Minha intenção é publicar aqui as coisas que leio, vejo, penso ou observo, e que me fazem sentir que acrescentam. Afinal, as coisas só se tornam inteiramente bonitas quando podem ser compartilhadas e se mostram repletas de significados comuns.
Sabe, aquele guarda-chuva que era do avô? Aquele que ficou no canto da sala como lembrança e que evoca a memória de coisas boas? Que, só de sabermos que ele está por ali a sensação é de estarmos protegidos e com o coração aquecido?
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The Beatles - "Hello, Goodbye"
Pois os Beatles e a sua música são isso para mim: o guarda-chuva velho do meu avô que está há anos no canto da sala, pronto para me abrigar, aquecer e encher de vida o meu coração.
The Beatles - Fonte: http://www.billboard.com/articles/news/6851679/beatles-spotify-data-age-groups
Se me dessem lápis e papel para que eu traçasse uma imagem emblemática do Brasil, muito provavelmente eu tentaria fazer um esboço da baía de Guanabara com o bondinho ligando o Morro da Urca ao Pão-de-Açúcar, ou ainda do Cristo Redentor, no Corcovado. Acho que a tendência da maioria de nós, brasileiros, seria a mesma. Em especial se tivéssemos que apresentar essa imagem no exterior - ou a algum estrangeiro. Mas Di Cavalcanti não faria assim. Ele não fez assim. No conjunto de sua obra, o que observamos é que ele não procurou traduzir o Brasil em paisagens ou figuras grandiosas. Sua sensibilidade estava voltada para o povo, para a pele morena, para a gente simples, e para o seu aspecto cotidiano. Ele vivia impregnado por uma atmosfera quente, amorosa e sensual. Ele gostava de pintar mulheres; gostava de pintar o trabalho informal e o lazer. Não há em suas telas ou ilustrações sugestões verdadeiras ou falsas de um país grandioso, com aparência imediata indicativa de riqueza material. Não! Mas há, sim, a evidência do desejo de mostrar a realidade contida em nossa riqueza cultural.
Di Cavalcanti pintou bordeis; encontrou e traduziu, em poesia pintada, a pobreza. Em suas telas mostrou e denunciou o Brasil que conheceu: uma terra vibrante em cor, que, apesar da aparente alegria, estava, em seu tempo, habitada por um povo inocente e triste.
"Samba" (1927)
Talvez tenha sido por sua obra com temática social e nacional, por sua sensibilidade voltada para os mais humildes, pelas cenas urbanas, musicais e eróticas que pintou, por seu jeito de mostrar a realidade do Brasil, que o governo militar o impediu de assumir função de adido cultural na França, em 1964. Afinal, "o que, do Brasil, um artista-pensador poderia mostrar no exterior?"
"Cinco moças de Guaratinguetá" (1930)
Além de pintor, Di foi ainda ilustrador de jornais, livros, revistas, e até de capas de disco. Em Di Cavalcanti, pintor, há música e literatura. Vejo nele muito de Jorge Amado, escritor, e muito de Dorival Caymmi, compositor. Há pescadores, prostitutas, bordeis, mulheres "da vida", malandros e seresteiros - sempre em ambientes modestos. A obra de Di Cavalcanti é, enfim, uma perfeita caracterização da vida e da sensualidade do povo brasileiro. Di Cavalcanti foi um dos responsáveis pela realização da Semana da Arte Moderna em 1922. Foi, portanto, um dos responsáveis pelo debate a respeito da identidade nacional. Para esse debate ele trouxe a ideia da criação de uma imagem ao mesmo tempo moderna e popular, para um país habitado por um povo moreno, alegre e melancólico, que leva muito a sério o prazer e o descanso. Em viagem recente a São Paulo fui visitar a exposição "No Subúrbio da Modernidade - Di Cavalcanti 120 anos", na Pinacoteca do Estado. Deparei-me com um artista verdadeiramente apaixonado pelo Brasil.
Foto: arq. pessoal
Ao lado de figuras notáveis como os citados Jorge Amado e Dorival Caymmi; de estudiosos do nosso perfil, como Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre, tenho agora uma nova referência para falar do nosso país: Di Cavalcanti - um dos grandes responsáveis pela construção da identidade cultural brasileira. E é por isso que, se a ele tivessem pedido o esboço de uma única imagem que pudesse representar o Brasil, muito provavelmente a imagem não teria sido outra senão a figura de uma mulher - uma mulata, mais precisamente. E com traços delicadamente sensuais.
