segunda-feira, 28 de maio de 2012

LONDON LONDON


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 Caetano Veloso - "London London"


     Em 1969 Caetano Veloso partiu para Londres em exílio forçado. Ali viveu praticamente confinado em um apartamento por pouco mais de dois anos. Quase não saía de casa. Sua alma de artista e, certamente, a sensação de “rejeitado” por seu país, deu-lhe, contudo, a sensibilidade para perceber naquele período diferenças simples e significativas. No trecho abaixo da canção “London London” (do próprio Caetano), ele mesmo canta a aparente felicidade que observou em um policial londrino por poder ajudar um grupo de pessoas que dele se aproximou.

"A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them"*

     Aqui no Brasil, naquela época, um grupo de pessoas reunido poderia significar, para um policial, tentativa de rebelião a ser vigorosamente reprimida.

     Mas eu não estive em Londres nessa época; nem cheguei ali na condição de exilado. Pus os olhos, o coração e os pés naquela cidade na condição de convidado. E fui, por dois dias, como líder de um grupo de estudos do Rotary, amparado pelo maior carinho em todos os meus passos.

     Do Hotel Tavistock, onde estávamos hospedados, passando por “China Town”, caminhamos até “Trafalgar Square” em nossa primeira noite londrina.

("Hotel Tavistock" - Londres - arq. pessoal)

(China Town, Londres - arq. pessoal)


(Trafalgar Square - Londres - fonte attractionsinlondon.org)


     Em virtude da instalação de painéis para os jogos olímpicos deste ano, as luzes da praça estavam apagadas. Sentei-me em um banco da praça com a “National Gallery” às minhas costas e, pela primeira vez, avistei ao longe as luzes do “Big Ben”.


("Com a National Gallery às minhas costas" - Londres, setembro 2011 - arq. pessoal)

("Avistei, pela primeira vez, as luzes do Big Ben - Praça Trafalgar, Londres - arq. pessoal)
     Vendo à minha frente, na “Coluna de Nelson”, a representação de um mastro com velas arriadas, por um instante tive a sensação de estar viajando em uma caravela britânica do século XIX: não lutando na batalha que dá nome à praça (Trafalgar); mas, tal como ocorreu com os navegantes portugueses em 1500, avistando um novo continente, um novo universo de pessoas, histórias e lugares a serem descobertos.
"Nelson's Column" - Coluna de Nelson - praça Trafalgar - Londres - fonte geograph.org.uk

Estátua do Almirante Nelson, no topo da "Coluna de Nelson", na Praça Trafalgar
fonte victorianweb.org

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*A group approaches a policeman, he seems so pleased to please them - (trad) Um grupo se aproxima de um policial, ele parece muito contente por poder ajudá-los.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

UTOPIA


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(Saint-Saens: The Swan Carnival of the animals 
https://www.youtube.com/watch?v=b44-5M4e9nI) 


E se no mundo existe algum paraíso terrestre,
sem dúvida não deve estar muito longe destes lugares.
(Vespúcio – “Mundus Novus”)

     Quando alguém fala em “UTOPIA” logo imaginamos algo inatingível. O Antônio Houaiss, no dicionário por ele organizado, diz que “utopia” consiste em uma “sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade” (1).

     Tudo isso porque a palavra UTOPIA, com registro histórico de 1671 (1), formada por radicais gregos, significa “não-lugar”, ou “lugar que não existe”. E ficamos convencidos de que um lugar assim, utópico, é impossível de existir.

     Mas a Utopia já existiu – e era aqui!(2)

     UTOPIA é um termo que foi inventado por Thomas Morus para dar título a uma de suas obras escritas por volta de 1516. Nela Morus descreve um lugar onde a sociedade é organizada racionalmente, com propriedade comum dos bens, onde os habitantes vivem em casas iguais, auxiliando-se mutuamente, em paz total e harmonia de interesses.

     Se pensarmos bem, um pouco antes de 1516, a América havia sido “descoberta” e corria na Europa a notícia propagada por Américo Vespúcio de ter sido encontrado um lugar arborizado, frutífero, passarinhado, cheiroso e colorido - que só podia ser mesmo o Éden (2).

