sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

DAVID CROSBY

 

Daniel, Zé Américo, Elias, João - foto: acervo pessoal (2013)

    David Crosby faleceu ontem, aos 81 anos de idade. Em meados dos anos 60 foi fundador da banda The Byrds, a qual fez muito sucesso com a gravação de "Mr. Tambourine Man" - composição de Bob Dylan. Crosby deixou o grupo em 1967. No ano seguinte juntou-se a seus amigos Stephen Stills e Graham Nash, com os quais formou o grupo de folk-rock Crosby, Stills & Nash - posteriormente, Neil Young juntou-se a eles. Daí o novo nome: Crosby, Stills, Nash & Young.

David Crosby (1941-2023)
Fonte: https://www.uol.com.br/splash/noticias/reuters/2023/01/19/cantor-e-compositor-david-crosby-morre-aos-81-anos-diz-variety.htm

    Crosby foi um dos artistas mais influentes no mundo do folk-rock. Tanto que foi admitido por duas vezes no famoso museu da cidade de Cleveland, em Ohio, nos Estados Unidos: o Rock and Roll Hall of Fame Museum - primeiramente (1991) pelo seu trabalho no The Byrds, e depois (1997) como componente do Crosby, Stills & Nash.

João, Daniel, Zé Américo, Elias (foto: acervo pessoal)

    David Crosby foi muito elogiado e aplaudido em todos os teatros e casas de show onde se apresentou. Contudo, creio não ter chegado ao seu conhecimento que em uma madrugada, há muitos anos, no quintal enluarado da casa do meu amigo Daniel, em Guará, eu, o João, o Zé Américo e o próprio Daniel, tomados por música e muito boa vontade, aplaudimos o David Crosby repetidas vezes, cantando e ouvindo "Our house" - composição de Graham Nash, e sucesso internacional do grupo Crosby, Stills & Nash. 

- Pois então, que Nova Iorque, Cleveland, Londres, Paris e todas as capitais e cidadezinhas do mundo fiquem sabendo do que se passou naquela madrugada em Guará, no quintal da casa do meu amigo Daniel.

Crosby, Stills & Nash - "Our house" (Graham Nash)
https://www.youtube.com/watch?v=NZtJWJe_K_w

Our House

 

I'll light the fire

You place the flowers in the vase

That you bought

Today

 

Staring at the fire

For hours and hours

While I listen

To you

Play your love songs

All night long

For me

Only for me

 

Come to me now

And rest your head

For just five minutes

Everything is done

 

Such a cosy room

The windows are illuminated

By the evening

Sunshine

Through them

Fiery gems

For you

Only for you

 

Our house

Is a very, very, very fine house

With two cats in the yard

Life used to be so hard

Now everything is easy cause of you

And our

 

And our

 

I'll light the fire

And you place the flowers in the vase

That you bought

Today

Nossa Casa

 

Vou acender o fogo

Você coloca as flores no vaso

Que você comprou

Hoje

 

Olhando para o fogo

Por horas e horas

Enquanto ouço

A você

Tocar suas canções de amor

A noite toda

Para mim

Só para mim

 

Venha para mim agora

E descanse sua cabeça

Por apenas cinco minutos

Tudo está feito

 

Um quarto tão aconchegante

As janelas são iluminadas

À noite

Luz do sol

Atravessa-os

Joias de fogo

Para você

Só para você

 

Nossa casa

É uma casa muito, muito boa

Com dois gatos no quintal

A vida costumava ser tão difícil

Agora tudo é fácil por sua causa

E nosso

 

E nosso

 

Vou acender o fogo

E você coloca as flores no vaso

Que você comprou

Hoje


terça-feira, 10 de janeiro de 2023

BRASÍLIA, 08 DE JANEIRO DE 2023

 

Foto que circulou no facebook e outras mídias sociais (09jan23)

    Os filhos tendem a imitar os pais; os discípulos, a seguir os seus mestres; e o povo, a agir de acordo com os seus representantes. Contudo, antes dos filhos maiores seguirem os exemplos de seus pais, dos discípulos e do povo adotarem como conduta o que lhes foi apresentado, eles precisam fazer uso do raciocínio crítico em relação àquilo a que foram movidos a praticar - e às suas consequências.

https://www.folhape.com.br/politica/bolsonaristas-deixam-rastro-de-destruicao-e-saques-na-invasao-ao/253291/

    Ontem, 08/janeiro/23, brasileiros legalmente maiores, mostraram-se incapazes de fazer uso de seu próprio raciocínio crítico (menores, portanto), ao adotarem conduta com o mesmo potencial destrutivo de seus mentores. Foram vândalos, foram massa de manobra: quebraram e destruíram um patrimônio que não pertence somente a eles. Causaram um prejuízo material e moral incalculável ao nosso país.

