domingo, 12 de maio de 2013

FLORES PARA A MINHA MÃE



("Flores para as mães" - na entrada de um supermercado, em véspera do dia das mães - foto: arq. pessoal)


Oi, mãe. 

     Passei pelo supermercado há pouco e o vi colorido de flores. Achei muito bonito todas aquelas cores alegrando o movimento das pessoas. Em especial gostei de observar gente de todas as idades: algumas delas levando uma flor em um vasinho envolto por um arranjo muito bem feito. Como hoje é o dia das mães, fiquei pensando no sorriso que um pequeno gesto de entrega de uma flor pode fazer nascer no rosto de uma mãe que a recebe. 

     Essa pequena observação, transcorrida em um curto lapso de tempo, me fez acreditar que, para os filhos, mãe não tem idade. O tempo das mães, para os filhos, é administrado pelas próprias mães; é medido pelos sorrisos que elas são capazes de dar e pela alegria que demonstram ter.  

(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR O VÍDEO)
(Luciano Pavarotti - "Mamma", de Bixio)

     Então, mãe, vai aí um supermercado inteiro de flores. A senhora rejuvenesce a cada sorriso que dá. Eu e minha irmã ficaríamos muito contentes em ver um sorriso seu por cada uma dessas flores. Pelo seu dia - o das mães -, te oferecemos todas elas. Agradecidos, retribuímos da mesma forma: com todos os sorrisos de alegria por tê-la conosco.

     Um beijo meu.  

("Minha mãe na sala de visitas de casa" - foto: arq. pessoal)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A ESTRADA DO MATADOURO*


(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Triste berrante" -  Solange Maria e Adauto Santos)

     No domingo passei pela "estrada do matadouro". Fui de Guará para Franca. Era esse o caminho que fazia para ir nadar em uma represa - que nem sei se ainda existe. Minha maior aventura era caminhar ou pedalar por aquela estrada que me mostrava árvores, cercas de arame, sol quente... e muita poeira.

     A três ou quatro quilômetros da cidade estava o matadouro municipal. Ali eu parava um pouco. Mas tinha medo de chegar perto dos currais onde os animais condenados ao abate aguardavam sua hora final. Medo e pena. Minha parada era para tomar água, apanhar goiaba no pé, e seguir em frente... ou então para mudar de rumo e voltar para a cidade. Naquele tempo nada era definitivo; todos os rumos podiam ser mudados pelo simples sabor do divertimento... e essa aventura durava o dia todo.

("Minha maior aventura era caminhar ou pedalar por aquela estrada" - foto:  http://farm4.staticflickr.com/3040/3033967645_5ec4922fca_z.jpg)

     Por aquela estrada passavam cavaleiros conduzindo pequenas boiadas. Vi muitas. Ficava assustado... Por ali passavam também muitas carroças puxadas por cavalo. Eu parava para ficar olhando. Comandar um animal, de cima de uma carroça, era um grande desafio que eu desejava ter. Nunca tive. Eu olhava com admiração aqueles homens de chapéu e botinas de couro, rédeas na mão, controlando seus animais com palavras de ordem...

     Aquela estrada já não é mais a mesma. A carroça de então é o automóvel de hoje, e o chão de terra virou asfalto.

     Gostei do que vi. Gostei muito. Tanto daquilo que a lembrança resgatou quanto do que a realidade me apresentou: a estrada sinuosa passando por Ribeirão Corrente até chegar a Franca, com sinais encantados nas curvas do seu relevo marcado pelos seus belos, belíssimos cafezais às margens da rodovia... e o céu lá longe, azulzinho...

(Cafezal na rodovia entre Franca e Ribeirão Corrente - foto: http://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/Southeast/Sao_Paulo/Ribeirao_Corrente/photo1099681.htm)

     Quando era criança não fui de caçar passarinho. Mas, sem saber, fui menino de guardar tudo o que via para poder rever, de repente e involuntariamente, pelo resto da vida.

("Comandar um animal de cima de uma carroça era um grande desafio que eu desejava ter" - fonte: arq. pessoal)


*Rodovia Vicinal José Landim

quarta-feira, 17 de abril de 2013

BURT BACHARACH: UMA GRANDE NOTÍCIA NO JORNAL



 (Tema de abertura do filme "Horizonte Perdido" - Bacharach/David, 1972)
 
     Há uma grande notícia no jornal. Algo muito simples, capaz de dar ritmo ao meu dia. Uma grande notícia. "Burt Bacharach no Brasil!" 

