segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

DAS DIVERGÊNCIAS

“(...) O importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando”. (Guimarães Rosa)
     É comum ouvirmos a afirmação de que seria maravilhoso viver caso todas as pessoas fossem iguais àquela que se mostra como padrão ideal de ser: iguais em pensamentos, iguais em atitudes, iguais nas crenças, iguais nos valores e interesses.
     No entanto, a compreensão de que são as divergências que nos fazem progredir, leva-nos a retificar a mensagem que comumente ouvimos. Mais valioso é celebrarmos as diferenças existentes.
     É através da livre manifestação do pensamento que fica evidente a individualidade; só é livre o ser humano que pode pensar com absoluta liberdade. De nada vale o pensamento livre, a criação intelectual, científica, filosófica ou política, se não conseguimos manifestar nossas ideias. Afinal, a convivência social só alcançou o estágio em que estamos porque os homens passaram uns aos outros, as riquezas produzidas em seus pensamentos.
     Assim, não nos convém nos fecharmos em nossas convicções quando outros emitem pontos de vista diferentes dos nossos. É nas divergências que evoluimos e demonstramos respeito, consideração e amor ao próximo. O ato de nos enclausurarmos em nossas próprias certezas, além de criar barreiras enormes para nossa integração, demonstra um enorme desinteresse em se querer compartilhar ideias que poderiam vir a trazer soluções para muitos entendimentos defeituosos. Longe de se querer um conflito de ideias ensejando um embate entre elas, objetivando como resultado final a proclamação de um vencedor e um vencido, acreditamos que o importante é que a combinação de entendimentos divergentes contribua para que possamos nos lapidar. É de se temer qualquer certeza imposta.
     Convém deixarmos de lado o princípio de que a discordância gera afastamento. Ao contrário, partindo da compreensão de que cada um de nós tem sua própria formação, é a livre expressão do pensamento que diminui nossas distâncias. Afinal, é de se pressupor que atingimos um grau de amadurecimento grande o bastante para nos querermos bem, apesar de nossas diferenças. Assim em uma orquestra: apesar dos diferentes sons, cada instrumento tem a sua importância, sua função e sua beleza. Em harmonia, seus diálogos sonoros se respeitam...  e encantam.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

PEQUENAS IMPRESSÕES SOBRE O OLHAR E O APERTO DE MÃO



(Retorno de meu filho após 6 meses de viagem - foto: arq. pessoal)


“Nunca podemos chegar à verdadeira natureza das coisas pelo lado de fora.”
(Schopenhauer)


     É natural e comum a todos nós o desejo que temos de agradar, de sermos atenciosos e simpáticos. Um sorriso no rosto ao nos aproximarmos de alguém opera milagres, causa boa impressão, cativa, conquista.

     Mas, pensando bem, "conquista" corresponde a uma relação onde aparecem dominante e dominado. Há algo muito mais significativo no cumprimento.

     Muito além da formalidade do aperto de mão, é a mensagem que acompanha o olhar que mais comunica verdades. E para quem observa, isso é simples de ser compreendido. Aperto de mão sem encontro de olhares corresponde a um gesto vazio e protocolar; a um objetivo frio, estudado e calculado a ser cumprido.

     Aquele que liberta o coração sente e compreende o cumprimento silencioso, o olhar de amizade, de solidariedade, de companheirismo.

     O cumprimento sincero vem de dentro; não sai das mãos. Muito além dos apertos de mão fortes e protocolares está a cumplicidade do olhar, denso em carinho e afeto, que recebemos dos bons amigos, dos conhecidos e dos familiares que nos querem bem e que não temem comunicar suas verdades.

     Melhor então: aperto de mão com sorriso nos lábios, e sinceridade no olhar.

     É isso!


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Amizade Sincera" - Renato Teixeira e Dominguinhos)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

RUBEM BRAGA

Gosto da clareza e da simplicidade do Rubem Braga. Transcrevo aqui, da sua coletânea "200 CRÔNICAS ESCOLHIDAS", três trechos de crônicas das quais gosto muito.  

