domingo, 15 de julho de 2012

SORRISOS EM ABBEY ROAD

     

     O Jornal “Folha de São Paulo” de sexta-feira, dia 13, no Caderno “Ilustrada”, trouxe um artigo que atraiu minha atenção. O texto é de Silas Marti, e a manchete é “Obras do Acaso”. A foto que ilustra o texto mostra uma porção de gente bocejando no mesmo lugar, nas mesmas condições de luz e tempo. São, conforme explica Silas, fotos tiradas em momentos diferentes, que mostram coincidências banais em situações também banais. Mostram, enfim, na rua, um pouquinho do comportamento humano.

     O texto fez-me lembrar de um fotógrafo nova-iorquino com quem não troquei mais do que meia dúzia de palavras.

     Em visita a Londres no ano passado, fui conhecer a Abbey Road: famosa rua que ilustra a capa de um dos discos dos Beatles, e que os mostra na faixa de segurança de pedestres atravessando de uma calçada para a outra.

Galeria - capa abbey road - abre
(capa do álbum "Abbey Road", 1969 - fonte:http://rollingstone.uol.com.br/galeria/45-anos-depois-entenda-os-misterios-por-tras-da-capa-de-iabbey-roadi/#imagem0  )

(clique na seta para ouvir)

("Golden Slumbers", Paul McCartney)

     Lá chegando, após um curto trajeto de metrô e uma pequena caminhada, o que vi foi uma rua simples, como tantas outras daquela cidade. Simples porém movimentada na faixa de segurança. Repleta de pessoas sorridentes e emocionadas que cruzavam uma, duas, três vezes a rua, iam e vinham na mesma faixa onde John, Ringo, Paul e George foram fotografados para a eternidade.

     Mas o que havia de comum ali, além da admiração por aquela banda inglesa? Estava "na cara", literalmente na cara: os sorrisos das pessoas!

     Aproveitando a tendência dos fotógrafos, conforme o artigo que mencionei, o fotógrafo nova-iorquino me disse que ficava ali dias inteiros, observando e fotografando o sorriso das pessoas que cruzavam a rua.
 
(Faixa de segurança de pedestre em frente aos Estúdios Abbey Road - detalhe: o fotógrafo encostado no poste - arq. pessoal) 

     Ele estava, pelo seu trabalho, testemunhando o nosso tempo, o nosso comportamento... E disse-me também que havia fotografado o meu sorriso, que esperava que eu não me incomodasse com isso...

(Atravessando a Abbey Road - arq. pessoal)
     Eu, claro, ao compreender o que o fotógrafo fazia ali, perguntei a ele - em tom de brincadeira - se eu tinha alguma chance de aparecer em algum trabalho seu junto com uma porção de outros sorrisos desconhecidos e originários de outras partes do mundo...

     Ao me responder ele também sorriu e me disse que a tarefa de escolher sorrisos seria muito difícil; que passavam por ali sorrisos brilhantes, sorrisos sexagenários, sorrisos adolescentes, sorrisos asiáticos... “Mas”, disse-me ele, “você tem alguma chance...”
(Atravessando Abbey Road - arq. pessoal)
     Depois de comentar o assunto com a minha mulher, hoje, no café da manhã, fiquei me perguntando:

     - “Será que meu sorriso está dependurado em alguma parede de Nova Iorque ou Londres? Será que está encartado em alguma revista, em uma foto junto com uma porção de gente que cruzou a Abbey Road? Ou será que simplesmente foi deletado da máquina do fotógrafo?”

     Sei lá... o que sei é que foi muito emocionante cruzar aquela rua, naquela faixa, naquele dia...
Obs.: comprei numa lojinha temática (só Beatles) ali por perto alguns marcadores de livro, decalques e pequenos souvenirs para os meus amigos... mas ainda estou esperando um encontro musical com eles para poder comentar o assunto... e presenteá-los.
RP, 15jul2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

ANOITECEU, E EU PASSEI PELA PRAÇA


A um desconhecido que, sem saber,
numa noite de segunda-feira,
proporcionou momentos de beleza
a um senhor que passava pela praça central
da cidade anestesiada.