     Começo a cantar sozinho, em silêncio, na mesa do café da manhã: "The moment I wake up, before I put on my make up..."*¹. Cantando em voz baixa me preparo para sair: "Raindrops keep falling on my head..."*². Minha cachorrinha me olha; cantando, converso com ela: "You see this guy, this guy's in love with you..."*³... e cantando, já na rua, desejo bom dia a uma senhora que retorna da feira livre: "Do you know the way to San Jose?"*4 Estou contente. Burt Bacharach no Brasil!

     Não irei vê-lo em São Paulo ou no Rio. Mas essas duas cidades passam a ser agora nossos horizontes-perdidos, reencontrados! De São Paulo e do Rio virão, pelo Bacharach, mensagens e canções construtivas.

     Em "What the world needs now is love*" (que muito lembra "All you need is love", dos Beatles), a mensagem é de que externamente já temos tudo, mas o que nos falta está adormecido dentro de nós.

Senhor, não precisamos de outra montanha,
existem montanhas e encostas suficiente para escalarmos.
Existem oceanos e rios suficiente para atravessarmos,
o bastante para durarem até o fim dos tempos.
O que o mundo precisa agora é de amor, doce amor, 

     E quantas coisas boas conseguimos ver e sentir quando estamos perto de alguém que nos transmite bons sentimentos? E como as pessoas boas atraem coisas boas! Eis a mensagem em "Close to you*".

Porque estrelas caem do céu
Todas as vezes que você caminha?
Assim como eu, elas querem estar
Perto de você

     As coisas boas das nossas vidas já morreram no passado ou ainda estão reservadas para o futuro? O Bacharach diz que entre o passado distante e um futuro que há de vir, o nosso horizonte de coisas boas está perdido e esperando para ser encontrado no presente, dentro de nós. É a mensagem em "Lost Horizon*".

Muitas milhas do passado, antes que você atinja o futuro
Onde o tempo é exatamente o presente
Há um horizonte perdido esperando para ser encontrado.
Há um horizonte perdido
Onde o som das armas
Não mais fere seus ouvidos.

     Quem nunca se sentiu inútil, inexpressivo ou insignificante? Mesmo com esse sentimento nos momentos difíceis, continuamos sendo importantes para muita gente: "The world is a circle*" fala disso.

E só porque você pensa que é insignificante
Não significa que você o seja, absolutamente.
Da mesma forma que um galho fino é como uma árvore para um graveto,
Você é muito importante para alguma pessoa.

     Portanto, assim como do Rio e São Paulo, pelos shows do Bacharach, certamente virão mensagens construtivas publicadas nos jornais, todas as pessoas que forem assisti-lo também têm a responsabilidade de transmitir coisas boas - e humanizar o universo ao seu redor. Afinal, nem todos poderão vê-lo... nem eu.



(Burt Bacharach - Prêmio Gershwin de música popular, 09/05/12, Casa Branca, Washington, D.C. - EUA - foto: http://www3.pictures.zimbio.com/gi/Burt+Bacharach+President+Mrs+Obama+Host+Concert+IkQUYrfK-TJl.jpg)

* músicas gravadas pelo Burt Bacharach 
¹ trecho de "I say a little prayer"
² trecho de "Raindrops keep falling on my head"
³ trecho de "This guy is in love with you"
4 trecho de " Do you know the way to San Jose?"
 

domingo, 14 de abril de 2013

UM AMIGO E UMA MÚSICA


(Eu e o Zé Américo na casa do Daniel - janeiro/2010 - arq. pessoal)

     É interessante a ligação que fazemos de uma pessoa a uma música - ou a um artista ou uma banda. Pelo menos fazíamos. Já não sei se há mais tempo ou poesia para isso... Parece que já não há nem música com alguma letra que passe alguma mensagem que possa retratar um amigo.
 
     Na minha memória afetiva muitos amigos estão ligados a música: o Big Boy está nos Bee Gees, em qualquer das músicas anteriores à fase "Saturday Night Fever" - "First of May" é uma delas; o Quim nas do John Denver - "Leaving on a Jet Plane", com maior intensidade; o Joaquim em "Hello Brother", com o Louis Armstrong; o Tigrão em "Amigo é Prá Essas Coisas", com o MPB 4; o Marquinho em qualquer música do Bread - "Make it with you", dentre tantas; a minha Denise, em todo o repertório do Caetano Veloso; o Daniel em qualquer uma dos Beatles - ou de qualquer Beatle em carreira solo...  

