domingo, 10 de março de 2019

ELISA


Passeio ou Mulher com Sombrinha, Claude Monet
"Mulher com sombrinha", ou "O Passeio" - (1875) - Claude Monet (1840-1926)
https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/almoco-dos-remadores-pierre-auguste-renoir/


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"Für Elise" (1810) - Beethoven (1770-1827) - Georgii Cherkin (piano)
"Classic FM Orchesta" - Grigor Parikalov (conductor);
https://www.youtube.com/watch?v=e4d0LOuP4Uw

Elisa... Fico me perguntando se a musa do compositor de fato existiu... Fico imaginando como ela poderia ter sido... Teria sido extrovertida, de pele clara, cabelos longos? Ou será que era circunspecta, ruiva, cabelos curtos? Será que, em tardes de sol, Elisa gostava de caminhar por jardins floridos? Será que, após o jantar, Elisa sentava-se em uma poltrona de sala para ouvir acordes de piano? Quando será que Elisa sentiu que, por ela, pulsava um coração? Ou será que passou a vida toda sem ter tido esse privilégio? Será que, algum dia, o compositor conversou com Elisa? Ou será que entre ela e ele houve, apenas, uma troca de olhares - ou nem isso? Será que, algum dia, Elisa sentiu-se grata? Será que, algum dia, ela expressou a ele sua gratidão? Ou será que Elisa simplesmente dirigiu ao compositor palavras desprovidas de sentimento? Não sei, nunca vou saber. Procuro pela imagem de Elisa, pelo seu jeito de sorrir, pelo tom de sua voz, mas não consigo identificá-los. Será que Elisa soube que, um dia, um compositor debruçou-se sobre um pentagrama e a imortalizou? Não sei... Só sei que alguém, que supostamente chamava-se Elisa, foi a inspiração de Beethoven em uma de suas mais belas e conhecidas peças: "Para Elisa". Mas... pensando melhor, será que era mesmo Elisa o nome da musa? Ou teria sido Thérèse...? Ou, ainda, será que Elisa de fato existiu no mundo real? ou será que teve vida apenas na imaginação do compositor?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ANTÔNIO MARIA: O MENINO GRANDE



antonio-maria
Antônio Maria (1921-1964)
Fonte: http://culturafm.cmais.com.br/diario-da-manha/musica-escrita-e-boemia-estiveram-na-historia-de-antonio-maria


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Nora Ney - "Menino Grande" (Antônio Maria)
https://www.youtube.com/watch?v=SBzfQT7reok&list=RDSBzfQT7reok&start_radio=1


     Pernambucano, Antônio Maria chegou ao Rio de Janeiro em 1940. Tinha 19 anos de idade. Foi locutor esportivo, trabalhou em rádio, jornais, revistas... Foi cronista e colunista social. Era muito amigo de Fernando Lobo, Dorival Caymmi, Rubem Braga e outros brasileiros notáveis. Viveu uma vida muito desregrada. Ao mesmo tempo, era muito querido. Falava de amores e da angústia de viver. Foi um ser humano talentoso e sedutor. Esteve sempre rodeado de mulheres. Contudo, vivia tomado por um sentimento de profunda solidão. Emocionalmente desamparado, era carente de afetos, alto e gordo. Sofria muito com os empréstimos financeiros que contraía - e não conseguia pagar. Em um diário* que escreveu por alguns meses, em 1957, anotou:

"estou gordo",

"vou morrer cedo",

"minha casa é feia",

"me sinto só",

"preciso de alguém mais forte";

"eu não estava nervoso... e sim bêbado, sem nenhuma infelicidade especial";

"sou um cronista, nada mais que um cronista frívolo";

"bebi um pouco, mas não cheguei a sentir nada de melhor".

     Como se todo esse perfil auto-depreciativo já não bastasse, também anotou em seu diário:

"Mariinha anda triste. Tenho a impressão de que ser minha mulher acaba com a vida de uma pessoa".

     "Valsa de uma cidade" e "Canção da volta" foram compostas por ele, em parceria com Ismael Neto; "Manhã de Carnaval" e "Samba de Orfeu", em parceria com Luiz Bonfá; "As suas mãos" e "Se eu morresse amanhã", com Pernambuco; "Preconceito" e "Ninguém me ama", com Fernando Lobo. Com Vinícius de Moraes compôs "Quando tu passas por mim" e "Dobrado de amor a São Paulo".

