segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O PRIMEIRO NASCER DO SOL GENUINAMENTE GUARAENSE

Capa do livro "Guará: terra do sol" - detalhe - (Ed. Noovha América)
(Foto: acervo pessoal)

    No dia 15 de setembro de 1902 foi lavrada uma escritura de doação de terras para que a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e Navegação construísse, onde hoje está situada a cidade de Guará, no Estado de São Paulo, uma estação ferroviária. E foi essa estação ferroviária que deu origem a um povoado, denominado Guará, dentro do Município de Ituverava.
    Com o passar do tempo esse povoado foi crescendo, e suas necessidades aumentando. Objetivando proporcionar maior eficiência na prestação de serviços ao povoado, a administração pública de Ituverava nomeou alguns servidores para cuidarem, em especial, da fiscalização administrativa do local - logo depois foi também nomeado um subprefeito.
    Passaram então a chegar ali, e ali estabelecerem sua morada, migrantes, homens e mulheres libertos do cativeiro, e os primeiros imigrantes. E o povoado foi crescendo. Em 1914, pela Lei Estadual 1431, Guará passava a ser, no Município e Comarca de Ituverava, um Distrito de Paz.
    Mas Guará, apesar de passar a ter um Juiz leigo, chamado "de Paz", cuja função era a busca da pacificação social e resolução de conflitos de menor complexidade, fora do sistema judicial, ainda não se auto administrava - ou seja, ainda não podia escolher seus próprios representantes, ainda não podia exercer sua autonomia política.
    Foi somente alguns anos mais tarde, em 1925, com a assinatura da Lei Estadual 2008, de 19/12/1925, publicada em 26/12/1925, que Guará conquistou essa autonomia política.
    Contudo, essa Lei 2008, de 1925, não dispunha, em seu texto, a respeito do início de sua vigência.
    - Teria ela (a lei), entrado em vigor na data de sua publicação - ou seja, teria o Distrito de Guará passado a ser um Município em 26/12/1926? Ou para entrar em vigor algum tempo precisaria ser aguardado (vacatio legis)?
    É ideia corrente e imediatista que "a lei entra em vigor na data de sua publicação". Convém que se explique, porém que esse entendimento nasceu com a chamada Lei de Introdução do Código Civil (Decreto-Lei 4657, de 04/09/1942, reformado pela Lei 12376, de 30/12/2010, que alterou o seu nome para Introdução às Normas do Direito Brasileiro) que dispõe, em seu artigo 1º o seguinte:

Art. 1º - Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias depois de oficialmente publicada.

    Assim, a partir de 1942, quando o legislador queria que uma lei entrasse em vigor na data de sua publicação, ela, a lei, deveria trazer em seu corpo a seguinte determinação: 

"Essa lei entra em vigor a partir da data de sua publicação".

    Contudo, a lei que deu autonomia política a Guará, a Lei Estadual 2008, de 1925, nada dizia a respeito de sua entrada em vigor.
    Em assim sendo, sem rigor em seu exame, estaríamos tentados a crer que sua entrada em vigor deveria se dar em conformidade com a então Lei de Introdução ao Código Civil - a LICC. No entanto, a Lei Estadual que deu autonomia política a Guará é anterior à LICC. Não se aplicam, portanto, à Lei Estadual 2008/1925, as regras contidas na LICC para entrada em vigor de uma lei.
    - E qual seria, então, a lei que solucionaria a questão?
    Em 1925, a entrada em vigor de uma lei era regida pelo Código Civil - Lei 3071, de 1º de janeiro de 1916. E o Código Civil/1916, no artigo 2º de sua parte introdutória, assim dispunha:

Art. 2º - A obrigatoriedade das leis, quando não fixem outro prazo, começará no Distrito Federal três dias depois de oficialmente publicadas, quinze dias no Estado do Rio de Janeiro, trinta dias nos Estados marítimos e no de Minas Gerais, cem dias nos outros, compreendidas as circunscrições não constituídas em Estados.

