quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

OS JOVENS, RUSSOS E UCRANIANOS


https://portalprimenews.com.br/noticia/5688/veja-o-cenario-do-possivel-conflito-entre-ucrania-e-russia-mapa-mostra-distribuicao-das-forcas-de-mo.html



Na fronteira,
jovens russos observam jovens ucranianos.
E vice-versa.
Observam.
Eles têm consciência de suas semelhanças;
são vizinhos para poderem estar juntos.
Aproximam-se.
Trocam palavras, fotos... jogam futebol...
Confraternizam-se.
São jovens, têm uma vida toda!
Mas eis que uma "besta quadrada",
um desequilibrado,
faz um disparo.
Instala-se o medo.
E os jovens,
russos e ucranianos,
já não parecem mais tão semelhantes...
já não podem mais conviver uns com os outros...

Piipes of peace - Paul McCartney
https://www.youtube.com/watch?v=py8pjVu9TiU&t=70s

Pipes Of Peace

 

I light a candle to our love

In love, our problems disappear

But, all in all, we'll soon discover

That one and one is all we long to hear

 

All around the world

Little children being born to the world

Got to give them all we can till the war is won

Then will the work be done

 

Help them to learn (help them to learn)

Songs of joy instead of: Burn, baby, burn (burn, baby, burn)

Let us show them how to play the pipes of peace

Play the pipes of peace

 

Help me to learn songs of joy instead of: Burn, baby, burn

Won't you show me how to play (how to play)

The pipes of peace? (Pipes of peace)

Play the pipes of peace (ooh, ooh, ooh, ooh)

 

What do you say? (Do you say?)

Will the human race be run in a day? (In a day?)

Or will someone save this planet we're playing on?

Is it the only one? What are we gonna do?

 

Help them to see (help them to see)

That the people here are like you and me (like you and me)

Let us show them how to play (how to play)

The pipes of peace (pipes of peace)

Play the pipes of peace (ooh, ooh, ooh, ooh)

 

I light a candle to our love

In love our problems disappear

But all in all, we soon discover

That one and one is all we long to hear

Flautas da Paz

 

Eu acendo uma vela ao nosso amor

Com amor nossos problemas desaparecem

Mas, apesar de tudo, em breve descobriremos

Isso é tudo que queremos ouvir

 

Em todo o mundo

Criancinhas nascem para o mundo

Temos que lhes dar tudo o que pudermos até que a guerra esteja superada

Então o trabalho estará feito

 

Ajude-os a aprender

Canções alegres, em vez de “atire, atire...”

Vamos mostrar-lhes como tocar as flautas da paz

Tocar as flautas da paz

 

Ajude-me a aprender canções alegres, em vez de: “atire, atire...”

Vamos mostrar-lhes como tocar

As flautas da paz?

Tocar as flautas da paz

 

O que você diz?

Será que a raça humana será extinta em um dia?

Ou será que alguém salvará este planeta que habitamos?

Será este o único? O que é que vamos fazer?

 

Ajude-os a verem

Que as pessoas aqui são como você e eu

Vamos mostrar-lhes como tocar

As flautas da paz

Tocar as flautas da paz

 

Eu acendo uma vela ao nosso amor

Com amor, nossos problemas desaparecem

Mas, apesar de tudo, em breve descobriremos

Isso é tudo o que queremos ouvir


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A BOCA DO DESESPERO


"A Boca do desespero" - foto: acervo pessoal (fev/22)

    É muito conhecida, em Roma, a "Boca da Verdade" (Boca della Verità) - uma imagem de feição humana, em forma de disco, esculpida em mármore. Na Cidade Eterna, essa escultura é ponto de referência - e todos os romanos, certamente, sabem indicar a sua localização.

"Boca da Verdade" (Roma)
https://dicasdaitalia.com.br/roma/boca-da-verdade-em-roma/

CLIQUE NA SETA PARA OUVIR

Rome Adventure - Serenade
https://www.youtube.com/watch?v=U19sDQB_WFg


    É claro que se estivesse em Roma, como turista, e para aproveitar o meu tempo na cidade, eu procuraria ler antecipadamente a respeito de sua localização para poder chegar a ela rapidamente. Se bem que, em estando em outro país, pedir informações para os pedestres é uma forma de conhecer de perto o povo e suas características - e eu gosto desse contato direto.