     A carência afetiva de Maria era tão grande que, um dia, compôs um samba-canção com traços de "cantiga de ninar". Ele queria que esse samba-canção fosse cantado para ele mesmo. E, assim, "Menino grande", cuja primeira gravação foi feita por sua amiga Nora Ney, expõe, além de sua fragilidade, a necessidade de carinho e proteção que sempre sentiu.

     Boêmio e brigão, sua angústia de viver terminou numa madrugada do ano de 1964, em uma calçada do bairro de Copacabana, no Rio. Vítima de um ataque cardíaco, Antônio Maria foi dormir seu sono de menino grande: tinha, então, 43 anos de idade.

     Gosto do Antônio Maria. Gosto de sua figura simpática, desencontrada e desregrada. Leio tudo o que escrevem a seu respeito**. Gosto de saber que seres assim, inteiros e honestos consigo mesmos, passaram por aqui e deixaram escancaradas suas histórias de amor e de sofrimento; mas que, ao mesmo tempo, muito nos ensinaram com suas histórias de lutas, de conquistas e de fidelidade às suas próprias verdades.


Menino Grande
(Antônio Maria)

Eu gosto tanto do carinho que ele me faz
Faz tanto bem o beijo que ele me traz
As horas passam, ligeiras, felizes
Sem a gente sentir
Ele está ao meu lado, com o corpo cansado
Precisa dormir.

Dorme, menino grande
Que eu estou perto de ti
Sonha o que bem quiseres
Que eu não sairei daqui

Oh vento, não faça barulho
Meu amor está dormindo
E o mar, não bata com força
Porque ele está dormindo

Dorme, menino grande
Que eu estou perto de ti
Sonha o que bem quiseres
Que eu não sairei daqui

_________________________________ 
*Maria, Antônio. O diário de Antônio Maria: apresentação de Joaquim Ferreira dos Santos. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002
**Em especial, admiro o trabalho feito pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, que vem organizando e publicando as crônicas e as histórias de Antônio Maria.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

ORFEU E EURÍDICE




Vaso grego (detalhe) (aprox. 450 a.C.) - "Orfeu tocando sua harpa" 
https://user.phil.hhu.de/~holtei/surprise/popups/January07.htm


"Vai tua vida, pássaro contente,
vai tua vida, que eu estarei contigo"
(Monólogo de Orfeu - Vinícius de Moraes)


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"Valsa de Eurídice" (Vinícius de Moraes) - Baden Powell
https://www.youtube.com/watch?v=S6q9OldVVgg


     Em um dos 15 livros de "Metamorfoses", Publius Ovidius Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C./17 d.C), narra o mito de Orfeu. Na mitologia grega, Orfeu, um poeta muito talentoso, ganhara de seu pai uma lira e tornara-se um músico dedicado. Quando ele a tocava, as pessoas, os animais e a natureza ficavam encantados, apaziguados e fascinados com sua melodia. Perdidamente apaixonado, Orfeu estava prestes a se casar. No entanto, uma picada de serpente ocasionou a morte de sua noiva, Eurídice. Orfeu, então, desceu ao mundo dos mortos para tentar resgatá-la. Hades, deus dos mortos, e Perséfone, sua esposa, comovidos com a história e extasiados com o som da lira de Orfeu, decidiram atendê-lo, mas com uma condição: que ele não olhasse para ela até que chegassem ao mundo superior. Mas Orfeu não resistiu e, no caminho, olhou para Eurídice. Consequentemente, pela desobediência, Eurídice foi levada de volta ao mundo dos mortos.

     Inspirado nessa narrativa, em 1954 Vinícius de Moraes escreveu a peça "Orfeu da Conceição", na qual transpôs o mito de Orfeu para a favela carioca.


cartaz 1
Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/teatro/orfeu-da-conceicao

     Em "Orfeu da Conceição", todas as personagens normalmente são representadas por atores da raça negra; o instrumento é o violão, e não a lira. Com cenários de Oscar Niemeyer, Vinícius de Moraes escreveu as letras das músicas para a peça, que estreou no Rio de Janeiro em 1956, e Antônio Carlos Jobim as musicou. Na trilha sonora estavam: Ouverture; Monólogo de Orfeu; Um nome de mulher; Se todos fossem iguais a você; Mulher, sempre mulher; Eu e o meu amor; Lamento no morro.

