sábado, 28 de janeiro de 2017

OS BARES* POR ONDE PASSEI


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Baden Powell, dele, "Retrato brasileiro")
(Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=elgTCFlbEgQ)

     Em "A noite do meu bem"**, além de outras histórias ligadas ao samba-canção, o Ruy Castro conta como nasceram e de que forma sobreviviam os bares, as boates e casas de espetáculos que marcaram época no Rio de Janeiro.

     Um bar, uma boate ou uma casa de espetáculos, é, antes de tudo, um local onde ocorrem encontros e desencontros, formam-se amizades, iniciam-se histórias de amor. E não só no Rio, mas em cada uma das cidades do nosso querido Brasil.

     Em Guará não foi diferente. Quando criança, costumava ir ao "Bar do Seu Alberto", na esquina da rua da minha casa com a rua principal. Ali via meu pai e seus amigos, e comprava pacotes de bala de goma para comer nas matinês de domingo no cinema - e recebia sempre a simpatia do próprio "Seu Alberto". 

     Ainda menino, era o "Bar do Zé Berto" que movimentava a cidade.


(Zé Berto - foto postada no facebook por Ivete Berto)

     O "Bar do Zé Berto" ficava bem em frente à casa de minha avó, no primeiro quarteirão depois da estrada de ferro. Era frequentado por ilustres guaraenses que ali se encontravam para tomar cerveja e, especialmente, para discutir política. A casa e o bar do Zé Berto eram no mesmo imóvel. Em algum momento na década de 70 o "Bar do Zé Berto" mudou para o quarteirão seguinte, no sentido da praça, mantendo o mesmo perfil e os mesmos frequentadores. Eu mesmo passei muitas de minhas tardes na casa - e depois no bar - do Zé Berto, amigo que era de seus três filhos.

(Calçada em frente ao "Bar do Zé Berto" - foto postada por Dr. Marco Antônio no facebook)

     Havia também, na esquina da rua principal com a "rua do Welsinho" (Rua Washington Luiz), o "Bar do Massahiro". Aos domingos, já adolescente, era para lá que eu ia nos finais das noites de domingo para encontrar os amigos, comentar o filme em cartaz no cinema, e comer bauru. Durante as tardes dos dias de semana a possibilidade de jogar xadrez com algum amigo era o que me levava ao "Massahiro". Havia no bar muitos tabuleiros. Combinávamos uma partida ou um campeonato, ajeitávamos as mesas, pegávamos um picolé de abacaxi e deixávamos a tarde rolar solta entre torres, cavalos, bispos e peões que protegiam nossos reis e nossas rainhas.


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(Massahiro Sakuray - foto postada por ele no facebook)

     Do outro lado da rua, bem em frente ao "Massahiro", também na esquina, ficava o "Bar do Herlindo". Muito pouco frequentei ali; alguns outros amigos, porém, preferiam o "Herlindo" ao "Massahiro": ali a atração principal era o dominó.

     Com o tempo, descobri o "João Odani". Ficava doido para chegar os finais de tarde para poder ir ao "Bar do João Odani". Ali comia peixe frito e bolinho de mandioca, encontrava os amigos e conversava sobre qualquer assunto que a inspiração escolhesse. Localizado no final da rua da minha casa, lembro-me que, com mesinhas na calçada, sempre havia alguém que estacionava o carro em frente ao bar, deixava as portas bem abertas, e ligava o aparelho K7 para acompanhar os longos papos e as muitas cervejas que tomávamos ali enquanto sonhávamos o futuro.

(João Odani - detalhe de foto postada no facebook por Flávia Nakano)

     O João Odani fechava seu bar mais cedo do que gostaríamos que fechasse. Dali - e por muitos anos - saíamos pela rodovia Anhanguera até o "Posto Algodoeira". Nos finais de semana era para lá que nós todos da cidade íamos - jovens, pais e filhos. Bebíamos, colocávamos cadeiras na varanda do "Posto", e conversávamos sobre tudo. Muitas vezes era o meu primo Tim e os meus amigos Sérgio, Brunelli e Gualter que, com instrumentos de percussão e muita garganta, alegravam o "Posto". Era também no "Posto" que, com um misto-quente e uma coca-cola, arrematávamos as noites de baile no Clube.

