quinta-feira, 10 de outubro de 2013

CAMPO GRANDE E SEUS DESBRAVADORES


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(Zé do Campo e Camponês - "Campo Grande cidade morena", de Claudemir Rivarola - fonte: https://www.youtube.com/watch?v=AuXD1D3hLyQ)

Lá em Brasília, na Praça dos Três Poderes, há um belíssimo monumento em homenagem aos construtores da cidade: o Monumento aos Candangos.

Pois há também em Campo Grande, capital do Estado do Mato Grosso do Sul, um monumento de igual significado e importância que homenageia os primeiros habitantes daquela cidade. 

Projetado pelas artistas Marisa Oshiro Tibana e Neide Ono, e inaugurado em 1995, o monumento foi erguido ao lado do Horto-Florestal, bem na confluência dos córregos "Prosa" e "Segredo". Com peças fundidas em metal e  sobre uma parede vertical de granito preto, o "Monumento aos Desbravadores" é representado por um carro-de-boi - que foi o meio de locomoção utilizado pelos primeiros colonizadores da cidade, e que, portanto, vieram a ser seus primeiros habitantes.

("Monumento aos Desbravadores" - foto: arq. pessoal)

Dentre os muitos símbolos da cidade - a Morada dos Baís, o relógio da Afonso Pena, o Parque das Nações Indígenas, a Feira central -, o "Monumento aos Desbravadores" se destaca não só pelo que simboliza, mas também pelo valor artístico que traduz a genialidade humana. 

(Av. Afonso Pena, com Morada dos Baís ao fundo - foto: arq. pessoal)

Estive na praça do "Monumento aos Desbravadores" em uma tarde ensolarada, vindo do Mercado Municipal, depois de cruzar a pé o parque do Horto. Fiquei ali por um bom tempo olhando aquele trabalho e pensando nas coisas que buscava o colonizador mineiro José Antônio Pereira - aquele que primeiro chegou ali e se alojou, começando tudo do nada. Que braveza! Hoje com mais de 800 mil habitantes, e 114 anos de fundação, Campo Grande tem muitas praças, ruas e avenidas largas e bonitas - como as avenidas Afonso Pena e Mato Grosso. 

(Relógio Central, na Av. Afonso Pena - foto: arq. pessoal)

Para quem chega e vê Campo Grande do alto, (des)acomodado em uma poltrona de avião, a impressão que tem é de que a cidade surge de repente depois de muito chão desabitado a ser desbravado. Olhando a cidade, do alto, percebi que ela tem seus contornos, seu espaço bastante definido. Do alto e do nada, seus prédios, suas casas, suas ruas e suas muitas árvores vão surgindo no horizonte e tomando forma... 

Se o primeiro colonizador a chegar naquele local visse Campo Grande hoje - penso eu -, ficaria ao mesmo tempo assustado e orgulhoso por ter se alojado ali um dia, sem ter a noção de que aquele lugar seria transformado em uma bela cidade brasileira, habitada por gente de todas as raças e de todas as regiões do nosso imenso - e maravilhoso - país, inclusive mantendo uma forte relação com a cultura indígena. 

(Obra artística - "Índia Terena", na Feira Indígena da Pça Oshiro Takemori - foto: arq. pessoal)

Minha última noite ali não poderia ter sido mais emblemática do que é a simpatia de Campo Grande: fui recebido, junto com minha esposa Denise, na casa do meu primo Arnaldo e da sua esposa Eurinda - ele paulista, ela sul-mato-grossense. Ali, onde crescem no seu quintal uma jabuticabeira, uma mangueira, um pé de cravo e um de macadâmia, jantamos, bebemos, tocamos violão e falamos de fatos, pessoas e histórias que eu ainda não conhecia... e que trouxe para casa prá nunca mais esquecer.

  (Eurinda, Arnaldo e Denise, na varanda - Campo Grande, set/13 - foto: arq. pessoal)      

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O MAR DO NORTE


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("Le Plat Pays" - interpretada por Jacques Brèl)


     Tenho um imenso mapa múndi pendurado em uma das paredes do meu escritório. Passeando com o olhar pelos seus países, suas fronteiras, continentes e oceanos, detenho-me na faixa de mar que banha o Reino Unido, entre Inglaterra e Escócia de um lado, e Noruega, Dinamarca, Alemanha, Holanda e Bélgica do outro. É ali o Mar do Norte.  


