quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

POR QUE SHAKESPEARE É CONSIDERADO UM GÊNIO? (E O QUE O MAURO TEM A VER COM ISSO?)


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Johann Pachelbel - Canon in D Major
London Symphony Orchestra


     O meu amigo Mauro presenteou-me com um livro: "William Shakespeare - the complete works" (as obras completas).


Capa do livro que ganhei - Foto: arq. pessoal

     Em língua inglesa, o livro, belíssimo, com 1274 páginas, foi publicado em 1988 pela Oxford University Press. Lá em casa, a minha esposa, que participa na qualidade de coordenadora de um grupo de estudos da obra de Shakespeare, ficou encantada. Ao ver o livro, eu e ela trocamos ideias e concordamos no entendimento de que traduções nem sempre alcançam o espírito do que foi escrito pelo autor. Sei que, em seu grupo, cada um dos membros participantes acompanha os estudos em edições diferentes dos livros, portanto, com tradutores e traduções diferentes. Não posso ser egoísta e manter o livro só para mim - que, aliás, pelo volume, tenho páginas e mais páginas a serem lidas pela vida inteira - e nem sei se darei conta. Sinto-me na obrigação de deixar que essa edição que ganhei crie asas, que seja utilizada também pela minha esposa (Denise) e seu grupo. Assim, poderão ler os trechos das obras de Shakespeare traduzidas e, em seguida, coroar o entendimento que poderão ter consultando o texto na língua do autor. Fiquei contente em pensar no enriquecimento que a obra pode levar para o grupo. Mas fiquei curioso em descobrir os motivos que levam tanta gente, até hoje, a querer ler as obras de Shakespeare, quando há tantos outros autores modernos, mesmo antigos, a serem lidos. O enredo das tragédias do Shakespeare me parecem tão simples, tão juvenis...

     Por isso é que eu, aprendiz de tudo, fico me perguntando: "Por que será que o Shakespeare é considerado um gênio?"


Willliam Shakespeare ("Retrato de Chandos") 
Atribuída a artista inglês - séc. XVII - https://pt.wikipedia.org/wiki/William_Shakespeare

     Bem, em uma pesquisa rápida, li que o destaque da obra de Shakespeare não está tanto no enredo, mas, especialmente, na exposição que ele faz dos sentimentos contidos na alma do homem.

     Parece difícil, não é? Mas... calma, vou tentar me expressar melhor. Imagine que o homem da segunda metade do século XVI até os primeiros anos do século XVII, época em que Shakespeare viveu, levava uma vida com olhos voltados apenas para fora de si mesmo: a vida se resumia em nascer, passar os dias, e morrer. Ele acreditava que seu destino dependia apenas da vontade de entes superiores que regiam o universo. Shakespeare levou o homem ao palco e mostrou que ele mesmo poderia escolher seu destino: "Ser ou não ser?", ou seja, "o que fazer de minha própria vida?", é uma das indagações que ele mostra que podemos fazer. Com elas, expondo as tormentas da alma, Shakespeare inspira o homem a buscar, pela reflexão, um sentido para a sua existência, podendo assim se conhecer melhor e fazer a escolha de seus  próprios caminhos.

     Shakespeare, em suas obras, representa a natureza humana em sua variedade: em "Hamlet" está a traição, a cobiça, o desejo de vingança, o questionamento a respeito do valor da vida e o que fazer dela; em "Romeu e Julieta", as rixas, as rivalidades, o amor e a paixão; em "Otelo", o ciúme, a vingança; em "Rei Lear", a transitoriedade do poder; em "Macbeth", a ambição, a sede pelo poder...

     Pensando na evolução do homem ao longo do tempo, de simples folha solta ao assopro dos ventos para condutor de seu próprio destino, pelo conhecimento de si mesmo, agradeço ao Mauro pelo presente que me deu, inspirando-me a querer ir um pouco mais adiante na tentativa de me conhecer melhor por meio da leitura e da reflexão a respeito das obras de Shakespeare... E, ainda, agradeço ao Mauro por me fazer ter vontade de bisbilhotar com maior intensidade, em diálogos domésticos, os estudos e as descobertas que a minha mulher e seu grupo andam fazendo.


