sexta-feira, 6 de maio de 2011

BEIJO DE SAUDADE


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 (Mariza e Tito Paris - "Beijo de Saudade", de B.Leza)


     Aquele que deixa sua terra natal depois de lá ter vivido a fase mais doce e verde da vida carrega consigo as marcas desse lugar. Seja lá para onde for, não há quem apague os encantos que ficam estocados no peito de quem parte.

     Há, no entanto, canais, elos – físicos ou não -, que ligam o local de onde se partiu ao local onde se está. Seja uma estrada de rodagem, estrada de ferro, um rio, um terminal rodoviário ou um aeroporto - mesmo se não houver nada disso - o desejo de que o vínculo se mantenha faz com que se procure identificar - ou criar - algum.

     Há uma música que fala bastante sobre isso: "BEIJO DE SAUDADE". Foi gravada no disco "Terra", de 2006, da Mariza, onde ela a interpreta com Tito Paris*.

     Essa música fala de alguém que, desejando de qualquer forma descobrir uma ligação entre Lisboa e Cabo Verde**, encontrou-a no Rio Tejo***. Pois são justamente as águas do Rio Tejo que o autor esforça-se por beijar. Ele, padecendo de saudades, deseja beijar as águas do Tejo para que elas, desaguando no mar, levem o seu beijo até sua terra natal.

     Assim, no primeiro trecho da letra, o pedido ao Rio Tejo:

“Ondas sagradas do Tejo, deixa-me beijar as tuas águas. Deixa-me dar-te um beijo, um beijo de mágoa, um beijo de saudade. Para levar ao mar, e o mar, à minha terra.”

     Nas estrofes seguintes, o mesmo pedido em crioulo cabo-verdiano, (língua não oficial de Cabo Verde) reforçando as raízes de quem de lá saiu, como que a dizer que foi embora, mas que guardou dentro de si tudo o que sua terra lhe ensinou.

     Há um lirismo apaixonado nessa figura do beijo que se quer ver transportado pelas águas, fazendo mais doída e desesperada ainda a saudade quando nos damos conta da pequena probabilidade daquele beijo, jogado pelo Tejo na imensidão do Oceano, vir a aportar em Cabo Verde. Imagino quantos sentiram e sentem uma saudade assim. Penso naqueles que estiveram exilados do Brasil em um tempo de triste memória. Lembro-me também do Vinícius de Moraes na letra do fado “Saudades do Brasil em Portugal”, onde ele encontra no mar a ligação afetiva entre Brasil e Portugal para amenizar suas saudades:
“O sal das minhas lágrimas de amor criou o mar que existe entre nós dois a nos unir e separar...”
     Há muitos anos um adolescente amigo meu deixou sua terra, sua cidadezinha de interior - que é também a minha – e foi para uma grande capital ganhar a vida jogando futebol. Ficou por lá. Muitos anos depois, contou-me: adolescente, sofrendo de vontade de voltar, tendo que ficar em função de seus compromissos, mas sentindo muita saudade de tudo o que havia deixado para trás, nas horas de desespero ia sozinho para a estação rodoviária daquela cidade grande... e lá ficava sentado por horas inteiras, olhando as pessoas, os ônibus que chegavam e que partiam, na esperança de ver passar alguém de sua terra, que seria a ligação ao seu mundo de menino, então distante, que havia ficado para trás...

(fonte: http://futebolalemao.ig.com.br/index.php/2010/10/04/imagens-do-dia-o-isolamento-de-podolski/)

RP, 05mai2011
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Obs.: A Mariza, que canta "Beijo de Saudade" com o Tito Paris, é Moçambicana. Porisso também tem motivos para querer beijar o Tejo...

*TITO PARIS - Nascido em Cabo Verde, aos 19 anos de idade emigrou para Portugal.
**CABO VERDE é um arquipélago formado por dez ilhas no Oceano Atlântico. Está situado na mesma linha da América Central, porém mais próximo da África. Foi colônia de Portugal.
***O RIO TEJO nasce na Espanha, corta metade desse país, cruza Portugal inteiro, e deságua no mar. Nesse percurso, passa por cidades espanholas como Toledo e Aranjuez antes de adentrar Portugal. Ali, passa por Santarém, Alcochete e outras mais antes de chegar a Lisboa, e desaguar no mar.