     Nas oportunidades que tenho de estar com amigos de muito tempo, sempre refazemos essas ligações - e reacendemos os fatos que levaram o amigo a estar vinculado a uma música ou um artista. E, relembrando, sempre cantamos juntos. 

     Há algum tempo, em uma noitada na casa do Daniel, estávamos falando disso quando chegou o Zé Américo. E, claro, Zé Américo é sinônimo de "House of the Rising Sun", não só para mim mas para todos que o conhecem. E não ficou por menos. Contamos a ele o assunto sobre o qual estávamos conversando e ele, embalado pela alegria de estarmos juntos - e acompanhado pelo Daniel ao violão - "mandou ver": interpretou "House of the Rising Sun" com o mesmo entusiasmo de sempre. 

     Pois faço hoje essa postagem com inúmeros amigos na minha memória. Especificamente, lembro-me do Zé Américo e daquela noite. E desejando que ele esteja bem, vou buscar o CD do "Animals" que ele me deu, e coloco prá tocar "House of The Rising Sun". 

     - "Zé Américo, um grande abraço!"

(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR)
    ("House of the Rising Sun" - Animals)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

OS EXEMPLOS DO "RONDON"


("Cândido Mariano da Silva Rondon", o Marechal Rondon - foto: www.famososquepartiram.com)


Nem bem comecei o dia e a Regina já me trouxe a notícia: 

- Teve uma briga feia numa escola lá de Guará! Deu na televisão!

Como em geral falam muita coisa por aí, e como em geral brigas feias acontecem a toda hora, não dei muita atenção ao assunto. Até que pensei melhor no que ela havia me dito e perguntei onde a briga havia sido.

- "Foi numa escola; 50 meninos quase se mataram", respondeu-me ela.

Como há em Guará escolas com nome de parentes meus, e como lá também estão as escolas onde cursei o primário, o ginasial e o colegial, procurei maiores esclarecimentos sobre o assunto. 

A informação que a Regina me trouxera deixou-me pensativo. Fiquei ressentido, achando que aquilo não poderia ter ocorrido em uma escola. Ainda mais em Guará, terra de gente tão pacífica e amorosa. Afinal, as escolas foram feitas para dar bons exemplos...  

- "Não, não poderia ter sido em Guará, tampouco em uma escola!" - pensava eu. 

Procurei um jornal e lá estava a notícia estampado em manchete: 

"POLÍCIA INVESTIGA BRIGA GENERALIZADA EM ESCOLA PÚBLICA DE GUARÁ - Pelo menos 50 alunos se envolveram no tumulto" (1). 

Na internet, além da notícia, o vídeo mostrava tudo: "Briga no Rondon", conclui eu.

- No Rondon, puxa...Estudei lá... 

Não me foi confortável ver o nome do "Rondon" vinculado a uma pancadaria. Nos meus anos de "Rondon", se alguém brigava, tinha vergonha de fazê-lo dentro da escola. Fazia-o longe, depois do final de todas as aulas do dia. As partes envolvidas combinavam o "acerto de contas": 

- "Me espera na descida!" - era assim que os aparos de arestas menos civilizados eram combinados...

...e "a descida" significava o ponto da rua onde tudo acontecia. Era ali, todos nós sabíamos onde...

Tudo tinha que ser longe da escola. Não poderíamos desonrar o bom exemplo do nosso patrono; tampouco macular a boa reputação e os bons exemplos que nos davam nossos professores. Afinal o Marechal Rondon, Cândido Mariano da Silva Rondon, militar e sertanista matogrossense que ainda dá nome àquela escola, não poderia estar vinculado a uma história de brigas. Nem o nome dele, como pessoa, e nem a própria escola. Ele havia cuidado da integração do Brasil, desbravado pacificamente a região centro-oeste e parte da norte, havia levado para lá linhas de telégrafo interlingando o litoral brasileiro ao pantanal e à selva amazônica. Ele era, portanto, uma boa referência que tínhamos... e foi também exemplo e referência, como indigenista, para muitos outros brasileiros - como os irmãos Villas-Boas e o Darcy Ribeiro. 

Como, então, desmerecer o privilégio de ser um aluno do "Rondon"? Não, isso, nós meninos daquela escola, não podíamos fazer...