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA)
("Melodia Sentimental", da suite "A Floresta do Amazonas", composta por Villa-Lobos em 1958 - poema de Dora Vasconcelos - interpretação de Olivia Byington) 
     A caminho do teatro, passei ontem à noite pela praça central. Em passos apressados tentava evitar os dissabores que as regiões centrais das cidades grandes têm nos oferecido. Mas fui surpreendido. A “Melodia Sentimental” do Villa-Lobos e Dora Vasconcelos, linda, lindíssima, vinha do chão, do subsolo, e cobria de encantos todos os canteiros. Eu estava diante de um chafariz enorme, majestoso, tomado de beleza. Não pude me deixar vencer pela pressa. Parei. Sozinho. Os jatos de água, sob o foco de luzes coloridas tingiam de cor e vida a enorme praça. Ficamos todos ali parados e entregues por alguns instantes: eu, meus braços, minhas pernas, minha cabeça e os meus pensamentos... Ao fundo da porção de água mais distante iluminada de branco, e propulsionada pelo jato central, contrastava o azul escuro do céu da noite. Lindo “de morrer”! Por uns instantes detive-me ali na praça deserta, formando um todo harmônico com as plantas, com as árvores, e com os monumentos de granito às celebridades do passado. Éramos uma plateia calada, maravilhada, extasiada... nós e a lua, no céu distante...

("Fonte Luminosa" da Praça 9 de julho, em Guará. Foto: Flávia Nogueira, postada no facebook)

     Procurei um banco para me recompor e acalmar meu deslumbramento. A música tomando a praça, somada às cores dos focos de luz, trouxe-me moças de outros tempos vestidas de domingo, caminhando aos pares ao redor do chafariz. Diante de mim e de todos nós ali, parados, elas aparentemente nos cumprimentavam desfilando sua beleza.
     Fiquei assim por alguns instantes, olhando as cores, dançando com as águas, revendo meus fantasmas - até que a música cessou, as luzes do chafariz se apagaram, e a noite se acomodou:
     - “Queira Deus que essa noite se desdobre em muitas outras, pintando de cores a triste escuridão da praça deserta... e que muitos outros senhores, em sua pressa de caminhar, detenham-se para admirá-las”.
     Pensando assim levantei-me apaziguado, agradeci por aquele espetáculo e, devagar, segui caminhando sem me importar para onde...


RP, 26jun2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

AINDA HÁ SABIÁS NAS PALMEIRAS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)

(Trecho do filme "Good Morning Vietnam" - Barry Levinson, 1987. Música "What a Wonderful World", Louis Armstrong, 1967)



"Ainda há sabiás nas palmeiras;
ainda há esperança no Brasil."
(Rubem Braga*)

     "What a Wonderful World", gravada em 1967 pelo Louis Armstrong, foi escrita para servir de antídoto contra preconceitos e perseguições nos Estados Unidos. Interessante observarmos que essa canção ajusta-se muito bem a qualquer país, em qualquer momento da História: sugere que o homem abra os olhos para a vida, que transforme-se e deleite-se com as coisas simples de cada dia.

     Veja só sua versão em português:


Que mundo maravilhoso!
(Bob Thiele/George David Weiss)

Eu vejo árvores verdes, rosas vermelhas também.
Eu as vejo florescer, para mim e para você.
E eu penso cá comigo:
Que mundo maravilhoso!

Vejo o céu azul e as nuvens brancas.
O dia claro e abençoado, a noite escura e sagrada.
E penso cá comigo:
Que mundo maravilhoso!

As cores do arco-íris, tão lindas no céu.
Também estão nas faces das pessoas que passam.
Vejo amigos se saudando, dizendo: - "como vai?
Na verdade eles estão dizendo: - "Gosto muito de você".