Uma vida em uma carta

"E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta: cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa (...)."
(Em "Velhas Cartas")
 
Do reflexo de abraços e vozes distantes
 
"É noite de Natal, e estou sozinho na casa de um amigo, que foi para a fazenda. Mais tarde talvez saia. Mas vou me deixando ficar sozinho, numa confortável melancolia, na casa quieta e cômoda. Dou alguns telefonemas, abraço à distância alguns amigos. Essas poucas vozes, de homem e de mulher, que respondem alegremente à minha, são quentes, e me fazem bem. 'Feliz Natal, muitas felicidades'; dizemos essas coisas simples com afetuoso calor; dizemos e creio que sentimos, e como sentimos, merecemos. Feliz Natal!"
(Em "Natal")
 
Natal com chuva

"Saiba (...) que há duas semanas, numa velha fazenda do Brasil, numa noite de Natal de muita chuva, houve um homem que acordou de madrugada pensando em você."
(Em "Mensagem que não foi mandada")

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Dr. LEÃO


(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Nicholas Petrou - Prelúdio nº 3, do Villa Lobos)


     Um dia, depois de sair da fábrica de fertilizantes onde trabalhava, fui à barbearia do Jerônimo para cortar meus cabelos. Como era normal, e em especial nos finais de tarde, a barbearia estava repleta de clientes; ou, ainda, de pessoas que iam ali simplesmente para conversar. Sentei-me em uma poltrona, pacientemente, na certeza de que ali ficaria por algum tempo até chegar a minha vez de ser atendido.
     Um pouco depois de conversar com alguém ao lado observei a chegada do Dr. Leão: médico respeitado, que por muitos anos cuidou da saúde dos moradores da minha cidade natal. Onde quer que fosse encontrado, estava sempre pronto para ouvir e atender a todos que o procuravam. 

     Ao chegar na barbearia olhou atentamente para todos e entrou. Sentou-se em uma poltrona, pegou uma parte do jornal e começou a ler. Lia alto, leitura lenta, como que decifrando e refletindo a respeito de cada uma das palavras que pronunciava. Perguntei a mim mesmo o motivo que o levava a ler daquela forma. Parecia uma criança sendo alfabetizada. Ele, que por tantos anos havia cuidado de tanta gente, agora parecia precisar de alguém que olhasse por ele.

     Pensei no dia em que, graduado médico, fez planos para seu futuro. Certamente perguntou a si mesmo por onde começar, para onde ir. Imaginei um jovem cheio de sonhos, com dezenas de caminhos para seguir, guiado pelas ilusões e pelo entusiasmo de sua juventude, ansioso por começar a trabalhar.

 (Foto: Dr. Leão nos anos 60)
     Lembrei-me também, naquele momento, de uma outra noite, havia anos, pouco tempo depois da morte de meu pai. Entrando em um bar para tomar um refrigerante, fui chamado pelo Dr. Leão. Ele estava sentado em um banquinho de canto, junto do balcão, sozinho, preso em seus pensamentos, e de óculos escuros - apesar da pouca claridade na noite que se iniciava. Vi nele a emoção dos que transcendem. Disse-me que estava confuso, que coincidentemente no momento em que me viu lembrava e pensava em meu pai; que havia sido um grande amigo seu, e de quem sentia saudades. Disse-me também que minha mãe e minha irmã iriam precisar muito de mim. E, enquanto me dizia isso, percebi em sua face a expressão incontrolável dos que se esforçam para conter o pranto. Concluiu dizendo-me para voltar para casa. E continuou ali.
Andei passos tortuosos procurando compreender o que precisava aquele homem sentado em um balcão de bar, em companhia exclusiva de seus pensamentos. Quais palavras poderiam tê-lo feito um pouco menos triste? Quisera eu sabê-las para poder ter lhe oferecido. Mas eu, assustado em minha ingenuidade de então, fiquei emudecido durante todo o tempo em que ele falou comigo. E retornei à minha casa com os pensamentos desencontrados e a sensação de que já não era mais o mesmo adolescente imaturo que havia entrado naquele bar.
     Sempre via o Dr. Leão sentado em um banco de madeira na calçada do bar, preso em seus próprios pensamentos. Quantas vezes senti vontade de sentar-me ao seu lado, poder ouvi-lo falar qualquer coisa, ou mesmo somente lhe fazer companhia. Gostava de vê-lo, de cumprimentá-lo.
Naquele instante, naquela barbearia, ele que havia sido o meu médico não me reconheceu. Quis, mais uma vez, fazer-lhe companhia, ficar ali, conversar com ele. E assim, de repente, ele lia em voz alta, tal qual uma criança. Fiquei ouvindo sua leitura e refletindo sobre sua trajetória de vida: a saída da universidade, a luta pelos sonhos, a família, os pacientes, os filhos...
     Hoje, penso cá comigo: "será que ele foi feliz ?"

