sábado, 23 de novembro de 2013

DAY AFTER DAY (COM OU SEM GRIPE)


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Badfinger - "Day after day", de Pete Ham - álbum "Straight Up", de 1971) 

Fui a uma reunião formal ontem à noite. Ao meu lado sentou-se um senhor que estava gripado, com a voz rouca, e espirrando muito... e eu não tinha como sair dali. 

- "Pronto", pensei... "Fodeu! vou pegar essa gripe"!

E passei a reunião toda testando minha garganta com a sensação de estar sendo invadido pelo vírus. Eu sei lá, mas achava que, tossindo, poderia estar combatendo e me livrando de todo aquele mal - pelo menos queria acreditar nisso.

Quando precisei falar algo, nem me ative para o seu conteúdo. Eu estava certo de que meu posicionamento naquele momento seria o menos importante, pois o que interessava mesmo era colocar para fora aquele tremendo mal que poderia estar querendo se instalar no meu corpo... e atrapalhar meus planos.

Ao vir embora prá casa, já de madrugada, coloquei prá tocar no carro uma coletânea de músicas. E vim cantando. Tomei o cuidado de deixar arreganhadas as janelas para ir me livrando do vírus que ia expelindo garganta à fora enquanto me esgoelava lá dentro... 

Em um determinado momento, no trajeto, entrou "Day after day" na sequência de músicas... Aumentei o volume e continuei cantando... mais forte e mais alto ainda, feito um adolescente... 

Antes de guardar o carro passei em frente de casa - um prédio de dez andares - umas três vezes. Tudo isso para poder ouvir repetidas vezes essa mesma música... Os moradores do meu prédio e dos prédios vizinhos que me perdoem pelo volume do som, mas confesso minha culpa - e espero que me compreendam.

E tudo isso porque no sábado vou estar com um grupo de amigos. Certamente vamos ouvir, cantar e tocar muita música boa. E "Day after day" é uma das que estará no repertório... 

Porisso solicito ao Tião e aos meus amigos que eventualmente venham a ler essa publicação que digam ao João, à Cláudia e ao Nanão, que ensaiem 'essa'... e que deem a letra em inglês 'pro' Zé Américo...".) 

Bom... Mas aí cheguei em casa. E a preocupação aumentou! 

- "Se não ficar gripado por causa da gripe daquele senhor, vou ficar gripado por causa do vento frio que me veio pela janela aberta do carro...", pensei.

- "Porque não segui as recomendações da minha mãe que sempre me orienta para que eu não tome gelado, não pise com os pés descalços no chão, e não fique exposto ao vento frio?"

- "Caraio!"

Antes de me deitar falei com a minha mulher a respeito da minha preocupação. Ela, sabiamente e clinicamente me acalmou:  

- "Fica frio, você não vai ficar gripado... tudo isso é só a sua expectativa para poder estar bem para encontrar seus amigos e poder cantar com eles"

Bom, as preocupações diminuíram... mas ainda precisam sumir. Preocupações tolas à parte, o importante mesmo é que no próximo final de semana, com gripe ou sem gripe, com vento ou sem vento, calçado ou de pés no chão, afinado ou desafinado, em algum lugar nesse mundo um grupo de amigos vai estar reunido, cantando e tocando um repertório com muita música boa... "Day after day", do grupo inglês "Badfinger", inclusive... 

- "E vai ser bom 'prá caraio'!"

(Nanão, Zé Américo, eu, João - 2012 - foto: arq. pessoal)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

DIA DA BANDEIRA



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Hino à Bandeira Música de Francisco Braga; letra de Olavo Bilac - Violão: Marco Aurélio Monteiro - fonte: http://www.youtube.com/watch?v=s_Qd3qjQp08)



     Nas manhãs de sábado nos juntávamos em frente ao portão de entrada. Diretor, alunos, professores, funcionários, todos ali, de pé, aguardando em silêncio. Sem microfones ou caixas de som o diretor abria a cerimônia. Fazia seus cumprimentos, dizia algumas palavras relativas à nossa vida escolar, e convidava um de nós -  alunos - para proceder ao hasteamento da bandeira. 

