domingo, 11 de outubro de 2020

SARAH, BILLIE E ELLA: A SANTÍSSIMA TRINDADE DO JAZZ

 


Billie |Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan
http://opiniaoenoticia.com.br/opiniao/as-divas-do-jazz-e-da-cancao-americana/

     Veio de Vitória, no Espírito Santo, uma mensagem enviada pelo meu amigo Luiz Carlos. Nela, o Luiz Carlos sugere que eu ouça a voz, as interpretações e as gravações que foram feitas pela Ella Fitzgerald. Ele diz que a Ella lhe faz companhia nas horas de tranquilidade. Juntamente com a mensagem, ele enviou-me o link da gravação de "Summertime", na interpretação da Ella com o Louis Armstrong, juntos. Achei perfeita a sugestão. "Summertime" faz com que a gente, de dentro de nossos próprios cômodos, fique sentado em uma cadeira de balanço na varanda de uma casa do sul dos Estados Unidos, olhando ao longe uma extensa plantação de algodão - como nos tempos da escravidão.



Ella Fitzgerald

https://m.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/04/1878386-no-centenario-de-ella-fitzgerald-relembre-shows-da-cantora-no-brasil.shtml


     Gosto da Ella. É uma das maiores cantoras de todos os tempos - "uma das". Ela gravou, em 1956, um disco muito bonito com o Louis Armstrong: "Ella and Louis". Nele foram gravadas músicas do naipe de "April in Paris" e "The nearness of you". Este foi o primeiro de uma sequência de três discos que os dois gravaram juntos. Os outros foram "Ella and Louis again" (1957) e "Porgy and Bess" (1959). "Summertime" está no terceiro deles, o "Porgy and Bess". Gosto muito do primeiro deles. Mas gosto de lembrar que a Ella também era apaixonada por música brasileira. Tanto que, em 81, ela gravou um disco inteiro dedicado à Bossa Nova: "Ella abraça Jobim". É um disco bonito e bem brasileiro, a começar pela capa: as ondas formadas no mosaico de pedras das calçadas de Copacabana, no Rio de Janeiro.



Capa do disco "Ella abraça Jobim"

https://www.vagalume.com.br/ella-fitzgerald/discografia/ella-abraca-jobim.html


     Para mim há uma santíssima trindade negra de cantoras norte-americanas: Sarah Vaughan, Billie Holiday e Ella Fitzgerald. Recentemente, inseri nesse grupo, na forma de "amém", a Nina Simone. Mas a Nina, na minha avaliação, fica um pouco aquém das demais. Isso porque ela tem um perfil um tanto quanto, digamos, "combativo". E eu, como tenho uma certa preferência pelos perfis femininos mais frágeis e dóceis, deixo-a um pouco aquém das demais. No entanto, a interpretação que a Nina faz de "Wild is the wind" e de "I put a spell on you" dão a ela a credencial para estar próxima (um pouco atrás) das outras três.

     Das três, a Sarah Vaughan é a minha mais querida. Gosto de tudo o que ela gravou, em especial dos seus três discos de músicas brasileiras. Em 1970, quando esteve no Brasil pela primeira vez, ela participou de um programa na extinta TV Tupi, cantando "The shadow of your smile" com o Wilson Simonal. A gravação dessa música em estúdio, por razões afetivas, é para mim "a cereja do bolo" em sua obra (bom... mas tem também uma segunda cereja: "Misty"... e uma terceira: "Someone to watch over me"... e uma quarta...)


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Sarah Vaughan - "The shadow of your smile" (Mandel/Webster)

https://www.youtube.com/watch?v=muH8jXJ-FdU

     A Billie foi, para mim, de uma garra e de uma fragilidade doídas. A voz sofrida, como sofrida foi sua vida, faz com que eu sempre queira, de alguma forma, quando a ouço, ampará-la. No fundo, no fundo, é ela quem sempre acaba me amparando quando eu a ouço cantar "I'll be seeing you" ou "You've changed".



Billie Holiday

https://musica.uol.com.br/noticias/efe/2015/04/07/billie-holiday-a-voz-mais-especial-do-jazz-completaria-cem-anos-hoje.htm

 

     Se o Vinícius de Moraes encontrou no Tom, no Baden e no Carlos Lyra a sua santíssima trindade, com o Toquinho no "amém", como ele mesmo dizia, eu tenho também o amparo constante da minha "santíssima trindade": Sarah, Billie e Ella, nessa ordem - e com a Nina no "amém". 

