terça-feira, 25 de junho de 2013

A PAZ



 ("Give peace a chance" - John Lennon)

                                        "Somente pessoas interiormente pacificadas
                                        podem ser operadoras efetivas da paz"
                                        (Leonardo Boff)


Nas ruas os cartazes, as pessoas, os policiais;
nas conversas os posicionamentos, as certezas, as convicções;
na internet as frases de apoio e as de rejeição... a uns e a outros.

"E aqui, no meu pensamento?" - me pergunto.  

Qual o caminho? 
Como resolver?
A quem lamentar? 
O que será do mundo?
O que será do Brasil?
O que será de nós?
O que será de mim?

"Não tenho certeza de nada...!" - me respondo.

Melhor olhar para dentro,
reavaliar para poder buscar... 

E agradecer.
Agradecer por estar rodeado de pessoas de quem gosto,
e que gostam de mim...
e que me abraçam
com sincero brilho no olhar.


(fonte: http://www.osinvicioneiros.com.br/2010_06_01_archive.html)

sábado, 22 de junho de 2013

O FUTEBOL E SUAS LIÇÕES



(fonte: ferraztaticas.blogspot.com.br)


O futebol inspira uma série de reflexões. Inclusive, promove comparações em relação às formas de condução dos diferentes povos.

Fiquei pensando nisso outro dia enquanto assistia um jogo pela Copa das Confederações. A disposição dos times no gramado e a forma tática de jogar eram totalmente diferentes. Os jogadores de um time jogavam valorizando a troca de passes curtos, evoluindo e envolvendo o adversário sem prender a bola; os jogadores do outro recebiam a bola, conduziam-na, prendiam-na, buscavam o drible ou procuravam um passe longo na esperança de despertar a "fúria" individual de algum jogador talentoso.

No jogo uma seleção, valorizando o toque rápido e o passe de bola, mostrava o valor do conjunto, de cada jogador individualmente como parte importante do todo, construindo uma equipe. Na outra seleção os jogadores correndo com a bola, indo "na raça", esperando a "explosão" de algum talento isolado, evidenciava o culto à individualidade. 

As diferentes formas de jogar refletem a cultura de cada país. E exatamente como mostra o futebol - penso eu -, em países instáveis a política tem se desenvolvido - e as instituições (não) têm funcionado.

Nas instituições, assim como no futebol, é necessário que impere a impessoalidade do coletivo. É claro que, eventualmente, alguém mais habilidoso faz a diferença - como fez Pelé, como tem feito Messi no futebol... Mas isso é raro, circunstancial... Porque precisamos ficar na expectativa do surgimento de um ser único, de um talento individual, que faça as coisas funcionarem bem?

As instituições são a nossa maneira de nos protegermos da personalidade e dos abusos de poder. Mas, internamente, o que temos visto é a prevalência da pessoalidade. Nossa cultura e nossa ordem social está construída em torno do indivíduo, e não em função de um coletivo impessoal.  

Mas, voltando ao futebol: e a seleção brasileira? é pelo coletivo ou pelo individual? Os jogadores formam um conjunto que evolui com a participação de todos, ou o sucesso do grupo está dependendo da "explosão" do talento de um só? 

E ainda, por extensão, o que esperamos de nossas instituições? Que sejam compostas por agentes que trabalham coletivamente sob os critérios de impessoalidade, ou que sejam um aglomerado de indivíduos isolados que podem a qualquer momento, e por algum de seus agentes, na raça, na marra, no grito e no peito, "chutar o pau da barraca" e reinventar o Brasil?   

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O SINO DO RONDON


A idéia da existência de um sino é a de ter sido feito para produzir um som anunciando alguma coisa. Muitos acabam incorporados à cultura, à História de um determinado lugar, e acabam até ganhando nome.

O famoso "Liberty Bell" (sino da Liberdade), por exemplo, é o símbolo que marcou o início do nascimento de um país independente. Seu toque mais famoso, em 1776, convocou os cidadãos da Filadélfia para a leitura da Declaração da Independência dos Estados Unidos. Esse sino está exposto publicamente, como marco daquele momento histórico, na cidade da Filadélfia.

