sexta-feira, 22 de junho de 2018

A RÚSSIA, EM CARTÕES-POSTAIS



RÚSSIA. MOSCOU. PRAÇA VERMELHA. Catedral São Basílio e Monumento a Kizma e Pozharsky
Moscou, Praça Vermelha. Catedral de São Basílio
Cartão que me foi enviado por Dasha , colecionadora residente em Kazan, Rússia


     Com o início dos jogos da Copa do Mundo, a Rússia passou a ser o alvo das atenções do mundo todo; não somente pelas partidas que lá estão sendo realizadas, mas principalmente pela Copa representar a utopia da convivência harmônica entre os povos das diferentes nações. Assim, usos, costumes, história, tudo o que possa trazer a Rússia para perto de nós é veiculado pelos meios de comunicação, como forma de convite para que possamos conhecer o país anfitrião.


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(ASSISTIR DEPOIS DA LEITURA)

"Moscow nights"
https://www.youtube.com/watch?v=QHGEZXdECvg


     Se me perguntassem o que me vem à mente quando o nome do país, "Rússia", é pronunciado, eu logo responderia, e sem pensar duas vezes: neve, Dr. Jivago, Revolução de 1917, Gulag, Soljenitsin, encouraçado Potemkin, Rasputin, Nicolau II, cossacos, czares, Dostoievsky, Tolstói, vodka, igreja de sangue.

     Nos últimos três anos, e cada vez com maior intensidade, a Rússia, por acaso do destino, passou a aproximar-se de mim. Explico: decidido a diminuir minha ignorância em relação ao nosso planeta, cadastrei-me em um grupo, espalhado pelo mundo, de colecionadores de cartões-postais*. Meu objetivo era de, por intermédio deles, dos cartões-postais, sentir-me estimulado a ler, estudar e conhecer as características de outros países, seus prédios históricos, seus valores, seu povo e tudo o que os identifica. E tem sido muitos os cartões-postais que venho recebendo de diversos países espalhados pelo mundo todo.


Cartões-Postais - foto: arq. pessoal

     Mas, foram os colecionadores da Rússia que passaram a ser os mais frequentes remetentes de cartões-postais para o meu endereço.

    Assim, por intermédio de cartões-postais, sem nunca ter ido à Rússia, tenho percorrido o país – em especial as cidades de Moscou e São Petersburgo.

     Pela cidade de São Petersburgo passei a ter um carinho muito especial. Isso porque são maravilhosos os cartões-postais que tenho recebido de lá. Na cidade, às margens do Rio Neva, está o Palácio de Inverno** - a residência oficial dos antigos czares, onde hoje está instalado o Museu Hermitage. Gosto também de receber cartões-postais dessa cidade porque, nesse mesmo rio (o Neva) está ancorado o Cruzador Aurora: o navio que, com uma salva de tiros em direção ao Palácio de Inverno, deu o sinal para o início da Revolução Bolchevique de 1917, quando, então, a cidade chamava-se Petrogrado. Hoje, esse navio é museu e patrimônio histórico de São Petersburgo.


O CRUZADOR AURORA - patrimônio histórico de St. Petersburg. Lançado ao mar em 1900. Deu o sinal para o início da revolução bolchevique/1917 com salva de tiros contra o palácio de inverno em Petrogrado. Atracado no Rio Neva.
"O Cruzador Aurora" - cartão postal que me foi enviado por Natalya, colecionadora residente em São Petersburgo

     Mas há uma cidade, na região dos Montes Urais, chamada EKATERIMBURGO, que estou gostando de estar conhecendo por intermédio de postais. Acho que isso tem acontecido por causa do semblante de Nicolau II, o último czar, que, para mim, em fotos e pinturas, parece um senhor sereno e introspectivo. Claro, essa percepção é muito pessoal... mas fico comparando a maneira como ele foi fotografado e pintado, com o  destino que sua vida teve...