     Na sequência cantávamos o Hino Nacional...
  
     Naquela hora, observando os gestos, a postura e o semblante dos meus  mestres de ginásio à minha frente, pensava nos valores que tanto eles quanto o hino e a bandeira nacionais me inspiravam...   


("Hino à Bandeira" - Eliseu Visconti, 1940
fonte: http://farm7.staticflickr.com/6059/6242085172_fe10893d8b_z.jpg)


     Depois, éramos convidados a nos dirigir às salas de aula... 

     - "O que me ficou disso tudo?", eu me pergunto.

     Não sei... Sempre acreditei que minha pátria é minha família, e que ela se encontra onde se encontra o meu coração...

     Mas hoje de manhã, ainda deitado, ouvi pelo rádio um locutor saudar a bandeira pelo seu dia:

"Bandeira do Brasil (...) inspira-nos, sempre, com tua divisa Ordem e Progresso, fonte asseguradora da fraternidade e da evolução, ideais supremos da humanidade na marcha infinita através dos séculos. E recebe (...) o compromisso de fidelidade no serviço dos supremos interesses do grande País, de que és Símbolo Augusto, pleno de generosidade e de nobreza."

      E após pronunciar essas palavras, com tanta emoção, pôs para tocar o Hino à Bandeira*.

Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.
(REFRÃO)
Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.

(REFRÃO)

Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil, por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.

(REFRÃO)

Sobre a imensa nação brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira,
Pavilhão de Justiça e do Amor!       
 
     Ouvindo esse hino e essas palavras serem ditas, pensei no país que ainda precisa ser construído... Lembrei-me dos meus mestres de pé em frente à escola, braços distendidos no prolongamento das pernas, alguns com a mão direita aberta no lado esquerdo do peito, o olhar no horizonte...

     E ao me lembrar dessas coisas fiquei com a sensação de estar ouvindo alguém a me dizer: 

     - "Vamos lá, meu caro, levante, faça a sua parte. Você também pode ajudar a construir o nosso país...

domingo, 10 de novembro de 2013

DOIS CEDROS TOMBARAM: UM NO LÍBANO, OUTRO AQUI


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Wadih el Safi)
https://www.youtube.com/watch?v=_S3RVhPBp2M



Foi-se Wadih El Safi*.
Casou-se no Brasil, onde viveu de 1947 a 1950.
Sua voz marcou o Líbano.
Ficou na lembrança dos que o ouviram,
ficou na vitrola da casa da minha avó.

Foi-se um admirável imigrante libanês.
Viveu em Guará, teve esposa, filhos, muitos amigos.
Deixou exemplos e histórias.
Levou sua alegria.

Antonio Abboud** foi morar, para sempre, na eternidade.


(Antonio Abboud - "Levou sua alegria" - foto: arq. pessoal/2012)

(Abboud e eu, em evento na AAG - foto: arq. pessoal/2012)

* Wadih El Safi - cantor libanês - faleceu em 11/10/2013
** Antonio Abboud - guaraense, faleceu em 06/11/2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

SEIS DE NOVEMBRO


(Eu e Eduardo - minha formatura, em julho de 1982 - arq. pessoal)*

Pois é... seis de novembro... dia de um sujeito muito alegre e cheio de vida. Aniversário do meu primo Eduardo: "Eta cara bão!

Hoje, em algum lugar, um grupo de amigos e parentes estará reunido para celebrar o seu dia. Estou certo de que haverá música, cerveja e alegria.

Estarei presente também, em pensamento, nos votos de muitas felicidades e no grande abraço que envio a ele.

- 'Duardo, meu primo, um grande abraço!... a você, aos parentes, e aos seus companheiros da animadíssima "Turma do Bebel"! 