( "The Liberty Bell" (o sino da liberdade) - Filadélfia, EUA - fonte: 7usa8.com)


O "Tsar Kolokol" (Sino dos Sinos), exposto no Kremlin em Moscou - sede do governo da Rússia - é considerado o maior sino já fundido em bronze. 


("Tsar Kolokol" - Moscou - fonte: pt.wikipedia.org)


O mais antigo do mundo, datado de 1287, foi encontrado em 2002 em escavações arqueológicas feitas junto à igreja de São Pedro, em Coruche - Portugal. Está hoje no Museu de Coruche.


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("Sino encontrado nas escavações em Coruche, Portugal"- fotos (1) superior, conforme encontrado; (2) inferior, reconstituído - fonte: www. archeofactu.pt)


Há também uma porção de sinos anônimos que desapareceram porque foram fundidos e tornaram-se um canhão de guerra. E esse canhão está aqui no Brasil. Mais especificamente na cidade do Rio de Janeiro, no Museu Histórico Nacional. Ele fica ali "guardado" e exposto como troféu militar, tomado que foi na Guerra do Paraguai (1864/1870). 



("Canhão El Cristiano" - fonte: www.forte.jor.br)


Mas, veja só que coisa! Silenciaram uma cidade e as mensagens vindas de seus sinos para transformar seus sons em uma nota única, grave, mortífera, sem melodia - e que ninguém quer ouvir: o som de tiro de canhão. 

Esse canhão ficou conhecido como "El Cristiano" (o Cristão), por ter sido construído do metal fundido dos sinos das igrejas de Assunção. Ainda hoje esse canhão é motivo de discussões diplomáticas entre os governos brasileiro e paraguaio - que está reivindicando o seu retorno àquele país. 

De qualquer forma, enquanto há sinos famosos, grandes, antigos e fundidos, considero também um outro, para mim muito emblemático, cujo paradeiro ignoro: o sino do colégio Marechal Rondon, onde estudei. Era um sino de bronze, pesado, com um longo cabo de madeira e badalo, para ser tocado manualmente.

Um dia, por obra do meu amigo endiabrado M.A., o badalo desapareceu. Somente poucos alunos ficaram sabendo disso. Para alegria ingênua do nosso grupinho que aguardava o seu toque para entrar em sala de aula, a saudosa inspetora (Dona E.) desesperou-se: balançava e balançava, chacoalhava e chacoalhava aquele sino pesado, de um lado para o outro, uma vez, outra, e outra, mas ele não produzia som algum... E foi por não poder anunciar o início das aulas por intermédio do seu toque que ele, sem badalo, tornou-se "símbolo da glória juvenil dos alunos sobre o sistema". Ficou, por isso, famoso, ganhou notoriedade, e até um apelido carinhoso: "o sino do Rondon".





quarta-feira, 5 de junho de 2013

A MENSAGEM DOS SINOS


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
Altamiro Carrilho e Niquinho - "Ave Maria" (Erothides de Campos)


     Os sinos falam; transmitem mensagens. Os sinos tocam para anunciar cinzas, para chorar pelos mortos em finados, para celebrar a ressurreição, para anunciar festas e funerais, para convidar os fiéis para as missas, para embalar o Natal, para trazer esperança por um Ano-Novo... Triste pensar que torres de concreto das grandes cidades verticais podem abafar seus sons; ou que, pior, instrumentos eletrônicos podem, um dia, vir a substituí-los. 

     Com linguagem que segue um conjunto de regras litúrgicas e uma certa liberdade para intervenção do sineiro, o toque dos sinos em Minas Gerais foi tombado como patrimônio nacional em 2009. As igrejas de São João del Rei, Ouro Preto, Mariana, Congonhas e Tiradentes, dentre outras, foram referência.

     Lembro-me da alegria triste de ouvir, em um final de tarde, o som dos sinos da igreja de São Francisco de Assis, em São João del Rei. Foi pouco tempo depois da morte do presidente da república eleito, Tancredo Neves (21/04/1985). Da janela de um hotel eu contemplava a cidade, quando ouvi aquele diálogo com Deus...

PARA OUVIR OS SINOS, CLIQUE NA SETA
 ("O som dos sinos da igreja de São Francisco de Assis, em São João del Rei")

     Lembro-me também da emoção indescritível ao ouvir os sinos da Catedral de York. Eu caminhava distraído pelas ruazinhas daquela cidade inglesa medieval quando ouvi o som dos sinos, vindo pelo ar, preenchendo os espaços, as pessoas olhando... Apoiei-me na parede mais próxima para olhar o céu e ouvir a mensagem enviada dali para o infinito... 