Retrato do último czar da Rússia, Nicolau II, pintado por Ilya Galkin.
Retrato de Nicolau II, pintado por Ilya Galkin
fonte: https://rainhastragicas.com/2015/06/23/bomba-os-romanov-podem-voltar-para-a-russia/

     Por intermédio dos cartões-postais que recebi, fiquei sabendo que Nicolau II, juntamente com sua esposa e seus cinco filhos, foram levados e executados na cidade de Ekaterimburgo. No local onde essa execução aconteceu, uma igreja foi edificada: a chamada “Igreja de Sangue”. Essa igreja, inaugurada no ano 2000, foi erguida em memória de Nicolau II e de sua família: os Romanov***.

     Bom, todo essa minha conversa é para dizer que, com a Copa do Mundo acontecendo, e tendo conhecido a história dos Romanov****, tenho mantido a esperança de receber um cartão-postal, de algum colecionador residente em Ekaterimburgo, ou em qualquer outra cidade da Rússia, que traga uma foto da igreja que foi edificada em memória de Nicolau II e sua família. Quando isso acontecer, prometo mostrar a todos. 

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*Cadastro no site http://www.postcrossing.com
**Palácio de Inverno" - residência oficial dos czares,em São Petersburgo, onde hoje está o Museu Hermitage.
***Em 1981, tanto Nicolau II quanto sua esposa e filhos, foram canonizados pela igreja ortodoxa russa.
****Para conhecer a história dos Romanov, recomendo o seguinte filme: "Os Romanov: uma família imperial" (Rússia, 2000. Dir.: Gleb Panfilov)

sábado, 16 de junho de 2018

"ZINGARO" (ou "RETRATO EM BRANCO E PRETO")


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"Zingaro"(Tom/Chico) - Chet Baker - do documentário "Let's Get Lost"
https://www.youtube.com/watch?v=1K7Ma6PxVxM

     Há alguns anos assisti a um documentário feito para a televisão francesa*. Nele, o Brasil, ambientado no Rio, é mostrado, desde em estado de extrema virgindade, até o limite da violência desumana. Narrado, traz depoimentos de Chico Buarque de Hollanda sobre as condições sociais e políticas no Brasil, as quais são mostradas pela sua trajetória musical. A abertura do documentário é encantadora: em preto e branco, o Rio é mostrado como uma terra virgem, ainda a ser descoberta... A alegria e a beleza do país estão ilustradas por uma mulher de cabelos longos e soltos, que dança e sorri, com naturalidade, nas areias da praia, e se molha, nas águas do mar, esbanjando liberdade e sensualidade... É a perfeita ilustração de um país nascido sob a marca da delicadeza... mas que se transformou.

     Assisti também, há pouco, a um documentário sobre Chet Baker**. Esse documentário me chamou a atenção***, em especial pela semelhança de uma cena com o documentário sobre o Brasil. Nela, um grupo de jovens  dança e canta nas areias de uma praia da Califórnia (EUA). A ideia que ela nos traz, é, também, de liberdade. No entanto, ao contrário da sensualidade feminina, o embalo desses jovens parece estimulado por substâncias de efeitos alucinógenos. Nesse vídeo, o que se mostra é a trajetória pessoal e artística de Chet Baker: do admirável Chet Baker!


Let's Get Lost [VHS]
https://www.amazon.com/Lets-Get-Lost-Chet-Baker/dp/630165076X


   Ao pensar a respeito dos dois documentários, percebi que a delicadeza da bossa nova, do início dos anos 60, ficou equiparada ao cool jazz desenvolvido pelo Chet Baker, nos Estados Unidos; e que a violência do Brasil de hoje, tem o seu paralelo, em imagens, nas consequências do vício estampado na face e no final da vida de Chet Baker****. 

     Em ambos os documentários, a música que ilustra as cenas iniciais, feitas na praia, é a mesma: "Zingaro".