     Com isso tudo quero mesmo é dizer que o Luiz Carlos é um bom sujeito: "diga-me com quem andas que eu te direi quem és". Se ele anda com a Ella, mesmo que seja somente nas horas de tranquilidade, ele tem a minha consideração: está demonstrado, portanto, que ele é um bom sujeito!

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

CAPRICHO

 

Fongwei Liu - "Uma velha história" (2009)

https://peregrinacultural.wordpress.com/page/4/


"Risonhos sonhos sonharemos nós"

(Castro Alves)


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Nara Leão - "Capricho" (Castro Alves/Francis Hime)
https://www.youtube.com/watch?v=EHFfMvMF7BY


     Outro dia o meu amigo Clóvis apresentou o poema "Canção", da Cecília Meireles, a um grupo de amigos.


Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

- depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar 


(...)


     Sensibilizado ao lê-lo, o também meu amigo Luiz Carlos comentou:

     - Esse poema é muito bonito... Deveria ser musicado. Em música, ele corre mundo.

     Concordei. Afinal, ao se vestir de melodia, harmonia e ritmo, um poema ganha novos veículos de propagação e desprende-se do papel impresso. Musicado, ele pode transitar com maior facilidade pelas estações de rádio, pelos canais de televisão, viajar, ir mais longe... Ou não: tudo depende de quem o ouve ou de quem o lê.

     É por isso que, quando devidamente interpretado na leitura, o poema já é música. A palavra, quando atinge as experiências de vida daquele que a ouve ou que a lê, tem o poder de fazer despertar instintos adormecidos; quando reunida com outras palavras, formando frases, pinta e borda emoções, arrepios e sentimentos: as palavras irmanadas assim, formando frases, movem o mundo de quem procura sair do vácuo.

     Muitos poemas foram musicados e enriqueceram a música popular brasileira. Lembro-me agora de "Capricho", do Castro Alves, musicado por Francis Hime e gravado tanto pela Nara Leão quanto pelo Quarteto em Cy. Lembro-me também de "Memória", do Carlos Drummond de Andrade: musicado pelo baiano Alcyvando Luz e cantado pelo Quarteto em Cy, voou longe - ou melhor, ganhou a capacidade de fazer com que qualquer ouvinte possa voar longe... O Fagner não passou batido: musicou e gravou "Motivo", da Cecília Meirelles.


Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.


(...)


     Lembram-se da música "Canteiros", gravada também pelo Fagner? ("Quando penso em você, fecho os olhos de saudaaaade")? Vejam só de onde veio:


(...)

Quando penso no teu rosto,

fecho os olhos de saudades;

tenho visto muita coisa,

menos a felicidade.

Soltam-se os meus dedos tristes,

dos sonhos claros que invento.

Nem aquilo que imagino

já me dá contentamento.

(...)


Pois é. Foi inspirado nesses versos de "Marcha", da Cecília Meirelles, que nasceu "Canteiros" - e que deu uma baita confusão. Mas isso já é outro papo.


CAPRICHO

(Castro Alves)

 

Ai! quando

Brando

Vai o vento

Lento

 

À lua

Nua

Perpassar sutil;

 

E a estrela

Vela,

E sobra linfa

A ninfa

Suspira

Mira

O divinal perfil;

 

Num leito

Feito

De cheirosas

Rosas,

Risonhos

Sonhos

Sonharemos nós;

 

Revoltos,

Soltos

Os cabelos

Belos,

Vivace

A face,

Tremulante a voz

 

Cantos

E prantos

Que suspira

A lira,

A alfombra,

À sombra,

Encontrarei pra ti;

 

Celuta,

Escuta

De meu seio

O enleio...

Vem, linda,

Ainda

Há solidões aqui.

MEMÓRIA

(Carlos Drummond)

 

Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

 

Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.

 

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão.

 

Mas as coisas findas,

muito mais que lindas,

essas ficarão.


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

TERRA DAS PALMEIRAS


o pescador

"O pescador" (1925) - Tarsila do Amaral

https://www.todamateria.com.br/tarsila-do-amaral/


     TAIGUARA foi um cantor e compositor brasileiro. Filho de artistas, nasceu no Uruguai durante uma turnê de seus pais naquele país.


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Vileta Lara e Robert Clay - "Terra das Palmeiras" (Taiguara)

     Taiguara concorreu em festivais de música e fez muito sucesso aqui no Brasil, nos anos 70, com uma série de gravações inesquecíveis: "Hoje", "Amanda", "Modinha", "Helena Helena", "Teu sonho não acabou", e muitas outras.