Meu amigo e Companheiro, Mauro Porto
Foto: Rotary Club de Ribeirão Preto - Oeste
  

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

CÂMARA MUNICIPAL DE GUARÁ, SP: 17 DE JANEIRO DE 2020



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Pauline Malbaux (oboe ); Marc Benzekri (violin) French Chamber Orchestra (Paris) Horst Sohm (Conductor/Leitung) Johann Sebastian Bach: Concerto for Oboe and Violin in D Major (BWV 1060)



(Na última sexta-feira, dia 17 de janeiro, foi realizada uma cerimônia na Câmara Municipal de Guará: as Sras. Denise L. R. Antônio e Sherri A. R. Cavasisni foram agraciadas com o título distintivo de "Cidadãs Honorárias de Guará". Na mesma cerimônia, o Sr. Sahid Elias Antônio e eu recebemos a "Medalha do Mérito Legislativo". Na oportunidade, com as seguintes palavras expressei meu contentamento e minha gratidão.)


Da esq. p/ direita: Presidente da Câmara, Vereadora Regina; Vereadora Bibi, com filho; Sr. Sahid Elias (sentado); Dra. Denise; Sra. Sherri; Elias; Vereadora Maria Amélia; Vereador Rafael
Foto: Câmara Municipal


Exma. Sra. Presidente da Câmara Municipal de Guará, Regina Coelho;
Senhores homenageados ocupantes da Mesa;
Senhores vereadores;
Senhoras e senhores;
Meus amigos e amigas:

          Fiquei muito surpreso com a notícia de que receberia esse título na noite de hoje. Nunca imaginei que a minha ligação afetiva com Guará pudesse levar a tanto. E o responsável, certamente, é o espírito generoso da vereadora Bibi. A vereadora Bibi, com sensatez e nobreza de gestos, consegue enxergar bondade e comprometimento com o Município em cada uma das pessoas que por ela passam. Foi a vereadora Bibi, portanto, quem inspirou os membros desta Casa a me verem merecedor desta distinção, que vai muito além do meu merecimento. Por tudo isso, Bibi, te agradeço: muito obrigado.

         Reconheço que nunca me distanciei de Guará. Não consigo me distanciar daqui. A cidade e os habitantes que conheci, e que conheço, foram e são responsáveis pela minha formação. Deram-me uma identidade. Sou parte de Guará, e Guará é parte de mim.

         Por isso, por onde quer que eu vá, eu me expresso com o aprendizado colhido aqui. E esse vínculo que tenho com a cidade me é tão caro, que procurei traduzi-lo no meu primeiro livro, exclusivamente dedicado a Guará, e que foi lançado no ano retrasado (inclusive aqui na Câmara).

         Na verdade, não somente eu, mas ninguém consegue se desvencilhar do local onde as próprias raízes estão fincadas. Se as vezes me sinto confuso, é a lembrança do quintal de minha casa, e a paz da rua onde nasci, aqui de Guará, que conseguem me acalmar; se as vezes me vejo triste e desesperançoso, é a imagem dos sorrisos amigos que recebo em Guará que me dão um novo alento; se as vezes levo um tropeção pelos caminhos da vida, são os exemplos de superação e as referências que tenho em Guará que fazem com que eu me recupere.

         Muitas vezes saio caminhando pela cidade simplesmente para rever as casas, as árvores e as esquinas com as quais desenvolvi uma grande cumplicidade. Pisar o mesmo solo por onde passaram tantas pessoas queridas, que ainda vivem em mim e comigo, é recuperar energias para poder seguir em frente. Por isso estou sempre por aqui.

         Todo ser humano precisa respeitar e se abastecer dos ensinamentos de sua ancestralidade. Aquele que deixa de lado a terra que o viu nascer, joga fora a sua identidade, o seu patrimônio cultural e afetivo, e segue os rumos do vazio.

         Assim, quero agradecer e louvar aos membros desta Casa. Vocês, após debates que celebram a necessária e construtiva divergência de ideias, com decisões nem um pouco fáceis, promovem a afirmação da identidade de um povo, e a construção de uma cidadania participativa.

Reconhecer e apresentar os méritos dos habitantes de uma comunidade é, também, uma função dos administradores públicos. O homem desenvolve sua autoestima quando se conhece, quando aprende a valorizar as referências que tem, e quando toma suas decisões auxiliado por elas.

