domingo, 21 de junho de 2015

CAETANO E GIL EM ISRAEL


"Todo artista tem de ir aonde o povo está"
(Milton Nascimento)


     A imprensa noticia que Caetano Veloso e Gilberto Gil farão uma turnê internacional*. Nessa turnê está agendada, para o dia 28 de julho, uma apresentação em Tel-Aviv (Israel). No entanto um grupo com perfil político divulgou uma carta na qual Roger Waters (ex Pink Floyd) solicita ao Gil e ao Caetano que, como forma de represália às hostilidades de Israel contra os palestinos, cancelem o show.


Map of Palestine
(Fonte: http://www.pbs.org/frontlineworld/stories/palestine503/additional.html)

     Caetano e Gil divulgaram na imprensa que manterão a apresentação**. Gil diz que cantará para um "israel-palestino", que não tem interesse em "misturar a posição discutível do Estado de Israel com o povo de Israel - que tem uma vida, uma cultura e uma dimensão simbólica"; diz ainda que "há pessoas que gostam de música brasileira e que têm apreço por essa música há muitos anos" - e que esse é o motivo que o leva a cantar lá. 

     A meu ver, não é por intermédio de boicote cultural que interesses políticos podem ser alcançados. Pelo contrário. A cultura, em especial a música, é dotada de uma linguagem universal que aproxima - e que tem em si, pelo que inspira, até o poder de criar novos traçados políticos.

(Gilberto Gil na ONU - Fonte: http://i.ytimg.com/vi/C5-33YIVYC4/hqdefault.jpg)

     Lembro-me bem de um concerto no salão da Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, em 2003, em memória de Sérgio Vieira de Melo e outros funcionários das Nações Unidas vitimados por ataques ocorridos no Iraque. Ao assistir pela TV, nesse show, a música e a alegria do Gilberto Gil promoverem a aproximação, fazerem cantar e dançar, irmanamente, gente do mundo todo e de todas as tendências políticas e religiosas, fiquei cheio de esperanças na capacidade do homem solucionar conflitos que apequenam toda a humanidade.

(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR O GIL NA ONU)
(detalhe: no atabaque o então Secretário Geral da ONU, Kofi Annan)

     Com o intuito de mostrar que a linguagem da música inspira tolerância, respeito e compreensão, Daniel Baremboim (maestro israelo-argentino) e Edward Said (intelectual palestino) fundaram em 1999 a Orquestra West-Eastern Divan - que é composta por jovens músicos judeus e árabes e percorre o mundo para suas apresentações.


Daniel Barenboim, Dirigent, West-Eastern Divan Orchestra
(Daniel Baremboim e músicos da West-eastern Divan Orchestra - fonte: http://jewishquarterly.org/2014/08/jewish-proms/)

     Há poucos dias, também com o sentido de promover a aproximação e humanização pela arte, "Kleiton e Kledir" fizeram um show muito bonito em Ramallah - capital política e cultural da Palestina***.

(Show de Kleiton e Kledir em Ramallah - Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/06/1641370-gauchos-kleiton-e-kledir-renascem-na-palestina-e-evitam-politica-assista.shtml)

     Não creio que seja com boicote ou retaliações que se consiga o desmoronamento de fundamentalismos. Estou certo de que quando o artista e a arte se aproximam das pessoas - e vice-versa - levam consigo, implicitamente, sua característica natural de humanizar.

     Por isso penso que o Caetano e o Gil podem utilizar sua música para, em Tel Aviv ou em qualquer lugar do planeta, transcender divisões históricas e religiosas entre povos e pessoas, e ainda inspirar nelas ideias, propostas e soluções novas para conflitos antigos.


*Correio do Povo, 20/06/15
**Folha de São Paulo, Ilustrada, 06/06/15
***Folha de SP, Ilustrada, 12/6/15




quarta-feira, 17 de junho de 2015

THANK YOU, RIBEIRÃO PRETO (ou O PAUL McCARTNEY NÃO VIU)


"alguma coisa está fora,
fora da nova ordem mundial"
(Caetano Veloso)


     Sábado, onze da manhã: pela Visconde de Inhaúma, desci para o Mercado Municipal. Atravessei a Lafayette, caminhei ao lado da Catedral, cruzei a Florêncio de Abreu e a Praça das Bandeiras, passando por entre as barracas da feira de artesanato.