Ouço bebês chorando, eu os vejo crescer.
Eles aprenderão muito mais do que eu possa imaginar.
E penso cá comigo:
Que mundo maravilhoso!

Isso... eu penso comigo mesmo:
Que mundo maravilhoso!


     Portanto, meu amigo, minha amiga, não dá para simplesmente escutar essa música sem ouvi-la; não dá para apenas emprestar nossos ouvidos aos sons por ela produzidos. É preciso sabermos nos colocar em silêncio e entregarmos nossos ouvidos às suas vibrações para podermos navegar em seu mar de inspiração. Em troca vamos receber, renovado e com emoção, o batimento esperançoso do nosso próprio coração disposto a transformar.

_______________________________
*(Transcrição do trecho final da crônica “Fim de semana na fazenda”, do Rubem Braga. Do livro “Ai de ti, Copacabana”, transcrita em “Português através de textos”, Magda Soares Guimarães. Ed. Bernardo Álvares S.A, 1970)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

PARA ONDE FORAM TODAS AS FLORES?


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA
(Peter, Paul and Mary - "Blowin' in the wind" - de Bob Dylan)

     Nas aparições mais interessantes de um determinado senador paulista, ele se solta e canta. Desajeitado, canta sempre uma mesma canção: "Blowin' in the wind". Gosto de vê-lo, pela letra da música, relembrar as grandes questões da humanidade. São perguntas sem respostas, são ideais, são caminhos para o amadurecimento do homem e, por conseguinte, de todos os povos.

     Como é possível encontrarmos respostas para as perguntas feitas na canção?

- "Por quantas estradas um homem deve caminhar até que ele possa ser chamado de Homem?";

- "Quantas vezes um homem precisa olhar para cima até que ele consiga ver o céu?";

- "Por quantos anos um povo deve existir até que lhe seja permitido ser livre?"

     Talvez sejam essas as perguntas mais simples que fazemos durante toda a nossa vida - tal como as que nos fazem as crianças. Perguntas simples, porém complicadas. Complicadas porque não podem ser respondidas - suas respostas "blow in the wind" (perdem-se ao vento)... Porém, a simples reflexão que se segue a uma pergunta já é um caminho para nossa construção. Passamos a vida inteira procurando respostas para elas. Nunca vamos encontrá-las. Mas essa busca nos faz seguir em frente...

     Peter, Paul and Mary, ao gravarem "Blowin' in the wind", eram jovens, inquietos, idealistas. Viviam querendo respostas para tudo. 

     Todos nós, para nos realizarmos por inteiro, vivemos a nos buscar: "quem somos?, o que fizemos de nossas vidas?, o que aprendemos?". Mas somos eternos insatisfeitos - por natureza... Alguém já disse que "é muito mais fácil ser santo do que ser gente". Concordo com isso. Santo carrega em si somente um tipo de sentimento; gente é um emaranhado de sentimentos contraditórios - daí os nossos conflitos.

     Darcy Ribeiro (1), em um dos seus muitos momentos de grande lucidez, falando de si mesmo, fala de nós todos, da dolorosa consciência da pequenez dos nossos conhecimentos, da proporção que representamos em relação à imensidão das coisas:

"(...) Minhas mãos, inúteis para fazimentos, só servem para escrever e acariciar. Não sei dançar, nunca soube (...). Olho, idiota, o céu, maravilhado de seu esplendor, sem reconhecer constelações ou estrelas. Das árvores inumeráveis do meu mundo brasileiro, todo eito de arvoredos os mais variados, reconheço uma dúzia, se tanto. Diante das flores, do milagre de suas formas, cores, perfumes, eu paro perplexo. Só reconheço rosas, cravos, jasmins, girassóis e umas poucas mais. (...)". 

