Minha intenção é publicar aqui as coisas que leio, vejo, penso ou observo, e que me fazem sentir que acrescentam. Afinal, as coisas só se tornam inteiramente bonitas quando podem ser compartilhadas e se mostram repletas de significados comuns.
(Em pesquisa recente a respeito do escritor mineiro Aníbal Machado (1894-1964), movido pelo seu conto "Viagem aos seios de Duília", encontrei, em "Cadernos de João" - seu livro de reflexões sobre temas variados -, o seguinte texto a respeito do tempo. Quero guardá-lo aqui, em meu blog,para nunca mais esquecer-me dele).
Chego às vezes a
dormir. Durmo meses e anos. O tempo então aproveita e passa escondido. Mas que
velocidade!
Basta ver o
estado das coisas depois que desperto: quase todas fora do lugar, ou
desaparecidas; outras, com uma prole imensa; outras ainda, alteradas e
irreconhecíveis. Se durmo de novo e acordo, repete-se o fenômeno.
Sempre pensei
que o tempo fizesse tudo às claras. Oh, não!
Eu queria
convidá-los a assistir ao que ele tem feito comigo. Mas é espetáculo todo
íntimo e não disponho de tribunas.
Além do mais, o
tempo em pessoa é praticamente invisível, como a ventania. Só se pode apreciar
o resultado de seu trabalho, nunca a sua maneira de trabalhar.
O que é preciso
é nunca dormir e ficar vigilante para obrigá-lo ao menos a disfarçar a
evidência de suas metamorfoses.
É de fato penoso
deixar de ver as coisas tais como as vimos a primeira vez. O tempo tudo transforma
e arrasa, sem nos dar aviso.
Ora. Isso
entristece. Isso nos deixa intranquilos. A não ser que nos misturemos com ele,
façamos dele um aliado.
Aí, sim:
destruição e reconstrução se confundem. Sacos e sacos vão se enchendo e
esvaziando toda a vida. Perde-se até a ideia da morte. Então a gente aproveita
para erigir sistemas, tomar iniciativas, amar, lutar e cantar.
O tempo fica
assim tão escondido dentro de nós, que se tem a impressão que fugiu para sempre
e se esqueceu.
Em verdade, ele
não repousa nunca. Nem mesmo nas pirâmides. Nem nos horizontes onde parece
pernoitar.
Rói as pedras
como o vento, rói os ossos como um cão. O que mais admira é a extrema
delicadeza com que pratica essas violências.
Todos falam de
sua impassibilidade. Não é bem isso. Tanto assim que aumenta de velocidade, à
medida que nos distanciamos de nossas origens. E quase para quando o esperamos
na solidão!
Meu mal é
sentir-lhe a passagem como a de um animal na noite. Chego quase a tocá-lo.Fico horas à janela vendo-o passar. É um vício.
Oh, como se
diverte! Para ele, destruir uma árvore, um rosto, uma instituição, uma catedral
– tanto faz.
O desagradável é
quando de repente se retira de algum objeto ou de alguém. É claro que prossegue
depois. Mas deixa sempre uma coisa morta...
Franqueza, nessa
hora dá um aperto no coração, uma nostalgia!...
Contudo não se
deve ligar demasiada importância ao tempo. Ele corre de qualquer maneira.
E é até possível
que não exista.
Seu propósito
evidente é envelhecer o mundo.
Mas a resposta
do mundo é renascer sempre para o tempo.
Quando o mundo se viu diante do holocausto, na Segunda Guerra Mundial, os líderes de 51 países reuniram-se em Chicago e fundaram a Organização das Nações Unidas - ONU.
Antes disso, ao final da Primeira Guerra Mundial, em 1919, uma organização com o mesmo perfil da ONU havia sido criada: a Liga das Nações. Seu objetivo principal era tornar-se um fórum, onde representantes das nações participantes pudessem discutir e propor soluções diplomáticas e eficazes para a resolução de conflitos em todo o mundo. Porém, a Liga das Nações fracassou em seus propósitos. Por ausência de respaldo popular, inclusive, ela não conseguiu conter a deflagração de uma outra grande guerra: a Segunda. Assim que, pelo seu fracasso, a Liga das Nações foi substituída em seus propósitos pela Organização das Nações Unidas - a ONU.