     Considerado símbolo da resistência durante os "anos de chumbo", esteve em exílio forçado na Inglaterra; e, depois de ter regressado ao Brasil, passou por um segundo período de exílio na Tanzânia e na Inglaterra, novamente. Durante o seu primeiro período de exílio, sonhando voltar ao Brasil, ele compôs "Terra das Palmeiras" e a gravou em um disco chamado "Ymira, Tayra, Ipy", em 1976.

     "Ymira, Tayra, Ipy" foi recolhido das lojas, pela censura, 72 horas após o seu lançamento. "Terra das Palmeiras", que fala de amor, de distância, de busca e de saudade, dialoga com a "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias.

     Se, na "Canção do Exílio", Gonçalves Dias pintou a natureza brasileira e idealizou uma pátria em busca de uma identidade, em "Terra das Palmeiras", torturado pela saudade, Taiguara comprometeu-se a reinventar um país que, aos seus olhos, havia perdido seu canto e suas cores.... um país que, com contornos verde-oliva, havia assumido uma certa coloração acinzentada.


"O Pescador" - Tarsila do Amaral (1925)

Canção do Exílio Gonçalves Dias 

 

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

 

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas tem mais flores,

Nossos bosques tem mais vida,

Nossa vida mais amores.

 

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá.

 

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar - sozinho, à noite -

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Terra das Palmeiras -Taiguara

 

Sonhada terra das palmeiras

Onde andará teu sabiá?

Terá ferida alguma asa?

Terá parado de cantar?

 

Sonhada terra das palmeiras

Como me dói meu coração

Como me mata o teu silêncio

Como estás só na escuridão

 

Ah! Minha amada amordaçada

De amor forçado a se calar

Meu peito guarda o sangue em pranto

Que ainda por ti, vou derramar

 

Ah! Minha amada amortalhada

Das mãos do mal vou te tirar

P'ra dançar danças de outras terras

E em outras línguas te acordar ...

E em outras línguas te acordar...

E de outras terras te acordar...

Amada minha te acordar...

Querida minha te acordar...

Em outras línguas te acordar

Ah,ah, ah,ah...


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

MARCHA FÚNEBRE

 

Funeral Procession - T. Coleman


     Por intermédio do serviço de alto-falantes do "Cine Guará", a "Ave Maria" de Bach e Gounod colocava a cidade toda na expectativa de um anúncio fúnebre.


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Yo-Yo Ma, Kathryn Scott - Ave Maria (Bach/Gounod)


     Em casa, atenta, minha mãe comentava:

     - "Escuta! Quem será?" E eu ficava quieto, ouvindo a notícia que entrava pela janela da cozinha.

     Ao som da "Ave Maria", uma voz grave, solene e compassada, anunciava:

     - "Faleceu hoje, às 'tantas' horas, o senhor... Deixou filhos, netos..."

     E aquela voz prosseguia com alguns outros detalhes: o local onde o óbito havia ocorrido, o endereço do local onde o corpo seria velado, e o horário previsto para o sepultamento. Era costume, também, serem mencionados: o apelido do falecido, se o tinha; o nome do cônjuge, se casado; os nomes dos filhos, se os tinha; e o nome de alguns de seus parentes.

     O comunicado era repetido diversas vezes, com pausas preenchidas pela "Ave Maria". A notícia passava então a ser o assunto nas rodas de conversa, nas quais eram relembrados fatos passados na vida do falecido e de seus familiares. A cidade mergulhava em uma tristeza profunda.

     Em casa, com a família, em dias assim, não nos sentíamos confortáveis em pronunciar a palavra "defunto". A palavra "pesava". Como não havia um velório municipal (muito menos privado) em Guará, as pessoas que faleciam eram velados em suas próprias residências. Os sepultamentos, por falta de iluminação no cemitério, ocorriam no máximo até as dezessete horas. Assim, quando não fosse possível o sepultamento no mesmo dia do óbito, o corpo continuava sendo velado madrugada adentro, com rodas de terço rezadas em voz alta para que o passar das horas fosse menos moroso.

     No velório, os familiares do falecido e os seus amigos ficavam ao redor do caixão, no centro da sala principal; os visitantes espalhavam-se pela sala e pelos demais cômodos. Alguns conversavam encostados nas paredes do alpendre e da varanda, quando havia espaços assim; outros ficavam na cozinha conversando e tomando do café que era servido; muitos, ainda, ficavam conversando na calçada da casa onde o velório estava sendo realizado.

     Até que o corpo pudesse ser sepultado, muitos eram os comentários a respeito de providências práticas: o corpo seria levado para ser abençoado na igreja, antes de ser conduzido ao cemitério? Os parentes do falecido, que residiam em lugares distantes, conseguiriam chegar à tempo para estarem presentes no momento do sepultamento?

