segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O QUINZE DE SETEMBRO E OS PILARES DA MINHA TERRA




                                                         QUO NON ASCENDAM ? 
                                                                       (Até onde chegarei?)
                                                         (inscrição no Brasão de Armas de Guará, SP)

 

 ("Brasão de Armas" - Guará, SP -
 fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Bras%C3%A3o_de_Guar%C3%A1 )


     15 de setembro é o dia de aniversário de fundação de Guará, minha terra natal. Desde que saí de lá para a universidade não sei como foi nem como tem sido comemorado esse dia. Lembro-me que havia um desfile escolar, jogos de futebol, gincana cultural. Às vezes as comemorações estendiam-se por alguns dias e a cidade embelezava-se toda para aniversariar...

     No ano de 1991, durante as festividades de aniversário da cidade, recebi da Prefeitura Municipal um convite para participar da cerimônia de descerramento de uma placa que atribuia o nome de um dos meus tios a uma escola. E lá estive eu.  
 



 
(Convite recebido - arq. pessoal)


     Olhando hoje o convite, fiquei me lembrando desse meu tio e das pessoas com quem conversei naquela noite durante a cerimônia.

     Meu tio era um intelectual e sonhador. Gostava muito de Guará; falava de Guará com paixão. Queria que o município oferecesse oportunidades de desenvolvimento e de cultura para toda a sua população. Vivia  inserindo e inspirando raciocínio crítico, educação, música, literatura, administração pública e participação política em todas as pessoas com quem conversava. Estar com ele era receber estímulos de conhecimento. Penso que foi justamente por ele ter sido assim que o Município decidiu atribuir a uma instituição educacional o seu nome: Náufal Antônio Mourani. Ele passaria a ser então, formalmente, uma referência para a população de Guará. 

     Durante a cerimônia, ao meu lado, o Sr. N. – um dos guaraenses mais respeitados -  dizia repetidas vezes que o Município fazia justiça a um grande pensador; que seu exemplo de bom guaraense precisava ser lembrado por todas as gerações. A professora C. cumprimentou-me dizendo que sentia muito orgulho de ter conhecido pessoalmente o Dr. Náufal, e que podia falar com propriedade a seu respeito para seus alunos; o Dr. J. aproximou-se de mim para me dizer que havia abraçado a advocacia em virtude dos ensinamentos recebidos do Dr. Náufal. Mas veio do B. o depoimento mais emocionado que ouvi: contou-me ele que, ainda jovem, lamentando sua condição econômica, foi alertado pelo Dr. Náufal que, em nossa cidade, vivíamos todos modestamente, mas que a verdadeira pobreza não era a material, mas sim a ignorância, a ausência de pensamento crítico e a omissão – e completou sua história dizendo-me que foi do Dr. Náufal que conseguiu recursos para que pudesse tornar-se professor universitário.

 (Escola Municipal Dr. Náufal Antônio Mourani - entrada - fonte: foto escaneada de "Guará - terra do sol", livro organizado por Leila Miria de Oliveira, Ed. Noovha America, 2006)

     Na última vez que estive em Guará passei em frente à escola. Não vi ali o seu nome, nem tampouco o do Dr. Náufal. No prédio funcionava um “Centro Comunitário”. Contentei-me em ver que a Administração Municipal, pela solidariedade, tem se preocupado com a população de Guará!

 ("Centro Comunitário" - foto: arq. pessoal, 2012)

     Mas, mesmo contente com o "Centro Comunitário", não consegui deixar de pensar: além de estar nas lembranças de quem o conheceu, por onde anda o nome do Dr. Náufal? Onde está instalada a escola? Quais cursos oferece? Quantos alunos tem? Quem são os professores? 

     As referências são sempre fundamentais para a nossa formação e para os que virão depois de nós. Como enche de encanto e orgulho, para Diamantina (MG), o nome Juscelino Kubitschek!; Getúlio Vargas para São Borja (RS)!; Arthur Bernardes para Viçosa (MG)!; Antônio Diederichsen e Zeferino Vaz para Ribeirão Preto (SP)!; Cândido Portinari para Brodowski (SP)!; Zequinha de Abreu para Santa Rita do Passa Quatro (SP)!...!! E o que significa trafegar pelas ruas e rodovias Tiradentes, Prudente de Moraes, D. Pedro I, Ayrthon Senna? Não são nomes quaisquer! São todos referências! O que todos representam ? o que nos inspiram ?