 (A feira de artesanato - fonte: arq. pessoal)

     Parei no semáforo da Américo Brasiliense com a Tibiriçá, em frente ao ponto de táxi, aguardando  Aguardei o melhor momento para atravessar a rua. Do lado de cá da calçada havia um grande movimento no ponto de ônibus. 

(O ponto de ônibus na Amador - foto: arq. pessoal)

     Do outro lado, uma fila no quiosque de caldo de cana, onde, de uma pequena caixa com som distorcido e misturado com o ruído dos motores dos automóveis estava eu ouvi.... 
   - Ah lá lá lá á lá lá lá lá, Hey Jude...
    ... sim, "Hey Jude", dos Beatles. A mesma gravação do single "Hey Jude/Revolution, de 1968.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
The Beatles - Hey Jude
https://www.youtube.com/watch?v=8moxANphYNk

     Segui caminhando por diversos quarteirões do centro, passando por imóveis antigos, por lojinhas de artigos baratos, por lojas de presentes, de tecidos, de roupas feitas, bares e salgaderias...

(Mercado Municipal - fonte: arq. pessoal)

     Lá no "baixadão", pela porta da São Sebastião, entrei no Mercado. No primeiro balcão, amontoados, vi canivetes, fivelas, chapéus, fumo em corda e lampiões. Os comerciantes, com seus produtos à venda, enchiam de cor e de estímulos os diversos corredores estreitos existentes entre os boxes. As embalagens de salaminho, das garrafas de azeite, dos potes de azeitonas, pimenta e champignon coloriam o local. Sacos de trigo grosso, temperos, amendoim, feijão, pimenta do reino em grão, tudo se juntava ali para dar ao Mercado um aroma e um charme muito especiais. 

(Tudo se amontoa nos pequenos espaços do Mercado - foto: arq. pessoal)

     Lá dentro, por mais improvável que possa parecer, ouvi novamente uma gravação dos Beatles na voz do Paul McCartney. Isso colocou em dúvida a minha própria realidade, e me fez pensar que a música ouvida anteriormente  estava se repetindo em minha mente. Mas o som, de boa qualidade, estava de fato presente, e se espalhava pelo Mercado.
     Entrei em um dos boxes, escolhi o que queria, e fui atendido por uma mocinha muito sorridente. Ela calculou o preço, e colocou minha compra em um saquinho de plástico. Paguei.


 (Vendedora de queijos e castanhas - foto: arq. pessoal)

     Continuei ouvindo aquela música dos Beatles. Teria sido muito mais provável ouvir, tanto ali quanto no quiosque de caldo de cana, um sertanejo universitário ou um funk - que retratariam as tendências do momento. Ouvir os Beatles duas vezes, em lugares diferentes foi, para mim,  um desarranjo edificante.  

(corredor interno do mercado - foto: arq. pessoal)

