Minha intenção é publicar aqui as coisas que leio, vejo, penso ou observo, e que me fazem sentir que acrescentam. Afinal, as coisas só se tornam inteiramente bonitas quando podem ser compartilhadas e se mostram repletas de significados comuns.
quarta-feira, 8 de abril de 2020
INFORMAÇÃO
Caros amigos e leitores.
Por motivo de adaptações técnicas, precisei criar o IPÊ-AMARELO II, cujo endereço eletrônico é
eliasipeamarelo.blogspot.com
e no qual os textos passaram a ser publicados. Visite-o.
Espero continuar recebendo suas visitas, no novo endereço do blog acima informado.
Um abraço,
Elias
quarta-feira, 18 de março de 2020
"LI BEIRUT"
Fairuz
CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
Fairuz - "Li Beirut"
A Aranjuez, na Espanha, partindo de onde eu estiver, sempre vou: basta eu fechar os meus olhos.
Dessa mesma forma, também vou a Beirute, no Líbano. Mas... a Beirute, ouvindo o Adágio do "Concierto de Aranjuez", em árabe, na voz da Fairuz, eu nunca tinha ido.
Dessa mesma forma, também vou a Beirute, no Líbano. Mas... a Beirute, ouvindo o Adágio do "Concierto de Aranjuez", em árabe, na voz da Fairuz, eu nunca tinha ido.
Quando menino, era a Fairuz quem cantava para mim na vitrola de minha avó. Ouvindo o seu canto, eu visitava cidades e países.
Não entendo nenhuma das palavras que estão na letra de "Li Beirut" - a não ser "Beirut". Mas, convenhamos: é preciso entender?
- "Beleza não se explica; beleza, a gente sente!"... e toda destruição daquilo que a gente sente, é um pouco da nossa própria morte...
Não entendo nenhuma das palavras que estão na letra de "Li Beirut" - a não ser "Beirut". Mas, convenhamos: é preciso entender?
- "Beleza não se explica; beleza, a gente sente!"... e toda destruição daquilo que a gente sente, é um pouco da nossa própria morte...
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
SATANÁS E A QUEIMA DE LIVROS
"Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas" (H. Heine)
(Memorial - queima de livros de 1933 - Praça Römemberg, Frankfurt, Alemanha)
Enchentes, terremotos, agentes infecciosos, guerras e regimes totalitários são responsáveis por muitas mortes em todos os cantos do mundo. Mas não só de pessoas.
O registro do pensamento do homem - que, desde Gutenberg*, tem sido transmitido e mantido por livros - de tempos em tempos também foi objeto de destruição. Houve um tempo, aqui no Brasil, em que pensar, debater, questionar e manifestar o conteúdo do pensamento eram exercícios vigiados, passíveis de punição. Por que será que ainda hoje, aqui no nosso país, padecemos da falta de lideranças políticas dignas de respeito e admiração? A perseguição de propagadores de ideias não alinhadas ao convencional de um determinado tempo promove uma perda imediata; mas a restrição da liberdade de expressão produz efeitos que afetam muitas gerações.
O motivo para que esse absurdo seja sustentado é muito variável: destruição de aspectos culturais de uma nação, como ocorreu durante a colonização da América, quando muitos dos manuscritos maias e astecas foram destruídos (1560); perseguição religiosa, como ocorreu com as traduções da Bíblia feitas por Martinho Lutero; "combustível" de incêndios, como ocorreu em 1813 com a queima de livros da Biblioteca do Congresso para incendiar o Capitólio dos EUA, feita pelos ingleses durante a Batalha de Washington; destruição de uma ideologia, como aconteceu na União Soviética, nos anos 20, para combater ideologia ocidental, e na Alemanha nazista, em 1933, com a chegada de Hitler ao poder.
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O registro do pensamento do homem - que, desde Gutenberg*, tem sido transmitido e mantido por livros - de tempos em tempos também foi objeto de destruição. Houve um tempo, aqui no Brasil, em que pensar, debater, questionar e manifestar o conteúdo do pensamento eram exercícios vigiados, passíveis de punição. Por que será que ainda hoje, aqui no nosso país, padecemos da falta de lideranças políticas dignas de respeito e admiração? A perseguição de propagadores de ideias não alinhadas ao convencional de um determinado tempo promove uma perda imediata; mas a restrição da liberdade de expressão produz efeitos que afetam muitas gerações.
