terça-feira, 24 de maio de 2016

MEU TIO FOI À PESCA


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Uirapuru", de Jacobina e Murilo Latini - Pena Branca e Xavantinho)

     Meu tio foi à pesca. Deixou a cidade, os carros, o movimento de pessoas, as notícias dos jornais, e foi.

     No dia anterior separou anzóis, carretilhas, molinetes, linhas de diversos diâmetros e origens, varas e iscas artificiais. Por último preparou a ceva com os grãos de milho que haviam ficado de molho por sete dias e sete noites. Tendo ajeitado tudo foi se deitar contente. Nem dormiu direito. 

     Levantou cedinho, ainda escuro, tomou um café forte, comeu um pedaço de pão com manteiga e foi.

     Foi p'rá poder ficar quieto, p'rá poder ouvir o curso das águas. Foi com ganas de trazer lambaris, piaparas, piaus e pacus. Levou consigo a alegria de pensar que à noitinha, retornando pelo caminho que margeia o rio, vai poder sentir cheiro de mato, ouvir o canto das cigarras, e olhar a lua nascendo no céu. "Se tiver chuviscado de mansinho no final da tarde", diz ele, "melhor ainda: refresca!" 

("Meu tio" - foto postada no facebook por Ricardo Mourani)

     Meu tio foi à pesca. Foi p'rá sentir uma saudade distante de coisas e de pessoas que o tempo levou; foi p'rá poder ouvir os pássaros e voltar p'rá casa com espírito de menino. Foi p'rá reanimar o coração e encher a cabeça de histórias. Foi p'rá sentir o prazer do retorno, sentar-se na cozinha com a companheira da vida toda, contar a ela as aventuras do dia e relembrar histórias antigas. Foi p'rá poder, antes de se deitar, sentar-se na cadeira de descanso da garagem a céu aberto, na escuridão, acender um cigarro e ficar olhando as estrelas... até adormecer... adormecer e sonhar... sonhar com as matas, com os peixes e com os passarinhos...

quinta-feira, 12 de maio de 2016

"IMPEACHMENT"


     É com muito desconforto e tristeza que estou acompanhando o processo de impedimento da presidente da república. Gostaria que nada disso estivesse acontecendo. Queria que o meu país estivesse dando bons exemplos ao mundo, com um rumo certo sendo seguido, com nossos representantes trabalhando pelo bem coletivo, progredindo... 

     Mas, andando pelas ruas, vejo muitos imóveis fechados, desocupados, colocados à venda, em locação; nas esquinas, gente saudável e em idade de trabalho pedindo ajuda; nos faróis, vendedores de balas, canetas, malabaristas, flanelinhas, engolidores de fogo, todos tentando encontrar um jeito de poder sobreviver; empresas encerrando suas atividades, brasileiros sem trabalho, judiados e desesperançosos...

     Nós nos tornamos manchetes vexaminosas nos jornais de todo o mundo. Nosso país não merece isso. 

     O Brasil, em tempos recentes, afundou-se em problemas políticos e ficou de olhos fechados para as questões econômicas. Vimos, estarrecidos, cargos públicos no governo federal, de altíssimo escalão, serem manejados tal como produtos de troca sem nenhuma importância; vimos o país travado em batalhas e manobras jurídicas pelo poder - só pelo "poder": "que pequenez!!" 

     Pelo menos, dá-me um certo alívio ver que nossas Instituições democráticas estão funcionando bem e cumprindo as funções para as quais foram criadas. 

     O processo de impeachment foi deflagrado com fundamento em dispositivo constitucional, seguindo todos os seus trâmites em conformidade com a lei específica, a qual foi debatida e reavaliada pelo STF. Por tal motivo, o argumento de estar ocorrendo um "golpe" me parece uma maneira maldosa de incitar a população ao ódio, ao maniqueísmo, e à violência. 

     Dizer que foram as urnas que escolheram um Presidente não dá a ele o poder absoluto de agir como quiser, o direito de praticar discricionariamente todos os seus atos. O administrador público tem a autorização constitucional de praticar somente os atos que lhe forem permitidos por lei, e dentro de seus limites. O Estado e o agente público são responsáveis pelo que vierem a praticar. E nisso consiste o Estado de Direito. Para isso o Congresso Nacional exerce suas funções - não só de legislar, mas também de fiscalizar os atos do Poder Executivo.  

