quinta-feira, 25 de julho de 2019

A BOLSA DA RAINHA


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Rainha Elizabeth recebe novo premiê Boris Johnson no Palácio Buckingham


     Enquanto debatemos aqui as aventuras do nosso governo, no Reino Unido a discussão é outra: como alinhavar um acordo para que o BREXIT* seja concluído? como deixar a União Europeia (UE) de forma menos traumática?

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"God save the Queen" - o hino do Reino Unido

     Por não ter conseguido concluir as negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia, Theresa May renunciou ao cargo de primeira-ministra do Reino Unido. Para ocupar o seu lugar, o  ex-prefeito de Londres e ex-ministro de Relações Exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, foi escolhido.

     Boris Johnson assumiu, de fato, uma tarefa dificílima. E, conforme já pronunciou, caso o Reino Unido não consiga chegar a um consenso com a UE até o prazo limite (31/outubro), a saída do Bloco ocorrerá mesmo sem acordo.

     Ainda ontem, no Palácio de Buckingham, em audiência privada e de forma simbólica, a Rainha Elizabeth II entregou a Boris Johnson o cargo para o qual ele foi designado.

     Eu aqui, matutando com meus botões, percebo nesse novo premiê um perfil impulsivo: tem pinta de latino! Aquele "cabelão" amarelo, desarranjado sobre sua cabeça, não combina com o cargo que agora ocupa... Acho até que, na intimidade, nas noites de balada, seus cabelos amarelos são tingidos de preto; que, bem ajeitados com um perfumoso e brilhante creme, são penteados geometricamente - à la Gardel**.

     Deixando o Boris de lado, percebi que a Rainha, ao "entregar" o cargo ao novo premiê, trazia uma bolsa dependurada em seu braço. E, agora, essa questão da bolsa passou a me incomodar: o que será que estava guardado nela? uma lixa de unhas? um estojo de maquiagem? um lencinho bordado? alguns bombons? ou o esboço de um plano estratégico, definitivo e inarredável, para o BREXIT? Sei lá. O conteúdo da bolsa da Rainha é questão de Estado! Mas que fiquei curioso, não tenho como negar.

__________________________________ 
*BREXIT - abreviação de "British Exit", uma expressão inglesa que significa “Saída Britânica”, referindo-se à decisão sobre a saída do Reino Unido do bloco econômico europeu.
** Carlos Gardel - o mais famoso cantor de tango da história.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

EU JÁ NÃO SEI


Terra Estrangeira : Foto Daniela Thomas, Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto, Walter Salles
Cartaz do filme luso-brasileiro "Terra Estrangeira" (Dir. Walter Salles, 1996)
Foto: Fernanda Thomas; Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto



     Apago a luz do dia, embarco em uma caravela de amores, e navego por um mar de poesia ...



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Roberta Sá, António Zambujo, Yamandú Costa 
"Eu já não sei"
https://www.youtube.com/watch?v=kTSrLrw6gWQ 


EU JÁ NÃO SEI
(Domingos Gonçalves Costa e Carlos Rocha)

Eu já não sei
Se fiz bem ou se fiz mal
Em pôr um ponto final
Na minha paixão ardente

Eu já não sei
Porque quem sofre de amor
A cantar sofre melhor
As mágoas que o peito sente

Quando te vejo e em sonhos sigo os teus passos
Sinto o desejo de me lançar nos teus braços
Tenho vontade de te dizer frente a frente
Quanta saudade há do teu amor ausente
Num louco anseio, lembrando o que já chorei
Se te amo ou se te odeio
Eu já não sei

Eu já não sei
Sorrir como então sorria
Quando em lindos sonhos via
A tua adorada imagem

Eu já não sei
Se deva ou não deva querer-te
Pois quero às vezes esquecer-te
Quero, mas não tenho coragem

Quando te vejo e em sonhos sigo os teus passos
Sinto o desejo de me lançar nos teus braços
Tenho vontade de te dizer frente a frente
Quanta saudade há do teu amor ausente
Num louco anseio, lembrando o que já chorei
Se te amo ou se te odeio
Eu já não sei

Num louco anseio, lembrando o que já chorei
Se te amo ou se te odeio
Eu já não sei


     Independente de ser de alegria ou de dor o sentimento que esse antigo fado me traz, fico comovido com a capacidade humana de expressar o belo...

     "Eu já não sei", de tão bonita, confirma o adágio: "Não se tem um coração impunemente!"