Pelos ensinamentos transmitidos pelos professores do "Rondon" muitos garotos e garotas cresceram e tornaram-se adultos vencedores.

Certamente há hoje na escola professores, funcionários e dirigentes que fazem nascer nos alunos bons ideais, que são para eles uma boa referência. Mas é bom lembrar que por aquela escola passaram seres humanos de exemplos e lembranças memoráreis: Professores Bellido, Joaquim, Sother, Sebastião, Antônio, Toufic; Professoras Assaka, Rosa, Gleide, Cidinha, Carminha, Sônia... Sr. Rodini, Sr. Tonico, Dna. Neguinha, Dna. Erondina... e tantos e tantas outras mais...  

Seria bom que os jovens que ali estudam hoje soubessem que pelos bancos do "Rondon" passaram e formaram-se líderes, vencedores e vencedoras, pais de família e mães lutadoras, jovens de então que, assim como o próprio Rondon, foram à luta pelos seus ideais e venceram: hoje são médicos, promotores, juízes de direito, advogados, engenheiros, comerciantes, administradores públicos, políticos, agricultores, pais e mães bons, íntegros e responsáveis - como qualquer um que hoje ali estuda pode vir a ser!

Não é justo, portanto, que as gerações atuais esqueçam e maculem o bom nome que o "Rondon" sempre teve... nem tampouco é justo que desonrem a memória de todos que por ali passaram.  


 (1) Jornal "A Cidade", 02/abril/13
 
  


terça-feira, 2 de abril de 2013

ENTRE A SINFONIA E OS SERTÕES: A CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE



"Estamos condenados à civilização.
Ou progredimos, ou desaparecemos."
(Euclides da Cunha)


     Lendo mais uma vez o poema da "Sinfonia da Alvorada", do Vinícius de Moraes, as imagens que me foram surgindo, misturadas com a construção de Brasília, foram as de Canudos - descritas por Euclides da Cunha em "Os Sertões".

     Pensando bem, me parece que essa mistura faz algum sentido. Mas somente no que se refere à forma.

     O poema da "Sinfonia" é dividido em cinco partes*; "Os Sertões" em três**. 

     No poema o Vinícius descreveu primeiramente o lugar ("O planalto deserto"):

"(...) No princípio era o agreste: o céu azul, a terra vermelho-pungente e o verde triste do cerrado. Eram antigas solidões banhadas de mansos rios inocentes por entre as matas recortadas. Não havia ninguém. A solidão mais parecia um povo inexistente dizendo coisas sobre nada (...)".
 
     "A Terra" é a primeira parte de "Os Sertões". Ali, o Euclides da Cunha tratou da geologia e da geografia do sertão. Ele descreveu o relevo, a paisagem e a seca. Nessa primeira parte ele desenvolveu a ideia de que já havia ali um prenúncio de revolução; que há milênios o sertão era banhado pelo mar, e que esse sertão era o resultado de um mar extinto pelo solo que se levantara. Que, ainda, o sertão ia virar "praia"; que o homem, com seu trabalho, amenizaria o efeito das secas - conforme profetizava Antônio Conselheiro.  

     Na segunda e terceira partes do poema da "Sinfonia" o Vinícius descreveu o Homem e a Chegada dos Candangos; em "Os Sertões" Euclides da Cunha falou do Homem, do sertanejo.

"Mas agora viera para ficar. Seus pés plantaram-se na terra vermelha do altiplano. Seu olhar descortinou as grandes extensões sem mágoa no círculo infinito do horizonte. Seu peito encheu-se do ar puro do cerrado. Sim, ele plantaria no deserto uma cidade muito branca e muito pura...", diz o Vinícius no poema da "Sinfonia".

     Já em "O Homem" de "Os Sertões", segunda parte de sua obra, Euclides da Cunha discutiu a formação racial do sertanejo. Comparou o mestiço do sertão com o mulato do litoral, afirmando a superioridade racial de um sobre o outro. E concluiu: 

"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral." 

     E, em outra passagem: 

"(...) o andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente (...)"

     Em "A Luta" - terceira parte de "Os Sertões" - Euclides da Cunha mostrou a resistência e a matança - diferente da luta do homem que constrói uma cidade, e que Vinícius mostrou na quarta parte do poema da "Sinfonia": "O Trabalho e a Construção".