    O meu sentimento, hoje, é de desencanto. Não pela democracia e pelas instituições democráticas, que continuarão funcionando como devem, mas pela incapacidade daqueles agentes causadores de tamanho estrago fazerem uso prévio de raciocínio crítico; por tantos servidores públicos terem sido voluntariamente omissos, e por tanta gente maldosa ter estimulado tais atos - e que agora, covardemente, procuram fugir da assunção de suas responsabilidades.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

PORTO DAS CAIXAS

 

Irma Álvares e Henrique Bello, em "Porto das Caixas" - cena do filme
https://arthurtuoto.com/2018/03/27/porto-das-caixas-1962/

    Fui rever ontem, pelo YouTube, o filme “Rio, 40 graus”. Ao final, e sem que eu tivesse programado, um outro filme nacional começou a ser exibido: “Porto das Caixas” (1962, Saraceni). Com realismo intimista e com um toque de neorrealismo italiano, chamou-me a atenção a música tema para o filme: nada mais nada menos do que uma composição do Tom Jobim em parceria com o Vinícius de Moraes - e executada pelo próprio Tom: "Derradeira primavera". Que maravilha!

Mônica Salmaso - "Derradeira Primavera" (Tom/Vinícius)
https://www.youtube.com/watch?v=M_SJYPQV7hM

Põe a mão na minha mão
Só nos resta uma canção
Vamos, volta, o mais é dor
Ouve só uma vez mais
A última vez, a última voz
A voz de um trovador

Fecha os olhos devagar
Vem e chora comigo
O tempo que o amor não nos deu
Toda a infinita espera
O que não foi só teu e meu
Nessa derradeira primavera

    Embalado pelo trabalho que vi na tela, e pela sua trilha sonora, fui descobrir, em pesquisa, que o filme, baseado em obra de James M. Cain (“O carteiro sempre bate duas vezes”), já fora adaptado outras duas vezes para o cinema: “Obsessão” (1943, Visconti), e “O destino bate à sua porta” (1949, Garnett). Dois grandes "clássicos"!

    Em “Porto das caixas” (1962), com argumento de Lúcio Cardoso, um crime ocorrido no interior do Estado do Rio de Janeiro foi adaptado para o filme. Paulo Cesar Saraceni, diretor desse que foi o seu primeiro longa-metragem, tempos depois, fez dois outros filmes baseados em histórias de Lúcio Cardoso - os quais, juntamente com "Porto das Caixas", compuseram a chamada “Trilogia da Paixão”: “Porto das caixas” (1962), “A casa assassinada” (1971), e “O viajante” (1998).

    É, meus amigos... O cinema brasileiro, que sempre foi tratado com imenso e injusto descaso, ensina, celebra, motiva e inspira. Relaciono a seguir alguns filmes nacionais, independentemente de fase, mas com ênfase nos mais antigos, que não me canso de rever (muitos, acessíveis pelo YouTube), para que você, meu raríssimo leitor, possa dar um mergulho significativo em nossas inteligentes produções. 


"Noite vazia" (1964; Dir.: Walter Hugo Khouri)

"O menino e o vento" (1967; Dir.: Carlos Hugo Christensen)

"Rio, 40 graus" (1955; Dir.: Nelson Pereira dos Santos)

"Toda nudez será castigada" (1973, Dir.: Arnaldo Jabor);

"São Paulo, sociedade anônima" (1965, Dir.: Luis Sérgio Person);

"Viagem aos seios de Duília" (1964, Dir.: Carlos Hugo Christensen);

"O som ao redor" (2013, Dir.: Kleber Mendonça Filho);

"A coleção invisível" (2013; Dir.: Bernard Attal)

"Tico-tico no fubá" (1952; Dir.: Adolfo Celi);

"Barravento" (1962; Dir.: Glauber Rocha)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

UM ABRAÇO EM PELÉ

 

