Minha intenção é publicar aqui as reflexões que me ocorrem a respeito dos textos que leio, das músicas que ouço, dos diálogos que tenho com as pessoas, e das respostas que me são dadas pelo silêncio... e que me fazem sentir que, de alguma forma, trouxeram alguma inspiração. Afinal, o universo ao nosso redor só se torna inteiramente bonito quando conseguimos dar a ele algum significado; e, especialmente, quando sentimos necessidade de compartilhá-lo.
("Já fui bela, já fui forte" - Antiga ponte sobre o Rio Sapucaí, limite dos Municípios de Guará e São Joaquim da Barra/SP - foto: arq. pessoal)
O tempo passou. Já fui bela, já fui forte, já fui única. Muitos
passaram por mim. Muitos nem me viram. Muitos que me viram, me esqueceram. Alguns nunca me esquecem.
Outros, ainda me olham. Continuo firme, suspensa em minhas estruturas de ferro, concreto
e asfalto. Já não tão segura e bela quanto antes. Mas continuo ali. Outra foi construída para me substituir - mais forte, mais prática, mais larga, mais útil. Fiquei
de lado, paralela, inserida na paisagem, guardando as minhas e as suas histórias
- que renascem quando você cruza o rio, e olha para o lado... atentamente...
("Outras foram construídas" - Ponte sobre o Rio Sapucaí, limite dos Municípios Guará e São Joaquim da Barra/SP, na Via Anhanguera - foto: arq. pessoal)
Pronto. Chegou do sebo, em cima da hora, via
correio, o meu livro: “Traçando Porto Alegre” - textos do Luis Fernando Veríssimo
e traços do Joaquim Fonseca. No feriado, é prá lá que vou: Porto Alegre!
("Deu prá ti" - Kleiton e Kledir)
Quando viajo gosto de levar uma ideia e uma
expectativa do que poderá ser visto. Assim os lugares ganham alma e me levam a
uma dimensão muito diferente daquela que atinjo com o simples olhar. Por isso
quero ler o livro antes de ir. Quero saber o que disseram o LFV e o Joaquim
Fonseca. Já folheei várias páginas: o “Monumento ao Laçador”, o prédio dos
correios e telégrafos, a escadaria que liga as Ruas Formosa e do Arvoredo, o
teatro São Pedro, o Palácio Piratini, a Fonte Talavera de la Reina, e muita,
muita coisa mais - são estruturas físicas transbordantes de vida. Revolução
Farroupilha, Bento Gonçalves, Júlio de Castilhos, Mário Quintana – todos nomes
ligados ao Rio Grande do Sul que, dos livros de História e Literatura, renascem... Agora eu apenas vejo lugares e personagens no papel, nos textos e na
imaginação... Logo mais, equipado com as imagens que serão criadas ao ler o
livro, vou além, vou “straight to the point”(direto ao ponto), vou estabelecer
laços de afeto com esse pedacinho do Brasil - e vou ver meu tio, tia e primas.
Por isso, com licença! O livro me espera: Desde
agora, “Vou prá Porto Alegre, e tchau!”
No
quintal, debaixo de uma mangueira, nos posicionávamos. À nossa frente, o fotógrafo.
Comemorávamos os aniversários. Meninos e meninas de um tempo que já vai longe. Amigos.
Todos transbordando os anseios de uma vida inteira. O que foi feito dos sonhos de
cada um? Constituímos nossas famílias, procuramos outros horizontes, partimos para
lugares distantes, acertamos e erramos...: o que importa é que deixamos no quintal
muito do que fomos naquele dia, naquela hora...
("A comemoração de um aniversário meu" - fonte: arq. pessoal)
("A comemoração de um aniversário da minha irmã" - fonte: arq. pessoal)
Hoje,
no quintal, já não há mais a mesma mangueira...
("O quintal" - fonte: arq. pessoal)
Mas
há um mamoeiro, uma bananeira, uma mexeriqueira e muitas plantas.
("As plantas no quintal" - vista parcial - fonte: arq. pessoal)
Nas tardes de
sol há maritacas e pardais. Ao fundo, além do muro, um cipreste enorme aponta para o alto, como que a indicar o futuro. O quintal guarda a memória dos bons amigos que um dia fomos... e que sempre haveremos de ser.
