Minha intenção é publicar aqui as coisas que leio, vejo, penso ou observo, e que me fazem sentir que acrescentam. Afinal, as coisas só se tornam inteiramente bonitas quando podem ser compartilhadas e se mostram repletas de significados comuns.
quinta-feira, 15 de agosto de 2024
CLÓVIS, O GUERREIRO
segunda-feira, 3 de junho de 2024
A RECREATIVA
Ontem passei pela Nove... e, imaginando preservado o calçamento da Avenida, fiquei angustiado ao pensar em suas margens esquecidas em um tempo futuro, distante do meu período de existência... margens tomadas por prédios retos, frios, práticos, altos e impessoais... prédios espremidos construídos onde, um dia, havia existido um prédio diferenciado, um espaço para confraternização - um clube recreativo - às margens da Avenida.
A Recreativa conta uma... muitas... inúmeras histórias da cidade e de sua gente: histórias de sonhos, lutas e sacrifícios, que ensejaram a formação de laços de amizade e companheirismo entre muitas pessoas.
A sua sede social, na Av. Nove de Julho, é um prédio e espaço diferenciado? É! Tem valor cultural? Se tem!!! A começar pelos murais feitos nas paredes ao lado da calçada... Internamente, as suas piscinas... as quadras de tênis, o restaurante, os salões de festas... no coração de Ribeirão Preto: um belo cartão postal da cidade... da cidade que se enriquece, que se transforma... mas que - quero crer - saberá preservar e manter de pé suas referências...
terça-feira, 28 de maio de 2024
A DIVINA COMÉDIA
No exato sentido do termo, conforme costumava empregar minha avó quando queria dizer "hábil, esperto", o Dante Alighieri (1265-1321) foi "danado" mesmo: dispôs o inferno, o purgatório e o paraíso, em "A Divina Comédia"*, em estruturas e camadas: creio que ele, ao fazer essa montagem, inspirou-se nas muitas pessoas que haviam passado e que ainda estavam passando pela sua vida. E fez tudo isso com muita arte. Certamente ele também olhou para si mesmo, e tentou se situar naquelas camadas. Fiquei também tentando me situar: em qual estrutura estaria eu? em qual camada? No paraíso não me vi, posto que ando muito humanizado; no inferno, fiquei até com um certo receio de refletir sobre os diversos estágios, mas definitivamente as entidades não devem ter chegado ao consenso de que eu deva ficar por lá, correndo de um lado para outro sem parar, como forma de pagamento pelas minhas omissões e infrações… Mas ainda guardo uma certa esperança de me purificar: assim, em havendo esperança, o inferno, por enquanto, não parece ser o meu destino. Tentei me enxergar no purgatório, e penso que tenho zanzado pelos seus estágios, procurando me purificar, e mantendo uma certa esperança de atingir o paraíso. Assim, ainda nesse embate pela purificação, vou ficando por aqui, mantendo a vontade e o empenho para me tornar cada vez menos imperfeito.
domingo, 5 de maio de 2024
A VINGANÇA DAS ÁGUAS
Depois de algum tempo voltei aos treinos noturnos de natação. Treinando, movimentando o corpo, vou cuidando de mim, quieto, em silêncio. Dentro d'água sou alvo de uma série de questões que, sem saber de onde vêm, ficam borbulhando em minha mente.
Dentro d'água todos os sons e movimentos exteriores se distanciam, são secundários, desinteressantes... Enquanto nado, mergulho nas questões que vão borbulhando sem que eu as formule... Com força, bato as pernas na água... vou girando os braços, dando braçadas... e me pergunto voluntariamente: "Será que as águas promovem essa corrente impetuosa de questões como forma de vingança pela agressão que imponho a elas?"
Já na borda da piscina, cansado, respiro devagar e elaboro uma pergunta simples vinda lá do fundo do estômago: "O que será que teremos em casa hoje, para o jantar?"... e saio da piscina sem nenhuma resposta...
terça-feira, 2 de abril de 2024
O PALÁCIO MONROE
Para celebrar os cem anos de aquisição dos territórios da Nova França da América do Norte (Luisiana), os Estados Unidos promoveram a Exposição Universal de 1904 na cidade de Saint Louis (no estado do Missouri). Muitos países, dentre eles o Brasil, foram convidados a participar daquela que seria a 18ª Exposição Universal. Até então, as seguintes Exposições Universais, nos respectivos anos mencionados, haviam sido realizadas*: Londres (1851, 1862), Paris (1855, 1867, 1878, 1889, 1900), Porto (1865), Viena (1873), Filadélfia (1876), Sydney (1879), Melbourne (1880), Nova Orleans (1884), Barcelona (1888), Chicago (1893), Bruxelas (1897), e Buffalo (1901).