Fonte: https://diariohoy.net/interes-general/la-relacion-de-vinicius-de-moraes-y-pele-175116


Edson Arantes do Nascimento - Pelé
(23/10/1940 - 29/12/2022)


    O nosso querido poeta Vinícius de Moraes ocupou diversos postos na carreira diplomática brasileira. No exterior, ocupou postos em Los Angeles, Paris e Montevideo. No ano de 1966, como representante do governo brasileiro, recebeu do governo francês a condecoração do grau de "Oficial". Acontece que, no mesmo dia, e na mesma cerimônia, foi também condecorado, como "Cavaleiro", um outro brasileiro: Pelé.

    Em crônica publicada no jornal Última Hora, no mesmo ano de 1966, e posteriormente em sua coletânea de crônicas "Para uma menina com uma flor", Vinícius expressou o orgulho e a admiração que sentia pelo nosso craque de futebol.

    Condecorado como representante de governo, Vinícius orgulhava-se muito de Pelé; pois diferente dele, Pelé estava sendo distinguido pela Ordem Nacional de Mérito da França não como representante de governo, mas como "representante de si mesmo".

    A seguir, a crônica "Um abraço em Pelé" - do nosso querido Vinícius de Moraes. (disponível em https://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/prosa/um-abraco-em-pele) 

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UM ABRAÇO EM PELÉ

Eu ainda não tive o prazer de lhe ser apresentado, meu caro Pelé, mas agora, com o fato de termos sido condecorados juntos pelo governo de França - você no grau de Cavaleiro e eu no de Oficial: e mais justo me pareceria o contrário - vamos certamente nos conhecer e tornar amigos. Ninguém mais que você merece tão alta distinção, sobretudo por ter sido conferida espontaneamente - pois ninguém mais que você tem levado o nome do Brasil para fora de nossas fronteiras. Da Sibéria à Patagônia todo mundo conhece Pelé; e eu estou certo de que você entraria fácil na lista das dez personalidades mais famosas de nossos dias. 

Não posso disfarçar o orgulho que a condecoração me causa, embora seja, de natureza, avesso a honrarias; e orgulho tanto maior porque nela estamos juntos: preto e branco (as cores do meu Botafogo!) e também as cores irmãs de nossa integração racial. Sim, caro Pelé, nós representamos, em face da comenda que nos é conferida, o Brasil racialmente integrado, o Brasil sem ódio e sem complexos, o Brasil que olha para o futuro sem medo porque, apesar dos pesares, é bom de mulher, bom de música, bom de poesia, bom de pintura, bom de arquitetura e bom de bola. Particularmente por isso considero-me feliz de estar a seu lado no momento em que nos colocarem no peito a condecoração. 

Que você tenha sido distinguido pela Ordem Nacional do Mérito da França nada me parece mais natural. A França sempre deu um alto valor ao gênio, e você, meu grande Pelé, é um gênio completo, porque o seu futebol representa um reflexo imediato de sua cabeça nos seus pés. Eu não sou gênio, não. Eu tenho que pensar um bocado para que a mão transmita direito o que a cabeça lucubrou. Meus gols são mais raros que os seus. Você é com justa razão chamado o Rei. Quanto a mim, que rei sou eu? 

Mas nada disso turva a satisfação que sinto em ser o seu Coutinho nesta nova investida do Brasil na área internacional. Parabéns, meu caro Pelé. Parabéns e o melhor abraço aqui do seu irmãozinho!

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

TABACO TEMPERADO COM CHOCOLATE

 

Baden Powell
Fonte: https://kalamu.com/neogriot/2013/06/05/video-baden-powell-brazil/

     Nunca fui fumante. Não me agrada cheiro de fumaça impregnada na roupa, nas mãos, nos cabelos, na ponta dos dedos. E mais: dentes amarelados, tosse, pigarro... Não, não dá. De interessante, no cigarro aceso, só mesmo a fumaça que dá voltas, que fica passeando pelo espaço que circunda o fumante. Se houver algum foco de luz iluminando exclusivamente o fumante, a fumaça fica mais interessante ainda: ela transmite mensagens.

     Outro dia, de longe, eu fiquei observando a fumaça produzida pelo cigarro de um fumante que estava sentado, quieto, na varanda de um bar: era azul-viva; mas ficava acinzentada, tétrica, quando, depois de ter transitado pelos pulmões do fumante, era expelida no ar pelo sopro de sua boca. Fumaça de cigarro no ar, para ser observada, requer paciência. Ela fica ali, dança devagar, vai subindo, girando...