     O tempo se encarrega de nos oferecer respostas às perguntas. Os mesmos Peter, Paul e Mary gravaram em vídeo, nos seus anos de maturidade, uma canção cheia de respostas às perguntas: "Where have all the flowers gone?". Essa canção fala da saga dos moços e das moças, até a consumação de seu tempo. Ouço essa música com a fantasia de que eles compreenderam que as grandes questões da humanidade não podem ser teorizadas, explicadas. Viver, simplesmente, explica. A sequência natural da vida fica nas respostas simples às perguntas feitas na canção:

 "Para onde foram todas as flores?" - as garotas as colheram;
"Para onde foram as garotas?" - as garotas se casaram;
"Para onde foram os maridos?" - tornaram-se soldados;
"Para onde foram os soldados?" - foram para "a morte"; 
"E o que foi feito da morte?" - desabrochou-se em flores...

 
  (Peter, Paul and Mary - "Where have all the flowers gone?, de Seeger e Joe Hickerson) 

     Haverá um dia, ainda, em que aquele senador paulista também acrescentará "Where have all the flowers gone?" ao seu repertório de senador-cantor; mas demorará muito até que toda a plateia compreenda...

     - "When will they ever learn?" (quando compreenderão?), pergunta a canção.

     Se olharmos o Peter, o Paul e a Mary, jovens em "Blowin' in the wind", e logo em seguida olharmos para eles em "Where have all the flowers gone?", com as marcas do tempo estampadas em suas faces, como que a perguntar "para onde foi a nossa juventude?", temos um indício de resposta para todas as perguntas.

     Em um dos primeiros vídeos de "Where have all the flowers gone?" que assisti (indisponível para publicação) havia uma imagem muito emblemática de uma mulher adulta na plateia com uma criança no colo, ambas quietas, ouvindo. Essa imagem congelada, ajudando-nos a acalmar nossas inquietações, parece nos trazer uma mensagem: a sequência natural da vida é simplesmente prosseguir, amparar nossos filhos, saborear a caminhada, fazer dela um exercício constante de felicidade... até um dia podermos continuar por aí, imaterializados, fundidos no coração de quem nos conheceu... 
("Mulher sentada ao lado de vaso de flores" - Edgar Degas, 1865 - fonte:http://pt.wahooart.com/Art.nsf/ArtworkZoom?Open&RA=8YEA2Y)

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(1) Ribeiro, Darcy. O Brasil como problema - coleção Darcy no bolso. Editora UnB: 2010

terça-feira, 12 de junho de 2012

PARA A MINHA DOCE, NO DIA DOS NAMORADOS

("Our House" - Crosby, Stills Nash and Young - do álbum "Déjà Vu", de 1970)


Our House
(Graham Nash)

I'll light the fire
You place the flowers in the vase
That you bought today

Staring at the fire
For hours and hours
While I listen to you
Play your love songs
All night long for me
Only for me

Come to me now
And rest your head for just five minutes
Everything is good
Such a cosy room
The windows are illuminated
By the evening sunshine through them
Fiery gems for you
Only for you

Our house is a very, very fine house
With two cats in the yard
Life used to be so hard
Now everything is easy
'Cause of you
And our la, la, la, la, la etc

And our

I'll light the fire
And you place the flowers in the vase
That you bought today
Nossa Casa


Eu acenderei o fogo
Enquanto você põe as flores no vaso
Aquelas que você comprou hoje

Encarando o fogo
Por horas e horas
Enquanto eu te escuto
Cante suas canções de amor
Toda noite pra mim
Só pra mim

Venha pra mim agora
E descanse sua cabeça por apenas cinco minutos
Tudo é bom
Como num quarto aconchegante
As janelas são iluminadas
Pela própria luz do sol
Joias preciosas pra você
Só pra você

Nossa casa é muito, muito agradável
Com dois gatos no quintal
A vida costumava ser tão difícil
Agora tudo é fácil
Por causa de você
E nossa la, la, la, la, la

E nossa

Eu acenderei o fogo
E você põe as flores no vaso
Aquelas que você comprou hoje


*Faço de todas as palavras do Nash as minhas. Porém, troco os dois gatos por uma cachorrinha e um passarinho.