     Assim, no poema da "Sinfonia", a luta em união de esforços ergue, eleva, aproxima, celebra a vida e o trabalho:

"E um milhão de metros cúbicos de brita foi necessário, e quatrocentos quilômetros de laminados, e toneladas e toneladas de madeira foram necessárias. E 60 mil operários! Foram necessários 60 mil trabalhadores vindos de todos os cantos da imensa pátria, sobretudo do Norte! 60 mil candangos foram necessários para desbastar, cavar, estaquear, cortar, serrar, pregar, soldar, empurrar, cimentar, aplainar, polir, erguer as brancas empenas..." 

("Ou progredimos..." - foto: Brasília, da janela de um prédio - arq. pessoal)


     Em "Os Sertões" a luta, em desígnios conflitantes, abate, extingue, destrói:

"Concluídas as pesquisas nos arredores, e recolhidas as armas e munições, os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regulamente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho."

 ("...ou desaparecemos." - foto Igreja destruída em Canudos - em http://www.girafamania.com.br/montagem/fotografia-brasil-guerra-canudos.htm)


     E foi por erguer, diferentemente de destruir, que o poema da "Sinfonia" pôde ter uma outra parte - o "Coral" - que é justamente a celebração da beleza resultante da comunhão de esforços construtivos:

"Terra-esperança, promessa de um mundo de paz e de amor (...)" - no poema da "Sinfonia". 

     Desses dois trabalhos o ensinamento que recebemos vem do próprio Euclides da Cunha, no mesmo "Os Sertões":

"Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos."


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR A HISTÓRIA DE CANUDOS
NA LETRA DE UM SAMBA-ENREDO)
(Mestre Marçal - "Os Sertões" - Edeor de Paula - samba-enredo
GRES EM CIMA DA HORA - 1976)


________________________________________
* "A Sinfonia da Alvorada":  I - O Planalto Deserto; II - O Homem; III - A Chegada dos Candangos; IV - O Trabalho e a Construção; V - Coral
** "Os Sertões": I - A Terra; II - O Homem; III - A Luta

sábado, 30 de março de 2013

BRASÍLIA - SINFONIA DA ALVORADA




("Brasília - vista da Torre de Televisão" - ao fundo, a esplanada dos Ministérios e o Congresso Nacional - foto: arq. pessoal)


     "Brasília - Sinfonia da Alvorada" é um poema sinfônico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Foi composto a pedido do Juscelino Kubitschek, que o queria para a inauguração de Brasília. Mas houve protestos contra a construção da cidade e, por questões de custos relativos a tecnologia para sua apresentação, a cidade foi inaugurada sem a Sinfonia. Gravada em 1960, somente em 1966 ocorreu sua primeira audição.
     Ao retornar de uma viagem à Brasília, e inspirado pelas imagens da cidade que me haviam ficado, fui procurar o poema da "Sinfonia".
     Imaginei que pudesse encontrá-lo em um livro que tenho em casa, e que reúne a obra poética do Vinícius de Moraes em prosa e em verso (1). Não o encontrei. Recorri à internet e lá estava: a "Sinfonia da Alvorada"(2).
     Eu sabia da existência dessa sinfonia e da história que envolvia sua composição pelo Tom e pelo Vinícius. Mas eu nunca havia lido o poema, nem tampouco ouvido a música.
     Fui encontrá-la no youtube. Coloquei para ouvir. Fiquei encantado!
     Ela é dividido em cinco partes (3):

I - O planalto deserto;
II - O homem;
III - A chegada dos candangos;
IV - O trabalho e a construção;
V - Coral

     Na primeira parte ("O Planalto Deserto") o Vinícius descreve o lugar com suas coisas "anteriores ao homem": os campos, as cores, as aves, as auroras...

"No princípio era o ermo
Eram antigas solidões em mágoa.
O altiplano, o infinito descampado (...)" 

     Depois, na segunda parte ("O Homem"), a chegada do homem. O Homem ali chegou para desbravar, para fundar, para erguer e para ficar... O homem trazia, "a antiga determinação dos bandeirantes". "No entanto", explica o autor, "não eram o ouro e os diamantes o objeto de sua cobiça."
     E assim o Vinícius escreveu a respeito do homem que ali chegou para ficar:

"Seus pés plantaram-se na terra vermelha do altiplano. Seu olhar descortinou as grandes extensões sem mágoa no círculo infinito do horizonte. Seu peito encheu-se do ar puro do cerrado. Sim, ele plantaria no deserto uma cidade muito branca e muito pura..." 