 "Eu caminhava distraído pelas ruazinhas daquela cidade..." - foto: arq. pessoal - set2011)

 ("A catedral de York" - foto: arq. pessoal - set2011)

     Muito me sensibiliza, por motivos óbvios, a lembrança do badalar dos sinos da igreja da minha cidade natal... Outro dia seus sons, depois de muitos anos, me vieram pelos fios de telefone. De muito distante eu conversava com um amigo que lá estava. Paramos os dois, quietos, e ficamos ouvindo aquela mensagem que estava sendo enviada... 

("A igreja da minha terra natal" - foto: facebook - Pref. Municipal Guará,SP)

     Quando penso naquela igreja - a "minha" igreja -, mesmo estando silentes os sinos, a mensagem que ouço é sempre a mesma: "badaladas para a Ave Maria"... talvez por ter ouvido por ali, algum dia, um trecho da música "Ave-Maria", de Erotides de Campos (1896/1945) que dizia:

"(...) Nesta hora de lenta agonia
quando o sino saudoso murmura
badaladas da Ave Maria.

Sino que tange
com mágoa dorida
recordando os sonhos da aurora da vida
Dai-me ao coração paz e harmonia
Da prece da Ave-Maria"

     Mas nem sempre os sinos puderam dialogar com Deus. Algumas vezes eles foram calados - como foram calados por um tempo em Assunção, no Paraguai, quando foram arrancados de seus campanários. Mas isso é assunto para uma outra conversa...

domingo, 12 de maio de 2013

FLORES PARA A MINHA MÃE



("Flores para as mães" - na entrada de um supermercado, em véspera do dia das mães - foto: arq. pessoal)


Oi, mãe. 

     Passei pelo supermercado há pouco e o vi colorido de flores. Achei muito bonito todas aquelas cores alegrando o movimento das pessoas. Em especial gostei de observar gente de todas as idades: algumas delas levando uma flor em um vasinho envolto por um arranjo muito bem feito. Como hoje é o dia das mães, fiquei pensando no sorriso que um pequeno gesto de entrega de uma flor pode fazer nascer no rosto de uma mãe que a recebe. 

     Essa pequena observação, transcorrida em um curto lapso de tempo, me fez acreditar que, para os filhos, mãe não tem idade. O tempo das mães, para os filhos, é administrado pelas próprias mães; é medido pelos sorrisos que elas são capazes de dar e pela alegria que demonstram ter.  

(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR O VÍDEO)
(Luciano Pavarotti - "Mamma", de Bixio)

     Então, mãe, vai aí um supermercado inteiro de flores. A senhora rejuvenesce a cada sorriso que dá. Eu e minha irmã ficaríamos muito contentes em ver um sorriso seu por cada uma dessas flores. Pelo seu dia - o das mães -, te oferecemos todas elas. Agradecidos, retribuímos da mesma forma: com todos os sorrisos de alegria por tê-la conosco.

     Um beijo meu.  

("Minha mãe na sala de visitas de casa" - foto: arq. pessoal)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A ESTRADA DO MATADOURO*


(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Triste berrante" -  Solange Maria e Adauto Santos)

     No domingo passei pela "estrada do matadouro". Fui de Guará para Franca. Era esse o caminho que fazia para ir nadar em uma represa - que nem sei se ainda existe. Minha maior aventura era caminhar ou pedalar por aquela estrada que me mostrava árvores, cercas de arame, sol quente... e muita poeira.

     A três ou quatro quilômetros da cidade estava o matadouro municipal. Ali eu parava um pouco. Mas tinha medo de chegar perto dos currais onde os animais condenados ao abate aguardavam sua hora final. Medo e pena. Minha parada era para tomar água, apanhar goiaba no pé, e seguir em frente... ou então para mudar de rumo e voltar para a cidade. Naquele tempo nada era definitivo; todos os rumos podiam ser mudados pelo simples sabor do divertimento... e essa aventura durava o dia todo.

