sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

DOIS VIOLÕES EM NOITE DE TEMPORAL


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Diego Figueiredo - "Carinhoso")


Há uns dez anos atrás, por aí, em um jornal local, vi o anúncio de um show do Sebastião Tapajós marcado para aquela noite na cidade de Franca. Violonista e compositor brasileiro dos bons, ele, há muito tempo, consagrado na Europa. Eu, violonista frustrado, não podia deixar de assisti-lo. No impulso de encontrar companhia, telefonei para uma meia dúzia de amigos. Cada qual, naquela noite que prometia um temporal, meio de semana, já tinha seus planos feitos. Além do mais, seria pelo menos uma hora de viagem até chegarmos a Franca... mais outra hora para voltarmos... sabe-se lá a que horas estaríamos de volta em casa...

Encorajado pela Denise afrontei o céu carregado e lá fui eu: debaixo de uma chuva fininha, e na companhia do Baden Powell, Raphael Rabello e Paulinho Nogueira que “arrebentavam” no aparelho de CD do meu carro.

Cheguei em frente ao teatro na hora exata marcada para início do show. Nove horas. Havia por ali poucas pessoas. Para minha surpresa as portas ainda estavam fechadas. Pensei na estrada, na chuva, no horário de volta, no temporal que estava prestes a cair, no sofá lá de casa... e quase desisti.

        - O que é que eu estou fazendo aqui ?, pensava comigo mesmo.

Sem ninguém com quem conversar, e percebendo a chuva engrossar, resisti ali na porta.

        - O que é que eu estou fazendo aqui ?, insistia na pergunta...

Em seguida as portas foram abertas. Entrei, tomei assento lá pela sétima fileira, e ali fiquei, observando, esperando. O teatro quase vazio, as pessoas entrando, tomando seus lugares...

        - O que é que eu estou fazendo aqui ?...

Poucos minutos depois uma das pessoas que estava na platéia, umas duas fileiras à minha frente, levantou-se, olhou para os lados, para trás, e foi em direção ao palco. Em movimento de bom atleta, literalmente “saltou” para cima do palco, olhou para todos e disse com tranquilidade:

        - “Boa noite, sejam bem vindos. Já fomos avisados que o Sebastião Tapajós está para chegar aqui no teatro. Hoje a tarde ele visitou algumas escolas da cidade e fez algumas curtas apresentações. Ele é muito querido nosso, e sentimos que ele também já se sente um pouco francano.”

Dito isso, esse anônimo apresentador acrescentou:

        - “Enquanto esperamos pelo Tapajós, vamos receber um violonista francano, conhecido nosso, que fará a abertura do show: com vocês, Diego Figueiredo!”

        Palmas.

        - “O que é que eu vim fazer aqui ?!?!”, a pergunta não parava, “quem é esse violonista?”

Anunciada a abertura do show, o anônimo apresentador saltou do palco para a platéia e retomou seu lugar.

Aguardamos, aguardamos... os minutos.... e nada. O violonista não aparecia...

        - “O que é que eu estou fazendo aqui ??” ...

Depois de algum tempo o anônimo apresentador levantou-se novamente e, com a mesma destreza de antes, “saltou” mais uma vez para cima do palco e foi dizendo para a plateia:

        - “Isso não estava previsto... vou ver o que aconteceu.”, e entrou no camarim.

Ali sozinho, nesse momento, minha vontade de ir embora ia aumentando.

De repente volta o anônimo apresentador, anuncia novamente o violonista francano, volta para seu lugar e espera. Esperamos.

        Palmas.

Entra no palco um rapazinho com um violão na mão, e desculpa-se:

        - “Eu estava no camarim... não ouvi meu nome ser chamado...” 

Dito isso sentou-se, colocou o fio do amplificador no violão e debruçou-se sobre ele. As luzes do teatro se apagaram. No palco, apenas um foco de claridade no violonista.

Ouvidos os primeiros acordes, fui percebendo que a resposta para a minha pergunta começava a ser dada. Que show !! Que repertório!! Desde o começo, com “Brigas nunca mais”, do Tom e Vinícius, em estilo bem bossa-nova jazzístico, fui me sentindo culpado por duvidar de que aquela seria uma noite maravilhosa. Fui me afundando na poltrona do teatro, ouvindo uma música, outra, envolvido naqueles acordes, naquele instrumento bem tocado... Senti que a simples abertura do “violonista francano” já tinha valido a viagem, a chuva, a estrada, a noite.