     Dentre todas as preocupações relacionadas com o sepultamento, a que mais me interessava era quanto ao movimento que haveria de ter durante o cortejo. Eu me ocupava em ficar imaginando se muitas pessoas seguiriam o caixão à pé, e - principalmente - se seriam muitos os veículos que acompanhariam o cortejo até o cemitério. Quando o falecido era uma criança com poucas horas ou poucos dias de vida - ou mesmo um natimorto -, o cortejo era bastante modesto e o caixão era revestido com um tecido roxo. Mas se o defunto fosse muito célebre, o movimento era tão grande que eu, muito ingênuo para entender dos grandes pesares da vida, sempre me perdia na minha tão esperada contagem dos veículos que estavam seguindo o caixão.

     Em frente à porta da loja de meu tio passava o cortejo, em seu trajeto da igreja até o cemitério. Desde o momento em que um pequeno aglomerado de pessoas podia ser avistado, na ponta da rua, meu tio e os demais comerciantes baixavam as portas de suas lojas, em sinal de respeito. E ficavam ali, na calçada, esperando.

     Não havia carro funerário que conduzisse o caixão. À frente do cortejo, empurrada por amigos e familiares do falecido, vinha sempre uma pequena plataforma sobre rodas, sobre a qual era colocado o caixão.

carrim doura
Carro para transporte de urna funerária

     Durante a passagem do cortejo meu tio baixava a cabeça e movia os lábios, no que seria, para mim, uma oração silenciosa. Eu, com o pensamento preso em um outro mundo de fantasias, ficava atento à elaboração das minhas estatísticas.

     Muitos anos se passaram. Muitas pessoas daquele tempo já se foram. Desapareceram. Hoje, os carros funerários motorizados aceleraram os cortejos. Já não há tempo para funerais carregados de solenidade e de sentimento. Já nem há mais tempo para abraços e lembranças. Nossas condolências são transmitidas por mensagens eletrônicas. Com elas, sem o carinho de um simples telefonema, "cumprimos nossas obrigações". Vamos ficando. Parece que lembranças tornaram-se desnecessárias em um mundo tão prático. Resta, pois, a escravidão da lida diária. Uma vida sem memórias, sem histórias e sem estatísticas inúteis levantadas por meninos.

     O coração bate. Sentir tornou-se um doloroso incômodo.   

segunda-feira, 27 de julho de 2020

SAUDADE


Ficheiro:Almeida Júnior - Saudade, 1899.jpg
"Saudade" - Almeida Júnior (1899) - Pinacoteca do Estado de SP


     No final de semana que passou, eu estava assistindo pela internet a um colóquio internacional sobre a obra literária e musical de Vinícius de Moraes.  Em um determinado momento um dos participantes deparou-se com a palavra "saudade", e comentou que não a conhecia. Um dos comentaristas, mexicano, notando tal dificuldade, tentou explicar o seu significado.

     Enquanto eu ouvia as explicações, eu me lembrava de uma guarânia composta há muitos anos por Mário Palmério*, no período em que ele exercia as funções de embaixador do Brasil no Paraguai. Essa guarânia foi escrita exatamente para o mesmo fim: explicar o significado da palavra "saudade".

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Oscar Barreto Aguayo - "Saudade" (Mário Palmério)

     Para melhor se fazer entender, Mário Palmério não procurou sinônimos. Ele trilhou o caminho dos sentimentos. Assim, na letra da guarânia, antes mesmo de explicar o significado da palavra "saudade", ele alertou que seria necessário que os significados das palavras "querer" e "ternura" fossem previamente conhecidos. Acrescentou, ainda, que o interessado deveria ter sentido, um dia, a perda de um grande amor. Que só então, dotado de tais requisitos, o interessado teria condição de compreender, ou, melhor ainda, de sentir o seu significado. Ele explicou que tal resultado seria decorrente da perda de um grande amor. Que "saudade", portanto, corresponde ao sentimento advindo daquela perda, a qual traz consigo a noção que se tem de "distância", de "ausência" e de "sofrimento".

     E foi assim então, com objetivo de explicar o significado da palavra "saudade", patrimônio da língua portuguesa, que nasceu essa bela guarânia: "Saudade" - depois do Hino Nacional do Paraguai, a música mais conhecida naquele país.

SAUDADE
(Mário Palmério)

Si insistes en saber lo que es saudade
Tendrás que antes de todo conocer,
Sentir lo que es querer, lo que es ternura,
Tener por bien un puro amor, vivir!