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Quantos homens e mulheres em idade avançada constituíram uma família, já criaram seus filhos, já deixaram de trabalhar e vivem sós. Quantos homens e mulheres, em idade avançada, continuam com boa saúde, podem curtir a vida e desfrutar dos pequenos prazeres que ela oferece - passear de vez em quando, jantar em um restaurante, tomar um café em uma esquina qualquer, caminhar por um shopping center, olhar vitrines... Pessoas cujos filhos já se ajeitaram na vida e que, em busca de seus próprios interesses, vivem distantes. Pessoas que, por determinação do destino, ou se separaram ou ficaram viúvas. Fico pensando nas dificuldades que encontram para a realização das coisas práticas e necessárias - a alimentação, o almoço, o jantar, os cuidados com a roupa, o controle financeiro. Imagino que cada amanhecer tenha se tornado uma árdua tarefa consistente na procura de alguma maneira de preencher o tempo de um dia: fazer palavras cruzadas, ler um livro, rememorar coisas que se passaram, remexer em papeis, em gavetas; procurar algum amigo, encontrar algum assunto para conversar, dar um telefonema. Mas, a quem recorrer? Quem estaria disposto a ouvir? Quem estaria disposto a conversar? Atravessar o dia, sob a luz do sol, parece não ser tão difícil. O movimento nas ruas, os veículos trafegando, tudo isso distrai e ocupa a imaginação. Mas, e a noite? A hora de ir para a cama, o silêncio, a escuridão? Qual a dimensão da angústia para se poder vencer as madrugadas, as insônias, os pensamentos em tudo o que vai ficando? Como adormecer com o incômodo pensamento naquilo que poderia ter sido feito da própria vida, mas não foi? Na quietude do quarto, estender o braço e ter o outro lado vazio, ninguém com quem conversar; deparar-se com sombras e com todo o vazio que a alma pode suportar. Estar só. Outro dia assisti a um filme que aborda esse assunto. Baseado no livro "Nossas Noites"*, do escritor indiano Kent Haruf, o filme conta a história de Addie e Louis, ambos com mais de 70 anos de idade. Addie e Louis já foram casados, tiveram suas famílias e seus filhos. Vivem sós. São vizinhos há muitos anos, e se conhecem apenas pelos cumprimentos formais e distantes. No filme, Addie, na angústia de suas noites, supondo que Louis sentisse, como ela, a mesma falta de alguém com quem conversar, um dia vai à casa dele e sugere que eles, de vez em quando, poderiam dormir juntos em sua casa para poderem conversar; que, conversando, poderiam vencer a noite, afastar a escuridão e o silêncio. Não - ela esclarece - Ela não estava sugerindo ou propondo sexo; ela procurava e oferecia companhia. Ela queria alguém com quem pudesse dialogar, alguém para quem pudesse contar histórias, e de quem pudesse ouvir histórias.
Pensando no filme e lembrando-me das muitas pessoas que conheço e que vivem nas mesmas condições de Addie e Louis, imaginei que seria muito bom se elas conseguissem fazer com que tudo se tornasse menos complicado. Que todos nós, enfim, pudéssemos fazer com tudo fosse menos complicado. Passei a me perguntar o porquê da natureza humana exigir que escondamos as dores e as carências que nos afligem; o porquê de querermos nos mostrar incólumes aos tormentos da vida quando eles são próprios da nossa existência, e próprios da vida daqueles que vivem sós, que precisam de alguém para simplesmente conversar, vencer a escuridão, abraçar durante a noite, e seguir em frente...
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*"Nossas Noites" - "Our souls at night" (EUA, 2017). Dir. Ritesh Batra. Drama.
Joana Francesa - Chico Buarque https://www.youtube.com/watch?v=9cWkoH2eAPw
Há poucos dias fui rever "Joana Francesa"*. Lembrava-me de algumas cenas do filme e da Jeanne Moreau; trazia também, na cabeça, a belíssima música do Chico - que, com o mesmo nome, estava na trilha sonora do filme.