("Minha maior aventura era caminhar ou pedalar por aquela estrada" - foto:  http://farm4.staticflickr.com/3040/3033967645_5ec4922fca_z.jpg)

     Por aquela estrada passavam cavaleiros conduzindo pequenas boiadas. Vi muitas. Ficava assustado... Por ali passavam também muitas carroças puxadas por cavalo. Eu parava para ficar olhando. Comandar um animal, de cima de uma carroça, era um grande desafio que eu desejava ter. Nunca tive. Eu olhava com admiração aqueles homens de chapéu e botinas de couro, rédeas na mão, controlando seus animais com palavras de ordem...

     Aquela estrada já não é mais a mesma. A carroça de então é o automóvel de hoje, e o chão de terra virou asfalto.

     Gostei do que vi. Gostei muito. Tanto daquilo que a lembrança resgatou quanto do que a realidade me apresentou: a estrada sinuosa passando por Ribeirão Corrente até chegar a Franca, com sinais encantados nas curvas do seu relevo marcado pelos seus belos, belíssimos cafezais às margens da rodovia... e o céu lá longe, azulzinho...

(Cafezal na rodovia entre Franca e Ribeirão Corrente - foto: http://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/Southeast/Sao_Paulo/Ribeirao_Corrente/photo1099681.htm)

     Quando era criança não fui de caçar passarinho. Mas, sem saber, fui menino de guardar tudo o que via para poder rever, de repente e involuntariamente, pelo resto da vida.

("Comandar um animal de cima de uma carroça era um grande desafio que eu desejava ter" - fonte: arq. pessoal)


*Rodovia Vicinal José Landim

quarta-feira, 17 de abril de 2013

BURT BACHARACH: UMA GRANDE NOTÍCIA NO JORNAL



 (Tema de abertura do filme "Horizonte Perdido" - Bacharach/David, 1972)
 
     Há uma grande notícia no jornal. Algo muito simples, capaz de dar ritmo ao meu dia. Uma grande notícia. "Burt Bacharach no Brasil!" 

     Começo a cantar sozinho, em silêncio, na mesa do café da manhã: "The moment I wake up, before I put on my make up..."*¹. Cantando em voz baixa me preparo para sair: "Raindrops keep falling on my head..."*². Minha cachorrinha me olha; cantando, converso com ela: "You see this guy, this guy's in love with you..."*³... e cantando, já na rua, desejo bom dia a uma senhora que retorna da feira livre: "Do you know the way to San Jose?"*4 Estou contente. Burt Bacharach no Brasil!

     Não irei vê-lo em São Paulo ou no Rio. Mas essas duas cidades passam a ser agora nossos horizontes-perdidos, reencontrados! De São Paulo e do Rio virão, pelo Bacharach, mensagens e canções construtivas.

     Em "What the world needs now is love*" (que muito lembra "All you need is love", dos Beatles), a mensagem é de que externamente já temos tudo, mas o que nos falta está adormecido dentro de nós.

Senhor, não precisamos de outra montanha,
existem montanhas e encostas suficiente para escalarmos.
Existem oceanos e rios suficiente para atravessarmos,
o bastante para durarem até o fim dos tempos.
O que o mundo precisa agora é de amor, doce amor, 

     E quantas coisas boas conseguimos ver e sentir quando estamos perto de alguém que nos transmite bons sentimentos? E como as pessoas boas atraem coisas boas! Eis a mensagem em "Close to you*".

Porque estrelas caem do céu
Todas as vezes que você caminha?
Assim como eu, elas querem estar
Perto de você

     As coisas boas das nossas vidas já morreram no passado ou ainda estão reservadas para o futuro? O Bacharach diz que entre o passado distante e um futuro que há de vir, o nosso horizonte de coisas boas está perdido e esperando para ser encontrado no presente, dentro de nós. É a mensagem em "Lost Horizon*".

Muitas milhas do passado, antes que você atinja o futuro
Onde o tempo é exatamente o presente
Há um horizonte perdido esperando para ser encontrado.
Há um horizonte perdido
Onde o som das armas
Não mais fere seus ouvidos.

     Quem nunca se sentiu inútil, inexpressivo ou insignificante? Mesmo com esse sentimento nos momentos difíceis, continuamos sendo importantes para muita gente: "The world is a circle*" fala disso.