     O Baden Powell, certa vez, em um estúdio francês, enquanto gravava "Round Midnight", prendia entre os dedos mínimo e anular, de sua mão direita, um cigarro aceso. Enquanto executava... enquanto mergulhava... enquanto voava em "Round Midnight", a fumaça produzida pela queima de seu cigarro criava em torno dele um ambiente metafísico de ligação do humano com o divino, juntando homem a entidades celestiais... E ele, de olhos fechados, comunicava com suas mãos, com seus dedos, com seu violão, toda beleza que um homem é capaz de comunicar quando transcende...

     E após ter assistido ao referido vídeo, fui tomado por uma vontade incontida... Não de fumar, mas de fazer gerar fumaça poética... para ficar só, ouvir música.... desenvolver em torno de mim toda poesia que fumaça de cigarro que sobe pode produzir.

     Fui então a uma tabacaria, escolhi um cachimbo e um pequeno pacote de tabaco inglês, com tempero de chocolate. Voltei para casa depressa, querendo me sentar sozinho em uma poltrona, ficar ouvindo as gravações do Baden Powell, e, como ele, ficar produzindo fumaça poética pela queima do tabaco ajeitado no fornilho do cachimbo que havia comprado. Cuidei do abajur ao meu lado, criei um ambiente de penumbra; escolhi os meus discos prediletos, uma bebida, e acendi o cachimbo. Senti-me, naquele momento, como uma divindade celestial: eu estava banhado em música, poesia, e fumaça de tabaco temperado com chocolate queimado. Não; eu não me encontrava no paraíso: eu era, na verdade, o próprio paraíso...

     O cachimbo, dizem os entendidos no assunto, "é uma forma de transformar um momento de ócio num ritual de meditação e prazer". E era justamente isso o que eu buscava: meditação e prazer. 

     À primeira música, uma tragada, fumo queimado no ar; à segunda música, tragadas, bebida, e fumo queimado no ar... Penumbra. À terceira música, tragadas, bebida, fumo queimado... e tosse. De súbito fui tomado por uma leveza... uma sensação estranha... uma tontura... Fiquei com a impressão de que estava girando com a fumaça... E não podendo mais me controlar, gritei:

     - Denise!!!! Tô gelado. Vou desmaiar!

     Ao ouvir-me, mais que depressa minha esposa despertou de seu sono; veio ao meu escritório, examinou o meu estado, tomou-me a mão, percebeu o suor e a temperatura fria do meu corpo. Orientando-me a baixar a cabeça, ela correu até a cozinha e retornou com um copo de leite gelado, com algumas pitadas de sal, em suas mãos:

     - Tome isso e apague essa fumaceira. Você não sabe que isso não é para tragar?

     Eu não sabia. Depois desse episódio só fui voltar ao cachimbo anos depois, durante o inverno, não para fumar, mas somente para prender entre as minhas mãos o cachimbo aceso, e mantê-las aquecidas... E ficar olhando a fumaça dançar... sentindo no ar aquele cheirinho gostoso de tabaco temperado com chocolate. 


Baden Powell - "Round about Midnight" (Thelonious Monk)
https://www.youtube.com/watch?v=mLCfIlZzEOw
    

RUBEM BRAGA, 19/12/1990: O VOO DA BORBOLETA AMARELA

 

Fonte: https://diariodopoder.com.br/brasil-e-regioes/cinebiografia-do-escritor-rubem-braga-tem-pre-estreia-em-vitoria-dia-7


Há 32 anos, com 77 de vida, falecia no Rio de Janeiro o capixaba Rubem Braga. Introspectivo, observador e meio casmurro, escreveu crônicas saborosas, marcadas por simplicidade e lirismo. Meu primeiro contato com sua obra foi ainda no curso ginasial quando, em uma aula de Português, fui chamado para ler e analisar "A outra noite" - uma das crônicas escritas pelo Rubem Braga, indicada para estudo no livro didático que o professor havia adotado. Desde então o RB e o seu jeito leve e simples de escrever passou a ser, para mim, uma grande referência. Rubem Braga faleceu em 19 de dezembro de 1990, mas muitas das crônicas que escreveu ainda estão por ser reunidas em livro. Há pouco recebi a notícia de que sua cinebiografia "O voo da borboleta amarela", de Jorge Oliveira, filmado no Espírito Santo, no Rio, e em Braga (Portugal), foi proclamado vencedor de Melhor Documentário do 13º FesTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (Lisboa, de 09 a 14/dezembro/22).