terça-feira, 5 de junho de 2012

CONVERSANDO COM OS "MESTRES" (ou "PORTINARI DO BRASIL")


Cândido Portinari - obras e releituras
https://www.youtube.com/watch?v=kKZ-wvYHW0Y

     Gauguin, Velazquez, Monet, Degas e muitos outros estão juntos na prateleira de cima de uma das estantes do meu escritório. Colocados capa a capa formam a coleção “Grandes Mestres”, editada em 2011 pela “Abril S.A.” Cada um deles, a seu modo e ao seu tempo, por seus olhos, pintou e universalizou seu mundo. São vinte e cinco “Mestres” que passam seus dias aqui comigo. Gosto de pensar que eles, numa infinita paciência e por intermédio de suas obras, estão sempre dispostos a dialogar comigo.
     Ainda agora, “Degas” na mão, e refletindo sobre sua mensagem para a construção do Homem, levantei a cabeça e fixei o olhar em um pequeno quadro do Vinícius de Moraes, pintado pelo Portinari, e que está pendurado em uma das paredes do meu escritório. Olhando o quadro fiquei com a impressão de que o Portinari estava manifestando, por intermédio de mim, um desejo seu de também participar da minha conversa com o Degas. Desviei minha atenção então do Degas para o Portinari, e lembrei-me do Juscelino Kubitscheck, em tamanho natural, pintado pelo Portinari, exposto na entrada de sua biblioteca no Memorial JK em Brasília.
Entrada da Biblioteca JK -Memorial JK, Brasília/DF -ao lado do Juscelino Kubitscheck pintado por Portinari - acervo pessoal)
     Lembrei-me também dos murais “Guerra e Paz”, pintados pelo Portinari, e que estão na sede da Organização das Nações Unidas em Nova Iorque; ouvi meu coração cantar “Un son para Portinari”*, e ainda reli mentalmente os poemas “A Mão”, do Drummond,
“(...) A mão cresce e pinta
O que não é para ser pintado, mas sofrido (...)”
e “Poema para Candinho Portinari”, do Vinícius,
“Lá vai Candinho!
Pra onde ele vai?
Vai pra Brodósqui
Buscar seu pai! (...)”  
- ambos escritos em homenagem ao Portinari na ocasião de sua morte, em 1962.
(Homenagem, na Pça Cândido Portinari, do povo de Brodósqui ao seu conterrâneo - acervo pessoal)

(Praça Cândido Portinari, vista do portão de entrada da Casa de Portinari - Brodósqui, SP - aceervo pessoal)

Museu Casa de Portinari - Brodósqui, SP - acervo pessoal)

     Dostoiévski dizia que “falar da própria aldeia universaliza”. De fato. E Candinho – o Portinari -, depois de um tempo na Europa, voltou para o Brasil. A obra dele universalizou-se e tomou vulto a partir do momento em que ele, tomado de encantamento por sua terra, passou a pintar sua realidade e seu país: “Menino com estilingue”, “Mestiço”, “O Lavrador de Café”, “Retirantes”, “Algodão”, “Baile na Roça”...
("O Lavrador de Café" - Portinari, 1939)