     "Ouverture", que, na abertura da peça, corresponde à apresentação dos temas das principais personagens, foi feita sobre a "Valsa de Eurídice", a qual, quando composta pelo Vinícius, tinha uma outra finalidade: servir de presente para sua filha, Suzana de Moraes, que bacharelava no ginásio*.

     Na peça, Orfeu assim se despediu de Eurídice, sua amada, quando ela o deixa para rever sua mãe:

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"Monólogo de Orfeu" - Vinícius de Moraes
https://www.youtube.com/watch?v=lTlF_8QIHmQ

     Depois a peça ganhou asas: em 1959 virou filme - o premiado "Orfeu Negro"**, que foi refilmado*** em 1999.

     A peça deu uma dimensão internacional para a cultura e para a realidade de nosso país, inclusive com a inserção de folias de carnaval. Volta e meia releio "Orfeu da Conceição", e ouço a trilha sonora musicada por Tom Jobim. A cada releitura que faço me dou conta da falta que faz o nosso querido poeta, Vinícius de Moraes, e da infinidade de metamorfoses que sua obra promoveu e continua promovendo.

_______________________________________
*O próprio Vinícius contou essa história em um show realizado no Teatro Castro Alves, em Salvador/BA, no ano de 1973. O show "O poeta, a moça e o violão" está acessível em https://www.youtube.com/watch?v=oijNgbjC8gc&t=2328
**"Black Orpheus" ( Brasil, França, Itália, 1959. Dir.: Marcel Camus)
***""Orfeu" (Brasil, 1999. Dir. Cacá Diégues; música de Caetano Veloso)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A SOBREVIVÊNCIA DAS UTOPIAS


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E DEPOIS REVER
"Imagine" - John Lennon


     Fiquei muito incomodado com uma mensagem que foi repassada ontem, em um grupo de amigos, via whatsapp. A mensagem* trazia o prenúncio de novos velhos tempos. Novos porque mirava o futuro; velhos porque propunha uma volta a tempos de triste memória.

     Na referida mensagem* não havia a indicação da autoria. Nela, o autor listava muitos artistas, professores, escritores, atores e pensadores brasileiros, e afirmava que eram comunistas que atentavam contra a democracia; que todos eles viviam à custa do capitalismo para difundir o comunismo e o socialismo.

     Abro aqui um parêntese.

     Aos que não se recordam, convém lembrar que houve no Brasil um tempo marcado pela censura e por arbitrariedades. Alguns artistas notáveis, pensadores, professores, intelectuais enfim, foram vítimas de Atos governamentais que deles retiraram o direito de exercer livremente suas atividades profissionais: professores não podiam ensinar; cantores não podiam cantar; escritores não podiam publicar; atores não podiam atuar. Em consequência disso muitos deles foram forçados a deixar o país, por não mais encontrarem aqui oportunidades de trabalho. E, pior, uma geração foi doutrinada a não questionar.

     Está evidente que o autor da mensagem não considerou que a própria Constituição Federal do Brasil estabelece a liberdade de manifestação do pensamento; que ela acrescenta, ainda, que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou convicção filosófica ou política.

     Pois bem.

     Se os intelectuais mencionados na mensagem são ou não comunistas, nada de mal há nisso: é um direito que lhes assiste - podem fazer suas escolhas, pensar e livremente manifestar seu pensamento e suas convicções.

     Parece que o autor da mensagem carregou para si a estranha ideia de ser detentor do espírito crítico para poder analisar e escolher por mim - e por nós todos - o que deva ser lido, assistido, pensado e concluído. Fica parecendo que ele acredita que não temos maturidade suficiente para fazermos nossas próprias escolhas.

     Não bastando essa crença, o autor da mensagem foi além: propôs ainda que nada mais, vindo dos intelectuais relacionados, seja lido, assistido, divulgado: que não assistamos seus programas de televisão, que não leiamos suas colunas nos jornais, que não compremos seus livros, que não assistamos suas peças de teatro, que não compremos seus CDs.

     Ao ler tal proposta, lembrei-me da censura que deu causa a tantos males em nosso país. Pareceu-me que o autor estava querendo, também, tirar de todos nós o direito de fazermos nossas próprias escolhas e de formarmos nossa própria convicção em relação ao confronto de ideias.

     No final, pedindo que a mensagem fosse compartilhada, o autor concluía dizendo que referidos pensadores estavam atentando contra a democracia; que eles viviam à custa do capitalismo para difundir o comunismo e o socialismo.