     Entonces, meu raro leitor, humildemente vos peço: - bring me my guitar, apague le soleil... dame una botella de vino: hoy me emborracho... de música e poesia..." 


quarta-feira, 22 de maio de 2019

QUERO IR PRA ROÇA*


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Oblivion (Astor Piazolla) - Lioren Cello Guitar Duo

Tomado pela sensação de inutilidade,
de indisciplina,
de lentidão,
e de incômodo com as canseiras dessa vida,
quero ir pra roça!  

Da cama,
levantar a hora que Deus quiser,
ouvir silêncio,
olhar pra longe,
andar sem rumo.


Foto em: http://www.pedaladas.com.br/apeei-da-minha-bicicleta-num-ranchinho-a-beira-chao/8/

À tarde,
respirar cheiro de mato,
acompanhar o voo de pássaros,
decifrar o segredo das árvores,
ler as horas pelo sol.


"Até adormecer" - Foto: Ferreira (maio/19)


À noite,
à luz inconstante de pirilampos,
ouvir o coaxar de sapos 
 e o canto de cigarras.


Fonte: http://dapazpicui.blogspot.com/2015/08/lamparina-maria-da-paz.html

De madrugada,
iluminado pela chama de uma lamparina,
dançar com as sombras,
rir e brincar com fantasmas,
até me entregar...

...até me cansar de mim...
até adormecer...

___________________________________
*Inspirado no Ferreira, meu cunhado

quinta-feira, 25 de abril de 2019

STARMAN - A MENSAGEM DE MAJOR TOM


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"Starman" - David Bowie
https://www.youtube.com/watch?v=Bs8znsm-tUE 


     Em uma madrugada não muito distante, acordei com a sensação de que aquele astronauta norte-americano desaparecido no espaço (Major Tom) estava de volta à Terra. Lembrei-me de que sua missão havia falhado, de que os jornais, após a tragédia, criticaram muito os países do primeiro mundo pelo desperdício do dinheiro empregado em projetos absurdos.

     Depois de ter entrado no espaço sideral, depois de ter saído da cápsula de sua nave, depois de ter informado que havia visto as estrelas sob um outro ângulo, depois de ter confirmado a constatação de Gagarin de que a terra é azul, suas conexões com a torre de comando foram perdidas - e o astronauta solitário ficou flutuando no espaço... flutuando... flutuando... e não retornou à Terra.

     Muitas décadas se passaram. Aquela missão malsucedida tornou-se apenas um número frio anotado em um quadro de estatísticas.

     Naquela madrugada, pelas ondas de rádio, as transmissões foram subitamente interrompidas. A voz distante de alguém que se identificava por Major Tom, tomando todas as estações em ondas curtas, médias e FM, dizia que tinha muita vontade de contar ao mundo o que havia descoberto. Ele dizia que estava feliz, que a esperança no bem da humanidade ainda não havia deixado de existir. Dizia que continuava tentando estabelecer contato com a Terra, que pensava em relatar sua experiência cósmica, mas que temia ser ridicularizado pela propagação da simplicidade das descobertas que havia feito.

     Por alguns instantes eu ouvi aquela voz dizer, em um Inglês bastante compassado e compreensível, que o homem nasceu para ser livre e fazer suas próprias descobertas; que as escolhas feitas, se advindas de interferências externas, não fazem do homem um ser amadurecido e realizado; que as verdades não são únicas; que o planeta Terra sempre esteve destinado a ser habitado por seres de bom coração que desconhecem palavras de ódio e que se harmonizam uns com os outros, assim como o planeta Terra se harmoniza com todo o universo.

     Logo após ter ouvido aquela mensagem revestida de pureza e simplicidade, percebi que as estações de rádio deixaram de transmitir seus programas habituais. Ainda sem entender o significado do que ocorrera, levantei-me da cama e fui até a janela. Lá fora, na escuridão, a cidade dormia seu sono reparador. Nenhuma luz iluminava as ruas ou as calçadas; nos imóveis, nenhum despertar; nenhum movimento, nenhum veículo; nenhum barulho... Lá longe, a lua... No céu, bem pertinho do horizonte, dentre muitas, uma estrela em movimento fez uma alegoria para, em seguida, desaparecer...





     Depois, pensando na harmonia do universo, voltei a me deitar e adormecer... até que a claridade de um novo dia me despertou. E eu me levantei cheio de fé e esperança, querendo crer que, na cidade, entre as pessoas, uma grande transformação havia se processado...
       