     Na terceira parte ("A Chegada dos Candangos"), o Vinícius fala da convocação e da chegada de todos os homens que tinham vontade de trabalhar, e da confiança no futuro. 

"E, à grande convocação que conclamava o povo para a gigantesca tarefa começaram a chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores: os homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra (...) muitas vezes deixando para trás mulheres e filhos a aguardar suas promessas de melhores dias (...)".

     Para essa construção "foi necessário muito mais que engenho, tenacidade e invenção", diz o Vinícius. Ele utiliza das imagens duras das palavras concreto, ferro, cimento, areia e fios para compor a 4ª parte - "O Trabalho e a Construção". Fala, além dos materiais, do tipo de trabalho a ser realizado: 

"desbastar, cavar, estaquear, cortar, serrar, pregar, serrar (...)".

     E descreve ainda o final de cada dia, o crepúsculo, o retorno do trabalhador, 

"as mãos vazias de trabalho e os olhos cheios de horizontes (...)".

     No fim, a cidade pronta, o coro masculino (5ª parte: "Coral"), os homens, os trabalhadores, celebram exultantes a obra concluída: 

"Brasília, Brasília... Brasil, Brasil"... 

     E o poeta, com todo seu lirismo, assim descreve a cidade que havia nascido:

"Terra de sol
Terra de luz
Terra que guarda no céu
A brilhar o sinal de uma cruz
Terra de luz
Terra-esperança, promessa
De um mundo de paz e de amor
Terra de irmãos
Ó alma brasileira...
... Alma brasileira...
Terra-poesia de canções e de perdão
Terra que um dia encontrou seu coração

Brasil! Brasil!
Brasília! 

     Hoje, pensando nessa composição eu me pergunto: "Como passei tantos anos sem conhecê-la?" Mas tudo tem seu tempo. sentido e o valor das coisas aparecem conforme a vida vai nos proporcionando situações novas. Pois foi preciso eu ficar tomado de amores pela construção de Brasília para poder buscar e compreender o significado da sinfonia... da sua "Sinfonia"...   



(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR E OUVIR)
("Sinfonia da Alvorada" - trechos na voz de Vinícius de Moraes
https://www.youtube.com/watch?v=IQ02nAV79ZM)  

___________________________________ 
(1) "Poesia Completa e Prosa". Editora Nova Aguilar - 2ª edição de 1976, reimpressa em 1985)
(2) Para ler o poema inteiro, https://www.letras.mus.br/vinicius-de-moraes/87259/
(3) Para ouvir o poema sinfônico, declamado pelo Vinícius, segue o link do youtube
   I - O Planalto Deserto - https://www.youtube.com/watch?v=MhYYwocpDgw 
   II - O Homem - https://www.youtube.com/watch?v=t2ZsjFDl_ug
   III - A Chegada dos Candangos - https://www.youtube.com/watch?v=9QXdOiYowzM
   IV - O Trabalho e a Construção - https://www.youtube.com/watch?v=OyJVmv5sRg4
   V - Coral - https://www.youtube.com/watch?v=T33IBIK-B9M

sexta-feira, 15 de março de 2013

INTRODUÇÃO AO POEMA DOS OLHOS DA AMADA

     
(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Baden Powell - "Introdução ao Poema dos Olhos da Amada")


     Minha amiga Ruth apresentou-me há alguns anos a um violonista - o Vicente. Eu já o conhecia, mas nem ele e nem ela sabiam disso. Por muitos anos eu o via tocar em um restaurante de um shopping center da cidade. Eu ficava parado do lado de fora olhando, ouvindo e aplaudindo. Entre uma música e outra ele às vezes me notava ali, e agradecia com um sorriso amistoso e modesto. 

(" Vicente ao violão" foto: arq. pessoal, jul/07)

     Depois o restaurante fechou e eu não tive mais notícia dele. Fui revê-lo em um bar onde ele tocava, cantava e acompanhava quem quer que se dispusesse a se apresentar: bossa-nova para o início da noite, mpb para mais tarde, boleros e tangos para as altas horas. E havia nesse bar, que era na verdade uma casa, um quintal com um "farolito" em torno do qual se dispunham as mesas. Estive lá muitas vezes. Nos finais de semana, quando por lá não aparecia, pelo menos passava em frente prá ter certeza de que estava em atividade. Um dia tive notícia de que o violonista não tocava mais ali. Disseram-me que ele havia ido para outro lugar, mas não souberam precisar onde.