    Dessa forma, como a Lei Estadual 2088, de 1925, não dispunha, literalmente, a respeito de sua entrada em vigor, o artigo 2º do Código Civil de 1916 é o que se deveria aplicar.
    Assim, como Guará está situada no Estado de São Paulo, que é um Estado banhado pelo mar, a lei que deu autonomia ao Município passou a vigorar após decorrido o período de 30 dias - posto que tal lei não dispunha a respeito do início de sua vigência.
    O Código de Processo Civil de 1939 (Decreto-Lei 1608/1939), no seu art. 27, dizia: 

Art. 27 - Na contagem dos prazos, salvo disposição em contrário, incluir-se-á o dia do começo e excluir-se-á o do vencimento. Si este cair em dia feriado, o prazo considerar-se-á prorrogado até o primeiro dia útil. (...).

    Em assim sendo, o início da contagem do prazo para vigência da lei foi em 27/dezembro/1925, um domingo. E o trigésimo dia corrido, a partir de então, foi 25/janeiro/1926 (segunda-feira).

    Portanto, e salvo melhor juízo, entendo que Guará conquistou sua autonomia política e viu o primeiro nascer do sol genuinamente guaraense no dia 26 de janeiro de 1926, uma terça-feira.

Maria Creuza, Vinícius e Toquinho - "Estrada do sol" - (Dolores Duran/Tom Jobim)
https://www.youtube.com/watch?v=W3qzu4-CPLk&list=RDW3qzu4-CPLk&start_radio=1
 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

RIBEIRÃO PRETO: 170 ANOS (E MAIS)... DE EMOÇÃO

 
"O quarteirão paulista" - Ribeirão Preto, SP
(Foto: acervo pessoal)

De longe, de muito longe, deslizo meus dedos pelo mapa-múndi aberto sobre a mesa. Sigo em linha incerta, traçada com uma certa apatia, de uma cidade à outra, pelos quatro cantos do mundo. Nesse passeio, o coração mantém o seu ritmo compassado e constante... porém frio, como que eletronicamente programado. Instintivamente, e como se estivesse em busca de um lar, com a ponta do dedo vagueio pelo nordeste do Estado de São Paulo... e me detenho na marcação que indica a localização de Ribeirão Preto. Enquanto mantenho o dedo levemente pressionado sobre a cidade, no mapa, sinto no coração uma vibração inesperada... O coração se aquece, acelera... Por razões inexplicáveis, ainda com o dedo sobre a cidade indicada no papel, recebo tardes de sol, árvores frondosas, praças acolhedoras e pássaros em deslocamento... Há, nesse processo, uma certa pulsação involuntária que insiste em desarranjar o traçado linear, monótono e artificial, sugeridos por outras cidades do mapa. Ribeirão Preto, a ideia da cidade, a sua lembrança, a sua presença, tudo isso me transmite emoção... A cidade, as casas, os prédios, as ruas, os monumentos... o espaço personalizado... os espaços públicos com os quais mantive e mantenho uma grande cumplicidade... por onde caminhei e caminho... por onde transitam muitos Silvas, Marias e Josés com suas histórias, vitórias e tragédias pessoais, com seus sonhos e esperanças. Ribeirão é emoção... Ribeirão é inspiração... é história que o tempo não apaga das minhas lembranças... pelo que aqui construí e vivi, pelo que uma população inteira construiu e viveu, e que tem sua nascente em outros tempos... no tempo dos coronéis e dos cafezais...  no tempo das carroças, no tempo dos caminhos... das ruas de chão batido... no tempo dos entregadores de pão e de leite, no tempo dos encontros pelas calçadas... no tempo dos antigos sonhadores... dos antigos sonhadores vivos e vibrantes no coração dos novos apaixonados por essa terra...

Ribeirão Preto no mapa
https://pt.mapsofworld.com/where-is/ribeirao-preto.html
    

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

PEDRA E CAMINHO

 

Minhas pedras
(da esq. p/ dir.: do Mar do Norte, do Rio Tejo, de Cordisburgo, da minha avó)

    Meu amigo Paulinho me escreveu dizendo que lembrou-se de mim ao ler um trecho de "Tudo sobre Deus" - romance do moçambicano José Eduardo Agualusa. Ele me conta que, no referido trecho, Agualusa cita o artista colombiano Leonel Vásquez - que, dizem, sabe "interpretar" e escutar pedras. E foi justamente pela menção a essa reverência de Vásquez às pedras, que a lembrança lhe ocorreu. 