Starman (David Bowie)

Didn't know what time it was,
The lights were low
I leaned back on my radio
Some cat was layin' down
Some rock 'n' roll 'lotta soul, he said
Then the loud sound did seem to fade
Came back like a slow voice on a wave of phase
That weren't no D.J. that was hazy cosmic jive

There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile

He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie

I had to phone someone so I picked on you
Hey, that's far out so you heard him too!
Switch on the Tv we may pick him up on channel two
Look out your window I can see his light
If we can sparkle he may land tonight
Don't tell your poppa or he'll get us locked up
In fright

There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile

He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie

Homem das estrelas

Não sei que horas eram
As luzes estavam baixas
Me voltei para o rádio
Um gato estava deitado
Um rock n'roll com muito soul, dizia a música
Então o som alto parecia ir reduzindo
Voltou como uma voz baixa numa maré alta
Não era nenhum DJ, eram notícias cósmicas nebulosas

Há um homem estelar esperando no céu
Ele gostaria de vir e nos encontrar
Mas ele acha que iria confundir nossas idéias
Há um homem estelar esperando no céu
Ele nos disse para não confundir
Porque ele sabe que isso é valioso

Ele me disse
Deixe as crianças sossegadas
Deixe as crianças usarem a cabeça
Deixe as crianças se divertirem

Eu tinha que ligar para alguém então eu te liguei
Ei, isso foi para longe então você também o ouviu!
Ligue a TV nós podemos sintonizá-lo no canal dois
Olhe pela janela eu posso ver a luz dele
Se pudermos sinalizar talvez ele possa pousar hoje à noite
Não diga ao seu pai ou ele irá nos deixar de castigo
Espantados

Há um homem estelar esperando no céu
Ele gostaria de vir e nos encontrar
Mas ele acha que iria confundir nossas idéias
Há um homem estelar esperando no céu
Ele nos disse para não confundir
Porque ele sabe que isso é valioso

Ele me disse
Deixe as crianças sossegadas
Deixe as crianças usarem a cabeça
Deixe as crianças se divertirem



quinta-feira, 4 de abril de 2019

É INÚTIL FINGIR


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"Não diga não" - Tito Madi


     O jornal "Folha de São Paulo", de hoje*, publica uma entrevista** concedida por uma das principais intérpretes brasileiras: Nana Caymmi. Nana acaba de lançar um CD inteiramente dedicado a Tito Madi: "Nana Caymmi canta Tito Madi".


Nana Caymmi Canta Tito Madi de Nana Caymmi

     Tito Madi (1929-2018) faleceu recentemente, aos 89 anos de idade. Compôs e cantou muitos sambas-canção. Alcançou relativo sucesso. "Não diga não", Chove lá fora", "Cansei de ilusões", foram alguns deles. Na bossa nova também deixou sua marca: "Balanço zona sul" é um dos clássicos do gênero. Em suas interpretações, em suas apresentações, em suas entrevistas, transmitia com naturalidade muita serenidade, paz, leveza... Há, entre obra e imagem do artista, uma grande coerência. Depois de ouvi-lo falar ou cantar, eu sempre reacendia esperanças nos rumos da humanidade: o mundo poderia ser melhor!
     Na entrevista concedida pela Nana Caymmi à "Folha de São Paulo", ela disparou palavras que, parece-me, combinam com ela, mas que não combinam em nada com o homenageado ou com as canções gravadas em seu novo CD. A meu ver, e em respeito ao Tito Madi e à sua obra, teria sido bom se a Nana tivesse cuidado melhor das coisas que disse. Não sugiro que ela deixe de ser autêntica, verdadeira consigo mesma.  A meu ver, a figura do intérprete precisa combinar com a música que interpreta, para que não pareça artificial. Pela entrevista à "Folha", a obra de Tito Madi não combinou em nada com a Nana Caymmi. 

     Ao se referir a seus ex-maridos, Nana chamou-os de merdas. ("Nunca tive um marido que gostasse [de ópera]. Uns merdas.").

     Ao dizer quantos maridos teve, explica: "Foi uma porrada".

     Falando de política, disse que Gil, Caetano e Chico Buarque são "chupadores de pau do Lula".

     Ao comentar a obra de seu pai, Dorival Caymmi, disse que dele já se esqueceram. Que somente em seu aniversário de morte "tem sempre uma macumbeira que se lembra de uma música qualquer...".

