segunda-feira, 16 de abril de 2012

UMA TURMA LEGAL - "N'est ce pas ?"

Passeando pelo Facebook vejo fotos antigas postadas pelo meu amigo Luis Fernando - o “Rando”. Ao ver as fotos e, nelas retratadas, grandes amigos de uma vida toda, lembrei-me de um poema sobre fotos antigas que li em um livro de Francês (referência abaixo). Transcrevi aqui no blog a versão desse poema no texto “Três mangas e dois álbuns de fotos”, postado há mais de um ano. Republico hoje o mesmo poema com o texto em francês, conforme está no livro.
Relendo o poema homenageio o Prof. Sebastião, minhas primeiras aulas de Francês com ele no “Rondon”, e uma turma muito legal eternizada na foto abaixo. Afinal, uma foto aprisionada em um álbum não serve p’rá nada. É puro egoísmo de quem o faz. O verdadeiro sentido da materialização da imagem é o de poder revê-la, sentir vontade de compartilhá-la e, efetivamente, compartilhar. Eis aqui, então, “a turma bem legal”. Lembro-me de todos! - e abraço cada um com o mesmo carinho de sempre.
 ("Festa de Aniversário" - arq. pessoal)
Bien coiffés, bien vêtus,
Ils regardaient droit devant eux,
Conscients de poser pour l’éternité...
...Un instant leurs rêves s’arrêtaient,
Se fixaient, sur le mystère d’un appareil

Et sur l’homme-magicien.

Puis ils s’échappaient, s’envolaient

À nouveau vers cet avenir dont um jour

Il ne resterait que cet instant arrêté,

Cette photo jaunie...
(texto extraído do Livro “Archipel – Française Langue Étrangère – Livre 2” Helène Gauvenet et Marc Argaud – a tradução deste texto está em “Três mangas e dois álbuns de fotos”. Para lê-la, é só clicar:  http://eliasguara.blogspot.com.br/2011/02/tres-mangas-e-dois-albuns-de-fotos.html

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O BANCO DE TRÁS DO MEU CARRO





(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("C'est la vie" - Emerson, Lake & Palmer)

"C'est la vie"
Pelo retrovisor do meu carro vejo o mundo que vai passando: árvores, casas, semáforos, motocicletas... coisas e pessoas que vão ficando para trás, perdendo-se no tempo, encontrando morada no meu coração.
("Olhando pelo retrovisor" - 04abr2012 - arq. pessoal) 

Houve um tempo em que eu olhava pelo retrovisor para seguir em frente, e apenas cuidava para que os veículos pudessem se aproximar com segurança.

Depois meus olhos passaram a ser exclusivos para o banco de passageiro.

Mais tarde nossos olhares passaram a olhar pelo retrovisor... Riamos dos risos, das perguntas e da admiração que vinham das vidas que estavam lá, no banco de trás do meu carro.

("No banco de trás" - nov1991 - arq. pessoal)

No banco de trás o futuro um dia ia chegar: festas, amigos, bicicleta, intercâmbio de estudos, universidade, carro... um mundo novo pulsando forte.

Paro o carro.

Olho pelo retrovisor sem me atentar para os veículos que se aproximam. No banco de trás viaja o que, materialmente, ali está: uma caixa velha de papelão, um chapéu Panamá que ganhei em um Natal, uma garrafa de plástico vazia, e um jornal que trás notícias pelas quais não me interesso.

“Dou seta” e, sorrindo feliz pelo futuro que chegou, reinicio o movimento do carro.

Com o futuro presente, cheio de alegrias, tropeços e descobertas que viviam contidas nas expectativas daquilo que poderia brotar do banco de trás do meu carro, sigo em frente... e carrego no meu coração três sorrisos carinhosos e gostosos que estão sempre comigo, que me dão alento, e que estão nos bancos de passageiro e de trás do meu carro.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

LEMBRANDO MOMS MABLEY (1894/1975)


CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR O VIDEO ANTES DE LER O TEXTO
Martin Luther King Jr. - "I have a dream" - Washington, 28/08/1963
https://www.youtube.com/watch?v=fz_7luovxPc&t=25s