O motivo para que esse absurdo seja sustentado é muito variável: destruição de aspectos culturais de uma nação, como ocorreu durante a colonização da América, quando muitos dos manuscritos maias e astecas foram destruídos (1560); perseguição religiosa, como ocorreu com as traduções da Bíblia feitas por Martinho Lutero; "combustível" de incêndios, como ocorreu em 1813 com a queima de livros da Biblioteca do Congresso para incendiar o Capitólio dos EUA, feita pelos ingleses durante a Batalha de Washington; destruição de uma ideologia, como aconteceu na União Soviética, nos anos 20, para combater ideologia ocidental, e na Alemanha nazista, em 1933, com a chegada de Hitler ao poder.
Na América do Sul, em 1973, a ditadura chilena queimou centenas de livros como forma de censura.
O Brasil também foi vítima desse absurdo. Em novembro de 1937 a ditadura do Estado Novo incinerou, na presença de centenas de pessoas em praça pública, uma grande quantidade de livros ditos subversivos. Nos dias anteriores, nas livrarias da cidade de Salvador, os livros da autoria de Jorge Amado e de outros autores que eram considerados, conforme se dizia à época, "simpatizantes do credo vermelho", haviam sido apreendidos. De Jorge Amado, foram incinerados:
888 exemplares de Capitães da Areia;
232 exemplares de Mar Morto;
89 exemplares de Cacau;
93 exemplares de Suor;
267 exemplares de Jubiabá;
214 exemplares de País do Carnaval.
E não foram somente livros de Jorge Amado: José Lins do Rego também entrou na dança. De sua autoria foram apreendidos e queimados:
15 exemplares de Doidinho;
26 exemplares de Pureza;
13 exemplares de Bangue;
04 exemplares de Moleque Ricardo;
14 exemplares de Menino de Engenho.
E, como se as liberdades expressas na Constituição Federal de 1946 não tivessem servido para nada, o país voltou a perseguir pensadores - e livros. Com a publicação da Lei 1050/67, a censura no Brasil foi (re)instituída. E, depois, o Decreto-Lei 1077 de 26 de janeiro de 1970, deu a ela mais força:

Incineração noticiada em jornal
E, como se as liberdades expressas na Constituição Federal de 1946 não tivessem servido para nada, o país voltou a perseguir pensadores - e livros. Com a publicação da Lei 1050/67, a censura no Brasil foi (re)instituída. E, depois, o Decreto-Lei 1077 de 26 de janeiro de 1970, deu a ela mais força:
Art. 1º - Não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação.
Art. 2º - Caberá ao Ministério da Justiça, através do Departamento de Polícia Federal verificar, quando julgar necessário, antes da divulgação de livros e periódicos, a existência de matéria infringente da proibição enunciada no artigo anterior.
Parágrafo único - O Ministro da Justiça fixará, por meio de portaria, o modo e a forma da verificação prevista neste artigo.
Art. 3º - Verificada a existência de matéria ofensiva à moral e aos bons costumes, o Ministro da Justiça proibirá a divulgação da publicação e determinará a busca e a apreensão de todos os seus exemplares.
Mas, qual o significado de "moral e bons costumes"? Eu, angustiado por natureza, fico pensando nessas idas e vindas da história. Com tanta fake news circulando nas mídias sociais, com tanta notícia comprada, direcionada, manipulada, um mínimo de consciência crítica e de bom senso me faz acreditar que o significado de "moral" e "bons costumes" não pode ser o resultado de qualquer imposição que possa levar à proibição do livre exercício de pensamento e de sua expressão. Outro dia li que Heinrich Heine (1797-1856), poeta alemão, em seu tempo, preocupado com o que andava lendo, pensando e observando, acabou por manifestar o seu temor: "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas". Eu, que olho para o céu e enxergo nuvens que talvez nem existam, acrescento aos temores do Heirich Heine os meus próprios: "restrições chegam a conta-gotas para serem servidas, depois, em caldeirões de agentes tóxicos".
- "Oh, meu Deus", raciocino, "livrai-me desses pensamentos! Vivemos outros tempos!"
- "É, mas as idas e vindas da história..." - ouço, do silêncio.
E concluo:
- "Chega! Sai Satanás! Cada besteira...!"
__________________________
*Johannes Gutenberg - (aprox. 1398 - 1468) - alemão, desenvolveu um sistema mecânico que deu início à revolução da imprensa.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
A ELIZETH VEIO ME VISITAR
CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
Elizeth Cardoso - "Canção de amor"
https://www.youtube.com/watch?v=y9Bt6_UvXC0
Hoje de manhã, ao acessar um site voltado para a criação artística no Brasil, "dei de cara" com a Elizeth Cardoso sorrindo para mim. Por um minuto olhei para aquela foto enorme, antiga, ainda em preto e branco, e pensei nas surpresas que a vida nos proporciona: surpresas, coincidências ou sei lá o quê. Talvez um sinal da imortalidade das almas, não sei...
O fato é que, no final da tarde de ontem, ainda em meu escritório, eu tinha ouvido a Ária-Cantilena, das Bachianas nº 5 do Villa-Lobos, em gravação feita pela Elizeth Cardoso. E como eu não conhecia aquela gravação, voltei para casa com o coração entalado na garganta, doido para me sentar calado e ficar pensando em coisas distantes... "pelo céu vazio de esperança... regressar para os meus, ao meu lugar..." - conforme cantado na letra poética da Ária Cantilena, escrita por David Nasser*.
Elizeth Cardoso
Fonte: https://nossosvizinhosilustres.blogspot.com/2018/03/nossos-vizinhos-ilustres-e-os-60-anos.html
Só sei dizer que ao chegar em casa, à noite, abri a porta da sala de visitas, sentei-me no sofá, abracei o meu violão, toquei e cantei a "Canção de Amor", diversas vezes, para homenagear a minha ilustre visitante: "Saudade, torrente de paixão, emoção diferente, que aniquila a vida da gente, uma dor que eu não sei de onde vem...".
Que grata visita!
"Volte sempre, Elizeth!"
Ária Cantilena (Bachianas nº 5)
(Villa-Lobos. Texto:
David Nasser)
Vai
Por este céu vazio
de esperança
Vai minha alma
regressar
Para os meus ao meu
lugar
Este chão de todos
nós
Quando alguém me
escutar
Vai lembrar
Vai lembrar a minha
voz, as preces
Que deixei quando
parti
dando tudo pra não
ir
Ai... A
eternidade...
Ai... Este meu
grito...
Ai... Tudo
perdido...
Ai... A esperança.
O infinito.
|
Canção de Amor
(Elano de Paula/Chocolate)
Saudade torrente de
paixão
Emoção diferente
Que aniquila a vida
da gente
Uma dor que não sei
de onde vem
Deixaste meu
coração vazio
Deixaste a saudade
Ao desprezares
aquela amizade
Que nasceu ao
chamar-te meu bem
Nas cinzas do meu
sonho
Um hino então
componho
Sofrendo a
desilusão
Que me invade
Canção de amor,
saudade!
Saudade
|
__________________________
*David Nasser (1917-1980) - compositor e jornalista brasileiro, filho de imigrantes libaneses.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
NOTAS A RESPEITO DO Sr ALFREDO, DO VIZINHO DA Sra. RIORDAN, E DO Sr. OVE

Rolf Lassgard, no papel de Sr. Ove
https://luizandreoli.com.br/critica-um-homem-chamado-ove-a-man-called-ove/
https://luizandreoli.com.br/critica-um-homem-chamado-ove-a-man-called-ove/
"Coitado do 'seu' Alfredo..."
(Vinícius de Moraes)
Havia, aqui no Brasil, um homem que vivia trancado em seu próprio mundo. Chamava-se Alfredo*. Tinha um jeito distinto, porém entristecido. Morava só. Ninguém o visitava. Suas companhias eram dois animais: um louro e um gato. Aprisionado em sua solidão, o senhor Alfredo padecia da falta de carinho e atenção. Porque parecia bom, e procurando demonstrar simpatia, seu vizinho do lado sempre o cumprimentava.
Na Inglaterra, ao que tudo indica, a Sra. Riordan também tinha um vizinho que morava no andar imediatamente abaixo do seu**. Era tão solitário quanto o senhor Alfredo. Mas, ao contrário do senhor Alfredo, ele não era nem um pouco amigável. Ranzinza, não gostava que dirigissem a palavra a ele: vivia trancado em sua casa, dentro de um quarto, e dentro de si mesmo. Quando era visto, transmitia um mal estar que afastava as pessoas. Por tal motivo, ninguém procurava se aproximar dele.
Na Suécia, um outro homem também levava a vida no mesmo enclausuramento voluntário que o senhor Alfredo e o vizinho da Sra. Riordan: chamava-se Ove***. Era um antigo funcionário de uma empresa ferroviária. Por ser rigorosamente exigente com tudo e com todos, inclusive no exercício do cargo de síndico do condomínio onde morava, afastava qualquer tentativa de aproximação que alguém pudesse querer. Era também muito amargurado. Viúvo, morava só.
Apesar das semelhanças, a vida traçou destinos diferentes para eles.
Na Inglaterra, ao que tudo indica, a Sra. Riordan também tinha um vizinho que morava no andar imediatamente abaixo do seu**. Era tão solitário quanto o senhor Alfredo. Mas, ao contrário do senhor Alfredo, ele não era nem um pouco amigável. Ranzinza, não gostava que dirigissem a palavra a ele: vivia trancado em sua casa, dentro de um quarto, e dentro de si mesmo. Quando era visto, transmitia um mal estar que afastava as pessoas. Por tal motivo, ninguém procurava se aproximar dele.