     Caro amigo, caro leitor: oxalá tenhamos todos o bom senso e o juízo crítico sensível a tal ponto de percebermos que a ideia de pensamento único, propagado por um novo "leviatã", anda solto no ar.

     Pensar, propagar e debater ideias, significa propor utopias. O que está contido na letra da belíssima canção "Imagine", composta por John Lennon, não é a proposta de uma utopia? A função do intelectual, do pensador, não é outra senão esta: a de propor utopias. E o sentido da vida, ah, sim... o sentido da vida está no caminhar, na busca de novos horizontes. Trata-se, portanto, e em suma, do livre direito ao exercício de sonhar. E as utopias consistem justamente nisso, em sonhar. A utopia não é um objetivo final, mas sim um constante e incessante processo de busca.


Astronomia
Fonte: http://mundogeografico.com.br/curso/

     Não convém que aplaudamos e propaguemos a proposta de infantilização de nossas mentes. Somente o livre debate de ideias pode nos mostrar os caminhos que valem a pena serem trilhados. E cabe a cada um de nós, livremente, fazermos nossas próprias escolhas. É claro que, para que os debates ocorram, faz-se necessário que ouçamos e respeitemos opiniões diferentes das nossas. O boicote proposto à livre manifestação do trabalho e do pensamento é, indubitavelmente, a oferta de um mesmo "cálice" retrógrado e generalizado.

     Torço e espero que o governo brasileiro, que, democraticamente eleito, bem ou mal, é agora o meu governo e o governo de todos, tenha maturidade para aceitar, debater e avaliar, de forma sensata, todas as propostas de construção de um país mais justo e solidário que vierem a ser formuladas por sonhadores e pensadores de quaisquer tendências políticas; que, enfim, as escolhas que forem feitas, sejam aquelas que privilegiem o livre caminhar e a sobrevivência das utopias.

_______________________________ 
*A mensagem: "Alcione; André Singer; Barbara Gancia; Beth Carvalho; Camila Pitanga; Carlinhos Brown; Chico Buarque; Chico César; Chico Pinheiro; Cristiana Lôbo; Delfim Netto; Dinho Ouro Preto; Emir Sader; Fábio Konder Comparato; Felipe Santa Cruz; Fernanda Torres; Fernando Morais; Frei Betto; Gilberto Gil; Gregorio Duvivier; Guilherme Boulos; Jô Soares; José de Abreu; JucaKfouri; Kennedy Alencar; Laerte Coutinho; Leandro Karnal; Leonardo Attuch; Leonardo Boff; Leonardo Sakamoto; Letícia Sabatella; Luís Carlos Bresser-Pereira; Luis Fernando Verissimo; Luis Nassif; Luiz Carlos Barreto; Luiz Gonzaga Belluzzo; Luiza Trajano (Magazine Luiza); Marcelo Adnet; Marcio França; Maria Rita Kehl; Marieta Severo; Marilena Chaui; Mário Sérgio Cortella; Mino Carta; Miriam Leitão; Osmar Prado; Pablo Villaça; Paulo Betti; Paulo Henrique Amorim; Paulo Nogueira Batista Jr.; Pedro Bial; Preta Gil; Reinaldo Azevedo; Renato Janine Ribeiro; Serginho Groisman; Tico Santa Cruz; Tonico Pereira; Viviane Mosé; Vladimir Safatle; Xico Sá; Wagner Moura - Não comprem mais nada deles. Não assistam (a) seus  programas, não leiam suas colunas. Não comprem seus livros, não vão às suas peças de teatro, não comprem seus CDs.. Eles precisam saber que não será impune atentar contra a Democracia. Viver as custas do Capitalismo e difundir Comunismo/Socialismo, é no mínimo falta de caráter. - *NÃO ESQUEÇA DE COMPARTILHAR!!!*
**Em pesquisa realizada na internet, o site a seguir mencionado atribui a autoria do referido artigo ao economista Rodrigo Constantino (http://www.chumbogordo.com.br/22881-silencio-a-gente-ja-nao-sabe-nem-se-tambem-pede-a-eles-para-ficar-melhor-sem-ruidos/)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

INCOMODADO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
"A Televisão" - Chico Buarque
https://www.youtube.com/watch?v=PBkIp5WmO5I


     Tudo está muito bem arranjado. Tudo sempre esteve assim, bem arranjado. A qualquer momento posso erguer a cabeça, redirecionar o olhar e me harmonizar com o que me rodeia: as árvores, os jardins, os vizinhos, as casas, o movimento nas ruas, os cafés, as pessoas... Mas não devo me distanciar dos interesses e valores presentes. Para não me tornar retrógrado e ultrapassado devo permanecer de cabeça baixa, sem observar, sem notar, sem ter tempo para pensar, sem me atentar para o mundo ao meu redor... 

