segunda-feira, 10 de agosto de 2015

ENTRE O LABIRINTO E O MAR MORTO


(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Elis Regina - "Cais", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)



"Por tanto amor, por tanta emoção, 
a vida me fez assim,
doce ou atroz, manso ou feroz,
eu, caçador de mim"
(Luiz Carlos Sá/Sérgio Magrão - em "Caçador de Mim")


     Na década de 70, pela TV Globo, foi ao ar um programa de entrevistas chamado "Painel"*. Vinícius de Moraes foi um dos entrevistados. Ao ser perguntado quem era o Vinícius que ninguém conhecia, ele assim respondeu:

     - Eu ainda não sei muito bem não. Eu sou um labirinto em busca de uma porta. De saída.

     Essa impressão sobre si mesmo me fez pensar que um ser que se vê dessa forma não se conhece por inteiro, pois está em movimento constante, buscando novas alternativas, novos rumos, novas respostas, novas ideias...

     Pensando bem, convenhamos: "há alguém que se conheça por inteiro?" Se houver, estou certo de que para esse indivíduo a vida perdeu muito de seus encantos - posto que a previsibilidade extingue de imediato o gosto e o prazer na realização das buscas.

     Se a mesma pergunta tivesse sido feita a mim eu teria dito que, daquilo que me conheço, sou tudo o que se espera, exatamente o que me deixo transparecer. E considero esse jeito de ser prá lá de desinteressante.

    Eu, no fundo, admiro seres imprevisíveis, com brilho nos olhos, cheios de posicionamentos, que dizem coisas que despertam ideias e paixões, que surpreendem, superam, descobrem, procuram portas de saída. Que caem e se levantam.

     Pessoas assim, mesmo quando caladas, ensinam que a vida pulsa, que algo está sempre na iminência de acontecer. E a vida, como a vejo, é a expectativa do novo. Esses  seres foram ungidos por algum ente superior. São seres iluminados que a gente gosta de ter por perto.

     Identifico esse jeito inquieto no Vinícius de "Poética I", escrita em 1954:

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

     Da mesma forma, essa ânsia de vida também está nos olhos de Pablo Picasso em seu autorretrato de 1907:

("Autorretrato", 1907 - Pablo Picasso - Fonte: http://www.xoserivera.com/?attachment_id=2635)


     Mas eu sou do jeito que sou: não tenho certezas ou bandeiras; falo devagar; sou calado e inofensivo. Melancólico por natureza (na definição de Cony**), vivo caçando a mim mesmo. Raros os que têm paciência de me ouvir - ou, esporadicamente, de me ler

     Por isso fico assim, nessas oscilações existenciais, meio que flutuando entre o labirinto e o mar morto.

____________________________________
* Programa Painel - foi ao ar de agosto/77 a julho/78. 
 A entrevista está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=1TsKPFkuUUk
 
 **Carlos Heitor Cony, em publicação de outubro de 99 na página 2 da Folha de São Paulo ("Nostalgia e Melancolia"), assim escreveu: "Melancolia é a saudade de um tempo que não houve".

quarta-feira, 29 de julho de 2015

JAMES TAYLOR - "BEFORE THIS WORLD"*


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Montana - James Taylor)


     Vocal doce, anasalado, suave e sereno; jeitão calmo e introspectivo; violão plácido e plangente: foi com esse perfil que conheci e aprendi a gostar do James Taylor. Suas baladas têm o mesmo traço desde que ele surgiu, em 1968, cantando "Carolina in my mind". Com "Fire and Rain", "Country Road" e "Sweet Baby James", gravados em álbum de 1970**, passei a acompanhar todas as suas gravações. E veio a belíssima "You've got a friend" que me fez assumir a condição de fã incondicional.

     Na juventude, por depressão, ele passou por internação hospitalar. Contratado pela "Apple Records", seu primeiro disco ("James Taylor", de 1968) foi produzido pelo Paul McCartney. Mais tarde teve dois casamentos desfeitos (um deles com a Carly Simon), altos e baixos, uma passagem memorável pelo Rock in Rio (1985), compôs a balada "Only a dream in Rio" em homenagem à cidade do Rio de Janeiro, deixou a vida seguir. E manteve-se fiel ao seu estilo.