Folha de São Paulo, 29/03/19 - foto: arq. pessoal

     Em 1983 Nana gravou, com o pianista  César Camargo Mariano, o disco "Voz e Suor". Quando, na entrevista, comentou a gravação de "Não diga não" (uma das canções do disco de 1983), ela disse que o César Mariano ficava ensaiando a música, e ela pedindo para que ele parasse de estudar aquela "merda". Ainda, disse que a havia escolhido para dificultar as coisas para o César, para "botar no rabo dele, com farinha". 

     Ao comentar "Balanço Zona Sul", Nana disse que acreditava que, quando compôs, o Tito Madi estava em uma fase de ficar olhando "bunda" de mulher na praia. E mais: que Wilson Simonal e Elis Regina eram arrogantes e vaidosos.

     Ela conta que, na época do samba-canção (1945-1960), "era boateira, dançava que nem uma filha da puta... saía com as amigas para pegar homem".

     Falou também de Emílio Santiago: "Eu era cama e mesa com Emílio. Se a bicha não fosse bicha, eu estava casada com ela."

     Estranho pensar nisso, mas não consigo imaginar palavras ou expressões tais como "merda", "porrada", "chupador de pau", "botar no rabo", "filha da puta", "bicha", sendo ditas pelo Tito Madi: não combinam!

     No CD dedicado à obra do Tito Madi, Nana gravou onze músicas: Cansei de ilusões, Chove lá fora, Carinho e Amor, Não diga não, Quero-te assim, Sonho e saudade, Canção dos olhos tristes, E a chuva parou..., Graças a Deus você voltou, Gauchinha bem querer, Balanço Zona Sul.

     Os termos da entrevista concedida pela Nana Caymmi à Folha não cabem na beleza das músicas gravadas por ela no CD: passam distantes. Quero crer que a necessidade de estar na mídia tenha sido o Norte escolhido para a entrevista. Se assim foi, o objetivo da estratégia publicitária foi alcançado: porém, para mim, de uma forma muito negativa, que não condiz nem um pouco com o que a Nana construiu em sua vida artística.

     Por tudo isso, prefiro continuar ouvindo as antigas gravações do Tito Madi, em sua própria voz. Não quero maculá-las com a delicadeza artificial expressa nas gravações feitas pela Nana Caymmi - apesar da boa qualidade técnica. 

_____________________________ 
*Folha de São Paulo, 29/03/2019 
**""Nana Caymmi ataca Chico e Caetano e afirma ter confiança em Bolsonaro" - Caderno "Ilustrada", página C4 

domingo, 10 de março de 2019

ELISA


Passeio ou Mulher com Sombrinha, Claude Monet
"Mulher com sombrinha", ou "O Passeio" - (1875) - Claude Monet (1840-1926)
https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/almoco-dos-remadores-pierre-auguste-renoir/


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"Für Elise" (1810) - Beethoven (1770-1827) - Georgii Cherkin (piano)
"Classic FM Orchesta" - Grigor Parikalov (conductor);
https://www.youtube.com/watch?v=e4d0LOuP4Uw

Elisa... Fico me perguntando se a musa do compositor de fato existiu... Fico imaginando como ela poderia ter sido... Teria sido extrovertida, de pele clara, cabelos longos? Ou será que era circunspecta, ruiva, cabelos curtos? Será que, em tardes de sol, Elisa gostava de caminhar por jardins floridos? Será que, após o jantar, Elisa sentava-se em uma poltrona de sala para ouvir acordes de piano? Quando será que Elisa sentiu que, por ela, pulsava um coração? Ou será que passou a vida toda sem ter tido esse privilégio? Será que, algum dia, o compositor conversou com Elisa? Ou será que entre ela e ele houve, apenas, uma troca de olhares - ou nem isso? Será que, algum dia, Elisa sentiu-se grata? Será que, algum dia, ela expressou a ele sua gratidão? Ou será que Elisa simplesmente dirigiu ao compositor palavras desprovidas de sentimento? Não sei, nunca vou saber. Procuro pela imagem de Elisa, pelo seu jeito de sorrir, pelo tom de sua voz, mas não consigo identificá-los. Será que Elisa soube que, um dia, um compositor debruçou-se sobre um pentagrama e a imortalizou? Não sei... Só sei que alguém, que supostamente chamava-se Elisa, foi a inspiração de Beethoven em uma de suas mais belas e conhecidas peças: "Para Elisa". Mas... pensando melhor, será que era mesmo Elisa o nome da musa? Ou teria sido Thérèse...? Ou, ainda, será que Elisa de fato existiu no mundo real? ou será que teve vida apenas na imaginação do compositor?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ANTÔNIO MARIA: O MENINO GRANDE



antonio-maria
Antônio Maria (1921-1964)
Fonte: http://culturafm.cmais.com.br/diario-da-manha/musica-escrita-e-boemia-estiveram-na-historia-de-antonio-maria