(Varanda do "Posto Algodoeira" e Sr. Carlos Migliori, um dos então sócios proprietários - foto postada no facebook por Márcia Migliori)

     Muitos outros bares existiram em Guará. No entanto, o tempo que os frequentei foi muito curto em relação aos mencionados. Dentre eles lembro-me do "Bar do Sérgio e do Luizinho", na entrada da cidade, ponto de encontro para noites de carnaval; o "Bar do Celsinho Perigoso", na esquina da praça Nove de Julho com a rua principal, onde eu costumava ir para ficar olhando o movimento da praça enquanto ouvia o "Procul Harum" e os "Bee Gees" na vitrola; o "Bar do Vicente", onde eram feitas as melhores coxinhas da cidade; o "Bar do João Jorge" (antigo "Bar Magnífico", ao lado do cinema), onde ocorreram poucas, porém memoráveis reuniões musicais no início dos anos 80; o "Bar do Júlio", na esquina do Clube, onde minhas conversas com o próprio Júlio sobre música adentravam a madrugada; o "Bar do Daniel", em uma das casas da antiga Mogiana, onde, ouvindo tudo o que havia do Paul McCartney, bebíamos até o dia amanhecer.

     Lembro-me também, mas em um passado muito distante, do "Bar do Corsi", com seus antigos frequentadores, onde reinava uma mesa de sinuca; do "Bar do Jota" com seus picolés, bem na esquina da praça; e da escuridão da boate "Number One", onde o bom mesmo era conversar sussurrando.



(Bar do Zé Berto - foto postada por Vanderlei Berto no facebook)

     A vida vai passando e a gente não se esquece dos lugares que nos proporcionaram algum tipo de alegria ou descoberta. Em muitos deles fazemos amigos e levamos papos que influenciam nossos rumos e nossos destinos.

     Diante da simplicidade estrutural e da densidade afetiva que prevalecia nos encontros diários ocorridos nos botecos antigos da minha terra natal, os sofisticados bares, pubs e casas noturnas de hoje são gélidos palácios que inviabilizam uma simples conversa, onde a gente vai para simplesmente beber, beber e beber.... Ah, sim, e também para ser torturado por música da pior qualidade, a milhares de decibéis.

     Assim que, desencantado com os bares que tenho visto, escolho ficar em casa, onde, lembrando dos meus antigos bares e amigos, abraço o meu violão, pego minhas listas de músicas, e vou monologando calado... tocando p'rá mim mesmo a minha - hoje - boemia doméstica!

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*Bares de Guará, SP, minha terra natal
**Castro, Ruy. A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção. 1ª Ed. - São Paulo:Companhia das Letras, 2015

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

STACEY KENT


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Stacey Kent - Samba Saravah - Vinícius/Baden - versão Pierre Barouh)
fonte: https://www.youtube.com/watch?v=AXFuq27MVFk


     Vinícius de Moraes e Baden Powell, na década de 60, compuseram o "Samba da Benção". Esse samba ultrapassou as fronteiras do Brasil, chegou à Europa, e ganhou do cantor e ator Pierre Barouh uma versão em francês. Na trilha sonora do filme "Un homme et une femme"*, dirigido por Claude Lelouch, foi levado às telas do cinema.

     Há uns dois anos, pelo rádio, ouvi o "Samba da Benção" em francês, na voz de uma mulher.

     Babei !!

     Fui à internet e descobri então que aquela gravação fora feita por Stacey Kent, uma cantora norte-americana delicada e simpática que adora o Brasil, a língua portuguesa, a bossa-nova, e especialmente o Marcos Valle.

Stacey Kent  -  photo by Okki
(Stacey Kent- fonte: http://www.theglobaldispatches.com/articles/stacey-kent-in-paris)

     Procurei conhecer outras de suas gravações e descobri que tudo o que ela gravou e tem gravado é de muito bom gosto - e da melhor qualidade musical: "Que reste-t-il de nos amours", "Landslide", Jardin d'hiver" "What are you doing the rest of your life?", "Bewitched", "What the world needs now"... e muita bossa-nova: "So nice" (samba de verão), "One note samba" (Samba de uma nota só), "Corcovado" (Corcovado), "Les eaux de mars" (Águas de Março)...

     Quanta preciosidade! Se o Nat "King" Cole e o Johnny Hartman, pela perfeição da pronúncia, são para mim vozes masculinas aveludadas, Stacey Kent é a voz doce feminina que, sofisticada, também soa com revestimento de veludo. Ela consegue fazer com que cada palavra cantada tenha qualidade e valor superiores a qualquer frívolo castelo de ouro.