Fico por aqui. Mas não posso deixar de dizer que a ansiedade já é grande para poder assistir ao filme e rever o "velho" Braga - que em sua maturidade, no filme, é interpretado por um ator brasileiro que, em 1950, levou ao teatro a crônica "Ai de ti Copacabana" (e esse ator ainda tem muito a nos contar).


Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=B3rxLAyrbvo


quarta-feira, 5 de outubro de 2022

OS 34 ANOS DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988


    Resultado de uma Assembleia Nacional Constituinte, no dia cinco de outubro de 1988, há 34 anos portanto, a sétima Constituição do Brasil foi promulgada. Esta Constituição pôs fim à Constituição imediatamente anterior, a de 1967, Emendada em 1969, a qual havia sido outorgada (sem legitimidade; elaborada sem a participação dos representantes do povo; imposta).

    Nesses 34 anos de vigência, a Constituição de 1988 resistiu a tempestades e deu respaldo e orientação para decisões extremamente marcantes em nossa história. Além de dispor sobre a organização do Estado, do exercício do poder, dos direitos e garantias fundamentais, da composição e funcionamento de suas instituições, ela cuida, inclusive, a respeito dos mecanismos procedimentais para a promoção de alteração de seus próprios dispositivos. Ela é e tem sido, seguramente, a guardiã do Estado de Direito. 

    O funcionamento das instituições democráticas, sem interferências espúrias, e a preservação do pleno equilíbrio entre os três Poderes, parecem-me ser as joias mais preciosas a serem preservadas nesta Constituição.

    Em outros tempos, e por outras terras, tristes foram os descaminhos das nações conduzidas por Mussolini, Salazar, Franco, e tantos outros - além, é claro, por aqui, dos não menos tristes descaminhos maquiados de potência por vinte e um anos.

    Na vigência da Constituição ilegítima de 1967, e sob olhos amedrontados de uma nação intimidada, o atropelo na escolha de representantes, o desrespeito à diversidade e a institucionalização da tortura foram aplaudidos em cerimônias públicas (1).

    Antes, sob o manto da Constituição de 1937 também outorgada (imposta), o Estado federal tornou-se unitário; dissolveu-se: a isso, a cerimônia da queima das bandeiras, solenemente aplaudida e registrada em vídeo, evidencia.

Estado Novo: queima das bandeiras estaduais (1938)
https://www.youtube.com/watch?v=jzu_7hT45bU

    Voltando os olhos para o passado e analisando o presente, parece-me que, com o Legislativo que desenhou-se domado, o Executivo, de garras expostas, tende a promover a ingerência na organização dos Poderes, desmontando ou reformatando o Judiciário, reescrevendo a Constituição a seu bel-prazer, repetindo a queima das bandeiras estaduais, e promovendo um adestramento coletivo por todos os cantos do país.

    Neste cinco de outubro, ao celebrarmos os 34 anos da Constituição Federal de 1988, abro a janela de minha sala de trabalho com a estranha sensação de estar avistando nuvens negras no horizonte...

___________________________ 

(1) Cerimônia de Formatura da Guarda Rural Indígena, criada em 1969 https://www.youtube.com/watch?v=w5imv95KVOk&t=170s

sábado, 17 de setembro de 2022

"AUSCHWITZ-II-BIRKENAU": O CAMPO DE EXTERMÍNIO


Auschwitz Birkenau
Foto postada por Maxine no facebook (set/22)


    Sempre pensei que Auschwitz fosse o nome de um - apenas um - campo de concentração nazista. Mas, em breve pesquisa, fico sabendo que Auschwitz foi uma rede de campos de concentração construídos pelos nazistas nas áreas polonesas por eles anexadas.

    Auschwitz é o nome alemão para a cidade polonesa chamada Oswiecim, a cerca de 70 quilômetros a oeste de Cracóvia - também uma cidade polonesa.
  
