quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

CINE GUARÁ


     Viajando pelas estradas do nosso país a gente vai observando os casebres espetados em locais praticamente inacessíveis... O carro cumpre sua trajetória e as pequenas casas isoladas se aglomeram para formar uma vila, uma cidade... De longe se vê sempre uma igreja em destaque. Eventualmente, às margens do caminho, um pedestre preenche seu tempo e sua fantasia observando o carro que passa, e que o estimula a sonhar.

     Nossas vidas estão ocupadas pela dureza da realidade, pelo nosso espaço limitado, pelo nosso período de tempo contado! 

     Londres, Paris, Tóquio, Nova Iorque, Rio de Janeiro; um novo trabalho, alguém a quem querer bem, modelos de relação familiar; pré-história, a revolução russa, a idade-média, o homem em Marte, a vitória do bem contra o mal; justiça, solidariedade, amor, carinho, honestidade - só existem no som das palavras que as representam, nos livros...

     ... ou no cinema!

     No cinema caminhamos por tantas cidades, conhecemos tanta gente, ultrapassamos as barreiras do ontem e do amanhã, rimos, choramos, nos emocionamos e descobrimos modelos de identificação; no cinema podemos ir onde a imaginação nos levar!

     E foi no cinema que, como Phileas Fogg (interpretado por David Niven), dei a volta ao mundo em 80 dias; que como Dr. Jivago (por Omar Shariff), escondi-me no interior da Rússia; que como Moisés (por Charlton Heston), conduzi um povo; que como Joe Buck (por Jon Voight), tentei vencer em Nova Iorque; que como Marcelo (por Stepan Nercessian), passei minha infância nas ruas e praias de Copacabana...

     Todas essas viagens, e inúmeras outras, devo ao cinema. E, em especial a um cinema que ficava pertinho de casa: O "Cine Guará"!

("Cine Guará, em algum tempo no passado" - Foto postada por José Carlos Souza Oliveira no facebook)


     Dentro dele, com as luzes apagadas, eu podia tudo! Ali, desligava-me de carências, sofrimentos, cidades, pessoas, tempo e som reais, para poder ir além, para poder viver e aprender com a fantasia... Ali, qualquer ruído era incômodo! Refrigerantes e pipoca eram proibidos, pois seus sons nos traziam de volta à realidade... O máximo que se tolerava era um leeeeento desembrulhar de uma bala pipper, toffee ou cevada - as únicas vendidas no cinema - não sem deixar na gente um baita sentimento de culpa pelo barulho que o papel fazia, pois que desmontava a fantasia de quem vivia o filme que estava assistindo.

     Hoje já nem sei o que funciona no prédio do "meu" antigo cinema. Sei que houve um tempo em que ali funcionou uma loja de eletrodomésticos; depois, igreja; em seguida departamento de alguma coisa da administração municipal... 

     Com isso, fico pensando no real e na possibilidade de construção do imaginário nas mentes das pessoas; no que elas podem e estão talhadas a viver, e no que elas conseguem se soltar e aprender a sonhar para poderem ir mais além...

     E é por isso que fico muito incomodado com o desaparecimento de muitas salas de cinema - pois que isso diminui a possibilidade de se poder sonhar. Mas também fico muito incomodado quando, em algum cinema, noto alguém sentar-se na plateia carregando uma bandeja enorme de pipoca com um copo de "ene" litros de coca-cola. Isso significa que o barulho produzido por essa pessoa vai mantê-la na realidade em que vive, tirando dela mesma e de muita gente na plateia a possibilidade de se ver em outra realidade, de se repensar, de se reinventar, de querer ir mais além, e aprender com a fantasia projetada na tela. 

     Oops! Chega de papo! Com as luzes se apagando, e com os sons reais desaparecendo, ouçamos a música acompanhar as cortinas que se abrem...

("Till" - Percy Faith)

... para que possam entrar em cena Charlie Chaplin, Antônio Fagundes, Cécile de France, Anthony Quinn, Sidney Poitier, Juliette Binhoche, Brad Pitt, Nicole Kidman, Cantinflas, Walmor Chagas, Brigitte Bardot, Dustin Hoffman, Morgan Freeman, Ricardo Darin...;

... para que possamos visitar a torre Eiffel, a pirâmide de Quéops, o Coliseu de Roma, a Muralha da China, o Cristo Redentor, Machu Picchu, o Museu de Antropologia da Cidade do México...;

... para que conheçamos Hannibal Lecter, Forrest Gump, Indiana Jones, James Bond, Don Corleone, Scarlett O"Hara, Tarzan...;

... para que possamos assistir "O paciente inglês", "Xingu", "A Partida", "Procurando Sugar Man", "Gandhi", "O pianista", "Por volta da meia-noite"...;   

... e para que também, concomitantemente, se possam abrir nossas mentes e nossas fantasias ao assistirmos um filme que nos inspire a repensar a nossa realidade, buscando deixar uma outra melhor para os nossos filhos.