     Com esses pensamentos na cabeça eu me levantei e olhei cara a cara para os “Grandes Mestres” enfileirados na estante. Dei-me conta de que não havia nenhum brasileiro dentre eles. Calados, eles me observavam. Não diziam nada...  
     - “Envergonhados? Apequenados por não terem aberto espaço para o Portinari?”, “acham justo?” – perguntei a eles silenciosamente.
     De imediato ouvi internamente suas vozes me respondendo que eles não haviam sido os responsáveis pela escolha de quem deveria ou não estar ali, que também achavam que Portinari merecia na coleção um lugar de destaque.
     Compreendi.
     Mas, desconfortável ainda com a incompleta seleção de Mestres feita pelos editores, ergui a cabeça e recoloquei o Degas na estante. Por fim, inconformado com meus interlocutores invisíveis e materializados em papel, determinei:
     - “O Portinari tem sim lugar de honra junto de vocês. Ele está e vai ficar aí para sempre, aberto ao diálogo!”.
     Em seguida coloquei entre o Goya e o Leonardo da Vinci uma biografia do Portinari da coleção “A Vida dos Grandes Brasileiros”, editada em 1974, e que tenho desde a época do colégio. Aí sim, fiquei mais tranquilo...
     Tendo feito isso, em minha mente pude ver todos os Mestres se ajeitando na estante, rendendo suas homenagens ao Portinari, e dando-lhe as boas vindas com aplausos que só eu pude ouvir.

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*"Un son para Portinari" - de Nicolás Guillen e Horacio Salinas, gravado por Mercedes Sosa


segunda-feira, 28 de maio de 2012

LONDON LONDON


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 Caetano Veloso - "London London"


     Em 1969 Caetano Veloso partiu para Londres em exílio forçado. Ali viveu praticamente confinado em um apartamento por pouco mais de dois anos. Quase não saía de casa. Sua alma de artista e, certamente, a sensação de “rejeitado” por seu país, deu-lhe, contudo, a sensibilidade para perceber naquele período diferenças simples e significativas. No trecho abaixo da canção “London London” (do próprio Caetano), ele mesmo canta a aparente felicidade que observou em um policial londrino por poder ajudar um grupo de pessoas que dele se aproximou.

"A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them"*

     Aqui no Brasil, naquela época, um grupo de pessoas reunido poderia significar, para um policial, tentativa de rebelião a ser vigorosamente reprimida.

     Mas eu não estive em Londres nessa época; nem cheguei ali na condição de exilado. Pus os olhos, o coração e os pés naquela cidade na condição de convidado. E fui, por dois dias, como líder de um grupo de estudos do Rotary, amparado pelo maior carinho em todos os meus passos.

     Do Hotel Tavistock, onde estávamos hospedados, passando por “China Town”, caminhamos até “Trafalgar Square” em nossa primeira noite londrina.

("Hotel Tavistock" - Londres - arq. pessoal)

(China Town, Londres - arq. pessoal)


(Trafalgar Square - Londres - fonte attractionsinlondon.org)


     Em virtude da instalação de painéis para os jogos olímpicos deste ano, as luzes da praça estavam apagadas. Sentei-me em um banco da praça com a “National Gallery” às minhas costas e, pela primeira vez, avistei ao longe as luzes do “Big Ben”.


("Com a National Gallery às minhas costas" - Londres, setembro 2011 - arq. pessoal)

("Avistei, pela primeira vez, as luzes do Big Ben - Praça Trafalgar, Londres - arq. pessoal)
     Vendo à minha frente, na “Coluna de Nelson”, a representação de um mastro com velas arriadas, por um instante tive a sensação de estar viajando em uma caravela britânica do século XIX: não lutando na batalha que dá nome à praça (Trafalgar); mas, tal como ocorreu com os navegantes portugueses em 1500, avistando um novo continente, um novo universo de pessoas, histórias e lugares a serem descobertos.
"Nelson's Column" - Coluna de Nelson - praça Trafalgar - Londres - fonte geograph.org.uk

Estátua do Almirante Nelson, no topo da "Coluna de Nelson", na Praça Trafalgar
fonte victorianweb.org

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*A group approaches a policeman, he seems so pleased to please them - (trad) Um grupo se aproxima de um policial, ele parece muito contente por poder ajudá-los.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

UTOPIA


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Saint-Saens: The Swan Carnival of the animals 
https://www.youtube.com/watch?v=b44-5M4e9nI) 


E se no mundo existe algum paraíso terrestre,
sem dúvida não deve estar muito longe destes lugares.
(Vespúcio – “Mundus Novus”)

     Quando alguém fala em “UTOPIA” logo imaginamos algo inatingível. O Antônio Houaiss, no dicionário por ele organizado, diz que “utopia” consiste em uma “sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade” (1).