    Mas moro em Ribeirão Preto, no interior do Estado de São Paulo. E apesar de ter vivido aqui a maioria dos meus anos, surpreendo-me com tantos detalhes que a cidade continua me apresentando.

    Nos finais de tarde livres, gosto de fazer caminhadas pelas ruas da cidade. E durante essas caminhadas os detalhes da cidade vão se agigantando, pedem interpretações, e inspiram grandes viagens nos pequenas passeios.

    Foi assim que, no último domingo, caminhando por um bairro nobre, passei por uma estrutura em cimento e tijolos totalmente desfigurada.

"Uma estrutura desfigurada" - foto: fev/22 (acervo pessoal)

    Desabitada, exalando perfume de vegetal molhado de chuva, as paredes e colunas daquela estrutura estavam aprisionadas por diversos ramos. Para me deixar levar pelos embates entre vida e morte que me iam ocorrendo, posicionei-me de frente para o imóvel. Pensativo, fui atraído pelo que restava de uma fonte, na lateral esquerda do imóvel, também envolvida por galhos e ramos. 

"O que restava de uma fonte" - foto: acervo pessoal (fev/22)

    Em sua parte superior, uma imagem esculpida na parede parecia procurar forças para gritar. Não, não era uma face humana, como na Boca da Verdade, mas tinha a feição de um ser, meio homem, meio animal. Diferente da Boca da Verdade que, conforme conta a lenda, morde silenciosamente as mãos de mentirosos, a cabeça do ser parecia pedir atenções: de boca aberta denunciava o descaso a que havia sido condenada; argumentava que, naquela selva de pilares de cimento, estava impedida de ser bela, de atrair olhares; suplicava para que eu compreendesse que os ramos do vegetal, que se alastravam pelo imóvel, sufocavam o seu grito de abandono, o seu grito de desespero.

    - A cidade calada, nos detalhes de seus edifícios, grita o seu desespero... e a sua história.


domingo, 23 de janeiro de 2022

MANIA

 

Foto: acervo pessoal

    Muita gente tem verdadeira fixação por algum tipo de objeto. Uns gostam de pratos decorados, e com eles enfeitam as paredes de suas casas; outros se apegam a chaveiros; outros ainda gostam de armas, canivetes, e todo tipo de objeto... O meu apego é por canetas esferográficas. Gosto de ter sempre uma, no bolso da camisa, para anotar algo que possa me ocorrer: um pensamento ou uma lembrança, um recado, alguma frase dita por alguém, para desenhar algo interessante que eu tenha observado ou imaginado e queira esboçar para não me esquecer. Uma caneta tornou-se, portanto, para mim, um instrumento de primeiríssima necessidade - assim como uma camisa ou uma calça.

    No último domingo precisei participar de uma reunião, repetida diversas vezes ao longo do ano, porém com pautas diferentes. Em cada uma dessas reuniões,  logo na chegada, depois da assinatura da lista de presenças, os organizadores presenteiam os participantes com uma caneta BIC.

    Como tenho a mania e o cuidado de sair de casa somente depois de constatar que tenho uma caneta comigo, coloquei no bolso da camisa uma BIC com quase a totalidade de sua carga já utilizada. Admito, envergonhado, que a ideia de que iria ganhar uma caneta nova era também uma inspiração para eu quisesse ir à reunião.


Dolores Duran - "Manias"
https://www.youtube.com/watch?v=E3lY_GfgqBc

    Conforme esperado, ao chegar e assinar a lista de presenças, recebi algumas folhas de papel em branco e uma caneta esferográfica BIC novinha, colocada e entregue, cerimoniosamente, junto com as folhas de papel, dentro de uma pasta de papelão.