terça-feira, 3 de maio de 2011

ENTRE LIVROS E GOIABAS


“A man needs a little madness, or else he never dares to cut the rope and be free.”*
(Nikos Kazantzakis, in “Zorba, the Greek”)



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 (Zorba's dance- trecho do filme Zorba o Grego - 1964)

     Delimitando meu espaço há paredes que me separam de outras pessoas as quais, como eu, também passam seus dias enclausuradas neste edifício. Olho ao meu redor e vejo estantes que comportam livros, que por sua vez armazenam ideias potenciais e ociosas. Do segundo andar me levanto para fechar a persiana para apagar o sol que me incomoda. Antes, observo um menino sem camisa, do outro lado da vidraça, aparentando uns quinze anos de vida, conduzindo um carrinho carregado de frutas. Goiabas. Uma senhora vai até ele. Depois de uma pequena conversa ela escolhe algumas goiabas no carrinho e, carregando uma sacolinha, despede-se dele, ambos com um sorriso no rosto. Cada qual segue seu rumo.

     Os automóveis passam apressados, outros meninos passam pedalando suas bicicletas. Eu, indiferente, fecho a persiana e volto à minha poltrona... mas começo a pensar nas pequenas trocas que suscitam vida. O pequeno diálogo do menino com aquela senhora, que simplesmente observei, faz com que eu involuntariamente troque a indiferença por alguma lucidez adormecida teimando em se mostrar. E me pergunto: “onde a vida pulsa com maior intensidade? No universo de mentes adormecidas dependuradas nas estantes, ou no calor do sol, nos pequenos diálogos reais cotidianos?” 

     Essas perguntas me trazem de volta o personagem de Anthony Quinn em “Zorba, o Grego”[i]. No filme, em vias de tomar um navio com destino a Creta, um tímido e acanhado escritor inglês depara-se com Zorba - um camponês grego, rústico e tosco. O escritor leva uma enorme caixa de livros onde estão contidos todos os valores e estímulos de sua vida. O camponês, sem bagagem alguma, pede para acompanhá-lo na viagem na condição de mão-de-obra faz-de-tudo. Ambos iniciam aí suas trocas. O camponês nutre um enorme gosto pela vida, fala alto, sorri, dança, se atira; o escritor, circunspecto, convivendo com o camponês vai se movendo nessas trocas, de mero expectador a um novo participante da vida e do mundo.
("Cena do filme 'Zorba, o greto' - fonte: http://changeisaconstantnow.blogspot.com.br/2011/12/zorba-greek-lived-full-catastrophe.html)

     Há nesses pensamentos uma pequena avaliação do significado do simples rompimento inexorável e potencial de cada hora, em contraposição à lenta fruição tangível de cada minuto em ligação efetiva com a vida.

     Há os que entendem que aqueles excessivamente dogmáticos não se sentiriam confortáveis em tomar conhecimento dessa história (do livro ou do filme). Há os que dizem que essa história transforma... Em relação ao questionamento em relação à vida e a maneira de vivê-la, trazidos pelo filme, Sêneca² ponderou: "Pequena é a parte da vida que vivemos; pois todo o restante não é vida, mas tempo."

     Pensando na advertência do Sêneca, fico com as perguntas: “quem é o escritor?”, “quem conhece e tem maior experiência de vida para falar a respeito dela?” 

     Fecho de vez por hoje a porta do meu escritório e vou, trocando passos pela calçada, tomar um café no posto de gasolina.


(ANTHONY QUINN, MUITOS ANOS DEPOIS DE "ZORBA...",
NOS DÁ LIÇÕES VIDA NO REENCONTRO COM
O COMPOSITOR DA TRILHA SONORA DO FILME:
CLIQUE NA SETA E SABOREIE)
(Anthony Quinn and Mikis Theodorakis - compositor da trilha sonora de "Zorba o Grego" -  Munique - 2000)
https://www.youtube.com/watch?v=AetQZxuXchg
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*"Um homem necessita de um pouco de loucura;
de outra forma, ele nunca vai ousar cortar as amarras e tornar-se livre"

[i] “Zorba, o Grego” – filme – 1964 – Dir. Michael Cacoyannes (baseado no livro de Nikos Kazantzakis)
2 - Sêneca - célebre intelectual e escritor da época do Império Romano

sábado, 30 de abril de 2011

BRINCANDO COM FANTASMAS



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(The Sandpipers - "Softly as I leave you")

O Frank Sinatra viveu 83 anos. No dia seguinte à sua morte, especificamente pensando em tudo o que ele fez e o que ele representava para a música e para o cinema, acessei sua página principal na internet para ler um pouco mais a respeito de sua história. Naquele dia seu site oficial estava fechado, todo em preto, somente com seu nome e as datas de seu nascimento (12/12/1915) e de sua morte (14/5/1998) escritas em branco.