     Acabo de ler uma mensagem lembrando o aniversário da morte do ativista político negro norte-americano Martin Luther King (15/01/1929 - 04/04/1968). De uma manifestação sua, conhecidíssima, na qual expressou seus sonhos de igualdade nos direitos civis – “I have a dream” – foram inspirados os lemas da campanha política do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Essa lembrança me remete de imediato a Moms Mabley (nascida Loretta Mary Aiken), comediante e cantora negra também norte-americana.


moms
Moms Mabley
fonte: http://weird-sister.com/2015/02/23/3-pieces-of-feminist-advice-from-jackie-moms-mabley/

     Pouco conheci ou li a respeito de Mams Mabley. Contudo, uma das gravações que ela fez me acompanha desde o seu lançamento, em 1969, até os dias de hoje: “Abraham, Martin and John”, composta por Dick Holler. Quando converso com meu amigo Abrahão, ao telefone, forjando um forte sotaque norte-americano, exclamo de imediato: “Abraham!” – e ele sabe que me refiro a Moms Mabley. Nessa música o autor homenageia três grandes líderes norte-americanos - todos eles assassinados: Abraham Lincoln, Martin Luther King, e John Kennedy – e ainda faz referência a Bob Kennedy. Moms Mabley era, especialmente, comediante. Se relacionarmos a luta dos negros pelos direitos civis, nos Estados Unidos, com a voz negra e trêmula da MM, podemos compreender a distância emocional existente entre o riso da MM comediante, e a sensação de desamparo transmitida no canto da MM negra... que sentia a perda de três defensores dos direitos civis, dos negros, nos Estados Unidos...

CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
("Abraham, Martin and John" - Moms Mabley, 1969)

sexta-feira, 30 de março de 2012

"ORFEU NEGRO" E A IGREJA DE ST. PETER


("História da Igreja e de sua construção" - placa na entrada - set2011 - arq. pessoal)

     Das muitas situações que me ocorreram em visita ao norte da Inglaterra, com um grupo de estudos do Rotary International, uma delas me surpreendeu e me deixou muito feliz. Foi em Sunderland, cidade localizada na foz do Rio Wear, às margens do Mar do Norte.

("Fawcett Street, Sunderland" - set2011 - arq. pessoal)

("Uma rua em Sunderland"- set2011 - arq. pessoal)

     Em uma manhã de sol fomos conhecer St. Peter’s Church – a igreja de São Pedro. Construída no ano de 674 d.c. (século VII), essa igreja, em vias de ser reconhecida como patrimônio da humanidade, tem uma das primeiras estruturas construídas em pedra, com a torre e as paredes ilustrando o modo saxônico de construir daquela época.
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("Placa para visitantes na lateral da igreja" - 29set11 - arq. pessoal)

     Fomos recepcionados por um senhor bastante idoso, voluntário indicado pela igreja. David era o seu nome. Estudioso dos detalhes daquela construção, ouvimos dele todas as explicações a respeito das paredes, das pedras, dos murais, dos altares, enfim, de tudo o que o homem transformou do nada em algo representativo e simbólico. Fiquei encantado por estar tendo o privilégio de fazer aquela visita, na condição de convidado especial.

("Visita à St. Peter's Church" - 29set11 - arq. pessoal)

     Ao final, ainda conversando a respeito do que representa, em termos de patrimônio histórico uma construção como aquela, repleta de símbolos, fui presenteado pelo David com um pequeno livro - por ele mesmo escrito - no qual “desvenda” os segredos daquela igreja.

     Naquela noite, tínhamos o compromisso de fazer uma visita ao Rotary Club de Sunburn. Ali, além de nos apresentarmos oficialmente como hóspedes daquele Distrito rotário, deveríamos também apresentar o Brasil. Na reunião do clube, dentre os rotarianos e convidados, estava o David.

     Por natureza, gosto muito de ler, conversar, ouvir e falar a respeito de tudo que seja atinente ao Brasil – em especial estando no exterior. E naquela confraternização, amistosamente rotariana, depois de apresentarmos o nosso país, muitas foram as perguntas que nos foram feitas. Toda atenção estava voltada para as nossas respostas.

     Envolto em emoção, ao final, orgulhoso de mim mesmo por ter tido a honra de poder falar sobre o meu país, percebi o David ao meu lado querendo ouvir mais e, reservadamente, querendo perguntar mais. Surpreendi-me, então, ao ouvi-lo me pedir: “Elias, adorei o Brasil, adoro o Brasil... Apaixonei-me pelo seu país desde que assisti ‘Orfeu Negro’(*), há muitos anos. Quero ouvir você me falar mais: fale-me de ‘Orfeu Negro’!"