     Foi assim que os parlamentares brasileiros, também eleitos e legitimamente representando o povo brasileiro, autorizaram, na Câmara, a instauração do processo de impedimento; e, no Senado, afastaram a Presidente de suas funções para que possa ser julgada com amplo direito de defesa e dentro dos parâmetros do devido processo legal. Caso o Senado, ao final, venha a julgar improcedente o pedido de impeachment, a Presidente reassume suas funções. 

     Tudo com respaldo na Constituição (artigo 85, parágrafo único) e na Lei do Impeachment (Lei 1079/50).

(Constituição Federal/88 - capa de uma edição)

     Assim, prevendo a hipótese de impedimento ou de vacância do cargo de presidente da república, a Constituição determina que assuma o Vice (artigo 79) - também eleito, juntamente e da mesma forma que o Presidente. 

     E que assim seja!

     Não é o caso de questionarmos se o governo do Vice-Presidente, também eleito com 54 milhões de votos para exercer suas funções, será bom ou ruim: ainda é muito cedo para isso - e nem temos elementos para a formação de nossa convicção. Que seja, portanto, respeitada a Constituição: o Vice deve exercer as funções de Presidente, conforme constitucionalmente previsto. 

     Contudo, se houver indícios de que ele - o Vice em exercício - praticou ou veio a praticar atos que o desabonem, que o tornem indigno de governar e representar os brasileiros, então que em relação a ele também sejam tomadas as providências legais cabíveis para destituí-lo das funções que estiver exercendo. Os mecanismos jurídicos para isso existem - e é sabido que há contra ele pedido de impeachment em trâmite na Câmara dos Deputados.

     Enquanto não houver impeachment do Vice, com seu afastamento determinado pelo Senado, dentro dos parâmetros legais, esperamos que pelo menos nossas Instituições continuem funcionando bem - e que seja respeitada a Constituição.

     Não é o momento para uma nova eleição objetivando a escolha de novo Presidente e Vice. Uma nova eleição - assim prevê a Constituição - deve ocorrer somente no caso de vacância dos cargos de Presidente e de Vice-Presidente da República (artigo 81 da CF). Também convém que saibamos: se tal vacância ocorrer nos dois últimos anos do período presidencial (4 anos), a eleição para ambos os cargos será feita pelo Congresso Nacional - e não pelo voto direto do povo.

     Enquanto isso, o meu desejo (utópico, eu sei) é o de que o espírito Olímpico nos una a todos, como irmãos, e como filhos dessa terra que queremos ver progredir; que tal espírito demova nossos representantes e governantes da ideia de quererem cuidar exclusivamente dos interesses deste ou daquele partido político; que consigam enxergar mais longe, e que governem pelo progresso do Brasil e do povo brasileiro.

terça-feira, 3 de maio de 2016

UMA OUTRA PRIMAVERA


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(Jamil y su canto árabe - fonte: https://www.youtube.com/watch?v=fN8XQyqyV3k)

     A primavera é um período do ano em que as flores desabrocham e a natureza mostra suas cores e perfumes. De maneira simbólica, nós também, em algum momento, diante de alguma situação que nos incomoda, desabrochamos. E, em circunstâncias assim, levantamos a voz, mostramos nossa indignação e nosso inconformismo.

     Na História recente, a partir de 2010, uma série de manifestações, que ficaram conhecidas como "Primavera Árabe", foram deflagradas no Oriente Médio e no norte da África. Na Tunísia, Líbia, Egito, Síria, e em outros países, a população tomou as ruas, na tentativa de demover ditadores e reivindicar melhores condições sociais de vida.

     Nem todos os movimentos foram bem sucedidos. Em virtude dessa instabilidade política, e consequente violência, muitos, por todos os meios de fuga, possíveis e imagináveis, passaram a deixar seus países para procurar refúgio na Europa e em outros cantos do mundo. Na Síria, por exemplo, as manifestações ensejaram conflitos com perfis de guerra civil, e resultaram em muitas mortes. 

     Diante dessas crises cíclicas por que passa a humanidade, a História ensina que, na condição de refugiados ou simples emigrantes, essas buscas por melhores condições de vida nunca cessam.