Después comprenderás lo que es saudade
Después que hayas perdido aquel amor
Saudade es soledad, melancolia,
Es lejania, es recordar, sufrir!


__________________________  
* Mário de Ascenção Palmério (1916-1996) - educador, diplomata e romancista. Ocupou a Cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Guimarães Rosa. Embaixador do Brasil no Paraguai de 09/1962 a 04/1964. Transformou Uberaba/MG em cidade universitária, com a criação de diversos cursos superiores.


domingo, 5 de julho de 2020

GOBINEAU


Joseph Arthur de Gobineau

     Durante o período colonial esteve em nosso país um francês meio maluco e, ao mesmo tempo, um tanto quanto interessante. Maluco porque suas ideias eram execráveis, interessante porque, mesmo com tais ideias, acabou conquistando a amizade do nosso Imperador.

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J. P. Rampal - Franz Benda Flute Sonata in F Major

     Esse francês chamava-se Gobineau. Desembarcou aqui no Brasil, à contragosto seu, na qualidade de "embaixador" da França, e aqui permaneceu de 1869 a 1870 - cerca de um ano, portanto.

     Gobineau, que trazia com seu nome o título de Conde, ficou muito conhecido em todo o mundo por suas teorias. Em 1855, antes mesmo de vir ao Brasil, ele publicou um livro intitulado "Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas". Tratava-se de um ensaio no qual ele procurava explicar, sem bases científicas, o motivo pelo qual algumas sociedades progrediam enquanto outras fracassavam.

     No seu ensaio, Gobineau levantou algumas hipóteses: pensou no fanatismo, no luxo e na preguiça, na corrupção de costumes, no abandono dos preceitos religiosos, nos maus governos, e, dentre outras, no envelhecimento das civilizações. Para ele, nenhuma dessas hipóteses justificava a falência de uma nação. Ele acreditava que a justificativa da decadência das civilizações era a questão étnica. Portanto, para ele, a responsável pela degradação de todas as civilizações era a mistura de raças.

     Em virtude da publicação de seu ensaio, Gobineau ficou conhecido como teórico do racialismo - teoria (já ultrapassada) segundo a qual a espécie humana se divide em raças. Assim, na linha de seu entendimento, o Brasil encontrava-se em avançado processo de perdição.

     Imaginem só com que estado de espírito Gobineau desembarcou aqui em 1869! Naquela época a população brasileira era composta por um elevado número de escravos, mulatos e mestiços. Observando o nosso povo e as nossas cidades, assim ele nos descreveu em diversas cartas* enviadas a seus amigos e familiares:

"Salvo o Imperador, não há ninguém neste deserto povoado de malandros"

"Nenhum brasileiro é de sangue puro; as combinações dos casamentos entre brancos, indígenas e negros multiplicaram-se a tal ponto que os matizes da carnação são inúmeros, e tudo isso produziu, nas classes baixas e nas altas, uma degenerescência do mais triste aspecto".


"Já não existe nenhuma família brasileira que não tenha sangue negro e índio nas veias; o resultado são compleições raquíticas que, se nem sempre repugnantes, são sempre desagradáveis aos olhos".


     Com essa imagem tão preconceituosa em relação ao brasileiro, Gobineau achou o posto no Brasil indigno de seus méritos. E detestou o nosso país! Contudo, ele foi um grande amigo e admirador de d. Pedro II.

     - "Como pode??"

     O que poderia ter feito com que Gobineau e d. Pedro II desenvolvessem uma amizade marcada por diálogo, reuniões, visitas, livre trânsito do francês na Corte brasileira, troca de correspondências e de ideias sobre viagens, romances e poesias? O que teria feito d.Pedro II ter tido paciência de ouvir Gobineau, suas ideias e suas terias?

     Em suas correspondências, assim Gobineau se referia a d. Pedro II: 

"Tenho pena que ele seja Imperador. Tem demasiados talento e mérito para isso".

"Seu maior prazer é ampliar sua instrução e progredir, aplicando-se em possuir toda espécie de conhecimentos".

Dom Pedro II, segundo imperador do Brasil
d. Pedro II

     Todos nós sabemos que d. Pedro II foi um apaixonado pelo Brasil e pelo povo brasileiro; que tornou-se um servidor público exemplar, um estudioso que amava as ciências e as letras, e que cumpria seus deveres sem se deixar levar por paixões**.