     Bons filmes a todos!     

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

PRA ONDE VAI MEU PORTUGUÊS ?


(fonte: http://www.portaldorancho.com.br/artigos/arte-e-literatura/o-poder-das-palavras)


     Stacey Kent é uma cantora norte-americana. Canta jazz. Descobri-a recentemente quando procurava gravações em francês do "Samba da benção" (do Vinícius de Moraes), e de "Águas de Março" (do Tom Jobim). Pois foi aí que me deparei com a voz doce e delicada dessa cantora, cantando também em francês. Suas gravações de jazz e bossa-nova são lindíssimas. Além de ter colocado em disco clássicos de bossa-nova, gravou, com seu marido - o saxofonista Jim Tomlinson - um álbum inteiro com músicas brasileiras. O álbum chama-se "Jim Tomlinson - brazilian sketches". 

     Providenciei, para poder ouvir a hora que quiser, todas as gravações que pude encontrar da Stacey Kent. E ela tem sido uma grande companhia nos meus devaneios musicais.

     Talvez, por ter se graduado em Literatura Comparada, tenha lido diversos escritores brasileiros e, especialmente, sentido a beleza do som das palavras pronunciadas em português. Tudo indica que por ter chegado à música brasileira e, por ter se envolvido com toda carga emocional contida nas palavras, maravilhou-se com nossa língua. 

     Em passagem pelo Brasil, entrevistada no programa do Jô Soares, falando e cantando em português, assim ela se referiu ao sentido da língua portuguesa em sua vida:


("Coração vagabundo", de Caetano Veloso - por Stacey Kent, no programa do Jô Soares)

"a razão por que eu estou estudando sua língua é por causa dessas palavras, essas letras; sem essas letras na minha vida, minha vida seria muito menos rica". 

     Abro o "facebook" e fico olhando postagens e comentários. Por trazerem palavras e siglas que desconheço, não os entendo bem: "altered beast", "drive-in", "rush", "printer", "SNES", "delete", "scanner", "MBA", "master", "bypass", "charter", "spread"... Claro que a dinâmica de uma língua conta muito; claro que preciso me atualizar... mas, será que não há palavras em português que possam dizer o que tiver que ser dito? Aliás, é bom nos lembrarmos que a cultura e as palavras carregam em si tanto uma expressão de autoestima quanto, também, uma ferramenta de dominação!

     Pensando nisso, lembrei-me de um sambinha gravado pelo Cyro Aguiar em 1972 e que aborda a questão do esquecimento e do desuso em que caiu a língua portuguesa. Em um pequeno trecho diz o seguinte:

"Cansei de tanta coisa importada. Cansei de tanto som envenenado. Cansei, eu que nem sei falar inglês, venho pensando há mais de mês, 'prá onde vai meu português?'. (...) Meu português se perdeu, acabou, de cafona em versos fugiu..." 


("Asfalto falsificado" - Cyro Aguiar)

     Estou certo de que há ainda muito que ser lido em  português para que possamos merecer a línqua portuguesa. Assim como a Stacey Kent, que pela sua formação muito leu e compreendeu, seria bom que cultivássemos o hábito de empregar nossa língua em nossa fala e em nossas escritas, descobrindo e valorizando a maravilha sonora e a densidade de imagens que suas palavras nos inspiram. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

MORRO VELHO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
Elis Regina - "Morro Velho", de Milton Nascimento

     O calor da tarde está insuportável. De dentro do carro, preso no trânsito, observo a cidade. A avenida, que já teve de ambos os lados imóveis residenciais, transformou-se em centro econômico, tomada que está por todos os tipos de lojas e ricas agências bancárias. No centro, dividindo as mãos de trânsito da avenida, há um caminho feito de pedras e jardins mal cuidados, com enormes sibipirunas que se sucedem ao longo de sua extensão. O trânsito flui nervoso e preguiçosamente; o carro manca e chacoalha a cada pequeno deslocamento sobre as pedras que revestem o chão. 