(Localização do Mar do Norte - FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Nseamap.gif)

     Conheci-o pelos livros de geografia. Sempre o imaginei frio, gelado, escuro, acobertado por nuvens acinzentadas, de onde assopravam ventos insuportáveis... E sempre imaginava ali em uma de suas praias melancólicas na Bélgica o Jacques Brèl, vestido de roupas quentes e escuras, olhando para a distância, em direção ao litoral da Inglaterra.

     Essa imagem me era constante toda vez que o ouvia cantar "Le Plat Pays" (escrita em 1961)... E houve um tempo nas décadas de 70 e 80 que eu o ouvia com muita frequência...

     Revi essa imagem, depois de muitos anos, quando conheci a Inglaterra. De dentro de uma van em uma noite de frio, em direção a uma cidade chamada Seahouses, nosso guia moveu a cabeça para o lado direito da rodovia e nos apresentou sem que pudéssemos vê-lo: 

     - "On your rightside, the North Sea".  (à direita, o Mar do Norte).

     Através da janela da Van olhei para a escuridão à minha direita, e pensei no Mar do Norte que o Jacques Brèl menciona em um trecho de "Le Plat Pays". 

Com o Mar do Norte como último terreno baldio, 
e com as ondas de dunas para conter as ondas, 
e os vagos rochedos que as marés galgam 
e que têm para sempre o coração na maré baixa... 
Com um nunca acabar de brumas a chegar, 
trazidas pelo vento do oeste, escutem-no resistir, 
este país plano que é o meu...

     Nessa música ele - o Brèl - descreve a terra do seu país - a Bélgica -, e como ela reage a cada um dos quatro ventos. 

     Passei aquela minha primeira noite em uma casa de campo, à beira mar, tentando me interagir com as manifestações do Mar do Norte, ouvindo (sem vê-lo) suas vozes e suas ondas... 

(Budle Hall - a primeira noite com o Mar do Norte - fonte: arq. pessoal)

     Quando alguns dias depois olhei de frente o Mar do Norte, e deslizei minhas mãos pelas suas águas, senti meu corpo todo estremecer não só de frio mas também de emoção...  


(Holy Island of Lindisfarne - ao fundo, o Mar do Norte - fonte: arq. pessoal)


(As pedras do Mar do Norte - fonte: arq. pessoal)

     Pelas águas daquele mar, no lado oposto ao da Bélgica do Brèl - e bem mais ao Norte -, senti o sopro do vento trazê-lo - o próprio Brèl - por intermédio de uma música, para estar ali ao meu lado falando-me de seu país...

     - "Le plat pays qui est le mien..." (o país plano que é o meu) - pensava.

     Curvei-me diante do Mar. E ao acariciar suas águas, uma pedra leve e acinzentada, dentre tantas, desgastada pelo tempo, veio às minhas mãos... Não senti vontade de devolvê-la ao mar. Segurei-a em minhas mãos até que ela secasse; e guardei-a no bolso de meu blusão para trazê-la comigo, em minha mala. 

     Hoje essa pedra está em uma das estantes do meu escritório. Ali eu a guardo como um presente que me foi enviado pelo Jacques Brèl, e que me foi trazida pelas águas frias do Mar do Norte...

(A pedra que me foi dada pelo Mar do Norte - fonte: arq. pessoal)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

OSCAR CASTRO-NEVES

"Nós - 'As Baianinhas' - e o 'Conjunto Castro-Neves' nos juntamos prá fazer esse showzinho prá vocês. Se Vocês gostaram, 'até a próxima vez!'; pois, se vocês gostaram, nós também gostamos do vocês!"

     Era assim que terminava o antológico disco "Vinícius & Caymmi no Zum Zum", de 1965. Nesse finalzinho, "As Baianinhas" são o grupo que viria a ser o maravilhoso "Quarteto em Cy"; e o "Conjunto Castro-Neves", um grupo musical encabeçado por Oscar Castro Neves - um dos pais da Bossa Nova. 

 

     Oscar Castro-Neves apresentava-se como compositor, arranjador, produtor e instrumentista - e não como cantor. Foi ele quem ensaiou toda a turma de artistas para a apresentação da Bossa Nova no Carnegie Hall, nos Estados Unidos, em 1962. Depois desse show, retornando ao Brasil algumas vezes, fixou-se nos Estados Unidos - onde já era conhecido. Excursionou com vários grupos norte-americanos de jazz, e também gravou com Ella Fitzgerald, Barbra Streisand, e até Michael Jackson.  Além disso, também fez trilhas sonoras para o cinema. 