Mapa da Polônia: localização de Auschwitz, Cracóvia e a capital Varsóvia
https://postaispelomundo.com/2015/11/20/cracovia-polonia-simplesmente-apaixonante/

    Muitos campos de concentração, extermínio e trabalhos forçados foram construídos pelos nazistas. Ao redor de Auschwitz, na Polônia, havia três grandes campos: Auschwitz I, centro administrativo e campo de concentração; Auschwitz-II-Birkenau, campo de extermínio; e Auschwitz III-Monowitz**-Buna***, campo de trabalhos forçados.

Complexo de Auschwitz e outros campos na Polônia e Alemanha
https://pt.wikipedia.org/wiki/Auschwitz

    Mas tudo isso para dizer que vi, há pouco, uma foto postada no facebook por uma amiga (Maxine) que, em visita à Polônia, foi a Auschwitz. E, em lá estando, foi visitar Auschwitz-II-Birkenau*.

    Ao olhar a foto da entrada do campo Auschwitz-II, a partir dos trilhos da estrada férrea, observo que o destino do comboio era, de fato, o extermínio: identifico em sua porta principal uma boca enorme capaz de engolir os passageiros amontoados nos vagões dos trens que por ela passavam; na torre, acima da porta, duas janelas são falsos olhos de olhar vigilante, incapazes de adormecer; as construções à direita e à esquerda da grande boca são enormes tentáculos aprisionadores que, com cruzes religiosas estruturadas em cada uma de suas janelas, decretavam que ali era a morada da morte.

Entrada de Auschwitz-II
Detalhe da foto acima, feita por Maxine

    Em Auschwitz-II-Birkenau foram exterminadas mais de um milhão e cem mil pessoas.

______________________ 
*Birkenau - pequeno vilarejo próximo a Auschwitz
**Monowitz - pequeno vilarejo próximo a Auschwitz
***Buna - complexo industrial ligado a borracha, para o qual era fornecido matéria prima.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

MIRA IRA: UM CANTO DE AMOR PELO POVO BRASILEIRO

 

Aílton Krenak em discurso na Constituinte/87
https://revistaesquinas.casperlibero.edu.br/edicoes/63/de-qual-humanidade-voce-e/


    Aprisionado por uma tribo inimiga que praticava a antropofagia, o último dos índios Tupis, naquele que seria seu derradeiro pôr de sol, entoou um canto de morte narrando seus feitos: falou de seu pai, do amigo que caiu, das terras por onde andou, das guerras que lutou... Mas, por ter contrariado a ética do índio, "não serviu de pasto".

    Gonçalves Dias, em 1851, em I-Juca Pirama (o que deve morrer), assim grafou aquela manifestação:

"Meu canto de morte,
guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
nas selvas cresci;
guerreiros, descendo
da tribo Tupi.

Da tribo pujante,
que agora anda errante
por fado inconstante,
guerreiros, nasci:
Sou bravo, sou forte,
sou filho do Norte,
meu canto de morte,
guerreiros, ouvi (...)"
(I Juca Pirama, Canto IV, trecho)

    Em 1985, no Festival dos Festivais da TV Globo, aquele índio ressurgiu... Majestoso, grandioso, belo, sublime e forte, foi louvado no canto de Miriam Mirah, de Lula Pereira,  do grupo Tarancón e da banda Placa Luminosa: "Mira Ira".

"Mira Ira" (Lula Barbosa e Vanderlei de Castro)
https://www.youtube.com/watch?v=ie1X7v0ie1Q


Mira num olhar
Um riacho, cacho de nuvem
No azul do céu a rolar...
Mira Ira, raça tupi,
Matas, florestas, Brasil.
Mira vento, sopra continente,
Nossa América servil,
Mira vento, sopra continente,
Nossa América servil...

Mira num olhar,
Um riacho, cacho de nuvem
No azul do céu a rolar...
Mira ouro, azul ao mar,
Fonte, forte de esperança,

Mira sol, canção, tempestade, ilusão,
Mira sol, canção, tempestade,
Ilusão...

Mira num olhar
Verso frágil tecido em fuzil,
Mescla morena,
Canela, cachaça, bela raça, Brasil.

Anana ira,
Mira ira anana tupi
Anana ira, anana ira
Mira Ira 

    Em 1987, na Assembleia Constituinte, por intermédio de Ailton Krenak, o Tupi também se manifestou:

"(...) um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas (...) não pode ser identificado como um povo que é inimigo dos interesses do Brasil (...)"