    Fiquei contente. O Paulinho sabe que também tenho um certo apego às pedras. Em minha biblioteca, em uma estante bastante desorganizada, cuido e exponho algumas que guardam em si muitas histórias. Duas delas, que me foram presenteadas por ele, são de calcário: uma delas recolhida em Lisboa, nas margens no rio Tejo, e outra nas ruas de Cordisburgo - terra natal de Guimarães Rosa.

    Juntamente com essas duas pedras, mantenho e exponho uma ametista - que foi a pedra que despertou a minha atenção e o meu interesse por todas. Essa ametista ficava na sala de jantar da casa de minha avó. De um aparador lateral ela testemunhava encontros de domingo, quando a família se juntava para conversar e celebrar a vida ao redor de uma mesa posta com pratos da culinária sírio-libanesa preparados por ela - a minha avó. Essa pedra concentra a lembrança do menino que fui, e  também de todos os meus queridos familiares.

    Igualmente em posição de destaque, guardo e exponho uma pedra vulcânica que me foi presenteada pelo Mar do Norte. Recolhida no momento em que eu acariciava as águas geladas da praia de Bamburgh, no norte da Inglaterra, essa pedra cutucou as minhas mãos diversas vezes, parecendo insistir em permanecer comigo: aceitei a proposta, e dei a ela morada em uma das estantes de minha biblioteca.

    Gosto de pedras. Cada uma conta uma história - de um tempo, de um lugar, de um fato, de uma pessoa...

    Mas há ainda uma outra "pedra" na minha biblioteca. Até me arrepio ao me lembrar dela. Feia e sinistra, pequena e escura, eu a escondo de mim mesmo e de todos os que me visitam. Originária das profundezas do sistema de filtragem do meu organismo, mantenho esse "monstro" embrulhado e sufocado na escuridão de uma gaveta, justamente por vingança... das dores terríveis que ela me causou há alguns anos... até o momento em que foi expelida naturalmente, depois de oceanos de água que fui orientado a consumir...

    E assim, como se fossem flores, e feito um peregrino caminhante, sigo colhendo e adorando pedras para poder guardar, ouvir, interpretar e reinterpretar a minha própria história.  

Mercedes Sosa - "Piedra y camino" (Atahuapa Yupanqui)
https://www.youtube.com/watch?v=KCnO7F0xO90&list=RDKCnO7F0xO90&start_radio=1

Piedra Y Camino

(Atahualpa Yupanqui)

 

Del cerro vengo bajando

Camino y piedra

Traigo enredada en el alma, viday

Una tristeza.

 

Me acusas de no quererte

No digas eso

Tal vez no comprendas nunca, viday

Porque me alejo.

 

Es mi destino

Piedra y camino

De un sueño lejano y bello, viday

Soy peregrino.

 

Por más que la dicha busco,

Vivo penando

Y cuando debo quedarme, viday

Me voy andando.

 

A veces soy como el río

Llego cantando

Y sin que nadie lo sepa, viday

Me voy llorando.

 

Es mi destino,

Piedra y camino

De un sueño lejano y bello, viday

Soy peregrino.

Pedra e Caminho

 

 

Eu venho descendo o morro

Caminho e pedra

Traga preso na alma, meu bem

Uma tristeza.

 

Você me acusa de não te amar

Não diga isso

Talvez nunca entendas, meu bem

Porque me afasto.

 

É o meu destino

Pedra e caminho

De um sonho distante e belo, meu bem

Sou um peregrino.

 

Por mais que eu procure a felicidade,

Eu vivo sofrendo

E quando devo ficar, meu bem

Eu vou andando.

 

Às vezes eu sou como o rio

Chego cantando

E sem ninguém saber, meu bem

Me vou chorando.

 

É meu destino

Pedra e caminho

De um sonho distante e belo, meu bem

Sou um peregrino.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O BADEN E EU, COM O VINÍCIUS DE MORAES, NESSE SEIS DE AGOSTO

 

Baden Powell - "Introdução ao Poema dos Olhos da Amada" (Vinícius/Paulo Soledade)
https://www.youtube.com/watch?v=UkrL2Z8L960&list=RDUkrL2Z8L960&start_radio=1

Com o violão e a música brasileira, o Baden Powell levou um Brasil rico, bonito, elegante e plural para todos os cantos do mundo. Nossa gratidão e nossa homenagem, no dia de hoje, seis de agosto, ao Baden - cujas gravações sigo ouvindo com a mesma emoção de sempre. Nesse dia em que lembramos o seu nascimento, faço em homenagem a ele uma oração em forma de música: coloco para ouvir a "Introdução ao 'poema dos olhos da amada'". Com essa interpretação, e com esse poema de Vinícius de Moraes, celebro também o meu aniversário.