     Tudo isso porque a palavra UTOPIA, com registro histórico de 1671 (1), formada por radicais gregos, significa “não-lugar”, ou “lugar que não existe”. E ficamos convencidos de que um lugar assim, utópico, é impossível de existir.

     Mas a Utopia já existiu – e era aqui!(2)

     UTOPIA é um termo que foi inventado por Thomas Morus para dar título a uma de suas obras escritas por volta de 1516. Nela Morus descreve um lugar onde a sociedade é organizada racionalmente, com propriedade comum dos bens, onde os habitantes vivem em casas iguais, auxiliando-se mutuamente, em paz total e harmonia de interesses.

     Se pensarmos bem, um pouco antes de 1516, a América havia sido “descoberta” e corria na Europa a notícia propagada por Américo Vespúcio de ter sido encontrado um lugar arborizado, frutífero, passarinhado, cheiroso e colorido - que só podia ser mesmo o Éden (2).

     Cristóvão Colombo também, em suas narrativas, pela beleza inocente que havia visto por aqui, acreditava ter encontrado o Paraíso Perdido (2).

     Thomas Morus, inglês, um homem diferenciado para o seu tempo, advogado, diplomata, escritor e um dos grandes humanistas do renascimento, ficou encantado com os relatos e as notícias propagadas por Vespúcio e Colombo a respeito daquele lugar.



(Estátua de Thomas Morus em frente ao Chelsea Old Church - Londres - fonte: rememberingtheexecuted.wordpress.co)


     No entanto, na Europa corria a notícia de que viviam lá uns seres que não sabiam se eram uma humanidade ou uma bicharada; que viviam desnudos - apesar de inocentes e sem maldade... Os Europeus, barbudos e armados, empetecados em suas vestes, mergulhados em crenças de pecados e punições, duvidavam até que aqueles seres tinham alma!

     Assim, a se considerar que UTOPIA foi escrito em 1516, este só pode ter sido escrito sob a crença de Morus de que o paraíso havia sido encontrado. E esse lugar era aqui!

     Depois disso vieram os “sábios” demonstrando que os índios que aqui viviam estavam mergulhados no pecado. E deu no que deu: tiraram os índios da sua inocência para desindianizá-los (2) e inseri-los nas ideias de crime e castigo.

     Quanto a Morus, por não concordar com os termos de um Decreto que era de interesse exclusivo do rei da Inglaterra (Henrique VIII)(3), foi preso e morreu decapitado na Torre de Londres. Depois foi canonizado e virou santo da Igreja católica.

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(1) – conforme dicionário Houaiss
(2) – conforme menciona Darcy Ribeiro em “A América Latina Existe?” – da coleção “Darcy no Bolso” – Editora UnB
(3) - fundação do anglicanismo e não aceitação da coroação de Ana Bolena, uma das esposas de Henrique VIII

sexta-feira, 4 de maio de 2012

ADIÓS MUCHACHOS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR)
"Adiós Muchachos", de Vedani/Sanderes - Louis Armstrong - Stuttgart, 1959 - fonte youtube


     "Adiós Muchachos" é um tango argentino, com letra de César Felipe Vedani e música de Julio César Alberto Sanders. Esse tango fala de morte, de alguém que, doente, deixando a vida, despede-se de seus amigos. É um sofrimento danado - como é próprio do gênero.

     Quem primeiro o gravou foi Agustin Magaldi, em 1927*; no ano seguinte foi a vez de Carlos Gardel fazê-lo. Quase noventa anos já se passaram desde sua primeira gravação, e ainda hoje muitos artistas o interpretam e gravam.