Nada podia ser lido ali. Ouvia-se somente uma música cantada por ele, e que falava de alguém que partia suavemente, em momento oportuno, justamente para não fazer sofrer alguém que ficava. O autor dizia, na letra, que seria insuportável para ele ver sofrer alguém de quem gostava tanto. 

Lendo outro dia a respeito do Elvis Presley, vi que ele contou como essa música foi feita*. Segundo ele havia um homem que morava na Flórida (EUA) e que estava muito doente em uma cama de hospital. Sua esposa, que permanecera sentada ao seu lado o tempo todo por três dias e três noites, na madrugada do terceiro dia adormeceu e deitou-se ao seu lado. Percebendo que a esposa havia adormecido, e não querendo fazê-la sofrer ao vê-lo partir, o homem, antes de morrer, pegou um caderno e uma caneta ao lado da cama e escreveu a letra de SOFTLY AS I LEAVE YOU: 


(Fonte: http://templateseacessorios.blogspot.com.br/2011/08/twitter-com-o-passarinho-que-voa-no.html)


Softly as I leave you
(Hal Shaper, Antonio Devita, Giorgio Calabrese)

Softly, I will leave you softly
For my heart would break
If you should wake and see me go

So I leave you softly
Long before you miss me
Long before your arms
Can beg me stay
For one more hour or one more day

After all the years
I can’t bear the tears to fall
So, softly as I leave you there

Softly, long before you kiss me
Long before your arms
Can beg me stay
For one more hour or one more day

After all the years
I can’t bear the tears to fall
So, softly as I leave you there
As I leave you there
As I leave you there
Suavemente, enquanto vou partindo



Suavemente, vou deixá-la suavemente
Pois meu coração iria se despedaçar
Se você acordasse e me visse partir

Então eu te deixo com suavidade,
Muito antes de você sentir minha falta
Muito antes que seus braços
Possam implorar que eu fique
Por mais uma hora ou mais um dia

Depois de todos os anos
Eu não poderia suportar as lágrimas a cair
Assim, suavemente, conforme eu fosse te deixando

Suavemente, muito antes de você me beijar
Muito antes que seus braços possam implorar que eu fique
Por mais uma hora ou mais um dia
Depois de todos os anos,
Eu não poderia suportar as lágrimas a cair
Assim, suavemente, enquanto eu fosse te deixando
Enquanto eu fosse te deixando
Enquanto eu fosse partindo



Penso agora nessa história e releio alguns textos que escrevi aqui anteriormente. Vejo que tratam do mesmo assunto, que são temas ligados à morte. Como já é tarde da noite e dorme ao meu lado alguém de quem gosto muito, e como não sou bobo nem nada, apresso-me a me levantar, a esticar os braços e a exorcizar esses maus fluidos: encho o copo com muito gelo, duas doses de uísque... e meto os Beatles bem alto prá tocar no aparelho de som - com pedidos antecipados de desculpas aos aqui de casa, e à toda a vizinhança.


*No link https://www.youtube.com/watch?v=7JlgbzNs8Dk o Elvis Presley conta como a música foi feita. 

RP, 30abr2011, três da madrugada.

sábado, 23 de abril de 2011

REDESCOBRINDO O BRASIL, REINVENTANDO OS BRASILEIROS



("Desembarque de Cabral em Porto Seguro"
Oscar Pereira da Silva, 1922)



“Esse mundo estava aqui quieto, entregue a si; num feio dia chega um tabelião para dizer: descobri, ‘tá aqui...”
(Darcy Ribeiro)


“Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!”

Assim foi informado o “descobrimento” do Brasil na Carta enviada por Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal, datada de 1º de maio de 1500.

