Minha intenção é publicar aqui as reflexões que me ocorrem a respeito dos textos que leio, das músicas que ouço, dos diálogos que tenho com as pessoas, e das respostas que me são dadas pelo silêncio... e que me fazem sentir que, de alguma forma, trouxeram alguma inspiração. Afinal, o universo ao nosso redor só se torna inteiramente bonito quando conseguimos dar a ele algum significado; e, especialmente, quando sentimos necessidade de compartilhá-lo.
Uau.... que coisa linda... que delícia... Quantos anos!... tantos lugares, Luiz Bonfá... Dick Farney... tantos filmes... tantos livros... tantas pessoas... ouvindo... Sarah Vaughan... Ouvindo o Bonfá... o violão... Tenderly... ternamente.... suavemente... uma folha de árvore dança ao sabor do vento... muitas folhas dançam ao sabor do vento... todas as folhas dançam ao sabor do vento... ao som do violão do Bonfá... "Um Abraço no Bonfá", no João..... Tenderly, com ternura.... de forma calorosa... acenando para mim.... saudando... trazendo um convite para o sol, o céu... Um bem-te-vi pousou ao meu lado... Tenderly... para também poder ouvir.... visitar... ternamente....o violão... os acordes.... as folhas das árvores dançando ao ritmo dos acordes.... ternamente... suavemente... deliciosamente... - Tragam-me um uísque.... dois.... outro.... e tragam-me também o meu violão.... preciso abraçá-lo.... Tenderly... Não choro.... ele chora por mim, calado em meus braços, ouvindo... chora de amor, de beleza, de humanidade... meu violão... e eu... "Violão Vadio"... querido Baden... ternamente, suavemente, silenciosamente.... eloquentemente calado... para também ouvir o Bonfá, suavemente, ternamente.... silenciosamente.
O vento nas árvores - Gramado, RS, 2025
(acervo pessoal)
TENDERLY (Gross/Lawrence) The evening breeze caressed the trees
tenderly The trembling trees embraced the breeze
tenderly Then you and I came wandering by And lost in our sigh were we The shore was kissed by sea and mist
tenderly I can't forget how two hearts met
breathlessly Your arms opened wide and closed me inside You took my lips, you took my love so
tenderly
TERNAMENTE
A
brisa da noite acariciou as árvores ternamente As
árvores tremendo abraçaram a brisa suavemente Então
você e eu passamos caminhando E
perdidos em um suspiro estávamos A
costa foi beijada pelo mar e pela névoa ternamente Não
esqueço como dois corações se encontraram ofegantemente Seus
braços se abriram e fecharam-me dentro deles Você
tomou meus lábios, você levou meu amor suavemente
Capa do livro "Guará: terra do sol" - detalhe - (Ed. Noovha América)
(Foto: acervo pessoal)
No dia 15 de setembro de 1902 foi lavrada uma escritura de doação de terras para que a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e Navegação construísse, onde hoje está situada a cidade de Guará, no Estado de São Paulo, uma estação ferroviária. E foi essa estação ferroviária que deu origem a um povoado, denominado Guará, dentro do Município de Ituverava.
Com o passar do tempo esse povoado foi crescendo, e suas necessidades aumentando. Objetivando proporcionar maior eficiência na prestação de serviços ao povoado, a administração pública de Ituverava nomeou alguns servidores para cuidarem, em especial, da fiscalização administrativa do local - logo depois foi também nomeado um subprefeito.
Passaram então a chegar ali, e ali estabelecerem sua morada, migrantes, homens e mulheres libertos do cativeiro, e os primeiros imigrantes. E o povoado foi crescendo. Em 1914, pela Lei Estadual 1431, Guará passava a ser, no Município e Comarca de Ituverava, um Distrito de Paz.
Mas Guará, apesar de passar a ter um Juiz leigo, chamado "de Paz", cuja função era a busca da pacificação social e resolução de conflitos de menor complexidade, fora do sistema judicial, ainda não se auto administrava - ou seja, ainda não podia escolher seus próprios representantes, ainda não podia exercer sua autonomia política.
Foi somente alguns anos mais tarde, em 1925, com a assinatura da Lei Estadual 2008, de 19/12/1925, publicada em 26/12/1925, que Guará conquistou essa autonomia política.
Contudo, essa Lei 2008, de 1925, não dispunha, em seu texto, a respeito do início de sua vigência.
- Teria ela (a lei), entrado em vigor na data de sua publicação - ou seja, teria o Distrito de Guará passado a ser um Município em 26/12/1926? Ou para entrar em vigor algum tempo precisaria ser aguardado (vacatio legis)?