     Eu não conhecia, até há pouco, a gravação que dele fez o Louis Armstrong. Pois foi justamente ouvindo e assistindo essa gravação que reforcei minha consideração pela universalidade da música, no sentido de integrar povos, costumes e tradições, irmanando e aproximando os homens. Por intermédio da música estendemos os braços, nos abraçamos, nos damos as mãos, cantamos, sorrimos e dançamos fraternalmente - independente de nacionalidade ou fronteira.

     Pois vejam só que "tempero": o grande Louis Armstrong, artista norte-americano de origens africanas, interpretando em um clube de Stuttgart, na Alemanha, em ritmo de jazz, um tango argentino!

     Só nos resta então ouvirmos a música, aumentarmos o som do vídeo, e, com o coração brasileiro, rendermos graças ao grande "Satchmo"**. 


While he is most associated with New Orleans, Louis Armstrong left the city when he was 24 and made his way up to Chicago.
Louis Armstrong
https://www.theguardian.com/music/2016/mar/01/map-of-chicago-music-scene-louis-armstrong-nat-king-cole-kanye-west



Adiós Muchachos

Adios muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.
Adios muchachos, ya me voy y me resigno
Contra el destino nadie la talla
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más

Acuden a mi mente
Recuerdos de otros tiempos,
De los bellos momentos
Que antaño disfrute,
Cerquita de mi madre,
Santa viejita,
Y de mi noviecita
Que tanto idolatre

Se acuerdan que era hermosa,
Mas linda que una diosa
Y que, ebrio yo de amor,
Le di mi corazón?
Mas el señor, celoso
De sus encantos,
Hundiendome en el llanto,
Me la llevo

Es dios el juez supremo.
No hay quien se le resista.
Ya estoy acostumbrado
Su ley a respetar,
Pues mi vida deshizo
Con sus mandatos
Al robarme a mi madre
Y a mi novia también

Dos lagrimas sinceras
Derramo en mi partida
Por la barra querida
Que nunca me olvido.
Y al darle, mis amigos,
El adiós postrero,
Les doy con toda mi alma,
Mi bendición

Adios muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada
Adios muchachos, ya me voy y me resigno
Contra el destino nadie la talla
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más
Adeus Rapazes

Adeus rapazes, companheiros de minha vida,
turma querida daqueles tempos.
Cabe a mim hoje empreender a retirada,
devo afastar-me de minha boa rapaziada,
Adeus rapazes, já me vou e me resigno.
Contra o destino ninguém argumenta.
Acabaram para mim todas as farras,
meu corpo enfermo não resiste mais.

Voltam a minha mente,
lembranças de outros tempos,
de belos momentos,
que então eu desfrutei,
juntinho de minha mãe,
minha santa velhinha,
e de minha noivinha
que tanto idolatrei.

Lembram que era formosa,
mais bela que uma deusa
e que, ébrio de amor,
lhe dei meu coração?
Porém o Senhor, ciumento
de seus encantos,
cobrindo-me de pranto,
a levou.

É Deus o juiz supremo.
Não há quem se lhe oponha.
Já estou acostumado
a respeitar sua lei,
pois minha vida se desfez
com seus mandatos
ao levar minha mãe
e minha noiva também.

Duas lágrimas sinceras
derramo em minha partida
pela turma querida
que nunca me esqueceu.
E ao dar-lhes, meus amigos,
o último adeus,
lhes dou com toda minha alma,
minha bênção.

Adeus rapazes, companheiros de minha vida,
turma querida daqueles tempos.
Cabe a mim hoje empreender a retirada,
devo afastar-me de minha boa rapaziada,
Adeus rapazes, já me vou e me resigno.
Contra o destino ninguém argumenta.
Acabaram para mim todas as farras,
meu corpo enfermo não resiste mais.

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*conforme conta Héctor Ángel Benedetti, em “Las mejores letras de Tango”, 1ª Ed. – Buenos Aires: Booket, 2003
**Satchmo - apelido de Louis Armstrong. Vem de "Sack Mouth", ou "Satchel Mouth", que significam "boca de saco", ou  "boca de mochila".