sábado, 17 de junho de 2017

A PRAÇA CAMÕES


(PARA OUVIR, CLIQUE NA SETA)
"Fado Tropical" - Chico Buarque/Ruy Guerra


"Cessem do sábio grego e do troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta."
(Camões, "Os Lusíadas" - Canto I)


     Não, não é uma praça árida e oprimida na região central de Ribeirão Preto. Em cada um de seus quatro pontos cardeais o cimento e o concreto dos prédios com ela contrastam e digladiam. Ela resiste. Ela tem como escudo suas plantas, suas árvores antigas, e seus passeios tomados por folhas secas. Na escuridão da noite, cuida de sua proteção a luz que emana dos pequenos postes - verdadeiros faróis plantados em seus canteiros. Eu a cruzo todos os dias, e me sinto um privilegiado por tê-la como vizinha.


Praça Luis de Camões - Ribeirão Preto/SP
Foto: arq. pessoal

     Não, decididamente não é apenas uma praça. Com um monumento a Camões e aos portugueses ao seu centro, ela é uma inspiração a quem quer que por ela passe.

Monumento a Camões e aos portugueses - Praça Luis de Camões, Ribeirão Preto/SP
foto: arq. pessoal



"Eu canto o peito ilustre lusitano a quem neptuno e marte obedeceram"
Monumento a Camões - detalhe
Foto: arq. pessoal

     Nesse monumento Camões, altivo e altaneiro, guia os destinos incertos traçados pelo comandante de uma caravela. Embarco nessa nau portentosa que singra mares e oceanos - assim como fizeram os portugueses nas grandes navegações. Os canteiros da praça, então, transformam-se em cardumes; e seus farois em pequenas embarcações. Vou da popa à proa vigiando suas sombras e seus caminhos.


"Vou da popa à proa vigiando suas sombras"
Foto: arq. pessoal

     Em seus bancos de madeira, jovens distraídos e senhores compenetrados são valentes guerreiros que cuidam para que ela resista às tormentas que teimam em transformar a cidade. 


"Em seus bancos de madeira..."
Foto: arq. pessoal

     O poeta tornou-se o guia que, na praça, cuida da condução de seu povo - e da minha travessia. Nessa navegação contorno o sudoeste de Portugal e o sul da Espanha. Vou além: passo pelo estreito de Gibraltar e sigo pela costa de Marrocos, na África, até atingir o Cabo Bojador no Saara Ocidental. A partir dali experimento mares nunca d'antes navegados...

     O monumento aos portugueses, homenageando Camões, domina toda a praça. Camões lutou no norte da África (onde perdeu a visão do olho direito), fez muitas viagens, naufragou na foz do rio Mekong, reapareceu em Moçambique e retornou a Portugal para morrer, em 1580, em condição de extrema pobreza. Ficou conhecido na história e na literatura como o autor do maior poema épico da língua portuguesa - "Os Lusíadas", publicado há mais de quatro séculos.

     Ao cruzar a praça que leva seu nome eu reverencio Camões e as viagens que, nessa travessia, inspirado por ele, diariamente faço.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

FRASES DA MPB



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Até pensei" - Chico, dele)



"eu andava pobre tão pobre de carinho
que, de tolo,
até pensei que fosses minha"
(Chico - Até pensei)


     Se pensada, uma frase bem construída pode nos trazer muitos ensinamentos. Esses ensinamentos podem nos ajudar na tomada de decisões em momentos e situações decisivas. Particularmente, tenho um pequeno caderno no qual venho anotando, já há muitos anos, frases, poemas, trechos de livros e citações que me agradam. Muitas dessas frases e citações vêm da Música Popular Brasileira - MPB. Volta e meia recorro a ele e fico folheando e lendo tudo o que ele me ensinou - e continua ensinando.


Meu caderno - foto: arq. pessoal

     Dentre as centenas de frases riquíssimas cantadas na MPB, "a vida só se dá prá quem se deu" serviu para que eu tivesse coragem de encarar situações em que me via indeciso. Da mesma forma, "a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais" foi determinante para me descortinar a preciosidade da vida - e me ensinar a lamentar menos.

