Minha intenção é publicar aqui as coisas que leio, vejo, penso ou observo, e que me fazem sentir que acrescentam. Afinal, as coisas só se tornam inteiramente bonitas quando podem ser compartilhadas e se mostram repletas de significados comuns.
Dante Alighieri - Portrait of Dante (1495, Sandro Botticelli)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Alighieri
No exato sentido do termo, conforme costumava empregar minha avó quando queria dizer "hábil, esperto", o Dante Alighieri (1265-1321) foi "danado" mesmo: dispôs o inferno, o purgatório e o paraíso, em "A Divina Comédia"*, em estruturas e camadas: creio que ele, ao fazer essa montagem, inspirou-se nas muitas pessoas que haviam passado e que ainda estavam passando pela sua vida. E fez tudo isso com muita arte. Certamente ele também olhou para si mesmo, e tentou se situar naquelas camadas. Fiquei também tentando me situar: em qual estrutura estaria eu? em qual camada? No paraíso não me vi, posto que ando muito humanizado; no inferno, fiquei até com um certo receio de refletir sobre os diversos estágios, mas definitivamente as entidades não devem ter chegado ao consenso de que eu deva ficar por lá, correndo de um lado para outro sem parar, como forma de pagamento pelas minhas omissões e infrações… Mas ainda guardo uma certa esperança de me purificar: assim, em havendo esperança, o inferno, por enquanto, não parece ser o meu destino. Tentei me enxergar no purgatório, e penso que tenho zanzado pelos seus estágios, procurando me purificar, e mantendo uma certa esperança de atingir o paraíso. Assim, ainda nesse embate pela purificação, vou ficando por aqui, mantendo a vontade e o empenho para me tornar cada vez menos imperfeito.
Interlúdio (órgão) - Basílica de São Pedro - 2016
https://www.youtube.com/watch?v=FWXXm34R3HQ
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*A Divina Comédia (originalmente "Comédia") - foi escrito de 1304 a 1321.
Depois de algum tempo voltei aos treinos noturnos de natação. Treinando, movimentando o corpo, vou cuidando de mim, quieto, em silêncio. Dentro d'água sou alvo de uma série de questões que, sem saber de onde vêm, ficam borbulhando em minha mente.
Astor Piazzolla - "Libertango"
https://www.youtube.com/watch?v=vaXNdVTGT0k
Voltei à piscina para poder atravessar as sombras e o reflexo das luzes que incidem no bailado das águas; voltei para acompanhar a corrida dos azulejos no fundo da piscina... para poder ficar calado, observando... Batendo os braços e as pernas, em silêncio, as ideias vão brotando das águas... E vou respirando... pensando... 25 metros... 50 metros... braços alongados... "João do Rio e Lima Barreto nutriam, um pelo outro, uma grande inimizade... preciso estudar melhor a respeito..."... Respiro... indo e voltando... batendo as pernas de forma ritmada... 200 metros... "as postagens politicas e inoportunas no meu grupo whatsapp de amigos vão promover chateação e mágoas... devo dizer algo?"... 300 metros... batendo as pernas... pensando... "o administrador, antes de ter se manifestado, não ouviu a comunidade... expressou unicamente seu entendimento pessoal... Maquiavel já havia comentado a respeito... o egoísmo, a ânsia pelo poder..."... Mãos em concha... 400 metros... "a Lei de Emancipação, nos Estados Unidos, tampouco cuidou de criar uma política de inserção do negro na sociedade... mas... esse abismo social no Brasil..."... 500 metros... respiro.... "os líderes das grande potências não se manifestam com clareza em relação aos conflitos bélicos em curso pelo mundo... e tanta gente morrendo... os interesses políticos justificam a indiferença?"... Respiro... 600 metros... acelero os movimentos... "o diretor falou pelo grupo sem antes ter consultado os representados... não gostei... essa confusão é temerosa... por quê tanto tato para levantar a questão?"... 800 metros... respiro na borda da piscina... "há paralelos entre o sertão de Guimarães Rosa e o de Darcy Ribeiro?... preciso pesquisar..."... 1000 metros... Sigo nadando, cadenciadamente. Concentro-me nas batidas rítmicas de pernas, no giro dos braços... Respiro.
