sábado, 30 de março de 2013

BRASÍLIA - SINFONIA DA ALVORADA




("Brasília - vista da Torre de Televisão" - ao fundo, a esplanada dos Ministérios e o Congresso Nacional - foto: arq. pessoal)


     "Brasília - Sinfonia da Alvorada" é um poema sinfônico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Foi composto a pedido do Juscelino Kubitschek, que o queria para a inauguração de Brasília. Mas houve protestos contra a construção da cidade e, por questões de custos relativos a tecnologia para sua apresentação, a cidade foi inaugurada sem a Sinfonia. Gravada em 1960, somente em 1966 ocorreu sua primeira audição.

     Ao retornar de uma viagem à Brasília, e inspirado pelas imagens da cidade que me haviam ficado, fui procurar o poema da "Sinfonia".

     Imaginei que pudesse encontrá-lo em um livro que tenho em casa, e que reúne a obra poética do Vinícius de Moraes em prosa e em verso (1). Não o encontrei.

     Recorri à internet e lá estava: a "Sinfonia da Alvorada"(2).

     Eu sabia da existência dessa sinfonia e da história que envolvia sua composição pelo Tom e pelo Vinícius. Mas eu nunca havia lido o poema, nem tampouco ouvido a música.

     Fui encontrá-la no youtube. Coloquei para ouvir. Fiquei encantado!

     Ela é dividido em cinco partes (3):


I - O planalto deserto;
II - O homem;
III - A chegada dos candangos;
IV - O trabalho e a construção;
V - Coral

     Na primeira parte ("O Planalto Deserto") o Vinícius descreve o lugar com suas coisas "anteriores ao homem": os campos, as cores, as aves, as auroras...

"No princípio era o ermo
Eram antigas solidões em mágoa.
O altiplano, o infinito descampado (...)" 

     Depois, na segunda parte ("O Homem"), a chegada do homem. O Homem ali chegou para desbravar, para fundar, para erguer e para ficar... O homem trazia, "a antiga determinação dos bandeirantes". "No entanto", explica o autor, "não eram o ouro e os diamantes o objeto de sua cobiça."

     E assim o Vinícius escreveu a respeito do homem que ali chegou para ficar:

"Seus pés plantaram-se na terra vermelha do altiplano. Seu olhar descortinou as grandes extensões sem mágoa no círculo infinito do horizonte. Seu peito encheu-se do ar puro do cerrado. Sim, ele plantaria no deserto uma cidade muito branca e muito pura..." 

     Na terceira parte ("A Chegada dos Candangos"), o Vinícius fala da convocação e da chegada de todos os homens que tinham vontade de trabalhar, e da confiança no futuro. 

"E, à grande convocação que conclamava o povo para a gigantesca tarefa começaram a chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores: os homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra (...) muitas vezes deixando para trás mulheres e filhos a aguardar suas promessas de melhores dias (...)".

     Para essa construção "foi necessário muito mais que engenho, tenacidade e invenção", diz o Vinícius. Ele utiliza das imagens duras das palavras concreto, ferro, cimento, areia e fios para compor a 4ª parte - "O Trabalho e a Construção". Fala, além dos materiais, do tipo de trabalho a ser realizado: 

"desbastar, cavar, estaquear, cortar, serrar, pregar, serrar (...)".

     E descreve ainda o final de cada dia, o crepúsculo, o retorno do trabalhador, 

"as mãos vazias de trabalho e os olhos cheios de horizontes (...)".

     No fim, a cidade pronta, o coro masculino (5ª parte: "Coral"), os homens, os trabalhadores, celebram exultantes a obra concluída: 

"Brasília, Brasília... Brasil, Brasil"... 

     E o poeta, com todo seu lirismo, assim descreve a cidade que havia nascido:

"Terra de sol
Terra de luz
Terra que guarda no céu
A brilhar o sinal de uma cruz
Terra de luz
Terra-esperança, promessa
De um mundo de paz e de amor
Terra de irmãos
Ó alma brasileira...
... Alma brasileira...
Terra-poesia de canções e de perdão
Terra que um dia encontrou seu coração

Brasil! Brasil!
Brasília! 

     Hoje, pensando nessa composição eu me pergunto: "Como passei tantos anos sem conhecê-la?" Mas tudo tem seu tempo. sentido e o valor das coisas aparecem conforme a vida vai nos proporcionando situações novas. Pois foi preciso eu ficar tomado de amores pela construção de Brasília para poder buscar e compreender o significado da sinfonia... da sua "Sinfonia"...   