Para sediar o pavilhão do Brasil na Exposição Universal de Saint Louis, o engenheiro militar Francisco Marcelino de Sousa Aguiar projetou um palácio em estrutura metálica, o qual deveria ser montado no local da Exposição e, ao seu final, desmontado e remontado no Brasil. Na Exposição o Palácio foi um grande sucesso, chegando a vencer o principal prêmio de arquitetura.
Finda a Exposição, o Palácio foi desmontado - conforme previsto. Sua cúpula e as suas estruturas metálicas foram transportadas para serem remontadas na cidade do Rio de Janeiro, onde foi reinaugurado em 1906 para sediar a 3ª. Conferência Pan-Americana. Nessa ocasião, por sugestão de Joaquim Nabuco e do Barão do Rio Branco, o até então chamado Palácio de São Luiz foi renomeado "Palácio Monroe" - em homenagem ao presidente James Monroe, que governou os Estados Unidos de 1817 a 1825, e que, quando presidente, havia propagado a ideia de que fossem coibidas as interferências da Europa na América ("Doutrina Monroe" - "América para os americanos").
Depois da 3ª. Conferência Pan-Americana, o Palácio Monroe sediou a Câmara dos Deputados de 1914 a 1922; o Senado Federal de 1925 a 1960, e o Tribunal Superior Eleitoral (1945 a 1946). Com a inauguração de Brasília, e consequentemente a transferência da sede do Senado para a Praça dos Três Poderes, o Palácio Monroe passou a ter a função de escritório de representação (do Senado). Alvo de críticas fundadas em ideias de progresso a partir daí, argumentava-se que o Palácio atrapalhava o trânsito, que ia contra as convenções estéticas da época, que impediria a construção de uma linha do metrô, e que acarretava muito gasto público. Assim, em 1975 o Senado devolveu o edifício ao governo federal, e, em 1976, o Palácio Monroe foi demolido. Atualmente, no local, há um chafariz e um estacionamento subterrâneo explorado por empresa privada.
O Palácio Monroe pode ser visto em fotos antigas (muitas delas pela Internet), na imagem do reverso da cédula de 200 réis emitida em 1919, e, por acaso, em uma breve cena tomada por helicóptero, no filme "Roberto Carlos em ritmo de aventura" (1968; Dir. Roberto Farias).
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*O Brasil organizou a Exposição Universal de 1922, no Rio, em comemoração aos 100 anos de independência do Brasil.
**Trecho da crônica "O convento", publicada na Gazeta da Tarde em 21/7/1911 - republicada em "Cronistas do Rio" - org. por Beatriz Resende - Autêntica Editora, 2017
sexta-feira, 29 de março de 2024
O FILME "NOIR"
Humphrey Bogart ("Relíquia macabra"), Rita Hayworth ("Gilda", "A dama de Shangai"), Dana Andrews ("Laura"), Glenn Ford ("Gilda"), Barbara Stanwyck ("Pacto de sangue"), Lauren Bacall (À beira do abismo"), são alguns dos atores e atrizes associados ao filme noir.
Apesar de serem muito pobres em locações e cenários, de mostrarem cenas "forçadas", tais como aquelas em que, exemplificativamente, detetives aparecem no apartamento de qualquer suspeito, sem qualquer anúncio prévio, para interrogá-lo sempre que assim desejam, gosto dos filmes noir... Acho especialmente interessantes os seus títulos, tão fortes e macabros que, só de me deparar com eles, já sinto um certo arrepio: "A curva do destino", "Alma torturada", "O homem dos olhos esbugalhados", "Assassinos", "O beijo da morte"...
sexta-feira, 22 de março de 2024
CAROLE KING E O "TOCHA"
"It's [never] too late" para falar da Carole King, do James Taylor e da Carly Simon - e do Paul Simon e do Cat Stevens, acrescento. "It's [never] too late" para me reorganizar e poder ouvir minhas playlists, com uma série de gravações marcantes que foram feitas por eles.
E nesse ambiente de música, conversa e bebida, como se já não houvesse comentado anteriormente inúmeras vezes, o Big Boy "filosofava":
- "Só de ouvir a voz da Carole King eu já tenho vontade de ir não sei pra onde.
E completava:
- "Vicente, traga mais cerveja aqui pra mesa... e, pra mim, mais um uísque caubói".
Com o pedido feito ao Vicente ele se levantava e entrava no "tocha", justificando sua movimentação:
- "Vou aumentar o som. Quem sabe, de algum lugar por aí, essa danada me escuta".
E a Carole King cantava:
- "So far away/ doesn't anybody stay in one place anymore/ it would be so fine to see/ your face at my door..."