     Cristóvão Colombo também, em suas narrativas, pela beleza inocente que havia visto por aqui, acreditava ter encontrado o Paraíso Perdido (2).

     Thomas Morus, inglês, um homem diferenciado para o seu tempo, advogado, diplomata, escritor e um dos grandes humanistas do renascimento, ficou encantado com os relatos e as notícias propagadas por Vespúcio e Colombo a respeito daquele lugar.



(Estátua de Thomas Morus em frente ao Chelsea Old Church - Londres - fonte: rememberingtheexecuted.wordpress.co)


     No entanto, na Europa corria a notícia de que viviam lá uns seres que não sabiam se eram uma humanidade ou uma bicharada; que viviam desnudos - apesar de inocentes e sem maldade... Os Europeus, barbudos e armados, empetecados em suas vestes, mergulhados em crenças de pecados e punições, duvidavam até que aqueles seres tinham alma!

     Assim, a se considerar que UTOPIA foi escrito em 1516, este só pode ter sido escrito sob a crença de Morus de que o paraíso havia sido encontrado. E esse lugar era aqui!

     Depois disso vieram os “sábios” demonstrando que os índios que aqui viviam estavam mergulhados no pecado. E deu no que deu: tiraram os índios da sua inocência para desindianizá-los (2) e inseri-los nas ideias de crime e castigo.

     Quanto a Morus, por não concordar com os termos de um Decreto que era de interesse exclusivo do rei da Inglaterra (Henrique VIII)(3), foi preso e morreu decapitado na Torre de Londres. Depois foi canonizado e virou santo da Igreja católica.

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(1) – conforme dicionário Houaiss
(2) – conforme menciona Darcy Ribeiro em “A América Latina Existe?” – da coleção “Darcy no Bolso” – Editora UnB
(3) - fundação do anglicanismo e não aceitação da coroação de Ana Bolena, uma das esposas de Henrique VIII

sexta-feira, 4 de maio de 2012

ADIÓS MUCHACHOS


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"Adiós Muchachos", de Vedani/Sanderes - Louis Armstrong - Stuttgart, 1959 - fonte youtube


     "Adiós Muchachos" é um tango argentino, com letra de César Felipe Vedani e música de Julio César Alberto Sanders. Esse tango fala de morte, de alguém que, doente, deixando a vida, despede-se de seus amigos. É um sofrimento danado - como é próprio do gênero.

     Quem primeiro o gravou foi Agustin Magaldi, em 1927*; no ano seguinte foi a vez de Carlos Gardel fazê-lo. Quase noventa anos já se passaram desde sua primeira gravação, e ainda hoje muitos artistas o interpretam e gravam.

     Eu não conhecia, até há pouco, a gravação que dele fez o Louis Armstrong. Pois foi justamente ouvindo e assistindo essa gravação que reforcei minha consideração pela universalidade da música, no sentido de integrar povos, costumes e tradições, irmanando e aproximando os homens. Por intermédio da música estendemos os braços, nos abraçamos, nos damos as mãos, cantamos, sorrimos e dançamos fraternalmente - independente de nacionalidade ou fronteira.

     Pois vejam só que "tempero": o grande Louis Armstrong, artista norte-americano de origens africanas, interpretando em um clube de Stuttgart, na Alemanha, em ritmo de jazz, um tango argentino!

     Só nos resta então ouvirmos a música, aumentarmos o som do vídeo, e, com o coração brasileiro, rendermos graças ao grande "Satchmo"**. 


While he is most associated with New Orleans, Louis Armstrong left the city when he was 24 and made his way up to Chicago.
Louis Armstrong
https://www.theguardian.com/music/2016/mar/01/map-of-chicago-music-scene-louis-armstrong-nat-king-cole-kanye-west



Adiós Muchachos

Adios muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.
Adios muchachos, ya me voy y me resigno
Contra el destino nadie la talla
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más

Acuden a mi mente
Recuerdos de otros tiempos,
De los bellos momentos
Que antaño disfrute,
Cerquita de mi madre,
Santa viejita,
Y de mi noviecita
Que tanto idolatre