Fundada em 24/outubro/1945, a ONU tem por finalidade colocar-se como um centro de debates das grandes questões da humanidade, direcionando propósitos para a busca de soluções diplomáticas para eventuais conflitos, ou para evitar sua ocorrência.
Questões, tais como as relações entre os países, os valores universais (paz, saúde, vida, segurança, alimento, liberdade, dignidade), aquecimento global, fome, destruição de recursos naturais, conflitos pelos mais diversos motivos (armados ou não), corrupção, instabilidade política, escassez de água, poluição de rios, emissão de gases poluentes, enfim, problemas que afetam diretamente toda a humanidade, podem e devem ser discutidos de forma civilizada na ONU, de tal forma a se encontrar uma solução pacífica para afastá-los.
Ontem, 21/09/21, em Nova Iorque, reuniu-se a Assembleia Geral da ONU. Pela televisão, vi e ouvi manifestações que me causaram desesperança. Percebi que há representantes de grandes nações que ainda não entenderam quais são os objetivos da ONU; que não sabem para quê devem fazer uso da palavra. Há líderes que foram à Assembleia Geral para, além de experimentarem da pizza nova-iorquina, comentarem exclusivamente sobre suas plantas e os seus jardins ressecados, sem se atentarem para o mundo, a partir de suas próprias janelas. Manifestando de tal forma, demonstraram que não sabem compreender que as suas águas, as suas flores, os seus perfumes e a sua gente, estão inseridos em um universo muito maior.
Ao ouvir ontem, na ONU, discursos e manifestações impertinentes e fora do foco específico, sem (ao que parece) as devidas instruções dos agentes dos respectivos órgãos internos competentes (isso conseguiria conter impulsos de certos representantes?), fico pensando na pequenez humana dos que ainda não compreenderam que o problema de um, no contexto da ONU, é problema de todos.
Ninguém precisa se interessar pelos assuntos e manifestações que me interessam. Para quê, então, falar disso? Afinal, cada um tem seus próprios interesses.
Acontece que, de vez em quando, a gente fica parado no meio do nada, e fica procurando se livrar de pensamentos que também nada acrescentam. Em assim sendo, acabo por dizer essa tremenda inutilidade: "gosto de tangos."
Como diria minha amiga Cidinha, "pronto, falei!"
- E daí?
Bom. Gosto da “pegada” do tango, das “punhaladas” do bandoneón, das frases as vezes longas, às vezes curtas do violino, e do piano saltitante com pitadas de classe e determinação. O par, homem e mulher, garbosos e compenetrados... os passos, avanços e recuos, miradas de canto de olho... vestido longo com abertura lateral... sensualidade...
Canto mentalmente um trecho do tango "Uno":
- “uno busca lleno de esperanzas el camino que los sueños prometieron a sus ansias... “.
Penso:
O Manuel Bandeira precisou que seus pulmões, um dia, se transformassem em foles de bandoneón. E eu sinto que os meus, nesse instante, precisam passar por essa mesma transformação.
- Um tango... e mais um.... e outro.... e todos os tangos.... para que a respiração atinja a perfeição!
Pneumotórax
(Manuel Bandeira)
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Estádio Arthur Alves dos Santos - Portão de entrada
Foto: acervo pessoal
Nunca fui bom de bola. Nem médio. Eu era, digamos, abaixo da média...
Música tema Canal 100 - "Na cadência do samba" - Waldir Calmon
https://www.youtube.com/watch?v=5uCPo6p97Pw&t=69s
Mas nos treinos de futebol dos heróis da cidade de Guará, eu jogava! Bom... a bem da verdade, de vez em quando deixavam que eu jogasse - no gol. Penso que eram muito generosos comigo - os grandes atletas que treinavam no "Artur Alves dos Santos". Eles sabiam mostrar, no gramado, o que era ser guaraense, guerreiro, vencedor. E eu me sentia orgulhoso quando conseguia preencher, nos treinos, alguma vaga que surgia no gol - do time "B".