E só porque você pensa que é insignificante
Não significa que você o seja, absolutamente.
Da mesma forma que um galho fino é como uma árvore para um graveto,
Você é muito importante para alguma pessoa.

     Portanto, assim como do Rio e São Paulo, pelos shows do Bacharach, certamente virão mensagens construtivas publicadas nos jornais, todas as pessoas que forem assisti-lo também têm a responsabilidade de transmitir coisas boas - e humanizar o universo ao seu redor. Afinal, nem todos poderão vê-lo... nem eu.



(Burt Bacharach - Prêmio Gershwin de música popular, 09/05/12, Casa Branca, Washington, D.C. - EUA - foto: http://www3.pictures.zimbio.com/gi/Burt+Bacharach+President+Mrs+Obama+Host+Concert+IkQUYrfK-TJl.jpg)

* músicas gravadas pelo Burt Bacharach 
¹ trecho de "I say a little prayer"
² trecho de "Raindrops keep falling on my head"
³ trecho de "This guy is in love with you"
4 trecho de " Do you know the way to San Jose?"
 

domingo, 14 de abril de 2013

UM AMIGO E UMA MÚSICA


(Eu e o Zé Américo na casa do Daniel - janeiro/2010 - arq. pessoal)

     É interessante a ligação que fazemos de uma pessoa a uma música - ou a um artista ou uma banda. Pelo menos fazíamos. Já não sei se há mais tempo ou poesia para isso... Parece que já não há nem música com alguma letra que passe alguma mensagem que possa retratar um amigo.
 
     Na minha memória afetiva muitos amigos estão ligados a música: o Big Boy está nos Bee Gees, em qualquer das músicas anteriores à fase "Saturday Night Fever" - "First of May" é uma delas; o Quim nas do John Denver - "Leaving on a Jet Plane", com maior intensidade; o Joaquim em "Hello Brother", com o Louis Armstrong; o Tigrão em "Amigo é Prá Essas Coisas", com o MPB 4; o Marquinho em qualquer música do Bread - "Make it with you", dentre tantas; a minha Denise, em todo o repertório do Caetano Veloso; o Daniel em qualquer uma dos Beatles - ou de qualquer Beatle em carreira solo...  

     Nas oportunidades que tenho de estar com amigos de muito tempo, sempre refazemos essas ligações - e reacendemos os fatos que levaram o amigo a estar vinculado a uma música ou um artista. E, relembrando, sempre cantamos juntos. 

     Há algum tempo, em uma noitada na casa do Daniel, estávamos falando disso quando chegou o Zé Américo. E, claro, Zé Américo é sinônimo de "House of the Rising Sun", não só para mim mas para todos que o conhecem. E não ficou por menos. Contamos a ele o assunto sobre o qual estávamos conversando e ele, embalado pela alegria de estarmos juntos - e acompanhado pelo Daniel ao violão - "mandou ver": interpretou "House of the Rising Sun" com o mesmo entusiasmo de sempre. 

     Pois faço hoje essa postagem com inúmeros amigos na minha memória. Especificamente, lembro-me do Zé Américo e daquela noite. E desejando que ele esteja bem, vou buscar o CD do "Animals" que ele me deu, e coloco prá tocar "House of The Rising Sun". 

     - "Zé Américo, um grande abraço!"

(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR)
    ("House of the Rising Sun" - Animals)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

OS EXEMPLOS DO "RONDON"


("Cândido Mariano da Silva Rondon", o Marechal Rondon - foto: www.famososquepartiram.com)


Nem bem comecei o dia e a Regina já me trouxe a notícia: 

- Teve uma briga feia numa escola lá de Guará! Deu na televisão!

Como em geral falam muita coisa por aí, e como em geral brigas feias acontecem a toda hora, não dei muita atenção ao assunto. Até que pensei melhor no que ela havia me dito e perguntei onde a briga havia sido.

- "Foi numa escola; 50 meninos quase se mataram", respondeu-me ela.

Como há em Guará escolas com nome de parentes meus, e como lá também estão as escolas onde cursei o primário, o ginasial e o colegial, procurei maiores esclarecimentos sobre o assunto. 

A informação que a Regina me trouxera deixou-me pensativo. Fiquei ressentido, achando que aquilo não poderia ter ocorrido em uma escola. Ainda mais em Guará, terra de gente tão pacífica e amorosa. Afinal, as escolas foram feitas para dar bons exemplos...  