E eu, perdido em meus pensamentos, ficava imaginando a Carole King sorrindo, atenta a cada comentário que íamos fazendo...
sexta-feira, 1 de março de 2024
OS "RUISEÑORES" PASSARAM POR AQUI
Os mariachis são grupos que cantam música folclórica mexicana. São alegres e muito sorridentes. Foram formados, inicialmente, para animar festas de casamento - por isso a origem da palavra: do francês "mariage", que significa "casamento". Dentre as músicas folclóricas mexicanas, gosto, especialmente, de Las Mañanitas - uma música que costumava ser cantada no México, nas festas de aniversário, no momento de se cortar o bolo - mas também logo de manhã, em forma de serenata, para aquele ou aquela que aniversariava.
Las
Mañanitas
Estas son las mañanitas Que cantaba el rey David Hoy por ser día de tu santo Te las cantamos aqui
Despierta, mi bien, despierta Mira que ya amaneció Ya los pajaritos cantan La luna ya se metió
Qué linda está la mañana En que vengo a saludarte Venimos todos con gusto Y placer a felicitarte
El día en que tú naciste Nacieron todas las flores En la pila del bautizo Cantaron los Ruiseñores
Ya viene amaneciendo Ya la luz del día nos dio Levántate de mañana Mira que ya amaneció
Si yo pudiera bajarte Las estrellas y un lucero Para poder demostrarte Lo mucho que yo te quiero
Con jazmines y flores Este día quiero adornar Hoy por ser día de tu santo Te venimos a cantar |
As Manhãs
Estas são as manhãs Que o rei Davi cantava Hoje por ser dia do teu santo Cantamos para ti
Acorda, meu bem, acorda Olha que já amanheceu Já os passarinhos cantam A lua já entrou
Que linda esta manhã Em que vim cumprimentar te Viemos todos com prazer E prazer em parabenizá-lo
O dia em que nasceste Todas as flores nasceram Na local onde está o batistério Cantaram os rouxinóis
Já vem amanhecendo Já a luz do dia nós dia Levanta-te de manhã Olha que já amanheceu
Se eu pudesse descer As estrelas, e uma estrela Para te poder provar O quanto te amo
Com jasmins e flores Este dia eu quero enfeitar Hoje por ser dia do teu santo Viemos cantar |
Na letra de Las Mañanitas, há uma palavra que sempre cantei sem saber o seu significado. Mas hoje, especialmente, ao enviar meus cumprimentos de aniversário a um amigo que vive no México, encaminhei a ele, como ilustração, um vídeo de uma gravação de Las Mañanitas. E dessa vez bateu forte a vontade de conhecer a tal palavra.
A tal palavra está na quarta estrofe da canção. Nela o autor diz que, "no dia em que o aniversariante nasceu, todas as flores nasceram; que, no batistério, os 'ruiseñores' cantaram". Mas... "ruiseñores"... o que significa? Foi justamente ela que me levou a fazer uma pesquisa. Quem seriam esses "señores" que foram cantar no batistério? Seria um grupo de senhores chamados, todos eles, Rui? Não, não poderia ser. Isso seria uma tremenda bobagem!
No dicionário da Real Academia Espanhola, encontrei a seguinte explicação:
Ruiseñor - m. Ave canora del orden de las paseriformes, común en España y otras partes de Europa, de unos 16 cm de largo, con plumaje de color pardo rojizo, más oscuro en el lomo y la cabez que en la cola y el pecho, y gris claro en el vientre, que tiene pico fino, parduzco, y tarsos delgados y largos, y habita el las arboledas y lugares frescos y sombrios.
Como meus conhecimentos de ornitologia são mínimos, não consegui entender a explicação. Compreendi, no entanto, que tratava-se de uma ave. Mas... "uma ave comum na Espanha, de uns 16 centímetros, com plumagem da cor parda, mais escuro no dorso e na cabeça do que na cauda e no peito, e acinzentado no ventre, que tem bico fino, acastanhado, e as partes superiores do pé (tarso) delgadas e largas, e habita os bosques e lugares frescos e sombrios".
- Que ave seria essa? Você, meu caro leitor, saberia me dizer?
Bom, para ser mais direto, resolvi apelar para o dicionário Espanhol - Português:
"Ruiseñor (m.) - rouxinol".
Feliz com a descoberta, quase caí de costas de tanto rir da imagem que havia construído, ao pensar em uma porção de senhores sérios, todos eles chamados "Rui", cantando no batistério, no dia do ritual de purificação do aniversariante.