     Não é por menos. A Stacey Kent estudou e dedicou muito de sua vida à literatura comparada. Certamente foi em decorrência disso que ela compreendeu - e hoje nos ensina pela música - a força, a doçura, a musicalidade e a riqueza de significados que cada palavra dita ou cantada traz em si mesma.

     Na sua voz Deus nos ensina o sentido da beleza. Ouça suas gravações e deixe que ela encante os seus dias da mesma forma que tem encantado os meus.  


P.S.: Sugestão: ouça com a Stacey Kent "What are you doing the rest of your life?" (Alan and Marilyn Bergman/Legrand). É só copiar e colar no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=NOdkpvhfaOQ
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* "Un homme et une femme" - "Um homem, uma mulher" (1966) - "cult", Oscar de melhor filme estrangeiro de 1967

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O ÚLTIMO DIA DO ANO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Linda Ronstadt - "Good Night", de Lennon/McCartney)


     O último dia do ano. O último!

     Em vinte e quatro horas quanta coisa boa pode acontecer!

     Uma redescoberta, um reencontro, uma inspiração, uma cura...

     "O último dia do ano não é o último dia do tempo"*.

     Nem do ano, nem do tempo... e nem meu.

     Outros dias virão.

(Fonte: http://clickcatarina.com/amanhecer-na-serra-catarinense/nascer-do-sol-na-serra-catarinense/)

     Tenho, em cada um deles, 24 horas para fazer com que todos sejam bons.

     Quero que o último dia do ano seja melhor que todos os anteriores.

     Que o dia seguinte seja melhor ainda...

     E que, no próximo, eu possa aprender tanta coisa boa que eu jamais queira esquecê-lo.

     Hoje quero estar feliz ao adormecer.

     E quero, feito criança, despertar no último dia do ano lambuzado de vida: de vida, de desejo e de esperança... em cada um dos dias que virão.

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*Carlos Drummond de Andrade, no poema "Passagem do ano" - em "A Rosa do Povo", de 1945.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O CÉU



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Kaori Fuiji e Eric Cecil - Bachianas Brasileiras nº 5 -
Melodia Sentimental, de H. Villa Lobos)


"Cada criança que nasce nos traz a mensagem
de que Deus ainda não perdeu a esperança
em relação à humanidade"
(Rabindranath Tagoré)


     Certa vez ao ser indagado a respeito do céu e de sua natureza, respondi que creio em sua existência dentro de cada um de nós. Mas que, assim como ele, o inferno ocupa a mesma morada. Disse, por fim, acreditar que estamos tomados por um embate incessante entre céu e inferno: nem sempre bem, nem sempre mal, mas em um conflito ininterrupto entre essas duas entidades.  

     Constituído por esse universo dualista, a "Melodia Sentimental" que ora ouço torna candente a chama de esperança contida na simbologia do nascimento de Jesus Cristo, e o meu inferno interior de mim se distancia e se apequena - a ponto de colocar em dúvida a própria existência do mal.

(fonte: http://contra-faccao.blogspot.com.br/2012/05/as-vezes-surge-uma-vela-acesa-no-meio.html)

     Abraço espiritualmente meus amigos e leitores, desejando a todos, de coração, um Feliz e abençoado Natal.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

IDEIAS ABSURDAS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(e assista depois de ter lido)
(Pink Floyd - "The Wall" - fonte: https://www.youtube.com/watch?v=fvPpAPIIZyo)


     A eleição do Trump conta muito do que anda rolando nas mentes dos cidadãos norte-americanos e dos cidadãos de muitos outros países. Em sua campanha eleitoral o Trump propagou a xenofobia, a segregação, a homofobia e o nacionalismo exacerbado. Pelo menos, salvo melhor juízo, foi isso que entendi de suas manifestações. Mas, movido pelo lema "make America great again"*, temos que admitir que foi autêntico em suas falas.


(Fonte: http://thehill.com/blogs/ballot-box/gop-primaries/271330-trump-wins-georgia-super-tuesday)

     Sua proposta vencedora, traduzida por muros que segregam e decretos que expulsam, trouxe um forte indício de intolerância. Uma política assim nada mais é do que a representação de uma tendência isolacionista que paira sobre as chamadas grandes potências mundiais. Tal ocorreu com o plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Européia; tal tem ocorrido na França com a propagação das ideias conservadoras de Marine Le Pen, e na Rússia de Putin.