     "Zingaro", que em português significa "cigano", foi composta por Tom Jobim em 1965*****. Recebeu esse nome porque o Tom Jobim, então vivendo nos Estados Unidos, e conforme contado no livro "Histórias de Canções"******, sentia-se como um cigano. "Zingaro" nasceu como música instrumental. Chico Buarque deu a ela uma letra e a gravou, em 1968, em seu álbum "Chico Buarque de Hollanda (vol.3)", com o título "Retrato em Branco e Preto": ..."Retrato em Branco e Preto"... a lindíssima "Retrato em Branco e Preto", que foi a primeira música resultante da parceria de Tom Jobim com Chico Buarque de Hollanda... e que desdobrou-se em tantas outras...

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Chico ou o País da Delicadeza Perdida - introdução
Video Filmes, 1989 - Dir. Walter Salles
https://www.youtube.com/watch?v=vWw-Pkm1ltg

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*"Chico ou o País da Delicadeza Perdida" (Brasil/França. Videofilmes, 1989. Dir. Walter Salles e Nelson Motta) 
**Chet Baker (1929-1988) foi um trompetista e cantor de jazz norte-americano.
***"Let's get lost" é um documentário sobre a vida do trompetista Chet Baker (EUA, 1988. Dir. Bruce Weber) 
****Chet Baker foi encontrado morto, em uma calçada da cidade de Amsterdã, na Holanda.
*****Zingaro (cigano) foi lançada por Tom Jobim, em 1967, em seu álbum "A Certain Mr. Jobim".
******HOMEM, Wagner. "Chico Buarque - Histórias de canções" - São Paulo, Leya: 2009

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A NOITE DE ENCERRAMENTO DA 18ª FEIRA DO LIVRO DE RIBEIRÃO PRETO-SP


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Verônica Ferriani - "Rosa"(Pixinguinha)

     Nenhum outro artista que tivesse vindo encerrar a 18ª Feira do Livro, de Ribeirão Preto, teria levado tanto charme, encanto e talento, ao palco do Teatro Pedro II, como fez a Verônica Ferriani. A Verônica esteve, simplesmente, impecável.


Verônica Ferriani, no encerramento da 18ª Feira do Livro
27/05/18, Teatro Pedro II, Ribeirão Preto, SP (foto: Carlinhos)

     Acompanhada de uma banda maravilhosa, ela passeou com beleza e muita delicadeza por "What will be, will be", "'S wonderful", "Chega de saudade"... Certamente agradou a todos os que têm bom gosto. Fez um maravilhoso "pout-pourri" de boleros, outro de sambas... Levou a plateia à Espanha, com nada mais, nada menos do que "Granada"... Meus parabéns a ela. Adorei. Se por acaso a virem, digam a ela que "La vie en Rose" foi ótima; que "Fly me to the moon" foi perfeita... que o repertório foi fantástico, de altíssimo nível e bom gosto. Showzaço! Elegante, bonita, charmosa, simpática... ela encantou! Parabéns à organização da Feira do Livro por ter trazido a Verônica para nos proporcionar uma noite musical memorável. Gostei muito!

sábado, 19 de maio de 2018

O PRÉDIO DA ANTIGA ESTAÇÃO DA ESTRADA DE FERRO, EM ARAGUARI (MG)


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"Ponta de Areia" (Milton Nascimento) - Milton Nascimento e Nana Caymmi
https://www.youtube.com/watch?v=Bj86K1SLMDk

     Gosto dos prédios das antigas estações de trem. Eles são referências inspiradoras. Eles guardam histórias que têm sido esquecidas. Destruí-los é jogar fora os alicerces do que hoje somos....

