Meu amigo Paulinho me escreveu dizendo que lembrou-se de mim ao ler um trecho de "Tudo sobre Deus" - romance do moçambicano José Eduardo Agualusa. Ele me conta que, no referido trecho, Agualusa cita o artista colombiano Leonel Vásquez - que, dizem, sabe "interpretar" e escutar pedras. E foi justamente pela menção a essa reverência de Vásquez às pedras, que a lembrança lhe ocorreu.
Fiquei contente. O Paulinho sabe que também tenho um certo apego às pedras. Em minha biblioteca, em uma estante bastante desorganizada, cuido e exponho algumas que guardam em si muitas histórias. Duas delas, que me foram presenteadas por ele, são de calcário: uma delas recolhida em Lisboa, nas margens no rio Tejo, e outra nas ruas de Cordisburgo - terra natal de Guimarães Rosa.
Juntamente com essas duas pedras, mantenho e exponho uma ametista - que foi a pedra que despertou a minha atenção e o meu interesse por todas. Essa ametista ficava na sala de jantar da casa de minha avó. De um aparador lateral ela testemunhava encontros de domingo, quando a família se juntava para conversar e celebrar a vida ao redor de uma mesa posta com pratos da culinária sírio-libanesa preparados por ela - a minha avó. Essa pedra concentra a lembrança do menino que fui, e também de todos os meus queridos familiares.
Igualmente em posição de destaque, guardo e exponho uma pedra vulcânica que me foi presenteada pelo Mar do Norte. Recolhida no momento em que eu acariciava as águas geladas da praia de Bamburgh, no norte da Inglaterra, essa pedra cutucou as minhas mãos diversas vezes, parecendo insistir em permanecer comigo: aceitei a proposta, e dei a ela morada em uma das estantes de minha biblioteca.
Gosto de pedras. Cada uma conta uma história - de um tempo, de um lugar, de um fato, de uma pessoa...
Mas há ainda uma outra "pedra" na minha biblioteca. Até me arrepio ao me lembrar dela. Feia e sinistra, pequena e escura, eu a escondo de mim mesmo e de todos os que me visitam. Originária das profundezas do sistema de filtragem do meu organismo, mantenho esse "monstro" embrulhado e sufocado na escuridão de uma gaveta, justamente por vingança... das dores terríveis que ela me causou há alguns anos... até o momento em que foi expelida naturalmente, depois de oceanos de água que fui orientado a consumir...
E assim, como se fossem flores, e feito um peregrino caminhante, sigo colhendo e adorando pedras para poder guardar, ouvir, interpretar e reinterpretar a minha própria história.
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Piedra Y Camino (Atahualpa
Yupanqui)
Del
cerro vengo bajando Camino
y piedra Traigo
enredada en el alma, viday Una
tristeza.
Me
acusas de no quererte No
digas eso Tal
vez no comprendas nunca, viday Porque
me alejo.
Es
mi destino Piedra
y camino De
un sueño lejano y bello, viday Soy
peregrino.
Por
más que la dicha busco, Vivo
penando Y
cuando debo quedarme, viday Me
voy andando.
A
veces soy como el río Llego
cantando Y
sin que nadie lo sepa, viday Me
voy llorando.
Es
mi destino, Piedra
y camino De
un sueño lejano y bello, viday Soy
peregrino. |
Pedra
e Caminho
Eu
venho descendo o morro Caminho
e pedra Traga
preso na alma, meu bem Uma
tristeza.
Você
me acusa de não te amar Não
diga isso Talvez
nunca entendas, meu bem Porque
me afasto.
É
o meu destino Pedra
e caminho De
um sonho distante e belo, meu bem Sou
um peregrino.
Por
mais que eu procure a felicidade, Eu
vivo sofrendo E
quando devo ficar, meu bem Eu
vou andando.
Às
vezes eu sou como o rio Chego
cantando E
sem ninguém saber, meu bem Me
vou chorando.
É
meu destino Pedra
e caminho De
um sonho distante e belo, meu bem Sou
um peregrino. |