(Diego Figueiredo - fonte: http://www.campinas.com.br/cultura/2015/04/instrumentista-diego-figueiredo-faz-show-unico-na-regiao)

No final da abertura aplaudi calorosamente, com vontade de que ele ficasse ali tocando por muitas horas...

Em seguida, anunciado pelo próprio “violonista francano”, vem ao palco o Tapajós. Ele entrou, sentou-se, e disse que queria começar aquele espetáculo homenageando um grande violonista brasileiro. E sem maiores salamaleques, abriu com um pout-pourri do Baden, seguido por suas próprias composições. Em silêncio, pedi desculpas a mim mesmo por duvidar da beleza daquela noite. Era um privilégio estar ali... Fiquei deslumbrado.

No final do show, depois de muito aplaudi-lo de pé, na portaria do teatro, comprei dois de seus CDs - do Tapajós. Atravessei a rua debaixo de chuva, entrei molhado no carro, coloquei um dos CDs para tocar e voltei para Ribeirão. Na estrada a chuva caia forte, mas o show continuava no CD do meu carro. Pelo para-brisa eu olhava para fora na escuridão da estrada e no aguaceiro da noite, mas só enxergava ceu limpo e estrelado, com a certeza de que aquela havia sido uma das minhas noites musicais mais lindas.

Cheguei em casa de madrugada. Todos estavam dormindo. Fui ao canto da sala, peguei meu violão, e, sentado no sofá, humildemente dedilhei alguns acordes... 

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Sebastião Tapajós - "Se ela perguntar")

sábado, 21 de janeiro de 2012

LONDRES: NO TREM COM VINÍCIUS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ) 
 

(Vinicius e Toquinho - "Nature boy", Eden Ahbez)

De dentro do trem olhei para Londres com um aperto no coração. Imaginava a cidade sob o risco de bombardeio.  Estranhamente, ao descer na plataforma, eu carregava a fantasia de que ouviria pelos alto-falantes vozes graves e austeras orientando os que chegavam a respeito das condutas a serem seguidas para que ficassem protegidos.

De mala nas mãos, pés nas escadas do trem, olhos nas estruturas do prédio e no movimento das pessoas apressadas, via-me, na porta daquele trem, prisioneiro ou fugitivo de um exército invasor. Chegavam-me sensações que não eram minhas, e que me transformavam em personagem de filmes assistidos e histórias lidas que retratavam uma outra época. 

Sem me dar conta disso eu havia me colocado dentro de uma crônica escrita pelo Vinícius de Morais(1), e de cuja leitura, pelas imagens que suscita, gosto muito. Nela o Vinícius conta que foi para a Inglaterra no ano de 1938 na condição de primeiro brasileiro a receber bolsa de estudos para Oxford, proporcionada pelo Conselho Britânico. Antes de seguir para Oxford, contudo, ficou alguns dias em Londres. Ali, em uma época em que havia na Europa um clima de guerra, sentia-se muito isolado. Ele relata que, naqueles dias, aos vinte e quatro anos de idade e fechado em seu quarto, só tinha olhos medrosos para observar os pés da humanidade que passavam apressados pela janela do quarto de porão onde morava. Conta, ao final, que descobriu a segurança e a proteção do império britânico quando, numa tarde, ao tentar atravessar uma rua de Londres, sentiu uma pressão imperiosa e amiga da mão de um policial sobre seu ombro, para fixá-lo ao solo por alguns instantes, e para impedi-lo de atravessar no momento errado. Ele conclui dizendo que o policial, logo depois, retirou a mão de seu ombro, retribuiu seu sorriso de gratidão, e deixou-o livre para partir com segurança.

     Com essas imagens soltas na cabeça, perguntava a mim mesmo quantas viagens uma pessoa pode fazer sem nem mesmo ter que deixar o lugar onde se encontra. Londres, Paris, Xangai, Beirute, Manaus ou Pioneiros... todos estes lugares, pensava, podem estar muito além ou exatamente dentro de cada um; pensava em momentos diferentes, em épocas diferentes que podemos experimentar quando deixamos o pensamento fluir: o momento do piloto quando despejou sobre Hiroshima a primeira bomba atômica, o momento de Cabral quando avistou o Brasil pela primeira vez... Quantas transformações podem nos ocorrer em um infinitésimo de segundo! Tornamo-nos mais humanos? menos amargos? mais dóceis e solidários?, menos hostis?... Os estímulos de vida nos remetem a muitos lugares, épocas e situações - reais ou fictícios. As descobertas, porém, decorrem da reflexão amadurecida, da nossa sensibilidade diante da realidade, e do nosso desejo de nos transformarmos em seres humanos melhores...