Prédio da Prefeitura Municipal de Araguari, MG
("Conjunto Arquitetônico e Paisagístico da antiga Estação da Estrada de Ferro Goiás")
foto: arq. pessoal - 2010

     Outro dia fui a Araguari, cidade mineira, que, no passado, foi entroncamento de três importantes ferrovias: a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro (CMEF), a Estrada de Ferro Goiás (EFG), e a Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM). Ao ver o prédio da antiga estação da EFGoiás, no alto da cidade, lembrei-me do caso dos "Irmãos Naves"*, um dos maiores erros judiciários ocorridos no Brasil, das cenas do filme a respeito desse caso que foram rodadas em uma plataforma de estação de trem; lembrei-me também, e em especial, do Marechal Rondon: foi em Araguari que, em 1900, o então jovem oficial do Exército, Cândido Mariano da Silva Rondon, vindo de trem, do Rio de Janeiro, desembarcou, com a missão de comandar a implantação da linha telegráfica no Estado de Mato Grosso. Foi dali, portanto, de Araguari, que Rondon iniciou a marcha através de Goiás, rumo a um Brasil até então praticamente virgem, com a árdua tarefa de interligar, pelo telégrafo, a costa do País à região Centro-Oeste**.

     Sempre que vou a Araguari e passo em frente à antiga estação da EFGoiás, penso nas histórias que li a respeito do Marechal Rondon. Ao olhar aquele prédio de estação, fico com a sensação fantasiosa de que o Brasil está começando a ser reconstruído; agora, não mais pelo telégrafo, mas pelos exemplos do Rondon e pela disposição, nesse sentido, de todo o povo brasileiro - a começar pelo povo de Araguari.

     Como se não bastasse a restauração do prédio, o carinho que a cidade vem dedicando a ele é exemplar. De volta à cidade, em uma ocasião festiva, o prédio esbanjava beleza... e eu fiquei ali, naquela noite, por mais de hora, parado diante dele, simplesmente contemplando o seu contorno enfeitado de luzes...



"O prédio da antiga Estação da Estrada de Ferro Goiás"
Foto: arq. pessoal (2010)

     O prédio da estação ferroviária da antiga Estrada de Ferro Goiás, em Araguari, é uma fonte de inspiração. Restaurado, ele preserva, em sua beleza e em suas estruturas, histórias do nosso País e de nossos pioneiros - que têm sido esquecidos...

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*"O caso dos Irmãos Naves" (Brasil, 1967. Dir.: Luis Sérgio Person) - filme a respeito de um grave erro judiciário ocorrido na cidade de Araguari/MG, baseado no livro de João Alamy Filho ("O Caso dos Irmãos Naves: o erro judiciário de Araguari. São Paulo, Círculo do Livro)
**Para saber mais sobre o Rondon, ótimo livro a ser lido: "Rondon: o marechal da floresta" / por Todd A. Diacon: tradução Laura Teixeira Motta; coordenação Élio Gaspari e Lília M. Schwarcz - São Paulo: Companhia das Letras, 2006 (Coleção "Perfis Brasileiros")

terça-feira, 24 de abril de 2018

OS MEUS LIVROS


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Waltz in A minor - Frederic Chopin
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=Smqj_z04i4A&list=RDSmqj_z04i4A

Entro em minha sala de trabalho. Lado a lado estão eles. Todos dispostos a dialogar comigo, uma vez, outra.... quantas vezes mais eu quiser. Pacientemente, incansavelmente, eles me esperam... Nada me cobram, nada me exigem... Anseio por abri-los, um a um, e aceitar deles a proposta que me fazem, para que eu vá além do vazio.



Foto: arq. pessoal

Comprometido com as tarefas do cotidiano, vou adiando... No entanto, a sensação de estar acompanhado das ideias neles contidas, e que me convidam a serem revistas e debatidas, é a mais confortante evidência de que não ando só: estou com os meus livros!


Biblioteca da Assembléia Nacional da França
Foto: arq. pessoal

sábado, 21 de abril de 2018

POBRE DO CANTOR...


