Minha intenção é publicar aqui as coisas que leio, vejo, penso ou observo, e que me fazem sentir que acrescentam. Afinal, as coisas só se tornam inteiramente bonitas quando podem ser compartilhadas e se mostram repletas de significados comuns.
De pé na cozinha de nossa casa, minha mãe cantarolava. Seu olhar ia distante, muito longe, muito além da janela aberta à sua frente. Por ali, e pela música que costumava cantarolar, ela parecia visitar "seu tempo", seus amigos e amigas... seus colegas, seus alunos... seus pais, meu pai... E era sempre a mesma modinha que a ajudava a temperar o nosso alimento.
"Quem sabe? (Carlos Gomes) - Soprano: Adriana de Almeida
https://www.youtube.com/watch?v=pIc_Hx-T-lk
"Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento..."
... há duas semanas estive em um recital comemorativo aos 20 anos de instalação do Curso de Música da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP. Nesse recital, a Profª Drª Yuka de Almeida Prado, soprano, acompanhada pelo Profº Dr. Rubens Russomanno Ricciardi, ao piano, executaram "Quem sabe?", de Carlos Gomes (1836-1896)*.
"Quisera saber agora, quisera saber agora..."
Ao ouvi-los, da plateia da sala de concertos da tulha do campus da USP, atendi ao chamado... Com os pés descalços e sem camisa, vesti novamente o short branco feito pela minha avó... Devagarinho abri o portão de minha casa... fui entrando... menino, troquei passos em direção à voz de minha mãe, e a encontrei sorridente em frente à mesa posta. O sol, entrando pela janela, iluminava meu pai, minha irmã e minhas avós... todos ali prontos para o almoço de domingo...
QUEM SABE?
Tão longe de mim distante Onde irá, onde irá teu pensamento
Tão longe de mim distante Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera, saber agora Quisera, saber agora
Se esqueceste, se esqueceste Se esqueceste o juramento
Quem sabe se és constante Se inda é meu teu pensamento
Minh'alma toda devora Da saudade, da saudade, agro tormento
Tão longe de mim distante Onde irá onde irá teu pensamento
Tão longe de mim distante Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera, saber agora Quisera, saber agora
Se esqueceste, se esqueceste Se esqueceste o juramento
Quem sabe se és constante Se inda é meu teu pensamento
Minh'alma toda devora Da saudade, da saudade Ah! Saudade agro tormento
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*Letra de Francisco Leite Bittencourt Sampaio (1834-1859)
De repente eu me vi no Nordeste. Quem me levou foi o cronista pernambucano Antônio Maria (1921-1964), em "Eles não mudaram"*. Nessa crônica que mencionei ele conta que, certa vez, querendo escrever sobre o paraibano José Lins do Rego, encontrou-o em um bar, no Rio de Janeiro, na companhia do carioca Di Cavalcanti e do jornalista e colecionador caruaruense João Condé. Antônio Maria conta que, à mesa, conversaram sobre o Nordeste, suas tradições regionais, usos e costumes de seu povo; que, saindo do bar, a saudade da região era tamanha que ele e o Zé Lins foram até o bairro de São Conrado para se fartarem de pamonhas e caldo de cana - que tinham o gosto dos antigos engenhos nordestinos. Que aquele banquete foi muito maior que qualquer espécie de fome nordestina, do tamanho de uma ausência compartilhada na companhia um do outro.
Gilberto Gil - "Lamento Sertanejo" (Gil/Dominguinhos)
https://www.youtube.com/watch?v=KbJ4gLyKPes
Enquanto eu também me lambuzava de açúcar e milho verde nessa viagem ao Nordeste, um amigo que está vivendo em Portugal já há algum tempo chamou-me pelo telefone para uma "conversa informal de compatriotas". Quando disse a ele que estava me deliciando em pamonhas e caldo de cana dos antigos engenhos do Nordeste, ele me contou que trabalhou em um órgão representativo do governo brasileiro, em Marrocos, e que, estando lá, debruçou-se sobre a divulgação da cultura do nosso país por intermédio do livro "Novo mundo nos trópicos"** - coletânea expandida de conferências proferidas em 1944, nos Estados Unidos, por Gilberto Freyre (nordestino do Recife). Finda a nossa conversa, e ainda navegando por histórias do Nordeste, fui à busca do livro da autoria de Gilberto Freyre, mencionado por meu amigo, e pelo qual eu ainda não havia podido viajar.