     Mas ao ouvir no aparelho de som do carro a Elis Regina cantando "Morro Velho", esse universo de imóveis, carros e pedras em que me encontro transforma-se em riacho, plantação, sombras, meninos e passarinhos. Sua letra e sua melodia me colocam em uma fazenda onde poucas vezes estive... Lá o universo infantil, transparente, sem cor de pele e sem distinção de raças, distante de preconceitos aos olhos de uma criança, é colorido de fantasias...

"Peixe bom dá no riacho de água tão limpinha - dá pro fundo ver"

     Nessa leveza toda, sentados livremente, os meninos observam com graça tudo que os rodeia.  

"Só poder sentar no morro, e ver tudo verdinho, lindo a crescer"

     E assim desenvolvem-se a amizade, as brincadeiras infantis e a meninice dos dois amigos.

"(...) correndo pela estrada atrás de passarinho
pela plantação adentro crescendo os dois meninos
sempre tão pequeninos (...)"

     Um é branco, e seu pai o proprietário; o outro é negro, filho de um dos trabalhadores da fazenda. O preconceito racial, arraigado na sociedade, é algo que as crianças não têm. Por isso, os dois meninos brincam juntos.

(fonte: http://euamompb.blogspot.com.br/2011/10/clube-da-esquina-os-sonhos-nao.html)

     Com o tempo, porém, a realidade os distancia... 

"Filho do senhor vai embora, tempo de estudo na cidade grande" 

     Fica, no entanto, no coração dos meninos que rompem a trajetória comum de suas vidas, o desejo de que a infância e tudo que a envolve nunca termine...

"Não me esqueça amigo, eu vou voltar.
Some longe o trenzinho, ao deus-dará" 

     Mas a cidade transforma, os indivíduos se transformam, os meninos se transformam; as vantagens e ordens da cidade distanciam... Por isso, ao retornar, o filho do proprietário, herdeiro natural da fazenda, já é outro, já é doutor... E naquilo tudo (e naqueles todos) vai mandar!


"Quando volta já é outro, trouxe até sinhá mocinha para apresentar
já tem nome de doutor, e agora na fazenda é quem vai mandar" 

     No entanto aquele cujo pai trabalhava na fazenda, o "seu velho camarada", também cresceu. E, sem ter tido as mesmas oportunidades, simplesmente continua...  

     Da amizade à submissão, a vida prossegue...

"Mas seu velho camarada já não brinca, mas trabalha."

     Olho novamente o trânsito parado na avenida... Um menino paupérrimo e sorridente, com uma bola debaixo do braço, vem à janela do meu carro, fica me olhando, e me coloca de novo na cidade...  O trânsito segue, eu sigo, a vida segue... e o pensamento vai longe:

     - "É preciso olhar pelas crianças; é preciso aprender com elas, enquanto crianças. Ainda há árvores a serem plantadas, ainda há jardins a serem cuidados, ainda há muita infância dispersa pelas ruas; ainda há uma nação a ser construída..."    

____________________________________________
Morro Velho
(Mílton Nascimento)

No sertão da minha terra, fazenda é o camarada que ao chão se deu
Fez a obrigação com força, parece até que tudo aquilo ali é seu

Só poder sentar no morro e ver tudo verdinho, lindo a crescer
Orgulhoso camarada, de viola em vez de enxada

Filho de branco e do preto, correndo pela estrada atrás de passarinho

Pela plantação adentro, crescendo os dois meninos, sempre pequeninos
Peixe bom dá no riacho de água tão limpinha, dá pro fundo ver
Orgulhoso camarada, contra histórias prá moçada

Filho do senhor vai embora, tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes, deixando o companheiro na estação distante
Não esqueça, amigo, eu vou voltar, some longe o trenzinho ao deus-dará

Quando volta já é outro, trouxe até sinhá mocinha prá apresentar
Linda como a luz da lua que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor, e agora na fazenda é quem vai mandar
Mas seu velho camarada já não brinca, mas trabalha

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

UM BANCO NA PRAÇA


     Ficou um banco na praça. 

     Testemunha dos anos, de lá, com o olhar, atravessava as paredes - que não enxergava...  Ia além delas. Atravessava ruas, cidades e oceano, até tornar-se menino em alguma aldeia sofrida no Oriente Médio - de onde veio.

(Hussein no banco da praça - fonte: Lucas Amauri, postada no facebook)

     Foi-se o tempo, foi-se a aldeia, foi-se o menino, foi-se o homem: foi-se o Hussein - o "Beduíno".

     "Quem contará sua história?"

     Não deixou parentes, não deixou filhos; somente um banco vazio no canto da praça. 