É ideia corrente e imediatista que "a lei entra em vigor na data de sua publicação". Convém que se explique, porém que esse entendimento nasceu com a chamada Lei de Introdução do Código Civil (Decreto-Lei 4657, de 04/09/1942, reformado pela Lei 12376, de 30/12/2010, que alterou o seu nome para Introdução às Normas do Direito Brasileiro) que dispõe, em seu artigo 1º o seguinte:
Art. 1º - Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias depois de oficialmente publicada.
Assim, a partir de 1942, quando o legislador queria que uma lei entrasse em vigor na data de sua publicação, ela, a lei, deveria trazer em seu corpo a seguinte determinação:
"Essa lei entra em vigor a partir da data de sua publicação".
Contudo, a lei que deu autonomia política a Guará, a Lei Estadual 2008, de 1925, nada dizia a respeito de sua entrada em vigor.
Em assim sendo, sem rigor em seu exame, estaríamos tentados a crer que sua entrada em vigor deveria se dar em conformidade com a então Lei de Introdução ao Código Civil - a LICC. No entanto, a Lei Estadual que deu autonomia política a Guará é anterior à LICC. Não se aplicam, portanto, à Lei Estadual 2008/1925, as regras contidas na LICC para entrada em vigor de uma lei.
- E qual seria, então, a lei que solucionaria a questão?
Em 1925, a entrada em vigor de uma lei era regida pelo Código Civil - Lei 3071, de 1º de janeiro de 1916. E o Código Civil/1916, no artigo 2º de sua parte introdutória, assim dispunha:
Art. 2º - A obrigatoriedade das leis, quando não fixem outro prazo, começará no Distrito Federal três dias depois de oficialmente publicadas, quinze dias no Estado do Rio de Janeiro, trinta dias nos Estados marítimos e no de Minas Gerais, cem dias nos outros, compreendidas as circunscrições não constituídas em Estados.
Dessa forma, como a Lei Estadual 2088, de 1925, não dispunha, literalmente, a respeito de sua entrada em vigor, o artigo 2º do Código Civil de 1916 é o que se deveria aplicar.
Assim, como Guará está situada no Estado de São Paulo, que é um Estado banhado pelo mar, a lei que deu autonomia ao Município passou a vigorar após decorrido o período de 30 dias - posto que tal lei não dispunha a respeito do início de sua vigência.
O Código de Processo Civil de 1939 (Decreto-Lei 1608/1939), no seu art. 27, dizia:
Art. 27 - Na contagem dos prazos, salvo disposição em contrário, incluir-se-á o dia do começo e excluir-se-á o do vencimento. Si este cair em dia feriado, o prazo considerar-se-á prorrogado até o primeiro dia útil. (...).
Em assim sendo, o início da contagem do prazo para vigência da lei foi em 27/dezembro/1925, um domingo. E o trigésimo dia corrido, a partir de então, foi 25/janeiro/1926 (segunda-feira).
Portanto, e salvo melhor juízo, entendo que Guará conquistou sua autonomia política e viu o primeiro nascer do sol genuinamente guaraense no dia 26 de janeiro de 1926, uma terça-feira.
Maria Creuza, Vinícius e Toquinho - "Estrada do sol" - (Dolores Duran/Tom Jobim)
De longe, de muito longe, deslizo meus dedos pelo mapa-múndi aberto sobre a mesa. Sigo em linha incerta, traçada com uma certa apatia, de uma cidade à outra, pelos quatro cantos do mundo. Nesse passeio, o coração mantém o seu ritmo compassado e constante... porém frio, como que eletronicamente programado. Instintivamente, e como se estivesse em busca de um lar, com a ponta do dedo vagueio pelo nordeste do Estado de São Paulo... e me detenho na marcação que indica a localização de Ribeirão Preto. Enquanto mantenho o dedo levemente pressionado sobre a cidade, no mapa, sinto no coração uma vibração inesperada... O coração se aquece, acelera... Por razões inexplicáveis, ainda com o dedo sobre a cidade indicada no papel, recebo tardes de sol, árvores frondosas, praças acolhedoras e pássaros em deslocamento... Há, nesse processo, uma certa pulsação involuntária que insiste em desarranjar o traçado linear, monótono e artificial, sugeridos por outras cidades do mapa. Ribeirão Preto, a ideia da cidade, a sua lembrança, a sua presença, tudo isso me transmite emoção... A cidade, as casas, os prédios, as ruas, os monumentos... o espaço personalizado... os espaços públicos com os quais mantive e mantenho uma grande cumplicidade... por onde caminhei e caminho... por onde transitam muitos Silvas, Marias e Josés com suas histórias, vitórias e tragédias pessoais, com seus sonhos e esperanças. Ribeirão é emoção... Ribeirão é inspiração... é história que o tempo não apaga das minhas lembranças... pelo que aqui construí e vivi, pelo que uma população inteira construiu e viveu, e que tem sua nascente em outros tempos... no tempo dos coronéis e dos cafezais... no tempo das carroças, no tempo dos caminhos... das ruas de chão batido... no tempo dos entregadores de pão e de leite, no tempo dos encontros pelas calçadas... no tempo dos antigos sonhadores... dos antigos sonhadores vivos e vibrantes no coração dos novos apaixonados por essa terra...
