quinta-feira, 24 de abril de 2014

ENTRE A HARMONIA DAS ESFERAS E A GEOMETRIA DO CUBO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Sinfonia nº 7 em Lá Maior - Op. 92 - II. Allegretto - Beethoven - Herbert von Karajan)

     José Castello, em "O poeta da paixão"*, conta que Paulo Mendes Campos, um dia, puxou assunto com o Vinícius de Moraes.

     - Pois é, Vinícius, você anda por todos os bares, e se dá bem com todo mundo. Qual é o teu segredo?

     E o Vinícius, sem se atordoar ou mostrar-se envaidecido, assim respondeu:

     -  É por que eu sou um sujeito que tem a harmonia das esferas. (...).

     Depois de ter assistido esse depoimento do Vinícius em um programa antigo da TV Cultura (Ensaio, 1974), e depois de tê-lo lido anos mais tarde no livro do José Castello (1994), fiquei tentando entendê-lo melhor, fazendo minhas análises e comparações.

     De fato, as esferas são harmônicas. Não possuem lados. Elas são lisas, não possuem arestas. Por não possuírem arestas não ferem, não arranham, não se desincompatibilizam. Contudo, justamente por não possuírem arestas ou ângulos retos, rolam de um lado para outro ao sabor de qualquer impulso.

     O cubo, por sua vez, apesar de sua superfície lisa, tem diferentes lados, ângulos retos que formam quinas, que são enormes arestas. Essas arestas podem causar arranhões e ferimentos em quem o toca. Ele - o cubo - não está sujeito a mudanças fáceis e constantes de posição. É necessário que seja superado por uma força forte o suficiente para que altere o seu posicionamento. Porém, aceita as mudanças de lado e consegue repousar... até que uma outra força forte o suficiente provoque uma nova mudança.

     Assim os homens. 

     Os esferas estão em harmonia aparente com todos; contudo, não sustentam posição, não se mostram; os cubos podem ferir, podem arranhar, porém sustentam posicionamentos até que outros, convincentes, o façam mudar de posição até um novo repouso.

     Os esferas, por não conterem arestas, não conseguem se encaixar. Estão sempre a rolar de um lado para outro, harmonizando-se com um aqui, com outro acolá. Mas, pela sua forma, estão impossibilitados de encaixe. O esfera harmônica rola em torno de si, não fere... porém, não constrói.

     Os cubos, por sua vez, e por possuírem as arestas naturais e ângulos retos, conseguem se encaixar perfeitamente em outros cubos, justamente por esses outros cubos também possuírem arestas e ângulos retos. De tal forma que, justapostos a outros cubos - apesar das arestas, e independente do lado em que o encaixe ocorra - formam uma superfície só, uma parede, uma muralha altamente resistente... inclusive aberta a novos encaixes...

     E o próprio poeta, no programa de TV e no livro do José Castello, assim conclui seu raciocínio:

     - Isso [ter a harmonia das esferas] não é uma qualidade, é também um sinal de fraqueza de que não devo me orgulhar muito

     Quanto a mim, vou aprendendo com o tempo que não preciso ter a harmonia das esferas para estar bem comigo mesmo e com todos; que posso ser cubo... e que somente minhas arestas naturais fazem de mim o que sou.  

Link permanente da imagem incorporada
 (Vinícius de Moraes mostrando a língua para o pessimismo. Fonte: http://ac2brasilia.blogspot.com.br/2014_01_26_archive.html). Creio que essa foto foi um momento "cubo" do Vinícius.

* Castello, José. "Vinícius de Moraes - o poeta da Paixão - uma biografia" -. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, pg. 263

terça-feira, 8 de abril de 2014

ROMEU E JULIETA


("Romeu e Julieta" - o instante fatal - fonte: http://danibottrel.blogspot.com.br/2009/11/romeu-e-julieta.html)

     Nosso tempo de criar é finito. Dura o tempo de nossa vida. O tempo de duração daquilo que criamos, entretanto, vai muito além do nosso próprio tempo de existência.

     Quando morre um artista a poesia em nosso universo diminui. O mundo embrutece. É muito ruim pensarmos que de um poeta ou compositor de quem gostamos nada mais de novo aparecerá: nenhuma música nova, nenhum poema novo, nenhum texto, nada... É assim que também me sinto nessas circunstâncias: diminuído.

     Foi assim que me senti quando morreram o Vinícius, o Tom, o John Lennon, o Rubem Braga e tantos outros. Quais seriam, então, as possibilidades de ouvirmos hoje uma música nova do Tom? do John Lennon? De lermos uma poesia inédita do Vinícius? ou descobrirmos uma nova crônica do Rubem Braga? Praticamente nenhuma...

     Mas outro dia ouvi o Toquinho e uma cantora interpretando uma música que eu desconhecia. A melodia trazia algo de medieval, e casava muito bem com a letra. Ao ouvi-la parei tudo o que estava fazendo, e segurei a respiração. Não queria atrapalhar nenhuma nota musical, nenhuma palavra da letra.

     A música falava de alguém que, sabendo de sua finitude, procurava carregar da vida um amor que havia tido. Pedia, então, que não fosse esquecido:

"Não te esqueças de mim
quando um dia eu me for..."

     Pedia que fosse depositada uma flor onde houvesse uma mensagem sua; um epitáfio declarando o seu amor:

"Aqui jaz um amor
que foi lindo demais
Aqui jaz um amor
em paz"

     Atento a essa letra, carregada ao mesmo tempo de sofrimento e lirismo, percebi nela um certo quê de Vinícius de Moraes.

     E continuei a ouvi-la, encantado que estava com a simplicidade poética dos seus versos.

     No final da letra o autor pedia que alguém, depois dele, procurasse um punhal para concluir sua própria vida, e que derramasse seu sangue junto ao dele:

"E no instante fatal,
ao sentires teu fim,
vem deitar o teu sangue
em mim".

     Gelei! Tudo isso me lembrou a história dos suicídios de Romeu e de Julieta, ambos por amor de um pelo outro, tal como contado por William Shakespeare em sua obra literária - e que todos nós conhecemos: o amor e a morte de dois jovens, cujas famílias, Montecchio e Capuleto, viviam em conflito.

     Com essa música na cabeça, fui pesquisar sua autoria. E encontrei o próprio Toquinho contando: que havia feito a música com o Vinícius de Moraes em meados da década de 70; que lembrava-se da melodia e parte da letra, mas que  a composição havia sido perdida e, por isso, nunca gravada. Conta ainda que, um belo dia, uma amiga do Vinícius o procurou para entregar-lhe a letra datilografada e com correções manuscritas pelo próprio Vinícius.

     Depois disso essa música foi então gravada pelo Toquinho, com a participação de Anna Setton, em um disco seu de 2011 chamado "Quem viver verá".

     Conhecendo agora essa história, e confabulando o impossível, ouço a música e fico me perguntando:

     - "Se fossem contemporâneos, ao ouvir uma obra sua sendo assim resumida e musicada, o que o Shakespeare teria dito ao Vinícius?"

     Não tenho a resposta. Só sei que gostei da composição... e da história de seu aparecimento.

(CLIQUE PARA OUVIR)


Romeu e Julieta 
(Toquinho e Vinicius de Moraes)
Não te esqueças de mim
Quando um dia eu me for
Deposita uma flor
Onde disser assim: 
Aqui jaz um amor
Que foi lindo demais
Aqui jaz um amor em paz

E não busques jamais
Repousares enfim
Busca um velho punhal
De ferrugem ruim
E num instante fatal
Ao sentires teu fim
Vem deitar o teu sangue em mim