(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Amigos para siempre" - friends for life - Andrew Lloyd Webber / Don Black - composta para as Olimpíadas de Barcelona, 1992)
("Claude Monet reading" - Pierre-Auguste Renoir, 1872 - fonte: elarpamagica.blogspot.com)
Qualquer fato, pessoa ou coisa relativa à minha
terra natal me atrai a atenção. Chego a ponto de, eventualmente, seguir qualquer
automóvel com placa de Guará que passe por mim no trânsito, na expectativa de identificar
o motorista para poder ao menos saudá-lo com um aceno de mão. É bem verdade que,
a cada dia, diminui o número de conhecidos meus que vivem lá. Mas como sabem que
sou assim, que gosto de acompanhar os acontecimentos mais importantes da cidade,
enviaram-me para que eu lesse a edição de 13 de outubro do jornal “A Voz”.
O jornal “A Voz” é semanal e circula por muitas
cidades. Com sedes regionais em Ribeirão Preto, São Joaquim da Barra e Franca,
noticia os fatos ocorrentes nestas sedes e nas cidades situadas em torno delas.
Já existe há 22 anos e está muito bem feito. Por isso, parabenizo seus editores
e todos aqueles que dão vida a ele.
Mas, como leitor, e com o melhor dos propósitos,
tomo a liberdade de fazer aqui uma pequena observação construtiva na direção do
que entendo ser bom jornalismo.
Ao ler a edição de número 1600 que me foi enviada,
vi em sua primeira página as fotos de alguns prefeitos que foram eleitos na
região – inclusive o de Guará. E foi com grande contentamento que li o subtítulo
da manchete:
“Neste
especial, Jornal A voz mostra os vencedores para prefeito e vereador nos
principais municípios da região”.
A razão desse meu contentamento foi porque, se a
foto do prefeito eleito de Guará está ali, significa que Guará é um dos principais
municípios da região! E, claro, essa simples consideração, para um filho seu,
já é motivo de alegria. Fiquei orgulhoso!
No entanto, procurando no jornal por mais notícias
de Guará, li na página A5 um pequeno texto que não me agradou. Não me agradou
porque deixou de lado a imparcialidade e trouxe um juízo de valor; julgou. Nele
(no texto) foi dito que o prefeito eleito poderia ter vencido mais facilmente (a
eleição) se não tivesse vinculado seu nome ao prefeito cujo mandato está
prestes a findar-se. Continuou o texto dizendo que este está envolto em escândalos
de desvio de recursos e licitações fraudulentas. E conclui a matéria julgando,
dizendo que, se o prefeito eleito fizer sua administração sem interferência do
atual - a quem a matéria qualificou de “péssimo” - tem tudo para se sair bem.
Foi muito imprópria a utilização desse adjetivo
(“péssimo”) para qualificar o atual prefeito. Seu emprego, a meu ver, feriu o
texto e, consequentemente, colocou em estado de suspeição a matéria. Quero
deixar claro que minhas considerações aqui não são no sentido de defender ou
acusar quem quer que seja: nem o prefeito e tampouco o autor da matéria –
aliás, nem sou eleitor em Guará. Mas penso na grandeza do jornalismo regional,
na sua importância para fornecer elementos que se tornarão fonte de produção da
História.
Ao ler (na matéria) o qualificativo “péssimo”, percebi
existir ali um julgamento, uma opinião muito pessoal com evidente distanciamento
da isenção necessária para o bom jornalismo, para o jornalismo de qualidade. É do
próprio conceito de jornalismo o entendimento de que, ao jornalista, cabe noticiar
o fato com isenção, imparcialidade, correção e agilidade. Quanto às conclusões,
somente ao leitor cabe tirá-las. De outra forma o que se produz no jornal é propaganda,
é tentativa de convencimento, é tentativa de atrair adeptos subestimando e desrespeitando
a capacidade do leitor formular sua própria análise crítica a respeito do que lê.
(fonte: bigstockphoto.com)
Claro que existe o jornalismo opinativo. Contudo,
no texto comentado, "onde estão as razões que sustentariam uma opinião e que convenceriam
um leitor a respeito de ter sido um prefeito bom, ruim ou péssimo?" Na matéria,
simplesmente dizer que o atual prefeito está envolto em escândalos de desvios
de recursos e licitações fraudulentas não elucida nada. Fico me perguntando e
ansioso por saber, posto que a informação é vaga: "onde houve desvio de
recursos? em quais licitações houve fraude? Tudo isso já foi comprovado?" Pois é,
fica faltando...
Praticar jornalismo é ter como propósito central
produzir conhecimento, informar, inspirar raciocínio crítico no leitor. Sem
isenção a informação fica tendenciosa, viciada, perde qualidade. Por isso, na
qualidade de leitor, mais uma vez parabenizando o Jornal pelos seus 22 anos e
desejando a ele muitos anos de existência, peço que considerem a nossa capacidade ("nossa", dos leitores), em suas matérias,
de formularmos nossas próprias opiniões a respeito do que for noticiado. E que, nas edições
futuras, eu e todos os leitores possamos ler matérias claras e convincentes, com
a prevalência da isenção ao invés da vaga opinião pessoal.