     Morreu na sexta-feira passada, 27 de setembro, aos 73 anos, em Los Angeles (Estados Unidos) - onde morava. 

     Para mim, especificamente, ao contrário do que seria um desaparecimento, sua morte passa a ser uma ressurreição. Pois, se o que eu conhecia dele resumia-se à sua participação no disco "Vinicius & Caymmi no Zum Zum", acabo de ganhar do Abrahão cinco CDs de suas gravações (que ele conseguiu não sei onde - "é sempre um mistério!"). E a partir de hoje, por uns bons dias, informo a quem me lê que é o Castro-Neves quem vai tocar e cantar em muitas das minhas horas para embalar os meus dias. 

(Oscar Castro-Neves em Show no Rio em 2008 - Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,morre-oscar-castro-neves-um-dos-pais-da-bossa-nova-,1079909,0.htm)
   


 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A CATEDRAL METROPOLITANA DE VITÓRIA


Viajar é uma forma de meditar. Quando visito alguma cidade gosto de saber de sua história. Ao planejar a viagem a primeira coisa que faço é consultar guias, procurar fotos e entrar na cidade por intermédio da literatura. Assim, quando coloco os pés onde quer que seja, já tenho uma boa impressão do que representa o lugar, e de quais fatos importantes ali ocorreram. Nesse ambiente e, fundamentalmente, observando as pessoas em sua vida cotidiana, posso me sentar em algum café local e, olhando tudo ao redor, deixar-me impregnar de histórias de outros tempos, de pessoas que são e foram significativos para o lugar. 

O que importa para mim nas viagens é a comunicação sentimental que consigo estabelecer; é o desenvolvimento de uma relação de afeição com os lugares, com as pessoas, os prédios e os objetos que - sempre espero -, possam resultar em um silencioso aprendizado. Em especial, gosto das catedrais, dos centros históricos como um todo, e dos prédios onde funcionam os órgãos do Poder.

E no Espírito Santo, ao visitar sua capital - Vitória -, não foi diferente. 

 (Bairro "Praia do Canto", visto da ponte Ayrton Senna - foto: arq. pessoal)

Logo ao chegar o meu desejo era, de imediato, caminhar pelo centro histórico. Mas tive uma visão cativante da Praia de Camburi, e por lá caminhei, pela calçada, para tomar água de coco. 

(Caminhando pela calçada da Praia de Camburi - foto: eu e minha esposa; arq. pessoal)

De táxi desde a Praia do Canto onde estava hospedado, cheguei no centro histórico e desci bem em frente à Catedral Metropolitana. 

(A Catedral Metropolitana de Vitória - foto: arq. pessoal)

Olhando aquela construção imponente, do lado de fora, não resisti e entrei. Havia logo ali uma monitora que de imediato aproximou-se e, vendo-me com jeito de interessado, começou a apresentar-me o prédio.  

(A Catedral Metropolitana de Vitória: interior - foto: arq. pessoal)

Contou-me que a Catedral Metropolitana de Vitória foi construída no mesmo local da antiga igreja Matriz de Nossa Senhora da Vitória, a qual havia sido edificada ali por volta de 1550. Explicou também que, com o crescente número de fiéis, a igreja foi demolida para ali ter início a construção da atual Catedral. Iniciada em 1920, essa construção estendeu-se até a década de 1970. 

Ali nessa igreja aprendi que as atuais cores da bandeira do Espírito Santo - azul e rosa - foram escolhidas em função das cores do manto e do vestido da santa que consagrou a igreja que estava sendo construída: Nossa Senhora da Vitória. 

(Nossa Senhora da Vitória, na Catedral de Vitória - ES - fonte: http://www.panoramio.com/photo/76007597)

(Bandeira do Estado do Espírito Santo - cores dos vestes de N. Sra. da Vitória)

Os vitrais, utilizados para representar cenas bíblicas, são uma de sua principais atrações. 

