segunda-feira, 28 de maio de 2012

LONDON LONDON


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 Caetano Veloso - "London London"


     Em 1969 Caetano Veloso partiu para Londres em exílio forçado. Ali viveu praticamente confinado em um apartamento por pouco mais de dois anos. Quase não saía de casa. Sua alma de artista e, certamente, a sensação de “rejeitado” por seu país, deu-lhe, contudo, a sensibilidade para perceber naquele período diferenças simples e significativas. No trecho abaixo da canção “London London” (do próprio Caetano), ele mesmo canta a aparente felicidade que observou em um policial londrino por poder ajudar um grupo de pessoas que dele se aproximou.

"A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them"*

     Aqui no Brasil, naquela época, um grupo de pessoas reunido poderia significar, para um policial, tentativa de rebelião a ser vigorosamente reprimida.

     Mas eu não estive em Londres nessa época; nem cheguei ali na condição de exilado. Pus os olhos, o coração e os pés naquela cidade na condição de convidado. E fui, por dois dias, como líder de um grupo de estudos do Rotary, amparado pelo maior carinho em todos os meus passos.

     Do Hotel Tavistock, onde estávamos hospedados, passando por “China Town”, caminhamos até “Trafalgar Square” em nossa primeira noite londrina.

("Hotel Tavistock" - Londres - arq. pessoal)

(China Town, Londres - arq. pessoal)


(Trafalgar Square - Londres - fonte attractionsinlondon.org)


     Em virtude da instalação de painéis para os jogos olímpicos deste ano, as luzes da praça estavam apagadas. Sentei-me em um banco da praça com a “National Gallery” às minhas costas e, pela primeira vez, avistei ao longe as luzes do “Big Ben”.


("Com a National Gallery às minhas costas" - Londres, setembro 2011 - arq. pessoal)

("Avistei, pela primeira vez, as luzes do Big Ben - Praça Trafalgar, Londres - arq. pessoal)
     Vendo à minha frente, na “Coluna de Nelson”, a representação de um mastro com velas arriadas, por um instante tive a sensação de estar viajando em uma caravela britânica do século XIX: não lutando na batalha que dá nome à praça (Trafalgar); mas, tal como ocorreu com os navegantes portugueses em 1500, avistando um novo continente, um novo universo de pessoas, histórias e lugares a serem descobertos.
"Nelson's Column" - Coluna de Nelson - praça Trafalgar - Londres - fonte geograph.org.uk

Estátua do Almirante Nelson, no topo da "Coluna de Nelson", na Praça Trafalgar
fonte victorianweb.org

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*A group approaches a policeman, he seems so pleased to please them - (trad) Um grupo se aproxima de um policial, ele parece muito contente por poder ajudá-los.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

UTOPIA


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(Saint-Saens: The Swan Carnival of the animals 
https://www.youtube.com/watch?v=b44-5M4e9nI) 


E se no mundo existe algum paraíso terrestre,
sem dúvida não deve estar muito longe destes lugares.
(Vespúcio – “Mundus Novus”)

     Quando alguém fala em “UTOPIA” logo imaginamos algo inatingível. O Antônio Houaiss, no dicionário por ele organizado, diz que “utopia” consiste em uma “sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade” (1).

     Tudo isso porque a palavra UTOPIA, com registro histórico de 1671 (1), formada por radicais gregos, significa “não-lugar”, ou “lugar que não existe”. E ficamos convencidos de que um lugar assim, utópico, é impossível de existir.

     Mas a Utopia já existiu – e era aqui!(2)

     UTOPIA é um termo que foi inventado por Thomas Morus para dar título a uma de suas obras escritas por volta de 1516. Nela Morus descreve um lugar onde a sociedade é organizada racionalmente, com propriedade comum dos bens, onde os habitantes vivem em casas iguais, auxiliando-se mutuamente, em paz total e harmonia de interesses.

     Se pensarmos bem, um pouco antes de 1516, a América havia sido “descoberta” e corria na Europa a notícia propagada por Américo Vespúcio de ter sido encontrado um lugar arborizado, frutífero, passarinhado, cheiroso e colorido - que só podia ser mesmo o Éden (2).

     Cristóvão Colombo também, em suas narrativas, pela beleza inocente que havia visto por aqui, acreditava ter encontrado o Paraíso Perdido (2).

     Thomas Morus, inglês, um homem diferenciado para o seu tempo, advogado, diplomata, escritor e um dos grandes humanistas do renascimento, ficou encantado com os relatos e as notícias propagadas por Vespúcio e Colombo a respeito daquele lugar.



(Estátua de Thomas Morus em frente ao Chelsea Old Church - Londres - fonte: rememberingtheexecuted.wordpress.co)


     No entanto, na Europa corria a notícia de que viviam lá uns seres que não sabiam se eram uma humanidade ou uma bicharada; que viviam desnudos - apesar de inocentes e sem maldade... Os Europeus, barbudos e armados, empetecados em suas vestes, mergulhados em crenças de pecados e punições, duvidavam até que aqueles seres tinham alma!

     Assim, a se considerar que UTOPIA foi escrito em 1516, este só pode ter sido escrito sob a crença de Morus de que o paraíso havia sido encontrado. E esse lugar era aqui!

     Depois disso vieram os “sábios” demonstrando que os índios que aqui viviam estavam mergulhados no pecado. E deu no que deu: tiraram os índios da sua inocência para desindianizá-los (2) e inseri-los nas ideias de crime e castigo.