(Turma do Bebel - grupo cheio de vida, com o Eduardo na percussão) 

* Não é por causa do uísque e do Campari (cujas garrafas estão em nossas mãos) que a foto insistiu em ficar como ficou... mas única e exclusivamente porque foi escaneada assim e não consegui girá-la em 90 graus.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

RENASCER EM MARRAKECH


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
LEIA DEVAGAR... PENSE NO QUE FOR LENDO)
(Handel - Sarabande)

"A arte de viajar é uma arte de admirar, uma arte de amar. É ir em peregrinação, participando intensamente de coisas, de fatos, de vidas com as quais nos correspondemos desde sempre e para sempre. É estar constantemente emocionado - e nem sempre alegre, mas, ao contrário, muitas vezes triste, de um sofrimento sem fim, porque a solidariedade humana custa, a cada um de nós, algum profundo despedaçamento."
(Cecília Meireles, na crônica "Uma hora em San Gimignano") 

     Imagine-se renascendo, encarando tudo pela primeira vez. Mas, com uma grande diferença: tendo a capacidade de observar, de raciocinar e de se submeter a transformações. 

     Pois foi assim que se colocou o escritor Elias Canetti*, conforme conta em seu livro de crônicas de viagem intitulado "As vozes de Marrakech"**. 

     Sem conhecer a língua, os costumes, os valores, a cultura; e ainda sem ter lido previamente manuais, guias, roteiros de viagens ou reportagens, ele foi parar em Marrakech, no Marrocos. Foi para lá com o intuito de observar e conhecer o efeito de uma realidade sobre si mesmo. E lá se instalou por algum tempo. 

(Mapa de Marrocos, noroeste da África - localização de Marrakech - http://www.quadrodemedalhas.com/olimpiadas/marrocos-jogos-olimpicos.htm)

     Em Marrakech caminhou pelas ruas, praças, becos e mercados. Mesmo que sujeito à incomunicabilidade, ele conta seus passeios por Djema el-Fna - uma grande praça local. 


(Djema el-Fna - fonte: http://www.voyagesphotosmanu.com/jemaa_el_fna_nacht.html)


     Ali, dentre muitas outras coisas, ele foi atraído pelos grunhidos constantes que ouvia de um "excluído" em meio a uma praça movimentada e barulhenta; deteve-se demoradamente diante de uma mulher que falava do alto de uma janela para uma multidão indiferente às suas palavras; parou diante de um cego para observá-lo mastigar um bagaço de laranja; e ouviu algo parecido com uma benção sendo proferido por um mendigo, também cego, que colocara uma moeda na boca para adivinhar seu valor.

(Canetti em Marrakech, em 1954
fonte: http://hupomnemata.blogspot.com.br/2009/08/as-vozes-de-marrakech-de-elias-canetti.html)

     Em uma das crônicas conta que sentiu-se ridículo ao caminhar por um cemitério onde nada se elevava acima do solo - simplesmente porque não havia ali como devanear. E concluiu esse raciocínio comparando aquele cemitério com cemitérios em outras partes do mundo onde há muitas coisas vivas - plantas, pássaros etc  - que garantem a alegria dos que vivem - pois que dentre tantos mortos, "sente-se reanimado e fortalecido" [com as manifestações de vida], diz ele.

     Engraçado que, enquanto lia essa crônica, lembrei-me de uma seringueira de tronco enorme bem em frente ao cemitério de minha terra natal. Talvez ela, especificamente naquele local, por capricho da natureza, sirva para dar vida aos pensamentos de quem a observa...

(O tronco e as raízes da seringueira - fonte: arq. pessoal)

     E quem se deixa expor a tanta coisa nova, na condição de observador, sente também que tem necessidade de um tempo consigo mesmo - necessidade que, na crônica "O silêncio na casa e o vazio dos terraços", Canetti admite ter.

     Analisando as experiências do Canetti no Marrocos, fico pensando em como eu as teria vivido. Gosto de ficar atento aos contornos e à arquitetura de prédios; de criar uma certa cumplicidade com os lugares; de pensar nas pessoas que passam, nos seus tipos, e no que nos transmitem ao simplesmente passar. Tudo isso sem me preocupar com o tempo. Gosto também de fazer anotações para, depois, estando só comigo mesmo, poder lê-las. Por isso penso que passaria um bom período nas ruas e nos lugares movimentados, e outro período pensando e fazendo comparações desses lugares com os que conheço.