     Pelo andar da carruagem o mundo dito globalizado está propenso a abrir-se no trânsito de mercadorias, mas a fechar-se em compartimentos que dificultam a integração e a convivência pacífica de pessoas de diferentes origens e credos. Essa propensão, indiscutivelmente, só pode ter o ódio como consequência. Parece que estão querendo que o homem seja tomado como um produto industrial, nascido de um mesmo processo de estampagem, com o mesmo desenho, a mesma pintura, as mesmas dimensões, o mesmo tratamento térmico - e o mesmo potencial de consumo.

     Mas não somos peças. Somos seres com origens e formações culturais diversas. Essa pequena ideia já é suficiente para compreendermos que precisamos saber respeitar as diferenças, aceitar e conviver em harmonia com toda espécie de diversidade. Estendendo a proposição de Sérgio Buarque de Hollanda**, pelo simples fato de habitarmos o mesmo planeta, entendo que "ninguém está investido de poder algum para fazer com que sejamos seres desterrados aqui na Terra" - seja na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos, na Síria, no Brasil, ou em qualquer lugar no mundo.

     Do contrário, e se assim o permitirmos, no controle de qualidade do processo de fabricação chegará um dia em que cada um de nós será descartado coercitivamente do lote produzido e sepultado na vala dos mortais, ouvindo a ideia absurda de que somos peças estampadas em desconformidade com o projeto padrão.

________________________ 
*faça os Estados Unidos grande novamente
**"somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra" - Sérgio Buarque de Hollanda. "Raízes do Brasil" - Ed. Companhia das Letras, 26ª Ed., 1995 - pg. 31

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

OBLIVION*


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Oblivion" - Astor Piazzolla)
https://www.youtube.com/watch?v=dF-IMQzd_Jo

"A vida é suficientemente longa,
e com generosidade nos foi dada
para a realização das maiores coisas
se a empregamos bem."
(Sêneca)


     No espaço aéreo da cidade grande, enclausurado no apartamento onde vivo, fico olhando o lustre no teto.


("O lustre" - foto: arq. pessoal)

     Do teto às janelas; delas, às janelas dos prédios vizinhos. Algumas delas abertas, porém sem nenhum sinal de vida. As horas que se vão passando carregam consigo a sensação angustiante de desperdício de tempo.

     Qualquer ruído, qualquer som, alguma voz que eventualmente ouvisse poderia me servir de estímulo para alguma busca. Nada ouço, porém.

     De súbito o acionamento de uma válvula de descarga de algum apartamento do prédio e o fluxo de água pela tubulação dão sinais de vida. Esses barulhos distantes, quase imperceptíveis, preenchem tanto o meu vazio quanto o meu silêncio.

     Penso no casal que vive no apartamento imediatamente acima do meu. Octogenários aposentados desde longa data, ele, médico neurologista, ela professora de piano. Nunca os visitei. Nas poucas vezes que nos vimos no elevador nós nos cumprimentamos e sorrimos. Quando penso neles eu os imagino sentados em suas poltronas, um ao lado do outro, esperando, quase adormecidos. Moram sós. Não tiveram filhos.

blog old couple holding hands
(Fonte: http://graceburrowes.com/blog/2015/09/play-it-where-it-labels/)

     O barulho de água fluindo pela tubulação acendeu-me o desejo de levar a eles a possibilidade de um pensamento bom, a lembrança de um momento feliz. Instintivamente vou buscar minha caixinha de som, abro a janela da sala, e com o aparelho suspenso pelas minhas mãos para o lado de fora aciono a tecla PLAY. Retiro das profundezas do esquecimento o bandoneon do Astor Piazzolla. Quero que o suspiro de seu fole encha de vida os pulmões viventes no apartamento dos meus vizinhos. Desejo imensamente que eles consigam ouvir a música que, pensando neles, pus para tocar; desejo que, ao ouvi-la, seus corações se aqueçam; que, despertando de seu suave cochilo, animem-se em dizer um ao outro: "alguém ouve música". Que sorriam diante da simplicidade dessa ideia, que estendam as mãos um para o outro, e com toques de carinho relembrem histórias de amor que ficaram guardadas nas gavetas do tempo.


*Oblivion - (do inglês) esquecimento, adormecimento, abandono.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

SENHOR WILSON


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(Naruto - "Sadness and Sorrow" - Violin -
https://www.youtube.com/watch?v=XkRU2g4NtaE)


     Não podendo resistir fechou os olhos. Cansou de olhar pela janela uma rua que já não via. Cansou de perceber pelo portão o movimento que já não lhe interessava. Cansou de esperar quem não mais poderia estar consigo.