Foi aí que meu guia e anfitrião, Kelvin, assim como o policial na crônica do Vinícius, trouxe-me de volta à realidade segura, cordial e planejada pelos ingleses. Estávamos em King’s Cross Station, era 26 de setembro de 2011, e o relógio marcava 05:44 horas da tarde.

("King's Cross Station" - Londres - fonte: iadarroch.com)

- “Welcome to London!”, disse-me ele com um sorriso no rosto e um tapinha de boas vindas no meu ombro.

- “Thank you, my friend!”, respondi com entusiasmo e admiração.

Olhei com meus próprios olhos para aquelas pessoas à minha frente e para a grandiosidade da estrutura metálica da estação: eu estava chegando em uma cidade repleta de símbolos, histórias e significados a serem desvendados.

De volta à realidade, sem, contudo, naquele momento, poder compartilhar com meus entes queridos as descobertas que estavam apenas começando a acontecer, eu estava feliz. Muito feliz.

(Eu, em um trem - setembro, 2011- arq. pessoal)

(1)          “Porque amo a Inglaterra” - publicada em “Vinícius de Moraes – poesia completa e prosa” – Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1985

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

D. PEDRO I E O CAUBOI VALENTÃO


D.Pedro I em detalhe de "Independência ou Morte", 1888, de Pedro Américo


     Recentemente reli a biografia do D. Pedro I escrita pela historiadora Isabel Lustosa(1). Dessa leitura fui construindo, sem querer, uma relação livre e despretensiosa do seu perfil psicológico com os reflexos dele produzidos no perfil geral do brasileiro.

     D. Pedro I foi um menino solto; foi um jovem independente e boêmio que se dedicava mais às atividades físicas que aos estudos. Preferia a vida sem as formalidades da corte. Tornou-se um imperador impulsivo e contraditório.

     Quando penso nele, a imagem que me vem é a de alguém que “não levava desaforo para casa”. Fico imaginando o imperador menino, solto no paço, inquieto, fugindo do palácio para brincar com os meninos do porto. Pelo que consta na literatura, D. Pedro I não "dava bola" para diferenças raciais nem tampouco para uma suposta inferioridade do negro – tanto que era contrário à escravidão. A esse respeito, inclusive, declarou: “Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros”(2).

     Imagino-o já adulto, às margens do Ipiranga, recebendo da Dna. Leopoldina uma mensagem na qual pede providências pelo Brasil: “o pomo está maduro; colha-o já, senão apodrece” – dizia a mensagem.

     Ao mesmo tempo, e não sei por quê, relaciono D. Pedro I com o Kid Morengueira - personagem de letra de música criado sob inspiração nos caubóis norte-americanos. Apesar de fictício, parece que tem o mesmo perfil heroico, destemido e “doidão” do brasileiro existente em D. Pedro I.


(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR ANTES DE LER)
(Moreira da Silva - "O rei do gatilho", 1962)


O REI DO GATILHO
(Michael Gustav) 

'' O rei do gatilho, super bang-bang de Michael Gustav, com Kid Morangueira, o mais famoso pistoleiro de Wichitta.
Temido pelos bandidos, pois só atirava em nome da lei.
O rei do Gatilho.'' 

Começa o filme com o garoto me entregando 
um telegrama do Arizona, onde um bandido de lascar 
um bandoleiro transviado que era o bamba lá da zona 
e não deixava nem defunto descansar. 
Dizia urgente que eu seguisse em seu socorro. 
a diligencia do oeste neste dia ia levar 
vinte mil dólares do rancho Águia de Prata 
onde a mocinha costumava me encontrar 

''Venha urgente, pois estou morta de medo. Só tu poderás salvar-nos. 
Beijos da tua Mary.'' 