     Pois como guaraense também sou tomado de encanto e orgulho pelas minhas referências quando, estando lá, vejo estampado nas paredes o nome das escolas Nehif Antônio, Arthur Afonso Bini, Urbano Junqueira, Helena Telles Furtado! Quantos exemplos bons tenho ao rever em placas, paredes e muros nomes como Hassan Jorge Mourani, Dr. Francisco de Paula Leão, Américo Migliori, Dr. Jair de Paula Ribeiro, Rubens Siqueira Martins, Massuo Nakano - nomes atribuídos a escolas, ruas, bairros, e edifícios públicos de minha terra!

     A simples lembrança dos nomes de cidadãos-referências, em suas respectivas comunidades, aliado  ao conhecimento de seus feitos e exemplos, já são suficientes para nos orgulharmos, renovarmos nossas esperanças e energias para exercermos a cidadania com maior entusiasmo. 

     Penso que todas as comunidades e cada um de nós, individualmente, precisa de exemplos e de referências. Numa época em que tudo é descartável, em que pouco importa o valor das coisas, em que o preço e o imediatismo de resultados é o que conta, mais do que nunca é necessário espalharmos e propagarmos os bons exemplos e referências que temos  para podermos erguer nossas cabeças, cuidarmos da nossa autoestima e da nossa edificação interior. Afinal, quem se lembrará dos edificadores de nossas comunidades se os seus nomes e seus feitos ficarem escondidos ou forem apagados da memória, dos muros e das placas, pela poeira do tempo...? 
 

                                           (Dr. Náufal Antônio Mourani - foto: arq. de família)
 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

SETE DE SETEMBRO



("Aquarela Brasileira", de Silas de Oliveira - por Martinho da Vila)

                                                                umas palavrinhas simples sobre o Brasil,
                                                                o meu país.




CANTO DE AMOR E GLÓRIA PELA MINHA PÁTRIA,
PATRIAZINHA TÃO QUERIDA...
QUE RECEBE E SEMPRE RECEBEU
COM SOL, OPORTUNIDADES E BRAÇOS ABERTOS

TODOS OS QUE AQUI CHEGAM E SEMPRE CHEGARAM...

MINHA PÁTRIA QUE NOS FAZ RENASCER A CADA DIA
E QUE POR SI SÓ SE RESSUSCITA
PELO QUE OFERECE E SIGNIFICA PARA O MUNDO TODO...

... MAS QUE TAMBÉM PEDE
PARA QUE OLHEMOS MELHOR POR ELA,
E QUE DELA NOS ORGULHEMOS
COM O CORAÇÃO
SINCERAMENTE
PULSANDO FORTE
DE EMOÇÃO.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

VIAGEM AO MUNDO DA LUA


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
OUÇA COM ATENÇÃO ANTES DE LER O TEXTO)
 
           ("Lunik 9", de Gilberto Gil, 1967)


“Poetas, seresteiros, namorados, correi!
É chegada a hora de escrever e cantar.
Talvez as derradeiras noites de luar"
(Gilberto Gil)  


     Eu tinha pouco mais de dez anos quando o homem pisou na lua pela primeira vez. Apesar da grande distância no tempo, lembro-me bem daquela noite: passei longas horas no portão de casa olhando para o céu... esperando... Estava com os nomes dos três astronautas norte-americanos, tripulantes da "Apollo Onze", gravados na mente. Mas eu não estava tranquilo. Tinha medo. Medo da escuridão que poderia resultar daquela ousadia; medo de um desarranjo generalizado no nosso planeta; medo do fim do mundo.

     Nessa época eu passava muitas tardes datilografando textos e ouvindo discos no escritório do meu tio Náufal. “Lunik 9”, do disco “Louvação” do Gilberto Gil (1967), era uma das músicas mais frequentes. Composta ainda sob o impacto do pouso da primeira sonda soviética na lua em 1959, e pela possibilidade do homem pisar em solo lunar nos anos seguintes, foi "Lunik 9" a responsável por inúmeras imagens atormentadoras que fantasiei.