(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR E OUVIR)
("Sinfonia da Alvorada" - trechos na voz de Vinícius de Moraes
https://www.youtube.com/watch?v=IQ02nAV79ZM)  

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(1) "Poesia Completa e Prosa". Editora Nova Aguilar - 2ª edição de 1976, reimpressa em 1985)
(2) Para ler o poema inteiro, https://www.letras.mus.br/vinicius-de-moraes/87259/
(3) Para ouvir o poema sinfônico, declamado pelo Vinícius, segue o link do youtube
   I - O Planalto Deserto - https://www.youtube.com/watch?v=MhYYwocpDgw 
   II - O Homem - https://www.youtube.com/watch?v=t2ZsjFDl_ug
   III - A Chegada dos Candangos - https://www.youtube.com/watch?v=9QXdOiYowzM
   IV - O Trabalho e a Construção - https://www.youtube.com/watch?v=OyJVmv5sRg4
   V - Coral - https://www.youtube.com/watch?v=T33IBIK-B9M

sexta-feira, 15 de março de 2013

INTRODUÇÃO AO POEMA DOS OLHOS DA AMADA

     
(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Baden Powell - "Introdução ao Poema dos Olhos da Amada")


     Minha amiga Ruth apresentou-me há alguns anos a um violonista - o Vicente. Eu já o conhecia, mas nem ele e nem ela sabiam disso. Por muitos anos eu o via tocar em um restaurante de um shopping center da cidade. Eu ficava parado do lado de fora olhando, ouvindo e aplaudindo. Entre uma música e outra ele às vezes me notava ali, e agradecia com um sorriso amistoso e modesto. 

(" Vicente ao violão" foto: arq. pessoal, jul/07)

     Depois o restaurante fechou e eu não tive mais notícia dele. Fui revê-lo em um bar onde ele tocava, cantava e acompanhava quem quer que se dispusesse a se apresentar: bossa-nova para o início da noite, mpb para mais tarde, boleros e tangos para as altas horas. E havia nesse bar, que era na verdade uma casa, um quintal com um "farolito" em torno do qual se dispunham as mesas. Estive lá muitas vezes. Nos finais de semana, quando por lá não aparecia, pelo menos passava em frente prá ter certeza de que estava em atividade. Um dia tive notícia de que o violonista não tocava mais ali. Disseram-me que ele havia ido para outro lugar, mas não souberam precisar onde.

     Anos depois, em um encontro de amigos - e a convite da Ruth que o havia localizado - o Vicente apareceu para passar uma tarde conosco. Assim ficamos mais próximos, e pude mostrar a ele meu gosto musical. Naquele dia ele nos disse que havia parado de tocar "na noite"; que estava dando aulas de violão e canto.


(Cartão do Vicente)

     A Ruth, há pouco tempo, contou-me que soube que o Vicente estava tocando em uma cantina italiana, onde se ouve música, toma-se vinho e janta-se bem. Eu e a Denise pegamos o endereço e fomos logo para : uma casa térrea também com quintal e plantas, e o Vicente ao fundo, apertado, quase escondido atrás de um pilar. Ao me ver entrar cumprimentou-me com o mesmo sorriso amistoso e modesto, e foi logo dizendo ao microfone - "dessa você me falou que gosta". E presenteou-me com a "Introdução ao Poema dos Olhos da Amada" em violão solo.

     De fato, gosto muito. O "Poema dos Olhos da Amada" é belíssimo. Costumo ouvir com muita frequência, no violão do Baden, a "Introdução" a esse poema. Ouvi-lo naquela noite e naquele lugar foi como fechar os olhos e pensar na minha pátria estando distante dela.  Pedi para o Vicente repetir. Repetiu. No final da noite, ao me ver levantar para ir embora, despediu-se oferecendo-me a mesma música, pela terceira vez. 

     Tenho ído com frequência naquela cantina para ouvir o Vicente. Lá sou sempre recebido com o mesmo presente: a "Introdução ao Poema dos Olhos da Amada".