Nas tardes de domingo, quando aconteciam as grandes batalhas dos nossos heróis contra fervorosos "inimigos" das cidades da região, era sentado no meu degrau cativo da escadaria que levava às chamadas “cabines de rádio”, lá de cima, ao lado do seu Ivã Aleixo - o seu Ivã alfaiate -, que eu acompanhava as partidas de futebol e ficava olhando a bola rolar em campo... ou procurando entender o desenho formado pelas nuvens no céu... no céu que nos emantava de azul e branco, no campo de futebol da Associação - o Estádio Arthur Alves dos Santos...
Meu amigo Paulinho postou, em um grupo do whatsapp, um conjunto de fotos que retratam um pedacinho do litoral norte paulista - que há anos não visito. De imediato, ao ver as fotos, senti-me privilegiado por retomar consciência da existência de um lugar assim, ainda tão casto, não muito distante de onde moro. Ao olhar atentamente aquelas fotos, percebi que elas me falavam muito de uma ilha que (não) conheci, e que foram descritas por Henri Salvador e Maurice Pon no final dos anos 50. Tanto que, depois de ficar olhando as fotos, fiquei pensando no paraíso... e no Henri Salvador.
Foto: Paulo Sérgio
Nascido na Guiana Francesa, Henri Salvador viveu no Rio de Janeiro por algum tempo na década de 40, e depois aninhou-se na França. Morreu há alguns anos.
Foto: Paulo Sérgio
Pesquisadores musicais dizem que ele foi precursor da bossa nova. Não consegui enxergar seu trabalho, ainda, em conformidade com esse entendimento. Não sou, portanto, seguidor dessa corrente de interpretação.
Mas foi por um outro artista que cheguei mais perto do Henri Salvador: Caetano Veloso. Isso porque, em 1981, no álbum "Outras palavras", o Caetano gravou "Dans mon île" - música composta em 1957 por Henri Salvador e Maurice Pon. E desde que conheci essa gravação do Caetano, passei a juntar acordes para fazê-la soar com perfeição no meu violão - e sigo tentando até hoje.
Em "Dans mon île" Henri Salvador e Maurice Pon descreveram uma ilha paradisíaca, onde não se faz nada senão tomar banhos de sol e inspirar perfumes de amor... nessa ilha a vida flui com tranquilidade, e os jogos que se jogam ali são jogos de amor, jogos de Adão e Eva...
As fotos postadas pelo meu amigo são o retrato perfeito da ilha desenhada por Salvador e Pon, e ganharam um encanto maior quando foram examinadas por mim ao som de "Dans mon île", na interpretação do Caetano Veloso.
Cada uma das fotos postadas pelo meu amigo Paulinho é, na verdade, um belo retrato do paraíso.
CLIQUE NO LINK PARA OUVIR
Caetano Veloso - Dans mon île
https://www.youtube.com/watch?v=KwzV08UFO9Y
Dans
mon île
(Henri Salvador/Maurice Pon)
Dans mon île
Ah comme on est bien
Dans mon île
On n'fait jamais rien
On se dore au soleil
Qui nous caresse
Et l'on paresse
Sans songer à demain
Dans mon île
Ah comme il fait doux
Bien tranquille
Près de ma doudou
Sous les grands cocotiers qui se
balancent
En silence, nous rêvons de nous
Dans mon île
Un parfum d'amour
Se faufile
Dès la fin du jour
Elle accourt me tendant ses bras
dociles
douces et fragiles
Dans ses plus beaux atours
Ses yeux brillent
Et ses cheveux bruns
S'eparpillent
Sur le sable fin
Et nous jouons au jeu d'Adam et Eve
Jeu facile
Qu'ils nous ont appris
Car mon île
c'est le paradis
Na Minha Ilha
Na minha ilha
Ah! Como a gente fica bem
Na minha ilha
A gente não faz nada
A gente se dora no sol
Que nos acaricia
E a gente se espreguiça
Sem sonhar com o amanhã
Na minha ilha
Ah! Como é doce!