Dentro d'água todos os sons e movimentos exteriores se distanciam, são secundários, desinteressantes... Enquanto nado, mergulho nas questões que vão borbulhando sem que eu as formule... Com força, bato as pernas na água... vou girando os braços, dando braçadas... e me pergunto voluntariamente: "Será que as águas promovem essa corrente impetuosa de questões como forma de vingança pela agressão que imponho a elas?"
Já na borda da piscina, cansado, respiro devagar e elaboro uma pergunta simples vinda lá do fundo do estômago: "O que será que teremos em casa hoje, para o jantar?"... e saio da piscina sem nenhuma resposta...
Para celebrar os cem anos de aquisição dos territórios da Nova França da América do Norte (Luisiana), os Estados Unidos promoveram a Exposição Universal de 1904 na cidade de Saint Louis (no estado do Missouri). Muitos países, dentre eles o Brasil, foram convidados a participar daquela que seria a 18ª Exposição Universal. Até então, as seguintes Exposições Universais, nos respectivos anos mencionados, haviam sido realizadas*: Londres (1851, 1862), Paris (1855, 1867, 1878, 1889, 1900), Porto (1865), Viena (1873), Filadélfia (1876), Sydney (1879), Melbourne (1880), Nova Orleans (1884), Barcelona (1888), Chicago (1893), Bruxelas (1897), e Buffalo (1901).
Para sediar o pavilhão do Brasil na Exposição Universal de Saint Louis, o engenheiro militar Francisco Marcelino de Sousa Aguiar projetou um palácio em estrutura metálica, o qual deveria ser montado no local da Exposição e, ao seu final, desmontado e remontado no Brasil. Na Exposição o Palácio foi um grande sucesso, chegando a vencer o principal prêmio de arquitetura.
Pavilhão do Brasil - Exposição Universal de Saint Louis - EUA
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=6248
Finda a Exposição, o Palácio foi desmontado - conforme previsto. Sua cúpula e as suas estruturas metálicas foram transportadas para serem remontadas na cidade do Rio de Janeiro, onde foi reinaugurado em 1906 para sediar a 3ª. Conferência Pan-Americana. Nessa ocasião, por sugestão de Joaquim Nabuco e do Barão do Rio Branco, o até então chamado Palácio de São Luiz foi renomeado "Palácio Monroe" - em homenagem ao presidente James Monroe, que governou os Estados Unidos de 1817 a 1825, e que, quando presidente, havia propagado a ideia de que fossem coibidas as interferências da Europa na América ("Doutrina Monroe" - "América para os americanos").
Depois da 3ª. Conferência Pan-Americana, o Palácio Monroe sediou a Câmara dos Deputados de 1914 a 1922; o Senado Federal de 1925 a 1960, e o Tribunal Superior Eleitoral (1945 a 1946). Com a inauguração de Brasília, e consequentemente a transferência da sede do Senado para a Praça dos Três Poderes, o Palácio Monroe passou a ter a função de escritório de representação (do Senado). Alvo de críticas fundadas em ideias de progresso a partir daí, argumentava-se que o Palácio atrapalhava o trânsito, que ia contra as convenções estéticas da época, que impediria a construção de uma linha do metrô, e que acarretava muito gasto público. Assim, em 1975 o Senado devolveu o edifício ao governo federal, e, em 1976, o Palácio Monroe foi demolido. Atualmente, no local, há um chafariz e um estacionamento subterrâneo explorado por empresa privada.
Chafariz que ocupa local onde esteve o Palácio Monroe
O Palácio Monroe pode ser visto em fotos antigas (muitas delas pela Internet), na imagem do reverso da cédula de 200 réis emitida em 1919, e, por acaso, em uma breve cena tomada por helicóptero, no filme "Roberto Carlos em ritmo de aventura" (1968; Dir. Roberto Farias).