     Era tempo da "guerra fria"; disputava-se, inclusive, a posse do desconhecido mundo lunar. Enquanto isso o Gilberto Gil ponderava. Dividido, aplaudia a ciência e hesitava entre a exploração, o encantamento, a incerteza e o medo.

     Temendo pela possibilidade de desaparecimento definitivo do luar, Gil, em “Lunik 9”, conclamava os poetas, seresteiros e namorados a cultuarem as noites enluaradas:

"Poetas, seresteiros, namorados, correi!
É chegada a hora de escrever e cantar;
Talvez as derradeiras noites de luar."


     Sem saber onde o início da conquista do espaço ia dar, o Gil refletia e também me fazia refletir:

"Talvez não tenha mais luar
Prá clarear minha canção.
O que será do verso sem luar?
O que será do mar, da flor, do violão?"

     Na conclusão, com a lucidez do homem em sua pequenez diante da imensidão do espaço infinito, o Gil concluía:

"Tenho pensado tanto, mas nem sei..."
     Esse nem sei do Gil doía, era torturante: retratava a ignorância humana diante dos mistérios do universo... 

     E ali no portão de casa, enquanto eu olhava para a lua, ficava pensando na última frase da letra da música:

"Talvez as derradeiras noites de luar..."

     Sofrendo assim com a mensagem de “Lunik 9” e a perspectiva de fim do mundo na minha cabeça, entrei em casa. Diante da TV meu pai, minha mãe, e minha irmã acompanhavam as chamadas para a transmissão do pouso da "Apollo 11" em solo lunar. A minha ansiedade em saber das consequências do pouso era grande. A TV não ajudava muito; no som e na imagem vindos da tela predominavam os ruídos e "chuviscos" em preto e branco.

(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR)
 (Video da chegada do homen na lua - 21/07/69 - fonte: youtube)

     Em algum momento entendemos que um astronauta (Armstrong) havia pisado na lua.


(Neil Armstrong - fonte: aerospaceguide.net)

     “Este é um pequeno passo para o homem; um salto gigantesco para a humanidade”: essas palavras ditas pelo Neil Armstrong, naquele momento, ecoam até hoje.

     Comovido, ouvi da rua alguém falando alto - e me preparei para o pior, para o início da destruição, para o fim do luar, para o “apagão” do mundo. Parecia que meus temores estavam indo da fantasia para a realidade: fui à janela e, puxando um pouco a cortina, olhei para fora. Não vi ninguém. Vi a noite calma, a calçada deserta, e a árvore guardiã diante de casa: o mundo, sob a perspectiva de um menino de cidade pequena em uma janela, estava em paz.

     Além da Edição Especial da revista “Realidade”, que trouxe uma foto do astronauta em solo lunar, guardei na mente o nome, a façanha e a aventura dos três heróis: Armstrong, Collins e Aldrin. Eles certamente carregaram aquele momento pelo resto de suas vidas. Mas eu carreguei também, por muitos anos, a consequência de sua expedição à lua: inspirado neles, nos três heróis, alimentei a ilusão do astronauta que um dia eu poderia ser... – até que tirei a cabeça do mundo da lua e vim pousar na realidade.

(Edição da Revista "Realidade" - fonte: emule.com)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

DOIS DINOSSAUROS


 ("Let's get together" - The Youngbloods, 1967)
     Cumpro as obrigações do dia e fico olhando a rua pela janela. Cinco da tarde. Impossível ouvir no rádio qualquer coisa aproveitável. Quanta porcaria! Não me submeto a isso. Desço as escadas. Procuro uma esquina para me encostar em um poste e ficar parado, na esperança de encontrar meus amigos.

(Banda Terra Seca - meus amigos João, Nanão, Zé Rubens - foto: arq. pessoal)
     - “Cadê o Nanão, o Marquinho; cadê o Zé Américo, cadê o João, o Julim Batata; cadê o Júnior, cadê o Quim, cadê o Paulinho; cadê o Tigrão, o Mamãn...?”
     - “Besteira, por aqui não passarão...” - eu mesmo me respondo calado.
     Entro no carro e me misturo na confusão do trânsito de sexta-feira. O mundo inteiro, ansiosamente, faz barulho lá fora. Aqui dentro, batendo asas no para-brisa, um pequeno inseto me faz companhia.
     Atravesso as avenidas, paro no farol; um menino me oferece doces, um senhor me pede uma moeda. Acelero o carro e sigo na direção do movimento...
     Coloco prá tocar um CD que ganhei do Zé Américo, com capa personalizada, dedicatória e assinatura: setembro de 2002. A primeira música, “Let’s get together”, Youngbloods. Nela estamos todos...
     Ouvindo “Let’s get together” faço uma ligação pelo celular. Lá longe ouço a voz do Renatão atendendo a chamada.