     Quando, há muitos anos, fui vítima de um grave descontentamento, "tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor" martelou minha cabeça por muito tempo. Superado o episódio, "cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz" recolocou-me na trilha da felicidade, a qual somente eu mesmo poderia encontrar. Afinal, compreendi: "cada um de nós compõe a sua própria história" - e "sabe a dor e a delícia de ser o que é".

     Folheio meu caderno e vejo grandes tesouros da MPB: Em "Pedaço de mim", Chico Buarque falou de saudade: "Saudade é limpar o quarto do filho que já morreu": quer explicação mais clara, doída e poética do que essa? E o que dizer do brilhantismo do Belchior ao ilustrar, em "Coração Selvagem", os comportamentos instintivo e aprendido? "Não quero o que a cabeça pensa, quero o que a alma deseja."

     Relaciono aqui algumas outras anotações tiradas do meu caderno:

"Não há bebida que beba saudade" ("Não há cabeça" - Ângela Rô Rô)

"Todo boêmio é feliz porque quanto mais triste mais se ilude" ("Me dá a penúltima" - João Bosco e Aldir Banc, 1977)

"A gente agrada a Deus fazendo o que o diabo gosta" ("Fazendo o que o diabo gosta" - Raul Seixas - do disco "A pedra do gênesis", de 1988) 

"Eu andava pobre, tão pobre de carinho, que, de tolo, até pensei que fosses minha" ("Até pensei" - Chico Buarque)

"Tu pisavas nos astros distraída sem saber que a ventura desta vida é a cabrocha, o luar, e o violão" ("Chão de estrelas" - Orestes Barbosa)

     Cada frase dessa merece um barril de chope, muitas noites em claro, e toda filosofia para ser pensada e conversada.


Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Déc. 1960, foto: Pedro de Moraes (Acervo Inst. Tom Jobim)
Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes
Fonte: http://nordestebrasileiro.tumblr.com/post/67110745144


     E com tantas frases maravilhosas e poeticamente ricas, encerro perguntando ao meu raro leitor: existe alguma frase na MPB que, para você, seja preciosa? Mostre-a prá gente!

____________________________ 
- "Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor". ("A flor e o espinho" - Guilherme de Brito/Nelson Cavaquinho/Alcides Caminha)
- "Cada um de nós compõe a sua própria história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz". ("Tocando em frente" - Almir Sater/Renato Teixeira) 
- "O coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais". ("Tomara" - Toquinho/Vinícius)
- "Saudade é limpar o quarto do filho que já morreu". ("Pedaço de mim" - Chico Buarque)
- "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". ("Dom de iludir" - Caetano Veloso)
- "Não quero o que a cabeça pensa, quero o que a alma deseja". ("Coração Selvagem" - Belchior)
- "A vida só se dá prá quem se deu, prá quem amou, prá quem chorou, prá quem sofreu". ("Como dizia o poeta" - Vinícius e Toquinho)

sábado, 3 de junho de 2017

LOST IN SPACE: A DESVENTURA DE MAJOR TOM


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
E ASSISTIR NO FINAL DA LEITURA)
David Bowie, dele, "Space Oddity" (1969)
https://www.youtube.com/watch?v=hBrPQX6nh48


"Ao meu amigo Renatão"


     Quando era menino sonhava em ser astronauta. Gostava de ficar sozinho. Achava que meu futuro seria mesmo ir para o espaço, ficar quieto ouvindo o silêncio, olhando para as estrelas, para os planetas, e ficar pensando... Não sei bem o que pensaria, mas queria ficar só pensando...

     Com a chegada do homem à lua, em 1969, e com a gravação de "Space Oddity" pelo David Bowie no mesmo ano, comecei a expandir os pensamentos e analisar um outro lado da questão. Comecei a pensar que o negócio poderia não dar muito certo, que ficar sozinho no espaço poderia não ser tão proveitoso quanto me parecia.


gravity-poster
Foto: https://contracenario.wordpress.com/2013/07/25/festival-de-veneza-2013-conheca-os-participantes/


     Em "Space Oddity" o Major Tom (o astronauta) é lançado ao espaço, flutua no vácuo, e vê as estrelas e o planeta Terra de uma posição muito privilegiada. Em conversa com a base de controle na Terra, em um determinado momento ele se sente vazio e solitário naquela imensidão, e conta que sua aeronave sabe qual a rota a seguir. E ao se dar conta disso, ele tenta reconectar-se com seus familiares para ter pelo menos uma voz que lhe fizesse companhia. Contudo a conexão com a base de controle foi perdida e não mais poderá ser refeita. Desse momento em diante Major Tom e sua nave ficam flutuando no espaço... flutuando... flutuando.... incomunicáveis... até serem consumidos por completo... sem oxigênio, sem orientação, sem rumo: restos de vida e matéria esquecidos no espaço...