    Não, não... Como você pode ver, meu amigo, não sou aficionado por canetas estilizadas, com desenhos, arranjos, decalques, distintivos, nada disso. Não. Não me refiro a canetas de metal, daquelas caríssimas que a gente tem até medo de levar no bolso. Minha mania é ter uma caneta esferográfica no bolso, das mais simples, para que ela possa me servir de instrumento para anotações e confidências que possam me ocorrer ocasionalmente.

    Na reunião, ao tomar assento a uma mesa onde já se encontravam cinco pessoas, coloquei sobre ela, bem à minha frente, as folhas de papel, com a caneta ganha sobre elas. Distraidamente, e de braços cruzados, voltei as atenções para ouvir as ideias de um palestrante. Em determinado momento de sua fala, para fazer uma anotação, procurei pela caneta no local onde a havia deixado - mas não a encontrei. Veladamente passei a mão sobre os bolsos da minha camisa, do meu blazer... e nada. Estendi as pernas e procurei por ela nos bolsos de minha calça. Nada. Já inquieto, lancei mão daquela caneta que havia trazido de minha casa, idêntica à que havia ganhado, e comecei a fazer anotações. Um distinto senhor de bigodes, que estava sentado ao meu lado, tendo observado a procura que eu havia feito, estendeu a mão e ofereceu-me, polidamente, uma caneta. Era uma esferográfica BIC, novinha, igualzinha àquela que eu havia ganhado. Olhei para ele, silenciosamente, e, com um movimento simultâneo de cabeça e de mãos, mostrando que já estava na posse de uma caneta, agradeci pela oferta - pois julgava ser a caneta ofertada aquela que ele havia ganhado. Em seguida, o senhor distinto de bigodes "aprisionou", cuidadosamente, no bolso de sua camisa, a caneta que me oferecera. Esse pequeno fato fez  com que, a partir dali, o meu aproveitamento da reunião ficasse prejudicado. No fundo da alma eu continuava inquieto, com os pensamentos voltados para aquela caneta que eu havia ganhado.

    Triste por ter perdido aquele presente, voltei para casa horas depois, carregando comigo a sensação de que um pedaço de mim havia ficado no chão de algum salão, no piso de algum banheiro, dentro de algum cesto de lixo, jogado em alguma calçada... ou, então (será?), aprisionado no bolso de um distinto senhor de bigodes, que havia se sentado ao meu lado naquela reunião.


MANIAS

(Flávio e Celso Cavalcanti)

 

Dentre as manias que eu tenho uma é gostar de você

Mania é coisa que a gente tem mas não sabe por que
Mania de querer bem, às vezes de falar mal
Mania de não deitar sem antes ler o jornal
De só entrar no chuveiro cantando a mesma canção

De só pedir o cinzeiro depois da cinza no chão

Eu tenho várias manias, delas não faço segredo

Quem pode ver tinta fresca sem logo passar o dedo
De contar sempre aumentado tudo o que diz ou que fez
De guardar fósforo usado dentro da caixa outra vez
Mania é coisa que a gente tem mas não sabe por que

Dentre as manias que eu tenho uma é gostar de você


sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

IACANGA, SP, 1983: O DESPERTAR NO CÉU


    Ontem fui dormir às duas e meia da manhã. Estava em Iacanga, no Festival de Águas Claras, Fazenda Santa Virgínia.

Fonte: https://medium.com/jornaldois/por-que-o-festival-de-iacanga-n%C3%A3o-aconteceria-hoje-c63353077dec 

    Depois de muito agito fiquei ali, adormecido, rodeado de jovens idealistas, anestesiado de cantos e ecos, no meio do descampado. Às cinco e meia da madrugada, sob um frio descomunal, fui despertado pela voz do João Gilberto que vinha... do céu? ...da mata? ...de alguma barraca?... Na nossa barraca, todos desconfortavelmente adormecidos: Beth, Lula, Joaquim, Paulinho e Susana. Não! A voz suave do João Gilberto e os acordes de violão estavam presentes, próximos, e vinham do palco... do palco onde haviam estado diversos outros artistas. Era quase manhã, antes do dia chegar. No palco, o João Gilberto cantava para saudar os primeiros anúncios da claridade... E eu ali, vinte e poucos anos, no meio do mato, rodeado de amigos, jovens idealistas... eles e eu... nós... revisitando o Festival, ouvindo o João Gilberto...