Palácio Monroe - Reverso da cédula de 200 mil reis (1919)
Aqui no Brasil, e em muitos outros países, edifícios ricos em valor artístico, histórico e arquitetônico foram e continuam a ser derrubados em nome da exploração imobiliária e do progresso. Parece até que a ideia de construção já vem diretamente ligada à da destruição - e não da preservação. Quando me deparo com ideias assim, fico pensando que esse pouco valor dado aos símbolos do nosso tempo traduz o descaso que se tem atribuído a tudo aquilo que construímos, e que constitui a nossa própria história... Particularmente carrego comigo uma certa cumplicidade com alguns edifícios que conheci, alguns onde vivi, e outros por onde passei; pois eles, resistindo ao tempo, conseguem guardar em si muito do menino que um dia fui. Sinto uma tremenda aflição quando, às vezes, penso que essas minhas preciosidades poderão, um dia, ser destruídas. Lima Barreto, ao comentar as transformações pelas quais passava a cidade do Rio de Janeiro no começo do século XX, disse que "(...) não se pode compreender uma cidade sem esses marcos de sua vida anterior, sem esses anais de pedra que contam a sua história"**... e eu, mergulhado nas ideias do grande escritor, vou refletindo e dizendo a mim mesmo: "não posso me compreender sem que possa revisitar, sempre que quiser, os "Palácios" de pedra que aprendi a gostar - e onde deixei um pouco de mim."
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*O Brasil organizou a Exposição Universal de 1922, no Rio, em comemoração aos 100 anos de independência do Brasil.
**Trecho da crônica "O convento", publicada na Gazeta da Tarde em 21/7/1911 - republicada em "Cronistas do Rio" - org. por Beatriz Resende - Autêntica Editora, 2017
O cinema é uma das formas de expressão artística que tem o poder e a magia de despertar diferentes sensações. Para isso, o gênero ou estilo de filme contam muito.
O filme noir é um desses "gêneros" - ou, discute-se, não de "gênero", mas de "estilo", pois muitos entendem tratar-se de uma maneira de lidar com a imagem. O filme noir, em geral, trabalha com suspenses psicológicos que adentram a personalidade humana. Nesse "gênero" (chamemos assim), ninguém é santo: todos são, em algum momento, suspeitos. Diferente do maniqueísmo que era filmado até então, quando se identificava muito bem quem era o bandido e quem era o mocinho, no filme noir mulheres já são tratadas sem aquele perfil exclusivo de ingenuidade; os vilões às vezes nem são tão maus; e detetives já não são tão confiáveis quanto deveriam ser. Em geral, os traços marcantes do filme noir são as sombras, os ângulos de filmagem, cenas com fumaça e neblina - e eu acrescentaria, ainda, que a música também exerce um papel fundamental, pois cria todo um clima de mistério e suspense. Casacão, chapéu e cigarro, com histórias ligadas ao chamado "whodunit", ou seja, que descrevem investigação, com assassinato, são elementos que compõem os filmes noir. Neles,há quase sempre um indivíduo com muitas manias - em geral é o detetive, com falas fortes e absolutas. Há ainda muita narração em off, que reflete a necessária economia do número de cenas para a época; vejo, inclusive, um certo machismo no filme noir... se bem que a mulher já aparece mudando o seu perfil social nesse período: ela carrega ainda uma certa fragilidade, porém começa a ser vista como autora de gestos nem sempre nobres, muitas vezes falível, elaborando tramas e buscando atingir intentos de uma forma nem sempre muito ética.
O filme noir teve sua fase áurea de 1941 a 1958, nos Estados Unidos. Foram realizados, no "gênero" noir, dentre muitos outros, os seguintes filmes: "O falcão maltês" (Relíquia macabra) - (1941), dirigido por John Huston; "Pacto de sangue" (1944), "Farrapo humano" (1945), e "Crepúsculo dos deuses" (1950), dirigidos por Billy Wilder; "Laura" - (1944), por Otto Preminger; "Gilda" (1946), por Charles Vidor; "A dama de Shangai" (1948), por Orson Welles.
Humphrey Bogart ("Relíquia macabra"), Rita Hayworth ("Gilda", "A dama de Shangai"), Dana Andrews ("Laura"), Glenn Ford ("Gilda"), Barbara Stanwyck ("Pacto de sangue"), Lauren Bacall (À beira do abismo"), são alguns dos atores e atrizes associados ao filme noir.
Apesar de serem muito pobres em locações e cenários, de mostrarem cenas "forçadas", tais como aquelas em que, exemplificativamente, detetives aparecem no apartamento de qualquer suspeito, sem qualquer anúncio prévio, para interrogá-lo sempre que assim desejam, gosto dos filmes noir... Acho especialmente interessantes os seus títulos, tão fortes e macabros que, só de me deparar com eles, já sinto um certo arrepio: "A curva do destino", "Alma torturada", "O homem dos olhos esbugalhados", "Assassinos", "O beijo da morte"...