Se acuerdan que era hermosa,
Mas linda que una diosa
Y que, ebrio yo de amor,
Le di mi corazón?
Mas el señor, celoso
De sus encantos,
Hundiendome en el llanto,
Me la llevo

Es dios el juez supremo.
No hay quien se le resista.
Ya estoy acostumbrado
Su ley a respetar,
Pues mi vida deshizo
Con sus mandatos
Al robarme a mi madre
Y a mi novia también

Dos lagrimas sinceras
Derramo en mi partida
Por la barra querida
Que nunca me olvido.
Y al darle, mis amigos,
El adiós postrero,
Les doy con toda mi alma,
Mi bendición

Adios muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada
Adios muchachos, ya me voy y me resigno
Contra el destino nadie la talla
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más
Adeus Rapazes

Adeus rapazes, companheiros de minha vida,
turma querida daqueles tempos.
Cabe a mim hoje empreender a retirada,
devo afastar-me de minha boa rapaziada,
Adeus rapazes, já me vou e me resigno.
Contra o destino ninguém argumenta.
Acabaram para mim todas as farras,
meu corpo enfermo não resiste mais.

Voltam a minha mente,
lembranças de outros tempos,
de belos momentos,
que então eu desfrutei,
juntinho de minha mãe,
minha santa velhinha,
e de minha noivinha
que tanto idolatrei.

Lembram que era formosa,
mais bela que uma deusa
e que, ébrio de amor,
lhe dei meu coração?
Porém o Senhor, ciumento
de seus encantos,
cobrindo-me de pranto,
a levou.

É Deus o juiz supremo.
Não há quem se lhe oponha.
Já estou acostumado
a respeitar sua lei,
pois minha vida se desfez
com seus mandatos
ao levar minha mãe
e minha noiva também.

Duas lágrimas sinceras
derramo em minha partida
pela turma querida
que nunca me esqueceu.
E ao dar-lhes, meus amigos,
o último adeus,
lhes dou com toda minha alma,
minha bênção.

Adeus rapazes, companheiros de minha vida,
turma querida daqueles tempos.
Cabe a mim hoje empreender a retirada,
devo afastar-me de minha boa rapaziada,
Adeus rapazes, já me vou e me resigno.
Contra o destino ninguém argumenta.
Acabaram para mim todas as farras,
meu corpo enfermo não resiste mais.

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*conforme conta Héctor Ángel Benedetti, em “Las mejores letras de Tango”, 1ª Ed. – Buenos Aires: Booket, 2003
**Satchmo - apelido de Louis Armstrong. Vem de "Sack Mouth", ou "Satchel Mouth", que significam "boca de saco", ou  "boca de mochila".


quinta-feira, 26 de abril de 2012

DJANGO E A CONDESSA DE HONG KONG


Django
https://www.youtube.com/watch?v=Bz7VrgkgMMA

     No ano de 1967 foi exibido no único cinema de Guará um filme que marcou época. Um baita faroeste: "Django" [1]. O filme trazia a história de um homem que queria vingar a morte de sua amada. Na expectativa de encontrar os assassinos para cumprir o seu propósito, ele vagava pelos vilarejos arrastando um caixão, dentro do qual – isso só se descobre no final - carregava uma metralhadora. Para os meninos da minha idade de então o bom era ver o tiroteio na tela. De bom também havia a música-tema do filme [2], que combinava perfeitamente com a ideia de vingança.
     Eu e meus amigos gostávamos de nos reunir nos intervalos das aulas do ginásio ou a qualquer tempo nos bancos da praça, para comentar as cenas do filme e falar da música-tema. Nas festas de aniversário daquele ano e nas rodinhas de amigos o assunto era um só: “Django”.
    Em uma dessas festas alguém apareceu com um compacto [3] da música-tema gravada em italiano na voz de Roberto Fia. A partir daí só dava “Django” na vitrola. Quando os convidados começaram a abrir espaço na sala para poderem dançar, a expectativa era uma só: “quem vai dançar com quem?” O simples fato de dançar com alguém naquela época já significava a existência de algum compromisso amoroso, que serviria de tema para outras rodas de conversa.
     Formados os pares no meio da sala, eu, tímido, me encolhi em um canto. Em um determinado momento fechou-se uma roda ao meu redor , na tentativa de me arrastarem para a dança. Ao mesmo tempo vi que um grupo de meninas formava uma outra roda em torno de uma de minhas amigas, na tentativa de que conseguissem fazer com que eu e ela dançássemos juntos. E foi uma confusão danada ao som dos tiros gravados em "Django" no vinil.