     Lasar Segall*, ele próprio um imigrante, em "Navio de Emigrantes" fez uma bela alegoria de homens e mulheres à procura de outra realidade. Nela, o artista retrata famílias inteiras, e mesmo indivíduos isolados, fugindo, num navio, de guerra, de fome e de miséria.

Navio de Emigrantes
(Navio de Emigrantes - Lasar Segall, 1939 - fonte:  http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2190/navio-de-emigrantes)

     Em outros tempos, na minha terra, indo em direção à minha casa, eu costumava passar pela "Rua da Cadeia". E ali, em um alpendre que tinha a esquina como o oceano da casa, eu cumprimentava um grupo de irmãos sentados lado a lado, conversando, em cadeiras de descanso. Eram imigrantes sírio-libaneses; criaram suas famílias, construíram suas vidas no Brasil, e, com seu trabalho, ajudaram a edificar uma cidade - a minha cidade.

(Srs. Zahki, Jorge e Antoun, no alpendre - foto cedida por Rimon Tannous)

     Hoje, quando passo por aquela rua, não vejo mais os três irmãos que se sentavam nas cadeiras do alpendre da casa. Contudo, continua naquela esquina a memória dos exemplos daqueles que as ocupavam, bem como os de muitos outros imigrantes sírios-libaneses que, na primeira metade do século passado, vieram para o Brasil e aqui construíram a imagem positiva de um povo honesto e trabalhador.

     Se às vezes vejo, na TV ou nos jornais, a notícia e as imagens de refugiados sírios buscando uma nova vida em algum outro país, lembro-me dos imigrantes sírios e libaneses que conheci... e lamento, lamento e me envergonho, profundamente, que, diante deles, atualmente, muros e fronteiras cerceiem seu direito natural de reflorescer e criar em liberdade, com dignidade, os seus filhos.

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* LASAR SEGALL (pintor, escultor e gravurista) Nasceu em Vilna, atual capital da Lituânia. Esteve no Brasil em 1913. Em 1923 mudou-se para São Paulo e quatro anos depois naturalizou-se brasileiro.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

UM POEMA SOBRE A TERRA


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(Vinícius e Toquinho, deles, "As cores de Abril")



Esta árvore,
 um poema sobre a terra.
Entre nós, uma cumplicidade:
nós nos vemos todos os dias.
Sua existência embeleza a cidade.

Mesmo quando não florida, 
a lembrança de suas cores alegra o meu dia.


Seu endereço: Avenida Independência, entre as Avenidas Nove de Julho e Prof. João Fiúsa.

(A árvore florida no mês de Abril - Foto: arq. pessoal)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

BRASÍLIA E OS DESTINOS DA NAÇÃO


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(Martinho da Vila - "Aquerela brasileira", de Silas de Oliveira)


"Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino." 
(Juscelino Kubitscheck)


Senhores Deputados, Senhores Senadores, Senhores Ministros do Supremo, Senhores Ministros de Estado, Senhora Presidente da República:

Em suas decisões, espelhem-se nos pioneiros que ergueram nossa capital...

("Monumento aos Candangos" - Praça dos Três Poderes, Brasília. foto: arq. pessoal)

Lembrem-se daqueles que de todas as formas possíveis de locomoção, com pureza de ideais, com simplicidade e determinação, chegaram ao planalto central para erguer "um novo Tempo", construir uma nova civilização...

Seu objeto de cobiça não era ouro ou diamantes... Seus anseios eram pela construção de uma cidade "muito branca e muito pura"...

pura em propósitos,
pura em graça,
pura em modelos de justiça e perfeição.

Que pudesse inaugurar um novo tempo, uma nova aurora, um novo país,

fundado em valores que dignificam o homem... 
construído na convivência harmônica entre seus habitantes,
servindo de farol a espalhar virtudes para toda a nação.

