sábado, 25 de março de 2017

HORIZONTE PERDIDO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(ACOMPANHE A LETRA APÓS A LEITURA)
(Burt Bacharach - "Lost Horizon", de Shawn Phillips,
do filme "Horizonte Perdido" - dir. Charles Jarrott, 1973
https://www.youtube.com/watch?v=E1c9VVzhC3w)


     Abaixo a ditadura, abaixo os militares, abaixo os civis, abaixo a imprensa, abaixo o Legislativo, abaixo o Executivo, abaixo o Judiciário; abaixo os prédios públicos e os privados, abaixo as florestas, abaixo os rios, abaixo os seres vivos e abaixo o ar que respiro. Abaixo nossas histórias! Abaixo tudo e abaixo todos!

     Fora Temer, fora Lula, fora Tiririca, fora Maluf, fora Bolsonaro; fora Trump, fora Putin, fora Hollande, fora o Papa. Fora isso e fora aquilo. Fora todos os artistas, cantores, músicos e escritores; fora todos os homens, e fora também todas as mulheres. Fora tudo e fora todos!

     As doenças, o desânimo, o egoísmo, o ódio, a intolerância, a indiferença, a pobreza, as grosserias, as palavras de teor negativo que fiquem. Não os pomos abaixo. Deixemo-los ficar.

(Fonte - http://www.triada.com.br/cultura/historia/aq180-245-1008-2-misterios-das-civilizacoes-perdidas.html)

     E lá longe, muito longe, para onde forem tudo e todos, isso e aquilo, nesse horizonte perdido sem as doenças, sem o desânimo, sem o egoísmo, sem o ódio, sem a intolerância, sem a indiferença, sem a pobreza, sem as grosserias e sem as palavras de teor negativo, se ainda houver algum espaço, pequeno que seja, também quero estar.

     Fora eu, portanto. Fora tudo que sou e fora tudo que fui! 

     E abaixo este que vos escreve!

quinta-feira, 16 de março de 2017

SOBRE HOMENS E PRÍNCIPES



(Antoun Tannous [1934 - 2003]- foto cedida por Rimon Tannous Elias)



"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana"
(Álvaro de Campos)


     A vida segue seu rumo, passa. Passamos... Apesar de termos os olhos voltados para o futuro, por alguma maravilha da natureza fatos e histórias, bem como pessoas que já se foram, eventualmente ressurgem do passado para visitar nossa mente. Pois lembro-me bem, lembro-me bem... 
  
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (...)"

     São estes os versos iniciais do "Poema em linha reta"*.

     Nele, o poeta diz que as pessoas que conheceu sempre se mostraram vencedoras e superiores; que elas nunca lhe contaram um ato ridículo que tivessem praticado, nunca admitiram que sofreram humilhações, nunca admitiram fraquezas - nunca foram, senão, príncipes: vitoriosos.

     Ao mesmo tempo em que o poeta diz isso ele olha para si mesmo e escancara seus erros, suas vilezas e seus gestos mesquinhos - atos que, humanos que somos, estamos sujeitos a praticar.

     Mesmo sendo naturais e comuns a todos nós, raramente encontramos alguém humano o suficiente que admita suas próprias derrotas, suas vilezas e seus fracassos: o espírito de príncipe e a vaidade impedem homens de se tornarem gente.

     Mas o destino surpreende e ensina; faz com que seres admiráveis, em algum momento, passem por nossas vidas; que, sem que o saibam, com gestos de grandeza, nos dão mostras das qualidades peculiares ao homem de virtudes.

     Pois numa noite, há muitos anos, em um ônibus, viajou ao meu lado um imigrante libanês que eu superficialmente conhecia. Sem temer qualquer julgamento que pudesse ser feito, foi humanamente forte para falar-me de seus tropeços. Com emoção contou-me sua história, suas inseguranças, a vinda para o Brasil em 1956, o medo que o acompanhou, suas escolhas e caminhos percorridos para estabelecer-se no comércio de Guará/SP, seu casamento e a criação de seus cinco filhos: Rimon, Emil, Dolly, Juliano e Flávio - hoje fisioterapeuta, médico, professora, empresário da computação, e engenheiro, respectivamente.


Ficha Consular de qualificação - Antoun Badr Tannous Elias
fonte - https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:33S7-9519-96CL?mode=g&i=137&cc=1932363

     Lembro-me bem. As palavras engasgadas pronunciadas por ele na poltrona daquele ônibus, a recordação de seus fracassos, os amigos que lhe estenderam as mãos, os que dificultaram sua jornada... 