Como todos nós sabemos, ao chegarem os portugueses, eles logo se deram conta de que a terra aqui já era habitada. E o que eles encontraram? Encontraram “uma terra que existia sob o signo da utopia, uma terra sem males”... Encontraram, “uma humanidade indígena; uma humanidade diferente; de gente que agradecia a Deus por o mundo ser tão bonito...” (Darcy Ribeiro[i])

Washington Novaes[ii], no vídeo “O Povo Brasileiro”, comenta a valorização que o índio atribui ao que faz. Ele diz que o índio, desde que nasce, aprende a se relacionar com tudo de formas bonitas; que valorizam tudo, que têm rituais para louvar tudo, que festejam, que dançam, que cantam e riem muito.

Analisando a descrição dos índios que é feita pelo Caminha na “Carta do Descobrimento”, observamos a natureza humana em sua forma mais pura, com índios e portugueses buscando a aproximação amistosa na tentativa de descoberta do “outro”, buscando a possibilidade de um relacionamento amistoso.

Pero Vaz de Caminha assim descreveu os índios:

“Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. (...) A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. (...)”

É da natureza humana observar, comparar, querer compreender. É da compreensão da existência do diferente, com respeito ao que desiguala, que se configura a possibilidade de convivência harmoniosa.

Um contato inicial é em geral difícil, tenso. Mas isso traduz, inclusive, o desejo de se querer agradar, de se querer transmitir uma boa impressão. Percebo no primeiro encontro formal entre índios e portugueses, que aqueles, diante do Capitão português, conforme narrado na “Carta”, não se intimidaram; eles perceberam-se iguais, independente do traje, da tentativa de imponência ou da língua falada. De imediato, ao serem colocados diante do Capitão, os índios observaram um castiçal de prata e o colar de ouro do Capitão e apressaram-se em sinalizar que naquela terra também havia muito ouro e prata.

Que povo, senão com perfil de pureza, de ausência de maldade alguma, levaria a desconhecidos, e logo no primeiro encontro, a informação de tudo o que se poderia encontrar no local em que habitavam? E mais: sem saberem a que vinham os desconhecidos!!

A respeito disso Washington Novaes, no mesmo vídeo “O Povo Brasileiro”, comenta:

“Num grupo indígena, o que um sabe todos podem saber. Ninguém se apropria da informação para transformá-la em poder político ou econômico, prá dominar outras pessoas, prá ganhar dinheiro...”

Assim, entre os índios, parece-me que não havia o temor de que “o outro” pudesse ter a intenção de apropriar-se daquilo que a terra, generosamente, oferecia. Ainda na “Carta”, no final do primeiro encontro formal com os portugueses, os índios, entendendo finda a reunião, simplesmente deitaram-se no chão e adormeceram diante dos portugueses... Adormeceram certamente entendendo que aqueles estranhos eram também gente pacífica e desinteressada; que com eles, em comunhão com a natureza, poderia haver uma coexistência pacífica.

Darcy Ribeiro ainda em “O Povo Brasileiro” observa:

“a herança nobre e profunda que os índios nos legaram é o testemunho de que é possível um povo viver magnificamente integrado à natureza, numa trama secreta de coexistência pacífica e amistosa.”

E ele mesmo, o Darcy Ribeiro, na mesma obra, conclui:

“A coisa mais importante para o brasileiro é inventar o Brasil”.

Também acho. Somos uma jovem nação. Somos a confluência do invasor português com os índios e com os negros africanos. Somos um povo novo que se comporta como uma só gente. Herdamos a pureza dos índios que aqui habitavam antes da chegada dos portugueses. Para inventarmos nosso país temos o dever moral de recuperar a bondade e a confiança no outro que os índios nos ensinaram. Acredito mesmo que podemos caminhar nesse sentido...


("Memorial dos Povos Indígenas", em Brasília, DF - acervo pessoal, Dezembro/2010)


 
Referências:
“A Carta do Descobrimento” – Pero Vaz de Caminha;
“O Povo Brasileiro” – Darcy Ribeiro (livro e vídeo)
(vídeo no youtube:   https://www.youtube.com/watch?v=-zEztOsq6yA 

RP, 22abr2011 


[i] Darcy Ribeiro - antropólogo, escritor e político brasileiro conhecido por seu foco em relação aos índios e à educação no país.
[ii] Washington Luíz Rodrigues Novaes é um jornalista que trata com destaque os temas de meio ambiente e povos indígenas

terça-feira, 19 de abril de 2011

DIDI



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Paulinho da Viola, "Sinal Fechado"- Acústico MTV)

Contemporâneo de colégio,
De bicicleta pelas ruas;
Companheiro de fábrica,
Discreto nos sorrisos,
Humilde nos gestos.