POEMA DOS OLHOS DA AMADA

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

DARK HORSE

 

https://veteranodowhisky.com.br/melhores-whiskys-bons-e-baratos/

Abracei... abracei o "Old Parr" - e por sugestões familiares. Chegou em casa como presente, coberto de elogios do meu cunhado Ferreira, e do meu sobrinho Toninho - que tem preferência pelo "Jack Daniel's". É claro que eles se lembraram do "Glenfiddish", que era o preferido do meu pai... Lembrei-me ainda, de imediato, do "Chivas", preferido do César, e do "Famous Grouse", que por tantas vezes foi o indutor da palavra em bons papos de noites musicais com o Neneco... Mas, não, nenhum deles.. O que abracei mesmo, recentemente, foi o "Old Parr". Contudo, na viagem que nos tem sido sugerida pela mídia tendenciosa, montados em um animal de moralidade suspeita, não por qualquer outra questão, mas por proporcionar também um outro passeio por trilhas e caminhos, por essas terras, sob esses céus, singrando mares - mas ansiando ainda pelo "Old Parr", e na sua falta, peço permissão para substituir o "Dark Horse" por algum outro... qualquer outro... pode até ser o "White Horse"... que em outros tempos era preciosidade face a um "Drury's" (special reserve: the real whisky - conforme comercial televisivo de antigamente)... ou o "King's Archer"... ou ainda o "Green & Gold"... esses 3 últimos motivos de muitas dores de cabeça, para mim e meus queridos amigos Abrahão e Tigrão, em dias que se seguiam a noites de antigos carnavais... Vamos então, moçada, na falta do Old Parr ou do Glenfiddish, ou do Chivas, ou do Jack Daniel's, ou do "White Horse", encarar algum outro em substituição ao "Dark Horse" ... e oferecê-lo (o "algum outro"), como opção mais saudável, aos nossos amigos - e ao povo brasileiro.
    - Cheers!

Jim Croce - "Cigarettes, whiskey and wild women" (Tim Spencer)
https://www.youtube.com/watch?v=oMVSDxk0rBs&list=RDoMVSDxk0rBs&start_radio=1

quinta-feira, 28 de maio de 2026

O MEU BEM-TE-VI

 
O meu bem-te-vi (Foto: acervo pessoal)

Não sei para onde ele foi, mas eu o vi chegar. Fiquei atento... olhando... silenciosamente olhando... Ele veio de uma árvore, e pousou em cima de uma grade de ferro. Olhou ao redor, movimentou o corpo, abriu suas asas, e depois desceu em um voo ágil por sobre a superfície da água da piscina. Molhou o bico, as patas e o peito, fartou-se de água, e voltou a pousar na grade. Creio que tenha percebido que eu o observava. Mas não se intimidou. Olhou novamente ao redor e fez um novo voo rasante sobre a superfície da água... para em seguida pousar em uma mureta de pedras bem perto de mim. Bateu asas... olhou novamente ao redor... ergueu sua cabeça e cantou... cantou o seu canto... Parecia querer se exibir para mim... Fotografei-o. Assumi-o meu. Cantou novamente... Encantou-me. Encantado, fiquei observando sua manifestação de vida... de vida e de alegria: um bem-te-vi... um passarinho que viera me visitar... Imaginei-o prestes a voar, como prestes a voar estão sempre todos os passarinhos... Mas ele não voou... Ficou ali... mais alguns segundos... e outros mais... Para minha surpresa, um outro bem-te-vi, discreto e silencioso, das folhagens de uma árvore, veio pousar na mesma mureta de pedras, ao seu lado... ao lado daquele que havia sido, por alguns instantes, o "meu" bem-te-vi... o bem-te-vi que viera me visitar... para em seguida prosseguir no seu voo... acompanhado... embelezando outros espaços e jardins...  

