a ideia de que em algum momento aquele incontável número de mariachis iria se organizar para uma apresentação mais formal. Que nada, a dinâmica era aquela mesmo: diversos grupos de mariachis, cada um tocando sua música para um cliente, numa “bagunça” maravilhosa de sons, vozes, e danças. Conversei com todos que se aproximavam, e não pedi que cantassem especialmente para mim posto que não queria deixar passar meu tempo detido diante de um grupo somente: queria aproximar-me de todos, ouvir todos... e cantar com todos! 



Ali mesmo na praça estava o Museu da Tequila e do Mezcal. Não pude visitá-lo porque estava fechado em virtude do horário. Mas entramos em um Mercado (Mercado San Camilito) ali na praça, construído em arcadas que lembram aquelas do Palácio do Governo Mexicano no Zócalo (ponto central da Cidade do México). Ali dentro a desordem estava organizada em cores, luzes, mesas e pequenos restaurantes, um ao lado do outro, cada um deles com garçons que se aproximavam para oferecer bebidas e pratos típicos mexicanos. Muito gentis todos eles, gostavam de ser fotografados, posavam para fotos, sorriam, e transmitiam uma vitalidade contagiante.



 
Ao sairmos desse mercado, voltando para a área da praça, a luz do dia já havia terminado e o movimento de pessoas e mariachis havia – em muito – aumentado. Encantado com tudo aquilo, e fotografando todas as formas de expressão daquele povo, percebi ao meu lado um senhor convidando-nos, a mim e a minha companheira, para conhecermos. Nós o seguimos com passos incertos por estarmos nos afastando daquela bagunça alegre que em muito nos agradava, mas resolvemos segui-lo na expectativa de podermos conhecer algo que não sabiamos o que era, nem quanto custava. Mas fomos...

Chegamos na porta da casa de shows: “El Rincón Del Mariachi”. Bom, mas o que vimos ali... conto depois.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

MINHAS IMPRESSÕES A RESPEITO DA CIDADE DO MÉXICO - I

 
A Cidade do Mexico vista de cima, à noite, reluz ouro e prata. As luzes amarelas e brancas da cidade, dispostas em blocos bem definidos, sugerem a existência de etnias distintas. Contudo, caminhando pelas calçadas e praças, envolvido na multidão que circula pelas ruas e pelas estações de metrô, observo seres humanos cordiais, simpáticos e prontos para conversar, dar atenção e prestar informações. Todos! São pessoas simples, com cabelos negros e estatura homogênea, com cor de pele resultante da miscigenação do europeu com o indígena, com predominância dos genes deste. São baixos em estatura. Raramente vejo algum homem calvo, dificilmente percebo pessoas de cabelos brancos ou obesas. Percebo que sou alvo de olhares pelo tipo físico, cabelos brancos e calvície acentuada. Sinto vontade de conversar com cada um destes seres que passam por mim; vontade de perguntar-lhes de suas vidas, de seus hábitos, de seus afazeres... Inicio um diálogo sempre que me sinto confortável para isso, e me alegro quando, perguntando se percebem pelo meu sotaque de onde sou, recebo em resposta um sorriso e uma expressão de alegria: “Ah, amigos de Brasil!”  

(Plaza Garibaldi - "Ah, amigos de Brasil !!" - arquivo pessoal)


De pé ou sentado, espremido nos bancos dos trens do metrô, observo a multidão chacoalhando conforme o carro se movimenta. Em geral entre uma estação e outra um jovem liga um aparelho de som adaptado a uma mochila que carrega em suas costas e, em alto volume, passa uma por uma das músicas que tem gravado em CDs que traz para vender. “Solamente diez pesos”, gritam o tempo todo... "Baratíssimo!", penso eu. Esforço-me para me conter e não comprar todos: mambo, bolero, pasodoble, mariachis... tem de tudo, e de ótima qualidade... Quando, mesmo espremido, consigo tirar do bolso a carteira de moedas, encho a mão de dinheiro e compro de tudo com a alegria de menino deslumbrado que adquire um mundo inteiro de informações de um povo que vive em uma região do mundo culturalmente riquíssima, na certeza de que recebo muito mais do que estou dando em troca. 