Bem tranquila
Perto da minha querida
Embaixo dos grandes coqueiros que
balançam
Em silêncio nós sonhamos com nós
mesmos
Na minha ilha
Um perfume de amor
Se dispersa
Desde o fim do dia
Ela corre em minha direção estendendo
seus braços doces
Com quase 8 bilhões de habitantes, muita gente passa por este planeta sem deixar suas marcas ou sua memória no coração das pessoas. Há muitos que permanecem por algum tempo, mas poucos são aqueles que, independentemente do passar dos anos, ou até mesmo dos séculos, já tendo partido, continuam sendo tema de debates e de rodas de conversa, como se fossem faróis a indicarem rumos para serem seguidos e, periodicamente, reformulados. É o caso de Jesus Cristo, Maomé e Lutero, na religião; de Sócrates, Platão e Voltaire, na filosofia; Einstein, Pasteur e Marie Curie, nas ciências; Alexandre, Mandela e Washington, na política; Beethoven e Bach, na música; Van Gogh, Monet e Picasso, na pintura; Shakespeare, Dostoievski e Garcia Marquez, na literatura. Aqui no Brasil também temos exemplos assim: Rondon, Darcy e os irmãos Villas-Boas, indigenistas; Villa-Lobos e Tom Jobim, na música; Portinari e Di Cavalcanti, na pintura; Machado de Assis e Clarice Lispector, na literatura; Pelé, no futebol... e tantos e tantas outras, em diversos outros campos.
Mas para mim, especificamente, aqui do Brasil, uma das celebridades que é constante em meus pensamentos e em minha inspiração é o poeta Vinícius de Moraes.
Foi pensando nele, no Vinícius de Moraes, que na semana passada fui à música popular brasileira pesquisar canções que, literalmente, mencionam o seu nome, ou mesmo que façam alguma referência a ele utilizando formas carinhosas tais como "poeta" ou "poetinha".*
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Vinícius no plural: samba poesia e carnaval (samba concorrente) União da Ilha, Carnaval 2013
https://www.youtube.com/watch?v=g-Fx6D-V3A8
Logo no início das pesquisas me revi ainda criança, cantando, com o Jongo Trio na vitrola e com o meu pai ao meu lado, a namorada que o Baden Powell e o Lula Freire sonharam ter - em "Feitinha pro poeta":
"Ah quem me dera ter a namorada que fosse para mim a madrugada, de um dia que seria a minha vida (...) que seja na medida, e nada mais, feitinha pro Vinícius de Moraes (...)";
Mas como nem sempre a namorada que se imagina ter é tal qual aquela que se idealiza, a Elis cantou as afirmações feitas pelo mesmo Baden Powell, juntamente com o Paulo César Pinheiro, em "Falei e disse", quando deixam bem claro que tal qual a namorada sonhada pelo Vinícius, é difícil de se encontrar:
"mulher, se Deus não criasse você, ele próprio custava crer; mas só que tem, que não dá pé você ser a mulher de quem Vinícius falou" (em "Falei e disse").
O Chico Buarque e o Toquinho não deixaram por menos: nos anos áureos das grandes apresentações em ginásios de esportes e teatros de arena, eles homenageavam o poeta com pedidos de desculpas pela composição improvisada... anunciando o ingresso do poeta nos palcos onde se apresentavam:
"Poeta, poetinha vagabundo, quem dera todo mundo fosse assim feito você, que a vida não gosta de esperar, a vida é pra valer, a vida é pra levar, Vinícius, velho, Saravá!"
E assim chamado, o poeta com o copo cheio de uísque, oferecido aos céus, ingressava nos palcos da vida, dançando e sorrindo, sob aplausos das plateias por ele encantadas.