Renato Terra - "Bem-te-vi" (Dalto e Cláudio Rabello)
https://www.youtube.com/watch?v=aWgfRcRO4y8&list=RDaWgfRcRO4y8&start_radio=1

quinta-feira, 21 de maio de 2026

VILAREJO (O MEU)

 

Foto: acervo pessoal (05/26)

(...)
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
(...)

Marisa Monte - "Vilarejo" (Marisa/Brown/Antunes/Baby)
https://www.youtube.com/watch?v=r7qrFD19c_Y&list=RDr7qrFD19c_Y&start_radio=1
 

segunda-feira, 30 de março de 2026

O SINO DA IGREJA

 

A igreja matriz de São Sebastião - Guará, SP - Praça 9 de Julho
Acervo pessoal (02/09/21)

    Há muito tempo não visitava Guará, minha terra natal. Hoje estive lá. Ao passar pela pela Praça 9 de Julho, o sino da igreja começou a badalar. Fiquei com a impressão de que ele queria conversar, inclusive comigo. Ouça a sua voz, a sua mensagem... E se puder entender, depois me conte:

    - O que ele estava tentando nos dizer?

(02/09/2021)


quinta-feira, 5 de março de 2026

NEHIF ANTÔNIO - (97 anos)

 

Nehif Antônio - 05/03/1929 - 20/05/1972

Em 05/3/1929, há 97 anos portanto, nascia em Guará, SP, o Dr. Nehif Antônio. Quem foi? O que fez? o que não fez? o que gostaria de ter feito? Acertou? Errou? Não importa. Viveu como pôde; morreu cedo - mas não foi esquecido. A ele uma oração - e uma das canções que, lembro-me, ele gostava de ouvir.

Elizeth Cardoso - "Nossos Momentos" (Haroldo Barbosa/Luiz Reis)
https://www.youtube.com/watch?v=YRkm-prwE48&list=RDYRkm-prwE48&start_radio=1

sábado, 21 de fevereiro de 2026

DILERMANDO E O VIOLÃO


Dilermando Reis e Francisco Petrônio - "Se ela perguntar" - (Dilermando Reis/Jair Amorim)
https://www.youtube.com/watch?v=NRYNC9c8_ss&list=RDNRYNC9c8_ss&start_radio=1


    Pois é... o Dilermando Reis inspirou muita gente a querer abraçar o violão - eu, inclusive.

Eu, inclusive - (Foto: acervo pessoal)

    "Se ela perguntar", "Sons de carrilhões", "Uma valsa e dois amores", "Abismo de rosas" e tantas mais, foram, para mim, a trilha sonora diária em uma loja de calçados dentro da qual cantava a minha infância... foram a trilha sonora de uma rua... de uma cidade pequena....

A trilha sonora de uma loja de calçados
Foto: acervo pessoal

    Depois do Dilermando Reis, e estimulado por ele - em especial pelo LP "Uma voz e um violão em serenata" -, o Baden Powell, o Sebastião Tapajós... o Raphael Rabello, os irmãos Assad, o Turíbio Santos, o Fábio Zanon... o meu professor Geraldo... e tantos outros... o Paulinho Nogueira, o Toquinho, o Yamandú... o Theo de Barros... o Diego Figueiredo... fizeram e ainda fazem muita gente querer abraçar o instrumento.
    O violão de Dilermando Reis continua sendo, portanto, para mim, noite de cidadezinha sob o luar, esquecida no interior... esquecida talvez na "serra da boa esperança"... ou às margens do Sapucaí... O violão de Dilermando continua sendo noite de gente na rua... de quermesse na praça, de cadeiras nas calçadas, de alto-falantes em parques de diversões, de conversas com vizinhos, de mesa posta com café e sequilhos... de pães e doces trocados em cestos de vime sobre o muro do quintal...
    Violão é serenata... é noite de lua em varandas cheirando à flores e amizades: violão é isso!... porque foi assim que Dilermando o fez!

O violão continua sendo...
(Foto: acervo pessoal)


domingo, 8 de fevereiro de 2026

O RELÓGIO DA COZINHA PAROU DE FUNCIONAR


O relógio da cozinha parou de funcionar: dez e vinte da manhã...