Botei na cinta dois revólveres que atiram 
sem que eu precise nem ao menos me coçar 
assobiei para um cavalo que passava do outro lado 
e com o bandido mascarado fui lutar. 
Meti o peito, nem dei bola prô xerife 
passei direto do saloon, fui me encostando no balcão 
com o chapéu em cima dos olhos nem dei conta 
de que o bandido me esparava a traição 

"-Cuidado Moreira-'' 

Era um índio meu amigo que sabia 
das intenções do bandoleiro contra mim 
e advertia seu amigo do perigo que corria 
devo-lhe a vida, mas isso não fica assim. 
A essa altura o cabaret em polvorosa 
já tinha um cheiro de cadáver se espalhando 
houve um suspense de matar o Hitchicock 
e em close-up prô bandido fui chegando. 
Parou o show e as bailarinas desmaiaram 
fugiram todos só ficando ele e eu 
ele atirou, eu atirei e nós trocamos tantos tiros 
que até hoje ninguém sabe quem morreu. 
Eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu.
Só sei dizer que a mulher dele hoje é viúva 
que eu nunca fui de dar refresco ao inimigo 
como no filme bang-bang, bang-bang vale tudo 
o casamento da viúva foi comigo.

Tem um final, mas o final é meio impróprio e eu não digo. 
Volte na próxima semana se quiser ser meu amigo 
Eu de cowboy fico gaiato, mas não fujo do perigo



     O Kid Morengueira, em “O Rei do Gatilho”(3), ao receber um telegrama de uma frágil mocinha que lhe pedia socorro, “pegou” um cavalo que passava e foi ligeiro proteger uma diligência que transportaria uma grande soma em dinheiro. E, claro, foi também salvar a “mocinha”.

     Ao receberem uma notícia de consequências danosas, ambos deixaram fluir a impetuosidade do brasileiro, e, numa explosão de heroísmo, D. Pedro I e Kid Morengueira tomaram providências imediatas. D. Pedro I sacou a espada e bradou pela Independência do Brasil; Kid Morengueira “botou no cinto dois revólveres”, matou um bandido em duelo, salvou o dinheiro, e ainda se casou com a viúva.

     D. Pedro I era popular e querido aqui no Brasil. Tanto que, quando foi pressionado para voltar para Portugal, mandou avisar que daqui não sairia(4). 


D.Pedro I em desfile de 7 de setembro com minhas amigas Marisas -postagem Eliane de Andrade no facebook


     O Kid Morengueira, mesmo com seu jeitão do caubói John Wayne(5) no personagem traçado no samba-de-breque, era também querido e admirado, tanto pela frágil mocinha quanto pelo seu amigo e parceiro – um índio.


Rio Bravo, John Wayne, 1959 Photo
John Wayne - fonte: http://www.allposters.com/-sp/Rio-Bravo-John-Wayne-1959-Posters_i9339038_.htm


     Tanto o D. Pedro I quanto o Kid Morengueira, um real outro fictício, com algumas similaridades e dessemelhanças, nas minhas fantasias traduzem bem o jeitão cordial do brasileiro – além de ilustrarem os valores e respeito que devem imperar nas relações entre todas as raças aqui no Brasil: D. Pedro I não acreditava na inferioridade do negro; Kid Morengueira era amigo de índio. São, por isso, perfis que representam a identidade do povo brasileiro.

____________________________ 
(1) LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I: um herói sem nenhum caráter. São Paulo: Companhia das Letras, 2006
(2) LUSTOSA, Isabel, obra citada, p. 129
(3) "O Rei do Gatilho" -  samba-de-breque de Michael Gustav, interpretado por Moreira da Silva
(4) Em 09/jan/1922 (dia do Fico) D. Pedro I disse: “se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico!” 
(5) John Wayne nome artístico de Marion Robert Morrison, ator norteamericano (1907 – 1979)

domingo, 8 de janeiro de 2012

PONTE NOVA E AS LAVADEIRAS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Sinceridade" - João Bosco - do disco "Bosco", 1989)



“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o oprimem”.
(Bertold Brecht)


Viajar para Minas é deixar o olhar se perder no horizonte - muito embora, às vezes, o horizonte não passe de um morro à nossa frente. A gente vai passando por cidadezinhas, lugarejos e povoados na beira da estrada, subindo e descendo estrada e, inevitavelmente, sente o Monteiro Lobato cutucar a mente da gente com o título de um de seus livros: “Cidades Mortas”.