(Estação de metrô da Ciudad de Mexico: Zocalo - arquivo pessoal - 03ago2011) 


Ciudad de Mexico, 04agosto2011

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

SEIS DE AGOSTO


Em retribuição aos cumprimentos dos amigos pelo dia seis de agosto, e a quem possa interessar, nos meus cinquenta e poucos anos:


Sapato Velho

Composição: Mu - Claudio Nucci - Paulinho Tapajós

Você lembra, lembra!
Daquele tempo
Eu tinha estrelas nos olhos
Um jeito de herói
Era mais forte e veloz
Que qualquer mocinho
De cowboy...
Você lembra, lembra!
Eu costumava andar
Bem mais de mil léguas
Prá poder buscar
Flores-de-maio azuis
E os seus cabelos enfeitar...
Água da fonte
Cansei de beber
Prá não envelhecer
Como quisesse
Roubar da manhã
Um lindo pôr-de-sol
Hoje não colho mais
As flores-de-maio
Nem sou mais veloz
Como os heróis...
É! Talvez eu seja
Simplesmente
Como um sapato velho
Mas ainda sirvo
Se você quiser
Basta você me calçar
Que eu aqueço o frio
Dos seus pés...
Água da fonte
Cansei de beber
Prá não envelhecer
Como quisesse
Roubar da manhã
Um lindo pôr-de-sol
Hoje não colho mais
As flores-de-maio
Nem sou mais veloz
Como os heróis...
É! Talvez eu seja
Simplesmente
Como um sapato velho
Mas ainda sirvo
Se você quiser
Basta você me calçar
Que eu aqueço o frio
Dos seus pés...
Talvez eu seja
Simplesmente
Como um sapato velho
Mas ainda sirvo
Se você quiser
Basta você me calçar
Que eu aqueço o frio
Dos seus pés...
("Um par de sapatos" - Vincent Van Gogh, 1886)

(foto: "aquele tempo" - 1978 - arquivo pessoal)

sábado, 30 de julho de 2011

PASSAGEM PARA O MÉXICO

(El Gato Montez - Orquestra Taurina - "Las Ventas")


Sentado no sofá da "mansinha", antiga sede de fazenda, ouvia meu tio narrar o que se passava em uma “Plaza de toros” em uma tarde na Cidade do México. Havia todo um ritual para isso: o uísque, a escolha do disco, a posição central entre as duas caixas de som. E assim dizia ele: 

“Prontos señores ? ... entonces, a La Plaza de toros!”. 

E colocava para ouvirmos a “Banda Taurina”, com o som tão alto que ia além das janelas, cruzava a varanda e seguia ao longe, pela estrada de terra... E ficávamos ali ouvindo-o descrever uma tourada, as cortesias iniciais, o desfile dos cavalos, a entrada do toureiro, do touro, a pega propriamente dita, cena a cena, embalado pelas 12 músicas gravadas no disco. 

O encanto da descrição acontecia desde o início. Mas pela maravilha do seu aparelho estéreo PHILIPS, a entrada do touro na arena, quando ele enfurecido “passava” de uma caixa acústica à outra, de uma ponta à outra da sala, era um momento especial... especialíssimo. Acompanhávamos isso como se estivéssemos sentados, em uma tarde ensolarada da cidade do México, nas arquibancadas de uma “Plaza de toros”...

Depois visitei a cidade de Tijuana em 1974, a primeira cidade na península da Baja California depois da fronteira com os Estados Unidos; a alegria nas ruas, o movimento nas calçadas, nas lojinhas, o tratamento especial que eu recebia ao tomarem conhecimento de que eu era brasileiro. Os mexicanos escalavam com encanto a seleção brasileira de futebol; queriam saber do Jairzinho, do Rivelino, além do Pelé, é claro, jogadores que haviam conquistado a simpatia de Guadalajara, e passado para a eternidade esportiva pelo desempenho na Copa do Mundo de Futebol de 1970, no México. 


(Mariachi Vargas - "El Jarabe Tapatio")


Anos depois, já casado, retomei esse encanto pela alegria e garra do México quando, em uma loja de discos, encontrei “FIESTA EN MEXICO”: uma coletânea de músicas tradicionais mexicanas com MARIACHI MIGUEL DIAS. Como fazia meu tio, eu também, sem me dar conta disso, seguia o ritual para ouvir o disco, contando da dor sentida pelo pardalzinho que libertou uma calandra (na letra da música “La Calandria”, abaixo transcrita), e descrevendo a quem quisesse ouvir as ruas e o povo mexicanos que eu tinha visto na cidade de Tijuana. 


(Mariachi Nuevo Jalisco - "La Calandria")


Recentemente, com essas imagens na cabeça, resgatei da tela do cinema e dos livros de História duas figuras notáveis: primeiro o BENITO JUAREZ, sério, sereno, de princípios nobres, seguidor dos ideais de Abraham Lincoln, que resistiu e derrubou o governo que a França queria impor ali na pessoa do imperador Maximiliano: com a firmeza de seus propósitos, ele conseguiu que fosse mantido o governo constitucional republicano. Depois, o EMILIANO ZAPATA, líder camponês que dedicou sua vida à reforma agrária e acabou morto em uma cilada. Aprendi a gostar de ambos.