No período do "Brasil grande", do "ninguém segura este país", o compositor Benito di Paula dirigiu-se ao "Charlie Brown", personagem de histórias em quadrinhos de muita má sorte, mas dotado de inesgotáveis esperanças e determinação, oferecendo-se para mostrar a ele o Brasil, suas belezas, e todas as marcas de sua cultura. Nestes termos, dirigindo-se ao Charlie Brown, Benito di Paula mencionou o poeta:
"Se você quiser, vou lhe mostrar, Vinícius de Moraes e o som de Jorge Ben; se você quiser, vou lhe mostrar, Brasil de ponta a ponta, do meu coração"
A banda Língua de Trapo, com seu trabalho marcado por humor e crítica social, também colocou o Vinícius em sua música e, parodiando o "Soneto da Fidelidade", assim cantou em "Balada Cibernética", composta por Carlos Melo e Cassiano Roda:
"De tudo ao meu computador serei atenta, antes, e com tal zelo, e sempre e de modo terno, que mesmo diante de um modelo moderno, dele serei sempre a tieta mais sedenta (...) Que não seja imortal, posto que é fabricado em Manaus, mas que seja infinito enquanto dure a garantia"
Chico Buarque, inspirado pelo sopro do maestro soberano, Antônio Carlos Jobim, quando compôs "Paratodos", prescreveu o poeta contra algumas das mazelas da vida:
"Vi cidades, vi dinheiro, bandoleiros, vi hospícios, moças feito passarinho, avoando de edifícios, fume Ary, cheire Vinícius, beba Nelson Cavaquinho"
Em 2013, mais de trinta anos depois da partida do poeta, a Escola de Samba União da Ilha, com o samba enredo escolhido: "Vinícius no plural. Paixão, Poesia e Carnaval" (composta por Ginho, Júnior, Vinícius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra), ao desfilar pela Avenida Sapucaí, no Rio de Janeiro, fez toda a plateia nas arquibancadas perguntar cantando:
"Onde anda você, 'poetinha', saudade mandou te buscar, a Ilha é paixão na Avenida, mais que nunca é preciso cantar"
Muitos outros sambas, tendo Vinícius como tema, foram compostos para concorrerem na seleção do samba-enredo da Escola de Samba União da Ilha para aquele mesmo concurso de carnaval. E foram sambas muito bons. Um deles, composto por Franco Cava, Muri Cova e outros, dizia o seguinte:
"Quando a luz dos olhos teus, seduz o luar! a noite vai se apaixonar! estrelas! derramem pra mim! Na mesa de um bar, poemas sem fim! Vinícius, paixão imortal! É o show da Ilha nesse Carnaval!"
E como se tudo isso já não bastasse, José Messias, morrendo de paixão, e inspirado pelo poeta, pediu emprestado o olhar, a boca, o sorriso e as mãos de uma mulher, por ele amada, para que ele pudesse sentir a vida:
"Empresta o seu sorriso, e eu te darei o céu se for preciso... empresta (...) Estou apaixonado, como quem precisa ouvir Vinícius de Moraes cantado por Maysa"
Não creio que as lembranças e as homenagens ao poeta tenham parado por aí. Vinícius continua inspirando compositores e escritores, aquecendo ou fazendo bater forte corações apaixonados e, especialmente, promovendo em torno de seu nome e de sua obra a reunião de seus leitores, admiradores e amigos espalhados por todos os cantos do mundo - e nesse grupo, com muito prazer, eu me incluo!
___________________________
*Caso você, meu amigo leitor, consiga se lembrar de alguma outra canção de compositor, que não o Vinícius, que mencione o seu nome, e que não conste aqui, conte pra gente.
- Depois de publicado este texto, encontrei "Nossa homenagem", do Benito di Paula - belíssimo sambinha homenageando o Vina.
Baalbek sempre foi, para mim, um aperto no peito, um afeto distante, um sentimento inspirado nas imagens existentes em um anel dourado e negro, exibido no dedo anular da mão esquerda do Sr. Houssain - um imigrante libanês que viveu na minha terra natal e que, carinhosamente, dirigia-se a mim chamando-me "beduíno"... E Baalbek também foi o olhar impreciso do jovem libanês Chafic que, então recém chegado à minha cidadezinha, declamava versos de Khalil Gibran e procurava cuidar de sua própria construção.
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Ruínas de Baalbek
https://www.youtube.com/watch?v=dgxN5SgEQv0
Baalbek, além da estampa no anel do sr. Houssain ou do olhar distante do Chafic, é uma cidade fenícia situada a Noroeste de Beirute, capital do Líbano, e que remonta a muitos anos antes de Cristo. Os romanos a conquistaram, também e ainda, antes de Cristo. Como meio de demonstrar ao Oriente, naquela época, o poder de sua cultura, os romanos nela construíram grandes templos - o maior complexo de templos daquele Império, os quais foram, depois, destruídos por terremotos. No local onde suas ruínas se encontram, um dos festivais culturais mais importantes do Oriente Médio é realizado anualmente, desde 1955: o Festival Internacional de Baalbek.