BeforeThisWorld_500
(Capa do disco "Before this World" - fonte: http://www.jamestaylor.com/discography/before-this-world/)

     Na semana passada eu o vi ressurgir na Folha de São Paulo***.  A reportagem trazia a notícia de "Before this World" - seu novo disco. Encontrei meus meios de ouvi-lo inteiro, várias vezes. Belíssimo! Assim como na letra de "Sweet Baby James" em que um cowboy passa um período isolado em seu rancho somente na companhia de seus animais, coloco agora para tocar o seu novo álbum e me sinto na mesma condição do cowboy, no alto de uma montanha qualquer no estado de Montana (EUA), sentado diante de uma fogueira, conversando comigo mesmo, esperando o tempo passar... 

(fonte: http://www.richardbealblog.com/cowboy-cauldron-company/)

     E enquanto espero vou ouvindo "Before this world"... "Montana", "You and I", "Snowtime", "Wild mountain Thyme"... Busco alguns de seus discos antigos que estão guardados em meu armário; fico olhando detidamente os detalhes das capas, vou ouvindo... "up on the roof", "walking man", "you can close your eyes"... 

     Mas um trechinho de "Montana", do disco novo, vai e vem no pensamento...  

"I'm not smart enough for this life I've been living
a little bit slow for the pace of the dream
It's not I'm ungrateful for all I've been given
But nevertheless, just the same..."

(Eu não sou suficientemente esperto para a vida que vou vivendo
um pouco lento para o ritmo do sonho
não que eu seja mal agradecido por tudo que me tem sido oferecido
mas, de qualquer forma, continuo simplesmente o mesmo...)

     E, sentado, com meus discos, permaneço quieto, esperando, sem vontade de sair, querendo que esse momento dure para sempre...


______________________________________
*"Before this world" - antes deste mundo
**"Sweet Baby James", 1970
***Aos 67 anos, James Taylor chega ao topo com disco único e confessional - Folha Ilustrada, 14/07/15.
      

sábado, 25 de julho de 2015

AO MEU AMIGO "TIGRÃO"



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Amigo é pra essas coisas", MPB-4 - de Sílvio da Silva Jr e Aldir Blanc)
https://www.youtube.com/watch?v=lhi7YIfuwmQ&list=RDlhi7YIfuwmQ&start_radio=1

    Peguei o telefone e liguei para o meu amigo. Não nos vemos há muitos anos. Hoje é o dia de seu aniversário e essa lembrança o trouxe de volta para o meu pensamento. Me deu saudade. Saudade de ficarmos conversando na esquina do Itaú, falando de música, falando dos locutores de rádio, dos sambistas antigos, do tempo dos festivais, do Chico, do MPB-4, dos amigos... e esperando o tempo passar. 
    O telefone chamou mas não foi ele quem atendeu. Foi alguém que me disse que não o conhecia e que tinha aquele número de telefone há mais de quatro anos. 

- "Como não conhece?!? A cidade inteira conhece e admira o Gualter - o "Tigrão"! Ele é amigo de todo mundo! É certo que ele algumas vezes falhou "feio" como goleiro, mas ele sempre soube tudo de samba, sempre foi um grande percussionista, tocava como ninguém caixa de repique, tanto na fanfarra do 'Rondon' quanto na banda do seu Artur Bini" -  pensei.

    Fiquei então parado por alguns minutos, simplesmente olhando para a porta de entrada de casa. Desejei que ela se abrisse de repente pelo lado de fora, que o meu amigo me surpreendesse, entrasse com a mesma simplicidade e o mesmo sorriso verdadeiro que sempre dedicou à nossa amizade. 
    Hoje, especialmente, no dia de seu aniversário, quero dizer que me lembrei dele com saudade, desejando que ele esteja bem, rodeado de amigos, esbanjando saúde e alegria de viver.
    Em homenagem ao Gualter Aleixo- o meu amigo "Tigrão" - e às muitas vezes que juntos cantamos à capela "Amigo é pra essas coisas", eu abro uma cerveja, coloco pra ouvir o MPB-4 aqui no computador e envio a ele, com um graaaaande abraço, meus votos de FELIZ ANIVERSÁRIO!