    - "Psssiu.... vou cantar a primeira música, uma homenagem direta a vocês, que resistiram bravamente..."

CLIQUE NA SETA PARA OUVIR

https://www.youtube.com/watch?v=JIhRbqenpII

    - "Isso aqui, ô ô, é um pouquinho do Brasil, iá iá, desse Brasil que canta e é feliz..."

    Na madrugada da minha sala de estar, com o livro do Zuza ("Amoroso") sobre a mesinha de centro, fiquei ouvindo o João Gilberto...

    E, feliz, apesar de todos os desconfortos da vida, duas e meia da manhã, desliguei o Youtube, o televisor, levantei-me do sofá, e fui dormir... 

Capa do livro "Amoroso" (Zuza Homem de Mello)


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

TITTENHURST PARK: A CASA BRANCA DE JOHN LENNON

 

Tittenhurst Park
https://tittenhurstlennon.blogspot.com/2009/08/photographs-of-main-house-at.html

    A cidade de Ascot, na Inglaterra, está situada a 40 quilômetros ao sul de Londres. Uma das grandes atrações dessa cidade é uma corrida anual de cavalos, que tem como participantes frequentes a família real britânica.

Localização de Ascot no mapa, dentro do Reino Unido
https://www.getthedata.com/ascot/where-is-ascot

Presença da Família Real Britânica na Corrida de Ascot
https://rove.me/pt/to/london/horse-racing-royal-ascot

    Mas, se corridas de cavalo não me atraem, o que tenho a dizer a respeito de Ascot? Qual seria a atração que me levaria a querer visitar essa cidade?

    Bem... Na área rural de Ascot há uma propriedade chamada Tittenham Park, onde está construída uma casa muito fotografada: a casa onde moraram John Lennon e Yoko Ono, no período de 1969 até agosto de 1971Foi nessa casa que as últimas fotos da banda britânica, The Beatles, foram feitas.

http://www.meetthebeatlesforreal.com/2017/04/interview-with-s-cardinal-author-of.html
 

https://www.themarginalian.org/2012/08/22/beatles-final-photo-shoot/

    Dentro dessa casa John e Yoko montaram um estúdio de gravação: o Ascot Sound Studios. Nele, John e Yoko gravaram álbuns com a Plastic Ono Band - parte das faixas básicas para o álbum "Imagine", inclusive.

    Um vídeo muito conhecido, lançado para promover um grande clássico da música pop, foi feito ali dentro: Yoko abre as janelas de uma sala totalmente branca, enquanto John, em um piano também branco, de cauda, toca e canta "Imagine".

https://www.youtube.com/watch?v=YkgkThdzX-8

    - Conhece?

    Quando John Lennon e Yoko Ono mudaram-se para Nova Iorque, em agosto de 1971, a casa, que era de propriedade de John, foi vendida ao também Beatle Ringo Starr - que nela morou até o final dos anos 80.

    - Visitar essa casa seria o motivo principal que me levaria a Ascot - mas, claro, se estivessem acontecendo, eu também iria dar uma espiadinha nas corridas de cavalos.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

HELPLESS


José Joaquim e Miro (Foto: acervo pessoal)


- Sim, são meus amigos...! Mas... não, não sei te responder para onde foram...

Pode ser que tenham ido segredar assuntos que só a eles interessam.
Pode ser que tenham ido para alguma fazenda; ou talvez estejam no banco de jardim de alguma praça...

Sem chances de poder encontrá-los vou ficando por aqui, querendo crer que talvez tenham ido para o Norte, para o Canadá... talvez tenham partido a procura de uma cidadezinha na província de Ontario.

