Minha intenção é publicar aqui as reflexões que me ocorrem a respeito dos textos que leio, das músicas que ouço, dos diálogos que tenho com as pessoas, e das respostas que me são dadas pelo silêncio... e que me fazem sentir que, de alguma forma, trouxeram alguma inspiração. Afinal, o universo ao nosso redor só se torna inteiramente bonito quando conseguimos dar a ele algum significado; e, especialmente, quando sentimos necessidade de compartilhá-lo.
Gauguin, Velazquez, Monet, Degas e muitos outros
estão juntos na prateleira de cima de uma das estantes do meu escritório.
Colocados capa a capa formam a coleção “Grandes Mestres”, editada em 2011 pela “Abril
S.A.” Cada um deles, a seu modo e ao seu tempo, por seus olhos, pintou e
universalizou seu mundo. São vinte e cinco “Mestres” que passam seus dias aqui
comigo. Gosto de pensar que eles, numa infinita paciência e por intermédio de
suas obras, estão sempre dispostos a dialogar comigo.
Ainda agora, “Degas” na mão, e refletindo sobre
sua mensagem para a construção do Homem, levantei a cabeça e fixei o olhar em
um pequeno quadro do Vinícius de Moraes, pintado pelo Portinari, e que está pendurado em
uma das paredes do meu escritório. Olhando o quadro fiquei com a impressão de
que o Portinari estava manifestando, por intermédio de mim, um desejo seu de
também participar da minha conversa com o Degas. Desviei minha atenção então do
Degas para o Portinari, e lembrei-me do Juscelino Kubitscheck, em tamanho
natural, pintado pelo Portinari, exposto na entrada de sua biblioteca no Memorial
JK em Brasília.
Entrada da Biblioteca JK -Memorial JK, Brasília/DF -ao lado do Juscelino Kubitscheck pintado por Portinari - acervo pessoal)
Lembrei-me também dos murais “Guerra e Paz”, pintados pelo
Portinari, e que estão na sede da Organização das Nações Unidas em Nova Iorque;
ouvi meu coração cantar “Un son para Portinari”*, e ainda reli
mentalmente os poemas “A Mão”, do Drummond,
“(...) A mão
cresce e pinta
O que não é
para ser pintado, mas sofrido (...)”
e “Poema para Candinho Portinari”, do Vinícius,
“Lá vai
Candinho!
Pra onde ele
vai?
Vai pra
Brodósqui
Buscar seu
pai! (...)”
- ambos escritos em homenagem ao Portinari na
ocasião de sua morte, em 1962.
(Homenagem, na Pça Cândido Portinari, do povo de Brodósqui ao seu conterrâneo - acervo pessoal)
(Praça Cândido Portinari, vista do portão de entrada da Casa de Portinari - Brodósqui, SP - aceervo pessoal)
Museu Casa de Portinari - Brodósqui, SP - acervo pessoal)
Dostoiévski dizia que “falar da própria aldeia
universaliza”. De fato. E Candinho – o Portinari -, depois de um tempo na
Europa, voltou para o Brasil. A obra dele universalizou-se e tomou vulto a partir
do momento em que ele, tomado de encantamento por sua terra, passou a pintar sua
realidade e seu país: “Menino com estilingue”, “Mestiço”, “O Lavrador de Café”,
“Retirantes”, “Algodão”, “Baile na Roça”...
("O Lavrador de Café" - Portinari, 1939)
Com esses pensamentos na cabeça eu me levantei e olhei
cara a cara para os “Grandes Mestres” enfileirados na estante. Dei-me conta de
que não havia nenhum brasileiro dentre eles. Calados, eles me observavam. Não
diziam nada...
- “Envergonhados? Apequenados por não terem
aberto espaço para o Portinari?”, “acham justo?” – perguntei a eles silenciosamente.
De imediato ouvi internamente suas vozes me respondendo
que eles não haviam sido os responsáveis pela escolha de quem deveria ou não estar
ali, que também achavam que Portinari merecia na coleção um lugar de destaque.
Compreendi.
Mas,
desconfortável ainda com a incompleta seleção de Mestres feita pelos editores,
ergui a cabeça e recoloquei o Degas na estante. Por fim, inconformado com meus
interlocutores invisíveis e materializados em papel, determinei:
- “O Portinari tem sim lugar de honra junto de
vocês. Ele está e vai ficar aí para sempre, aberto ao diálogo!”.
Em
seguida coloquei entre o Goya e o Leonardo da Vinci uma biografia do Portinari
da coleção “A Vida dos Grandes Brasileiros”, editada em 1974, e que tenho desde
a época do colégio. Aí sim, fiquei mais tranquilo...