     - Não se tem mais paciência para atenções ao mundo ao redor...

     As distâncias foram vencidas... De cabeça baixa, o planeta encolheu, a vida encolheu, eu encolhi...

     Sigo olhando para baixo; limito o meu campo de visão a uma tela em forma de retângulo. Seis por doze; setenta e dois centímetros quadrados: essa é a área de captação da minha visão - limite de inspiração para minhas emoções.

     Sobre a superfície dessa tela o mundo gira em um deslizar de dedos; nela, o planeta dá voltas sem sabor, sem perfume, sem calor. Na esteira das forças que conduzem a sua dinâmica o planeta segue girando... passo eu, passamos nós: alma congelada, alma esvaziada, alma anestesiada; alma esmagada, alma virtual.


"Melancholy" (2012) - Albert Gyorgy
Fonte: https://www.jornalterral.com.br/mt/o-vazio-existencial

     - Facilitou!, admito. Aplaudo todas as facilidades. Também faço e preciso fazer uso de tudo o que a tecnologia proporciona.

     Ah... mas essa erosão promovida pela tecnologia, essa indiferença, essa ausência de sensibilidade em relação ao que está por trás da tela... essa necessidade de se ter, para ser, a própria imagem deslizando pelas redes sociais...

     - Isso incomoda!

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

UMA HISTÓRIA PARA SER LEMBRADA


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Stefan Schimitz - "Eterna Saudade" (Dilermando Reis)
https://www.youtube.com/watch?v=oyKgvPJsFPk


     Vou contar uma história. Uma história de gente do interior. Uma história da qual eu não quero me esquecer. Não quero me esquecer porque também é minha. Uma história cujo tema é a amizade e o tempo: o tempo implacável que faz com que nos aproximemos ou nos distanciemos daqueles com quem convivemos um dia.

     Pois então, deixe-me contá-la...

     Um dos meus tios teve um grande amigo. Desde a juventude conversavam, reuniam-se diariamente com amigos comuns, sentavam-se em botecos com cadeiras nas calçadas, iam a ranchos em beiras de rios, festas e comemorações cívicas.

     Juntos debatiam as carências do município, propunham soluções para os problemas da cidade e erguiam bandeiras.

     O tempo passou; a mocidade passou. Cada qual constituiu sua própria família e seguiu seu próprio caminho: meu tio tornou-se comerciante; seu amigo, médico.

     Muitos anos depois, amenizadas as batalhas pela vida, os dois retomaram o hábito dos encontros frequentes. Não mais em bares ou em ranchos em beiras de rios.

     Sentavam-se à porta de entrada da loja de calçados do meu tio, na esquina da estrada de ferro com a rua principal, e ali passavam boa parte do dia.

     Assim como na história, os acontecimentos na cidade se repetiam. Não havia muito o que comentar. Observavam o passar das horas. Relembravam. O silêncio não os incomodava. Ficavam ali. Vigiavam o tempo. Ocasionalmente uma palavra, uma recordação... um lamento, um sorriso...

Dr. Leão e meu tio Milim - porta de entrada da loja de calçados, em algum lugar no tempo
foto: arquivo pessoal - Sahid Elias Antônio

     Ao fundo da mesma loja de calçados, na qual, quando menino, eu também costumava passar muitas das minhas horas, senta-se ainda hoje o meu tio. Vou vê-lo sempre que possível. Outros conhecidos o visitam com frequência... O antigo amigo, o médico, mesmo tendo partido há anos, continua por ali, ao lado do meu tio, na condição de nome de avenida: a avenida viva em palmeiras que, "passando" ao lado da loja e atravessando toda a cidade, substituiu a antiga estrada de ferro.

     Revendo uma foto de um de seus encontros diários, fico pensando:

     - Os melhores diálogos dispensam formalidades. Às vezes, dispensam também palavras. Ter um antigo amigo ao lado é o que basta: a mesma consideração, o mesmo lugar, a mesma solidariedade implícita, a mesma recordação. A presença certa, espontânea e incondicional, é a maneira mais terna de se rezar em silêncio uma mesma oração... e dar amparo à condição de desamparados à qual estamos todos submetidos...