         As histórias da cidade, dos guaraenses, das muitas decisões administrativas aqui tomadas, sempre passaram pela esquina da Deputado João de Faria com a antiga estrada de ferro Mogiana – mais precisamente pela loja de calçados do Sr. Milim. Sem nunca ter ocupado qualquer cargo público, seja por eleição ou nomeação, o Sr. Milim vive de amores pela cidade. Por intermédio dele, muitos jovens obtiveram bolsas de estudo para que pudessem se preparar para a vida; o desenho urbano da cidade tomou forma em decorrência de estudos propostos inclusive por ele; a arborização da cidade recebeu a intervenção do Sr. Milim e de seus irmãos, os quais deixaram seus nomes em duas das escolas aqui existentes. Além disso, nomes, personagens e fatos edificantes ocorridos em Guará foram levados à televisão, nas telenovelas “O Casarão”, da TV Globo, e “Cidadão Brasileiro”, da TV Record, em virtude dos vínculos de amizade do Sr. Milim com o celebrado escritor Lauro Cesar Muniz.

         O sr. Milim, sem dúvida, é um dos nossos grandes marcos referencias. Por tal motivo, a homenagem a ele prestada configura o justo reconhecimento que ele merece. Como guaraense, parabenizo mais uma vez a vereadora Bibi pela iniciativa. Você, Bibi, está contribuindo com a elevação da autoestima do guaraense, por proporcionar a exposição dos bons exemplos do Sr. Milim. Da mesma forma, além de parabenizar, e em nome de minha família, quero te agradecer pela distinção outorgada a este grande guaraense: o meu tio Milim.

Sr. Sahid Elias Antônio (Milim)
Foto: arq. pessoal

         Sou também testemunha de uma história de amor e de apego envolvendo a nossa cidade. Quem poderia dizer que uma jovem estudante, lá do frio e longínquo hemisfério Norte, que tivesse visitado Guará em meados dos anos 70, aqui retornasse todos os anos desde então? Isso seria algo inimaginável! Afinal, o que poderia fazer com que uma jovem norte-americana se autoproclamasse guaraense desde que aqui pisou? Não tenho dúvidas de que o afeto, o carinho, o calor humano do povo de Guará, e em especial, o acolhimento que lhe foi dado pela família Cavasini, foram os responsáveis por isso. Pois foi assim que se deu: em 1974 a Sherri veio a Guará, na qualidade de participante de um programa de intercâmbio do Rotary, criou laços afetivos, identificou amigos, e aqui quis viver. Sou testemunha. A Sherri, nos anos 80, viajou pela região como integrante do grupo musical os Mongóis, realizou trabalhos voluntários, buscou trabalho por aqui, simplesmente para poder estar perto de Guará. A Sherri, enfim, assimilou a cultura, os valores e os hábitos cotidianos de nossa cidade e de nosso povo. E mais: em sua casa, em Shelter Island, nos Estados Unidos, recebeu e hospedou muitos guaraenses. Esse seu apego à Guará, que já conta com mais de 46 anos, é algo digno de ser eternizado em nossa história. Serve, também, como uma grande referência para as futuras gerações. Eu aplaudo e parabenizo a vereadora Regina, proponente do projeto, por ter tomado a devida providência de fazer com que essa história seja para sempre lembrada.

Na qualidade de guaraense, te saúdo Sherri, minha querida amiga: você é, como sempre quis ser, guaraense.

Sherri A. R. Cavasini
Foto: Câmara Municipal de Guará

         Da mesma forma, a Denise. Começou a namorar um guaraense, passou a vir à cidade em finais de semana, conheceu os amigos de seu namorado, foi mineiramente se aproximando, se enfronhando nos valores da cidade, e quando o namorado abriu os olhos, ela já era tão querida pelos guaraenses quanto era por ele mesmo. Em meados dos anos 80, a Denise vinha a Guará todas as noites de sexta-feira, e aqui ficava à espera de seu namorado, que trabalhava até o início da tarde de sábado na antiga "Elekeiróz". Para aproveitar as manhãs de sábado, a Denise, então médica residente no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, dedicava seu tempo para atender, na Santa Casa, aqueles que necessitavam de cuidados médicos ligados à sua área de formação – a psiquiatria. E essa dedicação não se resumiu a isso: mesmo depois, a Denise abriu diversas portas para que muitos guaraenses pudessem ser atendidos e internados lá no HC. Por gestos assim é que a Dra. Denise é merecedora da distinção que hoje lhe é atribuída. Espero que seus gestos, Denise, totalmente despretensiosos e humanitários, sejam seguidos por todos aqueles que vierem a conhecer a sua história. Como guaraense, parabenizo e agradeço ao vereador Rafael e à vereadora Maria Amélia pela apresentação do projeto. Como marido e admirador de seu trabalho, digo a minha esposa: minha cidade, que agora também é sua, te recebe de braços abertos.