Tendo
feito isso, em minha mente pude ver todos os Mestres se ajeitando na
estante, rendendo suas homenagens ao Portinari, e dando-lhe as boas vindas com aplausos
que só eu pude ouvir. _________________________________________ *"Un son para Portinari" - de Nicolás Guillen e Horacio Salinas, gravado por Mercedes Sosa
Em 1969 Caetano Veloso partiu para Londres em
exílio forçado. Ali viveu praticamente confinado em um apartamento por pouco
mais de dois anos. Quase não saía de casa. Sua alma de artista e, certamente, a
sensação de “rejeitado” por seu país, deu-lhe, contudo, a sensibilidade para
perceber naquele período diferenças simples e significativas. No trecho abaixo
da canção “London London” (do próprio Caetano), ele mesmo canta a aparente felicidade que observou em um policial
londrino por poder ajudar um grupo de pessoas que dele se aproximou.
"A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them"*
Aqui no Brasil, naquela época, um grupo de pessoas
reunido poderia significar, para um policial, tentativa de rebelião a ser vigorosamente
reprimida.
Mas eu não estive em Londres nessa época; nem
cheguei ali na condição de exilado. Pus os olhos, o coração e os pés naquela
cidade na condição de convidado. E fui, por dois dias, como líder de um grupo
de estudos do Rotary, amparado pelo maior carinho em todos os meus passos.
Do Hotel Tavistock, onde estávamos hospedados, passando
por “China Town”, caminhamos até “Trafalgar Square” em nossa primeira noite
londrina.
Em virtude da instalação de painéis para os jogos olímpicos deste ano, as luzes da praça estavam apagadas. Sentei-me em um banco da praça com a “National Gallery” às minhas costas e, pela primeira vez, avistei ao longe as luzes do “Big Ben”.
("Com a National Gallery às minhas costas" - Londres, setembro 2011 - arq. pessoal)
("Avistei, pela primeira vez, as luzes do Big Ben - Praça Trafalgar, Londres - arq. pessoal)
Vendo à minha frente, na “Coluna de Nelson”, a representação de um mastro
com velas arriadas, por um instante tive a sensação de estar viajando em uma caravela
britânica do século XIX: não lutando na batalha que dá nome à praça (Trafalgar); mas, tal como ocorreu com os navegantes portugueses em 1500, avistando um
novo continente, um novo universo de pessoas, histórias e lugares a serem descobertos.
"Nelson's Column" - Coluna de Nelson - praça Trafalgar - Londres - fonte geograph.org.uk
Estátua do Almirante Nelson, no topo da "Coluna de Nelson", na Praça Trafalgar fonte victorianweb.org
_________________________________ *A group approaches a policeman, he seems so pleased to please them - (trad) Um grupo se aproxima de um policial, ele parece muito contente por poder ajudá-los.
sem dúvida não deve estar muito longe destes lugares.
(Vespúcio – “Mundus Novus”)
Quando alguém fala em “UTOPIA” logo imaginamos algo inatingível. O Antônio Houaiss, no dicionário por ele organizado, diz que “utopia” consiste em uma “sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade” (1). Tudo isso porque a palavra UTOPIA, com registro histórico de 1671 (1), formada por radicais gregos, significa “não-lugar”, ou “lugar que não existe”. E ficamos convencidos de que um lugar assim, utópico, é impossível de existir. Mas a Utopia já existiu – e era aqui!(2) UTOPIA é um termo que foi inventado por Thomas Morus para dar título a uma de suas obras escritas por volta de 1516. Nela Morus descreve um lugar onde a sociedade é organizada racionalmente, com propriedade comum dos bens, onde os habitantes vivem em casas iguais, auxiliando-se mutuamente, em paz total e harmonia de interesses. Se pensarmos bem, um pouco antes de 1516, a América havia sido “descoberta” e corria na Europa a notícia propagada por Américo Vespúcio de ter sido encontrado um lugar arborizado, frutífero, passarinhado, cheiroso e colorido - que só podia ser mesmo o Éden (2). Cristóvão Colombo também, em suas narrativas, pela beleza inocente que havia visto por aqui, acreditava ter encontrado o Paraíso Perdido (2). Thomas Morus, inglês, um homem diferenciado para o seu tempo, advogado, diplomata, escritor e um dos grandes humanistas do renascimento, ficou encantado com os relatos e as notícias propagadas por Vespúcio e Colombo a respeito daquele lugar.