      - “Alô, alô... alô... alô... Bosta! quem é?”
      Não digo nada...  Rio.

     Passadas algumas frações de minuto ele desiste de falar. Aumento o volume. Ele fica em silêncio, atento; não desliga; ouve a música e começa a cantar. Entro no mesmo tom, me ajeito no banco do carro, levanto os vidros de todas as janelas, ligo o ar condicionado, e canto junto...

"C'mon people now
Smile on your brother
Ev'rybody get together
Try and love one another right now"

      A música termina e ouço lá longe uma exclamação de surpresa e contentamento:


      - “Caraaaaio... que tesão de música!”
     Depois desligo o celular sem falar nada. Ele sabe que sou eu. Somos dois amigos “dinossauros” nesse emaranhado de carros e prédios... e estações de rádio vagabundas!


(fonte: http://www.allmusic.com/album/the-youngbloods-mw0000075743)
The Youngbloods

domingo, 15 de julho de 2012

SORRISOS EM ABBEY ROAD

     

     O Jornal “Folha de São Paulo” de sexta-feira, dia 13, no Caderno “Ilustrada”, trouxe um artigo que atraiu minha atenção. O texto é de Silas Marti, e a manchete é “Obras do Acaso”. A foto que ilustra o texto mostra uma porção de gente bocejando no mesmo lugar, nas mesmas condições de luz e tempo. São, conforme explica Silas, fotos tiradas em momentos diferentes, que mostram coincidências banais em situações também banais. Mostram, enfim, na rua, um pouquinho do comportamento humano.

     O texto fez-me lembrar de um fotógrafo nova-iorquino com quem não troquei mais do que meia dúzia de palavras.

     Em visita a Londres no ano passado, fui conhecer a Abbey Road: famosa rua que ilustra a capa de um dos discos dos Beatles, e que os mostra na faixa de segurança de pedestres atravessando de uma calçada para a outra.

Galeria - capa abbey road - abre
(capa do álbum "Abbey Road", 1969 - fonte:http://rollingstone.uol.com.br/galeria/45-anos-depois-entenda-os-misterios-por-tras-da-capa-de-iabbey-roadi/#imagem0  )

(clique na seta para ouvir)

("Golden Slumbers", Paul McCartney)

     Lá chegando, após um curto trajeto de metrô e uma pequena caminhada, o que vi foi uma rua simples, como tantas outras daquela cidade. Simples porém movimentada na faixa de segurança. Repleta de pessoas sorridentes e emocionadas que cruzavam uma, duas, três vezes a rua, iam e vinham na mesma faixa onde John, Ringo, Paul e George foram fotografados para a eternidade.

     Mas o que havia de comum ali, além da admiração por aquela banda inglesa? Estava "na cara", literalmente na cara: os sorrisos das pessoas!

     Aproveitando a tendência dos fotógrafos, conforme o artigo que mencionei, o fotógrafo nova-iorquino me disse que ficava ali dias inteiros, observando e fotografando o sorriso das pessoas que cruzavam a rua.
 
(Faixa de segurança de pedestre em frente aos Estúdios Abbey Road - detalhe: o fotógrafo encostado no poste - arq. pessoal) 

     Ele estava, pelo seu trabalho, testemunhando o nosso tempo, o nosso comportamento... E disse-me também que havia fotografado o meu sorriso, que esperava que eu não me incomodasse com isso...

(Atravessando a Abbey Road - arq. pessoal)
     Eu, claro, ao compreender o que o fotógrafo fazia ali, perguntei a ele - em tom de brincadeira - se eu tinha alguma chance de aparecer em algum trabalho seu junto com uma porção de outros sorrisos desconhecidos e originários de outras partes do mundo...