 
 (Foto: Avenida Dr. Francisco de Paula Leão, em Guará, numa tarde de domingo)
     De qualquer forma, imortal no coração dos que o conheceram, a cidade também o imortalizou no dia 15 de setembro de 1990: à antiga Avenida Mogiana foi atribuído o nome de Avenida Dr. Francisco de Paula Leão – o Dr. Leão. Foi o pouco que a cidade pôde fazer por ele, que tanto fez por tanta gente.

    (Placa no cruzamento da Av. Dr. Fco de Paula Leão com Rua Dep. João de Faria) 


RP, 29/10/1990

CANTANDO COM O VINÍCIUS

(Foto: Vinícius de Moraes)


Foi pelas mãos de um de meus tios que, em 1975, fui pela primeira vez a um show musical. Lembro-me bem. Eu era ainda adolescente, estudante de cursinho pré-vestibular em Ribeirão Preto. O artista era, nada mais nada menos que o Vinícius de Moraes. Com ele no palco, o Toquinho e o Trio Mocotó.
A minha ansiedade era enorme. E tudo foi, de fato, memorável.
Em um ginásio de esportes, carregando um pequeno gravador, sentei-me ao lado de uma caixa de som e gravei o show inteiro. Naquela época estava para ser lançado o disco "Turbilhão". Naquela noite vi um Vinícius tomado de encantamento por tudo, transbordando poesia e encantando.
Em um determinado momento o Vinícius disse que estava muito contente, que aquela noite estava sendo para ele muito especial porque ali estava presente uma pessoa muito querida e especial na vida dele. Na sequência pediu para que todos nós da plateia cantássemos com ele EU SEI QUE VOU TE AMAR. E assim foi... Cantei também a música, a qual ele dedicou, sem mencionar o nome, a essa pessoa querida dele.
Terminado o show saí do ginásio de esportes maravilhado, deslumbrado. Mas saí também com a impressão de que ele, o Vinícius, durante o show, naquela noite, estava possuído por algum espírito coberto de amores.
Guardo aquela noite como sendo uma daquelas que transformam em virtude da densidade emocional que transmite.
Anos mais tarde ao ler "O Poeta da Paixão", do José Castello, no soneto de introdução à vida do Vinícius com a Martita, “Soneto de Marta”, o poeta datou: “Ribeirão Preto, 5/6/1975”. Portanto, de uma certa forma, também cantei com o Vinícius em homenagem a sua então companheira. E pude então constatar, cheio de lirismo, como ele mesmo teria dito, que ele realmente estava apaixonado. 


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

OS CABELOS E A BOLA

     (Foto: Portão de entrada do Estádio Arthur Alves dos Santos, em Guará, SP - "campo da Associação")

     Há pessoas que se vão como se nunca tivessem passado por aqui. Vão embora sem podermos saber para onde, enfiam-se no mundo e aventuram-se na vida. No entanto permanecem nas nossas lembranças e fazem parte da nossa formação, mesmo que nunca tenham sabido isso. Somos importantes por tudo que fazemos; deixamos nossas marcas, nossos exemplos àqueles que por algum motivo ou por um algum momento passaram pela gente.
    
     Guardo uma lembrança de alegria e simplicidade de um amigo de quem não tinha notícias havia uns vinte anos. Foi amigo de jogos de futebol no asfalto das ruas, no Clube ou na Associação que frequentávamos, e amigo de muitas conversas despreocupadas nos bancos da praça da igreja. Ele queria ser jogador de futebol. Após as partidas nas quais atuava perguntava-nos, a mim e aos nossos amigos comuns, com simplicidade, se os seus cabelos esvoaçavam conforme corria dentro de campo. Era vaidoso, de uma vaidade adolescente com seus cabelos. Eu o via sempre alegre, sempre pronto a jogar futebol. Foi embora da nossa cidade, não mandava notícias, e aparecia raramente nas festas de finais de ano. Eu sempre perguntava a seus outros irmãos notícias do meu amigo.
    