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Nora Ney - "Menino Grande" (Antônio Maria)
https://www.youtube.com/watch?v=SBzfQT7reok&list=RDSBzfQT7reok&start_radio=1


     Pernambucano, Antônio Maria chegou ao Rio de Janeiro em 1940. Tinha 19 anos de idade. Foi locutor esportivo, trabalhou em rádio, jornais, revistas... Foi cronista e colunista social. Era muito amigo de Fernando Lobo, Dorival Caymmi, Rubem Braga e outros brasileiros notáveis. Viveu uma vida muito desregrada. Ao mesmo tempo, era muito querido. Falava de amores e da angústia de viver. Foi um ser humano talentoso e sedutor. Esteve sempre rodeado de mulheres. Contudo, vivia tomado por um sentimento de profunda solidão. Emocionalmente desamparado, era carente de afetos, alto e gordo. Sofria muito com os empréstimos financeiros que contraía - e não conseguia pagar. Em um diário* que escreveu por alguns meses, em 1957, anotou:

"estou gordo",

"vou morrer cedo",

"minha casa é feia",

"me sinto só",

"preciso de alguém mais forte";

"eu não estava nervoso... e sim bêbado, sem nenhuma infelicidade especial";

"sou um cronista, nada mais que um cronista frívolo";

"bebi um pouco, mas não cheguei a sentir nada de melhor".

     Como se todo esse perfil auto-depreciativo já não bastasse, também anotou em seu diário:

"Mariinha anda triste. Tenho a impressão de que ser minha mulher acaba com a vida de uma pessoa".

     "Valsa de uma cidade" e "Canção da volta" foram compostas por ele, em parceria com Ismael Neto; "Manhã de Carnaval" e "Samba de Orfeu", em parceria com Luiz Bonfá; "As suas mãos" e "Se eu morresse amanhã", com Pernambuco; "Preconceito" e "Ninguém me ama", com Fernando Lobo. Com Vinícius de Moraes compôs "Quando tu passas por mim" e "Dobrado de amor a São Paulo".

     A carência afetiva de Maria era tão grande que, um dia, compôs um samba-canção com traços de "cantiga de ninar". Ele queria que esse samba-canção fosse cantado para ele mesmo. E, assim, "Menino grande", cuja primeira gravação foi feita por sua amiga Nora Ney, expõe, além de sua fragilidade, a necessidade de carinho e proteção que sempre sentiu.

     Boêmio e brigão, sua angústia de viver terminou numa madrugada do ano de 1964, em uma calçada do bairro de Copacabana, no Rio. Vítima de um ataque cardíaco, Antônio Maria foi dormir seu sono de menino grande: tinha, então, 43 anos de idade.

     Gosto do Antônio Maria. Gosto de sua figura simpática, desencontrada e desregrada. Leio tudo o que escrevem a seu respeito**. Gosto de saber que seres assim, inteiros e honestos consigo mesmos, passaram por aqui e deixaram escancaradas suas histórias de amor e de sofrimento; mas que, ao mesmo tempo, muito nos ensinaram com suas histórias de lutas, de conquistas e de fidelidade às suas próprias verdades.


Menino Grande
(Antônio Maria)

Eu gosto tanto do carinho que ele me faz
Faz tanto bem o beijo que ele me traz
As horas passam, ligeiras, felizes
Sem a gente sentir
Ele está ao meu lado, com o corpo cansado
Precisa dormir.