Eu, meu tio, minha avó, nosso amigo Toufic
Calçada em frente à entrada da loja (Foto: arq. pessoal, 1987)

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

WILD IS THE WIND*


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(Nina Simone - "Wild is the wind" - 1957 - de Tiomkin/Washington)
https://www.youtube.com/watch?v=LtVvcgjAaNg

     Dentre um incontável número de poderes mágicos, a música consegue retirar de nossas profundezas adormecidas fatos ou momentos que, um dia, nos foram importantes. Cada um tem, ao longo de sua própria existência, momentos assim, preciosos. É claro... uma música que, para um, ilustra uma recordação, é diferente daquela que o faz para outro - a não ser que a situação específica tenha sido vivenciada em conjunto - mas isso já é outra conversa.

     Lendo agora, nas redes sociais, postagens recentes de duas amigas que me foram muito próximas em fases de vida distintas, descobri que a voz e o canto da Nina Simone, em algum momento e por algum motivo, foram importantes para cada uma delas, separadamente.

New Release: Nina Simone, THE COLPIX SINGLES
Nina Simone
https://www.rhino.com/article/new-release-nina-simone-the-colpix-singles


     A Nina Simone (1933-2003), apesar de ter estudado piano clássico, transitou por diversos estilos musicais - blues, pop, folk, canções francesas, cânticos africanos... Há, inclusive, em seu repertório, uma bela gravação de "Feelings" - do brasileiro Morris Albert. Tendo definido a si mesma como "rebelde", Nina Simone, pela música, engajou-se nas lutas pela emancipação feminina e pelos direitos civis dos afro-americanos.

     No entanto, pelas postagens que vi, a Nina Simone de minhas amigas não é a ativista de "Mississippi Goddam" ou de "Why (the king of love is dead)". Para elas, a Nina é simplesmente a mulher fora de padrão... a intérprete de "I put a spell on you" e "Don't let me be misunderstood".   

     Desejando que essas minhas amigas estejam bem, e lembrando-me delas com o mesmo carinho e consideração que por elas sempre tive, busco algo forte e suave, da Nina Simone, para poder ouvir calado. Começo por sua gravação de "Wild is the wind". Coloco essa mesma música para tocar continuamente ao longo das horas que vão se passando. Não me canso de ouvi-la, de repeti-la, diversas vezes seguidas... 

     Tenho também momentos assim, inesquecíveis. Dou-me conta de que "Wild is the wind", na voz da Nina Simone, em outros tempos, embalou alguns dos que me foram muito especiais. Especiais de tal forma que, a cada vez que a ouço, vejo despertar o que ficou parado lá atrás, esquecido no tempo, aguardando pacientemente para despertar, com muita vitalidade, a partir de um cantinho escuro do meu baú de memórias... 




Wild Is the Wind

Love me love me love me
Say you do
Let me fly away
with you
For my love is like
the wind
And wild is the wind

Give me more
than one caress
Satisfy this
hungriness
Let the wind
blow through your heart
For wild is the wind

You...
touch me...
I hear the sound
of mandolins
You...
kiss me...
With your kiss
my life begins
You're spring to me
All things
to me

Don't you know you're
life itself
Like a leaf clings
to a tree
Oh my darling,
cling to me
For we're creatures
of the wind
And wild is the wind
So wild is the wind

Wild is the wind
Wild is the wind
O Vento É Selvagem

Me ame, me ame, me ame
Diga que me ama
Me deixe voar pra longe
Com você
Porque meu amor
É como o vento
E o vento é selvagem

Dê-me mais
Do que só uma carícia
Satisfaça essa
Avidez
Deixe o vento
Soprar em seu coração
Porque o vento é selvagem

Você...
Me toca...
E eu ouço sons
De bandolins
Você...
Me beija...
E com o seu beijo
Começo a viver
Você para mim é a primavera
É todas as coisas
Para mim

Você não sabe que você
É a vida em si?
Como uma folha se prende
À árvore
Oh, meu amor
Se prenda em mim
Porque somos criaturas
Do vento
E o vento é selvagem
O vento é selvagem

O vento é selvagem
O vento é selvagem

_________________________________
*Wild is the wind" (o vento é selvagem) - Música composta por Dimitri Tiomkin e Ned Washington. Da trilha sonora do filme, de 1957, com o mesmo nome, dirigido por George Cukor ("Fúria da Carne", no Brasil).

domingo, 4 de novembro de 2018

JANELAS ABERTAS


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Gal Costa - "Janelas Abertas" (Tom e Vinícius)
https://www.youtube.com/watch?v=447QE2yVQg0


"Eu poderia ficar sempre assim,
como uma casa sombria,
uma casa vazia, sem luz nem calor.
Mas, quero as janelas abrir (...)"
(Vinícius de Moraes)


     Distante, muito distante, encerro-me em um pequeno quarto de hotel. Nada trouxe na bagagem, além do que me é estritamente necessário: a lembrança de dias felizes, a saudade de meus mortos queridos, o sentimento de gratidão pela vida, alguns conselhos, projetos que deixei de lado...