"Joana Francesa" mostra a decadência de um engenho de cana-de-açúcar no nordeste do Brasil, nas primeiras décadas do século XX, em virtude da chegada da usina e das transformações nos sistemas de produção. Como consequência, o engenho de açúcar que significava poder e progresso estava sendo engolido pelo próprio progresso; o senhor de engenho, então, seria transformado em fornecedor de cana-de-açúcar. Rever esse filme me fez lembrar uma beneficiadora de algodão que existia em minha terra, e onde eu costumava ir com muita frequência. O que antes, lá, era símbolo de riqueza, não resistiu às transformações econômicas e tecnológicas - e se desfez. Em outros tempos a beneficiadora de algodão, ou simplesmente "algodoeira", situava-se perto da casa de minha infância. Seu funcionamento era responsável pela geração de muitos empregos; trazia para a cidade a ideia do dinamismo econômico da época, movimento, filas enormes de caminhões carregados de sacos de algodão colhido no campo para ser pesado, negociado, descarregado, e, depois, beneficiado.
Caminhão com carga de algodão a ser descarregado na antiga algodoeira
Foto postada por João Ambrósio Seleguim no facebook
Em uma noite de triste memória a algodoeira foi tomada por um incêndio de proporções catastróficas. Mas seus sócios e diretores bravamente resistiram. Heroicamente transferiram-na da área urbana para as margens da rodovia anhanguera, onde ela foi reerguida, onde ela renasceu vigorosa para continuar gerando trabalho, produzindo riqueza e orgulho para a cidade. Houve um tempo em que, em função da algodoeira, chamávamos a pequena Guará de "capital do algodão" - do algodão que mereceu (e tem) seu lugar no "Brasão de Armas" do Município.
Algodoeira - postada por Beto Simões no facebook
Mas "o progresso é nômade", dizia Monteiro Lobato**, "ele emigra e deixa atrás de si um rastilho de taperas...". Pois no ano passado, ao trafegar pela rodovia anhanguera, não consegui fingir que não via o local onde esteve a algodoeira - como havia feito por muitos anos. Vi, em estado de penúria, oimóvel onde ela funcionava. Os antigos galpões de armazenamento, máquinas de beneficiamento, escritórios administrativos, estavam tomados pelo mato. O portão de entrada tornou-se metal corroído; alguns pilares de concreto, juntamente com uma guarita semi destruída, davam os sinais de que antes havia ali uma demarcação de área. O único poste de iluminação, com seu braço de extensão quebrado era o retrato simbólico daquela desolação. No local, nenhum sinal de vida.
Entrada principal - foto: arq. pessoal
A algodoeira que conheci, que estava instalada na cidade onde vivi, em um tempo que já vai bem distante, era a própria Fazenda Santa Rita das Alagoas mostrada no filme do Cacá Diégues. É triste pensar que é essa a transformação pela qual o nosso país atualmente vem passando. São incontáveis nas cidades brasileiras - em todas por onde tenho passado - os imóveis que se encontram fechados, descuidados, entregues às intempéries, tomados por mato e colocados à venda para compradores que nunca aparecem. Triste o momento de nosso país... triste o momento de nossas cidades... tristes nós mesmos, que passamos a nos perguntar: "e o progresso, para onde foi?" _________________________________ *"Joana Francesa" - Brasil, 1973. Dir. Cacá Diégues **Lobato, Monteiro. Cidades Mortas. Coleção Obras Completas. Ed. Brasiliense: São Paulo, 1951
"Seule" é uma valsa que está na trilha sonora de um filme nacional muito pouco conhecido: "Sol sobre a lama". Produzido na Bahia em 1963, o filme mostra uma tentativa de preservação de um canal que dá acesso a uma feira na cidade de Salvador - a Feira de Água de Meninos*. Ao mesmo tempo retrata a sociedade baiana e seus interesses no final dos anos 50 e início dos anos 60.
Para fazer a trilha sonora, o seu diretor Alex Viany** convidou Pixinguinha e Vinícius de Moraes. Pixinguinha, sozinho, compôs diversas músicas para o filme, fez os arranjos, e dirigiu a gravação. Vinícius de Moraes, por sua vez, colocou letra em cinco delas: "Iemanjá", "Samba fúnebre", "Mundo melhor", "Lamento", e "Seule" - uma valsa, com letra em francês.
Em carta*** a Vinícius, Alex Viany conta que um dia, passeando pela Feira de Água de Meninos, ouviu, vindo de um barraco miserável, uma sensível e sofisticada cancão francesa. Muito provavelmente - conjecturo eu - por parecer tão improvável o estado de miserabilidade encontrar expressão na delicadeza de uma canção, o Alex Viany relatou ao Vinícius e ao Pixinguinha aquele momento que havia vivenciado. E da sensibilidade apurada dos autores nasceu "Seule" - uma dulcíssima e ao mesmo tempo triste valsa.