(Vitral de entrada da Catedral - à esquerda, "Anjo Gabriel anunciando a vinda do filho de Deus"; à direita, "O poder de São Miguel Arcanjo" - foto: arq. pessoal, com meus filhos)

E no subsolo, na entrada de uma cripta onde estão enterrados alguns dos principais bispos da história da Catedral, há um pequeno mosaico com a imagem de Jesus Cristo ao centro. Maltratada aquela parede pelas ações do tempo, o mosaico resiste...


Da cripta subi alguns degraus para sentar-me, por algum tempo, em um dos bancos centrais da catedral. Dali, em silêncio, fiz uma oração para que os templos pessoais de todos os que entram naquela igreja sejam construídos com solidez e sabedoria suficientes para que, assim como o mosaico com a imagem de Jesus Cristo, consigam resistir às intempéries a que estão constantemente submetidos. 
Feito isso levantei-me e saí caminhando pela rua em direção ao Palácio Anchieta. Mas aí começa uma outra história... 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

"POR VOLTA DA MEIA NOITE" (ou "LEMBRANÇAS DE UM HOMEM BOM")


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(Dexter Gordon - "As time goes by", de Herman Hupfeld, 1931)


Ao João Carlos


     Foi pai, companheiro, e amigo. Depois de uma busca infrutífera aqui no Brasil, no início dos anos 80, conseguiu arrumar trabalho na Mauritânia - noroeste da África. Foi embora. Ficaram a companheira e os parentes. Prometeu voltar logo. 

     Não se conta como foram seus dias no país distante. Mas dois anos se passaram até que ele voltasse. Voltou. Esperavam-no os pais, a companheira, e um filho pequeno. 

     Não ouvi contar, tampouco, dos seus primeiros dias após o retorno. Logo em seguida foi para o sul do Chile, também a trabalho. Levou a companheira e o filho. Era visto sozinho todas as noites no sofá da sala, luzes apagadas, barba por fazer, a mesma roupa do dia todo... ouvindo jazz... adormecido de uísque. 

("Saxophonist" - Leonid Afremov
fonte: http://fineartamerica.com/featured/saxophonist-leonid-afremov.html)

     Logo que chegou ao Chile mandou-me, por correio, com um abraço e uma pequena carta, uma fita K7. Na carta, a recomendação para que eu não deixasse de assistir o filme "Por Volta da Meia Noite"*. Na fita K7, as gravações de seus artistas preferidos. Gostava de música, em especial do sax tenor do Ben Webster, John Coltrane, Stan Getz, Dexter Gordon, Joe Henderson, Lester Young e muitos outros. Conhecia todos. Falava de cada um com muita paixão. Lembro-me de nossas conversas, do seu sorriso bom, da sua alegria de viver, dos papos sobre música; depois, das notícias do filho nos raros telefonemas que me fez. Mas, do retorno da Mauritânia em diante, não foi mais o mesmo - disseram-me os familiares. 

     Um dia, chegou-me a notícia: em uma estrada chilena, nos Andes Patagônicos, em alta velocidade, esborrachou-se contra um caminhão. Era ainda novo, deixou tudo. Deixou lembranças de um homem bom... e uma fita K7 com suas gravações favoritas, que ficou aqui, em uma das gavetas do meu escritório... e que ouço agora, depois de muitos anos.

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*"Round Midnight" (Por volta da meia noite) - dir. Bertrand Tavernier, 1986  

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

SARAH VAUGHAN E A MÚSICA BRASILEIRA


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("Bridges" - Travessia - S. Vaughan e M. Nascimento - do disco "O som brasileiro de Sarah Vaughan" - 1978)


"Há uma categoria para mim.
Gosto de ser identificada como
uma boa cantora de boas canções
e de bom gosto"
(Sarah Vaughan)


     Sarah Vaughan foi uma cantora norte-americana com uma das vozes mais maravilhosas que já ouvi. Nascida em 1924, fez sua primeira gravação em 1944. Cantava jazz. Porém, não se considerava uma cantora exclusivamente de jazz. Ela dizia que gostava de fazer e cantar todo tipo de música.

     E foi por intermédio da MPB que eu a conheci em 1978 ou 79, por aí, quando em alguma estação de rádio a ouvi cantando "Travessia", em inglês, em uma gravação com o Milton Nascimento. Achei totalmente diferente aquela interpretação, e maravilhosa aquela voz forte, com passagens de graduações do grave para o agudo, e vice-versa, com elegância e delicadeza: muita técnica combinada com emoção!