    Deu que resisti. Deu que ela resistiu. Não dançamos juntos.

    Me arrependi. Ainda hoje me arrependo daquele vexame.

    Muito provavelmente ninguém mais se recorda disso. O tempo passou. Claro, é coisa só minha. Além da saudade que sinto, fico envergonhado ao me lembrar daquela noite. Quando penso na confusão toda no meio da sala, minha vontade continua sendo de pedir desculpas a todos os que estiveram naquela festa. Em especial, ainda sinto vontade de pedir desculpas à minha amiga.

     No final da festa, depois do bolo, de pé ao lado da vitrola, um tio da aniversariante veio conversar comigo. Falando baixinho ele me disse para que eu não ficasse chateado; que um dia eu iria me lembrar com saudade daquela noite.

     Percebendo naquele momento o meu desconsolo pelo vexame que eu havia dado, ele pacientemente virou o disco, colocou a mão no meu ombro e me falou olhando para o infinito:

     - “Um dia você e ela vão sentir vontade de dançar juntinhos sem que ninguém os incomode..."

     E, com a sala vazia, pôs para tocar “Cara Felicita” - Lado “B” do disco do “Django”.

Petula Clark - "Cara Felicità" (Chaplin/Bertini) - do filme "A condessa de Hong Kong"
https://www.youtube.com/watch?v=L-GdXnj6D2Y&list=RDL-GdXnj6D2Y&start_radio=1 

___________________________
[1] “Django” – ITA/ESP, 1966. Dir.: Sergio Corbucci
[2] “Django”, de Luis Bacalov – Roberto Fia (ver. Italiano)
[3] Compacto – disco em vinil, em geral com duas músicas: uma de cada lado
[4] “Cara felicita” -  tema do filme “A Condessa de Hong Kong” (dir. Charlie Chaplin, 1967) 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

UMA TURMA LEGAL - "N'est ce pas ?"

Passeando pelo Facebook vejo fotos antigas postadas pelo meu amigo Luis Fernando - o “Rando”. Ao ver as fotos e, nelas retratadas, grandes amigos de uma vida toda, lembrei-me de um poema sobre fotos antigas que li em um livro de Francês (referência abaixo). Transcrevi aqui no blog a versão desse poema no texto “Três mangas e dois álbuns de fotos”, postado há mais de um ano. Republico hoje o mesmo poema com o texto em francês, conforme está no livro.
Relendo o poema homenageio o Prof. Sebastião, minhas primeiras aulas de Francês com ele no “Rondon”, e uma turma muito legal eternizada na foto abaixo. Afinal, uma foto aprisionada em um álbum não serve p’rá nada. É puro egoísmo de quem o faz. O verdadeiro sentido da materialização da imagem é o de poder revê-la, sentir vontade de compartilhá-la e, efetivamente, compartilhar. Eis aqui, então, “a turma bem legal”. Lembro-me de todos! - e abraço cada um com o mesmo carinho de sempre.
 ("Festa de Aniversário" - arq. pessoal)
Bien coiffés, bien vêtus,
Ils regardaient droit devant eux,
Conscients de poser pour l’éternité...
...Un instant leurs rêves s’arrêtaient,
Se fixaient, sur le mystère d’un appareil

Et sur l’homme-magicien.