(Eu e o "Tigrão" - foto: arq. pessoal - 2006)

sábado, 11 de julho de 2015

"CLOSE TO YOU"



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Close to you - Carpenters)



     No balcão da loja de conveniência, em um posto de gasolina, pedi um café. Sentei-me. Na mesinha, ao meu lado direito, sem olharem um para o outro, dois senhores, formalmente trajados, comentavam o valor da venda de uma usina de álcool. Ao meu lado esquerdo, em outra mesinha, um senhor enorme, acompanhado de um outro senhor encharcado de suor, literalmente "estraçalhava" um sanduíche de pão com mortadela; o outro falava sem parar ao telefone celular. 

     Sem muita demora, a balconista veio à minha mesa e trouxe o meu pedido: uma xícara de café, bem forte, acompanhada de uma bolacha e um copo com água gaseificada. Enquanto bebia o café, eu olhava em direção à janela e observava um jovem casal em uma das mesas do lado de fora da loja: com gestos de carinho, de um para com o outro, riam muito depois de cada golada que davam em uma única garrafa "long neck" de cerveja. Ao mesmo tempo que faziam isso, olhavam um para o outro e enfiavam a mão em um pacotinho que estava sobre a mesa, contendo, ao que me parecia, algum tipo de bolachinha. Parecia que estavam banqueteando em um restaurante localizado no alto da torre Eiffel, ao mesmo tempo em que se deslumbravam com a cidade luz, vista do alto. 


"Lady and the Tramp" (A Dama e o Vagabundo) - Estúdios Disney, 1955


     Depois de terminar o meu café, fiquei ali por mais algum tempo, observando o jovem casal e pensando:

     - "A felicidade está na capacidade de nos maravilharmos com pequenas coisas; resume-se em podermos apreciar e desfrutar, com alegria, da companhia de quem está ao nosso lado". 

     Em seguida, contagiado por aquele momento de beleza que o jovem casal havia me proporcionado, levantei-me rejuvenescido e fui embora assobiando "Close to you"... 



Close To You  (Bacharach/David)

Why do birds suddenly appear
Everytime you are near?
Just like me, they long to be
Close to you

Why do stars fall down from the sky
Everytime you walk by?
Just like me, they long to be,
Close to you

On the day that you were born
The angels got together
And decided to create a dream come true
So they sprinkled moondust in your hair
And golden starlight in your eyes of blue

That is why all the girls in town
Follow you, all around
Just like me, they long to be
Close to you

On the day that you were born
The angels got together
They decided to create a dream come true
So they sprinkled moondust in your hair
Of gold and starlight in your eyes of blue

That is why all the girls in town
Follow you, all around
Just like me, they long to be
Close to you

Just like me, they long to be
Close to you

Woo... close to you..

Perto de Você

Por que os pássaros aparecem de repente
Toda vez que você está perto?
Assim como eu, eles querem estar
Perto de você...

Por que as estrelas desabam do céu
Toda vez que você passa?
Assim como eu, elas querem estar
Perto de você

No dia em que você nasceu
Os anjos se reuniram
E decidiram tornar um sonho realidade
Então eles espalharam poeira da lua em seus cabelos
E luz dourada das estrelas em seus olhos azuis

É por isso que todas as garotas da cidade
Seguem você, por toda parte
Assim como eu, elas querem estar
Perto de você

No dia em que você nasceu
Os anjos se reuniram
E decidiram tornar um sonho realidade
Então eles espalharam poeira da lua em seus cabelos dourados
E luz das estrelas em seus olhos azuis

É por isso que todas as garotas da cidade
Seguem você, por toda parte
Assim como eu, elas querem estar
Perto de você

Assim como eu, elas querem estar
Perto de você

Aah... Perto de você...


sexta-feira, 3 de julho de 2015

SAUDADE DO BRASIL


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)

("Saudade do Brasil" - Tom Jobim - do álbum "Urubu", 1975)


"de olhos fechados posso ir onde quiser"
(sabedoria popular)


     A cordilheira dos Andes é uma cadeia de montanhas existentes na costa ocidental da América do Sul. Ela marca a paisagem do Chile, da Argentina, do Peru, da Bolívia, do Equador e da Colômbia, estendendo-se desde a Patagônia até a Venezuela. Nunca a vi, nunca passei por ela.
     Um acidente de avião que lá ocorreu em 1972 e do qual tive notícia pelos jornais da época - e depois, com mais detalhes, li o livro* -, trouxe os Andes para o meu imaginário. Nesse acidente alguns passageiros sobreviveram e ficaram 72 dias rodeados por horizontes brancos, perdidos na neve. Para se manterem vivos tiveram que se alimentar da carne dos demais passageiros que haviam morrido.