"Depressão" - autor: HRubiales - pintura acrílica sobre tela
fonte: http://hroficinadeartes.blogspot.com.br/
Sempre que a ouço sinto uma melancolia danada. Sua letra me faz pensar nas mulheres humilhadas, usadas, oprimidas, de que temos notícia todos os dias e que se espalham por esse mundão de meu Deus; sua letra me leva a pensar nas mulheres maltratadas pela vida, sem pais, sem filhos, sem ninguém, mas que, pelo simples fato de serem mulheres e, nessa condição, depositárias de todo amor da humanidade, ainda nutrem a ilusão de encontrar alguém que as faça sorrir e se sentirem amadas.
Seule
Seule, seule
Seule même
dans tes bras
Seule la nuit
Seule le jour
Rêvant un grand amour
Qui ne vient pas
Chante une chanson pour me bercer
Fais-mois, je t'en prie, tout oublier
Embrasse-moi, enlace-moi
Meurt en mon corps ton désarroi
Ah, si tu
savais me faire sourire!
Je pourrais
t'aimer jusqu'au délire
Mais mon
amour
Mon pauvre
amour
Je ne rêve
pas de toi
Sozinha
Sozinha,
sozinha
Sozinha mesmo em teus braços
Sozinha à
noite
Sozinha no
dia
Sonhando com
um grande amor
Que não vem
Cante uma
canção para me iludir
Faça-me, eu
lhe imploro, esquecer tudo
Beije-me, me
abraça
Que morre em
meu corpo sua confusão
Ah, se você
soubesse me fazer sorrir!
Eu poderia
te adorar até a loucura
Mas, meu
amor
Meu pobre
amor
Eu já não sonho
mais com você
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*"Feira de Água de Meninos" - já desaparecida em virtude de um incêndio. Nela, muitos dos feirantes construíam desordenadamente seus barracos e ali moravam.
**Alex Viany - cineasta, roteirista, produtor, jornalista e ator. Como crítico cinematográfico brasileiro, morava nos EUA na época em que Vinícius de Moraes estava no posto de vice-consul em Los Angeles (1947).
***lida por Betina Viany, filha de Alex Viany, no curta "Nós somos um poema" - emhttps://www.youtube.com/watch?v=qLYZi1Giw5Y
("Rancho das Flores" - J.S. Bach/Vinícius de Moraes)
"Mesmo a tristeza está sorrindo
entre as flores da manhã
se abrindo nas cores do céu"
(Vinícius/Ary Barroso - em Rancho das Namoradas)
Sempre que penso nas parcerias musicais do Vinícius de Moraes, de imediato me lembro do Tom Jobim, do Baden Powell, do Toquinho e do Carlinhos Lyra. Claro que há ainda o Pixinguinha, o Ary Barroso, o Antônio Maria, o Cláudio Santoro, o Francis Hime e muitos outros.
Em suas apresentações musicais o Vinícius sempre homenageava aqueles a quem chamava de "Santíssima Trindade": o Tom Jobim, o Baden Powell e o Carlinhos Lyra. O Toquinho - dizia o Vinícius - entrou nessa turma na qualidade de "amém". Mas quando discorria sobre seus parceiros, Vinícius nunca deixava de mencionar o Bach. Sim, o Bach - o Johann Sebastian Bach - aquele compositor barroco alemão, um dos maiores da história da música. Estranho isso? O fato é que em 1716 Bach compôs uma cantata* à qual deu o nome de "Herz und Mund und Tat un Leben" ("Coração e Boca e Ações e Vida"). Catalogada como BWV 147, essa cantata é constituída por dez movimentos. O último deles, o coral, tem o nome de "Jesus Bleibet Meine Freude" ("Jesus alegria dos homens").
JESUS BLEIBET MEINE
FREUDE
Jesus bleibet meine Freude,
Meines Herzens Trost und Saft,
Jesus wehret allem Leide,
Er ist meines Lebens Kraft,
Meiner Augen Lust und Sonne,
Meiner Seele Schatz und Wonne;
Darum lass ich Jesum nicht
Aus dem Herzen und Gesicht.
JESUS
ALEGRIA DOS HOMENS
Jesus
continua sendo minha alegria,
o conforto e
a seiva do meu coração
Jesus
refreia a minha tristeza,
Ele é a
força da minha vida
É o deleite
e o sol dos meus olhos,
O tesouro e
a grande felicidade da minha alma,
Por isso, eu
não deixarei ir Jesus
do meu
coração e da minha presença.