     Com uma sacolinha em minhas mãos, eu estava pronto para voltar para casa. No entanto não consegui deixar o Mercado. Atraído pelo som dos Beatles e com vontade de "encontrá-los" ali, caminhei "na direção deles" e cheguei em um box de canto onde funcionava uma pastelaria. Ali, em algumas mesinhas de plástico muito simples com banquetas também de plástico, os clientes se espremiam. A música saía nítida de duas caixas de som enormes. O Mercado dançava; a pastelaria fervia.
    - Ah, lá lá lá, lá lá lá lá, Hey Jude...
    Pessoas simples, mulheres de bermuda e sandálias de couro cru; homens de chapéu, cinturão com fivela de metal e botina de cano alto enchiam os copos de cerveja e conversavam animadamente tendo pratinhos de pastéis, coxinhas, e peixe frito ao centro das mesinhas. A tarde de sábado pintava-se de beleza. E a mesma gravação de "Let it Be" que estava sendo tocada no quiosque de caldo de cana agora se repetia, na voz do mesmo Paul McCartney de mais de quarenta anos passados. 
     Aquele movimento todo alegrou o meu dia e o dia de muita gente - acredito. Sei que o Paul McCartney tem noção de tudo o que as músicas dos Beatles inspiraram nas pessoas em lugares remotos, incertos e inimagináveis deste mundo. Ele poderia até imaginar como seria ouvir sua própria voz no Mercado Municipal de Ribeirão Preto se alguém com ele conversasse a esse respeito. Mas ele não viu, como eu vi, seu jeito de cantar e a música dos Beatles trazerem sentimentos bons a mim, e sorrisos para tantas outras pessoas. 
     Na fantasia ingênua de que, por um passe de mágica, ele tomou conhecimento de tudo o que observei naquelas horas do sábado, relato aqui essa história querendo crer que ele, o Paul, em um rincão qualquer do Reino Unido, e sem saber porque, de repente parou tudo o que estava fazendo e deu uma boa gargalhada sozinho. Em seguida, com toda a nobreza britânica de septuagenário, como quem estivesse pensando algo, olhou para loooonge e exclamou para si mesmo: "Thank you, Ribeirão Preto!"  


(Paul McCartney - Fonte: http://ultimateclassicrock.com/paul-mccartney-valentines-day-concert/)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

LONDON TOWN


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Paul McCartney & Wings - London Town)

     A descoberta de uma cidade está em se ir muito além de sua superfície. Descobrir é poder nela caminhar sem querer atropelar o tempo; é querer morar dentro de cada coisa que se olha, com olhos tão lentos que precisam retornar à origem de um tempo: "Quais mãos construíram aquele monumento? Quais personagens da história passaram por aqui? Sir Winston Churchill? Oliver Cromwell? Thomas More?... E quando estiveram aqui, se é que estiveram, o que viram? o que pensaram? Conhecer é criar afinidades, é ouvir o barulho das ruas, é olhar para as pessoas que caminham, sentir os odores dos seus cafés, de seus parques e de seus restaurantes... é sentir que, tempos depois, com laços de afinidade tendo sido criados com tudo o que foi visto, trazer guardada a sensação de que ficou ainda muito mais por ser revelado...

(Região central de Londres: fonte: http://www.itineraireshumanistes.org/wp-content/uploads/2013/11/carnet_de_lecture_no_pasaran_londres.jpg)

     E foi com esse espírito que, em East Ham, eu e Denise pegamos o ônibus 25 para Oxford Circus. Sem destino certo, não sabíamos que, dependendo do 25, o ponto final poderia ser diferente. E fomos parar em Banks - ponto final daquele 25. 

     Não lamentamos. Olhei para o lado e descobri que estava ao lado do Bank of England - o Banco Central do Reino Unido - tendo bem em frente, e no centro de uma pequena praça, o monumento aos londrinos que lutaram na Primeira Guerra Mundial.

(Monumento aos londrinos que lutaram na 1ª Guerra Mundial - foto: arq. pessoal)

     Com essa bela surpresa logo captamos a mensagem: é à pé e na locomoção por transporte público que os detalhes de Londres ficam expostos, que a cidade,  em sua essência, vai sendo revelada.

     Com um mapa nas mãos descemos a King William Street. Mesmo em um dia ensolarado como aquele, um vento frio soprava forte no meu rosto. E caminhando assim, rosto, mãos e pés gelados, atento aos detalhes, chegamos à London Bridge - uma das pontes que cruzam o Rio Thames. Do seu centro avista-se a Tower Bridge de um lado e a Southwark Bridge do outro. 

(Detalhe de identificação em pilar da London Bridge - foto: arq. pessoal)

(De seu centro avista-se a Tower Bridge de um lado - foto: arq. pessoal)

     Atravessamos a ponte e, margeando o rio, seguimos caminhando em direção à "Tower Bridge". Passamos pelo "HMS Belfast" - navio-museu da Marinha Britânica que está permanentente ancorado ali...