Pois agora, meus amigos, retomo e reorganizo meus fantasmas com o mesmo encantamento das cenas passadas, somadas à beleza dos MARIACHIS, ao espírito dos libertadores Hidalgo e Morelos, e ainda à delícia recente das músicas do MANAH... Com os bilhetes de viagem nas mãos “y alegria en el corazón”, eu lhes digo: “Viva! México!" 


(Plaza de la Constitución com abandeira e a Catedral Metropolitana da Ciudad de Mexico - 
fonte www.bestday.com.mx)


LA CALANDRIA
(Mara Jose Quintanilla)


En una jaula de oro,
Pendiente del balcon,
Se hallaba una calandria,
Cantando su dolor.

Hasta que un gorrioncillo,
A su jaula llego,
"Si usted puede sacarme,
con usted yo me voy."

Y el pobre gorrioncillo,
De ella se enamoro,
Y el pobre como pudo
Los alambres rompi.

Y la ingrata calandria,
Despus que la saco,
Tan luego se vio libre,
Volo, volo y volo.

El pobre gorrioncillo,
Todavia la siguio,
Pa' ver si le cumplia
Lo que le prometio.

La malvada calandria,
Esto le contesto:
"a uste ni lo conozco
ni presa he sido yo."

Y triste el gorrioncillo,
Luego se regreso,
Se paro en un manzano,
Lloro, lloro y lloro

Y ahora en esa jaula,
Pendiente del balcon,
Se encuentra el gorrioncillo,
Cantando su pasión.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

MINHA NAMORADA*

 ("Minha Namorada", do Vinícius e Carlos Lyra - com Maria Creusa, Vinícius e Toquinho)

Tenho observado com freqüência, à tarde, da minha janela, um casalzinho que vem namorar na sombra do ipê plantado em frente ao meu escritório. Ela é uma menina de uns catorze anos, de blue jeans, camiseta apertada no corpo, com os cabelos lisos e soltos que emolduram o seu constante sorriso adolescente; ele, um rapazinho de sorriso tímido, tênis muito encardido, dezesseis anos no máximo, com jeito de quem encontrou o verdadeiro sentido da felicidade. Ficam ali olhando um para o outro, as faces a se tocarem, trocam palavras, carinhos, enlaçam as mãos, sorriem um para o outro numa manifestação simples que traduz o mais puro sentido do amor...
Tento não ser visto por trás da minha janela, pois que as vezes seus olhas olham rapidamente no entorno, para retomarem em seguida o encontro de seus olhares...
Que será desses dois jovens? Será que prosseguirão assim felizes por estarem juntos, ou será que em um outro dia, quando eu olhar pela minha janela, um outro rapaz menos sorridente estará ali, olhando para uma outra menina de cabelos presos ao invés dessa de cabelos soltos?
E se prosseguirem assim, felizes um com o outro, será que viverão juntos? será que terão filhos? E ao se reencontrarem, já no outono de suas vidas, será que se abraçarão com a mesma ternura? Ou será que desviarão o olhar para pensar, cada um consigo mesmo, que ele ou ela não eram exatamente aquela pessoa que desejavam ter ao seu lado por toda a vida?...
Dentre tanta gente nesse mundo, meu Deus, é um verdadeiro milagre o encontro de pessoas que verdadeiramente se gostam, contribuem para o crescimento constante um do outro, e prosseguem se gostando até o fim de tudo...
RP, 21JULHO2011
(*inspirada em “O amor por entre o verde”, do Vinícius de Moraes, em “Para Viver um Grande Amor”.)


sábado, 16 de julho de 2011

SIMPLESMENTE


 (CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Simplesmente" - Paulinho Nogueira e Toquinho - de Paulinho Nogueira)


     Recentemente li em um jornal, não me lembro quem escreveu:

“Dizem que o tempo passa. 
Não passa. 
O tempo é margem: Ele fica! 
Nós é que passamos...”

Pensando nisso, e considerando que posso

Tocar na mão da minha companheira
Conversar com a minha irmã
Telefonar para os meus sobrinhos
Beijar os meus filhos
Abraçar meus amigos
Ouvir minha mãe
Contar uma história
Olhar para a rua
Caminhar
Andar com os pés descalços
Tocar violão
Fazer planos
Almoçar com quem gosto
Sentir o sabor de uma manga
Fotografar um ipê amarelo
Sentir o vento assoprando 
Ir à praia
Nadar
Pensar
Aprender...


... só tenho motivos para me alegrar e agradecer, viver e ser feliz... simplesmente.