"It's [never] too late" para falar da Carole King, do James Taylor e da Carly Simon - e do Paul Simon e do Cat Stevens, acrescento. "It's [never] too late" para me reorganizar e poder ouvir minhas playlists, com uma série de gravações marcantes que foram feitas por eles.
Carole King - "So far away" (Carole King) - do LP "Tapestry" (Epic, 1971)
https://www.youtube.com/watch?v=UofYl3dataU
O meu amigo "Big Boy", que, de tão romântico, acho que morreu de amores (por tudo e por todos), era proprietário de um fusca vermelho, ao qual apelidamos "tocha".
Nos finais das tardes de sábado o Big Boy estacionava o "tocha" na calçada do Bar do Vicente, na esquina da rua principal da nossa querida e minúscula cidade, e ali nós nos juntávamos em grupo de amigos, na calçada ao redor de uma mesa posta. E com as portas do "tocha" abertas, o Big Boy colocava para tocar uma fita k7 com as nossas gravações prediletas: "Wild world", "High out of time", "Tapestry", "That's the way I've always heard it should be", "Carolina on my mind", "Nobody does it better", "I haven't got time for the pain", "So far away"... "It's gonna take some time", "Embrace me, you child", "It's too late"... E de lá, da calçada do nosso fim de mundo, debaixo de uma árvore e das estrelas do céu, cantávamos e brindávamos com nossos queridos ídolos sem que eles, de algum lugar no mundo, tivessem conhecimento da maneira carinhosa que estavam sendo celebrados e que tocavam os nossos corações.
E nesse ambiente de música, conversa e bebida, como se já não houvesse comentado anteriormente inúmeras vezes, o Big Boy "filosofava":
- "Só de ouvir a voz da Carole King eu já tenho vontade de ir não sei pra onde.
E completava:
- "Vicente, traga mais cerveja aqui pra mesa... e, pra mim, mais um uísque caubói".
Com o pedido feito ao Vicente ele se levantava e entrava no "tocha", justificando sua movimentação:
- "Vou aumentar o som. Quem sabe, de algum lugar por aí, essa danada me escuta".
E a Carole King cantava:
- "So far away/ doesn't anybody stay in one place anymore/ it would be so fine to see/ your face at my door..."
E eu, perdido em meus pensamentos, ficava imaginando a Carole King sorrindo, atenta a cada comentário que íamos fazendo...
Os mariachis são grupos que cantam música folclórica mexicana. São alegres e muito sorridentes. Foram formados, inicialmente, para animar festas de casamento - por isso a origem da palavra: do francês "mariage", que significa "casamento". Dentre as músicas folclóricas mexicanas, gosto, especialmente, de Las Mañanitas - uma música que costumava ser cantada no México, nas festas de aniversário, no momento de se cortar o bolo - mas também logo de manhã, em forma de serenata, para aquele ou aquela que aniversariava.
Las Mañanitas - Mariachi Conce - (Vicente Fernàndez)
https://www.youtube.com/watch?v=BPgmyhHvkFs
Las
Mañanitas
Estas son las mañanitas
Que cantaba el rey David
Hoy por ser día de tu santo
Te las cantamos aqui
Despierta, mi bien, despierta
Mira que ya amaneció
Ya los pajaritos cantan
La luna ya se metió
Qué linda está la mañana
En que vengo a saludarte
Venimos todos con gusto
Y placer a felicitarte
El día en que tú naciste
Nacieron todas las flores
En la pila del bautizo
Cantaron los Ruiseñores
Ya viene amaneciendo
Ya la luz del día nos dio
Levántate de mañana
Mira que ya amaneció
Si yo pudiera bajarte
Las estrellas y un lucero
Para poder demostrarte
Lo mucho que yo te quiero
Con jazmines y flores
Este día quiero adornar
Hoy por ser día de tu santo
Te venimos a cantar
As Manhãs
Estas são as manhãs
Que o rei Davi cantava
Hoje por ser dia do teu santo
Cantamos para ti
Acorda, meu bem, acorda
Olha que já amanheceu
Já os passarinhos cantam
A lua já entrou
Que linda esta manhã
Em que vim cumprimentar te
Viemos todos com prazer
E prazer em parabenizá-lo
O dia em que nasceste
Todas as flores nasceram
Na local onde está o batistério
Cantaram os rouxinóis
Já vem amanhecendo
Já a luz do dia nós dia
Levanta-te de manhã
Olha que já amanheceu
Se eu pudesse descer
As estrelas, e uma estrela
Para te poder provar
O quanto te amo
Com jasmins e flores
Este dia eu quero enfeitar
Hoje por ser dia do teu santo
Viemos cantar
Na letra de Las Mañanitas, há uma palavra que sempre cantei sem saber o seu significado. Mas hoje, especialmente, ao enviar meus cumprimentos de aniversário a um amigo que vive no México, encaminhei a ele, como ilustração, um vídeo de uma gravação de Las Mañanitas. E dessa vez bateu forte a vontade de conhecer a tal palavra.