Na Suécia, um outro homem também levava a vida no mesmo enclausuramento voluntário que o senhor Alfredo e o vizinho da Sra. Riordan: chamava-se Ove***. Era um antigo funcionário de uma empresa ferroviária. Por ser rigorosamente exigente com tudo e com todos, inclusive no exercício do cargo de síndico do condomínio onde morava, afastava qualquer tentativa de aproximação que alguém pudesse querer. Era também muito amargurado. Viúvo, morava só.
Apesar das semelhanças, a vida traçou destinos diferentes para eles.
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Simon and Garfunkel - "A most peculiar man"
Estes três homens tinham um mesmo plano. Mas apenas o sr. Alfredo e o vizinho da sra. Riordan atingiram seus objetivos: o sr. Ove, diferente dos outros dois, encontrou novas motivações e desviou-se do projeto pessoal que havia traçado. Assim, tanto o sr. Alfredo quanto o vizinho da sra. Riordan, cada qual em seu tempo e em sua respectiva casa, preencheu seu isolamento e sua solidão com gás de botijão de cozinha: por asfixia, deram fim às próprias vidas.
Quanto ao sr. Ove, por ironia do destino, uma família barulhenta mudou-se para o condomínio no qual ele residia. E nessa família, uma simpática imigrante iraniana, não se assustando com a sua sisudez, procurou aproximar-se dele. Dessa forma ela e sua família foram ocupando espaços em sua vida, e promovendo nele uma tremenda e vagarosa humanização. Essa aproximação fez com que o sr. Ove se desviasse de seus planos.

Cena do filme
O sr. Alfredo e o vizinho da sra. Riordan pareciam bastante diferentes. O Sr. Alfredo, diferente do vizinho da sra. Riordan, vivia na companhia de dois animais (um louro e um gato) - o que é, sem dúvida, um sinal de afetividade. Em relação ao vizinho da sra. Riordan, não há notícias de que alguma pessoa ou animal convivesse com ele.
Dois outros detalhes também apontam para as diferenças existentes entre o Sr. Alfredo e o vizinho da Sra. Riordan. O Sr. Alfredo, conforme foi noticiado, preocupou-se em expor os motivos que o levaram à asfixia. Essa preocupação deixa claro que ele tinha alguma consideração para com qualquer um que eventualmente quisesse conhecer os motivos que o haviam levado a por fim à própria vida: em bilhete deixado, ele contou que, simplesmente, estava cansado de viver. Mas o vizinho da Sra. Riordan não se preocupou nem um pouco em se explicar. Dele, somente se sabia que tinha um irmão, em algum lugar. Também me pareceu muito curioso que, do vizinho da Sra. Riordan, nem ao menos o nome fosse conhecido; ao passo que, apesar do desconhecimento do sobrenome, era Alfredo o nome daquele homem que tinha um louro e um gato de estimação.
Quanto ao sr. Ove, por ter tido sua atenção desviada para o próximo, encontrou um sentido para a própria vida: começou a enxergar a existência de amor, dedicação e carinho em torno de si. Viu também que era por esse caminho que poderia ser feliz. E assim, em um dia qualquer, e por vontade alheia à sua, foi morar no paraíso.
_____________________
*Conforme contado por Vinícius de Moraes, na letra da canção "Um homem chamado Alfredo" (Vinícius/Toquinho)
**Conforme cantado por Paul Simon e Arthur Garfunkel na canção "A most peculiar man" (Paul Simon). A canção nasceu a partir de uma nota lida pelo Paul Simon em um jornal londrino.
***Conforme mostrado no filme sueco "Um homem chamado Ove", dirigido por Hannes Holm (2015)
A Most
Peculiar Man
He was a most
peculiar man
That's what
Mrs. Riordan says and she should know
She lived
upstairs from him
She said he
was a most peculiar man
He was a most
peculiar man
He lived all
alone within a house
Within a room,
within himself
A most
peculiar man
He had no
friends, he seldom spoke
And no one in
turn ever spoke to him
'Cause he
wasn't friendly and he didn't care
And he wasn't
like them
Oh no! He was
a most peculiar man
He died last
Saturday
He turned on
the gas and he went to sleep
With the windows
closed so he'd never wake up
To his silent
world and his tiny room
And Mrs.