     Pois tanto Gobineau quanto d. Pedro II eram eruditos. Ambos compreendiam e discutiam o valor das artes. Em seus encontros eles conversavam sobre livros, viagens, música, esculturas e pinturas. O próprio Gobineau era escultor. Assim, mesmo discordando de muitas das teorias do "embaixador" francês, d. Pedro II gostava de sua companhia.

     Foram, portanto, os livros, a música, a escultura, a literatura e a poesia os responsáveis pela aproximação e pela amizade que existiu entre d. Pedro II e o Conde de Gobineau.

Mima - Joseph Arthur Gobineau — Google Arts & Culture
"Mima" - Escultura em mármore branco (Arthur de Gobineau)
Acervo do Museu Imperial (Petrópolis, RJ)

     Hoje, pensando nessa história, vislumbro um caminho que pode nos desviar da imensa intolerância reinante por todo lado: a arte! Os homens, quando tomados pela inspiração artística, dialogam e convivem de maneira respeitosa e construtiva - mesmo quando suas ideias são divergentes. Pelo menos foi isso que nos mostrou a história que acabei de contar. 

     - Que nos sirva de inspiração!


__________________________ 
*RAEDERS, Georges. O Conde de Gobineau no Brasil. Tradução de Rosa Freire d'Aguiar. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1988
**CARVALHO, José Murilo de. D. PEDRO II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007

quinta-feira, 25 de junho de 2020

KATIE JAMES E O "BAMBUCO" ANDINO


Climandes: new report provides best-practices for farmers in Peru and the Andean region
Trabalhadores da região andina

     Ontem recebi de um amigo uma mensagem e um link para um vídeo feito por uma cantora colombiana, juntamente com o pedido de que eu o assistisse e opinasse a respeito.

     Ao abrir o link vi uma jovem de pele clarinha, muito simpática. Antes de cliclar no on, eu disse a mim mesmo: "De colombiana essa moça não tem nada!" Claro! E acredito que você, meu raro leitor, vai concordar comigo. Afinal, a gente sabe que o território colombiano foi habitado, inicialmente, por indígenas de diversas etnias. Depois chegaram os espanhóis, que trouxeram africanos para o trabalho escravo. E a miscigenação não parou mais. Assim o povo colombiano, colonizado pelos espanhóis, tem muito do indígena e do negro. Como é que eu poderia acreditar que aquela moça de pele clarinha seria colombiana?

     No entanto, meus olhos estavam voltados apenas para a cor de sua pele e de seus cabelos. Eu havia me esquecido de procurar compreender sua formação cultural e suas vivências. Incomodado com meus julgamentos defeituosos, anotei o nome da cantora e fui pesquisar sua biografia. Li que ela nasceu na Irlanda, que seu pai é irlandês, que sua mãe é inglesa, e que eles imigraram para a Colômbia quando ela tinha apenas dois anos de idade. Na Colômbia ela cresceu em um pequeno povoado, e depois foi estudar música, academicamente, em Bogotá. Participou de algumas bandas, mas seguiu carreira solo.

     Muito provavelmente em virtude de sua mudança do interior para a capital, bem como das diferenças culturais existentes entre as diversas regiões do país, ela contou  em suas publicações que quis compor uma canção para mostrar ao habitante da cidade grande os valores e a capacidade produtiva dos habitantes das pequenas cidades colombianas. Foi assim que nasceu "Toitico bien empaca'o", que é a canção que está no vídeo que me foi enviado pelo meu amigo: uma canção alinhavada em ritmo de "bambuco", gênero musical originário dos primeiros habitantes do continente americano, especialmente na região andina, e que servia para estimulá-los enquanto trabalhavam.

     Pois então vamos lá! Assistam ao vídeo e depois me contem se essa moça traz ou não alguns contrastes interessantes: uma jovem de pele clara e traços bastante frágeis, e que incorpora uma indígena valente com tempero de alma negra. Vamos assisti-la cantar "Toitico Bien Empaca'o" - um bambuco andino que eu adorei, que traz cheiro de terra molhada, que fala de raízes, de ancestrais, de café da manhã na cozinha e de valores interioranos: exatamente como as riquezas da região onde nasci, e que me custou algum tempo para que eu pudesse enxergá-las e dar a elas o seu devido valor.



Toitico Bien Empacao
(Katie James)
¿Que tal su café?
¿Cómo estuvo su agua e'panela?
¡Que buenas arepas las que prepara doña Rubiela!
¿Qué tal el ajiaco, con el frío de la mañana?
¿Y el sabor de la papa que traje fresquita allí e'la sabana?

Discúlpeme, si interrumpo su desayuno
Pa'salir de las dudas es el momento más oportuno
Dígame usted, si conoce la molienda
¿O el azúcar es solo una bolsa que le compran en la tienda?