Tragédia do voo uruguaio nos Andes
(Os sobreviventes, no momento em que foram localizados - Fonte: https://viaveneto.wordpress.com/2012/01/09/era-uma-casa-muito-engracada-no-uruguai/)

     Não sei porque penso com frequência na foto que foi tirada quando os sobreviventes desse acidente foram encontrados. Fico com o coração apertado. Sozinhos, perdidos, quase entregues... manchas negras moventes no  imenso lençol de neve.  E ao pensar nessas coisas a imagem que me vem, diferente do que se poderia imaginar, é de um oceano de gelo sem tormentas; que a ninguém proporciona sofrimento, desamparo, desespero ou solidão - só branco, vapor de água e silêncio, sugerindo a possibilidade de renascimento e renovação - como um resgate. 
     Quando ouço "Saudade do Brasil", como faço agora, volto para casa. Volto para o Brasil. Volto para o Tom e volto para o Villa-Lobos. Volto para o abraço de pessoas queridas. Com o mesmo amor desesperado que cada sobrevivente daquele acidente aéreo retornou ao seu lar; com o mesma sensação de amparo que Exupéry sentia cada vez que pousava seu avião monomotor após um voo noturno.
     Essa música faz com que eu me sinta no litoral do Chile, de costas para o mar, com os olhos postos na Cordilheira. E por detrás da Cordilheira coberta de neve ouço vozes de anjos cantando. Para poder ouvi-los melhor subo em uma das montanhas. Lá do alto, mirando o continente, caminho para atravessar as terras frias do Chile e da Argentina. Aos poucos vou adentrando o território brasileiro, verde, rico, fértil e abundante em água - o país do meu chão e dos anjos cantores que me proporcionam beleza, alegria, e esperança.

A estátua de Jesus Cristo, no Rio de Janeiro - e a cidade
Fonte: https://strawberrytours.com/the-story-behind-rio-s-christ-the-redeemer-statue

     Meu amigo e minha amiga. A gente percebe nitidamente que o alemão Claus Ogerman** conseguiu estar no nosso país quando colocou arranjos em "Saudade do Brasil" - de autoria do Tom. Certamente foi no Brasil também que os músicos da Orquestra Sinfônica de Nova Iorque sentiram estar quando, no final de sua gravação, em outubro/75, aplaudiram de pé o seu autor***. Então agora é a sua vez. Ouça "Saudade do Brasil" sem nenhuma interferência externa. Ouça com o coração... Os anjos, ao ouvi-la, não cantam também para você? Ao ouvi-la, não sente querer reencontrar o Brasil? os rios? a mata? os pássaros? os indígenas? a inocência perdida? Para onde essa música te leva? Ouça deixe-se conduzir... e depois me conte por onde andou.


(Tom Jobim - fonte: http://www.precisadisso.com/2011/08/tom-jobim.html)

____________________________________________ 
*READ, Piers Paul. Os Sobreviventes. Ed. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1974
**Claus Ogerman - compositor e arranjador alemão, com cidadania estado-unidense
***Conforme consta no site do instituto Antonio Carlos Jobim - http://www.jobim.org/jobim/handle/2010/8369


domingo, 21 de junho de 2015

CAETANO E GIL EM ISRAEL


"Todo artista tem de ir aonde o povo está"
(Milton Nascimento)


     A imprensa noticia que Caetano Veloso e Gilberto Gil farão uma turnê internacional*. Nessa turnê está agendada, para o dia 28 de julho, uma apresentação em Tel-Aviv (Israel). No entanto um grupo com perfil político divulgou uma carta na qual Roger Waters (ex Pink Floyd) solicita ao Gil e ao Caetano que, como forma de represália às hostilidades de Israel contra os palestinos, cancelem o show.


Map of Palestine
(Fonte: http://www.pbs.org/frontlineworld/stories/palestine503/additional.html)

     Caetano e Gil divulgaram na imprensa que manterão a apresentação**. Gil diz que cantará para um "israel-palestino", que não tem interesse em "misturar a posição discutível do Estado de Israel com o povo de Israel - que tem uma vida, uma cultura e uma dimensão simbólica"; diz ainda que "há pessoas que gostam de música brasileira e que têm apreço por essa música há muitos anos" - e que esse é o motivo que o leva a cantar lá. 