Dorme, menino grande
Que eu estou perto de ti
Sonha o que bem quiseres
Que eu não sairei daqui

Oh vento, não faça barulho
Meu amor está dormindo
E o mar, não bata com força
Porque ele está dormindo

Dorme, menino grande
Que eu estou perto de ti
Sonha o que bem quiseres
Que eu não sairei daqui

_________________________________ 
*Maria, Antônio. O diário de Antônio Maria: apresentação de Joaquim Ferreira dos Santos. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002
**Em especial, admiro o trabalho feito pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, que vem organizando e publicando as crônicas e as histórias de Antônio Maria.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

ORFEU E EURÍDICE




Vaso grego (detalhe) (aprox. 450 a.C.) - "Orfeu tocando sua harpa" 
https://user.phil.hhu.de/~holtei/surprise/popups/January07.htm


"Vai tua vida, pássaro contente,
vai tua vida, que eu estarei contigo"
(Monólogo de Orfeu - Vinícius de Moraes)


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"Valsa de Eurídice" (Vinícius de Moraes) - Baden Powell
https://www.youtube.com/watch?v=S6q9OldVVgg


     Em um dos 15 livros de "Metamorfoses", Publius Ovidius Naso, ou simplesmente Ovídio (43 a.C./17 d.C), narra o mito de Orfeu. Na mitologia grega, Orfeu, um poeta muito talentoso, ganhara de seu pai uma lira e tornara-se um músico dedicado. Quando ele a tocava, as pessoas, os animais e a natureza ficavam encantados, apaziguados e fascinados com sua melodia. Perdidamente apaixonado, Orfeu estava prestes a se casar. No entanto, uma picada de serpente ocasionou a morte de sua noiva, Eurídice. Orfeu, então, desceu ao mundo dos mortos para tentar resgatá-la. Hades, deus dos mortos, e Perséfone, sua esposa, comovidos com a história e extasiados com o som da lira de Orfeu, decidiram atendê-lo, mas com uma condição: que ele não olhasse para ela até que chegassem ao mundo superior. Mas Orfeu não resistiu e, no caminho, olhou para Eurídice. Consequentemente, pela desobediência, Eurídice foi levada de volta ao mundo dos mortos.

     Inspirado nessa narrativa, em 1954 Vinícius de Moraes escreveu a peça "Orfeu da Conceição", na qual transpôs o mito de Orfeu para a favela carioca.


cartaz 1
Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/teatro/orfeu-da-conceicao

     Em "Orfeu da Conceição", todas as personagens normalmente são representadas por atores da raça negra; o instrumento é o violão, e não a lira. Com cenários de Oscar Niemeyer, Vinícius de Moraes escreveu as letras das músicas para a peça, que estreou no Rio de Janeiro em 1956, e Antônio Carlos Jobim as musicou. Na trilha sonora estavam: Ouverture; Monólogo de Orfeu; Um nome de mulher; Se todos fossem iguais a você; Mulher, sempre mulher; Eu e o meu amor; Lamento no morro.

     "Ouverture", que, na abertura da peça, corresponde à apresentação dos temas das principais personagens, foi feita sobre a "Valsa de Eurídice", a qual, quando composta pelo Vinícius, tinha uma outra finalidade: servir de presente para sua filha, Suzana de Moraes, que bacharelava no ginásio*.

     Na peça, Orfeu assim se despediu de Eurídice, sua amada, quando ela o deixa para rever sua mãe:

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"Monólogo de Orfeu" - Vinícius de Moraes
https://www.youtube.com/watch?v=lTlF_8QIHmQ

     Depois a peça ganhou asas: em 1959 virou filme - o premiado "Orfeu Negro"**, que foi refilmado*** em 1999.

     A peça deu uma dimensão internacional para a cultura e para a realidade de nosso país, inclusive com a inserção de folias de carnaval. Volta e meia releio "Orfeu da Conceição", e ouço a trilha sonora musicada por Tom Jobim. A cada releitura que faço me dou conta da falta que faz o nosso querido poeta, Vinícius de Moraes, e da infinidade de metamorfoses que sua obra promoveu e continua promovendo.

_______________________________________
*O próprio Vinícius contou essa história em um show realizado no Teatro Castro Alves, em Salvador/BA, no ano de 1973. O show "O poeta, a moça e o violão" está acessível em https://www.youtube.com/watch?v=oijNgbjC8gc&t=2328
**"Black Orpheus" ( Brasil, França, Itália, 1959. Dir.: Marcel Camus)
***""Orfeu" (Brasil, 1999. Dir. Cacá Diégues; música de Caetano Veloso)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A SOBREVIVÊNCIA DAS UTOPIAS


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E DEPOIS REVER
"Imagine" - John Lennon


     Fiquei muito incomodado com uma mensagem que foi repassada ontem, em um grupo de amigos, via whatsapp. A mensagem* trazia o prenúncio de novos velhos tempos. Novos porque mirava o futuro; velhos porque propunha uma volta a tempos de triste memória.