É certo que cada cidade tem seu ritmo próprio, sua pulsação própria, seus personagens próprios – tal como todas as outras cidades pequenas em qualquer parte do Brasil. Mas, olhando assim, de dentro de um carro em movimento, as cidades e seus habitantes parecem parados, distantes, como se estivessem reverenciando a nossa passagem. Por esse motivo, ao cruzar com algum andarilho pelas estradas buzino e aceno, na expectativa de que esse aceno promova vida e seja retribuído – e, no mais das vezes, é.

("Viajando p'rá Minas" - arq. pessoal - 2009)

 

Em uma das minhas viagens, perdido em pensamentos assim, a rodovia me conduziu para dentro de uma cidade cujo desenvolvimento deu-se às margens de um rio. Uma ponte sobre ele liga as duas partes da cidade, e uma balaustrada com palmeiras na calçada acompanha o seu curso. Ponte Nova! Cidade de Ponte Nova.

(Ponte Nova, MG - fonte: pontenova.mg.gov.br)

Fiquei tentando me localizar na cidade, mas achei isso muito estranho. Nunca havia estado ali. E porque fazia essa tentativa? Algo naquele lugar me parecia familiar: a ponte, o rio e o curso das águas me levavam de volta a uma entrevista em um programa de televisão visto havia muitos anos. Não me lembro quando, nem tampouco qual era o programa. Nele, o João Bosco[i] falava de sua vida e de sua cidade natal: Ponte Nova.

Engraçado como as coisas adquirem um outro significado quando a gente encontra nelas algum elo de ligação. Pois o João Bosco, pela sua entrevista, havia se tornado o meu vínculo com Ponte Nova. Nos seus comentários ele falava de algumas de suas composições e, especificamente, apresentava uma versão sua para o bolero “Sinceridad”[ii]. Ele contava que sua letra para a versão foi inspirada na imagem do curso manso das águas do rio Piranga - que cruza Ponte Nova - e na observação de algumas lavadeiras que nos finais de tarde cantarolavam às suas margens.

Como era ainda final de tarde e eu estava às margens do rio Piranga, não resisti: dei meia volta no carro e saí à procura das lavadeiras de beira de rio sobre as quais o João Bosco havia falado... Para mim isso tudo parecia fantasia. Mas não é que logo eu as vi, de verdade, nas margens do rio!?!? O imaginário fundiu-se com o real. Desci do carro e, por alguns instantes, cantando mentalmente o bolero, fiquei olhando o rio e as lavadeiras.

Depois voltei para o carro e segui viagem contente, guardando a cidade, o rio e as lavadeiras nas minhas histórias de vida.

Sempre que passo pela ponte sobre o rio Piranga, na cidade de Ponte Nova, olho para ambos os lados e digo para mim mesmo que em algum lugar nas margens daquele rio algumas senhoras cantarolam enquanto lavam roupas - tal como a lavadeira na lagoa do Abaeté, na Bahia, na canção do Dorival Caymmi (“A lenda do Abaeté” – 1954).

No começo dessa semana, debaixo de chuva, passei por Ponte Nova e vi a cidade inquieta. Os habitantes estavam assustados olhando o rio que havia subido ao nível da calçada e estava na iminência de transbordar - como de fato transbordou. Tudo isso foi mostrado nos jornais de televisão. As imagens vistas não foram nada boas, as águas não eram nada mansas, parte da cidade ficou alagada, não havia nenhuma lavadeira.

Apesar disso, do conforto da poltrona de casa onde me encontro, revejo o rio enquanto ouço o bolero: neles estão, inarredavelmente, as águas mansas e as lavadeiras. Afinal, “as coisas não estão no espaço; as coisas estão é no tempo (...) e o tempo está é dentro de nós[iii].  