Dra. Denise L. R. Antônio
Foto: Câmara Municipal de Guará

         Na administração pública, os atos administrativos são praticados visando fins diversos. Alguns deles buscam aproximar e agradecer autoridades. São atos de gestão política, naturais à própria natureza da administração. Há outros atos, no entanto, que visam simplesmente apresentar aos administrados exemplos edificantes, que constroem uma identidade. Ambos são dotados da mesma nobreza, e precisam ser compreendidos.

         Lembro-me de ter lido, certa vez, que, dois brasileiros receberam, em uma mesma cerimônia, medalhas oferecidas pelo governo francês. Um deles era um funcionário do consulado brasileiro em Paris, que deveria receber a medalha como representante do governo brasileiro; e o outro era o Pelé, que iria receber a medalha em nome próprio. A outorga da medalha, ao representante do governo brasileiro, era um ato puramente político; a medalha entregue ao Pelé, era o reconhecimento de uma distinção pessoal.

As medalhas oferecidas na noite de hoje são exemplos de premiação pelos exemplos pessoais, dignificantes e construtivos, que nos são dados pelo Sr. Milim, pela Sherri e pela Dra. Denise.

Quanto a outorga do título a mim, fico imaginando que, em algum momento, uma eventual revisão deste ato administrativo possa vir a acontecer. E aí, então, torço para que os ocupantes das cadeiras desta Casa continuem tendo bons motivos para seguirem se orgulhando da decisão que tomaram.

Eu estou muito contente. Muito obrigado.

Elias Antônio Neto e Mesa da Câmara, durante a solenidade
Foto: Câmara Municipal de Guará

Guará, 17 de janeiro de 2020

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

É NOITE DE ANO NOVO...


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Antônio Adolfo - "Ingênuo" (Pixinguinha/Benedito Lacerda)
https://www.youtube.com/watch?v=YsTxRoklng8&list=PLTaRWr5sdDvnI-8r0XbsSbbJtyrJbilgg&index=8


     É noite de ano novo e estou distante. Da janela do meu quarto de hotel vejo as luzes de um enorme shopping center e os veículos passando...


Abasto Shopping Center - Buenos Aires
Foto: arq. pessoal (31/dez/18)

     Lá no interior do meu país, na  casa onde residiu minha mãe, desde o seu casamento até a sua partida, as portas e as janelas estarão fechadas: elas aprisionam o tempo que não posso recuperar. Os objetos, em seus respectivos lugares, ainda aguardam...

     Na sala de estar o sofá resiste, as duas poltronas resistem... um aparador enorme e a mesa de centro com seus adornos lembram balas e bombons que ali estiveram em outros tempos; nas paredes, as pinturas que, sob a sombra de uma mangueira, vi nascerem; no canto de entrada, o suporte de guarda-chuvas e um chapéu de palha ressecado lembram muitos reveillons chuvosos ali celebrados...


"O suporte de guarda-chuvas" - Foto: arq. pessoal

     Acima do piano da sala de visitas, afixado na parede e aprisionado em uma moldura de madeira, a imagem do meu pai zela pela memória do que ficou.

Meu pai zela pela memória do que ficou - foto: arq. pessoal

     Na parede do corredor que liga a sala aos quartos, eu e minha irmã, em duas fotos emolduradas, olhamos um para o outro com os olhares de nossos primeiros anos de vida.

     Os colchões nas camas dos três quartos de dormir estão cobertos por colchas lisas, as quais ocultam a ausência de lençóis.

     Na cozinha, a geladeira e o botijão de gás estão vazios; as paredes do filtro de barro, ressecadas.

     Lá fora, no quintal, há um quarto de antigos guardados. Nele, desfigurada, a velha estante de madeira com portas de vidro abriga pincéis, ferramentas e objetos de cerâmica que esqueceram suas próprias histórias...


Foto: arq. pessoal

     As luzes da garagem e do alpendre, nesta passagem de ano, estarão apagadas; tudo estará quieto. Não haverá ceia, não haverá música, não haverá convidados.

     Os anos se passaram, as festas se passaram... as noites de flores, doces, música e sorrisos se passaram...