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"Pobre del cantor" (Pablo Milanés) - Ruy e Miltinho, do MPB-4 com Bebeto Castilho, no baixo
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=cdl6IAB-4IY&list=RDMMcdl6IAB-4IY

Pobre do cantor de mensagens vazias...
pobre do cantor cujos trabalhos nada acrescentam...
pobre do cantor que, querendo ser árvore, nunca conheceu a semente.

Pobre do cantor que se rende e se desfaz em função do mercado...
pobre do cantor cujo canto nasceu para ser esquecido...
pobre do cantor que, subindo ao palco, empobrece a plateia...

Pobre do cantor de canções descartáveis...
pobre do cantor que, antes de cantar,
não ouviu o recado do Pablo Milanés,
cantado pelo Ruy e pelo Miltinho:


assim tivesse feito, teria pensado melhor antes de macular sua própria biografia... e a música brasileira, atual, não estaria dominada por tanta coisa ruim...



Pobre Del Cantor
(Pablo Milanés)

Pobre del cantor de nuestros días
Que no arriesgue su cuerda por no arriesgar su vida.
Pobre del cantor que nunca sepa
Que fuimos la semilla y hoy somos esta vida.

Pobre del cantor que un día la historia
Lo borre sin la gloria de haber tocado espinas.
Pobre del cantor que fue marcado
Para sufrir un poco y hoy está derrotado.

Pobre del cantor que a sus informes
Les borren hasta el nombre con copias asesinas.
Pobre del cantor que no se alce
Y siga hacia adelante con más canto y más vida.

Pobre del cantor que no halle el modo
De tener bien seguro su proceder con todos.
Pobre del cantor que no se imponga
Con su canción de gloria, con embarres y lodos.
Pobre Do Cantor


Pobre do cantor de nossos dias
Que não arrisque sua corda para não arriscar sua vida
Pobre do cantor que nunca sabe
Que fomos a semente e hoje estamos nesta vida

Pobre do cantor que um dia a história
O apague sem a glória de ter tocado espinhos
Pobre do cantor que foi marcado
Para sofrer um pouco e agora está derrotado

Pobre do cantor que a seus relatos
Apagaram até o nome com cópias assassinas
Pobre do cantor que não se eleve
E siga adiante com mais canto e mais vida

Pobre do cantor que não encontra o modo
De ter bem seguro seu proceder com todos
Pobre do cantor que não se imponha
Com sua canção de glória, com lamas e barros

sábado, 14 de abril de 2018

CÁSSIA E LEANDRO


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Chico Buarque, dele e Dominguinhos, "Tantas Palavras" (1983)
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=ivTTa-6nCpI

     Cássia e Leandro estão casados há muito tempo. Há mais de trinta anos. Tiveram um casal de filhos - ambos, hoje, maiores, casados e  graduados. Cássia e Leandro residem em um condomínio fechado, em uma casa com piscina e churrasqueira, em um bairro muito bonito na cidade. Sempre trabalharam muito, lutaram para conseguir tudo o que hoje, merecidamente, têm. Sempre deram aos filhos o que de melhor havia para ajudá-los a ter uma formação sólida e humanista. Era bonito ver a família reunida, a relação amorosa, a leveza de trato de um para com o outro, os diálogos à mesa nas reuniões com amigos...

     Depois que os filhos saíram de casa e foram para a universidade, Cássia e Leandro se viram sós naquela casa enorme. Para tentarem amenizar a saudade e a ausência dos filhos, eles se empanturraram de tecnologia: instalaram um televisor em cada cômodo da casa, adquiriram lap tops, iphones, sensores de luz e de som, enfim, toda espécie de aparelho proposto na mídia pelos profissionais do marketing. Sem os filhos junto deles, ao retornarem do trabalho sentavam-se, perdidos, no sofá da sala, ligavam o televisor, e assim permaneciam, um ao lado do outro, ouvindo os telejornais e os comentários políticos, enquanto faziam joguinhos no iphone até adormecerem - muitas vezes no próprio sofá. Eu mesmo ouvi deles essa confissão, em telefonemas que fiz ao Leandro em horários além dos convencionais...