     Anos depois, em um encontro de amigos - e a convite da Ruth que o havia localizado - o Vicente apareceu para passar uma tarde conosco. Assim ficamos mais próximos, e pude mostrar a ele meu gosto musical. Naquele dia ele nos disse que havia parado de tocar "na noite"; que estava dando aulas de violão e canto.


(Cartão do Vicente)

     A Ruth, há pouco tempo, contou-me que soube que o Vicente estava tocando em uma cantina italiana, onde se ouve música, toma-se vinho e janta-se bem. Eu e a Denise pegamos o endereço e fomos logo para : uma casa térrea também com quintal e plantas, e o Vicente ao fundo, apertado, quase escondido atrás de um pilar. Ao me ver entrar cumprimentou-me com o mesmo sorriso amistoso e modesto, e foi logo dizendo ao microfone - "dessa você me falou que gosta". E presenteou-me com a "Introdução ao Poema dos Olhos da Amada" em violão solo.

     De fato, gosto muito. O "Poema dos Olhos da Amada" é belíssimo. Costumo ouvir com muita frequência, no violão do Baden, a "Introdução" a esse poema. Ouvi-lo naquela noite e naquele lugar foi como fechar os olhos e pensar na minha pátria estando distante dela.  Pedi para o Vicente repetir. Repetiu. No final da noite, ao me ver levantar para ir embora, despediu-se oferecendo-me a mesma música, pela terceira vez. 

     Tenho ído com frequência naquela cantina para ouvir o Vicente. Lá sou sempre recebido com o mesmo presente: a "Introdução ao Poema dos Olhos da Amada".

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
O POEMA NA VOZ DO VINÍCIUS DE MORAES)
("Poema dos Olhos da Amada" - Vinícius de Moraes/Paulo Soledade)
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Poema Dos Olhos Da Amada


Oh, minha amada / Que os olhos teus / São cais noturnos / Cheios de adeus
São docas mansas / Trilhando luzes / Que brilham longe / Longe nos breus 

Oh, minha amada / Que olhos os teus / Quanto mistério  / Nos olhos teus
Quantos saveiros  / Quantos navios / Quantos naufrágios  / Nos olhos teus

Oh, minha amada / Que olhos os teus/ Se Deus houvera  / Fizera-os Deus
Pois não os fizera / Quem não soubera  / Que há muitas eras  / Nos olhos teus

Ah, minha amada  / De olhos ateus / Cria a esperança  / Nos olhos meus
De verem um dia  / O olhar mendigo  / Da poesia / Nos olhos teus

("Psiu, ei amada... olha prá cá! Mostra o quanto seus olhos são bonitos, vivos e cheios de esperança..." - foto: arq. pessoal)

domingo, 3 de março de 2013

CARTA AO TOM


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Carta ao Tom 74" - Toquinho e Vinícius)


     Em 1974 foi lançado o disco "Toquinho & Vinícius". Dentre as onze músicas nele gravadas, uma delas foi "Carta ao Tom 74" - que fez muito sucesso, e é muito cultuada por todos os que gostam do Vinícius. Nessa música o poeta relembra com saudades declaradas o período em que Tom Jobim morava em Ipanema, na Rua Nascimento Silva, número 107, e compara a sua Ipanema daquele tempo (1953 a 1962) com a Ipanema de 1974. Ali ele contrasta a Ipanema que "era só felicidade", que "era como se o amor doesse em paz", com "esse Rio de amor que se perdeu".

(Janela da casa da Rua Nascimento Silva, 107, de onde se via um cantinho de ceu e o Redentor - foto: arq. pessoal - presente recebido do meu amigo Abrahão)

CARTA AO TOM 74

Rua Nascimento Silva, cento e sete
Você ensinando prá Elizete as canções de "Canção do Amor Demais".
Lembra que tempo feliz, ai que saudade,
Ipanema era só felicidade,
Era como se o amor doesse em paz.
Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria, esse Rio de amor que se perdeu.
Mesmo a tristeza da gente era mais bela,
E além disso se via da janela um cantinho de ceu e o Redentor.
É meu amigo, só resta uma certeza,
é preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor.

     Mas o que me chama a atenção nessa música é o seu título: "Carta ao Tom 74". E por que o "74" ? Simplesmente por ter ela sido composta naquele ano? Certamente não foi só por esse motivo.