("O som brasileiro de Sarah Vaughan - capa do disco - fonte: http://epifaniar.blogspot.com.br/2011_10_01_archive.html)

     Na época não era fácil encontrar os discos que a gente queria... e também o dinheiro era direcionado para as prioridades... Mas, como para mim música sempre foi prioridade, encontrei o disco e o comprei sem pensar duas vezes. 

     O disco chamava-se "O som brasileiro de Sarah Vaughan" - nos Estados Unidos foi lançado com o nome "I Love Brazil". Nele, todas as músicas gravadas são brasileiras, e nas gravações houve a participação (inclusive vocal) de alguns artistas brasileiros, tais como Milton Nascimento, Dorival Caymmi, Mauricio Einhorn, Wilson das Neves, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Tom Jobim, e outros - cada qual em uma música específica.

     A Sarah Vaughan já havia estado no Brasil em 1958. Mas essa afinidade com a música brasileira nasceu de uma passagem sua por aqui em 1970, quando também participou de uma gravação antológica de programa de TV com o Wilson Simonal.

     Guardo "O som brasileiro de Sarah Vaughan" em vinil até hoje,  com muito carinho, mesmo depois de tê-lo comprado em CD. É, sem dúvida, um dos discos dos quais mais tenho ciúme. Ali ela gravou versões em inglês de clássicos como "Travessia" ("Bridges"), "...Das Rosas" ("Roses and Roses"), "Se todos fossem iguais a você" ("Someone to light up my life")...

     Depois disso, em 1979, ela voltou a gravar músicas brasileiras em um outro disco igualmente belíssimo chamado "Copacabana" (do qual eu destaco a maravilhosa "Tetê", de Menescal/Bôscoli; "Bonita", do Tom; "Copacabana" de Braguinha/A.Ribeiro,... e simplesmente todas as outras).  

     E, como se não bastassem dois discos, em 1987 gravou também "Brazilian Romance" - o terceiro disco com músicas brasileiras.
  
     Sarah Vaughn morreu em abril de 1990.

     Eu, até hoje, continuo me surpreendendo com as descobertas que vou fazendo em suas gravações. Ela é considerada pelos críticos uma das dez maiores cantoras de todos os tempos. Não me canso de ouvi-la.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

"CONCIERTO DE ARANJUEZ": O SEGUNDO MOVIMENTO


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"O 2º movimento- Concierto de Aranjuez"- Orq Filarmônica de Berlim
maestro Daniel Baremboin, solista John Williams


     A respeito do segundo movimento do "Concierto de Aranjuez", o adágio, outro dia anotei o seguinte no meu caderno:

"- Das muitas músicas de que gosto, ele se destaca: o "Concierto de Aranjuez";
- Dos três movimentos desse "concierto", um me cria mais imagens: o segundo;
- Dos compositores clássicos que conheço, um é admirável: Joaquin Rodrigo;
- Dos muitos vídeos que já vi, um se sobressai: gravado em Berlim, Alemanha;
- Dos locais onde esse vídeo poderia ter sido gravado, um se adequou muito bem: uma praça;
- Dos muitos violonistas que conheço, um encontra todas as notas: John Williams;
- Dos maestros que aprendi a conhecer, um é perfeito: Daniel Baremboin;
- Das orquestra que vi tocar, uma é inesquecível: a Orquestra Filarmônica de Berlim."

(Cartaz de apresentação do maestro Daniel Baremboim: fonte: arq. pessoal)

      Quando o meu tempo tiver se consumado, quero repousar ouvindo esse movimento do "Concierto". E mais: gostaria que, nesse momento e nessa circunstância específicos, o silêncio fosse absoluto. Sem o necessário silêncio, podem colocar um "rap" pra tocar e conversar, falando bem alto... mas, por favor, longe de mim: me deixem de lado... bem quieto... sozinho, que seja... Antes de ir, quero ouvir em paz o segundo movimento do "Concierto de Aranjuez".

(Fonte de Hércules e Hidra no "Jardin de la isla" do Palácio Real de Aranjuez - fonte: http://guias-viajar.com/madrid/pueblos-alrededores/aranjuez-fotos-jardin-isla-palacio-real/)


terça-feira, 10 de setembro de 2013

ARANJUEZ, MON AMOUR


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(VIDEO: Clique para ouvir o Richard Anthony)

     É realmente incrível o quanto a música mexe com a gente. Com ela sonhamos, viajamos, criamos e nos nutrimos de esperanças. Com a imaginação estimulada por uma música podemos tudo, fazemos tudo. E é bom que seja mesmo assim. Afinal, sem as fantasias a vida fica muito chata. Pois vejam só... 