     Há alguns anos reencontrei o Leandro em um café. Conversamos muito. Ele me falou dos filhos que estavam longe, que, com eles, trocava mensagens via whatsapp, e que eles estavam muito bem em suas respectivas profissões. Relembramos histórias, falamos de amigos, conversamos bastante. Contudo, como nunca havia acontecido antes, ouvi dele a queixa de que, entre ele e Cássia, o diálogo havia desaparecido; que pouco conversavam, que já não tinham assunto interessante, que, enfim, apesar dos anos de casamento, pareciam dois estranhos dentro de casa.

     Pelo fato de Leandro e Cássia terem sido sempre bons companheiros um do outro, muito alegres, ativos, cheios de vida, de palavras e de ideias, a notícia me incomodou.

     Passado algum tempo desde aquele nosso último encontro, revi o Leandro, no ano passado, na festa de aniversário dos seus 65 anos de vida. Depois de cumprimentá-lo, conversamos, falamos dos filhos, do trabalho, da família, e ainda combinamos nos visitarmos com maior frequência. Seu convite, no entanto, veio com uma observação: "não temos mais, em casa, televisores, lap tops, forno micro ondas, máquina de café, ou quaisquer outros aparelhos que funcionem ligados na tomada - a não ser três aparelhos de ar condicionado". E continuou: "Fomos assaltados em um começo de tarde; levaram de casa todos os aparelhos eletrônicos". Contou-me, por fim, que desde o assalto, sem os aparelhos que tinham, ele e Cássia passaram a ficar juntos, à noite, na sala de estar ou na varanda da casa, lendo e comentando, um com o outro, trechos das leituras que passaram a fazer. Que, inspirados por tais leituras e comentários, reencontraram as palavras, voltaram a dialogar, retomaram um estilo de vida que havia sido abandonado por eles.


Illustration of a husband and wife talking intently while they write down notes on pads of paper.
https://www.focusonthefamily.com/marriage/communication-and-conflict/when-talking-doesnt-come-easily

     Ao pensar na história do assalto, a impressão que me vem é de que a Cássia e o Leandro foram "recuperados" por um ladrão que, levando deles tudo o que os estava distanciando, trouxe a eles, de presente, a possibilidade de uma reaproximação pelas palavras, pelo diálogo - coisa que aparelho eletrônico nenhum consegue fazer. Torço, então, para que meus amigos, Cássia e Leandro, continuem lendo juntos, conversando, dialogando, saboreando e pronunciando as palavras redescobertas... e que resistam à tentação de adquirirem aparelhos eletrônicos, além dos estritamente necessários.   

terça-feira, 13 de março de 2018

FOTOSSÍNTESE


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Caetano Veloso, dele, "Luz do sol")
https://www.youtube.com/watch?v=mdnK48uUNrs


     Ainda na época do ginásio, o professor de Biologia procurava todos os meios, dava exemplos, fazia desenhos e ilustrações para explicar a "fotossíntese". Dizia ele: "fotossíntese é a síntese que usa luz. É a coisa mais linda e necessária que há na vida". E completava: "as plantas respiram, e na sua respiração libertam algumas substâncias de que não necessitam. Uma delas é o oxigênio - que é um gás fundamental para a respiração de todos os seres vivos". A fotossíntese, portanto, é isso - resumia ele: "é a respiração das plantas que, com a luz solar, libera oxigênio". 


alimentação das plantas
"Fotossíntese"
fonte: https://www.gpabrasil.com.br/meio-ambiente/como-as-plantas-se-alimentam/


     Naquelas aulas eu ficava olhando os desenhos que o professor fazia, decorava as palavras de sua explicação, e só conseguia ficar pensando nas viagens que a água e os sais minerais faziam pelo caule das plantas. Por mais simples que pudesse parecer, para um ginasiano limitado em Biologia, como eu sempre fui, entender isso era um enorme sacrifício. 