O meu adeus 
A um homem bom,
A um grande amigo:
DIDI MOREIRA.

(Eu e o Didi em evento na AAG, em 2009 - Fonte: Meu arquivo pessoal)


18abr2011


sexta-feira, 15 de abril de 2011

ENGLISH TEA

Querido amigo:

Recebi ontem à noite a noticia de que fui escolhido para representar um D do R em um grupo de estudos na Inglaterra, em setembro. Fiquei emocionado e nem pude dormir direito pensando no quanto isso me honra e dignifica, ao mesmo tempo em que acarreta uma série de compromissos. Recebi abraços, beijos e muito carinho de todos lá de casa. Ficaram muito felizes por mim, e igualmente ansiosos por saberem todos os detalhes dessa viagem programada, dos seus propósitos, datas, atividades e obrigações.

Vindo para o meu trabalho hoje de manhã, já imaginando todo universo de estímulos de conhecimento que uma viagem dessa pode proporcionar, também ansioso por compartilhar minhas expectativas com as pessoas de meu relacionamento, coloquei para ouvir no carro “ENGLISH TEA”, do Paul McCartney, que trata de um costume tradicional no Reino Unido: o chá.

(“English Tea”, Paul McCartney, do disco “Chaos and Creation in the Backyard”, 2005)

Ouvindo essa música e pensando nos nossos amigos, na alegria de poder dar a cada um deles a notícia que havia recebido, dei-me conta de que estava passando em frente ao Hospital SP, meu caminho de todas as manhãs.

Pois foi ali mesmo, no Hospital SP, que conversei com você pela última vez, numa tarde de sábado. Eu tinha ido visitá-lo ao saber que você estava internado lá para tratamentos médicos. Restritas as visitas, sua mãe e sua irmã permitiram que eu fosse te ver por alguns minutos. Ao entrar no quarto você comentava com o outro paciente na cama ao lado um jogo de futebol que estava sendo transmitido pela TV. Vi em você naquele momento o personagem do JACK NICHOLSON no filme “ANTES DE PARTIR” (Dir. Rob Reiner, 2007) que eu havia assistido naquela semana. Você falante, cheio de vida, cheio de gente, cheio de carinho, e o seu colega de quarto ali, simplesmente observando tudo. Conversamos, falamos de festas, da política de nossa cidade, do seu desejo de pular a janela e tomar um chopp... e não tivemos mais tempo para outros assuntos. Quando você percebeu que eu me levantava para ir embora, além de pedir-me para ficar mais um tempo conversando, colocou-me muito além do que sou com todas as palavras de amizade que sempre dedicou a mim – e que dedicava espontaneamente a todas as pessoas a quem queria bem.

Sei que você, que era um guaraense apaixonado pelos temas da nossa terra e pelas pessoas de lá - as quais você conhecia muito melhor do que eu –, iria vibrar comigo ao saber que eu havia sido escolhido para cumprir uma tarefa no exterior. Não somente por ser eu - o seu amigo -, mas por tratar-se de um guaraense, filho da sua terra natal, tão simplezinha, tão amada, a levar o lobo e a ave para além do Atlântico. E eu iria dizer a você do quanto fiquei contente por me julgarem  capacitado a tão nobre função, das minhas expectativas de histórias novas para colher e contar para nossos amigos ao retornar, e dos comentários que iríamos fazer envolvendo música, costumes, tradições e descobertas... e, claro, do sabor da cerveja de lá - além do uísque, of course.

Mas, ainda que não me seja mais possível te encontrar para te falar desses devaneios, você tomou a iniciativa e me surgiu no pensamento logo de manhã, para felicitar-me e abraçar-me, à sua maneira, desejando-me que tudo dê certo nos preparativos e na viagem propriamente dita.

Pela sua visita, e pela honra de ter convivido com você no seu período de vida,  te abraço com saudades... e vou ficando por aqui, a observar...

RP, 14abr2011

(Foto: eu e o Quim - arquivo pessoal)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

COM O JOHN LENNON NO BAR DO JONJOCA

 "Double Fantasy" -capa do disco- John Lennon e Yoko Ono - foto: http://jasobrecht.com/wp-content/uploads/2013/05/doublefantasy.jpg

Tenho amigos a quem dedico consideração e carinho por uma vida inteira. E em momentos especiais essa coisa da amizade fica muito intensa, deixa lembranças que nos acompanham para sempre. É uma soma de afinidades, cumplicidade, admiração, alegrias e tristezas comuns. 
       