     Cansou. 

     Cansou de ficar sentado, a manhã vazia, a tarde vazia, a noite vazia. No silêncio da casa, seu olhar apagado continha a história de um tempo que passou, que acabou, que ficou esquecido.


(Sr. Wilson - fonte: Eliana de Andrade, no facebook)

     Percorria toda a cidade a passos largos segurando sua caixinha metálica com seringas e agulhas para remediar seus doentes; visitava-os, levava a eles ânimo e esperança. Em sua farmácia, por anos, recebeu-me para a minha benzetacil mensal; para o café da tarde subia em um salto os três degraus que davam acesso à casa de minha avó - onde chegava com pressa e alegria. Guardava com carinho um exemplar de uma edição antiga e luxuosa da "Divina Comédia" que lhe havia sido presenteada por um tio meu; dela, gostava de comentar ironicamente passagens do inferno e do paraíso.

     Foi uma entidade!

     Acompanhei-o de longe e também senti suas perdas ao longo do tempo. Fiquei triste em virtude delas. Hoje despediu-se; seu tempo se consumou; acabou.

     Descanse em paz.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

TEMPO FELIZ


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA)
(Baden Powell -"Tempo Feliz" - de Vinícius e Baden)

Tempo Feliz
(Vinicius de Moraes, Baden Powell )

Feliz o tempo que passou, passou
Tempo tão cheio de recordações
Tantas canções ele deixou, deixou
Trazendo paz a tantos corações

Que sons mais lindos tinha pelo ar
Que alegria de viver
Ah, meu amor, que tristeza me dá
Vendo o dia querendo amanhecer
E ninguém cantar

Mas, meu bem
Deixa estar, tempo vai
Tempo vem
E quando um dia esse tempo voltar
Eu nem quero pensar no que vai ser
Até o sol raiar


(Foto: arq. pessoal)


A cidade: pequena.
A rua: arborizada.
Os vizinhos: amigos.
O portão: aberto. 
O local: minha casa.
Os cômodos: a cozinha e a copa.

Era seis de outubro.

A Maria Aparecida e o Luiz Augusto,
A Ivete, a Rita, a Dorama, o Zé Roberto, o Tim, o Zé...
O olhar da Silvinha,
A expressão do Mário Antônio,
A mão protetora da Madalena no peito do Chico,
O sorriso da minha irmã pelo seu aniversário.

Bolo, balas, doces, salgados e refrigerantes.
Da casa, todas as luzes acesas.
A alegria das faces amigas 
ficaram eternizadas na foto...
...na foto que reteve em branco e preto 
um momento passado que não volta mais.

Era seis de outubro.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

FOREVER YOUNG



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Forever Young", Bob Dylan and the Band - https://www.youtube.com/watch?v=jtFEzhaNrT4)


"May you build a ladder to the stars,
and climb on every rung:
May god bless you and keep you
forever young"
(Bob Dylan)


     O Bob Dylan tinha 32 anos de idade quando, em 1973, gravou "Forever Young". Em pleno vigor de sua juventude ele fazia, na canção, uma oração endereçada ao seu filho Jesse - então com sete anos de idade.

     Não sei dizer se os votos do Bob Dylan, expressos na oração, foram atendidos na sua plenitude. Li recentemente que Jesse tornou-se diretor de cinema* e que, depois dele, Dylan teve outros cinco filhos (oficiais)**.


Bob Dylan com seu filho Jakob
http://lastdaydeaf.com/summer-2020-playlists-like-father-like-son-bob-jakob-dylan/


     Percebo que a canção mantém sua força e seu encanto mesmo depois de tanto tempo. Sua letra traduz o sentimento do homem em seu estado de elevada nobreza, porém tomado pela angústia de carregar dentro do peito a incerteza de cada um dos dias que poderão vir.

     Quando "Forever Young" foi gravada eu tinha 16 anos. Desde então, e muito antes ainda, atravessei cada um dos meus dias com a cabeça tomada por projetos, sonhos, conflitos, inquietações e muita música ("Forever Young", dentre tantas). Sem que pudesse me dar conta, lutando para poder ser útil, procurando discernir a verdade e enxergar as luzes ao meu redor, caminhei sob a proteção de Deus.