     Hoje, no final da tarde, por ali transitarão apressados os automóveis e as bicicletas; os pedestres caminharão pelas calçadas e os pardais pousarão delicadamente nos jardins. Lá do alto os sinos de São Sebastião badalarão, solenemente, convocando os fiéis para a inflexibilidade da vida. 

(Hussein - Fonte: Dalva Altobelli Silveira, postada no facebook)


(Hussein - 01/fev/14 - seu último dia) 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A FOTO DO MEU AVÔ


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
  (Jean Sablon - "J'attendrai", de Louis Poterat/Olivieri/Rastelli - 1933/1939)


"a facilidade com que hoje se tiram fotos 
é diretamente proporcional à facilidade 
com que nos esquecemos delas."
(João Pereira Coutinho (1))


     Imigrante sírio, meu avô paterno chegou no Brasil na primeira década do século XX. Falecido antes do meu tempo, não o conheci. Dos seus quatro irmãos, dois vieram para o Brasil, uma permaneceu em território da Síria (onde nasceu o Líbano em 1943), e o outro imigrou da Síria para a República Dominicana, no mar do Caribe (América Central).  

     Em visita a São Paulo, em agosto do ano passado, a Ana Cecília - uma das parentes dominicanas - trouxe-me de presente um registro fotográfico original de meu avô, o qual havia sido remetido a um primo seu por correio: elegantemente vestido em roupa clara, de botas, gravata e chapéu, calça presa por cinturão de couro com fivela de metal, ele segura o seu cavalo - meio de transporte do qual dispunha para mascatear tecidos, sabonetes, calçados, botões e lenços pelas fazendas e pequenos povoados.


("Meu avô" - 1922)

     No verso da foto, a data e uma pequena mensagem (literalmente transcrita abaixo): 

                    Guará, 15 de 9bro de 1922
                    querida sobrinho G.a
                    Envio como lembrança
                    a photo grafia seu tio
                    Elias A. Morun 

 (Anotações no verso da foto)
 
     Segurando a foto em minhas mãos, os pensamentos são inevitáveis: "Além da grafia original do remetente, há nela impressões digitais daqueles que nela tocaram... do meu avô que a enviou, de seu sobrinho que a recebeu, de tanta gente que não conheci, e de todos que a transportaram do papel para os olhos, e dos olhos para a memória... Há nela registros de tempo, de lugares e de pessoas."

     Antigamente as fotos eram irretocáveis, insubstituíveis - como irretocável e insubstituível é essa que ganhei. Velha, desgastada, amarelada, impressa em cartão fotográfico apropriado para a época, é um verdadeiro tesouro de família guardado para ser olhado, comentado e tateado de tempos em tempos.

     Navegando pela internet, vejo centenas de fotos maravilhosas sendo postadas todos os dias. São expressões faciais, sorrisos, famílias em festa, pessoas se abraçando, casas, lugares, cidades, carros, praias, copos, animais... Nunca foram tiradas tantas! Contudo, elas nunca tiveram tão pouco valor... Olhamos, "curtimos"... e passamos para a foto seguinte... 

     Em nossa memória parece não mais haver espaço para reter o que se foi. As fotos, em especial, têm permanecido frias e intactas, virtuais e descartáveis... na memória do computador. A qualquer momento, ou até mesmo nesse exato instante, poderão desaparecer por descaso nosso, vitimadas por apagões que o "sistema" está sujeito a sofrer. Assim, paradoxalmente com tantas fotos tiradas, corremos o risco de ficar sem as marcas e a memória do nosso tempo... . 

     Creio que ao olharmos uma imagem fotográfica antiga com os olhos, com as mãos e com o coração, o que nos humaniza, enche de saudade, esperança e contentamento, dando vida à nossa imaginação, não é a simples imagem impressa no papel, mas também, e especialmente, o contato físico com as impressões digitais vagas e imprecisas que na foto ficam gravadas para sempre. 



(1) Cronista do jornal "Folha de São Paulo". Crônica "Retratos de Famíla" - Caderno E8 Ilustrada - terça-feira, 07 de janeiro de 2014 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

ESSAS CASAS ANTIGAS...


(CLIQUE PARA OUVIR DURANTE A LEITURA)
("Revendo o passado", 1933, de Freire Júnior - violão: Baden Powell)


"A casa não é mais a mesma,
a casa não é mais casa,
é um grande navio que vai singrando o tempo
 que  vai embarcando e desembarcando gente no porto de cada domingo (...)"
(Rubem Braga, em "A casa viaja no tempo") 


     Toda casa guarda em si a lembrança daqueles que nela moraram. Em especial, dos seus primeiros moradores. Duas janelas, um pequeno portão de entrada, um alpendre, um jardim, árvores no quintal... Essa casa antiga, que vi em uma avenida movimentada, foi um dia projetada na mente de seu construtor. E foi erguida para abrigar uma família - que com ela sonhou.

("Essas casas antigas..." - foto: arq. pessoal - nov/13)

     Duas pequenas aberturas evidenciam a existência de um porão onde residem os segredos da casa. Seu piso muito provavelmente de madeira com tábuas longas - outrora sintecadas -, se ainda mantido, manifesta vidas vividas em suas marcas e estralos... É uma casa alta, com detalhes trabalhados em sua fachada. 

     Em outros tempos, certamente, em uma de suas janelas alguém se debruçava. Ficava olhando brincar as crianças na calçada... E ao vê-las, e ao ouvi-las, pensava no futuro que para elas poderia ser...

     Aos domingos, em cadeiras de descanso, do silêncio do alpendre, sentava-se e deixava a tarde passar. Pensava no que já havia realizado e no que ainda estava por realizar. 

     Nos dias de chuva via do alpendre os barquinhos de papel seguirem o curso de água nas sarjetas... "Quem os teria feito?", perguntava calado. Sonhava com longas viagens que não havia feito, mas que ainda poderiam ser... por seus filhos, porém. Os países do norte, a europa... 

     As árvores do quintal - provavelmente mangueiras... ou parreiras -, a cada ano, davam frutos que eram colhidos com cuidado para serem orgulhosamente distribuídos aos vizinhos. Estes retribuíam o carinho com bolinhos de chuva, suspiros, bom-bocados, doce de figo em calda... e sorrisos sinceros...

(Clóvis e Zezé, com uvas colhidas da parreira de seu quintal - foto postada pelo Clóvis no facebook - jan/14)

     Do jardim, as flores enfeitavam o olhar de quem passava pela calçada, assim como também enfeitavam a sala de estar onde a família recebia com café e sequilhos aqueles que os visitavam...

     Hoje transitamos pela avenida movimentada sem tempo ou vontade de olhar tudo o que aquela casa guarda... O senso comum parece ditar que "trata-se de um imóvel velho, acabado, desinteressante, que atrapalha a beleza fabricada pelo progresso..."

     Mas eu sou atraído por ela. Passo pela avenida e não consigo prosseguir sem parar para poder viajar em todos os seus detalhes. Assim, como testemunha do passar do tempo - que a casa é -, eu a vejo como uma antiga caravela ancorada no vasto oceano da cidade que se modifica. Casas assim têm personalidade; têm, nas paredes descascadas, uma história que as faz únicas... Elas guardam, em especial, as memórias da família que a construiu. São diferentes dos espaços frios, empacotados e despersonalizados que têm sido construídos por aí... onde moro eu, onde moramos todos nós, nessas cidades em linha reta vertical, pré-fabricadas, montadas, práticas... sem história, sem beleza, sem jardim, sem vida... e sem um quintal onde se possa plantar uma mangueira...    

sábado, 28 de dezembro de 2013

APRENDENDO COM OS CÃES



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Vida de Cachorro" - Os Mutantes)

- "Um copo de água filtrada ou fervida, uma pitada de sal, e duas pitadas de açúcar. É assim que se faz o soro caseiro" - ensinou-me o veterinário. 

- "Dê a ela seis mililitros a cada meia hora. Para facilitar, use uma seringa (obviamente sem a agulha). Segure o focinho e injete o líquido na lateral da boca da cachorrinha, por entre os dentes. Se ele resistir, chame alguém para ajudar a segurar a cabeça e as patas para conseguir forçá-la a tomar o soro" - orientou-me ele. "Evite dar comida e ela, e vamos observar", concluiu ele aplicando nela um antibiótico e comprometendo-se a retornar no dia seguinte para novamente examiná-la. 

Foi assim que eu e minha filha fomos orientados a tratar nossa cachorrinha - a "Neguinha". Ela, que por algumas semanas estava com uma infecção uterina - porém aparentemente bem -, havia ficado por três dias em um hotelzinho em função de nossa viagem de Natal. Quando voltou para casa, tendo passado o Natal sozinha, estava fraca, apática, sem forças para comer ou beber qualquer coisa. Voltou literalmente entregue.

Deixei a Neguinha sob os cuidados da minha filha e fui trabalhar. Voltei no começo da noite e recebi dela a notícia:

- "Pai, tentei o dia todo dar o soro. A Neguinha não aceitou. Ela resistiu, fechou a boca. Não tinha ninguém para me ajudar... Não consegui..." 

Vendo a Neguinha naquele estado tratei eu mesmo de tomar as devidas providências. Tinha que fazer com que ela aceitasse o soro até mesmo "na marra", se fosse preciso! 

Determinado, peguei a seringa, puxei o êmbolo, e coloquei ali seis mililitros de soro. Sentei-me no chão e arrastei-a para perto de mim. Segurei seu focinho, forcei, apertei, pressionei o embolo... e nada! Tentei várias vezes. Em vão. Ela resistia, chacoalhava a cabeça, e o soro espalhava-se pelo chão. 

Já sem saber como agir encostei-me desolado, na porta da cozinha, e fiquei olhando minha pobre cachorrinha inerte, espalhada pelo chão.

Depois passei a observá-la: ela baixava a cabeça e lambia, do piso, algumas gotas do soro que havia caído...

- "Ora", pensei, "se ela lambe o soro no piso, certamente vai querer tomá-lo voluntariamente se eu o colocar no seu pratinho".

E assim eu fiz. Despejei o soro dentro de seu pratinho e fiquei ali sentado. Ela veio devagarzinho, de mansinho, olhou para mim, e começou a beber o soro. Bebeu todos os mililitros que não havia bebido durante a tarde toda.

Depois disso acendeu-se. Energizou-se. Ficou ao meu lado quando cortei um pedaço de queijo e outro de salaminho. Ofereci a ela um pouquinho de tudo que eu comia, e ela não recusou nada... um pedaço disso... outro daquilo... e mais outro... e mais outro...

Abanou a cauda e foi ao seu pratinho de comida, como que a me pedir para alimentá-la melhor. Não resisti. Abri a geladeira, peguei várias colheradas generosas na carne moída, esquentei no forno de micro-ondas, e despejei tudo em seu prato. 

Nhoc! Comeu até o último pedacinho com a mesma voracidade de sempre!  Em seguida saiu dali. Levantei-me da cadeira onde estava e pus-me a segui-la. Ela dirigiu-se ao banheiro, e tentava entrar no box de banho. 

Pensei um pouquinho e logo entendi a mensagem. Não deu outra! Enchi sua vasilha de água e a coloquei no piso. Ela veio e encharcou-se toda, lambendo até a última gota.

E agora, para minha tranquilidade, está deitada aqui na sala de casa sob a minha cadeira, quietinha. Certamente aguardando que a digestão seja feita.


("Neguinha" - aguardando que a digestão seja feita)

Amanhã será um dia importante para ela, porque será examinada novamente pelo veterinário. Não sei o que lhe será prescrito: remoção cirúrgica do útero? Não sei... Só sei que mesmo na sua fraqueza ainda me ensinou mais essa: ninguém, nem mesmo os animais, gostam de ser forçados a nada... nem mesmo a tomar soro. As coisas acontecem naturalmente, de forma espontânea... e certamente no momento exato que devem acontecer...

("Neguinha")


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

EU E ELA


     Lá em Gramado-RS há uma belíssima igreja construída em pedra: a Igreja Matriz de São Pedro. 

(Igreja matriz de São Pedro, em Gramado-RS - foto: arq. pessoal)


     É claro que, estando lá, fui conhecê-la por dentro. 

(Interior da Igreja Matriz de São Pedro - foto: arq. pessoal)

     A igreja matriz de São Pedro não é muito grande; porém, muito bonita. Fiquei ali dentro parado, olhando todos os seus detalhes. Cansado dos percursos feitos a pé pelo centro da cidade, sentei-me em um de seus bancos para ouvir o silêncio. Gosto do silêncio nas igrejas.


(Sentado, fiquei ouvindo o silêncio - foto: arq. pessoal)

     Muito mais do que pelo cansaço das caminhadas, o motivo maior da pausa necessária foi por ter visitado, pouco antes, uma fábrica de cervejas. Nessa fábrica eram oferecidos seus produtos para degustação, acompanhado de chocolate amargo como tira gosto. Não achei apropriada a combinação. No entanto, na falta de salaminho, queijo, azeitona, mandioca frita, ou churrasco, tive que me conformar e aceitar o que me era oferecido.

(Visita a fábrica de cerveja em Gramado-RS - foto: arq. pessoal)

     O fato é que, na praça da Matriz, estão, lado a lado, as estátuas dos doze apóstolos de Cristo: Pedro, André, Tiago, João, Felipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Tiago, Tadeu, Simão, e Judas Iscariotes.

(As estátuas dos apóstolos - Fonte: arq. pessoal)
 
     Por imposição da minha esposa, que sorria maliciosamente, e para que ela pudesse tirar uma foto, sentei-me em um banco com os apóstolos às minhas costas. Só não notei de imediato que o local onde ela determinou que eu me sentasse tinha o Judas ao fundo. E eu, com leveza de espírito, ali fiz pose para a posteridade.

(Praça da Catedral em Gramado/RS; ao fundo Judas Iscariotes)

     Logo depois tomei conhecimento do plano que ela havia arquitetado; de que o apóstolo atrás de mim não seria nenhum dos ditos bons - nem Pedro, nem André, nem Tiago... Dentre as doze possibilidades, ela fez de tudo para que eu posasse para uma foto com o Judas ao fundo.

     - "Paciência... o Judas também deve ter suas coisas boas...", pensei comigo quando me dei conta da armação.

     E pensando assim comecei a analisar os fatos que ora passo a enumerar.

     Quem foi voluntariamente confessar os pecados na Catedral Metropolitana de Porto Alegre (Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus) não fui eu - foi ela! 


(Catedral de Porto Alegre, RS - vista interna - foto: arq. pessoal)

("Ela, no confessionário da Catedral de Porto Alegre" - RS - foto: arq. pessoal)

     Depois, em passeio pelo Convento de N. Sra. da Penha, em Vila Velha-ES, foi ela quem novamente procurou o confessionário. 

 (Convento de N.Sra. da Penha em Vila Velha-ES - foto: arq. pessoal)

 (Convento de N.Sra. da Penha em Vila Velha-ES: detalhe - foto: arq. pessoal)
("Interior do Convento de N. Sra. da Penha" - Vila Velha - ES - foto: arq. pessoal)

     Não falei nada em momento algum. Fiquei quieto. 

     - "As coisas falam por si mesmas", pensei.

     É porisso que é bom deixarmos a vida fluir naturalmente, procurando compreender tudo o que nos é reservado. 

     Paciência! Paciência com tudo, pois Deus sabe o que faz. Faço a minha parte e, sem exigir nada, deixo que Ele faça a dele. 

     Mas, apesar de todas essas análises e fatos enumerados, bons ou ruins, entre anjos e demônios, tapas e beijos, bronzes e cristais, chocolates e salaminho, a verdade é que seguimos muito bem os dois juntos, sempre em frente... e carinhosamente abraçados... já há 25 anos, completados hoje.

(Eu e ela, no "Lago Negro"- Gramado/RS - foto: arq. pessoal) 

     Prá ela, minha mulher, de quem gosto tanto, uma musiquinha: "Eu e ela". 


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Eu e ela" - Roberto Carlos)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

SELEÇÃO DE CANDIDATOS



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Paciência" - Lenine)


"O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência" 
(Lenine)


E então nos sentamos em torno de uma mesa comprida. Sete senhores. Na ponta, uma cadeira vazia. Na sala pequena, sob nossos olhares, abre-se a porta e entra um candidato. Jovem, contido, inseguro. Pretende ser escolhido para uma bolsa de estudos. Aguarda, observa, pergunta com o olhar. Depois de sentar-se, e a pedido de um dos sete senhores, começa a ler em voz alta um texto seu previamente elaborado. O texto trata de coisas vagas... Os sete senhores se olham. O candidato termina a leitura. Aguarda comentários - que não são feitos. Pergunta novamente com o olhar perdido... É solicitado para que fale de si. Apresenta-se; apresenta a família, o trabalho, a vida pregressa, os motivos que o movem a concorrer à bolsa. Passa a ser questionado. Cada um dos sete senhores lança diversas perguntas... Nas respostas o candidato despe o seu universo cheio de vida e anseios... Aguarda... Faz-se silêncio. Fim.

     - "Um mundo ficou suspenso no ar", penso. "Será que aquele mundo contribuiu para que cada um dos mundos ali presentes, nas demais cadeiras em torno da mesa, seja reexaminado?", me pergunto. "E se contribuiu para isso, que tipo de transformação esse reexame será capaz de promover?"
 

O candidato levanta-se e agradece. Leva consigo perguntas no olhar. Deixa seu universo exposto.

Um outro candidato entra e ocupa a mesma cadeira. Os sete senhores repetem o mesmo procedimento... 

A cada resposta, a cada mundo desnudado, revejo o meu. Me emociono; revisito antigos ideais e me redescubro...  mas não só me redescubro: me incomodo e me inquieto...

- "Não consigo pensar em mim mesmo sem, no final, sentir um certo desespero" - disse uma vez Clarice Lispector em um dos seus livros...

Tomo um gole de água e retomo minha lucidez. 

Formulo e faço perguntas aos candidatos... Refaço-as, silenciosamente, a mim mesmo. 

     - "Não tenho respostas prontas... e nem sei se saberia responder as perguntas formuladas pelos demais senhores", penso.

Sem que possam me ouvir, agradeço a cada um dos candidatos por me permitirem conhecer seu mundo; agradeço por me mostrarem o quanto somos iguais em nossas diferenças e o quanto precisamos uns dos outros para nos ampararmos.

E continuo pensando...

     - "O que será de cada um desses jovens? O que será desses senhores? O que será de mim? O que será...?"

No final, com todos reunidos na mesma sala, e desejando que sejam felizes independentemente de resultados, com muita gratidão me despeço de cada um com um aperto de mão... e com mil outras perguntas que só o tempo é capaz de responder...

sábado, 23 de novembro de 2013

DAY AFTER DAY (COM OU SEM GRIPE)


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Badfinger - "Day after day", de Pete Ham - álbum "Straight Up", de 1971) 

Fui a uma reunião formal ontem à noite. Ao meu lado sentou-se um senhor que estava gripado, com a voz rouca, e espirrando muito... e eu não tinha como sair dali. 

- "Pronto", pensei... "Fodeu! vou pegar essa gripe"!

E passei a reunião toda testando minha garganta com a sensação de estar sendo invadido pelo vírus. Eu sei lá, mas achava que, tossindo, poderia estar combatendo e me livrando de todo aquele mal - pelo menos queria acreditar nisso.

Quando precisei falar algo, nem me ative para o seu conteúdo. Eu estava certo de que meu posicionamento naquele momento seria o menos importante, pois o que interessava mesmo era colocar para fora aquele tremendo mal que poderia estar querendo se instalar no meu corpo... e atrapalhar meus planos.

Ao vir embora prá casa, já de madrugada, coloquei prá tocar no carro uma coletânea de músicas. E vim cantando. Tomei o cuidado de deixar arreganhadas as janelas para ir me livrando do vírus que ia expelindo garganta à fora enquanto me esgoelava lá dentro... 

Em um determinado momento, no trajeto, entrou "Day after day" na sequência de músicas... Aumentei o volume e continuei cantando... mais forte e mais alto ainda, feito um adolescente... 

Antes de guardar o carro passei em frente de casa - um prédio de dez andares - umas três vezes. Tudo isso para poder ouvir repetidas vezes essa mesma música... Os moradores do meu prédio e dos prédios vizinhos que me perdoem pelo volume do som, mas confesso minha culpa - e espero que me compreendam.

E tudo isso porque no sábado vou estar com um grupo de amigos. Certamente vamos ouvir, cantar e tocar muita música boa. E "Day after day" é uma das que estará no repertório... 

Porisso solicito ao Tião e aos meus amigos que eventualmente venham a ler essa publicação que digam ao João, à Cláudia e ao Nanão, que ensaiem 'essa'... e que deem a letra em inglês 'pro' Zé Américo...".) 

Bom... Mas aí cheguei em casa. E a preocupação aumentou! 

- "Se não ficar gripado por causa da gripe daquele senhor, vou ficar gripado por causa do vento frio que me veio pela janela aberta do carro...", pensei.

- "Porque não segui as recomendações da minha mãe que sempre me orienta para que eu não tome gelado, não pise com os pés descalços no chão, e não fique exposto ao vento frio?"

- "Caraio!"

Antes de me deitar falei com a minha mulher a respeito da minha preocupação. Ela, sabiamente e clinicamente me acalmou:  

- "Fica frio, você não vai ficar gripado... tudo isso é só a sua expectativa para poder estar bem para encontrar seus amigos e poder cantar com eles"

Bom, as preocupações diminuíram... mas ainda precisam sumir. Preocupações tolas à parte, o importante mesmo é que no próximo final de semana, com gripe ou sem gripe, com vento ou sem vento, calçado ou de pés no chão, afinado ou desafinado, em algum lugar nesse mundo um grupo de amigos vai estar reunido, cantando e tocando um repertório com muita música boa... "Day after day", do grupo inglês "Badfinger", inclusive... 

- "E vai ser bom 'prá caraio'!"

(Nanão, Zé Américo, eu, João - 2012 - foto: arq. pessoal)