Senhores Deputados, Senhores Senadores, Senhores Ministros do Supremo, Senhores Ministros de Estado, Senhora Presidente da República:

Não quero que ninguém em nenhum lugar no mundo zombe de mim e do meu país. De seus gestos e de suas decisões espero, amanhã, poder voltar os olhos para a minha terra e sentir orgulho do que foi feito em nome dos pioneiros, em meu nome, em nome do povo brasileiro, em nome da obediência à ética e à moral na gestão das coisas públicas... Quero, então, com orgulho no peito, cabeça erguida e brilho nos olhos, poder afirmar em todos os cantos do planeta que no Brasil as instituições são respeitadas; que há aqui gente que trabalha e constrói com honestidade; que o meu país é tão rico em virtudes e valores dignificantes quanto o é em belezas e recursos naturais - os quais alimentam o mundo. 

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR)
("Sinfonia da Alvorada" - Vinícius e Tom: trechos)

sábado, 9 de abril de 2016

OLHANDO PARA O CÉU


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("Sukiyaki" - 1963 - composta por Rokusuke Ei e Hachidai Nakamura)

     Em 1963 uma música japonesa ficou mundialmente conhecida...

     Hoje de manhã, ainda deitado, entrei no facebook e me deparei com uma reflexão do meu amigo F.R. Ele lamenta por não olharmos mais para o céu; por termos trocado as estrelas pelas informações contidas nos aparelhos celulares - em outras palavras, ele diz que ao invés de erguermos nossa cabeça nós a baixamos. Lembrando que os antigos encontravam seus caminhos mirando as estrelas, ele conta que ainda curte olhar para o céu. 

     Gostei da postagem... Talvez os caminhos mais significativos em nossas vidas sejam aqueles ditados pelo instinto, aqueles que não podem ser detectados pelos programas de celular. Parece-me que nossos caminhos passaram a ser direcionados apenas para o imediato; que têm sido ditados por programas de celular que, apesar de práticos, e por sua irracionalidade, não têm a capacidade humana de ir além...


étoile filante dans le ciel du Jura
(fonte: http://www.europe1.fr/sciences/les-plus-belles-photos-de-ciel-etoile-2193127)


     Meu amigo FR está certo. Talvez precisássemos olhar mais para o céu; talvez precisássemos identificar nele estrelas que pudessem nos ajudar a nos guiarmos pelos nossos instintos. Talvez, olhando para o céu, a gente consiga fazer com que nossos programas de celular transcendam, e que possamos programá-los melhor para para que nosso projeto de vida vá muito além de um futuro próximo e imediato...

     Em 1963 uma música japonesa ficou mundialmente conhecida... 

     E eu, menino, olhava para o céu...

     Com esse título ("Olhando para o céu") essa música foi vertida para o português. Em 1964 foi gravada aqui no Brasil pelo Trio Esperança... e fez muito sucesso. 

     Ao ler a reflexão do meu amigo lembrei-me dela - e lembrei-me de mim.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR A VERSÃO EM PORTUGUÊS)
(Trio Esperança - "Olhando para o céu" - versão de Romeo Nunes para "Sukiyaki")


SUKIYAKI (tradução)

Eu ando olhando para cima
Para que as lágrimas não caiam
Relembrando aqueles dias de primavera
Mas esta noite estou só

Eu ando olhando para cima
Contando as estrelas com olhos lacrimejados
Relembrando aqueles dias de verão
Mas esta noite estou só

A felicidade esta além das nuvens
A felicidade esta acima do céu

Eu ando olhando para cima
Então as lágrimas não caem
Embora elas aumentem enquanto caminho
Por esta noite estou só
(assobio)
Relembrando aqueles dias de outono

Mas hoje noite estou só
A tristeza esta na sombra das estrelas
A tristeza esta a espreita na sombra da lua

Eu ando olhando para cima
Então as lágrimas não caem
Embora elas aumentem enquanto caminho
Por esta noite estou só
OLHANDO PARA O CÉU (versão)

Olhando para o Céu
Eu sigo a caminhar
Onde estará o meu amor em que estrela está
Todo este bem que eu perdi
E que em vão tento encontrar

Olhando para o céu
Estrelas me dirão que é bom sonhar
Ter alguém que sonhar faz bem
Que até nos céus fazem par
Os meus sonhos e os teus

Há no meu olhar uma lágrima triste
Que não quer deixar que eu me esqueça de alguém

E eu sigo a caminhar, tentando não chorar
Quero encontrar numa estrela esse alguém meu bem
Que eu tanto amei que se foi
E que um dia há de voltar