     Junto à parede interna do quarto há uma pequena cama de solteiro. Vestida do algodão branco do lençol que a cobre, e do travesseiro, não muito alto, acomodado em sua cabeceira, ela oferece o seu conforto para o repouso do meu corpo. Ao seu lado, um criado-mudo sustenta um delicado abajur para minimizar a escuridão da noite. O guarda-roupa, embutido na parede, tem o tamanho ideal para que não haja desperdício de espaço. Rente à janela, uma mesinha de madeira com uma cadeira é tudo do que preciso, para dar pouso aos meus cotovelos nas minhas horas de inspiração.

Файл:Camera da Letto Vincent van Gogh.jpg
Van Gogh - "Quarto em Arles" (1888)
https://ru.wikipedia.org/wiki/%D0%A4%D0%B0%D0%B9%D0%BB:Camera_da_Letto_Vincent_van_Gogh.jpg

     Essa simplicidade me faz feliz... e, momentaneamente, completa-me.

     Mas, para que o ar possa circular pelo quarto, por detrás da cortina uma janela deve ser aberta. Quando destravo seus trincos, o céu, o sol, as cores e as vozes da natureza ocupam o ambiente. E o pequeno quarto, feito uma nave, preenchido por tanta beleza, leva-me para longe, para bem longe... para muito além das suas paredes...

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Laguna, SC 
Video: arq. pessoal (2014)  

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O JOELHO, OS ÓCULOS E O CHANCELER



     Todo mundo sabe que o Vinícius de Moraes adorava compor, ler e trabalhar, durante demorados banhos de imersão. Há uma foto sua, na banheira, que nunca consegui entender bem. Nela, o poeta dobra a perna direita, e ajeita, um pouco abaixo do joelho, os seus óculos.


Vinícius de Moraes
Foto no facebook, por Marta Rodriguez Santamaria

     Sempre que a vejo, fico me perguntando: "o que será que o poeta queria dizer com tal 'montagem'?"


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"Eu não tenho nada a ver com isso" - Toquinho/Vinícius
(contam que o título original dessa música era "Deixa o Brasil andar")
https://www.youtube.com/watch?v=EtWn1p4_f9M


     Outro dia, uma amiga, que foi muito próxima do Vinícius, disse-me que o próprio poeta contou a ela que, naquela montagem, ele estava fazendo troça do chanceler que o havia exonerado do Itamaraty; que seu joelho, "de óculos", era a cara do tal chanceler.

     A História conta que Vinícius foi expulso do Ministério das Relações Exteriores em abril de 1969, com base no Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968. Antes, porém, uma Comissão havia sido montada (Comissão de Investigação Sumária) para investigar vidas privadas, e para expulsar diplomatas que o regime tachava de homossexuais, alcoólatras ou emocionalmente instáveis: Vinícius foi um dos punidos, apesar dos registros do Ministério das Relações Exteriores revelarem que ele era considerado um diplomata exemplar: sua vida boêmia, contudo, desagradava à linha-dura da época. Vinícius não foi o único: foram cassados 44 servidores, sendo 13 diplomatas, oito oficiais de chancelaria e 23 funcionários administrativos*. Sua cassação foi assinada pelo então Ministro das Relações Exteriores, e pelo presidente Costa e Silva**.

     - "Mas quem era, afinal, o chanceler que exonerou o Vinícius do Itamaraty?"

     Bom. De março/67 a outubro/69, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil era o advogado, economista, banqueiro e político mineiro, José de Magalhães Pinto. Será, então, que era mesmo a ele que o Vinícius queria se referir?

     Veja a foto do então Ministro, e compare-a com o "joelho de óculos", do Vinícius: "alguma semelhança?"

 
José de Magalhães Pinto
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Magalh%C3%A3es_Pinto


     - "O que você acha?" 