Hoje assisti on line a transmissão desse Festival. A região libanesa denominada "vale do Bekaa", onde Baalbek está localizada, trouxe-me de volta o anel do sr. Houssain e o olhar impreciso do Chafic. Isso porque, hoje, veio de Baalbek uma voz, um canto, uma ligação do homem com a eternidade... As apresentações no espetáculo trouxeram a expressão da força da cultura libanesa... Guitarras, tambores, instrumentos de sopro, teclados... Baalbek foi hoje a voz da humanidade, a voz de uma nova geração que visitou seus antepassados, que se reinventou, que se levantou, e que mostrou a genialidade criativa do povo daquele país... daquele país que cabia, por inteiro, no anel de um imigrante, e no olhar de um desbravador.
(Pink Floyd - "Don't leave me now" - trecho do filme "The Wall")
https://www.youtube.com/watch?v=NDNnvxoPPJg
O que houve, coração? Cansaste? Estiveste tão distante. Para onde foste? Porque me abandonaste? Fiquei aqui, nessa sala fria, deitada, meu calor minguando... Por algumas frações de segundo estiveste afastado de mim. Ao meu lado, à medida que meu cansaço aumentava, algumas vozes desesperadas iam perdendo a intensidade. Onde estiveste quando te procurei? Onde estiveste, coração, naquela hora?
Na sua ausência, uma pressão compassada, forte e desesperada, tomou conta do meu peito, trazendo-me a sensação de que alguém te procurava. Sem sentir o seu ritmo, coração, não tendo o que dizer, permaneci calada. Eu nada sabia informar a seu respeito.
Porém, aos poucos percebi que voltaste. Teria sido por compaixão? Por indecisão? Atendeste ao chamado daquelas mãos que me pressionavam. Passei a ouvir novamente, ao meu redor, aquelas vozes que sugeriam, naquele momento, alívio com o seu retorno.
Eu, porém, depois de um breve espasmo, permaneci calada, imóvel. Senti-me fraca e desamparada com a sua ausência. Enfraquecida, nada mais conseguia elaborar, a não ser perguntar calada, a mim mesma, para onde tinhas ido, porque havias desistido de mim.
Por muitos anos suportaste comigo toda sorte de sentimentos. Seu ritmo, incansável e companheiro, sempre fora determinante em todos os meus passos. Eu, porém, nunca havia me dado conta de que estavas ali, fiel e companheiro, e que também necessitavas de minha atenção...
Egoísta, creio não ter te tratado com a intensidade de carinho que tu necessitavas. Creio que muitas vezes abusei de ti, exigi em excesso, e te causei desgosto. Fiz com que sofresses por pequenos rancores, por tolas ilusões e questões insignificantes. Porém, nunca poderia imaginar que assim, de repente, sem qualquer advertência prévia, pudesses desistir de mim, me deixar tão fria e só.
Nunca mais me abandones, coração. Haverá um dia em que seu cansaço vai me fazer compreender que precisas partir. Porém, ainda é muito cedo, ainda há muito o que fazer. Preciso da sua companhia, da sua alegria, do seu ritmo quente, compassado e constante. Não me deixes, não me abandones... Fique comigo até que nos sintamos cansados juntos, até cairmos exaustos de vida, até que nossos anseios sejam todos eles consumados. _________________________________ *Considerações hipotéticas em relação aos pensamentos de uma jovem amiga que, enquanto submetida a um procedimento cirúrgico de baixo risco, sofreu uma parada cardíaca (e hoje, recuperada, do outro lado da tela, com um copo de uísque em uma das mãos e um cigarro na outra, saudou-me com um sorriso no rosto).
Hoje, treze de maio, estaríamos comemorando o 108º aniversário de nascimento do Juan. Ao me lembrar dele reli uma biografia sua que se encontra nos arquivos da Câmara Municipal de Guará, e da qual, a pedido, uma cópia me foi enviada muito gentilmente pelo meu amigo Cesinha. Não consta, na biografia, o nome de seu autor. Esta biografia foi juntada a um projeto de Decreto-Legislativo, o qual resultou na concessão do título de "Cidadão Guaraense" ao Juan, em março de 2008.
Juan, casado em segundas núpcias com minha mãe, faleceu em Guará, SP, aos 96 anos de idade, no dia primeiro de maio de 2009.