     Ao me responder ele também sorriu e me disse que a tarefa de escolher sorrisos seria muito difícil; que passavam por ali sorrisos brilhantes, sorrisos sexagenários, sorrisos adolescentes, sorrisos asiáticos... “Mas”, disse-me ele, “você tem alguma chance...”
(Atravessando Abbey Road - arq. pessoal)
     Depois de comentar o assunto com a minha mulher, hoje, no café da manhã, fiquei me perguntando:

     - “Será que meu sorriso está dependurado em alguma parede de Nova Iorque ou Londres? Será que está encartado em alguma revista, em uma foto junto com uma porção de gente que cruzou a Abbey Road? Ou será que simplesmente foi deletado da máquina do fotógrafo?”

     Sei lá... o que sei é que foi muito emocionante cruzar aquela rua, naquela faixa, naquele dia...
Obs.: comprei numa lojinha temática (só Beatles) ali por perto alguns marcadores de livro, decalques e pequenos souvenirs para os meus amigos... mas ainda estou esperando um encontro musical com eles para poder comentar o assunto... e presenteá-los.
RP, 15jul2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

ANOITECEU, E EU PASSEI PELA PRAÇA


A um desconhecido que, sem saber,
numa noite de segunda-feira,
proporcionou momentos de beleza
a um senhor que passava pela praça central
da cidade anestesiada.


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA)
("Melodia Sentimental", da suite "A Floresta do Amazonas", composta por Villa-Lobos em 1958 - poema de Dora Vasconcelos - interpretação de Olivia Byington) 
     A caminho do teatro, passei ontem à noite pela praça central. Em passos apressados tentava evitar os dissabores que as regiões centrais das cidades grandes têm nos oferecido. Mas fui surpreendido. A “Melodia Sentimental” do Villa-Lobos e Dora Vasconcelos, linda, lindíssima, vinha do chão, do subsolo, e cobria de encantos todos os canteiros. Eu estava diante de um chafariz enorme, majestoso, tomado de beleza. Não pude me deixar vencer pela pressa. Parei. Sozinho. Os jatos de água, sob o foco de luzes coloridas tingiam de cor e vida a enorme praça. Ficamos todos ali parados e entregues por alguns instantes: eu, meus braços, minhas pernas, minha cabeça e os meus pensamentos... Ao fundo da porção de água mais distante iluminada de branco, e propulsionada pelo jato central, contrastava o azul escuro do céu da noite. Lindo “de morrer”! Por uns instantes detive-me ali na praça deserta, formando um todo harmônico com as plantas, com as árvores, e com os monumentos de granito às celebridades do passado. Éramos uma plateia calada, maravilhada, extasiada... nós e a lua, no céu distante...

("Fonte Luminosa" da Praça 9 de julho, em Guará. Foto: Flávia Nogueira, postada no facebook)

     Procurei um banco para me recompor e acalmar meu deslumbramento. A música tomando a praça, somada às cores dos focos de luz, trouxe-me moças de outros tempos vestidas de domingo, caminhando aos pares ao redor do chafariz. Diante de mim e de todos nós ali, parados, elas aparentemente nos cumprimentavam desfilando sua beleza.
     Fiquei assim por alguns instantes, olhando as cores, dançando com as águas, revendo meus fantasmas - até que a música cessou, as luzes do chafariz se apagaram, e a noite se acomodou:
     - “Queira Deus que essa noite se desdobre em muitas outras, pintando de cores a triste escuridão da praça deserta... e que muitos outros senhores, em sua pressa de caminhar, detenham-se para admirá-las”.
     Pensando assim levantei-me apaziguado, agradeci por aquele espetáculo e, devagar, segui caminhando sem me importar para onde...


RP, 26jun2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

AINDA HÁ SABIÁS NAS PALMEIRAS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)

(Trecho do filme "Good Morning Vietnam" - Barry Levinson, 1987. Música "What a Wonderful World", Louis Armstrong, 1967)



"Ainda há sabiás nas palmeiras;
ainda há esperança no Brasil."
(Rubem Braga*)

     "What a Wonderful World", gravada em 1967 pelo Louis Armstrong, foi escrita para servir de antídoto contra preconceitos e perseguições nos Estados Unidos. Interessante observarmos que essa canção ajusta-se muito bem a qualquer país, em qualquer momento da História: sugere que o homem abra os olhos para a vida, que transforme-se e deleite-se com as coisas simples de cada dia.