(HELPLESS - Neil Young and The Band)
https://www.youtube.com/watch?v=J2z7LXpAX3Q

Helpless 

(Neil Young)

 

There´s a town in north Ontario

With dream comfort memory despair

And in my mind I still need a place to go

All my changes were there

 

Blue, blue windows behind the stars

Yellow moon on the rise

Big birds flyin´across the sky

Throwin´ shadows on our eyes

Leave us

 

Helpless, helpless, helpless

Well, babe, can you hear me now?

The chains are locked and tied

across my doors

Baby, baby, sing with me somehow

 

Blue, blue windows behind the stars

Yellow moon on the rise

Big birds flyin´across the sky

Throwin´shadows on our eyes

Leave us

 

Helpless, helpless, helpless

Helpless, helpless, helpless

Helpless, helpless, helpless

Helpless, helpless, helpless

 

Helpless, helpless, helpless

Desamparados

 

Há uma cidade no norte de Ontário

Com conforto e sonhos e memórias e desespero

E na minha cabeça, eu ainda preciso de um lugar para ir

Todas as minhas mudanças estavam lá

 

Azuis, janelas azuis atrás das estrelas

A lua amarela vai subindo

Pássaros grandes cruzam o céu

Jogando sombras sobre os nossos olhos

E nos deixam...

 

Desamparados, desamparados, desamparados

Meu bem, agora você me ouve?

As correntes estão trancadas e presas

sobre as minhas portas

Meu bem, meu bem, dê um jeito, mas cante comigo

 

Azuis, janelas azuis atrás das estrelas

A lua amarela vai subindo

Pássaros grandes cruzam o céu

Jogando sombras sobre os nossos olhos

E nos deixam...

 

Desamparados, desamparados, desamparados

Desamparados, desamparados, desamparados

Desamparados, desamparados, desamparados

Desamparados, desamparados, desamparados

 

Desamparados, desamparados, desamparados



quarta-feira, 24 de novembro de 2021

E ENTÃO, O QUE DIZ A SUA OBRA?

 

Vincent van Gogh - "Autorretrato com chapéu de feltro" (1887-1888)
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Self-portrait_with_Felt_Hat_by_Vincent_van_Gogh.jpg

     - ... veja o Van Gogh, por exemplo. Pobretão, solitário, dependente do irmão, carente, um jeito meio maluco...

    Esse juízo a respeito do artista, contudo, é proveniente de uma lógica muito simplista. Incompleta, moldada por um olhar desatento e superficial, ela traduz a visão de quem não enxergou, de quem permaneceu distante.

Don McLean - "Vincent"
https://www.youtube.com/watch?v=vw9d3YlysS0

     Ao nos aproximarmos de Van Gogh, ao procurarmos ler a sua alma exposta em sua obra, nós nos deparamos com um homem bonito, visitamos seus apegos. Para ele, penso eu, não foi nada fácil suportar a cegueira que reinava ao seu redor.

     Ao pensar na história de vida de van Gogh, sinto que não posso permanecer distante daquele a quem observo, se quero conhecê-lo bem. Chegar mais perto e "mergulhar", é a única maneira de compreender as mensagens de amor - ou desamor - emitidas por alguém.

     Nossas manifestações, nossos posicionamentos, nossas palavras, são o retrato fiel daquilo que somos: apaziguadores ou beligerantes? agregadores ou segregacionistas? compreensivos ou radicais? interessantes ou desprezíveis? inspiradores ou vazios?  Não sei, somente olhos e corações atentos podem tentar avaliar o que procuram compreender...

    - Mas.... e você, consegue ler a obra que produz?

    Pensando bem....

    - Que bobagem! Para que alguém iria querer gastar seu precioso tempo investigando aquilo ou aquele "que diz tudo em poucas palavras", ou que "dá o recado" em uma única imagem, ou ainda que consegue tirar suas conclusões por uma simples leitura? 

     Quanto a mim, não consigo permanecer indiferente às publicações e às mensagens daqueles que me são próximos, ou daqueles a quem fui movido a querer conhecer. Elas me afetam. Elas mexem comigo. Elas me transformam. Elas me contam o que há na mente e no coração do autor. Elas têm o poder de promover o meu desejo de aproximação ou de afastamento daquele que a tornou pública. Dedico algum tempo para ir além da simples leitura dos textos que chegam aos meus olhos. Quero compreender a obra. Minha vontade é de que venha desprovida de juízos superficiais e destrutivos; de que promova aproximação; que propague uma mensagem de paz, do mais profundo sentimento de amor e compreensão por tudo e por todos... pois que tudo e todos merecem compreensão - e uma boa dose de compaixão.