     Imagino o quanto observar e compreender pode reordenar prioridades em nossas vidas. "Viajar é sempre uma auto descoberta", diz Michel Laub na apresentação do livro do Canetti. Mas viajar quando há o encontro com "o outro" é um renascer - acrescento.

     Da leitura das crônicas do Canetti, percebi que sua atenção esteve o tempo todo voltada para as coisas simples e primárias: sons, pequenos gestos e manifestações humanas. 

     Com isso em mente, guardei do livro a mensagem da necessidade que temos em manter um certo distanciamento dos modelos culturais que adquirimos ao longo da vida para podermos compreender sem julgar. Acredito que somente desprovidos de tais modelos - que são verdadeiros bloqueios - estamos prontos para descobrir as pessoas e as diferentes visões de mundo que nos surgem. E é a partir daí que ocorrem as aberturas para a aceitação do "outro"... para a (re)avaliação de nossas próprias convicções, para as redescobertas, e, consequentemente, para o nosso próprio renascimento.

____________________________
* Elias Canetti (1905-1994) - escritor búlgaro, premio Nobel de Literatura em 1981.   
** Canetti, Elias. As vozes de Marrakech. São Paulo: Cosac Naify, 2006 (Ed. original Carl Hanser Verlag, 1968)

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

EVA CASSIDY


 
Eva Cassidy
fonte: http://zenekucko.blogspot.com.br/2008/04/eva-cassidy-live-at-pearls-annapolis-md.html

     Em geral a gente começa a gostar de um cantor em função de alguma música sua ter a magia de nos remeter a algum momento importante de nossas vidas. Quanto a mim, já há algum tempo, tenho sentido dificuldade em encontrar essa identidade nos novos artistas. Ando meio travado e ranzinza em matéria de descobertas. 

     No entanto minha mulher outro dia comentou em casa que um escritor mencionou em um de seus livros uma cantora norte-americana - Eva Cassidy -, e perguntou-me se eu a conhecia. 

     - "Nunca ouvi falar", respondi.

     Mas o nome ficou em minha cabeça e eu logo fui pesquisar. Encontrei uma cantora delicada, com grande expressão vocal, um jeito meio tímido, e que frequentemente acompanha-se ao violão.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Eva Cassidy - "Time after time" - de Cindy Lauper/Hyman)


     A primeira gravação dela que ouvi nessas pesquisas foi "Early morning rain" - música dos anos 60 eternizada pelo trio "Peter Paul and Mary". Gostei de imediato! Procurei encontrar alguma outra gravação sua e logo encontrei "Kathy's song" - maravilhosamente gravada pela dupla "Simon and Garfunkel"... e pela Eva Cassidy.

     - "Poxa, como não gostar?", perguntei a mim mesmo, desafiando a minha própria rabugice.

     A verdade é que não foi necessário mais nada. Pedi ao meu filho que providenciasse para mim, com urgência, uma coletânea da Eva Cassidy. E essa coletânea passou a ser uma constante nas seleções musicais que tenho ouvido enquanto estou no trânsito. 

     Descobri também, nessas pesquisas, que seus trabalhos se encerraram em 1993. Vítima de câncer, Eva faleceu aos 33 anos.

     Apesar disso, pelo menos para mim ela nasceu há pouco tempo. E ainda tenho muito que descobrir do trabalho que ela deixou... 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

VINÍCIUS DE MORAES, CEM ANOS

 
Se estivesse vivo, o Vinícius de Moraes estaria completando cem anos amanhã, 19 de outubro. A respeito dele muito já foi dito, escrito, lido, cantado, estudado... Eu não poderia acrescentar mais nada. 

Por isso, não me animei em fazer qualquer postagem aqui no blog à respeito dele. Ficaram comigo os meus pensamentos em relação à data. Aliás, ficariam... 