O relógio da cozinha - Foto: acervo pessoal

Baden Powell e Maurício Einhorn - "Chuva" (Pedro Camargo/Durval Ferreira)
https://www.youtube.com/watch?v=3berCPW2big&list=RD3berCPW2big&start_radio=1

Ao longo dos anos ele vem se impondo... apontando a passagem dos minutos, a passagem do tempo... determinando a hora de me levantar, de tomar o meu café, de me preocupar... de me sentar à mesa para almoçar e jantar... e, à noite, para apagar as luzes e ir me deitar...

O relógio da cozinha parou de funcionar... Cansado, esgotado, pede que eu substitua a fonte de energia que comanda os seus movimentos... para continuar comandando os meus... para prosseguir com os seus giros... para continuar anunciando a necessidade de sentido para cada minuto...

Não quero mais que ele tome conta de mim... Quero que ele fique assim... parado... quieto... para que tudo em minha casa permaneça como está...

Chove... chove de mansinho... tudo está muito quieto nesta manhã de domingo... Passarei o dia em casa... eu e minha companheira.... eu, à mesa de estudos, cuidando de minhas anotações; ela, no sofá da sala de estar, atenta aos seus livros... Quero o tempo  assim... sem periodizações, sem delimitações... quero sombras e luzes... sem relógio, sem a imposição das horas... Quero a chuva lá fora... quero o silêncio dentro de casa. Pouco me importam as horas... pouco me importa o relógio...

Pela vidraça do meu quintal, um pequeno mamoeiro exibe o milagre da vida...

Um pequeno mamoeiro sorrindo para a vida
(foto: acervo pessoal)

domingo, 18 de janeiro de 2026

ACENOS DE BOM DIA

 

Conversando com as folhas
Vídeo: acervo pessoal (Gramado, RS, outubro/25)

    Do hotel onde me encontro, a muitas e muitas estradas, pontes, campos, vilarejos e cidades de distância, abro as cortinas da janela do quarto... e sou saudado pelos acenos de folhas alegres em galhos de árvores: são sopros de vida que sugerem disposição para um novo dia...


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

SMEDLEY D. BUTLER (E A DOMINAÇÃO DISSIMULADA)

 
https://geology.com/world/world-map.shtml

    Hoje, daqui de onde me encontro, olho para baixo e vejo que as mesmas manobras de dominação continuam sendo empregadas. Sim, sei que, em meu tempo, também agi para que, de forma dissimulada, a subjugação se operasse. Tanto é que pelos meus trinta e quatro anos de serviço, e desautorizado de fazer uso de pensamento próprio, participei de diversas ações: nas Filipinas, em Cuba, México, Nicarágua, República Dominicana, Honduras, China, e França. Há muito tempo, em revista de grande circulação, publiquei um artigo* no qual descrevi as tarefas por mim experimentadas em decorrência dessas minhas atuações:

"Fui um gangster a serviço do capitalismo. Assegurei os interesses petrolíferos no México (..). Ajudei a transformar Cuba em um pais onde o pessoal do National City Bank pudesse discretamente evitar lucros. Participei da limpeza da Nicarágua (...) em nome da firma bancária internacional Brown Brothers Harriman. (...) para os grandes barões americanos do açúcar, levei a 'civilização' à República Dominicana. (...) resolvi problemas em Honduras em benefício das empresas frutícolas americanas. (...) na China, assegurei os interesses da Standard Oil."