     Eu, apaixonado que sou por tudo que tenha alguma ligação com o Vinícius de Moraes, reacendi meu entusiasmo. Fiquei surpreso e feliz ao ouvir de alguém, em um país encantador, às margens do Mar do Norte, na distância de 52 anos entre aquela noite e o lançamento do filme, interessar-se em ouvir comentários brasileiros a respeito daquilo que, da nossa cultura, é mostrado no filme.

     Puxei uma cadeira para mim e outra para o David. Durante um bom tempo ficamos conversando sobre o filme e tudo o que ele representava e ainda representa. Foi um momento memorável. Por fim, com um abraço, eu e o David nos despedimos sem termos que dizer “good bye”: instintivamente cantamos juntos a versão, em inglês, da música-tema do filme: “Manhã de Carnaval”(**).


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR "Manhã de Carnaval"
JOHNNY MATHIS e AGOSTINHO DOS SANTOS
"Manhã de Carnaval", do filme Orfeu Negro- voz: Agostinho dos Santos e Johnny Mathis
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(*) “ORFEU NEGRO” – filme ítalo-franco-brasileiro, 1959. Oscar de melhor filme estrangeiro, 1960. Dirigido por Marcel Camus. Adaptado por Camus e Viot a partir da peça teatral ‘Orfeu da Conceição’, de Vinícius de Moraes.
(**) “MANHÃ DE CARNAVAL”, (1959 - de Luiz Bonfá e Antônio Maria)

segunda-feira, 26 de março de 2012

O RAPTO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Sheherazade and 1001 nights)
     Na parede da sala da casa da Dona Zaíra, imigrante síria, ficava pendurado um quadro de um artista desconhecido. Era um quadro escuro. Sugeria que o fato ali mostrado ocorrera em uma região muito distante, há muito tempo, na escuridão de uma noite de céu estrelado. No centro do quadro estava um beduíno montado em um cavalo preto, levando consigo uma mulher. Em galope desenfreado afastavam-se de uma pequena aldeia e adentravam um deserto. O quadro sugeria uma fuga, um rapto, um sequestro. Tanto o beduíno quanto a mulher vestiam roupas pretas que lhes cobriam o corpo todo. Na sala da Dona Zaíra, dentre dezenas de pequenos objetos vindos dos países árabes, esse quadro era o estímulo visual que mais se destacava. A ele, sem conhecer o nome que recebeu do artista, denominei “O Rapto”.



     No início da semana passada a mídia divulgou que, no Egito, beduínos sequestraram duas brasileiras - e logo as libertaram. Sem querer, lendo a notícia, lembrei-me do quadro. Atento aos detalhes do que estava sendo informado, fui me inteirando do acontecimento: duas brasileiras que estavam com um grupo de turistas foram tomadas como reféns por alguns beduínos. Eles, de carro, interceptaram o ônibus no qual elas viajavam, e as levaram para uma região montanhosa. Dizia ainda a notícia que o propósito do “sequestro” era de forçar a troca dos reféns por um prisioneiro ligado ao grupo. Não sei se houve a troca, só sei que, felizmente, elas foram libertadas.

     A notícia me fez revisitar a casa da Dona Zaíra, falecida há anos. A primeira imagem que me veio foi a do quadro de sua sala. Revi o beduíno a cavalo raptando uma turista de pele clara e olhos assustados. Fiquei tentando mensurar o susto dessa turista ao experimentar uma realidade tão distante da sua: praia, água de coco, futebol, carnaval, e seu contraste com beduínos, deserto, tendas, camelos...

     Pelo que contaram depois da libertação, não houve maltrato algum; não as ameaçaram ou agrediram: pelo contrário, estenderam-lhes um tapete, ofereceram-lhes chá e cobertor em virtude do frio da noite no deserto.

     Assim como a descoberta de que papai Noel não existe, e de que o coelhinho da Páscoa é pura simbologia, dei-me conta de que os beduínos, nômades do deserto, já possuem carros e motocicletas; que cavalos e camelos estão ultrapassados e logo servirão, apenas, para ilustrar fotografias dos turistas.