(Eu, em visita ao "Morumbi" - arq. pessoal, 12out12)
Tudo bem, eu concordo que a fase não é das
melhores. Prá ser franco, é das piores! Vergonhosa! Mas, não sei por que, o
time da gente é coisa sagrada – a gente resiste, insiste, mantém sempre uma esperança,
nunca abandona.
Lembro-me com saudade do meu time nos anos 60:
Valdir, Djalma Santos, Djalma Dias e Ferrari; Zequinha e Tarciso; Gildo, Vavá,
Servílio, Ademir da Guia e Rinaldo. – “Que timaço!”
Nesse tempo, minha primeira década de vida, eu
tinha todos os grandes times em jogo de botão - e sofria muito com futebol.
Nesse tempo o Palmeiras andava bem! Era muito diferente dessa porcaria de hoje.
Mas esse tempo, “puts”, já vai longe...
Nesse tempo eu visitava todos os domingos o meu
tio Norival – torcedor fervoroso do São Paulo. Em geral eu o encontrava deitado
no sofá da sala de entrada, fumando e ouvindo no rádio os comentários
esportivos. Com a minha chegada ele me contava qual seria a escalação dos times
que iriam jogar – e me dava a escalação do São Paulo e a do Palmeiras, mesmo
que fossem outros os times que jogariam de fato. Escalados (os times), eu me sentava
no chão para ouvi-lo imitar o Fiori Gigliotti (1) narrando o jogo. E ele
caprichava nas frases celebrizadas pelo Fiori:
(Meu tio Norival - arq. pessoal)
- “Abrem-se as cortinas e comeeeeça o espetáculo!”
- no início do jogo.
- “O teeeempo paaaassa!” – nos momentos mais
angustiantes da partida, quando algum time precisava fazer um gol.
- "Goooooolllll.....Duduuuuu, o mooooço que veio de
Araraquara!” – em algum gol do Palmeiras, marcado pelo Dudu (2).
- “Agora não adiaaaanta chorar!” – logo após
narrar um gol.
(Fiori Gigliotti narrando um gol do Palmeiras) CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR
Nessas transmissões do meu tio o Palmeiras nunca
perdia. Na pior das hipóteses, se estivesse perdendo, para que eu não ficasse
triste, ele sempre arrumava, no último minuto, um gol de pênalti do Ademir da
Guia (3) para empatar o jogo.
Foi por isso que esse tempo que passou, ficou.
Eis então que, transitando pelo bairro do Morumbi,
passei pelo estádio do São Paulo (o “Cícero Pompeu de Toledo”, conhecido como “Morumbi”)
e resolvi descer do táxi. Caminhei em direção ao portão de entrada e,
encontrando-o aberto, entrei. Queria conhecer as arquibancadas, ver o gramado
onde ocorreram tantas partidas que ouvi sendo transmitidas tanto pelo rádio quanto pelo meu tio.
(Entrada principal do Estádio do Morumbi - arq. pessoal)
Entrei em um restaurante dentro do estádio, que
fica nas arquibancadas atrás do gol do lado do Portão 2, e sentei-me em uma
cadeira para ficar olhando.
(Estádio do Morumbi - vista interna - arq. pessoal)
(Estádio do Morumbi - vista interna - arq. pessoal)
Que belo estádio! Todo ajardinado, limpinho... Uma
garçonete perguntou-me se eu iria almoçar. Respondi que sim, que me trouxesse o
cardápio... e continuei olhando o estádio... o gramado verde, verdinho...
(Estádio do Morumbi - vista interna a partir do restaurante na arquibancada - arq. pessoal)
Mas a
moça demorou muito, tanto, mas tanto, que tive tempo de retomar minha lucidez.
Foi assim que, por estar em “território adversário”, meu coração alviverde falou
mais alto. E eu, incomodado por estar ali, levantei-me num movimento brusco e fui
embora assobiando o hino do Palmeiras, sem que a garçonete que se aproximava pudesse entender o
turbilhão de pensamentos que me estavam ocorrendo...
(1) FIORI GIGLIOTTI (1928-2006) –
radialista e locutor esportivo
(2) DUDU – apelido de Olegário Tolói
de Oliveira, nascido em Araraquara, SP, volante do Palmeiras na época da “Academia
de Futebol”
(3) ADEMIR DA GUIA – carioca, marcou
história no Palmeiras. Considerado pela crítica como um dos melhores jogadores do
futebol brasileiro de todos os tempos. Foi apelidado de “Divino”, pela classe com
que jogava.