     Veja só sua versão em português:


Que mundo maravilhoso!
(Bob Thiele/George David Weiss)

Eu vejo árvores verdes, rosas vermelhas também.
Eu as vejo florescer, para mim e para você.
E eu penso cá comigo:
Que mundo maravilhoso!

Vejo o céu azul e as nuvens brancas.
O dia claro e abençoado, a noite escura e sagrada.
E penso cá comigo:
Que mundo maravilhoso!

As cores do arco-íris, tão lindas no céu.
Também estão nas faces das pessoas que passam.
Vejo amigos se saudando, dizendo: - "como vai?
Na verdade eles estão dizendo: - "Gosto muito de você".

Ouço bebês chorando, eu os vejo crescer.
Eles aprenderão muito mais do que eu possa imaginar.
E penso cá comigo:
Que mundo maravilhoso!

Isso... eu penso comigo mesmo:
Que mundo maravilhoso!


     Portanto, meu amigo, minha amiga, não dá para simplesmente escutar essa música sem ouvi-la; não dá para apenas emprestar nossos ouvidos aos sons por ela produzidos. É preciso sabermos nos colocar em silêncio e entregarmos nossos ouvidos às suas vibrações para podermos navegar em seu mar de inspiração. Em troca vamos receber, renovado e com emoção, o batimento esperançoso do nosso próprio coração disposto a transformar.

_______________________________
*(Transcrição do trecho final da crônica “Fim de semana na fazenda”, do Rubem Braga. Do livro “Ai de ti, Copacabana”, transcrita em “Português através de textos”, Magda Soares Guimarães. Ed. Bernardo Álvares S.A, 1970)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

PARA ONDE FORAM TODAS AS FLORES?


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA
(Peter, Paul and Mary - "Blowin' in the wind" - de Bob Dylan)

     Nas aparições mais interessantes de um determinado senador paulista, ele se solta e canta. Desajeitado, canta sempre uma mesma canção: "Blowin' in the wind". Gosto de vê-lo, pela letra da música, relembrar as grandes questões da humanidade. São perguntas sem respostas, são ideais, são caminhos para o amadurecimento do homem e, por conseguinte, de todos os povos.

     Como é possível encontrarmos respostas para as perguntas feitas na canção?

- "Por quantas estradas um homem deve caminhar até que ele possa ser chamado de Homem?";

- "Quantas vezes um homem precisa olhar para cima até que ele consiga ver o céu?";

- "Por quantos anos um povo deve existir até que lhe seja permitido ser livre?"

     Talvez sejam essas as perguntas mais simples que fazemos durante toda a nossa vida - tal como as que nos fazem as crianças. Perguntas simples, porém complicadas. Complicadas porque não podem ser respondidas - suas respostas "blow in the wind" (perdem-se ao vento)... Porém, a simples reflexão que se segue a uma pergunta já é um caminho para nossa construção. Passamos a vida inteira procurando respostas para elas. Nunca vamos encontrá-las. Mas essa busca nos faz seguir em frente...

     Peter, Paul and Mary, ao gravarem "Blowin' in the wind", eram jovens, inquietos, idealistas. Viviam querendo respostas para tudo. 

     Todos nós, para nos realizarmos por inteiro, vivemos a nos buscar: "quem somos?, o que fizemos de nossas vidas?, o que aprendemos?". Mas somos eternos insatisfeitos - por natureza... Alguém já disse que "é muito mais fácil ser santo do que ser gente". Concordo com isso. Santo carrega em si somente um tipo de sentimento; gente é um emaranhado de sentimentos contraditórios - daí os nossos conflitos.

     Darcy Ribeiro (1), em um dos seus muitos momentos de grande lucidez, falando de si mesmo, fala de nós todos, da dolorosa consciência da pequenez dos nossos conhecimentos, da proporção que representamos em relação à imensidão das coisas:

"(...) Minhas mãos, inúteis para fazimentos, só servem para escrever e acariciar. Não sei dançar, nunca soube (...). Olho, idiota, o céu, maravilhado de seu esplendor, sem reconhecer constelações ou estrelas. Das árvores inumeráveis do meu mundo brasileiro, todo eito de arvoredos os mais variados, reconheço uma dúzia, se tanto. Diante das flores, do milagre de suas formas, cores, perfumes, eu paro perplexo. Só reconheço rosas, cravos, jasmins, girassóis e umas poucas mais. (...)". 