(Sr. Antoun e filha Dolly - foto cedida por Rimon Tannous)

     Ouvi-o durante a viagem toda. Ao final, com orgulho, descreveu-me com altivez de soberano a sua pequena loja que eu já conhecia muito bem: uma única porta de entrada, roupas simples expostas em cabides na parede da rua, e um balcão de madeira: só! Guardo ainda hoje esse exemplo e suas lembranças. Tendo-o visto entrar naquele ônibus na condição de apenas mais um, e tendo observado seu enorme sorriso ao descobrir-me seu companheiro de viagem, cheguei ao meu destino sentindo que viajei ao lado de um homem admirável, enorme e dócil, de fala mansa e honesta, que na vida não foi senão gente - e um grande vencedor: Sr. Antoun Tannous.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR
O POEMA EM LINHA RETA DECLAMADO)
(Osmar Prado - "Poema em linha reta", de Fernando Pessoa)

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*Escrito por Álvaro de Campos - heterônimo do poeta português Fernando Pessoa. 

Poema em linha reta 
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quinta-feira, 9 de março de 2017

SUÍTE DOS PESCADORES


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA
E ASSISTIR LOGO APÓS)
 - introdução e pedido inicial de Vinicius de Moraes -
("Suíte dos Pescadores" - Dorival Caymmi - trecho de filme de Orson Welles. Essa gravação faz parte do CD,  Vinícius e Caimmy no Zum- Zum, acompanhados do Quarteto em Cy e do conjunto do Oscar Castro Neves
https://www.youtube.com/watch?v=3XZ-2iK3SCM)


     Dorival Caymmi foi um cantor e compositor baiano. Suas composições concentravam-se nos costumes e tradições de seu povo. Procurando mostrar como é o dia a dia do homem do mar ele compôs uma música genial sobre a vida dos pescadores - homens que se levantam bem antes do sol nascer, que caminham para o mar, que em suas jangadas lançam-se a ele para a pesca; e que, contando suas histórias, retornam às suas moradas no final do dia.

     A sucessão de atos no dia do pescador tem ritmos diferentes. Por isso, para descrevê-los Caymmi compôs uma "suíte"*.

 (fonte:http://marcondesviana.blogspot.com.br/2008_07_01_archive.html)


     Essa suíte - a "Suíte dos Pescadores" - começa com uma marcha que representa o movimento determinado dos pescadores empurrando, juntos, uma jangada para o mar. Eles levam consigo a esperança de uma boa pescaria e de um regresso certo às suas moradas.

     Caymmi também foca suas atenções na mulher que aguarda o retorno de seu companheiro. Ele a descreve na praia, despedindo-se de seu herói do dia a dia. Nessa despedida ela evoca a proteção de Deus para que o tempo seja bom, para que seu homem possa retornar em segurança e descansar de sua jornada em uma cama por ela arrumada, macia e perfumada.

     No entanto, na suíte, Caymmi quebra aquela rotina mansa e pacata que seria de se esperar. No horário habitual os pescadores não regressam. Esse imprevisto provoca muita angústia em suas companheiras. Elas, então, incomodadas com a demora, vão à praia e clamam pelo retorno de seus homens.

      Na praia, juntamente com as mulheres, os amigos e familiares daqueles pescadores conversam, aguardam, relembram as recomendações feitas anteriormente à partida deles quando parecia haver um prenúncio de temporal.

     E as mulheres dos pescadores, de olhos postos no mar, da praia até o horizonte, aguardam o retorno de seus companheiros; passam a expor sua solidão e suas incertezas; seus temores, seus tormentos e inquietações, enquanto ainda mantêm a esperança do regresso de seus homens...

     E no início da noite, com o temporal e a consequente quebra na rotina dos pescadores, de suas mulheres, familiares e amigos, a pesca malsucedida, vem a certeza da tragédia, do desaparecimento.

      É a despedida. É o fim de uma jornada de pescadores que foi malsucedida.

     Brilhantemente contada por Caymmi, a suíte termina com a marcha inicial representando um novo dia, com outros pescadores lançando a jangada ao mar.

     Assim como os pescadores, todas as manhãs conduzo minha jangada para o mar inquieto das ruas da cidade. Lanço minha rede no asfalto com a esperança de que meu trabalho seja bem sucedido, que eu possa ser útil; que no começo da noite possa estar de volta à minha casa. Carrego a certeza de que, ao chegar, repousarei abraçado àquela a quem amo, ouvindo o silêncio, o vento e a chuva, com a mesma paz de todas as noites. Não penso nas tempestades, mesmo estando sujeito a elas. Assim como o pescador atira sua rede em pontos diferentes do mar, procuro inovar o traçado do meu dia para que minhas jornadas me ensinem coisas novas. Não sou senhor do que me está reservado; mas compreendo que é justamente na simplicidade daquilo que realizo que a vida me oferece a oportunidade de sentir o seu sabor. Que, até a chegada da derradeira tempestademinha pescaria pode ser doce... ou pode me levar para as profundezas do mar.   