Puis ils s’échappaient, s’envolaient

À nouveau vers cet avenir dont um jour

Il ne resterait que cet instant arrêté,

Cette photo jaunie...
(texto extraído do Livro “Archipel – Française Langue Étrangère – Livre 2” Helène Gauvenet et Marc Argaud – a tradução deste texto está em “Três mangas e dois álbuns de fotos”. Para lê-la, é só clicar:  http://eliasguara.blogspot.com.br/2011/02/tres-mangas-e-dois-albuns-de-fotos.html

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O BANCO DE TRÁS DO MEU CARRO





(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("C'est la vie" - Emerson, Lake & Palmer)

"C'est la vie"
Pelo retrovisor do meu carro vejo o mundo que vai passando: árvores, casas, semáforos, motocicletas... coisas e pessoas que vão ficando para trás, perdendo-se no tempo, encontrando morada no meu coração.
("Olhando pelo retrovisor" - 04abr2012 - arq. pessoal) 

Houve um tempo em que eu olhava pelo retrovisor para seguir em frente, e apenas cuidava para que os veículos pudessem se aproximar com segurança.

Depois meus olhos passaram a ser exclusivos para o banco de passageiro.

Mais tarde nossos olhares passaram a olhar pelo retrovisor... Riamos dos risos, das perguntas e da admiração que vinham das vidas que estavam lá, no banco de trás do meu carro.

("No banco de trás" - nov1991 - arq. pessoal)

No banco de trás o futuro um dia ia chegar: festas, amigos, bicicleta, intercâmbio de estudos, universidade, carro... um mundo novo pulsando forte.

Paro o carro.

Olho pelo retrovisor sem me atentar para os veículos que se aproximam. No banco de trás viaja o que, materialmente, ali está: uma caixa velha de papelão, um chapéu Panamá que ganhei em um Natal, uma garrafa de plástico vazia, e um jornal que trás notícias pelas quais não me interesso.

“Dou seta” e, sorrindo feliz pelo futuro que chegou, reinicio o movimento do carro.

Com o futuro presente, cheio de alegrias, tropeços e descobertas que viviam contidas nas expectativas daquilo que poderia brotar do banco de trás do meu carro, sigo em frente... e carrego no meu coração três sorrisos carinhosos e gostosos que estão sempre comigo, que me dão alento, e que estão nos bancos de passageiro e de trás do meu carro.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

LEMBRANDO MOMS MABLEY (1894/1975)


CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR O VIDEO ANTES DE LER O TEXTO
Martin Luther King Jr. - "I have a dream" - Washington, 28/08/1963
https://www.youtube.com/watch?v=fz_7luovxPc&t=25s

     Acabo de ler uma mensagem lembrando o aniversário da morte do ativista político negro norte-americano Martin Luther King (15/01/1929 - 04/04/1968). De uma manifestação sua, conhecidíssima, na qual expressou seus sonhos de igualdade nos direitos civis – “I have a dream” – foram inspirados os lemas da campanha política do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Essa lembrança me remete de imediato a Moms Mabley (nascida Loretta Mary Aiken), comediante e cantora negra também norte-americana.


moms
Moms Mabley
fonte: http://weird-sister.com/2015/02/23/3-pieces-of-feminist-advice-from-jackie-moms-mabley/

     Pouco conheci ou li a respeito de Mams Mabley. Contudo, uma das gravações que ela fez me acompanha desde o seu lançamento, em 1969, até os dias de hoje: “Abraham, Martin and John”, composta por Dick Holler. Quando converso com meu amigo Abrahão, ao telefone, forjando um forte sotaque norte-americano, exclamo de imediato: “Abraham!” – e ele sabe que me refiro a Moms Mabley. Nessa música o autor homenageia três grandes líderes norte-americanos - todos eles assassinados: Abraham Lincoln, Martin Luther King, e John Kennedy – e ainda faz referência a Bob Kennedy. Moms Mabley era, especialmente, comediante. Se relacionarmos a luta dos negros pelos direitos civis, nos Estados Unidos, com a voz negra e trêmula da MM, podemos compreender a distância emocional existente entre o riso da MM comediante, e a sensação de desamparo transmitida no canto da MM negra... que sentia a perda de três defensores dos direitos civis, dos negros, nos Estados Unidos...

CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
("Abraham, Martin and John" - Moms Mabley, 1969)

sexta-feira, 30 de março de 2012

"ORFEU NEGRO" E A IGREJA DE ST. PETER


("História da Igreja e de sua construção" - placa na entrada - set2011 - arq. pessoal)

     Das muitas situações que me ocorreram em visita ao norte da Inglaterra, com um grupo de estudos do Rotary International, uma delas me surpreendeu e me deixou muito feliz. Foi em Sunderland, cidade localizada na foz do Rio Wear, às margens do Mar do Norte.