("HMS BELFAST" - foto: arq. pessoal)

...pela "Hay's Gallery" - uma galeria muito bonita com escritórios, lojas e restaurantes...

(Denise em Hay's Gallery - foto: arq. pessoal)

... e pela Prefeitura de Londres - "City Hall" - ...

("Prefeitura de Londres" - fonte: http://www.mobilize.org.br/midias/noticias/a-famosa-london-bridge-e-a-prefeitura-de-londresa-famosa-london-bridge1.jpg)

... até chegarmos, por fim, na entrada da Tower Bridge - aquela ponte que se abre para os navios. Sentamos por alguns minutos em frente à Hay's Gallery para comer um pedaço de chocolate, e também para sentirmos o prazer de simplesmente ficarmos olhando a Tower Bridge à nossa frente.

("Tower Bridge" - foto: arq. pessoal)

     Em seguida, por escadas, subimos na ponte e vagarosamente caminhamos por ela. Deixo o meu testemunho aqui de que lá em cima, bem na junção de suas duas partes, e em função do tráfego de veículos, ela vibra. E como sou medroso, para me distrair, ali mesmo comprei um saquinho de castanhas torradas e, comendo, desci do outro lado da ponte, onde está a "Tower of London" - que já foi um centro de prisão e tortura, mas que hoje abriga as jóias da Coroa Britânica.

(Tower of London - foto: arq. pessoal)

     De Tower Bridge caminhamos até Trafalgar Square - onde está a National Gallery - ...

(National Gallery, vista da Trafalgar Square - foto: arq. pessoal)

... e de lá, passando por Picadilly Circus,  seguimos caminhando pela Regent Street,...

(Regent Street - foto: arq. pessoal)

... onde tomamos um café no "Costa", passamos por Oxford Circus, pela All Souls Church e pela BBC.

     Por fim, entre canteiros de flores e perfumes de final de tarde, terminamos nosso passeio do dia no Regent's Park. No peito, a sensação era de que naquela cidade havia ainda muito a ser desvendado.

("Com tudo o que foi visto, trazer guardada a sensação de que ficou ainda muito mais por ser revelado" - foto: arq. pessoal)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

THE LOGICAL SONG


"The singing butler" - Jack Vettriano, 1992
fonte: http://graphics8.nytimes.com/images/2006/02/23/arts/lyall2.650.jpg


Para o Tunico


     Um amigo me escreve e diz que está cansado. Que dorme pouco; que seu cachorro late ao invés de fazer "festinha" quando ele chega em casa; que a namorada já nem mais pergunta se ele vai voltar cedo; que não teve tempo de visitar os filhos recém-nascidos dos amigos; que as olheiras estão enormes; que se arrasta pelas escadas do prédio onde mora; e, ainda, que tem de ouvir, com frequência, as pessoas lhe dizerem: "Que ressaca, hein?!?!"

     E esse amigo me pergunta o que fazer.

     Bom... claro que cada um tem sua receita. E, certamente, nenhuma é igual à outra. 

     Mas tudo isso só tem uma explicação: tempo, compromissos, responsabilidades, escolhas; vida.

     A banda britânica "Supertramp" traduziu muito bem, em "The Logical Song", o ciclo da vida.

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Supertramp - "The logical song" (1979) 


The Logical Song

When I was young
It seemed that life was so wonderful
A miracle, oh it was beautiful, magical
And all the birds in the trees
Well they'd be singing so happily
Oh, joyfully, playfully, watching me
 

But then they sent me away
To teach me how to be sensible
Logical, oh responsible, practical
And they showed me a world
Where I could be so dependable
Clinical, intellectual, cynical

There are times when all the world's asleep
The questions run too deep
For such a simple man
Won't you, please, please, tell me what we've learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am

Now watch what you say
Or they'll be calling you a radical
A liberal, oh fanatical, criminal
Oh, won't you sign up your name
We'd like to feel you're
Acceptable, respectable, presentable, a vegetable

At night when all the world's asleep
The questions run so deep
For such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am
Who I am, who I am, who I am
A Canção Lógica