     Na semana passada fui reconhecido por uma jovem, com quem troquei saudações. Percebendo que eu não a reconhecia, contou-me ela quem eram seus pais, quem eram seus irmãos. De imediato a lembrança alegre do meu amigo, a satisfação de estar falando dele - seu irmão - me trouxe a pergunta: "por onde anda?"; "como vai ele?" De fisionomia repentinamente alterada contou-me ela que seu irmão, havia poucos meses, morrera sozinho longe de casa, sem ter constituído família, sem ter deixado nada, vítima de doença incurável. Surpreso e comovido, com um engasgo na fala, senti naquela hora a triste perda do amigo. Contudo também sinto hoje uma alegria e um carinho comovente ao me lembrar do "Fio", meu amigo, filho do "Chico Barbeiro".

RP, 05/abr/00

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

"Minha casa me diz: 'não me deixes, pois aqui mora seu passado'."
(Gibran)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ON THE ROAD

video
(Video: Pequeno trecho da Via Anhanguera; música: "Operator", Jim Croce)
(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)


     Viajar para a terra natal é sempre muito bom. Há sempre a expectativa de, ao entrarmos na cidade, encontrarmos na primeira esquina todos os amigos dos nossos mais verdes anos da vida. E, a partir daí, podermos repassar todo nosso repertório de alegrias contidas nas histórias de cada fato e de cada música que embalou nossas utopias.

     Hoje, cada um segue seu caminho. Os amigos e as histórias acabam se dispersando no tempo...

...mas ficam para sempre na história da vida da gente...

VISÃO DO PARAÍSO

(Concierto de Aranjuez - segundo movimento)
(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)


"Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais padece de solidão".* 



(Sr. Rubens - foto postada no facebook por Luis Fernando)


______________________ 

*Arthur da Távola, poeta e político fluminense, no encerramento do programa "Quem tem medo da música clássica".

UTOPIA (Eduardo Galeano)

"Para que serve a utopia?
Ela está diante do horizonte
Me aproximo dois passos
e ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos
e o horizonte corre dez passos mais à frente.
Por muito que eu caminhe
nunca a alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para caminhar."

GUARÁ, NATAL DE 2006


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("First of May" - The Bee Gees)


"As árvores são poemas que a terra escreve sobre o firmamento. 
Derrubamo-las e transformamo-las em papel para registrar nosso vazio".
(Gibran)


     Em 2006, depois de ter passado em Guará o Natal na companhia de minha mãe, minha irmã e meus entes queridos, eu retornava para Ribeirão - a terra que me acolheu. Trazia o coração apertado. Sem querer chegar na rodovia, trafegava lentamente pela rua principal. Ao passar pela estação rodoviária, porém, olhei pelo retrovisor do carro e me deslumbrei com os movimentos de despedida que me eram feitos por uma árvore. Alegremente e em flores amarelas ela acenava para mim.

     Era uma belíssima acácia-amarela que, com muita graça, dançava e fazia suas evoluções ao sopro tímido do vento. Parei o carro, desci, olhei-a atentamente, e a fotografei: não poderia deixar que ela, vestida de tanto encanto, desaparecesse. Aos que chegavam ela dava as boas vindas; aos que partiam, desejava uma boa viagem... e permanecia ali, simplesmente encantando... 

     Hoje, emoldurada em um pequeno quadro, aquela acácia-amarela é uma doce lembrança que ornamenta uma das paredes do meu escritório.


(Acácia-amarela - foto: arq. pessoal)

PENSANDO

(...) Confio, e muito, no pensamento dos grandes homens, mas reivindico o meu direito próprio de pensar. (...) eles não nos legaram verdades acabadas, mas sim sujeitas a investigação (...)".
(Sêneca)

IDEIA GERAL

A ideia é simples: aqui procuraremos registrar as coisas que lemos, vemos, pensamos ou observamos, e que nos fazem perceber que acrescentam. Mesmo porque, penso eu, as coisas só se tornam inteiramente bonitas quando podem ser compartilhadas e se mostram repletas de significados comuns.