E foi inspirado no Bach que Vinícius de Moraes, mais de dois séculos depois, colocou uma letra nesse último movimento. Você poderia imaginar a respeito do que a letra trataria? Pois veja só. O Vinícius gostava de flores e tinha, em muito do que fazia, as flores como tema. Lembro-me de algumas composições musicais dele mesmo ou em parceria: "As cores de Abril", "Samba da Rosa", "O tempo da flor", "Rancho das Namoradas"; "Flor da noite", "Uma Rosa em minha mão", "Medo de Amar", "A Rosa Desfolhada". Lembro-me também dele falando de flores em "Rua das Acácias" (memórias) e nas belíssimas crônicas "Médico de flores" e "Para uma menina com uma flor" - lembro-me ainda, dentre tantas outras, da "rosa sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada" ("A Rosa de Hiroshima").
Pois não poderia ter sido diferente. Foi justamente falando de flores que nasceu a parceria. Tomando "Jesus Alegria dos Homens" como base, o Vinícius fez nascer a parceria Bach/Vinícius quando compôs "Rancho das Flores" - uma belíssima marcha cuja letra vale a pena ser conhecida. Ei-la:
RANCHO DAS FLORES
(Vinícius de Moraes / J.S. Bach)
Entre as prendas com que a natureza
Alegrou este mundo onde há tanta tristeza
A beleza das flores realça em primeiro lugar
É um milagre de aroma florindo
Mais lindo que todas as graças do ceu
E até mesmo do mar.
Olhem bem para a rosa
Não há mais formosa
É a flor dos amantes
É a rosa-mulher
Que em perfume e em nobreza
Vem antes do cravo
E do lírio e da hortência
E da dália e do bom crisântemo
E até mesmo do puro e gentil malmequer.
E reparem no cravo, o escrevo da rosa
Que é a flor mais cheirosa
De enfeite sutil
E no lírio que causa o delírio da rosa
O martírio da alma da rosa
Que é a flor mais vaidosa e mais prosa
Entre as flores do nosso Brasil.
Abram alas prá dália garbosa
Da cor mais vistosa
Do grande jardim da existência das flores
Tão cheias de cores gentis
E também para a hortência inocente
A flor mais contente
No azul do seu corpo macio e feliz.
Satisfeita da vida
Vem a margarida
Que é a flor preferida dos que tem paixão
E agora é a vez da papoula vermelha
A que dá tanto mel prás abelhas
E alegra este mundo tão triste
No amor que é do meu coração
E agora que temos o bom crisântemo
Seu nome cantemos em verso e em prosa
Porém que não tem a beleza da rosa
Que uma rosa não é só uma flor
Uma rosa é uma rosa, é uma rosa
É a mulher recendendo de amor.
_____________________________________
*Cantata - gênero de composição vocal-instrumental, predominantemente religiosa, em vários movimentos
As cartas e mensagens digitadas me dizem muito menos do que poderiam dizer. Elas me parecem frias, programadas, impessoais - feito cartas de Banco.
Gosto de cartas manuscritas. Ainda escrevo cartas assim. Ainda recebo cartas escritas por pessoas queridas que também as preferem assim. Separo o papel em branco, escolho a caneta e o envelope. Ouço meus pensamentos e deixo-me ir pelas linhas do papel. E depois, fechado o envelope, desprendo-me de mim pelos carimbos do correio. Cartas manuscritas são pessoais, verdadeiras, inteiras, honestas.
"A Carta" - composição de Erasmo Carlos
Sei que já não se trocam cartas assim, manuscritas. Elas não são práticas. Elas parecem não ter o efeito esperado no universo da agilidade e do imediatismo das informações.
Mas eu não gosto de cartas práticas. Não sou muito prático. Gosto daquelas que escancaram a relação do seu autor com o destinatário; gosto daquelas que chegam pedindo tempo e isolamento para serem decifradas. Gosto das que me vêm com a marca da intemporalidade. Uma carta manuscrita rompe as barreiras que se colocam entre o autor e a sua realidade. Ela chega propondo que seja lida além do que suas palavras conseguem dizer.
"Letras impressas são previsíveis e impessoais, transmitindo informações numa transação maquinal com os olhos do leitor. Letras de mão, em contrapartida, resistem aos olhos, revelam seus significados aos poucos e são pessoais como a pele" - compara Ruth Ozeki*.