    Só sei que os tempos são outros. E, seja lá como for, "Deixa o Brasil andar...!"


_____________________ 
*conforme artigo de Bernardo de Mello Franco, publicado no jornal "O Globo", de 28 de junho de 2009. Esse artigo está no seguinte livro: "Embaixador do Brasil - Vinícius de Moraes". Brasília: FUNAG, 2010, 132 p. (FUNAG é a Fundação Alexandre de Gusmão. Vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, a FUNAG tem a finalidade de levar à sociedade civil informações sobre a realidade internacional e sobre aspectos da pauta diplomática brasileira).
**A Lei 12.265/2010, que reabilitou o poeta ao Itamaraty, promoveu-o, "post mortem", a Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata. Na Câmara dos Deputados, o único deputado a se manifestar contra a promoção foi o militar da reserva, e deputado pelo então PP-RJ, Jair Bolsonaro (fonte: o mesmo livro acima mencionado)


sábado, 6 de outubro de 2018

"O INCORRUPTÍVEL"


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(assista depois da leitura)
"Ah! Ça ira" - canção revolucionária francesa (1790)
https://www.youtube.com/watch?v=yZeuu05PV2U


     Houve um tempo em que reis governavam a França. Na corte, os desperdícios eram exagerados; os desmandos eram generalizados, e apenas alguns grupos eram privilegiados. A população, sacrificada e explorada, estava insatisfeita com a péssima administração econômica do país que estava ruindo. Era necessário que o sacrifício do povo revertesse em benefício do coletivo, e não apenas de poucos. O povo já não suportava mais a sensação de estar sendo roubado.

     Para que essa forma de governar fosse modificada, uma Revolução teve que ser processada. E que Revolução!

     Essa Revolução, a Francesa, aconteceu no ano de 1789. Seus objetivos eram de por fim a privilégios, com a consequente instalação de um Estado voltado para o bem comum. A vontade geral era o que deveria prevalecer. Queria-se que esse Estado fosse, enfim, governado sob os princípios da moralidade, da igualdade e da virtude.

     Para assentar tais ideais, vigorou na França, por um tempo, após a "derrubada da corte", um regime de terror. Esse regime proclamava que justiça rápida, violenta e inexorável, deveriam ser expressão de virtude. Assim, para a imposição da moral e da virtude "a qualquer preço", a Constituição de 1791 foi suspensa, e um órgão executivo denominado "Comitê de Salvação Pública" foi criado. Esse órgão, que teve um político chamado Robespierre como figura de destaque, comandava o exército e administrava as finanças do país. Para fazer valer os seus comandos, esse "Comitê" outorgou uma Lei ("Lei dos Suspeitos") dispondo que todas as pessoas suspeitas, que ainda estivessem em liberdade e que se mostrassem partidários de ideias contrárias às que estavam sendo impostas, deveriam ser colocadas em estado de prisão. O "Comitê" sancionou ainda uma outra lei ("Lei do Máximo Geral"), que instituía preços fixos para víveres e salários. Essas duas leis caracterizaram o que muitos historiadores chamam de "Regime do Terror". Ainda, para que fossem devidamente executadas as determinações do "Comitê", um "Tribunal Revolucionário" foi instalado.

     Esse estado de paranoia, de turvamento da razão, não poderia ter dado em outra coisa: durante o período em que vigorou (1793-1794), os chamados inimigos do Estado foram executados. Muita gente foi guilhotinada: dezenas de milhares.

Execução de Luis XVI
http://www.universiaenem.com.br/sistema/faces/pagina/publica/conteudo/texto-html.xhtml?redirect=43305128226733417061548245250

     No fim das contas, e em virtude das arbitrariedades perpetradas, Robespierre (apelidado de "incorruptível"), pela força, foi destituído de seus poderes, e, em seguida, decapitado (tal como ocorrera com Luis 16, o Rei da França, anteriormente destituído).

     A Revolução Francesa mostra, portanto, que, da tentativa de imposição da virtude, pela força, e sob o pretexto de resgate da moral e dos bons costumes, os autoproclamados "incorruptíveis" sempre procuram impor um regime persecutório e castrador de liberdades, que leva muita gente à morte.

     De tempos em tempos essa mesma história é repetida em muitos lugares do Planeta: queira Deus que, aqui no Brasil, esses mesmos acontecimentos não se repitam; que usurpadores da pátria e tiranos travestidos de puros sejam apenas tristes lembranças de um passado... que passou.