Ainda agora, começo de noite, vindo da rua e entrando no meu escritório para pegar minha bolsa e começar o final de semana, ouvi - não sei vindo de onde - os acordes da "Valsa de Eurídice".

Como não sou insensível a esses sinais, antes de sair peguei na estante um dos livros do Vinícius, abri-o em uma página qualquer, e li para mim mesmo em voz alta o primeiro poema que encontrei: "A Terra". Seria minha singela homenagem a ele... 

II - A TERRA*


Um dia, estando nós em verdes prados 
Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa 
Ei-la que me detém nos meus agrados 
E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa 

Com face cauta e olhos dissimulados 
E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza 
Como se os beijos meus fossem mal dados 
E a minha mão não fosse mais precisa. 

Irritado, me afasto; mas a Amada 
À minha zanga, meiga, me entretém 
Com essa astúcia que o sexo lhe deu. 

Mas eu que não sou bobo, digo nada... 
Ah, é assim... (só penso) Muito bem: 
Antes que a terra a coma, como eu.  

Caraca...! Mas esse Vinícius era danado mesmo! 

Pensando bem, é um ótimo começo para o final de semana... Como é bom ficar relendo suas coisas... 

Mas não resisto: mesmo tarde - e antes de ir embora -, abro o computador e venho homenageá-lo aqui nos seus cem anos. 

E no embalo dos versos acima, aqui vai um papo descontraído do Chico com o Toquinho. Eles comentam o que o Vinícius disse que queria de diferente em si mesmo se pudesse voltar à vida depois de sua morte...



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* De "Os Quatro Elementos" - escrito em Montevidéu em 1960

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O PROFESSOR


Professores do CENE Mal. Rondon  -entrega de diplomas anos 70
foto: postada por Marilúcia R. Caixe no facebook

"O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo."
(Carlos Drummond de Andrade)


Ele entra, olha...
Alguns o percebem, outros riem;
outros, ainda, cochilam...

Ele cumprimenta, fala, pede... 
Alguns ouvem, alguns retribuem os cumprimentos com o olhar;
poucos atendem...

E com muita paciência,
sem perdê-la e sem perceber,
mesmo com a indiferença,
mesmo com as adversidades da vida, 

sua postura, sua educação, sua maturidade, sua maneira de olhar,
seu jeito respeitoso de compreender seus alunos e suas carências,
vão transmitindo em silêncio, e de forma natural, 
os valores universais que só o exemplo ensina.  



Cerimônia entrega de diplomas no CENE Mal. Rondon - anos 70
postada por Áureo no facebook


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Lulu - "To Sir, with love"
https://www.youtube.com/watch?v=EV1qmmMwc9M


To Sir With Love (Black/London)

Those school girl days
Of telling tales
And biting nails are gone
But in my mind
I know they will still live on and on
But how do you thank someone
Who has taken you from crayons to perfume
It isn't easy, but I'll try

If you wanted the sky I'd write across the sky in letters
That would soar a thousand feet high
To Sir, with love

The time has come
For closing books
And long last looks must end
And as I leave
I know that I am leaving my best friend
A friend who taught me right from wrong
And weak from strong
That's hard to learn
What, what can I give you in return?

If you wanted the moon I'd try to make a star
But I would rather you let me give my heart
To Sir, with love
Ao Mestre, Com Carinho

Aqueles dias de estudante
De contar historias
E de roer unhas, se foram
Mas em minha mente
Sei que sobreviverão para sempre, sempre
Mas como vc pode agradecer alguém
Que te tirou dos lápis de cera para o perfume
Não é fácil, mas eu vou tentar

Se você quisesse o céu, eu escreveria sobre o céu com letras
Que planariam a mil pés de altura
Ao Mestre, com carinho

Chegou a hora
De fechar os livros
E os olhares demorados devem acabar
E enquanto eu os deixo
Eu saberei que estou deixando meu melhor amigo
Um amigo que me ensinou o certo do errado
E o fraco do forte
É bastante para aprender
O que, o que eu posso lhe dar em troca?