A tal palavra está na quarta estrofe da canção. Nela o autor diz que, "no dia em que o aniversariante nasceu, todas as flores nasceram; que, no batistério, os 'ruiseñores' cantaram". Mas... "ruiseñores"... o que significa? Foi justamente ela que me levou a fazer uma pesquisa. Quem seriam esses "señores" que foram cantar no batistério? Seria um grupo de senhores chamados, todos eles, Rui? Não, não poderia ser. Isso seria uma tremenda bobagem!
No dicionário da Real Academia Espanhola, encontrei a seguinte explicação:
Ruiseñor - m. Ave canora del orden de las paseriformes, común en España y otras partes de Europa, de unos 16 cm de largo, con plumaje de color pardo rojizo, más oscuro en el lomo y la cabez que en la cola y el pecho, y gris claro en el vientre, que tiene pico fino, parduzco, y tarsos delgados y largos, y habita el las arboledas y lugares frescos y sombrios.
Como meus conhecimentos de ornitologia são mínimos, não consegui entender a explicação. Compreendi, no entanto, que tratava-se de uma ave. Mas... "uma ave comum na Espanha, de uns 16 centímetros, com plumagem da cor parda, mais escuro no dorso e na cabeça do que na cauda e no peito, e acinzentado no ventre, que tem bico fino, acastanhado, e as partes superiores do pé (tarso) delgadas e largas, e habita os bosques e lugares frescos e sombrios".
- Que ave seria essa? Você, meu caro leitor, saberia me dizer?
Bom, para ser mais direto, resolvi apelar para o dicionário Espanhol - Português:
"Ruiseñor (m.) - rouxinol".
Feliz com a descoberta, quase caí de costas de tanto rir da imagem que havia construído, ao pensar em uma porção de senhores sérios, todos eles chamados "Rui", cantando no batistério, no dia do ritual de purificação do aniversariante.
Pois é: "ruiseñores" significa "rouxinóis". Simples assim! E que bela descrição foi feita no dicionário da Real Academia Espanhola! Ao conhecer agora essa palavra da língua espanhola, senti a ressurreição imediata, aqui no meu local de trabalho, de um rouxinol que conviveu comigo na sala de visitas da casa de meus pais, por muitos e muitos anos. Esse rouxinol era amigo do imperador da China, morava nas páginas de um livro de contos de fadas do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, e também na narrativa gravada, desse mesmo conto, em um disco de vinil colorido que eu ouvia incansavelmente: "O Rouxinol do Imperador".
- E assim, juntando a pena do Milton Nascimento, vou agora convivendo com todos os meus rouxinóis: "Rouxinol tomou conta do meu viver (...) /Todos os pássaros, anjos dentro de nós/ uma harmonia trazida dos rouxinóis"*.