     Foi só alguns anos mais tarde, ouvindo o Caetano Veloso cantar "Luz do Sol"*, que, por uma imagem poética - e não química - consegui entender e me maravilhar com a fotossíntese. E, volta e meia, por mais ignorante em química que eu possa ser, com muita frequência ainda fico pensando na respiração das plantas. Não é para menos. Na letra de "Luz do Sol", a bela descrição:

"Luz do sol
que a folha traga e traduz,
em verde novo,
em folha, em graça, em vida, em força, e em luz"

     - Há alguma explicação melhor?

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*"Luz do Sol" (Caetano Veloso) - feita para trilha sonora do filme "Índia, a filha do sol" (Dir. Fábio Barreto, 1982)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O FERRIANI (E OS NOVOS DESAFIOS)


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"Manhã de Carnaval" (Luiz Bonfá/Antônio Maria) - Verônica Ferriani


     Fundada no Rio de Janeiro, em 1896, a "Academia Brasileira de Letras" (ABL) tem por fim a cultura da língua e da literatura nacional. Assim como a ABL, e com os mesmos objetivos, em 1947 foi fundada, em Ribeirão Preto, a "Academia Ribeirãopretana de Letras" (ARL).

     No início desta semana, a ARL realizou uma cerimônia para dar posse à diretoria eleita para o biênio 2018/2019. Estive lá.


Convite

     Ao receber o convite para a cerimônia, fiquei muito feliz em ver que a diretoria que seria empossada teria como presidente o Ferriani: Carlos Roberto Ferriani.

     Conheci o Ferriani, há mais de quinze anos, em uma reunião festiva do Rotary Club. De lá para cá, além dos assuntos ligados ao Rotary, sempre que nos vemos nos abraçamos e conversamos sobre família, música, literatura, e o cotidiano da vida. Volta e meia nos reunimos para tocar violão - e, mais recentemente, para também sonharmos com a montagem de uma banda: a ideia é, em reuniões de amigos, nós nos divertirmos, cantarmos, declamarmos e celebrarmos o trabalho musical e literário do Vinícius de Moraes.

 Ferriani e Flávia - foto: arq. pessoal

     Gosto de me encontrar com o Ferriani e com a Flávia, sua esposa. Sempre sorridentes, demonstram um enorme carinho por mim e pela Denise, minha esposa. Quando nos vemos, tento retribuir os gestos de amizade com a mesma intensidade que a mim, por eles, são dedicados. No entanto, nunca consigo ir além do meu jeito contido e angustiado de ser. Mas sei que eles me compreendem...

     O Ferriani, além de médico e músico, também é escritor. São de sua autoria os seguintes livros: "... Antes mesmo do sonho - tempos poéticos" (poesias, 2009), "Fragmentos de uma vida" (ficção-romance, 2010), e "Rimas.COM.CR" (poesias e fatos do cotidiano brasileiro, 2014).

"Fragmentos de uma vida" - capa do livro (Ed. do Autor, 2011)

     Pela enorme boa vontade, fé, entusiasmo e dedicação que emprega em tudo o que se propõe a fazer, estou certo de que a gestão do Ferriani na ARL vai ser um tremendo sucesso - só não sei dizer se o mesmo vai ocorrer com a banda, que sonhamos montar.

     Parabéns ao Ferriani! E, em especial, parabéns à ARL pela bela escolha de seu novo Presidente: "Sucesso!"

Carlos Roberto Ferriani - discurso de posse na ARL - foto: arq. pessoal

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

QUERO A VIDA SEMPRE ASSIM...


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João Gilberto - "Corcovado" - Tom Jobim
https://www.youtube.com/watch?v=FCcGSSe64Ng



"Quero a vida sempre assim,
com você perto de mim,
até o apagar da velha chama (...)"


Um cantinho, um violão - foto: acervo. pessoal (fev/18)