[i] João Bosco – compositor, violonista e cantor de MPB
[ii]  “Sinceridad” – do nicaragüense Gastón Perez
[iii]ANJOS, Cyro dos. O AMANUENSE BELMIRO. São Paulo: Abril Cultural, 1983. pg. 86  

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

NÓS TODOS SEGUIMOS JUNTOS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR)
(Paul McCartney and the Frog Chorus - "We all stand together")
https://www.youtube.com/watch?v=PcDVH8DiBnM


     Recebo do João uma mensagem, do Ian um cartão, da minha mãe um telefonema, da minha esposa seu amor, dos meus filhos seus bons olhares, da minha tia um elogio, do Abrahão a solidariedade, da minha irmã um sorriso, do Romeu uma gravação, do Charles um brinde, do Ricardo “feliz Navidad”, do Nanão a amizade, do Rossi a simpatia, do Adilson um CD, do Zé um livro, da Estela um abraço, do Mobi a consideração, do vendedor uma bala, do desconhecido um sorriso... e muito, muito mais... de tanta gente...

     Fico olhando nas ruas, nas lojas, as pessoas escolhendo alguma coisa para presentear a família, os amigos... Gosto disso. Nessa época do ano todos nós levamos no pensamento as pessoas que nos são caras - e queremos agradá-las, vê-las contentes. São todos gestos de consideração, de carinho, de amor e amizade. É o período de maior pureza e bondade espalhadas por todos os lados. Os litígios formais são deixados de lado...   

     Além de saúde, do que mais precisamos nós senão da capacidade de sabermos reconhecer que estamos rodeados de gente querida que nos quer bem?

     Sigamos juntos. Estamos vivendo o mesmo tempo e passando pela vida com a mesma ânsia de sermos felizes. Somos os autores da nossa própria história, e temos o privilégio de podermos contar uns com os outros. Sigamos juntos... no espírito de Natal:

“Vencer ou perder,
Naufragar ou nadar,
Uma coisa é certa: nós nunca desistiremos.
Lado a lado, de mãos dadas,
Nós todos permanecemos juntos!”

     A todos, desejo um Feliz Natal!

(RP, 20dez2011)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

BOSSA-NOVA EM CORBRIDGE

(Sinatra & Jobim, 1964 - "Corcovado", "Change Partners", "I concentrate on you", "The girl from Ipanema") 

Ah!!.... mas que delícia ver e ouvir isso. Ene vezes, milhares de vezes... Sinatra & Jobim, a bossa-nova sendo apresentada nos Estados Unidos. A música garbosa, elegante, o tom intimista, a delicadeza do violão, o Frank Sinatra – adequando-se ao estilo - sussurrando melodias de bossa nova, admirando o Tom...

Quando fui para a Inglaterra pelo Rotary, além de um belíssimo CD da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto interpretando bossa-nova, levei também algumas coletâneas de música brasileira. Era meu desejo presentear com música as pessoas que eu encontrasse e  que demonstrassem bom gosto musical. A primeira gravação do CD de coletâneas era “Garota de Ipanema”, na voz do Frank Sinatra e do Tom Jobim.

Ao conhecer o Ian e a Sue em Corbridge, percebi nos dois sensibilidade para a música: a evidência? um poster da capa do LP “Help” dos Beatles que tinham na parede da sala. Conversamos sobre o Brasil e sobre música além de muitas outras coisas... Expliquei a eles os valores da bossa-nova, o céu, o mar, o barquinho, o sol... expliquei também o ambiente ideal para se ouvir bossa-nova: uma sala pequena, voz, violão... uísque e cigarro (para os que fumam). Ouviram-me com atenção britânica. Presenteei-os com uma cópia de cada CD.

(Estação de Corbridge - arq. pessoal - 05/out/2011)

Em uma das noites em que estive hospedado na casa deles, logo depois de um dia de muitas visitas cumpridas, encontrei os dois sentados em silêncio na sala de música. Tomavam uísque e ouviam em silêncio a gravação de “Garota de Ipanema” que eu havia lhes dado. Estavam encantados com a batida do violão. O Ian, beatlemaníaco dos bons, pediu-me então para também me sentar, ouvir música e tomar uísque com eles. Em seguida, enchendo meu copo, trouxe-me um violão e pediu-me para mostrar-lhe como puxar as cordas na mão direita para conseguir a batida de bossa-nova. Exemplifiquei com os acordes de “Garota de Ipanema”. Ele, sentado no carpete, na minha frente, observava atentamente como se estivesse decifrando a coisa mais maravilhosa do mundo. Ouvimos o CD e tocamos violão até a última gota de uísque.