     É... novos tempos, novos costumes. Tecnologia! Dessa notícia ficou o que o meu imaginário reteve - acrescida de barulho de motores de automóveis. E ficou também uma pergunta: em que parede estará pendurado “O Rapto”? Ou será que, não servindo mais para ilustrar a magia e o sonho de mil e uma noites, ele deixou de ocupar a parede principal de uma sala para ficar encostado em um canto escuro e empoeirado de um depósito qualquer?

sábado, 17 de março de 2012

O PIANISTA BRASILEIRO "DESAPARECIDO" EM BUENOS AIRES

(Tenório Júnior - "Nectar")

     Na década de 70 o Vinícius de Moraes, com seu jeito generoso e sua facilidade de fazer amigos, já havia caído nas graças de todas as plateias do Cone Sul e era assíduo em Buenos Aires. Na época estava casado com a “Martita” – jovem estudante e poetisa argentina. Juntamente com o Toquinho, acompanhado pelo baterista Mutinho, o baixista Azeitona e o pianista Tenório, fizeram duas apresentações em um dos teatros da cidade.

     Na madrugada de 18 de março de 1976 o Tenório (Francisco Tenório Cerqueira Júnior) saiu do hotel onde estava hospedado com os demais músicos, e deixou um bilhete:

     “Vou comprar cigarros e um remédio. Volto logo.”

     Não voltou.

     Apesar das imediatas mobilizações feitas pelo Vinícius para localizá-lo – consulado, embaixada, habeas corpus – o Tenório não voltou nunca mais.

     O misterioso desaparecimento só foi revelado anos depois quando um suboficial argentino declarou ter participado do sequestro do músico. Segundo seu relato, Tenório foi sequestrado por quatro homens, levado a uma delegacia e, depois, à Escola de Mecânica da Armada onde, segundo testemunhas, foi assassinado. Ainda segundo seu relato, Tenório, que falava bem espanhol, foi sequestrado pelos seus cabelos compridos, barba, e aspecto desalinhado – um típico intelectual de esquerda.

     Seis dias depois do sequestro um golpe de Estado derrubou a presidenta Maria Estela Martinez de Perón (Isabelita Perón), e instalou-se uma Junta Militar no governo da Argentina - tendo Jorge Rafael Videla assumido o poder nos dias que se seguiram. Nesse período de ditadura (1976/1983), na Argentina, foram muitos os “desaparecidos”: Tenório, brasileiro, foi um dos primeiros.
     Em novembro do ano passado, por iniciativa de um deputado portenho (Raul Puy), foi descerrada uma placa na fachada do Hotel em Buenos Aires de onde Tenório saiu para nunca mais voltar. Na placa, o seguinte texto:


FRANCISCO TENORIO CERQUEIRA JÚNIOR, TENORINHO
Aqui se hospedo en su última visita a Buenos Aires este 
Brillante musico Brasileño de Toquinho y Vinicius
Luego víctima de la dictadura militar.
(1941/1976)
HOMENAJE DE LA LEGISLATURA DE LA CIUDAD DE BUENOS AIRES

(Entrada do Hotel Normandie, Buenos Aires - foto: arq. pessoal)

(Detalhe das placas na entrada do Hotel Normandie - foto: arq. pessoal)

quinta-feira, 15 de março de 2012

GILBERTO FREYRE

(Gilberto Freyre - fonte: fundação Gilberto Freyre)

Comemora-se hoje o centésimo décimo segundo ano de nascimento de Gilberto Freyre: um grande brasileiro que enalteceu a mistura de raças e a quem, pela sua obra, aprendi a admirar.

Numa época em que as ideias racistas tinham presença nos países que formavam o Eixo na Segunda Guerra Mundial (Alemanha, Itália e Japão), com fortes reflexos no governo brasileiro de Getúlio Vargas; numa época em que era comum se dizer que o Brasil estava condenado ao atraso por causa da mistura de brancos, negros e índios, Gilberto Freyre, em 1933, com “Casa Grande & Senzala”, inverte essa noção para ressaltar o valor da raça negra e da cultura afro-brasileira. Por isso, na década de 30, ele foi visto como o descobridor da identidade do Brasil e criador de uma imagem positiva do brasileiro.
Por GF o Brasil converteu-se em paraíso tropical, berço da confraternização universal entre as raças e culturas oriundas da Europa, África e América. Se assim o compreendermos e assim o desejarmos, assim o Brasil será! - com maior amplitude a cada novo dia.
RP, 15março2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