Nessa busca, dei-me conta de que, para escrever um outro livro, "Nordeste"***, Gilberto Freyre solicitou ao poeta recifense Manuel Bandeira, a quem ele não conhecia pessoalmente, a composição de um poema alusivo ao tema: e desse pedido nasceu "Evocação do Recife":
“(...) Recife... Rua
da União... A
casa de meu avô... Nunca
pensei que ela acabasse! Tudo
lá parecia impregnado de eternidade (...)”
A partir desse poema, entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira desenvolveu-me uma amizade fomentada por uma correspondência que se estendeu por muitos anos... Essa correspondência - vim a descobrir em seguida - foi organizada e reunida por Silvana Moreli Vicente Dias no livro "Cartas Provincianas - correspondência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira" (Global, 2017).
Não resisti. Curioso em saber quais assuntos dominavam as conversas por carta entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, contatei uma livraria e fiz o pedido do livro organizado por Silvana Moreli, o qual acaba de chegar às minhas mãos.
Diferente de dizer que estou feliz, preciso dizer que estou um tanto quanto desesperado e confuso diante de tanto assunto e diante de tanta informação que tem me interessado. Afinal, a vida é curta... e o que posso é muito pouco: em uma só existência, não há tempo suficiente...
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*"Eles não mudaram" - crônica publicada em "O Globo", em 21/ago/1955, e publicada no livro "Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria" (Todavia, 2021 - organização: Guilherme Tauil).
**"Novo mundo nos trópicos" (Global, 2011) - é uma versão ampliada de um livro anterior de Gilberto Freyre: "Brazil: an interpretation, publicado em 1945 em Nova Iorque.
Estou aqui extasiado. Extasiado porque acabei de ler o discurso que foi proferido pelo Ruy Castro em sua posse na Academia Brasileira de Letras. Extasiado porque gosto dos trabalhos do Ruy Castro. O Ruy é um cultuador e ao mesmo tempo escultor da alma brasileira tão bem torneada em "Estrela solitária", em "Carmen", em "Chega de Saudade", em "A noite do meu bem"... na Bossa Nova, nas noites do Rio... no samba-canção... Gosto do Ruy Castro, dos seus livros, da sua coluna na Folha, dos programas que gravou em rádio... Em seu discurso, um passeio pela Cadeira 13. Encanta: o fogo, a roda, a palavra... Encanta a mim, particularmente, por "ilusões da vida", do Francisco Otaviano, inspirador do Vinícius em "como dizia o poeta...": "quem passou pela vida em branca nuvem (...) só passou pela vida, não viveu"; encanta ao falar do Rouanet, seu antecessor, na aposta pela cultura... ao citar, inclusive alguns dos nossos queridos pontos de referência: Tom Jobim, Antônio Maria e Rubem Braga... Que passeio! Belíssimo discurso: rico, inteligente e elegante. Ao Ruy, todos os nossos aplausos.
Tomei o meu café da manhã ouvindo um podcast a respeito de cronistas brasileiros. Enquanto comentavam, na gravação, os trabalhos de Fernando Sabino, dei-me conta de que não havia ido além de seus romances "O encontro marcado” e "O menino no espelho"; que pouco conhecia sobre sua obra. Terminei então o meu café, e saíà procura de alguma coletânea de suas crônicas.
Lily Allen - "Somewhere only we know"
https://www.youtube.com/watch?v=Ve9cBwI-pAg
A duas quadras de casa há uma pequena loja de livros usados. Logo que lá entrei fui recebido por um senhor bastante idoso, o qual apresentou-se como proprietário. Disse a ele, especificamente, o que buscava, e aproveitei para solicitar que procurasse, também, alguma coletânea do Paulo Mendes Campos, do Hélio Pellegrino ou do Otto Lara Rezende.