O Rouxinol do Imperador
https://www.youtube.com/watch?v=l8DzHrzMjFs
Adaptação e melodias: Elza Fiúza; Orquestração de Radamés Gnattali; Narradora: Sônia Barreto; Elenco Teatro Disquinho; ilustração: Joselito
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*início e refrão da canção "Rouxinóis" (Milton Nascimento), de seu álbum "Nascimento" (Warner, 1997)
O Brasil é, de fato, um país habitado por um povo muito talentoso. Do nada, um universo pintado de beleza se descortina. Eu não esperava absolutamente nada dessa apresentação... Mas as primeiras notas, a curiosidade diante da aparente insignificância... depois, a pronúncia, a surpresa... e o meu espanto! Por onde andou um coração simples, sentado em um boteco de ponta de vila, enquanto tinha um violão nos braços e cantava? O que transitou pelo seu pensamento? Pensou em pobreza? Lembrou de suas carências? Música é, de fato, o alimento da alma! Adorei este vídeo que recebi de um amigo... A pronúncia, o mergulho feito pelo talentoso brasileiro durante a sua travessia por "Wish you were here". Seria bom se conseguíssemos, um dia, muitos dias, estar próximos dos talentos que rondam pelos cantos dos becos, das vilas, das cidadezinhas, dos botecos de fim de rua... e de fim de noite... para podermos valorizar, divulgar, tentar encontrar possibilidades... para ajudarmos na abertura de fronteiras. À moda do João Ubaldo, concluo: "Viva o povo brasileiro!"
Um brasileiro - "Wish you were here" - (Gilmour/Waters) - Pink Floyd
- "Essa é uma das muitas histórias que acontecem comigo..."
Pois seria tudo assim, como assim era quando, ainda menino, vi o primeiro Jeep* Willys CJ-2A, sem capotas. Seu proprietário era o Sr. Kaisã**, um imigrante japonês que passava seus dias em uma oficina mecânica da cidade. Eu gostava de ir àquela oficina para poder ouvi-lo conversar e contar histórias. Ele me falava de seu Jeep e de todos os reparos que havia feito nele... que com muitos amigos amontoados em seus bancos, ia às suas pescarias no Sapucaí. Eu admirava o Sr. Kaisã por cuidar tão bem do seu Jeep, e, influenciado por ele, eu sonhava ser mecânico e ter, quando pudesse, um Jeep tão velho, mas tão bem (des)cuidado quanto o dele.
Havia na cidade, também, os Jeeps do Sr. Chico Barbeiro, do Sr. Vasco e do Sr. Nenzinho - este, curiosamente, proprietário de uma oficina de bicicletas, que fazia experimentos mecânicos para serem mostrados orgulhosamente em passeios pelas ruas da cidade (de uma bicicleta de quatro pedais eu nunca me esqueço). Depois, também, o Jeep do Sr. Pedro. Mas o Jeep pelo qual eu tinha um encanto especial era, sem dúvida, o Jeep do Sr. kaisã.
Pois aconteceu hoje, enquanto eu subia a Rua São José. Vi um Jeep Willys amarelo, sem capotas, estacionado na esquina da Avenida Itatiaia. Ao vê-lo, revi, em minhas lembranças, o Sr. Kaisã e o "jeepinho" que sempre quis ter. Dei a volta no quarteirão e parei para poder fotografá-lo.
Jeep - 20fev24 (foto: acervo pessoal)
Enquanto fotografava, o proprietário do Jeep aproximou-se de mim. Antes que ele pudesse formular qualquer pergunta, fui logo contando a ele que aquele havia sido o meu sonho de adolescente; que eu sonhava ter um Jeep tal como o dele, sem capotas, aberto... e que fosse um carro prático, de muitos anos de fabricação, mas que tivesse sido cuidado, reformado e reparado, quando necessário, única e exclusivamente por mim. Eu o levaria comigo à universidade quando fosse cursar engenharia mecânica, e o teria como agregador de amigos e encantador de corações femininos - tal como era cantado pelo Roberto Carlos, em "O Calhambeque", enquanto (na letra da música) o seu Cadillac permanecia na oficina para reparos.
A imagem de um carro assim, prático, sem capotas, significava para mim juventude, informalidade e liberdade. Eu acreditava que meus amigos e minhas amigas estariam sempre dispostos a passear no Jeep que um dia eu iria ter; que, nos bancos do meu Jeep, sorriríamos muito enquanto estivéssemos acenando na direção daqueles que nos vissem passar... Se, eventualmente, ocorresse alguma quebra no veículo, eu prontamente desceria da condução do volante e, na condição de um herói estudante de engenharia mecânica, em poucos minutos efetuaria o reparo. Assim, troca de pneus, regulagem de carburador, limpeza de filtro, vazamento de óleo, fosse o que fosse, eu seria o mecânico que dava um jeito em tudo.