("Fawcett Street, Sunderland" - set2011 - arq. pessoal)

("Uma rua em Sunderland"- set2011 - arq. pessoal)

     Em uma manhã de sol fomos conhecer St. Peter’s Church – a igreja de São Pedro. Construída no ano de 674 d.c. (século VII), essa igreja, em vias de ser reconhecida como patrimônio da humanidade, tem uma das primeiras estruturas construídas em pedra, com a torre e as paredes ilustrando o modo saxônico de construir daquela época.
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("Placa para visitantes na lateral da igreja" - 29set11 - arq. pessoal)

     Fomos recepcionados por um senhor bastante idoso, voluntário indicado pela igreja. David era o seu nome. Estudioso dos detalhes daquela construção, ouvimos dele todas as explicações a respeito das paredes, das pedras, dos murais, dos altares, enfim, de tudo o que o homem transformou do nada em algo representativo e simbólico. Fiquei encantado por estar tendo o privilégio de fazer aquela visita, na condição de convidado especial.

("Visita à St. Peter's Church" - 29set11 - arq. pessoal)

     Ao final, ainda conversando a respeito do que representa, em termos de patrimônio histórico uma construção como aquela, repleta de símbolos, fui presenteado pelo David com um pequeno livro - por ele mesmo escrito - no qual “desvenda” os segredos daquela igreja.

     Naquela noite, tínhamos o compromisso de fazer uma visita ao Rotary Club de Sunburn. Ali, além de nos apresentarmos oficialmente como hóspedes daquele Distrito rotário, deveríamos também apresentar o Brasil. Na reunião do clube, dentre os rotarianos e convidados, estava o David.

     Por natureza, gosto muito de ler, conversar, ouvir e falar a respeito de tudo que seja atinente ao Brasil – em especial estando no exterior. E naquela confraternização, amistosamente rotariana, depois de apresentarmos o nosso país, muitas foram as perguntas que nos foram feitas. Toda atenção estava voltada para as nossas respostas.

     Envolto em emoção, ao final, orgulhoso de mim mesmo por ter tido a honra de poder falar sobre o meu país, percebi o David ao meu lado querendo ouvir mais e, reservadamente, querendo perguntar mais. Surpreendi-me, então, ao ouvi-lo me pedir: “Elias, adorei o Brasil, adoro o Brasil... Apaixonei-me pelo seu país desde que assisti ‘Orfeu Negro’(*), há muitos anos. Quero ouvir você me falar mais: fale-me de ‘Orfeu Negro’!"

     Eu, apaixonado que sou por tudo que tenha alguma ligação com o Vinícius de Moraes, reacendi meu entusiasmo. Fiquei surpreso e feliz ao ouvir de alguém, em um país encantador, às margens do Mar do Norte, na distância de 52 anos entre aquela noite e o lançamento do filme, interessar-se em ouvir comentários brasileiros a respeito daquilo que, da nossa cultura, é mostrado no filme.

     Puxei uma cadeira para mim e outra para o David. Durante um bom tempo ficamos conversando sobre o filme e tudo o que ele representava e ainda representa. Foi um momento memorável. Por fim, com um abraço, eu e o David nos despedimos sem termos que dizer “good bye”: instintivamente cantamos juntos a versão, em inglês, da música-tema do filme: “Manhã de Carnaval”(**).


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR "Manhã de Carnaval"
JOHNNY MATHIS e AGOSTINHO DOS SANTOS
"Manhã de Carnaval", do filme Orfeu Negro- voz: Agostinho dos Santos e Johnny Mathis
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(*) “ORFEU NEGRO” – filme ítalo-franco-brasileiro, 1959. Oscar de melhor filme estrangeiro, 1960. Dirigido por Marcel Camus. Adaptado por Camus e Viot a partir da peça teatral ‘Orfeu da Conceição’, de Vinícius de Moraes.
(**) “MANHÃ DE CARNAVAL”, (1959 - de Luiz Bonfá e Antônio Maria)