     Eu era ainda muito jovem quando ouvi "Aranjuez mon amour" pela primeira vez. Tínhamos lá em casa um compacto simples; o cantor era Richard Anthony, em gravação de 1967. 


 (FOTO: "Tínhamos lá em casa um compacto simples" - fonte: http://bimg2.mlstatic.com/richard-anthony-aranjuez-mon-amour-vinil-compacto_MLB-F-193948441_3957.jpg)

     Como a letra, escrita por Guy Bontempelli*, era em francês e eu não tinha condição de entendê-la, debruçava-me em frente à vitrola e, olhando o disco girar, as imagens se sucediam a cada vez que ouvia a música. Ao longo dos anos, a imagem que a música me inspirou foi a de uma viagem aérea... uma viagem a lugares distantes, sobrevoando países, observando de cima seus edifícios, ouvindo seus sons e sentindo o pulsar de vida existente no povo de cada lugar por onde essa viagem acontecesse... uma viagem longa e compassada... 

     Estranho, pois tal imagem nada tem a ver com a letra da música, que fala de amor, de rosas e do tempo, muito embora tenha sido inspirada (a letra) em um triste episódio das Guerras Napoleônicas (1806-1808). Mas, talvez essa imagem me tenha vindo pelo andamento da música, lembrando um movimento lento e contínuo... a sequência do acorde inicial do violão, a melodia suave do instrumento de sopro que entra em seguida... 

     Só depois de ter ouvido o Richard Anthony é que fui descobrir, anos mais tarde, que "Aranjuez mon amour" havia nascido do segundo movimento do "Concierto de Aranjuez", composto pelo espanhol Joaquin Rodrigo em 1939.  



(FOTO: "Joaquin Rodrigo" - 1901-1999 - fonte: http://music.minnesota.publicradio.org/features/9907_rodrigo/images/rodrigo_older_lg.jpg)

     Dentre as músicas de que gosto, talvez essa esteja entre as cinco primeiras. Carreguei por muitos e muitos anos esse nome, "Aranjuez", sem saber o seu significado.

     Mas como as coisas sempre acontecem quando a gente menos espera, foi em uma reunião, há uns dez anos, por aí, que descobri o que é "Aranjuez". Eu estava em uma roda de amigos. Uma das amigas de minha esposa aproximou-se e apresentou-nos seu companheiro, natural da Espanha. Conversamos com ele sobre viagens, países e costumes. E ao falarmos sobre a Espanha, contou-nos que era natural de uma cidadezinha ao sul de Madri, chamada "Aranjuez".

     - "Aranjuez ? É uma cidade ? Caraca, não sabia disso!" - exclamei em voz alta.

(FOTO: Fonte de Vênus, Jardin de la Isla en Aranjuez - fonte: http://cecibustos.wordpress.com/2009/08/19/guillermo-carnero-capricho-en-aranjuez/)

     Todos ao meu redor se espantaram ao ver minha reação ao ouvir e repetir várias vezes o nome daquela cidade...

     - "Aranjuez... Aranjuez... 'Aranjuez, mon amour'"!, completei.

     Minha esposa e as demais pessoas que estevam naquele grupo não entenderam nada...

     - "Isso mesmo!", disse o companheiro da amiga, "foi por tudo que a cidade inspirou no Joaquin Rodrigo que ele compôs o 'Concierto de Aranjuez'".

     A partir daí, esclarecidos os comentários, a conversa no grupo passou a ter como tema o Joaquin Rodrigo, o Concierto de Aranjuez, e, inevitavelmente, a cidade de Aranjuez.

     Foi nessa noite, então, que descobri, que Aranjuez é uma cidade Medieval, com bosques e antigos palácios rodeados por jardins e fontes.

     Mesmo com tal descoberta, a viagem que sempre imagino, ao ouvir o "concierto", em nada foi alterada. Pelo contrário. Agora, ao ouvir o segundo movimento do "concierto", vejo também cavaleiros medievais, castelos, reis e rainhas sendo formados ao som do seu primeiro movimento.