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*"Suite" é um termo de origem francesa que significa série, sucessão. Musicalmente, consiste de uma peça com vários andamentos instrumentais diferentes.

segunda-feira, 6 de março de 2017

INDIFERENÇA



camus
(Albert Camus (1913-1960)
fonte: http://tapiocamecanica.com.br/o-estrangeiro-de-albert-camus/)


"Sólo le pido a Dios
que el futuro no me sea indiferente"
(Leon Gieco)


     Albert Camus foi um escritor e filósofo francês. Nascido na Argélia, então colônia francesa, escreveu vários livros nos quais procurava encontrar um sentido para a vida - ou, em outras palavras, ilustrar, em muitas de suas leituras, o seu sem-sentido [da vida]. "O Estrangeiro"* é um deles.

     Em "O Estrangeiro" Mersault, o personagem principal, é um homem frio. Encarando fatos e a realidade como uma mera sucessão de ocorrências sem sentido e sem consequências significativas, parece estar alheio a tudo o que acontece consigo mesmo e com o próprio mundo. Nada o afeta. É um ser apático, impermeável, anestesiado. Para ele tudo é vazio. Recebe a notícia da morte da mãe e fica indiferente a isso; é aprisionado em virtude de um assassinato banal e isso em nada o modifica; é levado a julgamento e fica indiferente ao seu destino. Mersault é, enfim, a apatia, a negligência, o vazio, o nada: um estrangeiro neste mundo.

     Camus foi o oposto do "estrangeiro" Mersault. Apesar de tuberculoso, escrevendo e editando um jornal clandestino, militou na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1957 foi premiado com o Nobel de literatura. 

     Quando ando pelas ruas de minha cidade fico (muito) entristecido pelos prédios pichados, pelas praças descuidadas, pelas ruas esburacadas, pelas mãos pedintes, pelas faces sofridas, pelo medo, pela violência. Minha sensação é de desamparo e impotência.

     - "Sou Mersault? Sou Camus?", fico pensando. E volto para casa em pedaços.

     Analisando o sem-sentido da existência vazia de Mersault, o vazio existencial que ela parece provocar, e ainda comparando-a com as buscas e denúncias de Camus, fico pedindo a Deus que mantenha acesa em mim, enquanto eu aqui estiver, a capacidade de sentir, de me emocionar, de me encantar com toda manifestação de vida; que, de alguma forma, eu esteja sempre disposto a agir. Quero que a dor, a morte, a pobreza, a injustiça, o sofrimento dos acamados e o futuro não me sejam indiferentes. Que eu não me deixe simplesmente me arrastar pelo curso da vida sem querer dela participar, sem querer me dar conta do modo com que cada manifestação humana em mim repercute. Que, enfim, eu consiga ter sensibilidade suficiente para recolher, de cada gesto ocorrido em meu caminho, um exemplo e um motivo de inspiração para eu poder me expressar, para continuar construindo a mim mesmo, aos que comigo se importam, ao homem como ser atuante, e ao próprio mundo como consequência.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
E ACOMPANHAR A LETRA ABAIXO)
(Mercedes Sosa, com part. de León Gieco:"Solo le pido a Diós, de León Gieco)

*CAMUS, Albert. O ESTRANGEIRO; tradução de Valerie Rumjanek. 30ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009 (publicado em 1942, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, porém escrito antes dela - de 1936 a 1940).


Solo Le Pido A Dios (Leon Gieco)

Sólo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacía y sola sin haber hecho lo suficiente

Sólo le pido a Dios
Que lo injusto no me sea indiferente
Que no me abofeteen la otra mejilla
Después que una garra me arañó esta suerte

Sólo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

Sólo le pido a Dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede más que unos cuantos
Que esos cuantos no lo olviden fácilmente

Sólo le pido a Dios
Que el futuro no me sea indiferente
Desahuciado está el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente

Sólo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Eu Só Peço A Deus

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a seca morte não me encontre
Vazio e só sem ter feito o suficiente

Eu só peço a Deus
Que o injusto não me seja indiferente
Que não me esbofeteiem a outra face
Depois que uma garra me arranhou essa sorte

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente

Eu só peço a Deus
Que o engano não me seja indiferente
Se um traidor pode mais que uns muitos
Que estes muitos não o esqueçam facilmente

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Desenganado é o que tem que fugir
Pra viver uma cultura diferente

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente