segunda-feira, 26 de maio de 2014

AS CASAS DE EXUPÉRY



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
    (Vital Farias - Canção em dois tempos - 1978)

     Manhã de segunda-feira. A foto de uma casa me fez visitar outras casas... Algumas que conheci, outras que apenas vi... outras ainda que somente pude imaginar.

     A foto me fez lembrar "Terra dos homens"*, do Antoine de Saint-Exupéry.

     Fui à minha estante, localizei o livro, folheei... Em uma determinada passagem ele conta que, aviador, entra em uma casa onde passaria a noite. E, entrando, procura desvendar os mistérios nela contidos:


Fazenda Pedra Branca 1911
Foto em https://www.panoramio.com/photo/99816624

     Ele fala dos limites da casa...

"O muro de um jardim de nossa casa pode encerrar mais segredos que as muralhas da China (...)"  

     ... da impressão geral...

"Ali estava tudo descuidado, adoravelmente em ruínas qual uma velha árvore coberta de musgo que a velhice alquebrou."

     ... dos detalhes internos...

"A sala de visitas tinha uma fisionomia extraordinariamente intensa, como a de uma velha cheia de rugas. Rachas das paredes, rasgões do forro, tudo isso eu admirava, e, acima de tudo, o assoalho que afundava aqui e oscilava mais adiante, como ponte mal segura, mas sempre envernizado, polido, lustroso. Estranha casa que não sugeria nenhuma negligência, nenhuma displicência, e sim um extraordinário respeito. Cada ano juntava, sem dúvida, alguma coisa ao seu encanto, à complexidade de sua fisionomia, ao fervor de sua atmosfera amiga e também aos perigos da viagem que era preciso fazer para ir da sala de visitas à sala de jantar." 

     Faz perguntas, a si mesmo, a respeito da finitude das coisas, das transformações a que são submetidas, do aspecto prático da vida...

"(...) o que aconteceria se uma turma de pedreiros, carpinteiros, marceneiros e estucadores viesse trazer para aquele passado seus instrumentos sacrílegos? Eles fariam em oito dias uma outra casa, uma casa desconhecida onde os antigos donos se sentiriam como visitas. Uma casa sem mistérios, sem recantos, sem alçapões sob nossos pés, sem masmorras ocultas - uma espécie de salão de prefeitura..."

     Ele se mantém atento às histórias que ninguém contou; pensa nas possíveis velharias guardadas...

"(...) já se adivinhava ali que bastava abrir um armário qualquer para que aparecessem maços de cartas amareladas, maços de recibos do bisavô, e chaves em maior número que todas as fechaduras da casa, chaves das quais nem uma, com certeza, serviria em fechadura nenhuma..."

     ... e traduz uma certa cumplicidade com o que só se pode sentir...

"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo."

     Quem, de onde quer que esteja, não consegue carregar em si uma casa onde estão guardadas todas as suas visões afetivas? Uma casa qualquer, marcas de mãos nas paredes, sinais de vida...? E quem, com essa acervo tão rico de sinais, não sofre ao pensar no seu inexorável desaparecimento do mundo real?

     Pela foto e pelo texto do Exupéry, gosto de imaginar que há sempre algo além... que vale a pena buscar, nas coisas, o que nelas se esconde... que é possível, para quem crê, dialogar com fantasmas...

________________________________ 
*SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Terra dos homens. Tradução de Rubem Braga. 28ª ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 



sexta-feira, 16 de maio de 2014

STRANGE FRUIT


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
ACOMPANHE A LETRA, ABAIXO
("Strange fruit" - interpretação de Billie Holiday, gravada em 1939)
https://www.youtube.com/watch?v=Web007rzSOI

 Strange Fruit

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black body swinging in the Southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant South,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolia sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh!

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

 Estranho Fruto

As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto,
Sangue nas folhas e sangue na raiz,
Um corpo negro balançando na brisa sulista
Um fruto estranho pendurado nos álamos.

Uma cena pastoral no galante Sul,
Os olhos esbugalhados e a boca torcida,
Perfume de magnólia doce e fresca,
Então o repentino cheiro de carne queimada!

Aqui está o fruto para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores fazerem cair,
Aqui está uma estranha e amarga colheita.


     Nos Estados Unidos, a escravidão durou 221 anos. Até 1870, foram levados para lá entre 400 e 500 mil escravos*.

     O Ato de Emancipação (dos escravos nos EUA) entrou em vigor em 1863. Contudo, mesmo depois do final da escravidão, os negros norte-americanos continuavam impedidos de exercer livremente seus direitos civis e políticos. Organizações, tais como a Ku Klux Klan, que semeavam entre a população negra o terror e o medo, procuravam impedir sua integração social.

     Abel Meeropol, professor de colégio, certa vez viu uma foto datada de 1930 que mostrava dois negros enforcados. Seus corpos pendiam de uma árvore. Eles haviam sido presos por suspeita de roubo e assassinato de um operário branco. Os registros contam que uma multidão invadiu a cadeia, bateu nos dois negros e os enforcou. Seus nomes eram Thomas Shipp e Abram Smith. 


(O linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith - EUA/1930 - foto de Lawrence Beitler - fonte:http://i.telegraph.co.uk/multimedia/archive/01841/Thomas_shipp_abram_1841009c.jpg)

     O professor, assombrado com o que vira na foto, publicou em 1936 "Strange Fruit" - um poema que traduzia com bastante propriedade aquelas imagens.

     Observo, no mencionado poema acima transcrito, a maneira como o autor dos versos descreve os corpos enforcados nas árvores:

"Strange fruit hanging from the poplar trees"
(frutos estranhos pendurados nos álamos)

     Nessa descrição ele menciona os álamos ("poplar trees") - árvores nas quais os enforcamentos ocorreram. Pois, na cultura de alguns povos, os álamos (os pretos)** são consideradas árvores que crescem nos infernos***; e que, pelo som produzido por suas folhas ao vento, representam o lamento fúnebre. São, por isso, considerados símbolo da morte.

     Os corpos pendurados, o autor os mostra como frutos estranhos que servem para os corvos, não para os seres humanos; que proporcionam uma estranha e amarga colheita:

"frutos para os corvos arrancarem,
para a chuva recolher, para o vento sugar,
para o sol apodrecer, para as árvores fazerem cair (...)" 

(Fonte: http://lifeafterhate.org/wp-content/uploads/2010/07/strangeFruit.jpg  -  Alison Saar)

     E os corvos, devido a sua cor e à sua impertinência, são considerados figuras de mau agouro, anunciadoras de doenças e mortes. No poema, os corvos arrancam os frutos e os levam - simbolicamente, para a morte.

     Esse poema, posteriormente musicado, tornou-se uma canção que condena o racismo e a segregação racial nos Estados Unidos. Muitos artistas a gravaram. Mas é na voz de Billie Holiday, uma negra americana de origem pobre, de voz rouca e sofrida, que passou por todo tipo de sofrimento, que esse lamento fúnebre sangra.

_______________________________
* Fonte: Lessa, Ricardo. Brasil e Estados Unidos: o que fez a diferença. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008 (pelo mesmo autor, no Brasil, para onde foram levados de 3,6 a 5 milhões de escravos, a escravidão durou 357 anos)
**Álamo-preto = choupo-preto
***Dicionário de Símbolos - Herder Lexikon - Ed. Cultrix, 1990

segunda-feira, 5 de maio de 2014

BOLERO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Eydie Gormé e Trio Los Panchos - "Sabor a mi", do mexicano Alvaro Carillo)

     O bolero teve origem em Cuba quase no final do século 19, e ficou conhecido popularmente como "canção romântica mexicana". Com tradição em toda a américa latina, influenciou inclusive o nosso samba-canção.

     Mas se o bolero nasceu para o mundo há tanto tempo, e em outro país, para mim nasceu no início da década de 70, bem pertinho de casa - exatamente no salão do clube da cidade. 

     Lembro-me que, terminado um baile de carnaval nesse clube, alguns poucos casais permaneceram em suas mesas. E, com o salão já quase vazio, como que tomados por uma inspiração deslocada no tempo, os músicos recomeçaram a tocar. Mas não eram mais ritmos de carnaval. Eram boleros e ritmos antigos, compassados e lentos... e aqueles poucos casais se abraçaram e começaram a dançar. 

     Fiquei parado à beira do salão, observando aquele outro baile, ouvindo aquelas outras músicas...

     Em poucos minutos a euforia de carnaval, dos movimentos incansáveis de corpos suados, de braços e olhos bem abertos, era transformada em movimentos compassados, contidos, que uniam por (a)braços dominadores e corpos dominados os casais que juntos dançavam de olhos fechados.

http://rebloggy.com/post/dancing-romance-dance-slow-dancing-dancing-gif-dance-gif-fifthbitch-romance-gif/48069125796)

     A partir daí dediquei atenções também ao bolero e não apenas ao pop norte americano, ao rock, aos sambas tradicionais e às marchinas de carnaval. Descobri que aquele gênero musical traduzia exatamente o nosso universo latino: sensual, ciumento, passional e possessivo; que suas letras e seu ritmo são dedicados àqueles que amam despudoradamente e que se entregam a paixões inteiras.

     Por isso, desde aquela época, tenho em casa a gravação de boleros que aprendi a gostar. 

     Dentre os que ouço com frequência está uma bela seleção do Trio Los Panchos - da qual destaco "Sabra diós", "El dia que me quieras", "La barca" e "Mi ultimo  fracaso".

     Gosto também de dois CDs da Nana Caymmi - "Bolero" e "Sangre de mi alma" -, nos quais ela gravou "Tu me acostumbraste", "Contigo en la distancia", "La puerta", "Sinceridad", "Encadenados" e "Acércate más". Além desses dois CDs, ouço também o Lucho Gatica e artistas consagrados em outros gêneros musicais que gravaram boleros - em especial  a Elis Regina e o João Bosco cantando "Dois prá lá, dois prá cá".   

     Mas de todas as gravações que tenho, e de todos os gêneros musicais de que gosto, há em casa um CD muito especial. Chama-se "Amor", e foi gravado pela Eydie Gorme com o Trio Los Panchos, em 1964. E é só bolero da mais alta qualidade! Ali ouço "Nosotros", Piel Canela", "Y", "Sabor a mi", "Noche de Ronda", "Caminito", "Cuando vuelva a tu lado", "Di que no és verdad", "La ultima noche", "Historia de un amor", "Media vuelta", e "Amor". 

Capa do Disco
fonte: http://www.submarino.com.br/produto/5249573/cd-eydie-gorme-e-trio-los-panchos-amor#

     Ainda agora, ouvindo esse CD, abri o encarte de um outro, o "Sangre de mi alma" da Nana Caymmi, e nele li a apresentação feita pelo Daniel Filho, e que diz o seguinte: 

     "Sente-se confortavelmente à meia-luz, uma taça de vinho, escute, viaje, lembre: Se estiver acompanhado(a) "Acércate más", e dance, cole os corpos, eles irão aos poucos ficando mais juntos, os dedos vão cruzar, enquanto os braços caem num abandono, pernas se entrelaçam soltas, o rosto levemente roça o outro, sem perceber, as mãos se largam e envolvem o corpo num abraço, "Encadenados". A nuca se expõe para o beijo inevitável... são "Dos almas"... É o bolero... "Dois pra lá, dois pra cá"..." 

      Assim, meu amigo, minha amiga, seja lá o que for que você estiver fazendo agora, pare tudo. Nada será mais importante. Siga as instruções do Daniel Filho. Acomode-se, respire, e aumente o som. Ouça a Eydie Gormé cantando com o Trio Los Panchos e se deixe levar. Depois quero ouvir você me dizer se devo ou não, como um autêntico latino que sou, temperado com uma boa dose de sangue árabe, ter ou não ciúme desse CD inteiro - como se todo ele fosse "sangre de mi alma".

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO PENSA)
(Eydie Gormé e Trio Los Panchos - "Historia de un amor", do panamenho Carlos E. Almáran) 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

ENTRE A HARMONIA DAS ESFERAS E A GEOMETRIA DO CUBO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
Sinfonia nº 7 em Lá Maior - Op. 92 - II. Allegretto - Beethoven -
https://www.youtube.com/watch?v=vCHREyE5GzQ


     José Castello, em "O poeta da paixão"*, conta que Paulo Mendes Campos, um dia, puxou assunto com o Vinícius de Moraes.

     - Pois é, Vinícius, você anda por todos os bares, e se dá bem com todo mundo. Qual é o teu segredo?

     E o Vinícius, sem se atordoar ou mostrar-se envaidecido, assim respondeu:

     -  É por que eu sou um sujeito que tem a harmonia das esferas. (...).

     Depois de ter assistido esse depoimento do Vinícius em um programa antigo da TV Cultura (Ensaio, 1974), e depois de tê-lo lido anos mais tarde no livro do José Castello (1994), fiquei tentando entendê-lo melhor, fazendo minhas análises e comparações.

     De fato, as esferas são harmônicas. Não possuem lados. Elas são lisas, não possuem arestas. Por não possuírem arestas não ferem, não arranham, não se desincompatibilizam. Contudo, justamente por não possuírem arestas ou ângulos retos, rolam de um lado para outro ao sabor de qualquer impulso.

     O cubo, por sua vez, apesar de sua superfície lisa, tem diferentes lados, ângulos retos que formam quinas, que são enormes arestas. Essas arestas podem causar arranhões e ferimentos em quem o toca. Ele - o cubo - não está sujeito a mudanças fáceis e constantes de posição. É necessário que seja superado por uma força forte o suficiente para que altere o seu posicionamento. Porém, aceita as mudanças de lado e consegue repousar... até que uma outra força forte o suficiente provoque uma nova mudança.

     Assim os homens. 

     Os esferas estão em harmonia aparente com todos; contudo, não sustentam posição, não se mostram; os cubos podem ferir, podem arranhar, porém sustentam posicionamentos até que outros, convincentes, o façam mudar de posição até um novo repouso.

     Os esferas, por não conterem arestas, não conseguem se encaixar. Estão sempre a rolar de um lado para outro, harmonizando-se com um aqui, com outro acolá. Mas, pela sua forma, estão impossibilitados de encaixe. O esfera harmônica rola em torno de si, não fere... porém, não constrói.

     Os cubos, por sua vez, e por possuírem as arestas naturais e ângulos retos, conseguem se encaixar perfeitamente em outros cubos, justamente por esses outros cubos também possuírem arestas e ângulos retos. De tal forma que, justapostos a outros cubos - apesar das arestas, e independente do lado em que o encaixe ocorra - formam uma superfície só, uma parede, uma muralha altamente resistente... inclusive aberta a novos encaixes...

     E o próprio poeta, no programa de TV e no livro do José Castello, assim conclui seu raciocínio:

     - Isso [ter a harmonia das esferas] não é uma qualidade, é também um sinal de fraqueza de que não devo me orgulhar muito

     Quanto a mim, vou aprendendo com o tempo que não preciso ter a harmonia das esferas para estar bem comigo mesmo e com todos; que posso ser cubo... e que somente minhas arestas naturais fazem de mim o que sou.  

Link permanente da imagem incorporada
 (Vinícius de Moraes mostrando a língua para o pessimismo. Fonte: http://ac2brasilia.blogspot.com.br/2014_01_26_archive.html). Creio que essa foto foi um momento "cubo" do Vinícius.

* Castello, José. "Vinícius de Moraes - o poeta da Paixão - uma biografia" -. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, pg. 263

terça-feira, 8 de abril de 2014

ROMEU E JULIETA


("Romeu e Julieta" - o instante fatal - fonte: http://danibottrel.blogspot.com.br/2009/11/romeu-e-julieta.html)

     Nosso tempo de criar é finito. Dura o tempo de nossa vida. O tempo de duração daquilo que criamos, entretanto, vai muito além do nosso próprio tempo de existência.

     Quando morre um artista a poesia em nosso universo diminui. O mundo embrutece. É muito ruim pensarmos que de um poeta ou compositor de quem gostamos nada mais de novo aparecerá: nenhuma música nova, nenhum poema novo, nenhum texto, nada... É assim que também me sinto nessas circunstâncias: diminuído.

     Foi assim que me senti quando morreram o Vinícius, o Tom, o John Lennon, o Rubem Braga e tantos outros. Quais seriam, então, as possibilidades de ouvirmos hoje uma música nova do Tom? do John Lennon? De lermos uma poesia inédita do Vinícius? ou descobrirmos uma nova crônica do Rubem Braga? Praticamente nenhuma...

     Mas outro dia ouvi o Toquinho e uma cantora interpretando uma música que eu desconhecia. A melodia trazia algo de medieval, e casava muito bem com a letra. Ao ouvi-la parei tudo o que estava fazendo, e segurei a respiração. Não queria atrapalhar nenhuma nota musical, nenhuma palavra da letra.

     A música falava de alguém que, sabendo de sua finitude, procurava carregar da vida um amor que havia tido. Pedia, então, que não fosse esquecido:

"Não te esqueças de mim
quando um dia eu me for..."

     Pedia que fosse depositada uma flor onde houvesse uma mensagem sua; um epitáfio declarando o seu amor:

"Aqui jaz um amor
que foi lindo demais
Aqui jaz um amor
em paz"

     Atento a essa letra, carregada ao mesmo tempo de sofrimento e lirismo, percebi nela um certo quê de Vinícius de Moraes.

     E continuei a ouvi-la, encantado que estava com a simplicidade poética dos seus versos.

     No final da letra o autor pedia que alguém, depois dele, procurasse um punhal para concluir sua própria vida, e que derramasse seu sangue junto ao dele:

"E no instante fatal,
ao sentires teu fim,
vem deitar o teu sangue
em mim".

     Gelei! Tudo isso me lembrou a história dos suicídios de Romeu e de Julieta, ambos por amor de um pelo outro, tal como contado por William Shakespeare em sua obra literária - e que todos nós conhecemos: o amor e a morte de dois jovens, cujas famílias, Montecchio e Capuleto, viviam em conflito.

     Com essa música na cabeça, fui pesquisar sua autoria. E encontrei o próprio Toquinho contando: que havia feito a música com o Vinícius de Moraes em meados da década de 70; que lembrava-se da melodia e parte da letra, mas que  a composição havia sido perdida e, por isso, nunca gravada. Conta ainda que, um belo dia, uma amiga do Vinícius o procurou para entregar-lhe a letra datilografada e com correções manuscritas pelo próprio Vinícius.

     Depois disso essa música foi então gravada pelo Toquinho, com a participação de Anna Setton, em um disco seu de 2011 chamado "Quem viver verá".

     Conhecendo agora essa história, e confabulando o impossível, ouço a música e fico me perguntando:

     - "Se fossem contemporâneos, ao ouvir uma obra sua sendo assim resumida e musicada, o que o Shakespeare teria dito ao Vinícius?"

     Não tenho a resposta. Só sei que gostei da composição... e da história de seu aparecimento.

(CLIQUE PARA OUVIR)


Romeu e Julieta 
(Toquinho e Vinicius de Moraes)
Não te esqueças de mim
Quando um dia eu me for
Deposita uma flor
Onde disser assim: 
Aqui jaz um amor
Que foi lindo demais
Aqui jaz um amor em paz

E não busques jamais
Repousares enfim
Busca um velho punhal
De ferrugem ruim
E num instante fatal
Ao sentires teu fim
Vem deitar o teu sangue em mim 

quarta-feira, 26 de março de 2014

CRAZY


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Crazy" - Patsy Cline)


     Uma das estações de rádio que gosto de ouvir no computador chama-se SKY.FM-OLDIES. Tem um bom astral. Em sua programação estão as músicas norte-americanas que fizeram sucesso de 1960 até uns 15 anos atrás, por aí. Agora há pouco puseram para tocar “Crazy”, interpretada por Patsy Cline. Lembro-me de que gostei dessa música desde a primeira vez que a ouvi na trilha sonora de um filme - isso muito antes do aparecimento do micro computador. E, logo em seguida, comprei o LP para ouvi-la sempre que quisesse. Gostava (e ainda gosto) de cantá-la em casa acompanhando-me ao violão - para tortura de ouvidos que eventualmente me ouviam. 

      Aqui no Brasil essa música fez sucesso na voz do Julio Iglesias em disco seu do ano de 1994. Nunca fui muito atraído para as gravações do Julio Iglesias. Por isso, só descobri agora que essa música foi um dos temas da telenovela “A Viagem” da rede Globo (dir. Ivani Ribeiro, 1994). 

      "Crazy", composta por Willie Nelson em 1961, é uma música “country”. Foi também um dos temas do filme “Coal Miner’s daughter – o destino mudou sua vida” (Michael Apted, 1980) -, que conta a vida de uma grande cantora, Loretta Lynn, amiga de Patsy. Belíssimo filme. Gosto de revê-lo.

     Patsy Cline morreu em um acidente de avião, em março de 1963, aos 30 anos de idade. Sua gravação de "Crazy", em 1962, fez muito sucesso nos Estados Unidos.

      Gosto das duas gravações, tanto da Patsy Cline quando do Julio Iglesias. Mas gosto em especial da gravação de Beverly D'Angelo que está na trilha sonora do filme. 

(Capa da disco da trilha sonora do filme. Na imagem, Loretta, a personagem da Sissy Spacek - em: http://theband.hiof.no/band_pictures/coal_miners_daughter.jpg)


     Mas, como toda história de vida é única, todo artista coloca muito de si mesmo nas gravações que faz. No presente caso tanto a história da Patsy Clyne quanto da Loretta Lynn e do Julio Iglesias são interessantes. Cada história traduz um estilo de vida ilustrando os traços de um tempo. E nós, ao ouvirmos essas gravações, inevitavelmente somos levados a nos perguntar: 

     - "Qual delas é melhor? qual traduz com maior coerência a emoção da música refletida no estilo de vida pessoal transmitido pelo artista?" 

     Talvez a resposta a essas perguntas esteja na combinação do nosso perfil pessoal com as imagens que cada interpretação suscita... 

     ...ou então, pensando bem, não há gravação melhor ou pior, mais ou menos coerente: cada uma, assim como cada um de nós, tem a beleza (e a loucura) própria de seu tempo. 


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Crazy - Julio Iglesias)


quinta-feira, 13 de março de 2014

NASCENTE



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
Milton Nascimento -"Nascente", de Flávio Venturini e M. Antunes
 

     Os anos compreendidos entre 1976 e 1980, durante os quais estive na universidade, foram muito marcantes para mim. Uma noite, não me lembro precisamente em qual desses anos, sem nenhuma companhia, em um evento pouco prestigiado no salão do Diretório Acadêmico, indiferente a tudo o que se passava ao meu redor, um rapaz subiu ao palco com um violão, e começou a cantar uma música que me fez acordar daquela apatia em que eu me encontrava. Despertei. Fiquei atento à letra... "Clareia... manhã... (...)"

     Sem procurar aplauso dos poucos ali presentes, o rapaz cantava na quase escuridão, com a face direcionada para uma garota. Ela, de pé diante do palco, cantava também, direcionando seu olhar a ele. A música..., linda..., eu a ouvia pela primeira vez. Eu a ouvia atentamente, letra e melodia, e sentia o coração bater forte ao imaginar o que parecia ser o nascimento de uma história de amor... uma história que poderia ser momentânea, temporária ou duradoura... quem poderia dizer?


Fonte: http://daydreamore.files.wordpress.com/2012/12/black-and-white-boy-girl-guitar-life-favim-com-352005.jpg

     Nunca mais me esqueci daquele momento, naquela noite que, para mim, foi protagonizada por dois jovens, embalados por "Nascente" - a música que, depois, descobri qual era.

     Lembro-me que saí do Diretório com ideias de infinito, de eternidade... E caminhando pela calçada, encostei-me em uma parede, diante de um carrinho de lanches que fazia ponto na esquina. Com um sanduíche em minhas mãos, segui o meu caminho até a praça central da cidade. Sentei-me em um banco entre os jardins, e fiquei quieto, pensando, esperando o dia amanhecer.

     Não sei porque, mas hoje me lembrei daquele casal, que nunca conheci, com o desejo de que, naquela noite, entre eles, um grande amor havia nascido... e que aquele grande amor, nascido na inspiração de uma música tão bonita, manteve-se intenso por todos os anos passados, desde então, para durar até os dias de hoje, para durar para sempre.



*NASCENTE
(Flávio Venturini/Murilo Antunes)

Clareia
Manhã
O sol vai esconder
A clara estrela
Ardente
Pérola do céu
Refletindo
Teus olhos
A luz do dia a contemplar
Teu corpo
Sedento
Louco de prazer
E desejos
Ardentes

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

CINE GUARÁ


     Viajando pelas estradas do nosso país a gente vai observando os casebres espetados em locais praticamente inacessíveis... O carro cumpre sua trajetória e as pequenas casas isoladas se aglomeram para formar uma vila, uma cidade... De longe se vê sempre uma igreja em destaque. Eventualmente, às margens do caminho, um pedestre preenche seu tempo e sua fantasia observando o carro que passa, e que o estimula a sonhar.

     Nossas vidas estão ocupadas pela dureza da realidade, pelo nosso espaço limitado, pelo nosso período de tempo contado! 

     Londres, Paris, Tóquio, Nova Iorque, Rio de Janeiro; um novo trabalho, alguém a quem querer bem, modelos de relação familiar; pré-história, a revolução russa, a idade-média, o homem em Marte, a vitória do bem contra o mal; justiça, solidariedade, amor, carinho, honestidade - só existem no som das palavras que as representam, nos livros...

     ... ou no cinema!

     No cinema caminhamos por tantas cidades, conhecemos tanta gente, ultrapassamos as barreiras do ontem e do amanhã, rimos, choramos, nos emocionamos e descobrimos modelos de identificação; no cinema podemos ir onde a imaginação nos levar!

     E foi no cinema que, como Phileas Fogg (interpretado por David Niven), dei a volta ao mundo em 80 dias; que como Dr. Jivago (por Omar Shariff), escondi-me no interior da Rússia; que como Moisés (por Charlton Heston), conduzi um povo; que como Joe Buck (por Jon Voight), tentei vencer em Nova Iorque; que como Marcelo (por Stepan Nercessian), passei minha infância nas ruas e praias de Copacabana...

     Todas essas viagens, e inúmeras outras, devo ao cinema. E, em especial a um cinema que ficava pertinho de casa: O "Cine Guará"!

("Cine Guará, em algum tempo no passado" - Foto postada por José Carlos Souza Oliveira no facebook)


     Dentro dele, com as luzes apagadas, eu podia tudo! Ali, desligava-me de carências, sofrimentos, cidades, pessoas, tempo e som reais, para poder ir além, para poder viver e aprender com a fantasia... Ali, qualquer ruído era incômodo! Refrigerantes e pipoca eram proibidos, pois seus sons nos traziam de volta à realidade... O máximo que se tolerava era um leeeeento desembrulhar de uma bala pipper, toffee ou cevada - as únicas vendidas no cinema - não sem deixar na gente um baita sentimento de culpa pelo barulho que o papel fazia, pois que desmontava a fantasia de quem vivia o filme que estava assistindo.

     Hoje já nem sei o que funciona no prédio do "meu" antigo cinema. Sei que houve um tempo em que ali funcionou uma loja de eletrodomésticos; depois, igreja; em seguida departamento de alguma coisa da administração municipal... 

     Com isso, fico pensando no real e na possibilidade de construção do imaginário nas mentes das pessoas; no que elas podem e estão talhadas a viver, e no que elas conseguem se soltar e aprender a sonhar para poderem ir mais além...

     E é por isso que fico muito incomodado com o desaparecimento de muitas salas de cinema - pois que isso diminui a possibilidade de se poder sonhar. Mas também fico muito incomodado quando, em algum cinema, noto alguém sentar-se na plateia carregando uma bandeja enorme de pipoca com um copo de "ene" litros de coca-cola. Isso significa que o barulho produzido por essa pessoa vai mantê-la na realidade em que vive, tirando dela mesma e de muita gente na plateia a possibilidade de se ver em outra realidade, de se repensar, de se reinventar, de querer ir mais além, e aprender com a fantasia projetada na tela. 

     Oops! Chega de papo! Com as luzes se apagando, e com os sons reais desaparecendo, ouçamos a música acompanhar as cortinas que se abrem...

("Till" - Percy Faith)

... para que possam entrar em cena Charlie Chaplin, Antônio Fagundes, Cécile de France, Anthony Quinn, Sidney Poitier, Juliette Binhoche, Brad Pitt, Nicole Kidman, Cantinflas, Walmor Chagas, Brigitte Bardot, Dustin Hoffman, Morgan Freeman, Ricardo Darin...;

... para que possamos visitar a torre Eiffel, a pirâmide de Quéops, o Coliseu de Roma, a Muralha da China, o Cristo Redentor, Machu Picchu, o Museu de Antropologia da Cidade do México...;

... para que conheçamos Hannibal Lecter, Forrest Gump, Indiana Jones, James Bond, Don Corleone, Scarlett O"Hara, Tarzan...;

... para que possamos assistir "O paciente inglês", "Xingu", "A Partida", "Procurando Sugar Man", "Gandhi", "O pianista", "Por volta da meia-noite"...;   

... e para que também, concomitantemente, se possam abrir nossas mentes e nossas fantasias ao assistirmos um filme que nos inspire a repensar a nossa realidade, buscando deixar uma outra melhor para os nossos filhos.

     Bons filmes a todos!     

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

PRA ONDE VAI MEU PORTUGUÊS ?


(fonte: http://www.portaldorancho.com.br/artigos/arte-e-literatura/o-poder-das-palavras)


     Stacey Kent é uma cantora norte-americana. Canta jazz. Descobri-a recentemente quando procurava gravações em francês do "Samba da benção" (do Vinícius de Moraes), e de "Águas de Março" (do Tom Jobim). Pois foi aí que me deparei com a voz doce e delicada dessa cantora, cantando também em francês. Suas gravações de jazz e bossa-nova são lindíssimas. Além de ter colocado em disco clássicos de bossa-nova, gravou, com seu marido - o saxofonista Jim Tomlinson - um álbum inteiro com músicas brasileiras. O álbum chama-se "Jim Tomlinson - brazilian sketches". 

     Providenciei, para poder ouvir a hora que quiser, todas as gravações que pude encontrar da Stacey Kent. E ela tem sido uma grande companhia nos meus devaneios musicais.

     Talvez, por ter se graduado em Literatura Comparada, tenha lido diversos escritores brasileiros e, especialmente, sentido a beleza do som das palavras pronunciadas em português. Tudo indica que por ter chegado à música brasileira e, por ter se envolvido com toda carga emocional contida nas palavras, maravilhou-se com nossa língua. 

     Em passagem pelo Brasil, entrevistada no programa do Jô Soares, falando e cantando em português, assim ela se referiu ao sentido da língua portuguesa em sua vida:


("Coração vagabundo", de Caetano Veloso - por Stacey Kent, no programa do Jô Soares)

"a razão por que eu estou estudando sua língua é por causa dessas palavras, essas letras; sem essas letras na minha vida, minha vida seria muito menos rica". 

     Abro o "facebook" e fico olhando postagens e comentários. Por trazerem palavras e siglas que desconheço, não os entendo bem: "altered beast", "drive-in", "rush", "printer", "SNES", "delete", "scanner", "MBA", "master", "bypass", "charter", "spread"... Claro que a dinâmica de uma língua conta muito; claro que preciso me atualizar... mas, será que não há palavras em português que possam dizer o que tiver que ser dito? Aliás, é bom nos lembrarmos que a cultura e as palavras carregam em si tanto uma expressão de autoestima quanto, também, uma ferramenta de dominação!

     Pensando nisso, lembrei-me de um sambinha gravado pelo Cyro Aguiar em 1972 e que aborda a questão do esquecimento e do desuso em que caiu a língua portuguesa. Em um pequeno trecho diz o seguinte:

"Cansei de tanta coisa importada. Cansei de tanto som envenenado. Cansei, eu que nem sei falar inglês, venho pensando há mais de mês, 'prá onde vai meu português?'. (...) Meu português se perdeu, acabou, de cafona em versos fugiu..." 


("Asfalto falsificado" - Cyro Aguiar)

     Estou certo de que há ainda muito que ser lido em  português para que possamos merecer a línqua portuguesa. Assim como a Stacey Kent, que pela sua formação muito leu e compreendeu, seria bom que cultivássemos o hábito de empregar nossa língua em nossa fala e em nossas escritas, descobrindo e valorizando a maravilha sonora e a densidade de imagens que suas palavras nos inspiram. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

MORRO VELHO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
Elis Regina - "Morro Velho", de Milton Nascimento

     O calor da tarde está insuportável. De dentro do carro, preso no trânsito, observo a cidade. A avenida, que já teve de ambos os lados imóveis residenciais, transformou-se em centro econômico, tomada que está por todos os tipos de lojas e ricas agências bancárias. No centro, dividindo as mãos de trânsito da avenida, há um caminho feito de pedras e jardins mal cuidados, com enormes sibipirunas que se sucedem ao longo de sua extensão. O trânsito flui nervoso e preguiçosamente; o carro manca e chacoalha a cada pequeno deslocamento sobre as pedras que revestem o chão. 

     Mas ao ouvir no aparelho de som do carro a Elis Regina cantando "Morro Velho", esse universo de imóveis, carros e pedras em que me encontro transforma-se em riacho, plantação, sombras, meninos e passarinhos. Sua letra e sua melodia me colocam em uma fazenda onde poucas vezes estive... Lá o universo infantil, transparente, sem cor de pele e sem distinção de raças, distante de preconceitos aos olhos de uma criança, é colorido de fantasias...

"Peixe bom dá no riacho de água tão limpinha - dá pro fundo ver"

     Nessa leveza toda, sentados livremente, os meninos observam com graça tudo que os rodeia.  

"Só poder sentar no morro, e ver tudo verdinho, lindo a crescer"

     E assim desenvolvem-se a amizade, as brincadeiras infantis e a meninice dos dois amigos.

"(...) correndo pela estrada atrás de passarinho
pela plantação adentro crescendo os dois meninos
sempre tão pequeninos (...)"

     Um é branco, e seu pai o proprietário; o outro é negro, filho de um dos trabalhadores da fazenda. O preconceito racial, arraigado na sociedade, é algo que as crianças não têm. Por isso, os dois meninos brincam juntos.

(fonte: http://euamompb.blogspot.com.br/2011/10/clube-da-esquina-os-sonhos-nao.html)

     Com o tempo, porém, a realidade os distancia... 

"Filho do senhor vai embora, tempo de estudo na cidade grande" 

     Fica, no entanto, no coração dos meninos que rompem a trajetória comum de suas vidas, o desejo de que a infância e tudo que a envolve nunca termine...

"Não me esqueça amigo, eu vou voltar.
Some longe o trenzinho, ao deus-dará" 

     Mas a cidade transforma, os indivíduos se transformam, os meninos se transformam; as vantagens e ordens da cidade distanciam... Por isso, ao retornar, o filho do proprietário, herdeiro natural da fazenda, já é outro, já é doutor... E naquilo tudo (e naqueles todos) vai mandar!


"Quando volta já é outro, trouxe até sinhá mocinha para apresentar
já tem nome de doutor, e agora na fazenda é quem vai mandar" 

     No entanto aquele cujo pai trabalhava na fazenda, o "seu velho camarada", também cresceu. E, sem ter tido as mesmas oportunidades, simplesmente continua...  

     Da amizade à submissão, a vida prossegue...

"Mas seu velho camarada já não brinca, mas trabalha."

     Olho novamente o trânsito parado na avenida... Um menino paupérrimo e sorridente, com uma bola debaixo do braço, vem à janela do meu carro, fica me olhando, e me coloca de novo na cidade...  O trânsito segue, eu sigo, a vida segue... e o pensamento vai longe:

     - "É preciso olhar pelas crianças; é preciso aprender com elas, enquanto crianças. Ainda há árvores a serem plantadas, ainda há jardins a serem cuidados, ainda há muita infância dispersa pelas ruas; ainda há uma nação a ser construída..."    

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Morro Velho
(Mílton Nascimento)

No sertão da minha terra, fazenda é o camarada que ao chão se deu
Fez a obrigação com força, parece até que tudo aquilo ali é seu

Só poder sentar no morro e ver tudo verdinho, lindo a crescer
Orgulhoso camarada, de viola em vez de enxada

Filho de branco e do preto, correndo pela estrada atrás de passarinho

Pela plantação adentro, crescendo os dois meninos, sempre pequeninos
Peixe bom dá no riacho de água tão limpinha, dá pro fundo ver
Orgulhoso camarada, contra histórias prá moçada

Filho do senhor vai embora, tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes, deixando o companheiro na estação distante
Não esqueça, amigo, eu vou voltar, some longe o trenzinho ao deus-dará

Quando volta já é outro, trouxe até sinhá mocinha prá apresentar
Linda como a luz da lua que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor, e agora na fazenda é quem vai mandar
Mas seu velho camarada já não brinca, mas trabalha