Quando eu era jovem
Parecia que a vida era tão maravilhosa
Um milagre, era tão bonita, mágica
E todos os pássaros nas árvores
Estavam cantando tão felizes
Alegres, brincalhões, me observando
 

Mas aí fui mandado para longe
Para me ensinar a ser sensato
Lógico, responsável, prático
E me mostraram um mundo
Onde eu poderia ser muito seguro

Clínico, intelectual, cínico
 

Às vezes, quando todo o mundo dorme
As perguntas se aprofundam

Para um homem tão simples
Por favor, me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas por favor me diga quem eu sou

Agora cuidado com o que você diz
Ou eles vão te chamar de radical
Um liberal, fanático, criminoso
Oh, você não vai assinar seu nome?
Gostaríamos de sentir que você é
Adequado, respeitável, apresentável, um vegetal!

À noite, quando o mundo todo está adormecido
As questões seguem muito profundas
Para um homem tão simples
Por favor, me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas por favor me diga quem sou eu
Quem sou eu, quem sou eu, quem sou eu


     Da minha parte, digo ao meu amigo que ele não é o único a fazer perguntas para se conhecer, para compreender o homem, e para reavaliar escolhas. Ainda bem que as faz. 

     Volta e meia somos todos tomados pela mesma necessidade de buscar respostas. Todos nós! Veja só a letra de "The logical song"! Ela não fala justamente disso?

     Pensando no meu amigo, raciocino. Apesar dos pesares há sempre um outro lado para o qual precisamos olhar. Espero que ele o considere e que consiga dosar as porções das atividades escolhidas - na proporção que só a ele cabe definir. Acima de tudo, espero que ele não se esqueça de que o essencial nos é dado de graça. E ainda: que dance com alegria a canção natural da vida, fazendo com que tudo lhe valha à pena... Afinal, o meu amigo sempre soube fazer ótimas escolhas - e por isso sei que sua alma não é - nem nunca foi - pequena! 

     Au revoir!
   

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O LIVRO DO PORTO



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(Dresden Concerto in G  major: Adagio - Vivaldi - por Alberto Martini)



"(...) acionando bombas
tirando lá do fundão
a lama vermelha
que vai correndo como sangue pela sarjeta 
fecundar outras terras
levar a elas o vigor da nossa civilização!"
(S.Porto, em "Civilização")


     O Raimundo encontrou no lixo uma caixa cheia de livros e a levou para sua loja de sapatos. Ali, amontoado em um canto, deixou-os entre cadeiras e armários velhos. Não se interessando por nenhum deles, e sem saber a quem doá-los, perguntou-me se eu não os queria. 

     Selecionei alguns deles e trouxe-os para a biblioteca do meu escritório. Dentre tantos escritores, professores e pensadores conhecidos estavam Guimarães Rosa, Dalmo Dallari, Sidney Sheldon e Emile Durkheim. Mas minha atenção ficou em um bem fininho, novinho, de capa simples e lisa: "Terra da Promissão - o poema das gentes e do café"*. Sebastião Porto**, seu autor, eu não conhecia.

(Capa do livro - foto: arq. pessoal)


     No livro, que traz poemas dedicados à cidade de Ribeirão Preto, encontrei logo na primeira página um manuscrito datado de outubro de 1995. Ali, com um "afetuoso abraço", revestindo de pessoalidade suas páginas e seu conteúdo, o próprio autor dedicava o livro a alguém a quem chamou "bom amigo".

(Fonte: http://tdeduc.zip.net/arch2009-03-29_2009-04-04.html)

     Enquanto caminhava em direção à rua, saindo da loja do Raimundo, ficava tentando imaginar e descobrir tudo o que havia se passado com o autor e com os antigos possuidores do livro. 

     - "Será que deixaram de ser amigos? Será que o 'bom amigo' faleceu e seus parentes e sucessores se desfizeram das coisas que foram deixadas? Por que será que não quiseram mais o livro? Como pode alguém dispensar assim um livro com uma dedicatória carinhosa, manuscrita pelo próprio autor? - eu me perguntava.

     Com o livro nas mãos fiquei parado na esquina da loja do Raimundo por um bom tempo, olhando a dedicatória, e chateado por pensar no destino que lhe havia sido dado.

     Depois, ansioso para folhear calmamente cada um daqueles livros, levei-os todos para o meu escritório. Lá chegando escolhi primeiro o do S. Porto e, em uma sentada só vi o café descobrir Ribeirão Preto; vi a Civilização arrancar do chão o sangue generoso da terra-roxa; sentei-me à sombra das figueiras da praça XV; fiquei admirando a fonte luminosa central; e - em especial - passeei pela Praça Luís de Camões - da qual tanto gosto. Eu estava certo de que tinha agora, em mãos, um belo manifesto de amor pela cidade.

(Praça Luís de Camões - foto: arq. pessoal)


     Olhei novamente a dedicatória manuscrita com tinta azul e fiquei me imaginando ao lado do autor e do "bom amigo" naquele momento em que a dedicatória fora feita. Certamente foram muitos os sorrisos e os abraços carinhosos que trocaram. Uma amizade de quanto tempo? Quais os vínculos que os ligavam? O que costumavam conversar quando se encontravam? 

     Pensei bem... e mudei de ideia. Ao invés de ficar aborrecido com os antigos possuidores do livro, eu deveria mesmo era agradecê-los.

     Em sua página final, agora, há uma dedicatória feita para mim - tanto pelo "bom amigo" quanto pelo Raimundo. Só eu a vejo. Não fossem eles eu não teria conhecido o talento literário e a sensibilidade do autor...  Que, passando a morar em uma das estantes do meu escritório, vai estar vivo e sempre pronto para comigo dialogar em minhas horas de devaneio e poesia.


*Editora Legis Summa, 1995
**Sebastião Porto - já falecido, foi jornalista em Ribeirão Preto

terça-feira, 12 de maio de 2015

ÁLBUM DE MEMÓRIAS


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 ("Nuovo Cinema Paradiso" (final), 1988 - Dir.: Giuseppe Tornatore)



Em um domingo, nove da noite,
há muito passado.
Final da primeira sessão de cinema.

A Praça Nove de Julho,
até então adormecida,
venceu a obscuridade.

Ganhou vida.
Enfeitou-se de luzes, 
e vestiu-se de verde...


...para poder abrir e registrar, 
em seu álbum de memórias,
histórias imortais,
de beijos e abraços,

que em seus bancos ficaram guardados.


("A Praça Nove de Julho, em sua obscuridade" - foto postada por Ademir Segundo no facebook)


(Enfeitou-se de luzes e vestiu-se de verde - foto: no facebook, por Amauri Lucas)


(Praça Nove de Julho - foto: no facebook, por Maricilia Silva)

Grupo de amigos, em um banco da Praça - Foto: por Marilucia, no Facebook
(da esq. p/ direita: Jorge, Marilucia, Dorcília, Dudu, W. Helena, Mofio)

Banco na praça Nove de Julho, em Guará, SP. Foto: arq. pessoal

quarta-feira, 6 de maio de 2015

"AU TEMPS DE KLIMT"



("Frisa de Beethoven"* (detalhe) - Klimt - fonte: http://photos1.blogger.com/blogger/336/1943/1600/friso_Beethoven_Klimt_jlj270.jpg)


"Não há religião nem ciência acima da beleza. Eu construiria uma cidade à beira do mar, e numa ilha do porto erigiria uma estátua não à Liberdade, mas à Beleza. Pois foi ao redor da Liberdade que os homens travaram suas batalhas. Por oposição, ante a face da Beleza, todos os homens estenderam as mãos uns aos outros como irmãos".
(Gibran Khalil Gibran)


(Cartaz promocional da exposição na entrada da Pinacoteca - fonte: arq. pessoal)


     Pela cidade de Paris anunciava-se a exposição "Au temps de Klimt - La sécession à Vienne" ("No tempo de Klimt - A secessão em Viena"). Eu, Denise e Lígia localizamos no mapa o endereço onde a exposição estava sendo realizada e para lá nos dirigimos: "Pinacoteca de Paris".