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
O POEMA NA VOZ DO VINÍCIUS DE MORAES)
("Poema dos Olhos da Amada" - Vinícius de Moraes/Paulo Soledade)
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Poema Dos Olhos Da Amada


Oh, minha amada / Que os olhos teus / São cais noturnos / Cheios de adeus
São docas mansas / Trilhando luzes / Que brilham longe / Longe nos breus 

Oh, minha amada / Que olhos os teus / Quanto mistério  / Nos olhos teus
Quantos saveiros  / Quantos navios / Quantos naufrágios  / Nos olhos teus

Oh, minha amada / Que olhos os teus/ Se Deus houvera  / Fizera-os Deus
Pois não os fizera / Quem não soubera  / Que há muitas eras  / Nos olhos teus

Ah, minha amada  / De olhos ateus / Cria a esperança  / Nos olhos meus
De verem um dia  / O olhar mendigo  / Da poesia / Nos olhos teus

("Psiu, ei amada... olha prá cá! Mostra o quanto seus olhos são bonitos, vivos e cheios de esperança..." - foto: arq. pessoal)

domingo, 3 de março de 2013

CARTA AO TOM


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Carta ao Tom 74" - Toquinho e Vinícius)


     Em 1974 foi lançado o disco "Toquinho & Vinícius". Dentre as onze músicas nele gravadas, uma delas foi "Carta ao Tom 74" - que fez muito sucesso, e é muito cultuada por todos os que gostam do Vinícius. Nessa música o poeta relembra com saudades declaradas o período em que Tom Jobim morava em Ipanema, na Rua Nascimento Silva, número 107, e compara a sua Ipanema daquele tempo (1953 a 1962) com a Ipanema de 1974. Ali ele contrasta a Ipanema que "era só felicidade", que "era como se o amor doesse em paz", com "esse Rio de amor que se perdeu".

(Janela da casa da Rua Nascimento Silva, 107, de onde se via um cantinho de ceu e o Redentor - foto: arq. pessoal - presente recebido do meu amigo Abrahão)

CARTA AO TOM 74

Rua Nascimento Silva, cento e sete
Você ensinando prá Elizete as canções de "Canção do Amor Demais".
Lembra que tempo feliz, ai que saudade,
Ipanema era só felicidade,
Era como se o amor doesse em paz.
Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria, esse Rio de amor que se perdeu.
Mesmo a tristeza da gente era mais bela,
E além disso se via da janela um cantinho de ceu e o Redentor.
É meu amigo, só resta uma certeza,
é preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor.

     Mas o que me chama a atenção nessa música é o seu título: "Carta ao Tom 74". E por que o "74" ? Simplesmente por ter ela sido composta naquele ano? Certamente não foi só por esse motivo.

     No ano de 1964 o Vinícius morava na França, onde era delegado do Brasil na UNESCO. Na véspera de uma viagem sua de lá para cá, ele, "sozinho em um quarto de hotel", em um dia de aniversário da independência do Brasil, escreve uma carta ao Tom. O texto dessa carta é lido por ele no show "Vinicius & Caymmi no Zum Zum", realizado em 1968 na boate Zum Zum, no Rio de Janeiro - e foi gravado depois em disco com o mesmo nome do show. O título da carta, na gravação, é "Carta ao Tom"(1).

     Então, penso eu, "Carta ao Tom 74" tem esse "74" para diferenciá-la da anterior.

     A "Carta ao Tom" é muito  bonita. Nela, distante de sua pátria, sentindo-se só, o poeta deixa-se rodear de amigos pelo pensamento, mostra carências de momento e expectativas futuras - diferente da "Carta ao Tom 74" na qual ele, comparando transformações ocorridas em Ipanema, descreve lembranças e impressões a respeito do bairro.

     Sentado no sofá da sala de casa eu coloco para tocar novamente o "Vinícius e Caymmi no Zum Zum". "Bom Dia Amigo", interpretada pelo Quarteto em Cy, abre o Lado A do disco, e cria um ambiente frio e vazio de "quarto de hotel em uma noite sem qualquer perspectiva". Na sequência, o Vinícius lê a Carta: atentamente, ouço mais uma vez sua leitura... e transcrevo a Carta aqui para que todos nós possamos sentir o mesmo que o poeta sentiu naquele já distante sete de setembro...