A seguir transcrevo, literalmente, a biografia apresentada em 2008.
CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
Arturo Gatica - Silencio (Gardel, Lepera e Pettrorossi
https://www.youtube.com/watch?v=LKCmjP8VLAg
"O pintor e escultor Juan Rocasalbas Tura, dentro de sua trajetória artística desde a sua infância, a primeira idade de estudos na Espanha, até seu desenvolvimento posterior na Argentina, representa uma expressão peculiar, de amplas experiências plásticas no mural, nos monumentos públicos, na estátua e no quadro.
"Juan Rocasalbas é herdeiro de uma larga tradição artística europeia.
"Ele nasceu numa região da Espanha, a Catalunha, no Nordeste da Península Ibérica, na qual as influências dos estilos tradicionais do romântico, do gótico, do barroco, conjuntamente com uma mente muito pesquisadora e atualizada, representada por nomes como Picasso, Nomell, Miró, Tapies e muitos outros que nasceram e cresceram na Catalunha, fazem de um ser com inquietude artística, um predestinado ao ecumenismo mediterrâneo, pleno das aportações gregas, romanas, bizantinas e também propicia sua ligação intelectual com os restantes países da Europa, pela proximidade da Catalunha com a fronteira da França, Suíça e Itália.
"Com uma vida intensa de obras gigantescas, nestes últimos anos, Juan deseja um repouso e uma reconsideração de suas atividades.
"Em 1980 muda-se para Guará, uma pequena cidade no norte do Estado de São Paulo, junto com sua senhora, natural da região, e divide seu tempo com longas estadias em seu apartamento em Buenos Aires, junto a famosa Rua Corrientes, e aos poucos recomeça uma nova etapa de forma modesta, e quase incógnita.
"Retorna à pintura, desta vez com as paisagens da Alta-Mogiana, seus tipos e cores.
"Faz escultura isolada e, mais que nada, volta a pesquisar uma nova fase, numa homenagem a sua vida atual, resolvendo a verdade de uma obra plástica acumulada em tantos anos. Em obras tranquilas, de autossatisfação inegável, inspirada na madura contemplação, e com a clara imagem de sua atividade não sujeita a pressas, a viagens cansativas, exaustivas.
"Agora, este espanhol-argentino-brasileiro, convertido por tantos trabalhos e experiências, obtém o melhor ganho, o carinho e a amizade de todos que o cercam, apreciadores de sua arte, recolhendo na magia das cores serenas de seus quadros, a verdade do seu entorno e sua vida.
"É ainda de se esperar de Juan Rocasalbas Tura surpresas, revelações para a arte brasileira, já que se espera dele que comece seu ciclo de exposições.
"Já sem pressa, mas também sem pausa, como no famoso lema de Goethe, Juan Rocasalbas Tura vai nos transmitindo suas verdades plásticas, sempre renovadas e eternas.
"Juan Rocasalbas Tura nasceu no dia 13 de maio de 1913, na pequena cidade de San Feliu de Codinas, perto de Barcelona, na Espanha. Foram seus pais: Francisco Rocasalbas e Natividade Tura.
"Desde criança desenhava paisagens de sua Catalunha natal, os campos, os pastos, os animais, os caminhos que o levavam à escola, às vezes alertado pelo professor para dar mais atenção às lições, pois o desenho fazia com que se esquecesse até do lugar onde se encontrava, enchendo páginas e mais páginas dos cadernos de deveres com rabiscos ainda incipientes, mas já cheios de verdade, de um traço firme e uma atenção de especial caráter de sua região.
"Depois de alguns anos chegou a ser autorizado por seus pais a frequentar cursos livres da escola Masana, em Barcelona, de longa tradição nas artes plásticas catalanas.
"Logo então definiu suas preferências de tons de cores quentes misturadas com sentimentos e que até hoje domina suas paisagens.
"Juan estudou por pouco tempo e partiu com seus pais para a florescente República Argentina. Era o ano de 1931, e Buenos Aires já, naquela época, era uma referência cultural máxima dentro da América do Sul.
"Uma imigração intensa, de bom nível social e de uma grande comunidade de trabalho, tinha criado um país praticamente sem analfabetismo, onde as ciências e as artes, junto com uma agricultura, comércio e indústria de grande importância, começavam a espalhar sua influência e presença pelo mundo. O jovem Juan se integrou imediatamente naquele ambiente.