(Rubem Braga - fonte: bienalrubembraga.com.br)

       Mas 
acontece que sou um sujeito pensativo, meio melancólico, de uma cumplicidade íntima com o silêncio. Tendo eu essa natureza, compreendo bem o Rubem Braga quando ele fala de si mesmo em “Terraço” (inédita, em “Cadernos de Literatura Brasileira”):

“Sou um homem quieto. O que eu gosto é de ficar num banco sentado, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas coisas, umas coisas que nem valia à pena lembrar.”


(RP, 16JUL2011)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

AO QUE VAI PARTIR



(Avião decolando. Fonte: http://www.avioesemusicas.com/2010-decolando.html)


     Nas difíceis horas de despedidas há sempre muita dificuldade para se dizer coisas simples, em especial quando há a noção de que o “até mais” significa “dificilmente uma outra vez...”.

   Mas, há muitos anos, depois de algum tempo em uma terra distante, o momento de voltar havia chegado. 

     No dia da partida um grupo de amigos adolescentes foi visitar aquele que ia partir. Todos o abraçaram, apertaram suas mãos, e foram-se. Ninguém disse nada. Todos sabiam que uma fase se encerrara. Minutos depois, alguém daquele grupo deu um telefonema àquele que ia partir, pediu a ele que na hora seguinte sintonizasse a estação de rádio local, que uma música falaria pelo grupo aquilo que o grupo não havia conseguido dizer...

     Aquele que ia partir fechou as malas. O táxi o aguardava em frente ao portão. Antes, porém, na hora indicada, ligou o rádio. Ouviu atento a música que a ele havia sido dedicada pelos seus amigos.


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("You've got a friend" - James Taylor/Carole King)

     "You've got a friend", James Taylor...

     Não conteve a emoção, engasgou, chorou diante do rádio, olhou pela última vez a casa onde vivera naqueles últimos meses, e partiu. Nunca mais voltou, nunca mais foi o mesmo. 


("Antes de partir" - Aeroporto de Los Angeles, 1974 - foto: arq. pessoal)


     No avião, antes da decolagem, o passageiro ao lado daquele jovem que estava partindo perguntou-lhe: “and now, where are you going boy?*” Muitos anos passados, aquele jovem que havia partido refez para si aquela pergunta: “and now, where has that young boy gone?**”... e percebeu que não sabia a resposta...

________________________________________________
* tradução: "e aí, para onde você vai, garoto?"
** tradução: "e aí, para onde aquele garoto foi?" 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

SENTIMENTO DO MUNDO

("Lonely green plant growing on a stone wall" - fonte: fotolia.com)

Ao meu vizinho e primeiro professor de português,
Joaquim Aparecido Martins


     Não tenho o direito de reter e aprisionar em egoísmo ignóbil, nem tampouco de fechar no meio de um livro qualquer aquilo que sensibiliza, mexe, humaniza e constrói. Quero compartilhar a mensagem transcrita abaixo, recebida de um amigo, como há anos, muitos anos não recebia, com a gratidão de quem recebe um tesouro. A sua caligrafia permanece desenhada no quadro negro da minha memória e na folha de papel de caderno grafada em tinta azul que ora releio. Sei que os pardais que ouvi anunciar a chegada de muitos novos dias foram os mesmos que ele ouviu, que o barulho de trem que rompeu o silêncio das minhas madrugadas também rompeu o silêncio das dele... Sei também que o coração atento de quem semeou só coisas boas, imantou de sentimento do mundo várias gerações de seguidores seus.

     Eis a mensagem:

Não digas que teu tesouro está esgotado
De falta de assuntos, emudeceu a lira; 
Poderá não haver poetas, mas sempre
Haverá poesia!

Enquanto as ondas de luz durante o beijo
Palpitem incendiadas,
Enquanto o sol, das desgarradas nuvens
De fogo e ouro, se vista;

Enquanto o ar em seu regaço leve
Perfumes e harmonias.
Enquanto haja no mundo primavera,
Haverá poesia!

Enquanto a ciência a descobrir não alcance
As fontes da vida,
E no mar ou no céu haja um abismo
Que ao cálculo resista;

Enquanto a humanidade sempre avançando
Não saiba por onde caminha;
Enquanto haja um mistério para o homem,
Haverá poesia!

Enquanto sintamos que a alma se alegra,
Sem que os olhos riam;
Enquanto se chora sem que o pranto acuda
Ao nublar a pupila;

Enquanto o coração e a cabeça
Prossigam batalhando.
Enquanto haja esperanças e lembranças,
Haverá poesia!

Enquanto haja olhos que reflitam
Os olhos que nos miram;
Enquanto responda o lábio suspirando
O lábio que o suspira;

Enquanto sentir possam em um beijo
Duas almas gêmeas;
Enquanto exista uma mulher formosa,
Haverá poesia! 

(Gustavo Adolfo Bécquer, poeta espanhol – *1836 /+ 1870)