Cartas - arq. pessoal
Tenho em casa uma sacola onde guardo as cartas manuscritas que recebi desde que passei a escrever cartas. Tenho todas elas. Ainda as releio. Ainda me emociono feito um desequilibrado cada vez que revisito as histórias que elas me contam. Alguns remetentes já se foram. De outros já não tenho notícia. Mas muitos continuam presentes. Observando a legibilidade da escrita, nas cartas que recebo, procuro entender se o remetente quer ou não ser compreendido; a pressão da letra no papel me sugere tensão; a direção nos finais das palavras me falam se a informação está sendo aberta ou contida; a inclinação da escrita me mostra a sociabilidade ou a timidez do autor; e o espaçamento entre as letras indica bons modos de falar e ouvir, autoconfiança... Enfim, uma carta manuscrita traz informações que vão muito além das mensagens enviadas. Da leitura das cartas que recebo, e sem a menor pretensão de parecer bruxo ou adivinho, sinto que é pela escrita à mão que o remetente se deixa despir dos escudos que ocultam suas verdades. A escrita à mão denota autenticidade. E é justamente a cumplicidade nessa autenticidade que gosto de ter para continuar acreditando na franqueza e na sinceridade das relações humanas, que podem ser percebidas nas cartas que são trocadas.
_______________________________
*Ruth Ozeki, escritora canadense nascida nos Estados Unidos, em "A terra inteira e o ceu infinito" - Ed. Casa da Palavra
vencedora, nas vozes de Cybele e Cynara, do FIC - Festival Internacional da Canção de 1968
Aos "turquinhos" de Guará
Com a "revolução" de 1964, sob o pretexto de reorganizar o país, os Comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, e ainda o Presidente da República, com respaldo do então chamado Conselho de Segurança Nacional, passaram a editar "Atos Institucionais". De 1964 a 1969 foram editados dezessete deles: todos colocados hierarquicamente acima das demais leis - acima da Constituição, inclusive. O Ato Institucional nº 2, de outubro de 1965, além de instituir a eleição indireta para Presidente da República, dentre outras disposições, extinguiu os partidos políticos então existentes e deu as diretrizes para a fundação de novos. Logo em seguida foram criados a ARENA* e o MDB**. A ARENA, para dar apoio ao governo militar, e o MDB para maquiar a falta de democracia no Brasil e fantasiar alguma oposição ao regime militar.
Em Guará, com a proximidade das eleições municipais de 1968, as forças tradicionais da cidade se aliaram, seguiram os propósitos do governo chamado revolucionário, e fundaram a ARENA. Por outro lado, um pequeno grupo de idealistas que se reunia no lendário "Bar do Zé Berto" decidiu fazer oposição ao regime instituído, e fundou o diretório municipal do MDB. E foi assim que, para as eleições municipais de 1968, em Guará, ARENA e MDB lançaram seus candidatos - tanto à Câmara Municipal quanto à chefia do Executivo.
Frequentadores do "Bar do Zé Berto", na década de 70 (em seu segundo endereço) foto do arquivo do Dr. Marco Antônio Migliori no facebook
Em virtude do MDB guaraense, naquela eleição, estar sendo apoiado pela maioria dos descendentes de imigrantes árabes na cidade, a sua candidatura ficou apelidada de "ala dos 'turquinhos'" - pois era essa a forma costumeira de se referir aos imigrantes sírio-libaneses e seus descendentes.
Propaganda política do candidato do MDB na eleição municipal de 1968
em Guará/SP - detalhe de foto cedida por Lígia Cavasini
De minha casa, pela rádio AM de Ituverava - comarca onde era procedida a apuração - acompanhei a contagem dos votos. O resultado não causou surpresa alguma: a ARENA saiu vitoriosa, tanto no Executivo quanto na composição da Câmara Municipal. Aos "turquinhos" do MDB, em um universo de cerca de quatro mil eleitores, couberam contados 714 votos para a chefia do Executivo - e apenas um vereador eleito (o saudoso professor Maneco Chaud, que hoje dá nome ao plenário da Câmara Municipal).
Guardo ainda lembranças da noite seguinte à conclusão da apuração dos votos, e do raiar do dia seguinte: minha casa amanheceu literalmente bombardeada por cebolas - um dos símbolos, no Brasil, da culinária árabe -; e o monumento ofertado pelos libaneses à cidade de Guará, na Praça Nove de Julho, repleto de tocos de velas que foram consumidas durante a noite - simbolizando um funeral aos imigrantes sírio-libaneses.