Há no meu olhar uma lágrima triste
Que não quer deixar que eu me esqueça de alguém

E eu sigo a caminhar, tentando não chorar
Quero encontrar numa estrela esse alguém meu bem
Que eu tanto amei que se foi
E que um dia há de voltar

E que um dia há de voltar




quarta-feira, 6 de abril de 2016

ROMY*


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("La Chanson d'Helène" - Romy Schneider)


     Eu havia guardado sua imagem... a lembrança da casa de campo, "a piscina"**... os cabelos lisos, claros, molhados, o sorriso cheio de vida. Reinava. Sua pele era luz no contraste com o biquíni escuro. Sorria. E, sorrindo, seus olhos se amiudavam. 


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**(Romy Schneider em "A Piscina" - Dir. Jacques Deray, 1969 - http://www.novevite.com/blog/LA_PISCINA)


     Senti saudades e resolvi revê-la. Tinha os cabelos presos, olhos claros, lábios grossos... o corpo enrolado em uma toalha de banho... os óculos, o olhar para trás diante da máquina de escrever... o mundo todo trancado atrás de uma grade de ferro e uma janela de vidro. A vida ainda lhe sorria em "as coisas da vida"*** - onde a reencontrei.

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***(Romy Schneider, em "Coisas da Vida" - Dir. Claude Sautet, 1970 - http://puppeleromy.canalblog.com/archives/9__film_les_choses_de_la_vie/index.html)

     E ela também sorria. Mas seus sorrisos distanciavam-se da sua natureza...

     Apesar de sua beleza e do encanto do seu sorriso, a felicidade andava distante. Foi imperatriz, atravessou fronteiras, internacionalizou-se, foi símbolo, foi mãe. Casou-se, separou-se, conviveu, sofreu perdas trágicas de entes que lhe eram muito próximos... ex-marido, filho... desencontrou-se. Dependente de medicamentos para combater os males da vida, tornou-se depressiva e insegura. Passou a ser evitada; tornara-se um incômodo. Antes que o álcool e as drogas pudessem levá-la, aos 43 anos de idade o coração o fez.

     Mesmo assim, sempre que ela reaparece na minha tela ainda é a mesma. Quando a revejo reencontro a Romy Schneider que aprendi a gostar; a mesma atriz com sua graça, seus encantos, sua jovialidade... e sua dor de viver. 

___________________________
*Romy Schneider (1938-1982), nome artístico de Rosemarie Magdalena Albach - atriz nascida na Áustria.

quarta-feira, 16 de março de 2016

LULA ASSUMIRÁ CASA CIVIL


     Ouvi a notícia: "Lula aceita convite de Dilma e assumirá o cargo de Ministro-chefe da Casa Civil."

Antigas brincadeiras de crianças - Qual o nome? 27
(Antigas brincadeiras de crianças - fonte: http://www.mdig.com.br/?itemid=18762)

     Nada tenho contra a troca de Ministros de Estado ou Secretários de Governo. Muitas vezes é necessário que seja feito um rearranjo nas administrações públicas, em qualquer dos seus três níveis.

     No entanto há uma série de dispositivos legais que devem ser observados para que esses rearranjos ocorram dentro de princípios que dão o caráter de legalidade, honestidade, seriedade e respeito aos valores coletivos em um ato praticado pelo Administrador Público.

     Há um Capítulo na Constituição Federal que trata especificamente disso. Nesse Capítulo, o artigo 37 estabelece que a Administração Pública deve ser exercida com obediência a cinco princípios: o da legalidade, o da impessoalidade, o da moralidade, o da publicidade, e o da eficiência.

     Obedecer ao princípio da legalidade significa agir dentro da lei; ou seja, o administrador público somente poderá praticar atos administrativos quando autorizado por lei. E, no caso de nomeação ou exoneração de um novo Ministro, a competência constitucional é do chefe do executivo. Como foi a chefe do executivo federal quem a fez, o princípio foi obedecido.

     Em respeito ao princípio da Impessoalidade, o administrador público deve agir visando o interesse público e coletivo; ele não pode objetivar o benefício de pessoas em particular. É evidente que a experiência de um ex presidente da República contribui para que o chefe do executivo federal em exercício exerça melhor suas funções visando o interesse coletivo. Em assim sendo, entendo que a nomeação do Lula para ocupar a Casa Civil obedece o princípio da impessoalidade.