Riordan says he has a brother somewhere
Who should be
notified soon
And all the
people said
"What a
shame that he's dead
But wasn't he
a most peculiar man?
|
Um Homem Muito
Peculiar
Ele era um
homem muito peculiar
Foi o que a
Sra. Riordan diz e ele deve saber
Ela morava no
andar acima dele
Ela disse que
ele era um homem muito peculiar
Ele era um
homem muito peculiar
Ele morava só
dentro da casa
Dentro de um
quarto, dentro de si
Um homem muito
peculiar
Ele não tinha
amigos, ele raramente falava
E ninguém por
sua vez falava com ele
Pois ele não
era amigável e não ligava
E ele não era
como os demais
Oh não! Ele
era um homem muito peculiar
Ele morreu no
último sábado
Ele ligou o
gás e foi dormir
Com as janelas
fechadas para que nunca acordasse
Para seu mundo
silencioso e seu pequeno quarto
E Sra. Riordan
diz que ele tem um irmão em algum lugar
Que deveria
logo ser notificado
E todo o povo
dizia
"Que pena
que ele morreu
Mas não era
ele um homem muito peculiar?
|
Um Homem
Chamado Alfredo
O meu vizinho
do lado
Se matou de
solidão.
Abriu o gás, o
coitado,
O último gás
do bujão.
Porque ninguém
o queria,
Ninguém lhe
dava atenção.
Porque ninguém
mais lhe abria
As portas do
coração.
Levou com ele
seu louro
E um gato de
estimação.
Ah! Quanta
gente sozinha,
Que a gente
mal adivinha.
Gente sem vez
para amar,
Gente sem mãos
para dar,
Gente que
basta um olhar, quase nada...
Gente com os
olhos no chão
Sempre pedindo
perdão.
Gente que a
gente não vê
Porque é quase
nada.
Eu sempre o
cumprimentava
Porque parecia
bom.
Um homem por
trás dos óculos,
Como diria
Drummond.
Num velho
papel de embrulho
Deixou um
bilhete seu
Dizendo que se
matava
De cansado de
viver.
Embaixo assinado Alfredo,
Mas ninguém
sabe de que.
|
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
POR QUE SHAKESPEARE É CONSIDERADO UM GÊNIO? (E O QUE O MAURO TEM A VER COM ISSO?)
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Johann Pachelbel - Canon in D Major
London Symphony Orchestra
O meu amigo Mauro presenteou-me com um livro: "William Shakespeare - the complete works" (as obras completas).
Capa do livro que ganhei - Foto: arq. pessoal
Em língua inglesa, o livro, belíssimo, com 1274 páginas, foi publicado em 1988 pela Oxford University Press. Lá em casa, a minha esposa, que participa na qualidade de coordenadora de um grupo de estudos da obra de Shakespeare, ficou encantada. Ao ver o livro, eu e ela trocamos ideias e concordamos no entendimento de que traduções nem sempre alcançam o espírito do que foi escrito pelo autor. Sei que, em seu grupo, cada um dos membros participantes acompanha os estudos em edições diferentes dos livros, portanto, com tradutores e traduções diferentes. Não posso ser egoísta e manter o livro só para mim - que, aliás, pelo volume, tenho páginas e mais páginas a serem lidas pela vida inteira - e nem sei se darei conta. Sinto-me na obrigação de deixar que essa edição que ganhei crie asas, que seja utilizada também pela minha esposa (Denise) e seu grupo. Assim, poderão ler os trechos das obras de Shakespeare traduzidas e, em seguida, coroar o entendimento que poderão ter consultando o texto na língua do autor. Fiquei contente em pensar no enriquecimento que a obra pode levar para o grupo. Mas fiquei curioso em descobrir os motivos que levam tanta gente, até hoje, a querer ler as obras de Shakespeare, quando há tantos outros autores modernos, mesmo antigos, a serem lidos. O enredo das tragédias do Shakespeare me parecem tão simples, tão juvenis...
Por isso é que eu, aprendiz de tudo, fico me perguntando: "Por que será que o Shakespeare é considerado um gênio?"
Bem, em uma pesquisa rápida, li que o destaque da obra de Shakespeare não está tanto no enredo, mas, especialmente, na exposição que ele faz dos sentimentos contidos na alma do homem.
Parece difícil, não é? Mas... calma, vou tentar me expressar melhor. Imagine que o homem da segunda metade do século XVI até os primeiros anos do século XVII, época em que Shakespeare viveu, levava uma vida com olhos voltados apenas para fora de si mesmo: a vida se resumia em nascer, passar os dias, e morrer. Ele acreditava que seu destino dependia apenas da vontade de entes superiores que regiam o universo. Shakespeare levou o homem ao palco e mostrou que ele mesmo poderia escolher seu destino: "Ser ou não ser?", ou seja, "o que fazer de minha própria vida?", é uma das indagações que ele mostra que podemos fazer. Com elas, expondo as tormentas da alma, Shakespeare inspira o homem a buscar, pela reflexão, um sentido para a sua existência, podendo assim se conhecer melhor e fazer a escolha de seus próprios caminhos.