"Ao mesmo tempo que ajuda seus pais nos negócios da família, que prosperava junto seu país de adoção, no comércio e em atividades imobiliárias, pinta paisagens, doando seus trabalhos à família e amigos.
"Em 1942 casa-se com Esther Amestov, filha de franceses, que o incentivou a continuar seus estudos artísticos. Muitos anos depois, em 1952, parte com sua esposa e duas filhas - Alícia e Cristina – para o Brasil, chegando ao Rio de Janeiro. Alterna suas atividades comerciais e serviçais introduzindo na cidade os primeiros sistemas modernos de alarmes contra roubo, sempre acompanhando e participando dos movimentos artísticos da época, e vai captando o ambiente plástico brasileiro, introduzindo em suas obras alguns elementos, cores e formas tropicais, uma maior exuberância e uma certa animação colorida, ainda que sempre teve sua preferência cromática que o acompanharia até nas obras atuais.
"Nessa época, torna-se amigo de um jovem artista espanhol, Julio Espinosa, recém chegado ao Rio de Janeiro, e com quem começa a executar diversos murais, em pintura e escultura, para o Sindicato dos Aeroviários, Vogue, Olga e outras empresas comerciais.
"Juan Rocasalbas acompanha este trabalho e se contagia do gosto pelos grandes espaços.
"Executa, já naqueles anos cinquenta, vários trabalhos com Julio Espinosa no Brasil e no exterior. Alguns anos depois Julio volta para a Espanha e Juan fixa-se novamente em Buenos Aires, com atividades artísticas, mas já com a característica dos grandes espaços.
"Em 1972 Juan faz uma viagem à Europa encontrando-se com Julio Espinosa em Madri, na Espanha, incentivando-o a voltar ao Brasil, sendo que nove meses depois Juan e Julio estariam novamente juntos, agora em uma fase de muito êxito não só no Brasil, como também no exterior.
"Em 1976 faleceu sua esposa Esther, e Juan continua seus trabalhos por mais quatro anos, para finalmente tomar novos rumos.
"Em 11 de setembro de 1980 casou-se novamente com Therezinha Deise Prado Antônio, que o incentivou a realizar novos trabalhos.
"Juan Rocasalbas Tura fez muitos quadros que foram presenteados a todos de sua família e a vários amigos, mas seu sustento estava nos murais e esculturas. Somente no Rio de Janeiro estão mais de 50 grandes obras, como na Caixa Econômica Federal na Av. Barão do Rio Branco, a ECT da Av. Presidente Vargas, com murais de mil metros, as obras do Banco do Brasil, Banerj, o shopping da Gávea, Shopping Vanesa do Leblon, sede da Loteria Federal, Igreja de São Judas Tadeu de Niteroi, e grandes edifícios nas construtoras João Fortes, Moura Matta, Valparaiso, Concal etc.
"Fora do Rio de Janeiro, obras como ECT de Brasília, Grandes Edifícios de São Paulo, e mais uma grande quantidade de prédios nesta e em outras cidades têm a marca do grande artista.
"Muitos trabalhos e técnicas foram levados a Nova Iorque, com os murais de Park Avenue do Banco Comind de São Paulo, do Banco Interseco de Panama, com obras inéditas neste país com até 28 murais num só edifício, e um dos maiores monumentos, com 14 metros de altura, do Panamá, num gigantesco relógio-escultura.
"Depois volta à Europa, passando pela terra natal onde pinta paisagens de San Feliu de Codinas, dedicando e doando seus trabalhos aos seus conterrâneos que havia muito não encontrava.
"Hoje Juan passa horas pintando e dedicando-se a suas novas amizades e a seu novo lar – Guará. Contudo, tem plena consciência de que jamais teria chegado ao que é se não tivesse tido contato, com auxílio de amigos, como o grande pintor e escultor Julio Espinosa, não só melhorando seus conhecimentos, como também tendo recebido dele as maiores atenções e os melhores conselhos, e também do pintor surrealista José Américo Nogueira, fica rendido o reconhecimento de Juan Rocasalbas Tura."