Ele esboçou um sorriso. Em seguida mostrou-me a região da loja onde estavam os autores brasileiros, indicou-me onde estavam os livros do Fernando Sabino, e pediu-me licença para ir em busca dos demais cronistas mencionados por mim. Puxei uma cadeira, sentei-me, e fiquei por ali lendo os títulos nas lombadas dos livros enfileirados, tirando um ou outro de seu lugar, olhando a capa, lendo os textos de apresentação na primeira e segunda orelhas, os comentários na contracapa, e passeando pelos índices para ter uma visão de conteúdo.
Pouco depois ele se aproximou. Com alguns livros nas mãos comentou que, ainda adolescente, na ilusão de tornar-se escritor, havia estado no lançamento de um livro do Fernando Sabino, em Campinas; que, inspirado por ele, havia começado a valorizar os seus próprios escritos, tendo, consequentemente, ingressado na faculdade de Letras. Deixando comigo uma pilha de livros que selecionara para me mostrar, sugeriu-me folhear Hélio Pellegrino, Lourenço Diaféria e Contardo Calligaris. Em seguida voltou para o local onde se encontrava inicialmente, sentou-se quieto em meio a uma desordem interessante, e voltou a manusear os livros que estavam ao seu lado.
Cerca de quarenta minutos se passaram até que fui, finalmente, até à sua mesa, e entreguei a ele os livros que havia escolhido: "A cidade vazia" e "Deixa o Alfredo falar!", do Fernando Sabino, e "Lucidez embriagada", do Hélio Pellegrino. Enquanto manuseava os livros ele contou-me como os havia adquirido, e lamentou pelo Fernando Sabino, o Graciliano Ramos, a Clarice Lispector e o Jorge Amado não terem conseguido ocupar Cadeira na Academia Brasileira de Letras. Continuou sua fala relembrando fatos passados e lidos a respeito de cada um dos escritores por ele mencionados; e, por fim, contou-me do quanto sua esposa havia ficado contente quando ele retirou de dentro de sua casa todos os seus livros para poder iniciar o negócio do sebo; que ainda não havia conseguido cadastrar todos, mas que gostava de passar os seus dias ali, separando livros, cadastrando, ajeitando...
Naquele instante uma senhora entrou na loja, e a conversa precisou ser interrompida para que ele pudesse atendê-la. Depois, fiz o acerto dos valores da minha compra com a sensação de que, independente dos livros que eu havia escolhido, aquela pequena conversa já havia feito com que valesse à pena a minha estada naquela livraria.
Ao agradecer e me despedir, dei-me conta de que, ao lado de sua mesa de trabalho, havia uma garrafa de vinho tinto e uma taça; e que, mesmo sem muitos clientes, ele parecia de fato sentir-se muito bem ali, rodeado por ideias desenvolvidas por mentes iluminadas, cujos nomes, pela simples menção, já eram motivo para o início de uma conversa.
Pouco falei. Mas ouvi. Voltei para casa com o sentimento de que a compra e a venda, em si, não eram o melhor que aquele sebo podia oferecer: eram uma simples consequência.
No próximo sábado, no período da manhã, pretendo retornar àquela loja de livros usados; quero comentar minhas impressões a respeito dos livros que lá adquiri. E talvez, se não for incômodo ao proprietário, eu até leve para lá uma taça e uma garrafa de vinho tinto para ficar também bebendo e manuseando livros, até que a fome se manifeste e eu precise retornar à minha casa para o almoço.
Henri Mancini & His Orchestra - "Cortin" (Henri Mancini)
https://www.youtube.com/watch?v=v1AeueSldqw
Há cerca de quase dois meses apareceram em meus ombros duas pequenas manchas vermelhas. Elas coçavam... mas coçavam deliciosamente. Não havia dor. De início, querendo crer que elas logo iriam desaparecer, nenhuma providência tomei. Mas como elas persistiam, acabei por aplicar sobre elas, irresponsavelmente, uma pomada encontrada em uma das gavetas do banheiro de casa - e que me parecia apropriada, conforme instruções lidas na bula. Contudo, as manchas nem deram bola para a pomada: resistiram.