    Depois de aposentado publiquei em livro** o entendimento que passei a ter a respeito da ligação e do funcionamento desse complexo militar-industrial e de seus interesses. Conclui que banqueiros, especuladores, produtores de munição, grandes empresas etc, apoiados por governos submetidos ao capitalismo, ao objetivo de lucro, provocavam guerras para o seu próprio benefício - e creio que, mesmo depois que me fui, pela chamada "doutrina intervencionista" continuam provocando.
    Olho para trás e vejo que, pelo meu país, não foi e não tem sido outro o objetivo senão, por oportunismo, promover investidas visando a dominação com o intuito de obter lucros: Samoa, Reino do Havaí, Cuba e Porto Rico, Filipinas, Panamá, Honduras, Nicarágua, Haiti, República Dominicana, Coréia do Sul, Síria, Egito, Guatemala, Indonésia, Líbano, Iraque, Congo, Laos, Vietnã, Brasil, Bolívia, Chile, Afeganistão, El Salvador, Kuwait... Onde havia, e onde houver oportunidade de lucro, lá estávamos e queremos estar. Agora, a Venezuela... E depois?
    A ideia propagada era - e parece que continua sendo - de que temos que "atender ao chamado"; de que temos uma missão divina e o direito natural de expandir nosso território e nossa influência; de que temos que levar a 'civilização', o progresso e a democracia, pois essa é a nossa missão, esse é o "Destino Manifesto".
    Ainda em meu tempo, afirmei publicamente que um grupo de ricos industriais estavam planejando um golpe militar*** para a derrubada de um presidente do meu país****... pois que eu seria designado para liderar um grupo que iria cuidar de sua deposição. Face à minha recusa, denunciei a conspiração: os mandantes eram representantes de grandes empresas norte-americanas. É claro que, nos dias que se seguiram à minha manifestação, e até hoje, a mídia propaga a versão de que eu disseminei uma grande mentira.
    - "Mas... há alguém que tenha disposição ou interesse em pensar a respeito de intenções disfarçadas?" Tenho minhas dúvidas...*****
    Ah, sim... para que não se esqueçam de mim, e do que estou lhes dizendo, é importante que eu me apresente: nasci em West Chester, no Estado da Pensilvânia, em 1881, e me chamo Smedley Darlington Butler. Depois de ter passado um certo tempo lá embaixo, e em seguida mais um tempinho no purgatório, há cerca de 85 anos vivo aqui em cima, para onde fui transferido depois de ter falecido em 1940, aos 58 anos de idade, em virtude de uma doença irreversível. Fui major-general do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e, até me aposentar, o Fuzileiro Naval mais condecorado da história de meu país: 16 medalhas - cinco por heroísmo. Depois de aposentado, ao ter recuperada a minha liberdade de pensar, fui crítico do aventureirismo militar norte-americano, ativista, escritor e palestrante - até a minha morte em 1940.

Smedley Butler
https://pt.wikipedia.org/wiki/Smedley_Butler

______________________________  
*(Artigo publicado no New York Times - trecho) - "Passei 33 anos e quatro meses no serviço ativo, como membro da mais ágil força militar do meu país - o Corpo de Fuzileiros Navais. Servi em todos os postos, desde segundo-tenente a general. E, durante tal período, passei a maior parte de meu tempo como guarda-costas de alta classe, para os homens de negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em suma, fui um quadrilheiro, um gangster para o capitalismo. [...] Foi assim que ajudei a transformar o México, especialmente Tampico, em lugar seguro para os interesses petrolíferos americanos, em 1914. Ajudei a fazer de Cuba e Haiti lugares decentes para que os rapazes do National City Bank pudessem recolher os lucros. Eu ajudei a estuprar meia dúzia de repúblicas da América Central em prol dos lucros de Wall Street [...] Ajudei a 'limpar' a Nicarágua para os interesses da casa bancária internacional dos Brown Brothers, em 1909-1912. Trouxe a luz à República Dominicana para os interesses açucareiros norte-americanos em 1916. Ajudei a fazer de Honduras um lugar 'adequado' às companhias frutíferas americanas, em 1903. Na China, em 1927, ajudei a fazer com que a Standard Oil continuasse a agir sem ser molestada. Durante todos esses anos, eu tinha, como diriam os rapazes do gatilho, uma boa quadrilha. Fui recompensado com honrarias, medalhas, promoções. Voltando os olhos ao passado, acho que poderia dar a Al Capone algumas sugestões. O melhor que ele podia fazer era operar em três distritos urbanos. Nós, os fuzileiros navais, operávamos em três continentes." (Smedley D. Butler)
**War is a Racket (A guerra é uma fraude); (publicado em 1935): Smedley D. Butler argumenta que a guerra é um negócio lucrativo para um pequeno grupo com interesses comerciais, que explora o patriotismo para lucrar com o sofrimento e o custo humano e financeiro para a maioria da população, e revela como os grandes negócios se beneficiam da guerra.
***Business Plot (Complô dos empresários) - 1933
****Franklin Delano Roosevelt
***** (leitura interessante a respeito do assunto: "Covert Regime Change: America's Secret Cold War" (Mudança Dissimulada de Regime: a Guerra Fria Secreta da América) - Lindsey A. O'Rourke, Cornell University Press, 2018