     O tempo se encarrega de nos oferecer respostas às perguntas. Os mesmos Peter, Paul e Mary gravaram em vídeo, nos seus anos de maturidade, uma canção cheia de respostas às perguntas: "Where have all the flowers gone?". Essa canção fala da saga dos moços e das moças, até a consumação de seu tempo. Ouço essa música com a fantasia de que eles compreenderam que as grandes questões da humanidade não podem ser teorizadas, explicadas. Viver, simplesmente, explica. A sequência natural da vida fica nas respostas simples às perguntas feitas na canção:

 "Para onde foram todas as flores?" - as garotas as colheram;
"Para onde foram as garotas?" - as garotas se casaram;
"Para onde foram os maridos?" - tornaram-se soldados;
"Para onde foram os soldados?" - foram para "a morte"; 
"E o que foi feito da morte?" - desabrochou-se em flores...

 
  (Peter, Paul and Mary - "Where have all the flowers gone?, de Seeger e Joe Hickerson) 

     Haverá um dia, ainda, em que aquele senador paulista também acrescentará "Where have all the flowers gone?" ao seu repertório de senador-cantor; mas demorará muito até que toda a plateia compreenda...

     - "When will they ever learn?" (quando compreenderão?), pergunta a canção.

     Se olharmos o Peter, o Paul e a Mary, jovens em "Blowin' in the wind", e logo em seguida olharmos para eles em "Where have all the flowers gone?", com as marcas do tempo estampadas em suas faces, como que a perguntar "para onde foi a nossa juventude?", temos um indício de resposta para todas as perguntas.

     Em um dos primeiros vídeos de "Where have all the flowers gone?" que assisti (indisponível para publicação) havia uma imagem muito emblemática de uma mulher adulta na plateia com uma criança no colo, ambas quietas, ouvindo. Essa imagem congelada, ajudando-nos a acalmar nossas inquietações, parece nos trazer uma mensagem: a sequência natural da vida é simplesmente prosseguir, amparar nossos filhos, saborear a caminhada, fazer dela um exercício constante de felicidade... até um dia podermos continuar por aí, imaterializados, fundidos no coração de quem nos conheceu... 
("Mulher sentada ao lado de vaso de flores" - Edgar Degas, 1865 - fonte:http://pt.wahooart.com/Art.nsf/ArtworkZoom?Open&RA=8YEA2Y)

__________________________________
(1) Ribeiro, Darcy. O Brasil como problema - coleção Darcy no bolso. Editora UnB: 2010

terça-feira, 12 de junho de 2012

PARA A MINHA DOCE, NO DIA DOS NAMORADOS

("Our House" - Crosby, Stills Nash and Young - do álbum "Déjà Vu", de 1970)


Our House
(Graham Nash)

I'll light the fire
You place the flowers in the vase
That you bought today

Staring at the fire
For hours and hours
While I listen to you
Play your love songs
All night long for me
Only for me

Come to me now
And rest your head for just five minutes
Everything is good
Such a cosy room
The windows are illuminated
By the evening sunshine through them
Fiery gems for you
Only for you

Our house is a very, very fine house
With two cats in the yard
Life used to be so hard
Now everything is easy
'Cause of you
And our la, la, la, la, la etc

And our

I'll light the fire
And you place the flowers in the vase
That you bought today
Nossa Casa


Eu acenderei o fogo
Enquanto você põe as flores no vaso
Aquelas que você comprou hoje

Encarando o fogo
Por horas e horas
Enquanto eu te escuto
Cante suas canções de amor
Toda noite pra mim
Só pra mim

Venha pra mim agora
E descanse sua cabeça por apenas cinco minutos
Tudo é bom
Como num quarto aconchegante
As janelas são iluminadas
Pela própria luz do sol
Joias preciosas pra você
Só pra você

Nossa casa é muito, muito agradável
Com dois gatos no quintal
A vida costumava ser tão difícil
Agora tudo é fácil
Por causa de você
E nossa la, la, la, la, la

E nossa

Eu acenderei o fogo
E você põe as flores no vaso
Aquelas que você comprou hoje


*Faço de todas as palavras do Nash as minhas. Porém, troco os dois gatos por uma cachorrinha e um passarinho.