No início do mês, ainda com as manchas nos ombros, recebi um convite de um amigo, colega de república - hoje dermatologista -, para nos encontrarmos, nos revermos, e conversarmos sobre música, cinema e literatura - assuntos que foram responsáveis por nossa amizade há mais de quarenta anos.
Logo na chegada ouvi dele a notícia de que havia descoberto umas raridades musicais; que essas raridades foram gravadas, a seu pedido, por um amigo comum; que estava ansioso para me presentear com um pendrive contendo tais preciosidades. Em seguida entregou-me o pendrive commais de 700 músicas. E assim passamos, eu, ele, nossas esposas e mais uma amiga, uma noite muito agradável conversando, rindo e celebrando a vida.
Foi só há poucos dias que pude começar a ouvir as músicas gravadas: eram boleros, trilhas sonoras de filmes, sambas-canção... Doris Day, Henri Mancini, Edith Piaf, e tudo de bom que se possa imaginar. Percebi então, a medida que ia ouvindo as gravações, que aquelas manchas em meus ombros começaram a desaparecer. E assim, a cada dia, por intermédio da audição, sigo aplicando um pouco daquelas músicas nas minhas manchas.
Não consegui ainda ouvir todas as gravações que foram colocadas no pendrive. Consequentemente, ainda não estou totalmente curado das manchas nos ombros, pois ainda me falta ouvir umas oitenta músicas.
Ontem mesmo, por telefone, agradeci ao meu amigo, novamente, pelo presente terapêutico-musical que me foi prescrito e ofertado. Ao mesmo tempo agradeci-o também por uma pomada que, no nosso encontro, ele sugeriu que eu adquirisse em alguma farmácia e aplicasse de imediato sobre as manchas nos ombros: creio que aquela pomada também deve ter contribuído, um pouquinho, para que as músicas gravadas no pendrive resolvessem a questão das manchas nos meus ombros.
Caro amigo. Acabei de ler a mensagem que me foi enviada por você, via whatsapp, daí do cantinho da Europa, acompanhada de um vídeo. A mensagem me dá notícia do falecimento da jornalista Glória Maria, e o vídeo a mostra na rua entrevistando, há anos, o poeta Carlos Drummond de Andrade. A sua mensagem e o seu vídeo me chegam justo no instante em que eu me sento na sacada do apartamento, para, descompromissadamente, observar o horizonte.
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Chet Baker - "My funny valentine" (Rodgers/Hart)
https://www.youtube.com/watch?v=Bbz9i4Vd-Ac
E daqui da sacada, vejo o céu carregado de nuvens; vejo que aproxima-se da cidade um verdadeiro temporal. Mas não há ventania... Alguns pássaros tomam o rumo da praça da Catedral, e a algazarra promovida pelas maritacas mais parece o anúncio de um dilúvio. Denise e eu resistimos, em casa, nesse início de noite. Gosto de chuva. Gosto de chuvisqueiro. Em minha casa de menino o quintal tinha cheiro de tronco e folhas de mangueira molhada por água caída do céu... Com a possibilidade da chuva, reencontro minha mangueira... Talvez eu tenha a alma carregada de nuvens que pedem cuidado constante. Lembro-me do céu claro, acima das nuvens, quando ouço as histórias e as gargalhadas da Denise - dela, que tanto gosta do Carlos Drummond, talvez por um certo apego mineiro, mineiros que são. Ele de Itabira, ela de Viçosa... A Glória Maria era também dona de um sorriso bonito... ela sorri com leveza entrevistando o Drummond... Ele, depositário do sentimento do mundo, parece, na entrevista, entender de nuvens... e a Glória Maria, pelo que o poeta inspira, sorri e formula perguntas... Eu, diante daquela a quem quero bem, tento sorrir em retribuição ao seu sorriso espontâneo... procuro, sem encontrar, a mesma leveza.... e me levanto... vou à cozinha.... ligo a máquina de café, e preparo uma xícara de cappuccino para oferecer a ela, na sala... Na xícara, todo o meu amor - e o meu sorriso.
Daniel, Zé Américo, Elias, João - foto: acervo pessoal (2013)
David Crosby faleceu ontem, aos 81 anos de idade. Em meados dos anos 60 foi fundador da banda The Byrds, a qual fez muito sucesso com a gravação de "Mr. Tambourine Man" - composição de Bob Dylan. Crosby deixou o grupo em 1967. No ano seguinte juntou-se a seus amigos Stephen Stills e Graham Nash, com os quais formou o grupo de folk-rock Crosby, Stills & Nash - posteriormente, Neil Young juntou-se a eles. Daí o novo nome: Crosby, Stills, Nash & Young.
Crosby foi um dos artistas mais influentes no mundo do folk-rock. Tanto que foi admitido por duas vezes no famoso museu da cidade de Cleveland, em Ohio, nos Estados Unidos: o Rock and Roll Hall of Fame Museum - primeiramente (1991) pelo seu trabalho no The Byrds, e depois (1997) como componente do Crosby, Stills & Nash.
João, Daniel, Zé Américo, Elias (foto: acervo pessoal)
David Crosby foi muito elogiado e aplaudido em todos os teatros e casas de show onde se apresentou. Contudo, creio não ter chegado ao seu conhecimento que em uma madrugada, há muitos anos, no quintal enluarado da casa do meu amigo Daniel, em Guará, eu, o João, o Zé Américo e o próprio Daniel, tomados por música e muito boa vontade, aplaudimos o David Crosby repetidas vezes, cantando e ouvindo "Our house" - composição de Graham Nash, e sucesso internacional do grupo Crosby, Stills & Nash.
- Pois então, que Nova Iorque, Cleveland, Londres, Paris e todas as capitais e cidadezinhas do mundo fiquem sabendo do que se passou naquela madrugada em Guará, no quintal da casa do meu amigo Daniel.
Foto que circulou no facebook e outras mídias sociais (09jan23)
Os filhos tendem a imitar os pais; os discípulos, a seguir os seus mestres; e o povo, a agir de acordo com os seus representantes. Contudo, antes dos filhos maiores seguirem os exemplos de seus pais, dos discípulos e do povo adotarem como conduta o que lhes foi apresentado, eles precisam fazer uso do raciocínio crítico em relação àquilo a que foram movidos a praticar - e às suas consequências.
Ontem, 08/janeiro/23, brasileiros legalmente maiores, mostraram-se incapazes de fazer uso de seu próprio raciocínio crítico (menores, portanto), ao adotarem conduta com o mesmo potencial destrutivo de seus mentores. Foram vândalos, foram massa de manobra: quebraram e destruíram um patrimônio que não pertence somente a eles. Causaram um prejuízo material e moral incalculável ao nosso país.
O meu sentimento, hoje, é de desencanto. Não pela democracia e pelas instituições democráticas, que continuarão funcionando como devem, mas pela incapacidade daqueles agentes causadores de tamanho estrago fazerem uso prévio de raciocínio crítico; por tantos servidores públicos terem sido voluntariamente omissos, e por tanta gente maldosa ter estimulado tais atos - e que agora, covardemente, procuram fugir da assunção de suas responsabilidades.
Fui rever ontem, pelo YouTube, o filme “Rio, 40 graus”. Ao final, e sem que eu tivesse programado, um outro filme nacional começou a ser exibido: “Porto das Caixas” (1962, Saraceni). Com realismo intimista e com um toque de neorrealismo italiano, chamou-me a atenção a música tema para o filme: nada mais nada menos do que uma composição do Tom Jobim em parceria com o Vinícius de Moraes - e executada pelo próprio Tom: "Derradeira primavera". Que maravilha!
Embalado pelo trabalho que vi na tela, e pela sua trilha sonora, fui descobrir, em pesquisa, que o filme, baseado em obra de James M. Cain (“O carteiro sempre bate duas vezes”), já fora adaptado outras duas vezes para o cinema: “Obsessão” (1943, Visconti), e “O destino bate à sua porta” (1949, Garnett). Dois grandes "clássicos"!
Em “Porto das caixas” (1962), com argumento de Lúcio Cardoso, um crime ocorrido no interior do Estado do Rio de Janeiro foi adaptado para o filme. Paulo Cesar Saraceni, diretor desse que foi o seu primeiro longa-metragem, tempos depois, fez dois outros filmes baseados em histórias de Lúcio Cardoso - os quais, juntamente com "Porto das Caixas", compuseram a chamada “Trilogia da Paixão”: “Porto das caixas” (1962), “A casa assassinada” (1971), e “O viajante” (1998).
É, meus amigos... O cinema brasileiro, que sempre foi tratado com imenso e injusto descaso, ensina, celebra, motiva e inspira. Relaciono a seguir alguns filmes nacionais, independentemente de fase, mas com ênfase nos mais antigos, que não me canso de rever (muitos, acessíveis pelo YouTube), para que você, meu raríssimo leitor, possa dar um mergulho significativo em nossas inteligentes produções.
"Noite vazia" (1964; Dir.: Walter Hugo Khouri)
"O menino e o vento" (1967; Dir.: Carlos Hugo Christensen)
"Rio, 40 graus" (1955; Dir.: Nelson Pereira dos Santos)
O nosso querido poeta Vinícius de Moraes ocupou diversos postos na carreira diplomática brasileira. No exterior, ocupou postos em Los Angeles, Paris e Montevideo. No ano de 1966, como representante do governo brasileiro, recebeu do governo francês a condecoração do grau de "Oficial". Acontece que, no mesmo dia, e na mesma cerimônia, foi também condecorado, como "Cavaleiro", um outro brasileiro: Pelé.
Em crônica publicada no jornal Última Hora, no mesmo ano de 1966, e posteriormente em sua coletânea de crônicas "Para uma menina com uma flor", Vinícius expressou o orgulho e a admiração que sentia pelo nosso craque de futebol.
Condecorado como representante de governo, Vinícius orgulhava-se muito de Pelé; pois diferente dele, Pelé estava sendo distinguido pela Ordem Nacional de Mérito da França não como representante de governo, mas como "representante de si mesmo".
A seguir, a crônica "Um abraço em Pelé" - do nosso querido Vinícius de Moraes. (disponível em https://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/prosa/um-abraco-em-pele)
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UM ABRAÇO EM PELÉ
Eu ainda não tive o prazer de lhe ser apresentado, meu caro Pelé, mas agora, com o fato de termos sido condecorados juntos pelo governo de França - você no grau de Cavaleiro e eu no de Oficial: e mais justo me pareceria o contrário - vamos certamente nos conhecer e tornar amigos. Ninguém mais que você merece tão alta distinção, sobretudo por ter sido conferida espontaneamente - pois ninguém mais que você tem levado o nome do Brasil para fora de nossas fronteiras. Da Sibéria à Patagônia todo mundo conhece Pelé; e eu estou certo de que você entraria fácil na lista das dez personalidades mais famosas de nossos dias.
Não posso disfarçar o orgulho que a condecoração me causa, embora seja, de natureza, avesso a honrarias; e orgulho tanto maior porque nela estamos juntos: preto e branco (as cores do meu Botafogo!) e também as cores irmãs de nossa integração racial. Sim, caro Pelé, nós representamos, em face da comenda que nos é conferida, o Brasil racialmente integrado, o Brasil sem ódio e sem complexos, o Brasil que olha para o futuro sem medo porque, apesar dos pesares, é bom de mulher, bom de música, bom de poesia, bom de pintura, bom de arquitetura e bom de bola. Particularmente por isso considero-me feliz de estar a seu lado no momento em que nos colocarem no peito a condecoração.
Que você tenha sido distinguido pela Ordem Nacional do Mérito da França nada me parece mais natural. A França sempre deu um alto valor ao gênio, e você, meu grande Pelé, é um gênio completo, porque o seu futebol representa um reflexo imediato de sua cabeça nos seus pés. Eu não sou gênio, não. Eu tenho que pensar um bocado para que a mão transmita direito o que a cabeça lucubrou. Meus gols são mais raros que os seus. Você é com justa razão chamado o Rei. Quanto a mim, que rei sou eu?
Mas nada disso turva a satisfação que sinto em ser o seu Coutinho nesta nova investida do Brasil na área internacional. Parabéns, meu caro Pelé. Parabéns e o melhor abraço aqui do seu irmãozinho!