     É noite de ano novo: a escuridão comandará o tempo... tempo que, dentro da casa materna, esqueceu de passar.

     Aqui onde me encontro, o quarto, a decoração, o Shopping Center e os veículos lá fora nada me dizem...

     É noite de ano novo...


(Buenos Aires, dezembro/2018)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

UMA HISTÓRIA DE AVÓS E DE PLANTAS


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Duo Tercina - "Rosa" (Pixinguinha)


     Minha avó gostava de plantas. Logo na entrada de sua casa, em um canteiro que havia ao lado dos degraus que davam acesso ao alpendre, ela cultivava espadas-de-são-jorge.

     Subindo os degraus, duas samambaias enormes ornamentavam o alpendre: uma delas no seu canto superior direito; a outra, suspensa ao lado de uma imagem de Santa Rita de Cássia moldada em gesso, que passava as noites iluminada pela fragilidade de um foco de luz.

     No quintal, plantas de diversas espécies se espalhavam: orquídeas, antúrios e lírios, bem como manjericão, hortelã, e muitas hortaliças que serviam de tempero para os pratos da culinária libanesa que ela tão bem preparava.

     Na família, entre primos, tios e tias, todos afirmavam que eu era o neto predileto. E eu, de verdade, me sentia daquela forma.



"Minha avó, comigo" - Foto: arq. de família (06/08/1967)


     Quando o mais velho de seus filhos se foi, as plantas da casa de minha avó ficaram esquecidas... O quintal, o alpendre, a sala, os quartos, tudo se entristeceu.

     Mas como nem mesmo a tristeza consegue ser eterna, um dia levei à casa de minha avó, pela primeira vez, para apresentar a ela, minha então namorada. De olhos atentos para aquelas plantas esquecidas, minha namorada foi ao quintal, instintivamente, e deu a elas um pouco de atenção e carinho... carinho suficiente não só para que as plantas, tempos depois, readquirissem vida e beleza, mas também para que a minha avó recuperasse um pouco de sua alegria de viver.

     De uma daquelas plantas renascidas no quintal, um dia minha avó colheu uma muda com a qual presenteou minha irmã. Minha irmã, por sua vez, a plantou no jardim de sua casa... e ela floresceu. 

     No último final de semana, chamou-me a atenção um vasinho com ramos e flores se estendendo pela tela de proteção da sacada do apartamento onde moro. 

Foto: arq. pessoal (10/2019)

     Procurando por informações a respeito da procedência daquela planta, vim a saber que seu broto havia sido colhido no canteiro do jardim da casa de minha irmã; que, assim como minha avó a havia presenteado há mais de 30 anos, minha irmã também presenteara minha esposa (a antiga namorada), com uma muda daquela mesma planta.


Foto: arq. pessoal (10/2019)

     Nunca dediquei tempo suficiente para refletir a respeito das sensações que ultrapassam os sentidos. No entanto, sempre acreditei que uma presença pode ser sentida por outros meios, que não somente os sensoriais. Um objeto, uma palavra, os versos de uma poesia, ou uma planta que desabrocha em um jardim, podem trazer pessoas queridas à nossa presença: aquela planta, em minha casa, é a minha avó olhando por mim.


"A minha avó" - Foto: arq. pessoal (1975)
  

domingo, 1 de dezembro de 2019

HOTEL BRASIL



       Ei-lo ali, na região do Cone Sul, a Oeste da Avenida Atlântica.

Hotel Brasil - Ribeirão Preto, SP
Foto: arq. pessoal (abr/2019)


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João Gilberto - "Canta Brasil" - (Alcyr Pires/David Nasser)

     Integrante da rede de hotéis Mercosul, e com apenas uma administração central, o Hotel Brasil dispõe de 26 quartos, em 5.570 metros quadrados, para receber hóspedes. Dizem que, dele, o que se tem é uma visão do paraíso. Mas eu continuo acreditando que ele nasceu sendo, e pode voltar a ser, o próprio paraíso. De suas janelas são vistas, ainda, enormes palmeiras imperiais, nas quais sabiás fazem seus ninhos. Em outros tempos, representava a certeza de um futuro promissor. Nele já se instalaram hóspedes conhecidos, com perfis bastante diferentes: Dom Pedro II, Artur Bernardes, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart, General Médici, Fernando Collor, FHC, Lula, além de muitos outros Pedros, Marias e Joões. Com o passar dos anos, ele foi perdendo sua imponência e suas riquezas.