Pois é: "ruiseñores" significa "rouxinóis". Simples assim! E que bela descrição foi feita no dicionário da Real Academia Espanhola! Ao conhecer agora essa palavra da língua espanhola, senti a ressurreição imediata, aqui no meu local de trabalho, de um rouxinol que conviveu comigo na sala de visitas da casa de meus pais, por muitos e muitos anos. Esse rouxinol era amigo do imperador da China, morava nas páginas de um livro de contos de fadas do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, e também na narrativa gravada, desse mesmo conto, em um disco de vinil colorido que eu ouvia incansavelmente: "O Rouxinol do Imperador".
- E assim, juntando a pena do Milton Nascimento, vou agora convivendo com todos os meus rouxinóis: "Rouxinol tomou conta do meu viver (...) / Todos os pássaros, anjos dentro de nós/ uma harmonia trazida dos rouxinóis"*.
domingo, 25 de fevereiro de 2024
VIVA O POVO BRASILEIRO
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024
O JEEP QUE NUNCA TIVE
- "Essa é uma das muitas histórias que acontecem comigo..."
Pois seria tudo assim, como assim era quando, ainda menino, vi o primeiro Jeep* Willys CJ-2A, sem capotas. Seu proprietário era o Sr. Kaisã**, um imigrante japonês que passava seus dias em uma oficina mecânica da cidade. Eu gostava de ir àquela oficina para poder ouvi-lo conversar e contar histórias. Ele me falava de seu Jeep e de todos os reparos que havia feito nele... que com muitos amigos amontoados em seus bancos, ia às suas pescarias no Sapucaí. Eu admirava o Sr. Kaisã por cuidar tão bem do seu Jeep, e, influenciado por ele, eu sonhava ser mecânico e ter, quando pudesse, um Jeep tão velho, mas tão bem (des)cuidado quanto o dele.
Havia na cidade, também, os Jeeps do Sr. Chico Barbeiro, do Sr. Vasco e do Sr. Nenzinho - este, curiosamente, proprietário de uma oficina de bicicletas, que fazia experimentos mecânicos para serem mostrados orgulhosamente em passeios pelas ruas da cidade (de uma bicicleta de quatro pedais eu nunca me esqueço). Depois, também, o Jeep do Sr. Pedro. Mas o Jeep pelo qual eu tinha um encanto especial era, sem dúvida, o Jeep do Sr. kaisã.
Pois aconteceu hoje, enquanto eu subia a Rua São José. Vi um Jeep Willys amarelo, sem capotas, estacionado na esquina da Avenida Itatiaia. Ao vê-lo, revi, em minhas lembranças, o Sr. Kaisã e o "jeepinho" que sempre quis ter. Dei a volta no quarteirão e parei para poder fotografá-lo.
A imagem de um carro assim, prático, sem capotas, significava para mim juventude, informalidade e liberdade. Eu acreditava que meus amigos e minhas amigas estariam sempre dispostos a passear no Jeep que um dia eu iria ter; que, nos bancos do meu Jeep, sorriríamos muito enquanto estivéssemos acenando na direção daqueles que nos vissem passar... Se, eventualmente, ocorresse alguma quebra no veículo, eu prontamente desceria da condução do volante e, na condição de um herói estudante de engenharia mecânica, em poucos minutos efetuaria o reparo. Assim, troca de pneus, regulagem de carburador, limpeza de filtro, vazamento de óleo, fosse o que fosse, eu seria o mecânico que dava um jeito em tudo.
Mas, ao final daquela minha parada para fotografar o Jeep, ao agradecer ao proprietário por ter tido paciência de me ouvir, eu contei a ele que nada do que eu sonhara tornou-se realidade, que tudo ficou adormecido em sonho.
Graduei-me engenheiro mecânico e trabalhei em fábrica por algum tempo. Mas não gosto nem um pouco de fazer reparos em máquinas e equipamentos - muito menos em automóveis. Nunca tive um Jeep. Duas ou três vezes, forçado, troquei pneu furado. Hoje, quando estou dirigindo, mantenho fechadas todas as janelas do carro... e fico ouvindo música, tentando desvendar "a alma encantadora das ruas"***... e vou observando árvores, imóveis com personalidade, e muitos transeuntes que, nessa "vida vertiginosa"****, seguem desatentos ao seu entorno...
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* Jeep - Essa palavra é a forma que soa, em português, a denominação abreviada pelas iniciais GP ("General Purpose"), que foi dada ao veículo militar da montadora norte-americana Willys Overland. Os Jeeps foram muito utilizados pelos militares norte-americanos na Segunda Guerra Mundial.
**Paulo Onodera, conhecido como Sr. Kaisã.
***título de livro publicado por João do Rio, em 1908
****título de livro publicado por João do Rio em 1911, originalmente.