Imigrantes libaneses, em 15/09/63, no descerramento da placa no monumento ofertado pelos Libaneses à Cidade, - foto do arquivo de Náufal Mourani e irmãos -
Monumento à Cidade de Guará, ofertado pelos libaneses - foto: arq. pessoal
reinaugurado em 10/05/08 - Pref. Dr. Marco Aurélio, gestão 2005/2008
Para mim, particularmente, as eleições foram desastrosas: além da chateação pela derrota que eu via latente na expressão de muitos "turquinhos" que conhecia bem e com quem convivia, acabei ficando sem meu cachorro pequinês, sem minha bola de couro, e sem minha bicicleta - furtados que foram naquela noite durante as comemorações dos apoiadores dos candidatos eleitos. E os nossos anos de chumbo estavam apenas começando. Logo depois, em dezembro do mesmo ano, foi editado o Ato Institucional nº 5, em consequência do qual o Presidente da República ganhou poderes para decretar intervenção nos Estados e Municípios, suspender direitos políticos de quaisquer cidadãos, cassar mandatos eletivos em todos os círculos de poder, e, decretando seu recesso, assumir as funções legislativas do Congresso. Jornais foram censurados, livros e obras considerados subversivos foram retirados de circulação. Muitos artistas e intelectuais foram forçados a se exilar no exterior, levando, desde a partida, a esperança de poder voltar - tal como ficou retratado na belíssima letra de "Sábia"***, vencedora do Festival Internacional da Canção daquele ano. Não sei dizer se algum guaraense, forçosamente, teve que deixar o Brasil. Tampouco me aventuro a querer explicar o destino que foi dado ao MDB. Só sei que desde então, até meados da década de 80, passei a ser veladamente aconselhado a evitar o questionamento sobre qualquer assunto que dissesse respeito ao governo do meu país.
___________________________________ *ARENA - Aliança Renovadora Nacional **MDB - Movimento Democrático Brasileiro ***SABIÁ - música composta por Chico Buarque e Tom Jobim
Eis-me aqui, meu amigo, de olho em você, que me aparece bem ao lado direito da tela do meu computador. Sua foto me conta que estás bem. Nela você sorri. Seu sorriso me alegra. Ao lado de sua foto o sinal verde me diz que estás acessível. Sinto-me motivado a enviar-lhe uma mensagem dizendo que estou contente por vê-lo. Detenho-me por um instante. Fico olhando seu rosto sorridente com as marcas dos ensinamentos trazidos pelo tempo:
- "Já não somos mais jovens..." - penso.
Os minutos se sucedem e continuo te olhando. Penso no quanto ficaria contente se subitamente surgisse em minha tela alguma mensagem sua endereçada a mim. Certamente aí onde você se encontra o sinal que indica meu status, ao lado de minha foto, também lhe diz que estou acessível. Apesar de distantes no tempo e no espaço estamos acessíveis um ao outro.
Outros minutos foram consumidos e continuo ansiando por uma manifestação sua, alguma mensagem, qualquer coisa pessoal, que me conte de você, que me fale de seus projetos e de suas aflições... que pergunte de mim...
Esboço no espaço de mensagens a minha saudação: "Olá, como vai?" Ao mesmo tempo me vem o receio de parecer ridículo e inconveniente por puxar papo em um dia útil, por incomodá-lo no seu trabalho. Crescemos juntos. Hoje somos dois senhores amadurecidos, responsáveis e atarefados. Apago o meu rascunho e permanecemos assim, eu e você, acessíveis, sem nada dizermos. Permanecemos "on"... estamos silentes...
Retomo os compromissos do meu trabalho com a intenção de continuar a fazer o que é preciso que seja feito. Mas não consigo parar de pensar no nosso silêncio. - "Estávamos acessíveis... nada dissemos..." - fico pensando.
Nada tínhamos a dizer? Estamos anestesiados? Não nos importa saber o que temos feito de nossas vidas? Houve um tempo em que éramos tão próximos, tão amigos, conversávamos todos os dias...
Sim, há muito o que ser dito e conversado! Decidido a te ler e a te ouvir paro novamente o meu trabalho. Procuro sua foto dentre as muitas outras que me sorriem do lado direito da tela. Quero perguntar de você, falar de mim, de nossas famílias, de nossos amigos, conversar sobre nossos sucessos, expectativas e fracassos... quero rir... quero falar bobagem... Sinto-me alegre ao imaginar o conteúdo de sua resposta à mensagem que ainda nem te enviei.