(Estátua de Thomas Morus em frente ao Chelsea Old Church - Londres - fonte: rememberingtheexecuted.wordpress.co)
No entanto, na Europa corria a notícia de que viviam lá uns seres que não sabiam se eram uma humanidade ou uma bicharada; que viviam desnudos - apesar de inocentes e sem maldade... Os Europeus, barbudos e armados, empetecados em suas vestes, mergulhados em crenças de pecados e punições, duvidavam até que aqueles seres tinham alma! Assim, a se considerar que UTOPIA foi escrito em 1516, este só pode ter sido escrito sob a crença de Morus de que o paraíso havia sido encontrado. E esse lugar era aqui! Depois disso vieram os “sábios” demonstrando que os índios que aqui viviam estavam mergulhados no pecado. E deu no que deu: tiraram os índios da sua inocência para desindianizá-los (2) e inseri-los nas ideias de crime e castigo. Quanto a Morus, por não concordar com os termos de um Decreto que era de interesse exclusivo do rei da Inglaterra (Henrique VIII)(3), foi preso e morreu decapitado na Torre de Londres. Depois foi canonizado e virou santo da Igreja católica. __________________________________________________ (1) – conforme dicionário Houaiss (2) – conforme menciona Darcy Ribeiro em “A América Latina Existe?” – da coleção “Darcy no Bolso” – Editora UnB (3) - fundação do anglicanismo e não aceitação da coroação de Ana Bolena, uma das esposas de Henrique VIII
"Adiós Muchachos", de Vedani/Sanderes - Louis Armstrong - Stuttgart, 1959 - fonte youtube
"Adiós Muchachos" é um tango argentino, com letra de César Felipe Vedani e música de Julio César Alberto Sanders. Esse tango fala de morte, de alguém que, doente, deixando a vida, despede-se de seus amigos. É um sofrimento danado - como é próprio do gênero.
Quem primeiro o gravou foi Agustin Magaldi, em 1927*; no ano seguinte foi a vez de Carlos Gardel fazê-lo. Quase noventa anos já se passaram desde sua primeira gravação, e ainda hoje muitos artistas o interpretam e gravam.
Eu não conhecia, até há pouco, a gravação que dele fez o Louis Armstrong. Pois foi justamente ouvindo e assistindo essa gravação que reforcei minha consideração pela universalidade da música, no sentido de integrar povos, costumes e tradições, irmanando e aproximando os homens. Por intermédio da música estendemos os braços, nos abraçamos, nos damos as mãos, cantamos, sorrimos e dançamos fraternalmente - independente de nacionalidade ou fronteira.
Pois vejam só que "tempero": o grande Louis Armstrong, artista norte-americano de origens africanas, interpretando em um clube de Stuttgart, na Alemanha, em ritmo de jazz, um tango argentino!
Só nos resta então ouvirmos a música, aumentarmos o som do vídeo, e, com o coração brasileiro, rendermos graças ao grande "Satchmo"**.
Louis Armstrong https://www.theguardian.com/music/2016/mar/01/map-of-chicago-music-scene-louis-armstrong-nat-king-cole-kanye-west
Adiós
Muchachos
Adios muchachos, compañeros de
mi vida,
Barra querida de aquellos
tiempos
Me toca a mi hoy emprender la
retirada,
Debo alejarme de mi buena
muchachada.
Adios muchachos, ya me voy y me
resigno
Contra el destino nadie la
talla
Se terminaron para mi todas las
farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste
más
Acuden a mi mente
Recuerdos de otros tiempos,
De los bellos momentos
Que antaño disfrute,
Cerquita de mi madre,
Santa viejita,
Y de mi noviecita
Que tanto idolatre
Se acuerdan que era hermosa,
Mas linda que una diosa
Y que, ebrio yo de amor,
Le di mi corazón?
Mas el señor, celoso
De sus encantos,
Hundiendome en el llanto,
Me la llevo
Es dios el juez supremo.
No hay quien se le resista.
Ya estoy acostumbrado
Su ley a respetar,
Pues mi vida deshizo
Con sus mandatos
Al robarme a mi madre
Y a mi novia también
Dos lagrimas sinceras
Derramo en mi partida
Por la barra querida
Que nunca me olvido.
Y al darle, mis amigos,
El adiós postrero,
Les doy con toda mi alma,
Mi bendición
Adios muchachos, compañeros de
mi vida,
Barra querida de aquellos
tiempos
Me toca a mi hoy emprender la
retirada,
Debo alejarme de mi buena
muchachada
Adios muchachos, ya me voy y me
resigno
Contra el destino nadie la
talla
Se terminaron para mi todas las
farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste
más
Adeus
Rapazes
Adeus rapazes, companheiros de
minha vida,
turma querida daqueles tempos.
Cabe a mim hoje empreender a
retirada,
devo afastar-me de minha boa
rapaziada,
Adeus rapazes, já me vou e me
resigno.
Contra o destino ninguém
argumenta.
Acabaram para mim todas as
farras,
meu corpo enfermo não resiste
mais.
Voltam a minha mente,
lembranças de outros tempos,
de belos momentos,
que então eu desfrutei,
juntinho de minha mãe,
minha santa velhinha,
e de minha noivinha
que tanto idolatrei.
