https://geology.com/world/world-map.shtml
Hoje, daqui de onde me encontro, olho para baixo e vejo que as mesmas manobras de dominação continuam sendo empregadas. Sim, sei que, em meu tempo, também agi para que, de forma dissimulada, a subjugação se operasse. Tanto é que pelos meus trinta e quatro anos de serviço, e desautorizado de fazer uso de pensamento próprio, participei de diversas ações: nas Filipinas, em Cuba, México, Nicarágua, República Dominicana, Honduras, China, e França. Há muito tempo, em revista de grande circulação, publiquei um artigo* no qual descrevi as tarefas por mim experimentadas em decorrência dessas minhas atuações:
"Fui um gangster a serviço do capitalismo. Assegurei os interesses petrolíferos no México (..). Ajudei a transformar Cuba em um pais onde o pessoal do National City Bank pudesse discretamente evitar lucros. Participei da limpeza da Nicarágua (...) em nome da firma bancária internacional Brown Brothers Harriman. (...) para os grandes barões americanos do açúcar, levei a 'civilização' à República Dominicana. (...) resolvi problemas em Honduras em benefício das empresas frutícolas americanas. (...) na China, assegurei os interesses da Standard Oil."
Depois de aposentado publiquei em livro** o entendimento que passei a ter a respeito da ligação e do funcionamento desse complexo militar-industrial e de seus interesses. Conclui que banqueiros, especuladores, produtores de munição, grandes empresas etc, apoiados por governos submetidos ao capitalismo, ao objetivo de lucro, provocavam guerras para o seu próprio benefício - e creio que, mesmo depois que me fui, pela chamada "doutrina intervencionista" continuam provocando.
Olho para trás e vejo que, pelo meu país, não foi e não tem sido outro o objetivo senão, por oportunismo, promover investidas visando a dominação com o intuito de obter lucros: Samoa, Reino do Havaí, Cuba e Porto Rico, Filipinas, Panamá, Honduras, Nicarágua, Haiti, República Dominicana, Coréia do Sul, Síria, Egito, Guatemala, Indonésia, Líbano, Iraque, Congo, Laos, Vietnã, Brasil, Bolívia, Chile, Afeganistão, El Salvador, Kuwait... Onde havia, e onde houver oportunidade de lucro, lá estávamos e queremos estar. Agora, a Venezuela... E depois?
A ideia propagada era - e parece que continua sendo - de que temos que "atender ao chamado"; de que temos uma missão divina e o direito natural de expandir nosso território e nossa influência; de que temos que levar a 'civilização', o progresso e a democracia, pois essa é a nossa missão, esse é o "Destino Manifesto".
Ainda em meu tempo, afirmei publicamente que um grupo de ricos industriais estavam planejando um golpe militar*** para a derrubada de um presidente do meu país****... pois que eu seria designado para liderar um grupo que iria cuidar de sua deposição. Face à minha recusa, denunciei a conspiração: os mandantes eram representantes de grandes empresas norte-americanas. É claro que, nos dias que se seguiram à minha manifestação, e até hoje, a mídia propaga a versão de que eu disseminei uma grande mentira.
- "Mas... há alguém que tenha disposição ou interesse em pensar a respeito de intenções disfarçadas?" Tenho minhas dúvidas...*****
Ah, sim... para que não se esqueçam de mim, e do que estou lhes dizendo, é importante que eu me apresente: nasci em West Chester, no Estado da Pensilvânia, em 1881, e me chamo Smedley Darlington Butler. Depois de ter passado um certo tempo lá embaixo, e em seguida mais um tempinho no purgatório, há cerca de 85 anos vivo aqui em cima, para onde fui transferido depois de ter falecido em 1940, aos 58 anos de idade, em virtude de uma doença irreversível. Fui major-general do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e, até me aposentar, o Fuzileiro Naval mais condecorado da história de meu país: 16 medalhas - cinco por heroísmo. Depois de aposentado, e com a lucidez desperta, fui ativista, crítico do aventureirismo militar norte-americano, escritor e palestrante, até a minha morte em 1940.
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*(Artigo publicado no New York Times - trecho) - "Passei 33 anos e quatro meses no serviço ativo, como membro da mais ágil força militar do meu país - o Corpo de Fuzileiros Navais. Servi em todos os postos, desde segundo-tenente a general. E, durante tal período, passei a maior parte de meu tempo como guarda-costas de alta classe, para os homens de negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em suma, fui um quadrilheiro, um gangster para o capitalismo. [...] Foi assim que ajudei a transformar o México, especialmente Tampico, em lugar seguro para os interesses petrolíferos americanos, em 1914. Ajudei a fazer de Cuba e Haiti lugares decentes para que os rapazes do National City Bank pudessem recolher os lucros. Eu ajudei a estuprar meia dúzia de repúblicas da América Central em prol dos lucros de Wall Street [...] Ajudei a 'limpar' a Nicarágua para os interesses da casa bancária internacional dos Brown Brothers, em 1909-1912. Trouxe a luz à República Dominicana para os interesses açucareiros norte-americanos em 1916. Ajudei a fazer de Honduras um lugar 'adequado' às companhias frutíferas americanas, em 1903. Na China, em 1927, ajudei a fazer com que a Standard Oil continuasse a agir sem ser molestada. Durante todos esses anos, eu tinha, como diriam os rapazes do gatilho, uma boa quadrilha. Fui recompensado com honrarias, medalhas, promoções. Voltando os olhos ao passado, acho que poderia dar a Al Capone algumas sugestões. O melhor que ele podia fazer era operar em três distritos urbanos. Nós, os fuzileiros navais, operávamos em três continentes." (Smedley D. Butler)
**War is a Racket (A guerra é uma fraude); (publicado em 1935): Smedley D. Butler argumenta que a guerra é um negócio lucrativo para um pequeno grupo com interesses comerciais, que explora o patriotismo para lucrar com o sofrimento e o custo humano e financeiro para a maioria da população, e revela como os grandes negócios se beneficiam da guerra.
***Business Plot (Complô dos empresários) - 1933
****Franklin Delano Roosevelt
***** (leitura interessante a respeito do assunto: "Covert Regime Change: America's Secret Cold War" (Mudança Dissimulada de Regime: a Guerra Fria Secreta da América) - Lindsey A. O'Rourke, Cornell University Press, 2018