No dia em que fui embora de Corbridge, dentro do carro, pedi ao Ian e à Sue para que falassem qualquer coisa para que eu pudesse filmá-los e guardar suas mensagens. Para minha surpresa e alegria, o Ian nada falou: cantou “Garota de Ipanema”. Percebi então que havia nascido ali, naquela parte da Inglaterra, um novo apreciador de bossa-nova.   

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

PONTOS DE REFERÊNCIA


(CLIQUE PARA OUVIR)
("Milonga del Angel", Astor Piazzolla)

     Do outro lado da rua, bem na direção do meu escritório, há três palmeiras imperiais bem altas. Quando me distraio olhando através da vidraça, é para elas que meu olhar se direciona. Essas três palmeiras sempre me trazem outras árvores que, em algum dia, em algum momento, já me serviram de referência.

     Eu me recordo que depois dos muros da minha escola primária, dando para cada uma das suas ruas laterais, havia duas árvores enormes. Não sei dizer se eram seringueiras... Sob suas sombras ficávamos aguardando o início de nossas aulas. Já eram antigas e enormes naquele tempo. Mirando as palmeiras e revendo na memória essas árvores da minha escola primária, o pensamento viaja:

Olha estas velhas árvores, mais belas
do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
vivem, livres de fomes e fadigas;
e em seus galhos abrigam-se as cantigas
e os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
agasalhando os pássaros nos ramos,
dando sombra e consolo aos que padecem!¹

("uma velha árvore na rodovia" - arq. pessoal, jun2010)

     Gosto de rever as árvores que me servem de referência. Ao revê-las tenho de volta tudo o que sua lembrança evoca e suscita. Há sempre comunicação e ensinamentos transformadores entre árvores e homens que observam.

     "Outoniza-te com dignidade, meu velho", concluiu uma amendoeira quando inspirava no Drummond o aprendizado de que "o outono é mais uma estação da alma que da natureza"

     Da mesma forma, quando o Rubem Braga percebeu que um pé de milho empendonou-se em retribuição a um gesto seu, observou com alegria³:

     "(...) não sou mais um medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever: sou um rico lavrador (...)."

     E flutuando assim, com o pensamento vagando pelas palmeiras, ressurge-me também a mangueira de tronco forte e galhos frondosos que havia no quintal de minha casa. Cuidávamos bem dela e brincávamos em seus galhos com laços de corda e balanços de madeira. Era com folhas e frutos que retribuía as atenções que a ela dedicávamos. Nas festas de aniversário nós a enfeitávamos de luzes, e sob seus galhos nós nos confraternizávamos com amigos e familiares. Provocada pelo vento, e em madrugadas chuvosas, eu louvava sua existência anunciada pelo barulho de suas folhas. Quando acordávamos nas manhãs que se seguiam, o chão forrado de folhas e frutos caídos evidenciava as batalhas que ela enfrentava para atravessar a noite ao nosso lado.

     As árvores que nos servem de referência têm o poder de congelar nosso tempo interior. De existência mansa e constante, elas acompanham nossa passagem como se  fossem depositárias de nossas histórias e de nosso tempo.

     Aos que me perguntam, situo meu escritório bem em frente às três palmeiras, como se não houvesse mais nada por ali que, estando vinculado a mim, pudesse servir de referência. Porém, explicando a um amigo onde estava situado meu escritório, surpreendi-me ao ouvi-lo concluir que ele se localiza no quarteirão da avenida onde há cinco bananeiras na esquina.

     Essa observação me encantou. Afinal, "árvore nova, histórias novas, vida nova!", pensei.

     Quantas árvores podem encerrar uma identificação relativa à nossa existência? A árvore simboliza a vida em si. Uma nova árvore representa um universo de novas histórias e identificações. Fui procurá-las. Minhas novas árvores. Eram pequenas. Nunca as havia notado. Fiquei contente ao ver que eram novas e que ainda vão crescer e dar frutos. Eu não imaginava que aquelas pequenas bananeiras na calçada de uma avenida de cidade grande poderiam servir de referência a algo relativo a mim.

     Pois agora eu as observo de longe, com atenção e cuidado, percebendo que um cacho de frutos está brotando de uma delas...