Shakespeare, em suas obras, representa a natureza humana em sua variedade: em "Hamlet" está a traição, a cobiça, o desejo de vingança, o questionamento a respeito do valor da vida e o que fazer dela; em "Romeu e Julieta", as rixas, as rivalidades, o amor e a paixão; em "Otelo", o ciúme, a vingança; em "Rei Lear", a transitoriedade do poder; em "Macbeth", a ambição, a sede pelo poder...
Pensando na evolução do homem ao longo do tempo, de simples folha solta ao assopro dos ventos para condutor de seu próprio destino, pelo conhecimento de si mesmo, agradeço ao Mauro pelo presente que me deu, inspirando-me a querer ir um pouco mais adiante na tentativa de me conhecer melhor por meio da leitura e da reflexão a respeito das obras de Shakespeare... E, ainda, agradeço ao Mauro por me fazer ter vontade de bisbilhotar com maior intensidade, em diálogos domésticos, os estudos e as descobertas que a minha mulher e seu grupo andam fazendo.
Por isso é que eu, aprendiz de tudo, fico me perguntando: "Por que será que o Shakespeare é considerado um gênio?"

Willliam Shakespeare ("Retrato de Chandos")
Atribuída a artista inglês - séc. XVII - https://pt.wikipedia.org/wiki/William_Shakespeare
Bem, em uma pesquisa rápida, li que o destaque da obra de Shakespeare não está tanto no enredo, mas, especialmente, na exposição que ele faz dos sentimentos contidos na alma do homem.
Parece difícil, não é? Mas... calma, vou tentar me expressar melhor. Imagine que o homem da segunda metade do século XVI até os primeiros anos do século XVII, época em que Shakespeare viveu, levava uma vida com olhos voltados apenas para fora de si mesmo: a vida se resumia em nascer, passar os dias, e morrer. Ele acreditava que seu destino dependia apenas da vontade de entes superiores que regiam o universo. Shakespeare levou o homem ao palco e mostrou que ele mesmo poderia escolher seu destino: "Ser ou não ser?", ou seja, "o que fazer de minha própria vida?", é uma das indagações que ele mostra que podemos fazer. Com elas, expondo as tormentas da alma, Shakespeare inspira o homem a buscar, pela reflexão, um sentido para a sua existência, podendo assim se conhecer melhor e fazer a escolha de seus próprios caminhos.
Shakespeare, em suas obras, representa a natureza humana em sua variedade: em "Hamlet" está a traição, a cobiça, o desejo de vingança, o questionamento a respeito do valor da vida e o que fazer dela; em "Romeu e Julieta", as rixas, as rivalidades, o amor e a paixão; em "Otelo", o ciúme, a vingança; em "Rei Lear", a transitoriedade do poder; em "Macbeth", a ambição, a sede pelo poder...
Meu amigo e Companheiro, Mauro Porto
Foto: Rotary Club de Ribeirão Preto - Oeste
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
CÂMARA MUNICIPAL DE GUARÁ, SP: 17 DE JANEIRO DE 2020
CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
Pauline Malbaux (oboe ); Marc Benzekri (violin)
French Chamber Orchestra (Paris) Horst Sohm (Conductor/Leitung)
Johann Sebastian Bach: Concerto for Oboe and Violin in D Major (BWV 1060)
(Na última sexta-feira, dia 17 de janeiro, foi realizada uma cerimônia na Câmara Municipal de Guará: as Sras. Denise L. R. Antônio e Sherri A. R. Cavasisni foram agraciadas com o título distintivo de "Cidadãs Honorárias de Guará". Na mesma cerimônia, o Sr. Sahid Elias Antônio e eu recebemos a "Medalha do Mérito Legislativo". Na oportunidade, com as seguintes palavras expressei meu contentamento e minha gratidão.)
Da esq. p/ direita: Presidente da Câmara, Vereadora Regina; Vereadora Bibi, com filho; Sr. Sahid Elias (sentado); Dra. Denise; Sra. Sherri; Elias; Vereadora Maria Amélia; Vereador Rafael
Foto: Câmara Municipal
Exma. Sra. Presidente da Câmara Municipal de Guará, Regina Coelho;
Senhores homenageados ocupantes da Mesa;
Senhores vereadores;
Senhoras e senhores;
Meus amigos e amigas:
Fiquei
muito surpreso com a notícia de que receberia esse título na noite de hoje.
Nunca imaginei que a minha ligação afetiva com Guará pudesse levar a tanto. E o
responsável, certamente, é o espírito generoso da vereadora Bibi. A vereadora
Bibi, com sensatez e nobreza de gestos, consegue enxergar bondade e
comprometimento com o Município em cada uma das pessoas que por ela passam. Foi
a vereadora Bibi, portanto, quem inspirou os membros desta Casa a me verem
merecedor desta distinção, que vai muito além do meu merecimento. Por tudo
isso, Bibi, te agradeço: muito obrigado.
Reconheço que nunca me distanciei de
Guará. Não consigo me distanciar daqui. A cidade e os habitantes que conheci, e que
conheço, foram e são responsáveis pela minha formação. Deram-me uma identidade.
Sou parte de Guará, e Guará é parte de mim.
Por isso, por onde quer que eu vá, eu
me expresso com o aprendizado colhido aqui. E esse vínculo que tenho com a cidade
me é tão caro, que procurei traduzi-lo no meu primeiro livro, exclusivamente
dedicado a Guará, e que foi lançado no ano retrasado (inclusive aqui na Câmara).
Na verdade, não somente eu, mas ninguém
consegue se desvencilhar do local onde as próprias raízes estão fincadas. Se as
vezes me sinto confuso, é a lembrança do quintal de minha casa, e a paz da rua
onde nasci, aqui de Guará, que conseguem me acalmar; se as vezes me vejo triste
e desesperançoso, é a imagem dos sorrisos amigos que recebo em Guará que me dão
um novo alento; se as vezes levo um tropeção pelos caminhos da vida, são os
exemplos de superação e as referências que tenho em Guará que fazem com que eu
me recupere.
Muitas vezes saio caminhando pela
cidade simplesmente para rever as casas, as árvores e as esquinas com as quais
desenvolvi uma grande cumplicidade. Pisar o mesmo solo por onde passaram tantas
pessoas queridas, que ainda vivem em mim e comigo, é recuperar energias para poder
seguir em frente. Por isso estou sempre por aqui.
Todo ser humano precisa respeitar e se
abastecer dos ensinamentos de sua ancestralidade. Aquele que deixa de lado a
terra que o viu nascer, joga fora a sua identidade, o seu patrimônio cultural e
afetivo, e segue os rumos do vazio.
Assim, quero agradecer e louvar aos membros
desta Casa. Vocês, após debates que celebram a necessária e construtiva
divergência de ideias, com decisões nem um pouco fáceis, promovem a afirmação da
identidade de um povo, e a construção de uma cidadania participativa.
Reconhecer
e apresentar os méritos dos habitantes de uma comunidade é, também, uma função
dos administradores públicos. O homem desenvolve sua autoestima quando se
conhece, quando aprende a valorizar as referências que tem, e quando toma suas
decisões auxiliado por elas.
As histórias da cidade, dos guaraenses,
das muitas decisões administrativas aqui tomadas, sempre passaram pela esquina
da Deputado João de Faria com a antiga estrada de ferro Mogiana – mais
precisamente pela loja de calçados do Sr. Milim. Sem nunca ter ocupado qualquer
cargo público, seja por eleição ou nomeação, o Sr. Milim vive de amores pela
cidade. Por intermédio dele, muitos jovens obtiveram bolsas de estudo para que
pudessem se preparar para a vida; o desenho urbano da cidade tomou forma em
decorrência de estudos propostos inclusive por ele; a arborização da cidade recebeu
a intervenção do Sr. Milim e de seus irmãos, os quais deixaram seus nomes em
duas das escolas aqui existentes. Além disso, nomes, personagens e fatos edificantes
ocorridos em Guará foram levados à televisão, nas telenovelas “O Casarão”, da
TV Globo, e “Cidadão Brasileiro”, da TV Record, em virtude dos vínculos de
amizade do Sr. Milim com o celebrado escritor Lauro Cesar Muniz.
O sr. Milim, sem dúvida, é um dos
nossos grandes marcos referencias. Por tal motivo, a homenagem a ele prestada
configura o justo reconhecimento que ele merece. Como guaraense, parabenizo
mais uma vez a vereadora Bibi pela iniciativa. Você, Bibi, está contribuindo
com a elevação da autoestima do guaraense, por proporcionar a exposição dos bons
exemplos do Sr. Milim. Da mesma forma, além de parabenizar, e em nome de minha
família, quero te agradecer pela distinção outorgada a este grande
guaraense: o meu tio Milim.
Sr. Sahid Elias Antônio (Milim)
Foto: arq. pessoal
Foto: arq. pessoal
Sou também testemunha de uma história de
amor e de apego envolvendo a nossa cidade. Quem poderia dizer que uma jovem
estudante, lá do frio e longínquo hemisfério Norte, que tivesse visitado Guará
em meados dos anos 70, aqui retornasse todos os anos desde então? Isso seria
algo inimaginável! Afinal, o que poderia fazer com que uma jovem
norte-americana se autoproclamasse guaraense desde que aqui pisou? Não tenho
dúvidas de que o afeto, o carinho, o calor humano do povo de Guará, e em
especial, o acolhimento que lhe foi dado pela família Cavasini, foram os
responsáveis por isso. Pois foi assim que se deu: em 1974 a Sherri veio a
Guará, na qualidade de participante de um programa de intercâmbio do Rotary,
criou laços afetivos, identificou amigos, e aqui quis viver. Sou testemunha. A
Sherri, nos anos 80, viajou pela região como integrante do grupo musical os
Mongóis, realizou trabalhos voluntários, buscou trabalho por aqui, simplesmente
para poder estar perto de Guará. A Sherri, enfim, assimilou a cultura, os
valores e os hábitos cotidianos de nossa cidade e de nosso povo. E mais: em sua casa, em
Shelter Island, nos Estados Unidos, recebeu e hospedou muitos guaraenses. Esse
seu apego à Guará, que já conta com mais de 46 anos, é algo digno de ser
eternizado em nossa história. Serve, também, como uma grande referência para as
futuras gerações. Eu aplaudo e parabenizo a vereadora Regina, proponente do
projeto, por ter tomado a devida providência de fazer com que essa história
seja para sempre lembrada.
Na
qualidade de guaraense, te saúdo Sherri, minha querida amiga: você é, como
sempre quis ser, guaraense.
Sherri A. R. Cavasini
Foto: Câmara Municipal de Guará
Foto: Câmara Municipal de Guará
Da mesma forma, a Denise. Começou a
namorar um guaraense, passou a vir à cidade em finais de semana, conheceu os
amigos de seu namorado, foi mineiramente se aproximando, se enfronhando nos
valores da cidade, e quando o namorado abriu os olhos, ela já era tão querida
pelos guaraenses quanto era por ele mesmo. Em meados dos anos 80, a Denise vinha a
Guará todas as noites de sexta-feira, e aqui ficava à espera de seu namorado,
que trabalhava até o início da tarde de sábado na antiga "Elekeiróz". Para
aproveitar as manhãs de sábado, a Denise, então médica residente no Hospital
das Clínicas de Ribeirão Preto, dedicava seu tempo para atender, na Santa Casa,
aqueles que necessitavam de cuidados médicos ligados à sua área de formação – a
psiquiatria. E essa dedicação não se resumiu a isso: mesmo depois, a Denise
abriu diversas portas para que muitos guaraenses pudessem ser atendidos e
internados lá no HC. Por gestos assim é que a Dra. Denise é
merecedora da distinção que hoje lhe é atribuída. Espero que seus gestos,
Denise, totalmente despretensiosos e humanitários, sejam seguidos por todos
aqueles que vierem a conhecer a sua história. Como guaraense, parabenizo e
agradeço ao vereador Rafael e à vereadora Maria Amélia pela apresentação do
projeto. Como marido e admirador de seu trabalho, digo a minha esposa: minha
cidade, que agora também é sua, te recebe de braços abertos.
Dra. Denise L. R. Antônio
Foto: Câmara Municipal de Guará
Foto: Câmara Municipal de Guará
Na administração pública, os atos
administrativos são praticados visando fins diversos. Alguns deles buscam
aproximar e agradecer autoridades. São atos de gestão política, naturais à
própria natureza da administração. Há outros atos, no entanto, que visam simplesmente
apresentar aos administrados exemplos edificantes, que constroem uma
identidade. Ambos são dotados da mesma nobreza, e precisam ser compreendidos.
Lembro-me de ter lido, certa vez, que, dois
brasileiros receberam, em uma mesma cerimônia, medalhas oferecidas pelo governo
francês. Um deles era um funcionário do consulado brasileiro em Paris, que
deveria receber a medalha como representante do governo brasileiro; e o outro
era o Pelé, que iria receber a medalha em nome próprio. A outorga da medalha,
ao representante do governo brasileiro, era um ato puramente político; a
medalha entregue ao Pelé, era o reconhecimento de uma distinção pessoal.
As
medalhas oferecidas na noite de hoje são exemplos de premiação pelos exemplos
pessoais, dignificantes e construtivos, que nos são dados pelo Sr. Milim, pela
Sherri e pela Dra. Denise.
Quanto
a outorga do título a mim, fico imaginando que, em algum momento, uma eventual
revisão deste ato administrativo possa vir a acontecer. E aí, então, torço para
que os ocupantes das cadeiras desta Casa continuem tendo bons motivos para
seguirem se orgulhando da decisão que tomaram.
Eu
estou muito contente. Muito obrigado.
Elias Antônio Neto e Mesa da Câmara, durante a solenidade
Foto: Câmara Municipal de Guará
Foto: Câmara Municipal de Guará
Guará, 17 de janeiro de 2020
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