UMA HOMENAGEM AOS QUE SE EMPENHAM PELOS SEUS SONHOS

(Gabriel e o "Memorial JK" - Brasília - arq. pessoal, fevereiro, 2012)
                                                                                                  
                                                                                            Para o meu filho,
                                                                                           em seu primeiro dia na UnB


"Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro de altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino.
Brasilia, 2 de outubro de 1956
Juscelino Kubitschek de Oliveira


(Biblioteca do JK, no Memorial JK em Brasília, ao lado de "JK", por Portinari - arq. pessoal, fev. 2012)

"Tudo se transforma em alvorada nesta cidade que se abre para o amanhã."
(JK)

(Inscrição em pedra - entrada do Memorial JK, em Brasília - dez/2010, arq. pessoal)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

MEU LAR


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("I am, I said" - Neil Diamond)

     Vim para o trabalho hoje ouvindo “I am, I Said” (1971), do Neil Diamond. Depois de muitos anos, de tanto cantar mecânica e anestesiadamente essa música, parei para decifrar sua mensagem. A letra é simples. Nela o Neil Diamond conta que, vivendo em Los Angeles, sente vontade de voltar para Nova Iorque - sua cidade natal. Enquanto assim sente, ele faz comparações e se dá conta do quanto é bom viver em Los Angeles. Ele diz que em Los Angeles há muitas árvores, o sol brilha, e o preço dos aluguéis é baixo.

     Contudo, apesar de ser bom, Los Angeles não é o seu lar (“L.A. is fine but it ain’t home”) - ele diz.

     Ele conta que nasceu e foi criado na cidade de Nova Iorque, mas que lá não há mais quem lhe dê atenção. Assim ele compreende que Nova Iorque já não é mais sua, e que está desencontrado e perdido entre dois oceanos: o Pacífico, que banha Los Angeles, e o Atlântico, que banha Nova Iorque.

     Há muitas músicas que falam da procura por um lugar ao qual se possa chamar de lar.

     Mas há uma música que traz uma boa reflexão sobre o assunto: “Green Green Grass of home”* (Os verdes campos do meu lar), composta em 1964. Essa música, diferentemente das demais, propõe um lar estático, imutável, fechado. Um lar que se perdeu, que se acabou. Gosto dessa música na interpretação do Elvis Presley. Na letra o autor quer retornar ao seu lar onde estava sua amada, onde havia flores e verdes campos. Só que esse retorno desejado aconteceu apenas em sonho. Ele diz que deixou sua cidade natal há muito tempo, que quer revê-la, e quer reencontrar lá as mesmas coisas exatamente como estavam quando dali ele partiu. No final desse sonho ele desperta e se vê entre quatro paredes acinzentadas: sua velha cidade ficou somente dentro dele.


(Igreja matriz de Guará, SP - postada por Mário Monteiro Rocha no facebook)

     Músicas assim são tristes, falam de muitas perdas.

     Contudo, a sequência natural da vida não é só de perdas. Nós passamos por fases e levamos dentro de nós todas as coisas que nos foram importantes. O autor de “Green Green Grass of home” esqueceu de dizer que, independente das paredes, o verdadeiro lar é imaterial, sua construção é constante e dura uma vida toda.

     Há nessas músicas um convite a uma reflexão profunda sobre o desamparo natural a que nós todos estamos submetidos, bem como sobre a necessidade de nos agarrarmos às coisas familiares, conhecidas, com as quais as sensações de aconchego e cumplicidade estão presentes.

("Peasant Family at table - Josef Israëls - 1882 - fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jozef_Isra%C3%ABls_-_Peasant_family_at_the_table_-_Google_Art_Project.jpg)

     Na condição de forasteiro na cidade onde vivo, muitas vezes sinto necessidade de apego. Houve um tempo em que ficava tentando definir qual seria o meu lar de verdade, onde eu deveria estar. Já não faço mais isso. As cidades se transformam, as pessoas se transformam. Meu lar nunca se distanciou de mim, nem eu tampouco dele: eu o carrego onde quer que esteja. Meu lar está onde estiver o meu coração, as coisas de que gosto, as pessoas que amo. Quando tenho em meus pensamentos os meus entes queridos, vivos ou mortos, as minhas ruas, minhas árvores, meus bancos de escola ou jardins, ainda existentes ou já destruídos, sei que estou no meu próprio lar, e que nenhum outro lugar me fará mais feliz.