("Uma bananeira na esquina" - arq. pessoal, 05dez2011)

____________________________________ 
¹ - Olavo Bilac – “Velhas Árvores”
² - ANDRADE, Carlos Drummond de. Fala Amendoeira. Rio de Janeiro, 10ª Ed., Record/1986
³ - BRAGA, Rubem. 200 Crônicas Escolhidas. Rio de Janeiro, 6ª Ed., Record/1986

RP, 06dez2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

UÍSQUE ESCOCÊS


Quando o David –um dos meus anfitriões na Inglaterra- me disse que iríamos para a Escócia, passando pela fronteira terrestre, logo imaginei uma série de formalidades burocráticas. Passaporte, visto de entrada, investigações, perguntas sobre dinheiro etc etc.

        - “Mas, David” – eu disse a ele -, “não tenho visto para entrar na Escócia!”

Sem explicar nada ele sorriu para mim com jeito de quem estava fazendo alguma “arte”. Na verdade, logo descobri que estava mesmo. Mas era uma arte “doméstica”, digamos. Não poderíamos demorar. Afinal, ele havia saído de casa exclusivamente para ir buscar-me em um escritório, e em seguida voltaria direto para casa. Sua esposa nos aguardava.

        Com um sorriso de jovem octogenário, e ainda sem explicar nada, ele acelerava o carro e seguia em frente. Passamos por um restaurante em uma rotatória na estrada e ele chamou-me a atenção para a placa onde estava o seu nome e a sua publicidade: “The first and the last”.

        - “The first” – esclareceu-me ele -  “porque é o primeiro restaurante para quem vem da Escócia; e “The last” – complementou -,  “porque é o último para quem sai da Inglaterra”.   


Sem saber o que iria ver nessa fronteira, fiquei pensando e visitando meu imaginário. Uma fronteira entre países me remete a um  bloqueio no meio de uma estrada, policiais, cães de guarda, muros altos, funcionários burocratas mal encarados. É interessante como nosso imaginário funciona. Não é por menos! Afinal, as imagens das fronteiras que vemos em fotos nos nossos jornais não são nada boas: fronteira de Israel com o Líbano; fronteira do México com os Estados Unidos; fronteira da Coréia do Norte com a Coréia do Sul...

Em uma questão de minutos, menos de cinco, o David me apontou a bandeira de Escócia.
  
- Pronto, chegamos! – disse-me ele.

- Ué, mas é aqui? É isso? Só isso? – comentei espantado.
(Fronteira: Inglaterra / Escócia - a caminho de Eyemouth - arq. pessoal - 07/out/11)
(Placa na rodovia: Benvindo à Escócia - arq. pessoal - 07/out/11)

Não podia acreditar. Era tudo muito simples. Não tinha nada além de uma placa, uma bandeira bem alta, e uma pequena mureta simbólica na qual estava escrito: “Scotland” de um lado, e “England”, do outro.

Por sugestão do David encostei-me na muretinha, com um pé na Escócia e o outro na Inglaterra: fotografamos. Fotografamos a bandeira, a mureta, a placa, a estrada, tudo... Fiquei feliz e emocionado por estar ali. 

 (Com um pé em cada país: Inglaterra / Escócia - arq. pessoal, 07/10/11)

Fomos breves porque estava começando a chuviscar. Minha vontade era de ficar por muito tempo com um pé em cada país, para fazer durar aquele momento.

Ainda com as costas na muretinha eu me lembrava do meu tio Náufal. Ele, além de ser “um bom papo”, era um bom consumidor de uísque escocês e costumava dizer:

- Uma boa conversa é sempre regada a uísque. Mas tem que ser escocês...

Com essas lembranças vi que o David entrou no carro. Voltei “prá real” e entrei depois dele.

- “Nós voltaremos aqui outras vezes”, disse-me ele.

Seguimos para sua casa com a sensação de termos feito algo bom, algo que se eternizaria. Minutos depois, saindo do carro com o paletó molhado de chuva, sou apresentado à sua esposa, Audray. Ela, após os cumprimentos e observando nossa roupa molhada, sorriu e nos ofereceu:

- “Vocês querem chá ou uísque escocês?”

De imediato e instintivamente respondi: “uísque escocês, of course!”

Fui servido em dose dupla, sem gelo. Em nome de tudo e de todos levantei-me da cadeira, ergui o copo e fiz um brinde:

- A um mundo sem barreiras, aos meus anfitriões, e à amizade entre os povos: Cheers!

E começamos a conversar...

 (Com meus anfitriões, no "The first and the last" - arq. pessoal, 08/10/11)