(da esq. p/ dir.: do Mar do Norte, do Rio Tejo, de Cordisburgo, da minha avó)
Meu amigo Paulinho me escreveu dizendo que lembrou-se de mim ao ler um trecho de "Tudo sobre Deus" - romance do moçambicano José Eduardo Agualusa. Ele me conta que, no referido trecho, Agualusa cita o artista colombiano Leonel Vásquez - que, dizem, sabe "interpretar" e escutar pedras. E foi justamente pela menção a essa reverência de Vásquez às pedras, que a lembrança lhe ocorreu.
Fiquei contente. O Paulinho sabe que também tenho um certo apego às pedras. Em minha biblioteca, em uma estante bastante desorganizada, cuido e exponho algumas que guardam em si muitas histórias. Duas delas, que me foram presenteadas por ele, são de calcário: uma delas recolhida em Lisboa, nas margens no rio Tejo, e outra nas ruas de Cordisburgo - terra natal de Guimarães Rosa.
Juntamente com essas duas pedras, mantenho e exponho uma ametista - que foi a pedra que despertou a minha atenção e o meu interesse por todas. Essa ametista ficava na sala de jantar da casa de minha avó. De um aparador lateral ela testemunhava encontros de domingo, quando a família se juntava para conversar e celebrar a vida ao redor de uma mesa posta com pratos da culinária sírio-libanesa preparados por ela - a minha avó. Essa pedra concentra a lembrança do menino que fui, e também de todos os meus queridos familiares.
Igualmente em posição de destaque, guardo e exponho uma pedra vulcânica que me foi presenteada pelo Mar do Norte. Recolhida no momento em que eu acariciava as águas geladas da praia de Bamburgh, no norte da Inglaterra, essa pedra cutucou as minhas mãos diversas vezes, parecendo insistir em permanecer comigo: aceitei a proposta, e dei a ela morada em uma das estantes de minha biblioteca.
Gosto de pedras. Cada uma conta uma história - de um tempo, de um lugar, de um fato, de uma pessoa...
Mas há ainda uma outra "pedra" na minha biblioteca. Até me arrepio ao me lembrar dela. Feia e sinistra, pequena e escura, eu a escondo de mim mesmo e de todos os que me visitam. Originária das profundezas do sistema de filtragem do meu organismo, mantenho esse "monstro" embrulhado e sufocado na escuridão de uma gaveta, justamente por vingança... das dores terríveis que ela me causou há alguns anos... até o momento em que foi expelida naturalmente, depois de oceanos de água que fui orientado a consumir...
E assim, como se fossem flores, e feito um peregrino caminhante, sigo colhendo e adorando pedras para poder guardar, ouvir, interpretar e reinterpretar a minha própria história.
Mercedes Sosa - "Piedra y camino" (Atahuapa Yupanqui)
Com o violão e a música brasileira, o Baden Powell levou um Brasil rico, bonito, elegante e plural para todos os cantos do mundo. Nossa gratidão e nossa homenagem, no dia de hoje, seis de agosto, ao Baden - cujas gravações sigo ouvindo com a mesma emoção de sempre. Nesse dia em que lembramos o seu nascimento, faço em homenagem a ele uma oração em forma de música: coloco para ouvir a "Introdução ao 'poema dos olhos da amada'". Com essa interpretação, e com esse poema de Vinícius de Moraes, celebro também o meu aniversário.
POEMA DOS OLHOS DA AMADA
Ó minha amada Que olhos os teus São cais noturnos Cheios de adeus São docas mansas Trilhando luzes Que brilham longe Longe nos breus...
Ó minha amada Que olhos os teus Quanto mistério Nos olhos teus Quantos saveiros Quantos navios Quantos naufrágios Nos olhos teus...