    No final, porém, percebo que a tendência de querer olhar além nos coloca cada vez mais sozinhos.

    - Mas, e então? E você, já parou para pensar no que diz a sua própria obra?


Vincent

(Don McLean)

 

Starry, starry night

Paint your palette blue and gray

Look out on a summer's day

With eyes that know the darkness in my soul

 

Shadows on the hills

Sketch the trees and the daffodils

Catch the breeze and the winter chills

In colors on the snowy linen land

 

Now I understand

What you tried to say to me

And how you suffered for your sanity

And how you tried to set them free

 

They would not listen, they did not know how

Perhaps they'll listen now

 

Starry, starry night

Flaming flowers that brightly blaze

Swirling clouds in violet haze

Reflect in Vincent's eyes of china blue

 

Colors changing hue

Morning fields of amber grain

Weathered faces lined in pain

Are soothed beneath the artist's loving hand

 

Now I understand

What you tried to say to me

And how you suffered for your sanity

And how you tried to set them free

 

They would not listen, they did not know how

Perhaps they'll listen now

 

For they could not love you

But still your love was true

And when no hope was left in sight

On that starry, starry night

 

You took your life, as lovers often do

But I could've told you Vincent

This world was never meant for

One as beautiful as you

 

Starry, starry night

Portraits hung in empty halls

Frame-less heads on nameless walls

With eyes that watch the world and can't forget

 

Like the strangers that you've met

The ragged men in ragged clothes

The silver thorn of bloody rose

Lie crushed and broken on the virgin snow

 

Now I think I know

What you tried to say to me

And how you suffered for your sanity

And how you tried to set them free

 

They would not listen, they're not listening still

Perhaps they never will

Vincent

 

Estrelada, noite estrelada

Pinte sua paleta de azul e cinza

Olhe os dias de verão lá fora

Com olhos que conhecem a escuridão da minha alma

 

Sombras nas colinas

Esboce as árvores e os narcisos

Sinta a brisa e os arrepios do inverno

Nas cores da terra coberta de neve

 

Agora eu entendo

O que você tentou me dizer

E como você sofreu por sua sanidade

E como você tentou libertá-los

 

Eles não te ouviam, não sabiam como

Talvez agora eles te ouçam

 

Estrelada, noite estrelada

Flores flamejantes que brilham em chamas

Nuvens que giram na neblina roxa

Refletem nos olhos azuis de Vincent

 

Cores mudando de tom

O amanhecer nos campos de grãos âmbar

Rostos cansados e marcados pela dor

São suavizados pelas mãos carinhosas do artista

 

Agora eu entendo

O que você tentou me dizer

E como você sofreu por sua sanidade

E como você tentou libertá-los

 

Eles não te ouviam, não sabiam como

Talvez agora eles te ouçam

 

Pois eles não conseguiam te amar

Mas mesmo assim seu amor era verdadeiro

E quando não havia mais esperança

Naquela noite estrelada

 

Você tirou sua vida, como amantes costumam fazer

Mas eu poderia ter dito a você, Vincent

Esse mundo não foi feito

Para alguém maravilhoso como você

 

Estrelada, noite estrelada

Retratos pendurados em paredes vazias

Cabeças sem porta-retratos em paredes sem nomes

Com olhos que observam o mundo e não esquecem

 

Como os estranhos que você conheceu

Os homens arrasados com roupas esfarrapadas

O espinho prateado de uma rosa sangrenta

Esmagado e quebrado na neve virgem

 

Agora eu acho que entendo

O que você tentou me dizer

E como você sofreu por sua sanidade

E como você tentou libertá-los

 

Eles não te ouviam, e ainda não ouvem

Talvez nunca ouçam