     Muitos dos que por ele passaram, conseguiram arruinar suas instalações: de início levavam pequenos cinzeiros, copos com sua logomarca, aparadores; depois passaram a retirar de seus quartos torneiras, fechaduras, artigos de metal... Na sequência, levaram até peças do seu mobiliário. Há pouco começaram a falar dele por intermédio de discursos carregados de ódio, como que buscando fabricar consciências enlatadas desprovidas de qualquer juízo crítico. Ultimamente, além do oxigênio que dentro dele circula, andam levando a lembrança dos ideais que desenharam suas fronteiras e coloriram seus espaços internos...

     Passo os olhos por ele e pelos vãos de suas janelas entreabertas. Ele continua habitado. Mas, ao invés de obreiros verdadeiramente comprometidas com sua reconstrução, observo ali dentro fantasmas de estranha natureza: gerentes indecorosos, pregadores fanáticos, celebridades intolerantes e falsos moralistas travestidos de profetas.


Hotel Brasil - detalhe
Foto: arq. pessoal


     O Hotel Brasil continua de pé, em tijolos sem reboque, sem cor, sem oxigênio respirável, sofrendo as mesmas agruras de que foram vítimas alguns de seus hóspedes idealistas que dele foram expulsos.

     Mas nem tudo é eterno. O imponente Hotel Brasil ainda há de recuperar suas forças para poder cumprir os seus desígnios. Ele ainda há de se reerguer e fazer com que os hóspedes indiferentes às sinalizações da história, que trafegam pela esquerda ou pela direita, envergonhados, se afastem espontaneamente de suas instalações. Por si só, e pela sua grandeza histórica, ele ainda há de promover a abertura de olhos dos carentes de juízo crítico, dos fantasmas intelectualmente miseráveis, dos usurpadores de reboque, de liberdades, de tijolos, de matas, de fiação, de azulejos, de telhas, de mentes, e - especialmente - dos destruidores dos seus encantos...

     Brasil, ainda assim, como posso não dourar os seus brasões?

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

O FILME DA MINHA VIDA


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"O filme da minha vida" - (trailer)
filme dir. por Selton Mello


Nada pode descrever a emoção que senti...

quando caminhei sozinho pela primeira vez,
quando fui à escola para começar a estudar,
quando me equilibrei em uma bicicleta, sem a ajuda do meu pai,
quando li uma palavra, sem o auxílio de um professor;

quando, acanhado, ganhei o primeiro beijo de amor,
quando, desencanado, embebedei-me com champagne,
quando, vitorioso, recebi a notícia de que havia passado no vestibular,
quando, habilidoso, dirigi um carro pela primeira vez;

quando, inseguro, enviei uma carta pedindo um estágio,
quando, orgulhoso, ouvi um elogio pelo meu primeiro trabalho,
quando, envaidecido, vi um texto meu publicado na Universidade,
quando, esperançoso, me inscrevi para estudar na França...

... quando, tremendo de emoção e de frio,
fotografei a Torre Eiffel.


"Quando fotografei a Torre Eiffel pela primeira vez"
Foto: Gabriel - jan/2015

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

MEU NOVO FADO



     A singrar teias do destino, desato as amarras das minhas caravelas. Velejo em direção ao horizonte, além de onde outros ventos sopram novos ares.


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Mariza - "Há uma música do povo"


     Não fossem bravura e coragem, não teria sido ampliado o Velho Mundo. A inquietação lusitana, depois de vencer indescritíveis tormentas, desembarcou no paraíso para transformar em civilizado o que era puro.

     Mas aqui dentro do peito, meu coração permanece ancorado em portos seguros. Ainda assim, conduzindo a mesma saudade e os mesmos sonhos dos que, um dia, do lado de lá, acenavam seus lenços de despedida para os que partiam para cá, enfrento minhas próprias tormentas e vou além-mar: retomo palavras que ilustram os meus anseios, e solto a voz a entoar meu novo fado...

Há uma música do povo
(Poema de Fernando Pessoa, musicado por Mário Pacheco)

Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado —
Que ouvindo-a há um chiste novo
No ser que tenho guardado...
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...
E ouço-a embalado e sozinho...
É essa mesma que eu quis...
Perdi a fé e o caminho...
Quem não fui é que é feliz.
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração...
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

terça-feira, 13 de agosto de 2019

JERUSALÉM


Vitral - Igreja Anglicana - Jerusalém
Foto (detalhe): Flávia M P Ferriani, no Facebook


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Inch'Allah - Adamo

Jerusalém...