("Bom dia Amigo" e "Carta ao Tom" - Do disco "Vinícius e Caymmi no Zum Zum" - 1965)


Porto do Havre, sete de setembro de 1964

Tomzim Querido:

     Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça, que dá para toda solidão do mundo. São dez horas da noite e não se vê viv'alma. Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu. E como sempre, nessas horas, escrevo para você cartas que nunca mando. 
     Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente tenho o Brasil que é uma paixao permanente em minha vida de constante exilado. A coisa ruim é que hoje é sete de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa que me cairia muito bem com o Baden mandando brasa no violão. Há pouco telefonei para lá para cumprimentar o embaixador e veio todo mundo ao telefone: estão queimando um óleo firme! 
     Você já passou um sete de setembro, Tomzinho, sozinho num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perespectiva? É fogo, maestro!
     Estou doido para ver você e Carlinhos e recomeçar a trabalhar. Imagine que esse ano foi praticamente dedicado ao Baden, pois Paris não é brincadeira. Mas agora o tremendão aconteceu mesmo. A europa teve que curvar-se. Mas ainda assim fizemos umas musiquinhas como "Formosa". Você vai ver. Tudo sambão. Parece até que a saudade do Brasil, quando a gente está longe, procura mais a forma do samba tradicional do que a bossa-nova, não é engraçado? São, como diria o Lucio Rangel, as raízes.
     Vou agora escrever para casa pedindo dois menus diferentes para a minha chegada. Para o almoço um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco, bem tostadinho, uma couvinha mineira e doce de coco. Para o jantar uma galinha ao molho pardo, com um arroz bem soltinho, e papos-de- anjo. Mas daqueles como só a mãe da gente sabe fazer. Daqueles que se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer metida num banho morno e em trevas totais. Pensando, no máximo, na mulher amada. Por aí voce vê como estou me sentindo nem cá nem la. 
     Fiquei muito contente com o sucesso de "Garota de Ipanema" nos Estados Unidos. E a Astrudinha, hem? Que negócio tao direito! Vamos ver se dessa vez os intermediários deixam algum para nós. 
     Fiquei muito contente também com a noticia do sucesso de "Berimbau" aí no Brasil. Dizem que estão tocando a musiquinha para valer. Isso me alegra muito pelo Baden. E prá que mentir, por mim também. É bom saber que a gente não foi esquecido, que o povo continua cantando as nossas coisas, pois no fundo é pra ele que a gente compõe. Lembro-me tão bem quando fizemos o samba uma madrugada, há uns três anos atras, por aí. Eu disse a Baden: 'isso tem pinta de sucesso!' E ficamos cantando e cantando o samba até o sol raiar...

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(1) Além da gravação em disco, essa carta foi publicada no Livro "Querido Poeta: correspondência de Vinícius de Moraes" - seleção organizada por Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2003


sexta-feira, 1 de março de 2013

A CHUVA - (ou PENSAMENTOS INÚTEIS QUE ME OCORRERAM COM A CHEGADA DE UMA NUVEM ESCURA)




("Chuva" - Baden Powell e Maurício Einhorn - de Pedro Camargo e Durval Ferreira, gravada pelo Baden em 1966)

A escuridão da noite ainda não tomou conta do ceu. Uma nuvem imensa e escura começa a cobrir a cidade. Veio do leste, com o vento. 

Do décimo-segundo andar fico olhando o prédio em frente. As luzes de alguns apartamentos se acendem. Um casal do décimo-primeiro que brincava com um bebê na varanda recolhe cadeiras, entra e fecha a porta de vidro. Alguns pássaros fazem voos arriscados. No vão entre dois edifícios vejo acesas as luzes da igreja.

Do outro lado da rua duas palmeiras enormes assobiam e sacodem suas folhas com a força do vento. Lá embaixo o portão do estacionamento bate. Não há pedestres nas calçadas. A vida se recolhe e se aquieta. A natureza se manifesta. 

Em casa as janelas estão fechadas. Fecho também o meu livro. Sentado na varanda vigio a cidade. Vêm os primeiros pingos de chuva. Em silêncio, antes de entrar, fico ouvindo o vento... e humildemente peço a Deus que a chuva, com suavidade, alimente as árvores e as plantas; que lave as ruas, os prédios e os carros. Peço também que proporcione uma noite de tranquilidade ao casal e ao bebê do décimo-primeiro andar. Peço por fim que ela, guardando a mim e a todos dentro de nossas casas, traga-nos uma noite de amor e de paz - com cheiro molhado de flores do campo.
 

("Uma nuvem imensa e escura começa a cobrir a cidade" - foto: arq. pessoal)


22jan2013