     Na referida mensagem* não havia a indicação da autoria. Nela, o autor listava muitos artistas, professores, escritores, atores e pensadores brasileiros, e afirmava que eram comunistas que atentavam contra a democracia; que todos eles viviam à custa do capitalismo para difundir o comunismo e o socialismo.

     Abro aqui um parêntese.

     Aos que não se recordam, convém lembrar que houve no Brasil um tempo marcado pela censura e por arbitrariedades. Alguns artistas notáveis, pensadores, professores, intelectuais enfim, foram vítimas de Atos governamentais que deles retiraram o direito de exercer livremente suas atividades profissionais: professores não podiam ensinar; cantores não podiam cantar; escritores não podiam publicar; atores não podiam atuar. Em consequência disso muitos deles foram forçados a deixar o país, por não mais encontrarem aqui oportunidades de trabalho. E, pior, uma geração foi doutrinada a não questionar.

     Está evidente que o autor da mensagem não considerou que a própria Constituição Federal do Brasil estabelece a liberdade de manifestação do pensamento; que ela acrescenta, ainda, que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou convicção filosófica ou política.

     Pois bem.

     Se os intelectuais mencionados na mensagem são ou não comunistas, nada de mal há nisso: é um direito que lhes assiste - podem fazer suas escolhas, pensar e livremente manifestar seu pensamento e suas convicções.

     Parece que o autor da mensagem carregou para si a estranha ideia de ser detentor do espírito crítico para poder analisar e escolher por mim - e por nós todos - o que deva ser lido, assistido, pensado e concluído. Fica parecendo que ele acredita que não temos maturidade suficiente para fazermos nossas próprias escolhas.

     Não bastando essa crença, o autor da mensagem foi além: propôs ainda que nada mais, vindo dos intelectuais relacionados, seja lido, assistido, divulgado: que não assistamos seus programas de televisão, que não leiamos suas colunas nos jornais, que não compremos seus livros, que não assistamos suas peças de teatro, que não compremos seus CDs.

     Ao ler tal proposta, lembrei-me da censura que deu causa a tantos males em nosso país. Pareceu-me que o autor estava querendo, também, tirar de todos nós o direito de fazermos nossas próprias escolhas e de formarmos nossa própria convicção em relação ao confronto de ideias.

     No final, pedindo que a mensagem fosse compartilhada, o autor concluía dizendo que referidos pensadores estavam atentando contra a democracia; que eles viviam à custa do capitalismo para difundir o comunismo e o socialismo.

     Caro amigo, caro leitor: oxalá tenhamos todos o bom senso e o juízo crítico sensível a tal ponto de percebermos que a ideia de pensamento único, propagado por um novo "leviatã", anda solto no ar.

     Pensar, propagar e debater ideias, significa propor utopias. O que está contido na letra da belíssima canção "Imagine", composta por John Lennon, não é a proposta de uma utopia? A função do intelectual, do pensador, não é outra senão esta: a de propor utopias. E o sentido da vida, ah, sim... o sentido da vida está no caminhar, na busca de novos horizontes. Trata-se, portanto, e em suma, do livre direito ao exercício de sonhar. E as utopias consistem justamente nisso, em sonhar. A utopia não é um objetivo final, mas sim um constante e incessante processo de busca.


Astronomia
Fonte: http://mundogeografico.com.br/curso/

     Não convém que aplaudamos e propaguemos a proposta de infantilização de nossas mentes. Somente o livre debate de ideias pode nos mostrar os caminhos que valem a pena serem trilhados. E cabe a cada um de nós, livremente, fazermos nossas próprias escolhas. É claro que, para que os debates ocorram, faz-se necessário que ouçamos e respeitemos opiniões diferentes das nossas. O boicote proposto à livre manifestação do trabalho e do pensamento é, indubitavelmente, a oferta de um mesmo "cálice" retrógrado e generalizado.

     Torço e espero que o governo brasileiro, que, democraticamente eleito, bem ou mal, é agora o meu governo e o governo de todos, tenha maturidade para aceitar, debater e avaliar, de forma sensata, todas as propostas de construção de um país mais justo e solidário que vierem a ser formuladas por sonhadores e pensadores de quaisquer tendências políticas; que, enfim, as escolhas que forem feitas, sejam aquelas que privilegiem o livre caminhar e a sobrevivência das utopias.