     A nomeação deve também ser informada a todo povo brasileiro. Dessa forma, nomeado um novo Ministro, este ato deve ser publicado no Diário Oficial para que todos dele tenham conhecimento. No entanto, uma edição especial do DO - como aconteceu - evidencia uma busca de aceleração na transparência do ato para, assim, poder obedecer ao princípio da publicidade. Essa urgência, no entanto, dá mostras da busca de produção de algum benefício pessoal, ferindo assim o princípio da impessoalidade.

     Essa nomeação deve traduzir, ainda, uma necessidade da Administração Pública. O administrador público é eficiente quando age visando a produção de um serviço público que produza bons resultados, que seja satisfatório em relação ao atendimento das necessidades da comunidade e seus membros. Estou certo de que a nomeação do novo Ministro deu-se em virtude de uma busca de realização de um serviço público de melhor qualidade, atendendo o princípio da eficiência.

     O respeito a padrões éticos, decoro, boa-fé, honestidade, lealdade e probidade corresponde ao atendimento do princípio da moralidade. No entanto, nem tudo que é legal é moral - ou ético. Quando o administrador público age, ele deve respeitar em especial o elemento ético de sua conduta; ele não poderá agir simplesmente analisando se seu ato será legal ou ilegal, justo ou injusto, conveniente ou inconveniente. Acima de tudo, a prática do ato administrativo deve estar revestida de respeito às orientações do comportamento humano, abrangendo o atendimento à essência de normas, valores e prescrições presentes em uma determinada realidade social. E nisso consiste o princípio da moralidade administrativa.

     Em assim sendo, entendo que a nomeação do ex presidente Lula, nesse momento, como Ministro-chefe da Casa Civil, não atende ao princípio da moralidade administrativa. Isso porque, em respeito a todos os brasileiros, enquanto não estiverem satisfatoriamente explicadas e resolvidas as graves denúncias que pesam sobre ele (o Lula) - de  tal forma a evidenciar que não obteve quaisquer vantagens indevidas em decorrência dos cargos públicos que ocupou - sua nomeação é uma afronta a tudo o que é moral e ético: é tratar nossos valores e nossas instituições como meros detalhes insignificantes. 

terça-feira, 15 de março de 2016

GEORGE MARTIN NO QUINTO ANDAR


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(The Beatles - "A day in the life" - Lennon e McCartney)


     Ontem à noite, no prédio onde moro, as meninas da república do quinto andar promoveram uma festa. Já era tarde e eu ouvia suas vozes, seus gritos e seus cantos - acho. Estavam em total dessintonia uma com a outra. Fiquei prestando atenção mas não conseguia distinguir uma só palavra vinda daquela agitação. Não me parecia que estavam debatendo a primeira Lei de Newton, cantando "Livre na balada", do Wesley Safadão, ou simplesmente discutindo o teor social de "Tá tranquilo, tá favorável" do MC Bin Laden: era pura gritaria. 

     Fui me deitar mergulhado naquela barulheira e pensando que nem o síndico poderia fazer cessar aquele amontoado de sons. Cheguei a imaginar que, talvez, as moças estivessem ensaiando para receber a visita do George Martin. Talvez, interessado em mais um experimento musical, ele estivesse procurando gravar vozes femininas latino-americanas desencontradas na madrugada; que talvez ele quisesse inserir o resultado da gravação em alguma música nova. Talvez a solução fosse o seu súbito aparecimento ali. Sim, se ele chegasse naquela república, naquela hora, eu teria elementos para entender o sentido daquela desordem, daquele emaranhado de sons.

George Martin com os Beatles em estúdio, em 1962
(George Martin-fonte: http://jc.ne10.uol.com.br/blogs/toques/2016/01/03/o-produtor-george-martin-completa-90-anos/)

     Para quem não se lembra, o George Martin foi produtor e arranjador musical. Algumas de suas experimentações musicais foram incorporadas às canções dos Beatles. Em uma delas gravou quatro vezes uma orquestra de quarenta músicos tocando em total ausência de sintonia entre um instrumento e outro. Juntou todos os sons obtidos e os colocou em "A day in the life" - do disco "Sgt. Pepper's" (1967).