("Pinacoteca de Paris" - Denise e Lígia, na calçada - fonte: arq. pessoal)

     Para a compra de ingressos tomamos nosso lugar na fila e ficamos esperando. Enquanto aguardávamos surpreendia-nos a diversidade de línguas que estavam sendo faladas por diversos grupos. Cada grupo com característica e perfil diferente do outro, sugerindo uma segmentação por nacionalidades. Creio que, se os membros de uma mesma comunidade linguística fosse conversar com os do outro, cada qual em sua própria língua, muito provavelmente não se entenderiam. Portanto, cada grupo ficou restrito à conversa e entendimento entre os seus próprios componentes.

     Atrás de nós um senhor e uma senhora trocavam palavras  em um idioma que me era totalmente desconhecido. Em um determinado momento a senhora distraidamente avançou alguns passos na fila e deixou-nos para trás. Ao perceber isso voltou-se para a Denise, disse algo em seu próprio idioma, retornou ao seu lugar e, suponho, pediu desculpas. Sorrimos todos. Porém, não entendemos as palavras que ela havia nos dito, e imagino que ela tampouco tenha entendido as palavras que dissemos a ela. Porém entendemos sua intenção, e ela certamente entendeu a nossa.

     E nesse universo de idiomas e observações chegamos ao guichê. Compramos nossos ingressos e entramos.

     Lá dentro, toda aquela babel naturalmente se desmanchou. Nas salas de exposições os grupos se desfaziam e as pessoas se misturavam. Dezenas de telas e afrescos nos levavam ao tempo e à história de vida de Klimt. Éramos todos silêncio. Assim como os demais que estavam naquelas salas, e sem que houvesse permissão para fotografias, observávamos os trabalhos expostos - em especial, uma réplica do "Friso de Beethoven"*. Eu não mais ouvia a voz humana, simplesmente a minha voz interior. Externamente, o único som era o do movimento dos presentes.

     Envolta nesse silêncio de vozes, a sala traduzia harmonia entre as nações representadas pelos pequenos grupos que haviam estado segmentados do lado de fora. Sem a necessidade de palavras, o belo promovia a integração e a compreensão. Era a arte promovendo sentimentos... Sentimentos comuns que não dependiam de língua, de local ou de tempo... sentimentos que uniam, que aproximavam, que humanizavam - e que nos colocavam na condição mais pura, verdadeira e primitiva, de "filhos de Deus".


(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR UM PEQUENO FILME SOBRE A EXPOSIÇÃO)
("Au temps de Klimt - La sécession à Vienne")


*Este afresco, de 34 metros de comprimento por dois de largura, está exposto desde 1986 no palácio-museu vienês da Secessão, onde foi apresentado pela primeira vez pelo próprio Klimt (1862-1918) em 1902.  

sexta-feira, 24 de abril de 2015

APRIL IN PARIS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Billie Holiday - "April in Paris", de Duke/Harburg, 1932)


("Arco do Triunfo" - arq. pessoal)


Billie Holiday... "April in Paris".



April in Paris

I never knew the charm of spring
I never met it face to face
I never knew my heart could sing
I never missed a warm embrace

Till April in Paris, chestnuts in blossom
Holiday tables under the trees
April in Paris, this is a feeling
That no one can ever reprise

I never knew the charm of spring
I never met it face to face
I never knew my heart could sing
I never missed a warm embrace

Till April in Paris
Whom can I run to
What have you done to my heart
Abril em Paris

Eu nunca conheci o charme da primavera
Nunca a vi diante dos meus olhos
Nunca soube que meu coração podia cantar
Nunca deixei de lado um abraço caloroso

Até Abril em Paris, castanhas em flor
Mesas de feriado debaixo das árvores
Abril em Paris, é um sentimento
Que ninguém nunca pode repetir

Eu nunca conheci o charme da primavera
Nunca a vi diante dos meus olhos
Nunca soube que meu coração podia cantar
Nunca deixei de lado um abraço caloroso

Até Abril em Paris
Pra quem posso correr
O que você fez ao meu coração ?