Roberto Carlos - "O Calhambeque" - (Roberto/Erasmo - 1964)
https://www.youtube.com/watch?v=nWbaV-PPPVo
Mas, ao final daquela minha parada para fotografar o Jeep, ao agradecer ao proprietário por ter tido paciência de me ouvir, eu contei a ele que nada do que eu sonhara tornou-se realidade, que tudo ficou adormecido em sonho.
Graduei-me engenheiro mecânico e trabalhei em fábrica por algum tempo. Mas não gosto nem um pouco de fazer reparos em máquinas e equipamentos - muito menos em automóveis. Nunca tive um Jeep. Duas ou três vezes, forçado, troquei pneu furado. Hoje, quando estou dirigindo, mantenho fechadas todas as janelas do carro... e fico ouvindo música, tentando desvendar "a alma encantadora das ruas"***... e vou observando árvores, imóveis com personalidade, e muitos transeuntes que, nessa "vida vertiginosa"****, seguem desatentos ao seu entorno...
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* Jeep - Essa palavra é a forma que soa, em português, a denominação abreviada pelas iniciais GP ("General Purpose"), que foi dada ao veículo militar da montadora norte-americana Willys Overland. Os Jeeps foram muito utilizados pelos militares norte-americanos na Segunda Guerra Mundial.
**Paulo Onodera, conhecido como Sr. Kaisã.
***título de livro publicado por João do Rio, em 1908
****título de livro publicado por João do Rio em 1911, originalmente.
Hoje fui à praia. Entrei na água e fiquei brincando sob o sol, ao sabor das ondas.
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Maysa: "Nós e o mar" (Menescal/Bôscoli)
https://www.youtube.com/watch?v=USNFfujgbk8
Mas foi na areia, sentado à sombra de um guarda-sol, que fiquei observando os traços feitos pelo Criador: "quanta beleza!; e que perfeição!" Dei-me conta, inclusive, de que Ele não se esqueceu de cuidar da arquitetura: abençoou o Niemeyer, que traçou muitas linhas inspiradas nas curvas e no relevo da mulher. "Ele [o Niemeyer] admirava a beleza e o corpo feminino. A mulher o inspirava" - conta seu ex-aluno e, depois colaborador, Salviano Guimarães*. O próprio Niemeyer, em "Poema da Curva", assim se explica:
POEMA DA CURVA
Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e
sensual. A curva que encontro nas
montanhas do meu país, no curso sinuoso
dos seus rios, nas nuvens do céu, no
corpo
da mulher amada.
De curvas é feito todo o Universo.
O Universo curvo de Einstein.
Só sei que ao final do dia, já sob o luar, saí vagando pela orla à procura de um recanto pacífico onde eu pudesse fecundar o pensamento com taças de vinho, e ficar sonhando com o paraíso e com as deidades que um dia zanzaram pelo Olimpo.
Sacha Distel e Dionne Warwick (et Baden Powell) - "The girl from Ipanema" / "A Felicidade"
https://www.youtube.com/watch?v=LsPJP_vJ2H4
foto em https://www.youtube.com/watch?v=LsPJP_vJ2H4
A Bossa Nova é o passaporte do Brasil, com o visto de entrada para qualquer país do mundo. E essa entrada é triunfal: leva sorrisos, leva gingado... leva sol, leva verde... leva tardes ensolaradas em "jardins de sol". E nessa praia há sempre "garotas de Ipanema": autênticas "flores que nascem morenas", e que inspiram beleza - e "(a) Felicidade". Quer mais? Pois a Bossa Nova é também o certificado de doçura da língua portuguesa falada no Brasil... que, quando soa, assim como passarinhos, tem o poder de um salvo-conduto, transpondo fronteiras, inclusive induzindo o estrangeiro a cantar e a assobiar, em instintiva elevação de alma. Com a Bossa Nova a "felicidade" não tem fim... em especial se se juntar acordes do violão do Baden a esse tempero, conforme fizeram o francês Sacha Distel e a norte-americana Dionne Warwick.
- Ah, Bossa Nova... Ah, Brasil... somos o paraíso adormecido... muito, muito mais do que se sabe por aí!