     A meu ver, não é por intermédio de boicote cultural que interesses políticos podem ser alcançados. Pelo contrário. A cultura, em especial a música, é dotada de uma linguagem universal que aproxima - e que tem em si, pelo que inspira, até o poder de criar novos traçados políticos.

(Gilberto Gil na ONU - Fonte: http://i.ytimg.com/vi/C5-33YIVYC4/hqdefault.jpg)

     Lembro-me bem de um concerto no salão da Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, em 2003, em memória de Sérgio Vieira de Melo e outros funcionários das Nações Unidas vitimados por ataques ocorridos no Iraque. Ao assistir pela TV, nesse show, a música e a alegria do Gilberto Gil promoverem a aproximação, fazerem cantar e dançar, irmanamente, gente do mundo todo e de todas as tendências políticas e religiosas, fiquei cheio de esperanças na capacidade do homem solucionar conflitos que apequenam toda a humanidade.

(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR O GIL NA ONU)
(detalhe: no atabaque o então Secretário Geral da ONU, Kofi Annan)

     Com o intuito de mostrar que a linguagem da música inspira tolerância, respeito e compreensão, Daniel Baremboim (maestro israelo-argentino) e Edward Said (intelectual palestino) fundaram em 1999 a Orquestra West-Eastern Divan - que é composta por jovens músicos judeus e árabes e percorre o mundo para suas apresentações.


Daniel Barenboim, Dirigent, West-Eastern Divan Orchestra
(Daniel Baremboim e músicos da West-eastern Divan Orchestra - fonte: http://jewishquarterly.org/2014/08/jewish-proms/)

     Há poucos dias, também com o sentido de promover a aproximação e humanização pela arte, "Kleiton e Kledir" fizeram um show muito bonito em Ramallah - capital política e cultural da Palestina***.

(Show de Kleiton e Kledir em Ramallah - Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/06/1641370-gauchos-kleiton-e-kledir-renascem-na-palestina-e-evitam-politica-assista.shtml)

     Não creio que seja com boicote ou retaliações que se consiga o desmoronamento de fundamentalismos. Estou certo de que quando o artista e a arte se aproximam das pessoas - e vice-versa - levam consigo, implicitamente, sua característica natural de humanizar.

     Por isso penso que o Caetano e o Gil podem utilizar sua música para, em Tel Aviv ou em qualquer lugar do planeta, transcender divisões históricas e religiosas entre povos e pessoas, e ainda inspirar nelas ideias, propostas e soluções novas para conflitos antigos.


*Correio do Povo, 20/06/15
**Folha de São Paulo, Ilustrada, 06/06/15
***Folha de SP, Ilustrada, 12/6/15




quarta-feira, 17 de junho de 2015

THANK YOU, RIBEIRÃO PRETO (ou O PAUL McCARTNEY NÃO VIU)


"alguma coisa está fora,
fora da nova ordem mundial"
(Caetano Veloso)


     Sábado, onze da manhã: pela Visconde de Inhaúma, desci para o Mercado Municipal. Atravessei a Lafayette, caminhei ao lado da Catedral, cruzei a Florêncio de Abreu e a Praça das Bandeiras, passando por entre as barracas da feira de artesanato.

 (A feira de artesanato - fonte: arq. pessoal)

     Parei no semáforo da Américo Brasiliense com a Tibiriçá, em frente ao ponto de táxi, aguardando  Aguardei o melhor momento para atravessar a rua. Do lado de cá da calçada havia um grande movimento no ponto de ônibus. 

(O ponto de ônibus na Amador - foto: arq. pessoal)

     Do outro lado, uma fila no quiosque de caldo de cana, onde, de uma pequena caixa com som distorcido e misturado com o ruído dos motores dos automóveis estava eu ouvi.... 
   - Ah lá lá lá á lá lá lá lá, Hey Jude...
    ... sim, "Hey Jude", dos Beatles. A mesma gravação do single "Hey Jude/Revolution, de 1968.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
The Beatles - Hey Jude
https://www.youtube.com/watch?v=8moxANphYNk

     Segui caminhando por diversos quarteirões do centro, passando por imóveis antigos, por lojinhas de artigos baratos, por lojas de presentes, de tecidos, de roupas feitas, bares e salgaderias...

(Mercado Municipal - fonte: arq. pessoal)

     Lá no "baixadão", pela porta da São Sebastião, entrei no Mercado. No primeiro balcão, amontoados, vi canivetes, fivelas, chapéus, fumo em corda e lampiões. Os comerciantes, com seus produtos à venda, enchiam de cor e de estímulos os diversos corredores estreitos existentes entre os boxes. As embalagens de salaminho, das garrafas de azeite, dos potes de azeitonas, pimenta e champignon coloriam o local. Sacos de trigo grosso, temperos, amendoim, feijão, pimenta do reino em grão, tudo se juntava ali para dar ao Mercado um aroma e um charme muito especiais. 

(Tudo se amontoa nos pequenos espaços do Mercado - foto: arq. pessoal)

     Lá dentro, por mais improvável que possa parecer, ouvi novamente uma gravação dos Beatles na voz do Paul McCartney. Isso colocou em dúvida a minha própria realidade, e me fez pensar que a música ouvida anteriormente  estava se repetindo em minha mente. Mas o som, de boa qualidade, estava de fato presente, e se espalhava pelo Mercado.
     Entrei em um dos boxes, escolhi o que queria, e fui atendido por uma mocinha muito sorridente. Ela calculou o preço, e colocou minha compra em um saquinho de plástico. Paguei.


 (Vendedora de queijos e castanhas - foto: arq. pessoal)

     Continuei ouvindo aquela música dos Beatles. Teria sido muito mais provável ouvir, tanto ali quanto no quiosque de caldo de cana, um sertanejo universitário ou um funk - que retratariam as tendências do momento. Ouvir os Beatles duas vezes, em lugares diferentes foi, para mim,  um desarranjo edificante.  

(corredor interno do mercado - foto: arq. pessoal)

     Com uma sacolinha em minhas mãos, eu estava pronto para voltar para casa. No entanto não consegui deixar o Mercado. Atraído pelo som dos Beatles e com vontade de "encontrá-los" ali, caminhei "na direção deles" e cheguei em um box de canto onde funcionava uma pastelaria. Ali, em algumas mesinhas de plástico muito simples com banquetas também de plástico, os clientes se espremiam. A música saía nítida de duas caixas de som enormes. O Mercado dançava; a pastelaria fervia.
    - Ah, lá lá lá, lá lá lá lá, Hey Jude...
    Pessoas simples, mulheres de bermuda e sandálias de couro cru; homens de chapéu, cinturão com fivela de metal e botina de cano alto enchiam os copos de cerveja e conversavam animadamente tendo pratinhos de pastéis, coxinhas, e peixe frito ao centro das mesinhas. A tarde de sábado pintava-se de beleza. E a mesma gravação de "Let it Be" que estava sendo tocada no quiosque de caldo de cana agora se repetia, na voz do mesmo Paul McCartney de mais de quarenta anos passados. 
     Aquele movimento todo alegrou o meu dia e o dia de muita gente - acredito. Sei que o Paul McCartney tem noção de tudo o que as músicas dos Beatles inspiraram nas pessoas em lugares remotos, incertos e inimagináveis deste mundo. Ele poderia até imaginar como seria ouvir sua própria voz no Mercado Municipal de Ribeirão Preto se alguém com ele conversasse a esse respeito. Mas ele não viu, como eu vi, seu jeito de cantar e a música dos Beatles trazerem sentimentos bons a mim, e sorrisos para tantas outras pessoas. 
     Na fantasia ingênua de que, por um passe de mágica, ele tomou conhecimento de tudo o que observei naquelas horas do sábado, relato aqui essa história querendo crer que ele, o Paul, em um rincão qualquer do Reino Unido, e sem saber porque, de repente parou tudo o que estava fazendo e deu uma boa gargalhada sozinho. Em seguida, com toda a nobreza britânica de septuagenário, como quem estivesse pensando algo, olhou para loooonge e exclamou para si mesmo: "Thank you, Ribeirão Preto!"  


(Paul McCartney - Fonte: http://ultimateclassicrock.com/paul-mccartney-valentines-day-concert/)