     Quanto a Morus, por não concordar com os termos de um Decreto que era de interesse exclusivo do rei da Inglaterra (Henrique VIII)(3), foi preso e morreu decapitado na Torre de Londres. Depois foi canonizado e virou santo da Igreja católica.

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(1) – conforme dicionário Houaiss
(2) – conforme menciona Darcy Ribeiro em “A América Latina Existe?” – da coleção “Darcy no Bolso” – Editora UnB
(3) - fundação do anglicanismo e não aceitação da coroação de Ana Bolena, uma das esposas de Henrique VIII

sexta-feira, 4 de maio de 2012

ADIÓS MUCHACHOS


Louis Armstrong - fonte: http://jornalggn.com.br/noticia/classicos-de-louis-armstrong

     "Adiós Muchachos" é um tango argentino com letra de César Felipe Vedani e música de Julio César Alberto Sanders. Esse tango fala de morte, de alguém que, doente, deixando a vida, despede-se de seus amigos. É um sofrimento danado - como é próprio do gênero.

     Quem primeiro o gravou foi Agustin Magaldi, em 1927*; no ano seguinte foi a vez de Carlos Gardel fazê-lo. Quase noventa anos já se passaram desde sua primeira gravação, e ainda hoje muitos artistas o interpretam e gravam.

     Eu não conhecia, até há pouco, a gravação que dele fez o Louis Armstrong. Pois foi justamente ouvindo e assistindo essa gravação que reforcei minha consideração pela universalidade da música, no sentido de integrar povos, costumes e tradições, irmanando e aproximando os homens. Por intermédio da música estendemos os braços, nos abraçamos, nos damos as mãos, cantamos, sorrimos e dançamos fraternalmente - independente de nacionalidade ou fronteira.

     Pois vejam só que "tempero": o grande Louis Armstrong, artista norte-americano de origens africanas, interpretando em um clube de Stuttgart, na Alemanha, em ritmo de jazz, um tango argentino!

     Só nos resta então ouvirmos a música, aumentarmos o som do vídeo, e, com o coração brasileiro, rendermos graças ao grande "Satchmo"**.  
 
(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR)
"Adiós Muchachos", de Vedani/Sanderes - Louis Armstrong - Stuttgart, 1959 - fonte youtube


Adiós Muchachos

Adios muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.
Adios muchachos, ya me voy y me resigno
Contra el destino nadie la talla
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más

Acuden a mi mente
Recuerdos de otros tiempos,
De los bellos momentos
Que antaño disfrute,
Cerquita de mi madre,
Santa viejita,
Y de mi noviecita
Que tanto idolatre

Se acuerdan que era hermosa,
Mas linda que una diosa
Y que, ebrio yo de amor,
Le di mi corazón?
Mas el señor, celoso
De sus encantos,
Hundiendome en el llanto,
Me la llevo

Es dios el juez supremo.
No hay quien se le resista.
Ya estoy acostumbrado
Su ley a respetar,
Pues mi vida deshizo
Con sus mandatos
Al robarme a mi madre
Y a mi novia también

Dos lagrimas sinceras
Derramo en mi partida
Por la barra querida
Que nunca me olvido.
Y al darle, mis amigos,
El adiós postrero,
Les doy con toda mi alma,
Mi bendición

Adios muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada
Adios muchachos, ya me voy y me resigno
Contra el destino nadie la talla
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más
Adeus Rapazes

Adeus rapazes, companheiros de minha vida,
turma querida daqueles tempos.
Cabe a mim hoje empreender a retirada,
devo afastar-me de minha boa rapaziada,
Adeus rapazes, já me vou e me resigno.
Contra o destino ninguém argumenta.
Acabaram para mim todas as farras,
meu corpo enfermo não resiste mais.

Voltam a minha mente,
lembranças de outros tempos,
de belos momentos,
que então eu desfrutei,
juntinho de minha mãe,
minha santa velhinha,
e de minha noivinha
que tanto idolatrei.

Lembram que era formosa,
mais bela que uma deusa
e que, ébrio de amor,
lhe dei meu coração?
Porém o Senhor, ciumento
de seus encantos,
cobrindo-me de pranto,
a levou.

É Deus o juiz supremo.
Não há quem se lhe oponha.
Já estou acostumado
a respeitar sua lei,
pois minha vida se desfez
com seus mandatos
ao levar minha mãe
e minha noiva também.

Duas lágrimas sinceras
derramo em minha partida
pela turma querida
que nunca me esqueceu.
E ao dar-lhes, meus amigos,
o último adeus,
lhes dou com toda minha alma,
minha bênção.

Adeus rapazes, companheiros de minha vida,
turma querida daqueles tempos.
Cabe a mim hoje empreender a retirada,
devo afastar-me de minha boa rapaziada,
Adeus rapazes, já me vou e me resigno.
Contra o destino ninguém argumenta.
Acabaram para mim todas as farras,
meu corpo enfermo não resiste mais.

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*conforme conta Héctor Ángel Benedetti, em “Las mejores letras de Tango”, 1ª Ed. – Buenos Aires: Booket, 2003
**Satchmo - apelido de Louis Armstrong. Vem de "Sack Mouth", ou "Satchel Mouth", que significam "boca de saco", ou  "boca de mochila".