Se você quisesse a lua eu tentaria fazer uma estrela
Mas eu gostaria que você deixasse lhe dar meu coração
Ao Mestre, com carinho


_____________________
* "To Sir, with love" (Ao mestre, com carinho) - Reino Unido/1967 - Dir. James Clavell.

 (Profª Therezinha Deise e seus alunos - Grupo Escolar de Guará)

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

CAMPO GRANDE E SEUS DESBRAVADORES


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA)
(Zé do Campo e Camponês - "Campo Grande cidade morena", de Claudemir Rivarola - fonte: https://www.youtube.com/watch?v=AuXD1D3hLyQ)

Lá em Brasília, na Praça dos Três Poderes, há um belíssimo monumento em homenagem aos construtores da cidade: o Monumento aos Candangos.

Pois há também em Campo Grande, capital do Estado do Mato Grosso do Sul, um monumento de igual significado e importância que homenageia os primeiros habitantes daquela cidade. 

Projetado pelas artistas Marisa Oshiro Tibana e Neide Ono, e inaugurado em 1995, o monumento foi erguido ao lado do Horto-Florestal, bem na confluência dos córregos "Prosa" e "Segredo". Com peças fundidas em metal e  sobre uma parede vertical de granito preto, o "Monumento aos Desbravadores" é representado por um carro-de-boi - que foi o meio de locomoção utilizado pelos primeiros colonizadores da cidade, e que, portanto, vieram a ser seus primeiros habitantes.

("Monumento aos Desbravadores" - foto: arq. pessoal)

Dentre os muitos símbolos da cidade - a Morada dos Baís, o relógio da Afonso Pena, o Parque das Nações Indígenas, a Feira central -, o "Monumento aos Desbravadores" se destaca não só pelo que simboliza, mas também pelo valor artístico que traduz a genialidade humana. 

(Av. Afonso Pena, com Morada dos Baís ao fundo - foto: arq. pessoal)

Estive na praça do "Monumento aos Desbravadores" em uma tarde ensolarada, vindo do Mercado Municipal, depois de cruzar a pé o parque do Horto. Fiquei ali por um bom tempo olhando aquele trabalho e pensando nas coisas que buscava o colonizador mineiro José Antônio Pereira - aquele que primeiro chegou ali e se alojou, começando tudo do nada. Que braveza! Hoje com mais de 800 mil habitantes, e 114 anos de fundação, Campo Grande tem muitas praças, ruas e avenidas largas e bonitas - como as avenidas Afonso Pena e Mato Grosso. 

(Relógio Central, na Av. Afonso Pena - foto: arq. pessoal)

Para quem chega e vê Campo Grande do alto, (des)acomodado em uma poltrona de avião, a impressão que tem é de que a cidade surge de repente depois de muito chão desabitado a ser desbravado. Olhando a cidade, do alto, percebi que ela tem seus contornos, seu espaço bastante definido. Do alto e do nada, seus prédios, suas casas, suas ruas e suas muitas árvores vão surgindo no horizonte e tomando forma... 

Se o primeiro colonizador a chegar naquele local visse Campo Grande hoje - penso eu -, ficaria ao mesmo tempo assustado e orgulhoso por ter se alojado ali um dia, sem ter a noção de que aquele lugar seria transformado em uma bela cidade brasileira, habitada por gente de todas as raças e de todas as regiões do nosso imenso - e maravilhoso - país, inclusive mantendo uma forte relação com a cultura indígena. 

(Obra artística - "Índia Terena", na Feira Indígena da Pça Oshiro Takemori - foto: arq. pessoal)

Minha última noite ali não poderia ter sido mais emblemática do que é a simpatia de Campo Grande: fui recebido, junto com minha esposa Denise, na casa do meu primo Arnaldo e da sua esposa Eurinda - ele paulista, ela sul-mato-grossense. Ali, onde crescem no seu quintal uma jabuticabeira, uma mangueira, um pé de cravo e um de macadâmia, jantamos, bebemos, tocamos violão e falamos de fatos, pessoas e histórias que eu ainda não conhecia... e que trouxe para casa prá nunca mais esquecer.