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*A mensagem: "Alcione; André Singer; Barbara Gancia; Beth Carvalho; Camila Pitanga; Carlinhos Brown; Chico Buarque; Chico César; Chico Pinheiro; Cristiana Lôbo; Delfim Netto; Dinho Ouro Preto; Emir Sader; Fábio Konder Comparato; Felipe Santa Cruz; Fernanda Torres; Fernando Morais; Frei Betto; Gilberto Gil; Gregorio Duvivier; Guilherme Boulos; Jô Soares; José de Abreu; JucaKfouri; Kennedy Alencar; Laerte Coutinho; Leandro Karnal; Leonardo Attuch; Leonardo Boff; Leonardo Sakamoto; Letícia Sabatella; Luís Carlos Bresser-Pereira; Luis Fernando Verissimo; Luis Nassif; Luiz Carlos Barreto; Luiz Gonzaga Belluzzo; Luiza Trajano (Magazine Luiza); Marcelo Adnet; Marcio França; Maria Rita Kehl; Marieta Severo; Marilena Chaui; Mário Sérgio Cortella; Mino Carta; Miriam Leitão; Osmar Prado; Pablo Villaça; Paulo Betti; Paulo Henrique Amorim; Paulo Nogueira Batista Jr.; Pedro Bial; Preta Gil; Reinaldo Azevedo; Renato Janine Ribeiro; Serginho Groisman; Tico Santa Cruz; Tonico Pereira; Viviane Mosé; Vladimir Safatle; Xico Sá; Wagner Moura - Não comprem mais nada deles. Não assistam (a) seus  programas, não leiam suas colunas. Não comprem seus livros, não vão às suas peças de teatro, não comprem seus CDs.. Eles precisam saber que não será impune atentar contra a Democracia. Viver as custas do Capitalismo e difundir Comunismo/Socialismo, é no mínimo falta de caráter. - *NÃO ESQUEÇA DE COMPARTILHAR!!!*
**Em pesquisa realizada na internet, o site a seguir mencionado atribui a autoria do referido artigo ao economista Rodrigo Constantino (http://www.chumbogordo.com.br/22881-silencio-a-gente-ja-nao-sabe-nem-se-tambem-pede-a-eles-para-ficar-melhor-sem-ruidos/)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

INCOMODADO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
"A Televisão" - Chico Buarque
https://www.youtube.com/watch?v=PBkIp5WmO5I


     Tudo está muito bem arranjado. Tudo sempre esteve assim, bem arranjado. A qualquer momento posso erguer a cabeça, redirecionar o olhar e me harmonizar com o que me rodeia: as árvores, os jardins, os vizinhos, as casas, o movimento nas ruas, os cafés, as pessoas... Mas não devo me distanciar dos interesses e valores presentes. Para não me tornar retrógrado e ultrapassado devo permanecer de cabeça baixa, sem observar, sem notar, sem ter tempo para pensar, sem me atentar para o mundo ao meu redor... 

     - Não se tem mais paciência para atenções ao mundo ao redor...

     As distâncias foram vencidas... De cabeça baixa, o planeta encolheu, a vida encolheu, eu encolhi...

     Sigo olhando para baixo; limito o meu campo de visão a uma tela em forma de retângulo. Seis por doze; setenta e dois centímetros quadrados: essa é a área de captação da minha visão - limite de inspiração para minhas emoções.

     Sobre a superfície dessa tela o mundo gira em um deslizar de dedos; nela, o planeta dá voltas sem sabor, sem perfume, sem calor. Na esteira das forças que conduzem a sua dinâmica o planeta segue girando... passo eu, passamos nós: alma congelada, alma esvaziada, alma anestesiada; alma esmagada, alma virtual.


"Melancholy" (2012) - Albert Gyorgy
Fonte: https://www.jornalterral.com.br/mt/o-vazio-existencial

     - Facilitou!, admito. Aplaudo todas as facilidades. Também faço e preciso fazer uso de tudo o que a tecnologia proporciona.

     Ah... mas essa erosão promovida pela tecnologia, essa indiferença, essa ausência de sensibilidade em relação ao que está por trás da tela... essa necessidade de se ter, para ser, a própria imagem deslizando pelas redes sociais...

     - Isso incomoda!