Lembram que era formosa,
mais bela que uma deusa
e que, ébrio de amor,
lhe dei meu coração?
Porém o Senhor, ciumento
de seus encantos,
cobrindo-me de pranto,
a levou.
É Deus o juiz supremo.
Não há quem se lhe oponha.
Já estou acostumado
a respeitar sua lei,
pois minha vida se desfez
com seus mandatos
ao levar minha mãe
e minha noiva também.
Duas lágrimas sinceras
derramo em minha partida
pela turma querida
que nunca me esqueceu.
E ao dar-lhes, meus amigos,
o último adeus,
lhes dou com toda minha alma,
minha bênção.
Adeus rapazes, companheiros de
minha vida,
turma querida daqueles tempos.
Cabe a mim hoje empreender a
retirada,
devo afastar-me de minha boa
rapaziada,
Adeus rapazes, já me vou e me
resigno.
Contra o destino ninguém
argumenta.
Acabaram para mim todas as
farras,
meu corpo enfermo não resiste
mais.
________________________________________
*conforme conta Héctor
Ángel Benedetti, em “Las mejores letras de Tango”, 1ª Ed. – Buenos Aires: Booket,
2003
**Satchmo - apelido de Louis Armstrong. Vem de "Sack Mouth", ou "Satchel Mouth", que significam "boca de saco", ou "boca de mochila".
No ano de 1967 foi exibido no único cinema de Guará um filme que marcou época. Um baita faroeste: "Django" [1]. O filme trazia a história de um homem que queria
vingar a morte de sua amada. Na expectativa de encontrar os assassinos para cumprir
o seu propósito, ele vagava pelos vilarejos arrastando um caixão, dentro do qual
– isso só se descobre no final - carregava uma metralhadora. Para os meninos da
minha idade de então o bom era ver o tiroteio na tela. De bom também havia a
música-tema do filme [2], que combinava perfeitamente com a ideia de vingança.
Eu e meus amigos gostávamos de nos reunir nos intervalos das aulas do ginásio ou a qualquer tempo nos
bancos da praça, para comentar as cenas do filme e falar da música-tema. Nas festas
de aniversário daquele ano e nas rodinhas de amigos o assunto era um só:
“Django”.
Em uma
dessas festas alguém apareceu com um compacto [3] da música-tema gravada em italiano na voz de
Roberto Fia. A partir daí só dava “Django” na vitrola. Quando os convidados começaram a abrir espaço na sala para poderem dançar,
a expectativa era uma só: “quem vai dançar com quem?” O simples fato de dançar
com alguém naquela época já significava a existência de algum compromisso amoroso, que
serviria de tema para outras rodas de conversa.
Formados os pares no meio da sala, eu, tímido, me encolhi em um canto. Em um determinado momento fechou-se uma roda ao meu redor , na tentativa de me arrastarem para a dança. Ao mesmo tempo vi que um grupo de meninas formava
uma outra roda em torno de uma de minhas amigas, na tentativa de que conseguissem fazer com que eu e ela dançássemos juntos. E foi uma confusão danada ao som dos tiros gravados em "Django" no vinil. Deu que
resisti. Deu que ela resistiu. Não dançamos juntos. Me arrependi. Ainda hoje me arrependo daquele vexame.
Muito
provavelmente ninguém mais se recorda disso. O tempo passou. Claro, é coisa só minha. Além da saudade que sinto, fico envergonhado ao me lembrar daquela noite. Quando penso
na confusão toda no meio da sala, minha vontade continua sendo de pedir desculpas
a todos os que estiveram naquela festa. Em especial, ainda sinto vontade de pedir desculpas à minha amiga. No final
da festa, depois do bolo, de pé ao lado da vitrola, um tio da aniversariante
veio conversar comigo. Falando baixinho ele me disse para que eu não ficasse
chateado; que um dia eu iria me lembrar com saudade daquela noite. Percebendo
naquele momento o meu desconsolo pelo vexame que eu havia dado, ele pacientemente virou o disco, colocou
a mão no meu ombro e me falou olhando para o infinito: - “Um
dia você e ela vão sentir vontade de dançar juntinhos sem que ninguém os incomode..." E, com a
sala vazia, pôs para tocar “Cara Felicita” - Lado “B” do disco do “Django”.
Petula Clark - "Cara Felicità" (Chaplin/Bertini) - do filme "A condessa de Hong Kong"
[2]
“Django”, de Luis Bacalov – Roberto Fia (ver. Italiano)
[3] Compacto – disco em vinil, em geral com duas
músicas: uma de cada lado [4] “Cara felicita” - tema do filme “A Condessa de Hong Kong” (dir.
Charlie Chaplin, 1967)