     No ano de 1964 o Vinícius morava na França, onde era delegado do Brasil na UNESCO. Na véspera de uma viagem sua de lá para cá, ele, "sozinho em um quarto de hotel", em um dia de aniversário da independência do Brasil, escreve uma carta ao Tom. O texto dessa carta é lido por ele no show "Vinicius & Caymmi no Zum Zum", realizado em 1968 na boate Zum Zum, no Rio de Janeiro - e foi gravado depois em disco com o mesmo nome do show. O título da carta, na gravação, é "Carta ao Tom"(1).

     Então, penso eu, "Carta ao Tom 74" tem esse "74" para diferenciá-la da anterior.

     A "Carta ao Tom" é muito  bonita. Nela, distante de sua pátria, sentindo-se só, o poeta deixa-se rodear de amigos pelo pensamento, mostra carências de momento e expectativas futuras - diferente da "Carta ao Tom 74" na qual ele, comparando transformações ocorridas em Ipanema, descreve lembranças e impressões a respeito do bairro.

     Sentado no sofá da sala de casa eu coloco para tocar novamente o "Vinícius e Caymmi no Zum Zum". "Bom Dia Amigo", interpretada pelo Quarteto em Cy, abre o Lado A do disco, e cria um ambiente frio e vazio de "quarto de hotel em uma noite sem qualquer perspectiva". Na sequência, o Vinícius lê a Carta: atentamente, ouço mais uma vez sua leitura... e transcrevo a Carta aqui para que todos nós possamos sentir o mesmo que o poeta sentiu naquele já distante sete de setembro...

("Bom dia Amigo" e "Carta ao Tom" - Do disco "Vinícius e Caymmi no Zum Zum" - 1965)


Porto do Havre, sete de setembro de 1964

Tomzim Querido:

     Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça, que dá para toda solidão do mundo. São dez horas da noite e não se vê viv'alma. Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu. E como sempre, nessas horas, escrevo para você cartas que nunca mando. 
     Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente tenho o Brasil que é uma paixao permanente em minha vida de constante exilado. A coisa ruim é que hoje é sete de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa que me cairia muito bem com o Baden mandando brasa no violão. Há pouco telefonei para lá para cumprimentar o embaixador e veio todo mundo ao telefone: estão queimando um óleo firme! 
     Você já passou um sete de setembro, Tomzinho, sozinho num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perespectiva? É fogo, maestro!
     Estou doido para ver você e Carlinhos e recomeçar a trabalhar. Imagine que esse ano foi praticamente dedicado ao Baden, pois Paris não é brincadeira. Mas agora o tremendão aconteceu mesmo. A europa teve que curvar-se. Mas ainda assim fizemos umas musiquinhas como "Formosa". Você vai ver. Tudo sambão. Parece até que a saudade do Brasil, quando a gente está longe, procura mais a forma do samba tradicional do que a bossa-nova, não é engraçado? São, como diria o Lucio Rangel, as raízes.
     Vou agora escrever para casa pedindo dois menus diferentes para a minha chegada. Para o almoço um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco, bem tostadinho, uma couvinha mineira e doce de coco. Para o jantar uma galinha ao molho pardo, com um arroz bem soltinho, e papos-de- anjo. Mas daqueles como só a mãe da gente sabe fazer. Daqueles que se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer metida num banho morno e em trevas totais. Pensando, no máximo, na mulher amada. Por aí voce vê como estou me sentindo nem cá nem la. 
     Fiquei muito contente com o sucesso de "Garota de Ipanema" nos Estados Unidos. E a Astrudinha, hem? Que negócio tao direito! Vamos ver se dessa vez os intermediários deixam algum para nós. 
     Fiquei muito contente também com a noticia do sucesso de "Berimbau" aí no Brasil. Dizem que estão tocando a musiquinha para valer. Isso me alegra muito pelo Baden. E prá que mentir, por mim também. É bom saber que a gente não foi esquecido, que o povo continua cantando as nossas coisas, pois no fundo é pra ele que a gente compõe. Lembro-me tão bem quando fizemos o samba uma madrugada, há uns três anos atras, por aí. Eu disse a Baden: 'isso tem pinta de sucesso!' E ficamos cantando e cantando o samba até o sol raiar...

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(1) Além da gravação em disco, essa carta foi publicada no Livro "Querido Poeta: correspondência de Vinícius de Moraes" - seleção organizada por Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2003