Ailton Krenak, na Constituinte/87
https://www.youtube.com/watch?v=ildN6lyXDNE


    Gonçalves Dias, em I-Juca Pirama; Miriam Mirah, em "Mira Ira"; e Ailton Krenak, na Constituinte, são a expressão de um sentimento e de uma inspiração: um convite à ressurreição do povo brasileiro, que anda tão sufocado ultimamente. E, por já ser tempo desse desate de nós, "que assim seja!"

    - "Mescla morena, canela, cachaça, bela raça: Brasil!"


quarta-feira, 10 de agosto de 2022

O JOÃO GILBERTO ME APRESENTOU O BRASIL

 

https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/musica/noticia/2019/07/um-divisor-de-aguas-criticos-definem-a-importancia-de-joao-gilberto-para-a-mpb-cjxs7ktso00b401oclf6obls5.html

    Ontem o "João Gilberto International Fan Club" postou no Facebook uma gravação feita pela Radio Nacional de España em 19/07/1985, no programa "Quando os elefantes sonham com a música", de Carlos Galilea.

    Ouvi atento à gravação - que não conhecia. Ao ouvi-la reencontrei um rapaz... Um rapaz que gosta de ouvir as interpretações do João Gilberto; que gosta de encontrar por intermédio de sua voz e de seu violão uma paz azul, infinita, baiana, utopicamente brasileira... uma paz de quintais, de plantas, de árvores, de praias, gente alegre e riachos, de horizontes e distâncias...


João Gilberto - "Canta Brasil" (David Nasser/Alcyr Pires)
https://www.youtube.com/watch?v=h1wEH6FXi4c


    O rapaz encontrou-se com o João Gilberto em um almoço, sob a escadaria de uma casa em Los Angeles. Naquela tarde, oferecendo ao rapaz uma feijoada, um casal de pesquisadores procurava mostrar o seu encantamento pelo Brasil.

    Logo na chegada o rapaz ouviu, vindo de uma vitrola ao lado das escadas, uma voz delicada, mansa, pedindo que o Brasil cantasse... "(...) no céu, no mar, na terra, canta Brasil (...)". O rapaz não cantou. Ao contrário, emocionado, ficou em silêncio... ouvindo.... só ouvindo. O casal sorriu. Ouviram quietos, calados, os três... parados, emudecidos, como que a decifrar o Brasil por imersão em matas imaginárias, a observar comunidades indígenas, passarinhos, riachos e praias...

    Nem o casal e nem o rapaz foram mais os mesmos... E nem o Brasil do rapaz. Na proposta de inocência e doçura originadas naquela voz e naqueles acordes de violão, o berço da delicadeza perdida abraçou o rapaz. De Los Angeles, maravilhado, o rapaz compreendeu as possibilidades de seu país... para querê-Lo bem e para orgulhar-se dele... muito embora corresse o ano de 1975, e sob o domínio do terror, o Brasil se encolhia em um estado acinzentado, sufocante.... de duríssima exceção... de cuja ideia ainda procuramos nos livrar.


CANTA BRASIL

As selvas te deram nas noites teus ritmos bárbaros
E os negros trouxeram de longe reservas de pranto
Os brancos falaram de amor em suas canções
E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto
Brasil, minha voz enternecida
Já adorou os seus brasões
Na expressão mais comovida
Das mais ardentes canções
Também na beleza desse céu
Onde o azul é mais azul
Na aquarela do Brasil
Eu cantei de norte a sul
Mas agora o teu cantar
Meu Brasil, quero escutar
Nas preces da sertaneja
Nas ondas do rio-mar
Oh, esse rio turbilhão
Entre selvas de rojão
Continente a caminhar

No céu, no mar, na terra
Canta Brasil
No céu, no mar, na terra
Canta Brasil
No céu, no mar, na terra
Canta Brasil
No céu, no mar, na terra
Canta Brasil.

 

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Postagem João Gilberto International Fan Club  https://www.bossanovaclube.com/post/jo%C3%A3o-gilberto-en-madrid-19-07-1985-hipnotismo-colectivo?fbclid=IwAR1TfA5i2r6LHRUIfX1bad8ge9vDA_0Rwx2Ivj39BXyIBy3O-wA8s0sxuEw