- "Não, não poderia ter sido em Guará, tampouco em uma escola!" - pensava eu. 

Procurei um jornal e lá estava a notícia estampado em manchete: 

"POLÍCIA INVESTIGA BRIGA GENERALIZADA EM ESCOLA PÚBLICA DE GUARÁ - Pelo menos 50 alunos se envolveram no tumulto" (1). 

Na internet, além da notícia, o vídeo mostrava tudo: "Briga no Rondon", conclui eu.

- No Rondon, puxa...Estudei lá... 

Não me foi confortável ver o nome do "Rondon" vinculado a uma pancadaria. Nos meus anos de "Rondon", se alguém brigava, tinha vergonha de fazê-lo dentro da escola. Fazia-o longe, depois do final de todas as aulas do dia. As partes envolvidas combinavam o "acerto de contas": 

- "Me espera na descida!" - era assim que os aparos de arestas menos civilizados eram combinados...

...e "a descida" significava o ponto da rua onde tudo acontecia. Era ali, todos nós sabíamos onde...

Tudo tinha que ser longe da escola. Não poderíamos desonrar o bom exemplo do nosso patrono; tampouco macular a boa reputação e os bons exemplos que nos davam nossos professores. Afinal o Marechal Rondon, Cândido Mariano da Silva Rondon, militar e sertanista matogrossense que ainda dá nome àquela escola, não poderia estar vinculado a uma história de brigas. Nem o nome dele, como pessoa, e nem a própria escola. Ele havia cuidado da integração do Brasil, desbravado pacificamente a região centro-oeste e parte da norte, havia levado para lá linhas de telégrafo interlingando o litoral brasileiro ao pantanal e à selva amazônica. Ele era, portanto, uma boa referência que tínhamos... e foi também exemplo e referência, como indigenista, para muitos outros brasileiros - como os irmãos Villas-Boas e o Darcy Ribeiro. 

Como, então, desmerecer o privilégio de ser um aluno do "Rondon"? Não, isso, nós meninos daquela escola, não podíamos fazer...

Pelos ensinamentos transmitidos pelos professores do "Rondon" muitos garotos e garotas cresceram e tornaram-se adultos vencedores.

Certamente há hoje na escola professores, funcionários e dirigentes que fazem nascer nos alunos bons ideais, que são para eles uma boa referência. Mas é bom lembrar que por aquela escola passaram seres humanos de exemplos e lembranças memoráreis: Professores Bellido, Joaquim, Sother, Sebastião, Antônio, Toufic; Professoras Assaka, Rosa, Gleide, Cidinha, Carminha, Sônia... Sr. Rodini, Sr. Tonico, Dna. Neguinha, Dna. Erondina... e tantos e tantas outras mais...  

Seria bom que os jovens que ali estudam hoje soubessem que pelos bancos do "Rondon" passaram e formaram-se líderes, vencedores e vencedoras, pais de família e mães lutadoras, jovens de então que, assim como o próprio Rondon, foram à luta pelos seus ideais e venceram: hoje são médicos, promotores, juízes de direito, advogados, engenheiros, comerciantes, administradores públicos, políticos, agricultores, pais e mães bons, íntegros e responsáveis - como qualquer um que hoje ali estuda pode vir a ser!

Não é justo, portanto, que as gerações atuais esqueçam e maculem o bom nome que o "Rondon" sempre teve... nem tampouco é justo que desonrem a memória de todos que por ali passaram.  


 (1) Jornal "A Cidade", 02/abril/13
 
  


terça-feira, 2 de abril de 2013

ENTRE A SINFONIA E OS SERTÕES: A CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE



"Estamos condenados à civilização.
Ou progredimos, ou desaparecemos."
(Euclides da Cunha)


     Lendo mais uma vez o poema da "Sinfonia da Alvorada", do Vinícius de Moraes, as imagens que me foram surgindo, misturadas com a construção de Brasília, foram as de Canudos - descritas por Euclides da Cunha em "Os Sertões".

     Pensando bem, me parece que essa mistura faz algum sentido. Mas somente no que se refere à forma.

     O poema da "Sinfonia" é dividido em cinco partes*; "Os Sertões" em três**. 