     E, aliando a minha viagem, no segundo movimento, com os cavaleiros medievais do primeiro (movimento), o terceiro (movimento) acrescenta a imagem desses mesmos cavaleiros, em campos floridos, empunhando as bandeiras de seus reinos, em incansáveis passeios no entorno de seus castelos.

(FOTO: Palácio Real - Aranjuez - fonte: http://thelife-roadtrip.blogspot.com.br/2010_11_01_archive.html)

     O "Concierto" celebrizou o seu autor. Joaquin Rodrigo perdeu a visão ainda criança (aos quatro anos de idade), e faleceu em 1999 com 98 anos. Sua percepção da cidade de Aranjuez ficou traduzida nos sons e perfumes que sentia quando lá estava - e que lhe inspiraram o belíssimo "Concierto": o "Concierto de Aranjuez".

ARANJUEZ, MON AMOUR

 

Mon amour, sur l'eau des fontaines, mon amour

Ou le vent les amènent, mon amour

Le soir tombé, on voit flotter

Des pétales de roses

 

Mon amour et des murs se gercent mon amour

Au soleil au vent à l'averse et aux années qui vont passant

Depuis le matin de mai qu'ils sont venus

Et qu'en chantant, soudain ils ont écrit sur les murs du bout de leur fusil

De bien étranges choses

 

Mon amour, le rosier suit les traces, mon amour

Sur le mur et enlace, mon amour

Leurs noms gravés et chaque été

D'un beau rouge sont les roses

 

Mon amour, sèche les fontaines, mon amour

Au soleil au vent de la plaine et aux années qui vont passant

Depuis le matin de mai qu'il sont venus

La fleur au cœur, les pieds nus, le pas lent

Et les yeux éclairés d'un étrange sourire

 

Et sur ce mur lorsque le soir descend

On croirait voir des taches de sang

Ce ne sont que des roses !

Aranjuez, mon amour

ARANJUEZ, MEU AMOR

 

Meu amor, sobre a água das fontes, meu amor

Onde o vento as levam, meu amor

Ao cair da noite, vemos flutuar

Pétalas de rosas

 

Meu amor e paredes se desmancham meu amor

Ao sol, ao vento, à chuva, e aos anos que vão passando

Desde a manhã de maio que eles vieram

E quando cantando, de repente escreveram nas paredes com a ponta do seu fuzil

Coisas bem estranhas

 

Meu amor, a roseira segue os seus sinais, meu amor

Na parede e abraça, meu amor

Seus nomes gravados e a cada verão

De um lindo vermelho são as rosas

 

Meu amor, seque as fontes, meu amor

Ao sol, ao vento da planície, e aos anos que vão passando

Desde a manhã de maio que eles vieram

A flor no coração, pés descalços, o passo lento

E os olhos iluminados por um estranho sorriso

 

E nesta parede, quando a noite cai

Acreditaríamos ver manchas de sangue

São apenas rosas

Aranjuez, meu amor


*Guy Bontempelli (compositor e intérprete francês - 1940-2014escreveu a letra de "Aranjuez mon amour" inspirado em um episódio da Guerra Napoleônica de 1806-1808
pintado por Francisco Goya (espanhol): "O Três de maio de 1808" (fuzilamentos em Madrid)


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

CONFIDÊNCIAS DE UM VIOLÃO DEIXADO NO CANTO DA SALA


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Baden Powell - "Round Midnight" (Thelonious Monk)
https://www.youtube.com/watch?v=mLCfIlZzEOw



Ao meu violão

     Estou no canto. De pé. Calado. Canto baixinho pra quem me observa, pra quem me estende o braço, pra quem me abraça, pra quem me aperta contra o peito. Mesmo calado, também canto para quem atentamente me olha. Eu sou para conversar com os que me percebem, com os que afagam meu corpo, meu braço, minha cabeça, minhas cordas. Dialogo com os íntimos do silêncio. Mas me deito, cativo, à mercê de quem me acalanta - ou agride. Os ruídos se sobrepõem ao meu canto silencioso. Sou amigo, no equilíbrio; companheiro, no desamparo. Estou presente. Quieto. Vou ficando. No canto. De pé. Esperando por um abraço, por um olhar atento que me desperte para cantar... 

  ("Dialogando" - foto jun/11: arq. pessoal)