¿Y cuénteme que sabe de su tierra?
¿Cuénteme que sabe de su abuela?
¿Cuénteme que sabe del maiz?
¿O acaso a olvidado sus antepasados y su raíz?

Dibújeme el árbol del cacao, mientras se toma
Ese chocolate con pan tosta'o
Dígame su mercé, ¿qué sabe del azadón?
Ese es el que le trae a usted la sopita hasta el cucharon

¿Y cuénteme que sabe de su tierra?
¿Cuénteme que sabe de su abuela?
¿Cuénteme que sabe del maíz?
¿O acaso a olvidado sus antepasados y su raíz?

Venga le cuento, los cuentos del huerto y de la malanga
La yuca, la yota, los chontaduros, la quinua, las habas y la guatila
Le tengo el guandú, las arracachas y la calabaza
Le traigo guineos, también chachafrutos
Y unas papitas en la mochila

¡Ay perdón señor!
Por ser yo tan imprudente
Es que a veces me llegan estos
Pensamientos irreverentes
¿Pa'qué va usted querer saber
Sobre el ara'o?
¡Si allí en la esquina lo encuentra
Toitico bien empaca'o!

Tudo bem embalado

Que tal o seu café?
Como estava sua água na panela?
Que broinhas boas são aquelas preparadas pela dona. Rubiela!
E a sopa de batatas com galinha no frio da manhã?
E o sabor da batata que se colhe fresquinha ali na savana?

Desculpe-me, se interrompo o seu café da manhã
Para tirar as dúvidas, é o momento mais oportuno
Diga-me se conhece a moenda
Ou o açúcar é apenas um pacote que se compra na loja?

Conte-me, o que sabe sobre a sua terra?
Diga-me, o que você sabe sobre sua avó?
Diga-me, o que você sabe sobre o milho?
Ou você esqueceu seus ancestrais e sua raiz?

Desenhe a árvore do cacau enquanto bebe
Esse chocolate com pão torrado
Diga-me,  o que sabe sobre a enxada?
É ela que traz para você a sopa até a colher

Conte-me, o que sabe sobre a sua terra?
Diga-me, o que você sabe sobre sua avó?
Diga-me o que você sabe sobre milho?
Ou você esqueceu seus ancestrais e sua raíz?

Venha que eu conto as histórias da horta e da batata doce
da mandioca, do inhame, da pupunha, da quinoa, das favas e do chuchu
Eu tenho o feijão guandu, as mandioquinhas e a abóbora
Trago-lhe bananas, também feijão de árvore
E algumas batatinhas na mochila

Oh, desculpe senhor!
Por ser tão imprudente
Às vezes me vêm esses
Pensamentos irreverentes
Por que o senhor vai querer saber
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quarta-feira, 17 de junho de 2020

LILI MARLENE: ASSIM QUEREMOS NOS VER NOVAMENTE


Lili Marleen and Lale Andersen memorial in Langeoog

     Minha amiga Márcia me enviou um vídeo, via whatsapp. Gostei bastante. Por intermédio dele vejo a cidade de Paris homenageando, nas estruturas da Torre Eiffel, os profissionais da saúde que estão nas frentes de batalha contra o coronavírus.

CLIQUE NA SETA - VEJA ATÉ O FINAL
Torre Eiffel - reabertura com homenagem

     Acompanhando as diversas músicas de fundo que se sucedem na homenagem, em um determinado momento a sequência de luzes acesas sugere o rolar de lágrimas em uma face - retrato fiel do sofrimento que toda a humanidade está suportando, enquanto não encontra a cura definitiva para o coronavírus.

     Já quase no final do vídeo que recebi, a música que acompanha a dança das luzes é "Lili Marlene".

   - Mas... "Lili Marlene"? Por que a escolha de uma canção alemã que lembra a França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial?

     E fiquei pensando... Escrita em 1938 pelo professor, poeta e soldado alemão Hans Leip, depois musicada por Norbert Schultze, a lembrança dessa canção alemã, pela organização do evento, foi muito oportuna. Durante a Segunda Guerra Mundial ela costumava ser tocada muitas vezes em uma estação de rádio (a Rádio Belgrado), que era sintonizada em toda a Europa - inclusive nas trincheiras, por soldados tanto alemães quanto aliados.

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Marlene Dietrich - "Lili Marlene" (Hans Leip/Norbert Schultze)

     Ao ser ouvida, a canção, um tanto quanto melancólica, enternecia os soldados de ambos os lados, de tal forma a causar momentos de cessar fogo enquanto era transmitida.