Ó minha amada Que olhos os teus Se Deus houvera Fizera-os Deus Pois não os fizera Quem não soubera Que há muitas eras Nos olhos teus.
Ah, minha amada De olhos ateus Cria a esperança Nos olhos meus De verem um dia O olhar mendigo Da poesia Nos olhos teus.
Abracei. Abracei o "Old Parr" - e por sugestões familiares. Chegou em casa como presente, coberto de elogios do meu cunhado Ferreira, e do meu sobrinho Toninho - que tem preferência pelo "Jack Daniel's". É claro que eles comentaram a respeito do "Glenfiddish", que era o preferido do meu pai...
Lembrei-me ainda, de imediato, do "Chivas", preferido do César, e do "Famous Grouse", que por tantas vezes foi o indutor da palavra em bons papos de noites musicais com o Zé João... Mas, não, nenhum deles.. O que abracei mesmo, recentemente, foi o "Old Parr".
Contudo, na viagem que nos tem sido sugerida por uma mídia tendenciosa, montados em um animal de moralidade suspeita - e ansiando ainda pelo "Old Parr" (na sua falta circunstancial), peço permissão para substituir o abominável sugerido, "Dark Horse", por algum outro... Qualquer outro. Pode até ser o "White Horse", que em outros tempos era preciosidade face a um "Drury's" (special reserve: the real whisky - conforme comercial televisivo de antigamente), ou o "King's Archer"... ou ainda o "Green & Gold"... esses 3 últimos motivos de muitas dores de cabeça, para mim e meus queridos amigos Abrahão e Tigrão, em dias que se seguiam a noites de antigos carnavais...
Vamos então, queridos e raros leitores, na falta do "Old Parr" ou do "Glenfiddish", ou do "Chivas", ou do "Jack Daniel's", ou do "White Horse", encarar algum outro em substituição ao "Dark Horse"... e oferecê-lo (o "algum outro"), como opção mais saudável, aos nossos amigos - e ao povo brasileiro.
- Cheers!
Jim Croce - "Cigarettes, whiskey and wild women" (Tim Spencer)
Não sei para onde ele foi, mas eu o vi chegar. Fiquei atento... olhando... silenciosamente olhando... Ele veio de uma árvore, e pousou em cima de uma grade de ferro. Olhou ao redor, movimentou o corpo, abriu suas asas, e depois desceu em um voo ágil por sobre a superfície da água da piscina. Molhou o bico, as patas e o peito, fartou-se de água, e voltou a pousar na grade. Creio que tenha percebido que eu o observava. Mas não se intimidou. Olhou novamente ao redor e fez um novo voo rasante sobre a superfície da água... para em seguida pousar em uma mureta de pedras bem perto de mim. Bateu asas... olhou novamente ao redor... ergueu sua cabeça e cantou... cantou o seu canto... Parecia querer se exibir para mim... Fotografei-o. Assumi-o meu. Cantou novamente... Encantou-me. Encantado, fiquei observando sua manifestação de vida... de vida e de alegria: um bem-te-vi... um passarinho que viera me visitar... Imaginei-o prestes a voar, como prestes a voar estão sempre todos os passarinhos... Mas ele não voou... Ficou ali... mais alguns segundos... e outros mais... Para minha surpresa, um outro bem-te-vi, discreto e silencioso, das folhagens de uma árvore, veio pousar na mesma mureta de pedras, ao seu lado... ao lado daquele que havia sido, por alguns instantes, o "meu" bem-te-vi... o bem-te-vi que viera me visitar... para em seguida prosseguir no seu voo... acompanhado... embelezando outros espaços e jardins...
Renato Terra - "Bem-te-vi" (Dalto e Cláudio Rabello)
A igreja matriz de São Sebastião - Guará, SP - Praça 9 de Julho
Acervo pessoal (02/09/21)
Há muito tempo não visitava Guará, minha terra natal. Hoje estive lá. Ao passar pela pela Praça 9 de Julho, o sino da igreja começou a badalar. Fiquei com a impressão de que ele queria conversar, inclusive comigo. Ouça a sua voz, a sua mensagem... E se puder entender, depois me conte:
Em 05/3/1929, há 97 anos portanto, nascia em Guará, SP, o Dr. Nehif Antônio. Quem foi? O que fez? o que não fez? o que gostaria de ter feito? Acertou? Errou? Não importa. Viveu como pôde; morreu cedo - mas não foi esquecido. A ele uma oração - e uma das canções que, lembro-me, ele gostava de ouvir.