     O Bob Dylan tem hoje 75 anos de idade e da sua voz segue ecoando, com todos os acordes, a mesma prece por ele escrita há mais de 40 anos. Oxalá todos nós, quando estivermos nos achando antiquados e ultrapassados, consigamos ouvir "Forever Young" e reencontrar em sua letra a nossa juventude espiritual para podermos, assim, continuar dedicando a nós mesmos, aos nossos filhos, e a todos os jovens idealistas, a mesma prece dedicada pelo Bob Dylan ao seu filho - e que eu, particularmente, continuo dedicando aos meus.



Forever Young

May God bless and keep you always
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young

May you grow up to be righteous
May you grow up to be true
May you always know the truth
And see the lights surrounding you
May you always be courageous
Stand upright and be strong
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young

May your hands always be busy
May your feet always be swift
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift
May your heart always be joyful
May your song always be sung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young
Para Sempre Jovem

Que Deus te abençoe e te proteja sempre,
Que todos os seus desejos se realizem;
Que você possa ser sempre útil aos outros
E permitir que os outros o sejam para você.
Que você consiga erigir uma escada até as estrelas
E galgar cada degrau;
Que você possa permanecer para sempre jovem.
Jovem para sempre, jovem para sempre,
Que você possa permanecer para sempre jovem.

Que ao crescer você se torne justo,
Que ao crescer você se torne verdadeiro,
Que você saiba sempre discernir a verdade
E enxergar as luzes que o cercam.
Que você seja sempre corajoso,
Aguente firme e seja forte.
Que você possa permanecer para sempre jovem.
Jovem para sempre, jovem para sempre,
Que você possa permanecer para sempre jovem.

Possam suas mãos estar sempre ocupadas,
Possam seus pés ser sempre ágeis,
Que você tenha uma base sólida,
Quando os ventos das mudanças soprarem.
Possa seu coração estar sempre contente,
Possa sua canção ser sempre cantada,
Que você possa permanecer para sempre jovem.
Jovem para sempre, jovem para sempre,
Que você possa permanecer para sempre jovem.


*em http://thedwarf.com.au/news/rock-star-dads
**em http://oglobo.globo.com/cultura/homem-de-48-anos-afirma-ser-primeiro-filho-de-bob-dylan-5446880



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O CANDIDATO E O ELEITOR


(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR ANTES DE LER)
("Como fabricar um candidato - https://www.youtube.com/watch?v=n4rzfnzQrAg)



"E eu que não creio
peço a Deus por minha gente"
(Garoto, Vinícius, Chico)




Chega um momento em que é preciso eleger.

Colocam-se diante dos homens comuns seres extraordinários moldados em gestos treinados e frases fabricadas ditas com segurança e brilho no olhar. Estes seres sobem em palanques, falam alto, apontam caminhos, abraçam, sorriem, e simulam vocação messiânica com acenos de mãos.

Chega um momento em que o homem comum para para ouvir.

Empresta ouvidos a programas de rádio e televisão. Vê os seres extraordinários proporem soluções fantasiosas para uma cidade empobrecida e habitada por gente esperançosa que, de pés descalços e chapéu na mão, aplaude os seres extraordinários. 

Chega um momento em que o homem comum passa a olhar ao seu redor.

O homem comum mergulha em sua câmara de reflexões, fala baixo, sente dificuldade de decidir. Analisa. Não se convence. Indeciso, faz perguntas a si mesmo. Olha sua cidade, sua gente, suas praças, as grades nas janelas das casas, os buracos nas ruas, as lixeiras nas calçadas, as filas nos postos de saúde, a qualidade de suas escolas, e percebe o quanto de descaso há nisso tudo. 

Mas chega o momento, enfim, em que o homem comum precisa falar.

La prière, par Erich Heckel
("La prière" - Herich Heckel - fonte: http://www.eternels-eclairs.fr/die-brucke-tableaux-heckel-schmidt-rottluff-nolde-pechstein.php

Depois de muito avaliar, sentindo-se desencantado e tão desamparo quanto é de sua natureza ser, ele levanta a cabeça, direciona seu olhar para as estrelas no céu, e diz com desolação:

- "Perdoai-me, Senhor. O exercício da política requer muita nobreza. Mas o que tem sido apresentado nada traz além de maquilagem, dissimulação e vazio - com raríssimas exceções". 

E tomado de tristeza, baixando seu olhar para o chão, pede a Deus, humildemente, com a voz que lhe vem do coração:

- "Tende piedade de nós!"