Não importa, meu amigo - meu velho e querido amigo. Bateu saudade. Tens que me ouvir; tens que me ler. O que estiver fazendo deverá ser interrompido para que possamos nos comunicar instantaneamente. A atenção, o carinho, as histórias comuns são mais importantes que quaisquer outras coisas. Procuro por você novamente no lado direito da tela. Já não te vejo. Já não estás mais ali... já não estás acessível. Perdemos a oportunidade de pelo menos nos cumprimentarmos, de dizermos "olá, como vai? estou aqui!"
Mais uma vez fui consumido pelo receio de estar sendo infantil ao atrapalhar o trabalho de alguém de quem tanto gosto - e que talvez tenha pensado o mesmo em relação a mim; mais uma vez deixei que nos perdêssemos nos elétrons que viajam dentro dos fios metálicos, nas ondas invisíveis que nos (des)conectam pela internet...
Pena Branca e Xavantinho - "Arruda com alecrim" Do álbum "Violas e Canções" - 1993
Para uma amiga
que cuida de um antúrio
Essa história que vou lhes contar aconteceu há muito tempo. Há quase quarenta anos. Deu-se em um lugarejo acanhado, plantado às margens do Sapucaí. Quem a ouve custa crer na sua veracidade. No entanto, a materialidade objetiva do regalo e o depoimento que me foi prestado pelos envolvidos são a prova inequívoca do ocorrido.
Foi em uma pequena estação rodoviária, antes mesmo do dia amanhecer. Ela partia sozinha para a cidade grande levando em sua bagagem o coração do seu namorado. Seu coração ficava com o rapaz, sozinho, na plataforma de partida. Haviam tido uma noite de beijos, abraços e saudades antecipadas. Na escuridão de um pomar, sob o testemunho do luar, olharam para o ceu e prometeram adotar a lua como madrinha daquele amor. De tal forma que, todas as noites, ela lá e ele cá, no mesmo horário, olhariam para a lua na certeza de que, distantes, estariam pensando um no outro.
Na tarde anterior à partida, sentindo antecipadamente o vazio que iria sentir, ele, que era dado a cuidar de plantas e acreditava em suas propriedades espirituais, colheu uma muda do antúrio que juntos haviam plantado no jardim da casa de sua avó. E assim fazendo escolheu criteriosamente um pequeno vaso com sementes de alecrim ainda não germinadas que sua avó havia plantado. E nesse vaso, com a mesma terra que ele continha, inseriu a muda do antúrio.
Red Anthurium - foto em https://br.pinterest.com/pin/250160954273844099/
No momento da despedida, já na plataforma de partida, entregou a ela aquele mimo com um bilhete: "Prá você não se esquecer de mim". Em seguida pediu a ela que cuidasse do antúrio até que pudessem estar juntos todos os dias. Depois beijaram-se. O sol ainda não havia nascido quando acenaram um para o outro, ela da janela do ônibus, ele de pé na plataforma de partida.
Voltaram a se encontrar, lá e cá, depois daquela noite. Ainda puderam, algumas vezes, olhar a lua e regar juntos o vaso com o antúrio. Mas por circunstâncias da vida, da distância e do tempo, cada um seguiu seu destino, viveu novos amores, constituiu sua própria família. Apesar disso não deixaram de manter, veladamente, o interesse pela vida um do outro.
Tenho o privilégio de manter contato frequente com ela e de ter sido dele um grande amigo. Ouvi de ambos o mesmo relato. Conversando com ela há alguns poucos anos, depois das derradeiras homenagens que amigos e familiares prestaram a ele, contou-me ela que continuava cuidando do mesmo antúrio; que a planta, como que por magia, sempre acompanhava o estado da saúde debilitada que ele, em vida, tinha: resplandecia e encantava nos bons tempos; debilitava-se e deprimia-se de quando em vez.
"O antúrio" - foto colhida no facebook
Foi então que percebi todo sentido na escolha que ele havia feito. Não por acaso o vaso com sementes de alecrim fora escolhido. Acreditando no favorecimento das atividades mentais e espirituais que o alecrim poderia proporcionar, ele queria que ela jamais o esquecesse.
Recentemente eu a revi em casa de amigos. Dentre as muitas coisas que conversamos contou-me ela que, depois de uma longa fase ruim, o antúrio renasceu e está lindo! E que, quanto a ela - segredou-me muito particularmente -, jamais o esqueceu.