  (Eurinda, Arnaldo e Denise, na varanda - Campo Grande, set/13 - foto: arq. pessoal)      

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O MAR DO NORTE


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR - 
E ASSISTIR DEPOIS DA LEITURA)
("Le Plat Pays" - interpretada por Jacques Brèl)


     Tenho um imenso mapa múndi pendurado em uma das paredes do meu escritório. Passeando com o olhar pelos seus países, suas fronteiras, continentes e oceanos, detenho-me na faixa de mar que banha o Reino Unido, entre Inglaterra e Escócia de um lado, e Noruega, Dinamarca, Alemanha, Holanda e Bélgica do outro. É ali o Mar do Norte.  


(Localização do Mar do Norte - FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Nseamap.gif)

     Conheci-o pelos livros de geografia. Sempre o imaginei frio, gelado, escuro, acobertado por nuvens acinzentadas, de onde assopravam ventos insuportáveis... E sempre imaginava ali em uma de suas praias melancólicas na Bélgica o Jacques Brèl, vestido de roupas quentes e escuras, olhando para a distância, em direção ao litoral da Inglaterra.

     Essa imagem me era constante toda vez que o ouvia cantar "Le Plat Pays" (escrita em 1961)... E houve um tempo nas décadas de 70 e 80 que eu o ouvia com muita frequência...

     Revi essa imagem, depois de muitos anos, quando conheci a Inglaterra. De dentro de uma van em uma noite de frio, em direção a uma cidade chamada Seahouses, nosso guia moveu a cabeça para o lado direito da rodovia e nos apresentou sem que pudéssemos vê-lo: 

     - "On your rightside, the North Sea".  (à direita, o Mar do Norte).

     Através da janela da Van olhei para a escuridão à minha direita, e pensei no Mar do Norte que o Jacques Brèl menciona em um trecho de "Le Plat Pays". 

Com o Mar do Norte como último terreno baldio, 
e com as ondas de dunas para conter as ondas, 
e os vagos rochedos que as marés galgam 
e que têm para sempre o coração na maré baixa... 
Com um nunca acabar de brumas a chegar, 
trazidas pelo vento do oeste, escutem-no resistir, 
este país plano que é o meu...

     Nessa música ele - o Brèl - descreve a terra do seu país - a Bélgica -, e como ela reage a cada um dos quatro ventos. 

     Passei aquela minha primeira noite em uma casa de campo, à beira mar, tentando me interagir com as manifestações do Mar do Norte, ouvindo (sem vê-lo) suas vozes e suas ondas... 

(Budle Hall - a primeira noite com o Mar do Norte - fonte: arq. pessoal)

     Quando alguns dias depois olhei de frente o Mar do Norte, e deslizei minhas mãos pelas suas águas, senti meu corpo todo estremecer não só de frio mas também de emoção...  


(Holy Island of Lindisfarne - ao fundo, o Mar do Norte - fonte: arq. pessoal)


(As pedras do Mar do Norte - fonte: arq. pessoal)

     Pelas águas daquele mar, no lado oposto ao da Bélgica do Brèl - e bem mais ao Norte -, senti o sopro do vento trazê-lo - o próprio Brèl - por intermédio de uma música, para estar ali ao meu lado falando-me de seu país...

     - "Le plat pays qui est le mien..." (o país plano que é o meu) - pensava.

     Curvei-me diante do Mar. E ao acariciar suas águas, uma pedra leve e acinzentada, dentre tantas, desgastada pelo tempo, veio às minhas mãos... Não senti vontade de devolvê-la ao mar. Segurei-a em minhas mãos até que ela secasse; e guardei-a no bolso de meu blusão para trazê-la comigo, em minha mala. 

     Hoje essa pedra está em uma das estantes do meu escritório. Ali eu a guardo como um presente que me foi enviado pelo Jacques Brèl, e que me foi trazida pelas águas frias do Mar do Norte...

(A pedra que me foi dada pelo Mar do Norte - fonte: arq. pessoal)