     Pois foi no final do ano de 1980. Fui para Guará. As últimas férias da Universidade antes de concluir a graduação. Cheguei ali um tanto entristecido, apesar do entusiasmo por paixões explosivas e imaturas da época.

A notícia do assassinato do John Lennon, em 08 de dezembro daquele ano, significava muito para mim e para meu grupo de amigos. Significava uma perda de “um dos nossos”, uma grande perda. Eu sentia a necessidade de ouvir e de falar disso com todos eles, com todos os meus amigos. À partir dali, do John Lennon, não haveria mais nenhum disco novo, nenhuma música nova, nada inédito... ponto... fim.

Deixei minhas coisas em casa e logo saí. Saí andando sozinho pela calçada, sem rumo certo, num profundo vazio de quem não sabia onde ir. Mas logo um vizinho, a quem cumprimentei no portão de sua casa, contou-me que naqueles dias um contemporâneo meu de ginásio havia montado um barzinho e precisava de algo que fizesse do local um ponto de encontro. Conversei, despedi-me, e continuei andando em frente. Chegando na esquina de casa, olhando para o outro lado da rua, ao lado do cinema, vi esse barzinho, e nele os meus amigos Márcio, Daniel, Manu, Marquinho, Quim, Zé Américo, e muitos outros: os beatlemaniacos da cidade. Todos ali, ao redor de uma mesa, cantando e alegrando o bar do JJ. Lembro-me do quanto fiquei contente ao ver o Manu, de violão nos braços, cumprimentando-me com o olhar, e ao mesmo tempo me dizendo, com o mesmo olhar, que eu me sentasse para podermos cantar juntos. E, por sugestão do Daniel, externamos nossa amizade cantando bem alto “It’s only Love”, dos Beatles (“I get high when I see you go by, my oh my…”). A partir daí muitas horas, muitas músicas, muita cerveja... uma madrugada inteira... Em especial, e pelas circunstâncias da morte recente do John Lennon, tocamos, cantamos e dançamos inúmeras vezes “(Just like) Starting Over”...



(John Lennon - "(Just like) Starting Over")

Nessa noite de tristezas e alegrias reencontramo-nos todos ali, num congraçamento de amizade, de amigos de uma vida toda. Entre abraços, palmas e emoção, na letra e na melodia de cada música, com toda nossa simplicidade, o sentimento era de que estávamos dando uma nova vida a um ídolo que já havia partido... e movimentando o bar do JJ.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

AGOSTINHO DOS SANTOS


Hoje me veio à lembrança um grande cantor. Um cantor e compositor paulistano de voz suave, que surgiu no início dos anos 50 e foi embora muito antes do que deveria. Faleceu em 1973, com 41 anos de idade, em um acidente aéreo nas proximidades do aeroporto de Orly, na França. Ele não era de fazer concessões comerciais e sempre prezou a qualidade de seu repertório. Fez muito sucesso interpretando “Manhã de Carnaval” (de Luiz Bonfá e Antônio Maria) e “A Felicidade” (de Vinícius e Tom), da trilha sonora do filme “Orfeu do Carnaval” (de Marcel Camus, Oscar de melhor filme estrangeiro em 1959). Foi uma das grandes estrelas na apresentação da Bossa Nova no “Carnegie Hall”, em Nova Iorque (USA), em 1962.

De uma poltrona da sala de casa, com os olhos “grudados” nessa apresentação com o Johnny Mathis, pela TV TUPI, vi pela primeira vez o AGOSTINHO DOS SANTOS - que hoje me visita com sua música, com sua belíssima música. 



(Agostinho dos Santos e Johnny Mathis, na TV TUPI, em 1971 - "O amor está no ar")

O AMOR ESTÁ NO AR
(Agostinho dos Santos / Joab Teixeira)


Ninguém esconde o amor

Ninguém proíbe o amor
É só olhar no olhar
Pro amor chegar

O amor está no ar

Em tudo que tocar
É só olhar no olhar
Pro amor chegar

Segredo eu quis te fazer

Quiseste todo amor esconder
Mas, tudo em torno de nós
Cantava sobre a voz

No video abaixo, a Elis Regina comentando a respeito do Agostinho dos Santos...
(Elis Regina no Programa "Ensaio" - TV Cultura, 1973)