     Em um outro experimento sonoro ele gravou um coral de 16 pessoas gritando e cantando ao mesmo tempo frases desconexas e sem sentido. O resultado produziu o efeito anárquico que foi incorporado a "I am the walrus" - do disco "Magical Mistery Tour" (1967).

     Mas eu sabia que minhas remotas esperanças estavam sepultadas desde o início. O George Martin, aos 90 anos, morrera em Londres na semana passada. Por esse motivo nada (nem ninguém) poderia dar um certo sentido àquele caos sonoro que reinava na república do quinto andar. Não, definitivamente o George Martin não ia aparecer lá.

     Impotente diante daquela barulheira, e envergonhado de mim mesmo por todas as vezes que, em outros tempos, incomodei meus vizinhos, acabei adormecendo com pensamentos que transitavam entre crime e castigo, tolerância e impunidade. Apesar de tudo, eu desejava que cada uma daquelas meninas encontrasse seu caminho na vida e que fossem felizes - muito felizes... (mas que também fossem dormir logo). 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

OS HOMENS E AS FLORES


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("As rosas não falam" - Cartola)


     Hoje ouvi duas músicas entre si relacionadas: "As rosas não falam", do Cartola, e "Silencio", do porto-riquenho Rafael Hernández*. Ambas falam de flores.  

     Angenor de Oliveira, o Cartola, em "As rosas não falam", dizia que em seus momentos de tristeza procurava consolo na beleza. Sem ter com quem se queixar, e na esperança de que as flores o consolassem, naquelas horas ele visitava seu jardim e a elas dirigia seus lamentos:

     - "Queixo-me às rosas; mas que bobagem... ." **

     Em "Silencio", assim como o Cartola, o porta-riquenho Rafael Hernández também recorria à beleza das flores para consolar sua tristeza.

     - "Silencio (...) no quiero que las flores sepan los tormentos que me da la vida."*** [silêncio, não quero que as flores saibam dos tormentos que a vida me dá]

(Marché aux fleurs - abril/15 - arq. pessoal)

     O Cartola, especificamente buscava as rosas; o Rafael, as flores em geral: nardos, rosas e açucenas. Tanto o Cartola quanto o Rafael Hernández acreditavam ter uma certa cumplicidade com as plantas. Eles acreditavam que, com eles, as plantas interagiam. 

     Com as rosas o Cartola conversava. Diante de seu jardim o Rafael se calava.

     Aos lamentos do Cartola, as rosas exalavam seu perfume - como se elas quisessem consolá-lo mostrando que há beleza até mesmo na tristeza e nas ausências: 

     - "As rosas não falam; simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti."**

     O Rafael, ao contrário, diante das flores nada dizia. Ficava em silêncio. Ele temia que elas, se o vissem chorar, morreriam.

     - "No quiero que sepan mis penas, porque si me ven llorando, morirán."*** [não quero que saibam das minhas aflições, porque se me veem chorando, morrerão]

     Pensando nessa afeição do homem pelas flores, vou até a área externa do meu apartamento com ânsias de olhar a rua e encarar algo concreto. Mas já não sou mais concreto. Desvio o olhar para o canto da sacada. E, sem saber quais relações de cumplicidade existem entre mim e as plantas, sou enfeitiçado por uma orquídea que começa a despontar de meu único vaso... e sorrio para ela.  


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(Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo - "Silencio", de Rafael Hernandez)


AS ROSAS NÃO FALAM
(Cartola)

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim
SILENCIO
(Rafael Hernández)

Duermen en mi jardin
las blancas azucenas, los nardos y las rosas,
Mi alma muy triste y pesarosa
a las flores quiere ocultar su amargo dolor.

Yo no quiero que las flores sepan
los tormentos que me da la vida.
Si supieran lo que estoy sufriendo
por mis penas llorarían también.

Silencio, que están durmiendo
los nardos y las azucenas.
No quiero que sepan mis penas
porque si me ven llorando morirán.

____________________________
*RAFAEL HERNÁNEDEZ MARIN (1892/1965)- cantor, compositor e instrumentista porto-riquenho
**De "As rosas não falam"
***De "Silencio" (1932)