_______________________________
* "Green green grass of home", de Claude "Curly" Putman Jr. Ouça a música com o Elvis Presley (é só copiar e colar no youtube o link https://www.youtube.com/watch?v=jddP25xXgDw )

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

APRENDENDO COM OS ESTUDANTES


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Mercedes Sosa - "Me gustan los estudiantes", de Violeta Parra)

                                                           Para o Gabriel

     Nesse começo de ano, assim como no começo de todos os anos, assistimos de graça uma celebração de sonhos e ideais. A cidade vibra, renasce e esbanja vitalidade nos olhares e nas cabeças raspadas dos calouros das universidades. São jovens que comemoram a conquista de um objetivo, o ingresso na universidade, a aurora de um sonho. Cada um deles, com os pés descalços pisando no chão quente da rua, corpo banhado de farinha, tinta e ovo cru, estampa no rosto a pureza e o desejo de um futuro bom, com homens bons, com um país justo...


("Um calouro" - arq. pessoal - fev2012)

     Gosto dos estudantes, dos jovens que aprenderam a escutar, a pensar e a raciocinar... Mas gosto deles principalmente nas ocasiões em que, sentindo-se enganados, falam forte e levantam a voz, indignados.

     Violeta Parra, compositora e cantora chilena, em alguns trechos de “Me gustan los Estudiantes”, retratou muito bem o exemplo que nos dão os estudantes:

“Me gustan los Estudiantes porque levantan el pecho
Cuando les dicen harina sabiéndose que es afrecho.”
(“Gosto dos estudantes porque levantam o peito, porque ‘afrontam as ofertas de farinha’, quando se sabe que ‘o que está sendo oferecido é puro farelo’...”)

     Mais adiante, ainda na mesma canção, ela nos dá um chacoalhão:

“[los Estudiantes] no hacen el sordomudo cuando se presente el hecho” (“os estudantes não se fazem de indiferentes diante dos fatos.”)

     Impossível manter frieza e indiferença diante de versos tão densos:


“me gustan los Estudiantes porque son la levadura
del pan que saldrá del horno
con toda su sabrosura"
(“Gosto dos estudantes porque são o fermento
Do pão que sairá do forno
Com toda sua ‘doçura’”)

Calouros de direito da USP pedem dinheiro no Centro de São Paulo
(Fonte: http://www.olhardireto.com.br/noticias/exibir.asp?id=158940)

     Coloco p’rá tocar “Me gustan los Estudiantes” na voz da Mercedes Sosa, e penso nos estudantes que tenho visto. Não consigo ficar apático. Revejo meus próprios ideais, os ideais de um adulto sentado atrás de uma mesa de escritório... Percebo, humildemente, que posso aprender com esses jovens a resgatar sonhos atropelados...  Sinto-me também no meio da rua, com os pés descalços, pedindo uma moedinha para celebrar com meus amigos um renascimento...

     Mas permaneço aqui, parado, torcendo para que o entusiasmo desses jovens não passe despercebido pelos homens duros, inflexíveis, terrivelmente ocupados, engrenados, fartos em poder, rendidos em ideais.

     Se olharmos bem para esse universo puro contido na cabeça de um jovem estudante, identificaremos muito da capacidade de nos encantarmos que, de alguma forma, apequenou-se no adulto que nos tornamos. Restam os ouvidos atentos para o pedido silencioso de que concedamos a ela – à nossa capacidade de nos encantarmos -  ressurreição e liberdade.

     “Me gustan los Estudiantes – jardin de nuestra alegria”... Cresço em esperanças, como adulto, quando vejo a solidariedade de um jovem estudante para com outro; seus abraços, seus sorrisos, sua alegria, sua receptividade... Observando-os de longe eu me rejuvenesço e me sinto mais próximo deles.

     Envolto nessas divagações eu quero abraçá-los, aplaudi-los e parabenizá-los, rogando para que adulto nenhum desconfie, menospreze ou zombe da força dos seus ideais.