...uma inserção na história, nas crenças, nos valores...

...a exposição da luta universal pela sobrevivência traduzida por becos, ruelas, penduricalhos amontoados em lojas, imagens brilhantes em vitrines...

Com trêmulas inscrições nas paredes, e pacificada nos stands comerciais, a cidade se compõe e se mostra...

Montado nos belos vitrais dos grandes templos, o ideal de bondade e solidariedade propõe um caminho... 

Os homens ali, pasmos,
minúsculos diante do que se lhes apresenta,
gigantes dentro de si, 
por sobre as pedras de Jerusalém
testemunham
o milagroso desabrochar de uma papoula.

Velha Jerusalém - Foto: Flávia M P Ferriani


Inch'llah
Salvatore Adamo

J'ai vu l'Orient dans son écrin
Avec la lune pour bannière
Et je comptais en un quatrain
Chanter au monde sa lumière

Mais quand j'ai vu Jérusalem
Coquelicot sur un rocher
J'ai entendu un requiem
Quand sur lui je me suis penché

Ne vois-tu pas humble chapelle
Toi qui murmure "Paix sur la terre"
Que les oiseaux cachent de leurs ailes
Ces lettres de feu: "Danger frontière"

Le chemin mène à la fontaine
Tu voudrais bien remplir ton seau
Arrêtes-toi Marie-Madeleine
Pour eux ton corps ne vaut pas l'eau

Inch'Allah, inch'Allah
Inch'Allah, inch'Allah

Et l'olivier pleure son ombre
Sa tendre épouse son amie
Qui repose sur les décombres
Prisonnière en terre ennemie

Sur une épine de barbelé
Le papillon guète la rose
Les gens sont si écervelés
Qu'ils me répudieront si j'ose

Dieu de l'enfer ou Dieu du ciel
Toi qui te trouve où bon te semble
Sur cette terre d'Israël
Il y a des enfants qui tremblent

Inch'Allah, inch'Allah
Inch'Allah, inch'Allah

Les femmes tombent sous l'orage
Demain le sang sera versé
La route est faite de courage
Une femme pour un pavé

Mais oui j'ai vu Jérusalem
Coquelicot sur un rocher
J'entends toujours ce requiem
Lorsque sur lui je suis penché

Requiem pour six millions d'âmes
Qui n'ont pas leur mausolée de marbre
Et qui malgré le sable infâme
Ont fait pousser six millions d'arbres

Inch'Allah, inch'Allah
Inch'Allah, inch'Allah

Inch'llah (Se Deus quiser)
Salvatore Adamo

Eu vi o Oriente, em sua realidade
Com a lua por bandeira
E eu, em uma quadra, quis
Cantar ao mundo a sua luz

Mas quando eu vi Jerusalém
Papoula sobre um rochedo
Eu ouvi um réquiem
Quando sobre ele eu me postei

Você não vê capela mais humilde
Você que sussurra "Paz na Terra"
Que os pássaros se escondam de suas asas
Essas letras de fogo: "Perigo fronteira"

O caminho leva à fonte
Você quer abastecer o seu balde.
Pare com isso Maria Madalena
Para eles seu corpo não vale a água

Inchallah, inch'Allah
Inchallah, inch'Allah

E a oliveira chora sua sombra
Sua terna esposa, sua amiga
Que descansa sobre os escombros
Prisioneira em território inimigo

Em uma coluna de [arame] farpado
A borboleta batalha contra a rosa
As pessoas são tão estúpidas
Que elas me ignoram se eu arrisco

Deus do Inferno ou do Deus do céu
Você que se encontra onde bem quer
Nesta terra de Israel
Há crianças que tremem

Inshallah, inch'Allah
Inshallah, inch'Allah

As mulheres caem com a tempestade
Amanhã, o sangue será derramado
A estrada é feita de coragem
Uma mulher por andar

Mas sim, eu vi Jerusalém
Papoula sobre um rochedo
eu sempre ouço esse réquiem
Quando sobre ele eu me posto

Requiem por seis milhões de almas
Que não tem seus mausoléus de mármore
E que, apesar da areia atroz,
fez crescer seis milhões de árvores

Inchallah, inch'Allah
Inchallah, inch'Allah