     No poema o Vinícius descreveu primeiramente o lugar ("O planalto deserto"):

"(...) No princípio era o agreste: o céu azul, a terra vermelho-pungente e o verde triste do cerrado. Eram antigas solidões banhadas de mansos rios inocentes por entre as matas recortadas. Não havia ninguém. A solidão mais parecia um povo inexistente dizendo coisas sobre nada (...)".
 
     "A Terra" é a primeira parte de "Os Sertões". Ali, o Euclides da Cunha tratou da geologia e da geografia do sertão. Ele descreveu o relevo, a paisagem e a seca. Nessa primeira parte ele desenvolveu a ideia de que já havia ali um prenúncio de revolução; que há milênios o sertão era banhado pelo mar, e que esse sertão era o resultado de um mar extinto pelo solo que se levantara. Que, ainda, o sertão ia virar "praia"; que o homem, com seu trabalho, amenizaria o efeito das secas - conforme profetizava Antônio Conselheiro.  

     Na segunda e terceira partes do poema da "Sinfonia" o Vinícius descreveu o Homem e a Chegada dos Candangos; em "Os Sertões" Euclides da Cunha falou do Homem, do sertanejo.

"Mas agora viera para ficar. Seus pés plantaram-se na terra vermelha do altiplano. Seu olhar descortinou as grandes extensões sem mágoa no círculo infinito do horizonte. Seu peito encheu-se do ar puro do cerrado. Sim, ele plantaria no deserto uma cidade muito branca e muito pura...", diz o Vinícius no poema da "Sinfonia".

     Já em "O Homem" de "Os Sertões", segunda parte de sua obra, Euclides da Cunha discutiu a formação racial do sertanejo. Comparou o mestiço do sertão com o mulato do litoral, afirmando a superioridade racial de um sobre o outro. E concluiu: 

"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral." 

     E, em outra passagem: 

"(...) o andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente (...)"

     Em "A Luta" - terceira parte de "Os Sertões" - Euclides da Cunha mostrou a resistência e a matança - diferente da luta do homem que constrói uma cidade, e que Vinícius mostrou na quarta parte do poema da "Sinfonia": "O Trabalho e a Construção".

     Assim, no poema da "Sinfonia", a luta em união de esforços ergue, eleva, aproxima, celebra a vida e o trabalho:

"E um milhão de metros cúbicos de brita foi necessário, e quatrocentos quilômetros de laminados, e toneladas e toneladas de madeira foram necessárias. E 60 mil operários! Foram necessários 60 mil trabalhadores vindos de todos os cantos da imensa pátria, sobretudo do Norte! 60 mil candangos foram necessários para desbastar, cavar, estaquear, cortar, serrar, pregar, soldar, empurrar, cimentar, aplainar, polir, erguer as brancas empenas..." 

("Ou progredimos..." - foto: Brasília, da janela de um prédio - arq. pessoal)


     Em "Os Sertões" a luta, em desígnios conflitantes, abate, extingue, destrói:

"Concluídas as pesquisas nos arredores, e recolhidas as armas e munições, os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regulamente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho."

 ("...ou desaparecemos." - foto Igreja destruída em Canudos - em http://www.girafamania.com.br/montagem/fotografia-brasil-guerra-canudos.htm)


     E foi por erguer, diferentemente de destruir, que o poema da "Sinfonia" pôde ter uma outra parte - o "Coral" - que é justamente a celebração da beleza resultante da comunhão de esforços construtivos:

"Terra-esperança, promessa de um mundo de paz e de amor (...)" - no poema da "Sinfonia". 

     Desses dois trabalhos o ensinamento que recebemos vem do próprio Euclides da Cunha, no mesmo "Os Sertões":

"Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos."


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR A HISTÓRIA DE CANUDOS
NA LETRA DE UM SAMBA-ENREDO)
(Mestre Marçal - "Os Sertões" - Edeor de Paula - samba-enredo
GRES EM CIMA DA HORA - 1976)


________________________________________
* "A Sinfonia da Alvorada":  I - O Planalto Deserto; II - O Homem; III - A Chegada dos Candangos; IV - O Trabalho e a Construção; V - Coral
** "Os Sertões": I - A Terra; II - O Homem; III - A Luta