     "Lili Marlene" conta a história de um soldado alemão que costumava fazer guarda em frente ao portão de um quartel, sob a luz de um lampião, e que depois foi lutar na Guerra. Nas trincheiras do campo de batalha, ao ouvir "Lili Marlene", ele se recordava de seus encontros com sua amiga* Lili Marlene em frente àquele portão, sob a luz do lampião. E ao ouvi-la, ele ficava se perguntando se voltaria algum dia, e se poderia reencontrá-la sob a luz daquele lampião.

     É interessante pensarmos que os franceses, que tiveram parte de seu território ocupado por tropas nazistas, escolheram, dentre algumas, uma canção alemã para prestar a homenagem. Mas é mais interessante ainda podermos compreender que, independentemente da origem da canção, a humanidade toda pode se irmanar por um propósito que vai além de rivalidades ou fronteiras físicas. 

Datei:Munster Lili-Marleen Figuren.jpg
Lili Marleen Statue (Münster, Alemanha)

     E foi pela esperança de volta daquele soldado, de seu retorno às coisas simples, aos pequenos encontros, que "Lili Marlene", apresentada como fundo musical para a homenagem na Torre Eiffel, teve um grande significado simbólico: representou a lembrança não só daquele soldado entrincheirado e enternecido em um campo de batalha, durante a Segunda Guerra Mundial, mas também a esperança de toda a humanidade na luta contra o vírus da covid-19.

LILI MARLEEN
(Hans Leip/Norbert Schultze)

1. Von der Kaserne
Vor dem großen Tor
Stand eine Laterne
Und steht sie noch davor
So woll'n wir uns da wieder seh'n
Bei der Laterne wollen wir steh'n
Wie einst Lili Marleen

2. Unsere beide Schatten
Sah'n wie einer aus
Daß wir so lieb uns hatten
Das sah man gleich daraus
Und alle Leute soll'n es seh'n
Wenn wir bei der Laterne steh'n
Wie einst Lili Marleen

3. Schon rief der Posten,
Sie blasen Zapfenstreich
Das kann drei Tage kosten
Kam'rad, ich komm sogleich
Da sagten wir auf Wiedersehen
Wie gerne wollt ich mit dir geh'n
Mit dir Lili Marleen

4. Deine Schritte kennt sie,
Deinen zieren Gang
Alle Abend brennt sie,
Doch mich vergaß sie lang
Und sollte mir ein Leids gescheh'n
Wer wird bei der Laterne stehen
Mit dir Lili Marleen?

5. Aus dem stillen Räume,
Aus der Erde Grund
Hebt mich wie im Träume
Dein verliebter Mund
Wenn sich die späten Nebel drehn
Werd' ich bei der Laterne steh'n
Wie einst Lili Marleen

LILI MARLENE

Na frente da caserna
Defronte ao grande portão
Há uma lanterna (poste)
E ainda continua lá
Assim queremos nos ver novamente
Perto da lanterna queremos estar
Como antigamente Lili Marleen

As nossas duas sombras
Pareciam uma só
Que nos amávamos muito
Qualquer um via logo
E todas as pessoas precisam vê-lo
Quando nós nos encontramos perto da lanterna
Como antigamente Lili Marleen

Logo chamou a sentinela
Com um toque como um golpe
Isto pode lhe custar três dias
Camarada eu vou imediatamente
Então dizíamos até breve
Como eu gostaria de ir contigo
Contigo Lili Marleen

Teus passos ela (a lanterna) conhece
O teu lindo caminhar
Toda a noite ela se acende
Mas de mim esqueceu-se por longo tempo
E se me acomete uma amargura
Quem estará junto a lanterna
Contigo Lili Marleen

Dos quartos silenciosos
Como surgido do chão
Ergue-me como num sonho
A tua boca apaixonada
E quando as nuvens tardias se moverem
Eu estarei junto a lanterna
Como antigamente Lili Marleen.


     A história envolvendo essa música e a primeira cantora a gravá-la, Lale Andersen**, é contada no filme "Lili Marlene"*** - disponibilizado no youtube. Vale a pena conferir. É um dos filmes que costumo rever.   

________________________ 
*Na verdade, na biografia de Heins Leip, conta-se que eram duas amigas: Lili e Marlene
**Lale Anderson, nascida em 1905, faleceu em 1972. Foi sepultada em Langeoog, cidade alemã, onde está homenageada em um Memorial.
***"Lili Marlene", o filme (Alemanha, 1981. Dir.: Fassbinder)