     Esse fim do Major Tom foi o começo das avaliações de minhas convicções.

     A solidão no espaço, assim como a solidão aqui mesmo no nosso planeta, desde que seja por pouco tempo e que traga consigo a certeza de retorno, pode parecer interessante. Mas é de um vazio inimaginável. O vazio sem perspectiva de preenchimento é contrário à natureza humana. Viver no espaço é desumano... As estrelas, a lua, os planetas, sem os olhos e os sentimentos do homem, tornam-se astros vazios... De nada serve a beleza do universo diante da inexistência de perspectiva dela ser compartilhada.

     Eu, menino crescido, já não quero mais ser astronauta. Desisti. Levanto cedo, faço o meu café, e fico esperando o dia amanhecer para poder contar aos que me ouvem as histórias que vivi e os sonhos que ainda tenho... 


Space Oddity

Ground control to Major Tom
Ground control to Major Tom
Take your protein pills and put your helmet on

Ground control to Major Tom
(10, 9, 8, 7)
Commencing countdown, engines on
(6, 5, 4, 3)
Check ignition, and may God's love be with you
(2, 1, lift off)

This is ground control to Major Tom
You've really made the grade
And the papers want to know whose shirts you wear
Now it's time to leave the capsule if you dare

This is Major Tom to ground control
I'm stepping through the door
And I'm floating in the most peculiar way
And the stars look very different today

For here am I sitting in a tin can
Far above the world
Planet Earth is blue, and there's nothing I can do

Though I'm past 100,000 miles
I'm feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell my wife I love her very much, she knows

Ground control to Major Tom
Your circuit's dead, there's something wrong
Can you hear me Major Tom?
Can you hear me Major Tom?
Can you hear me Major Tom?
Can you

Here am I floating round my tin can
Far above the moon
Planet Earth is blue, and there's nothing I can do
Adversidade Espacial

Controle de solo para o Major Tom
Controle de solo para o Major Tom
Tome suas pílulas de proteínas e coloque seu capacete

Controle de solo para o Major Tom
(10, 9, 8, 7)
Iniciando contagem regressiva, motores ligados
(6, 5, 4, 3)
Checar ignição e que o amor de Deus esteja com você
(2, 1, levantar voo)

Aqui é o controle de solo para Major Tom
Você realmente conseguiu
E os jornais querem saber que camisas você usa
Agora é hora de sair da cápsula se conseguir

Aqui é Major Tom para o controle do solo
Estou passando pela porta
E flutuando de um jeito muito peculiar
E as estrelas parecem bem diferentes hoje

Pois aqui estou eu, sentado nesta lata
Bem acima do mundo
O planeta Terra é azul e não há nada que eu possa fazer

Apesar de estar além das cem mil milhas por hora
Estou me sentindo bem parado
E acho que minha nave espacial sabe para onde ir
Diga pra minha mulher que eu a amo muito, ela sabe

Controle de solo para Major Tom
Seu circuito pifou, tem algo errado
Está me ouvindo, Major Tom?
Está me ouvindo, Major Tom?
Está me ouvindo, Major Tom?
Está me

Aqui estou eu, flutuando em volta da minha lata
Bem acima da lua
O planeta Terra é azul e não há nada que eu possa fazer  

segunda-feira, 29 de maio de 2017

EU, DELATOR



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
Bach - Ária da "Paixão Segundo São Mateus" - BWV 244 -Erbarme Dich
https://www.youtube.com/watch?v=BBeXF_lnj_M


"Cria em mim, Senhor, um coração puro,
e renova dentro de mim um espírito inabalável."
(Bíblia, Salmos 51:10)


     Vi minha irmã conversando com um rapaz em frente ao cinema e fui dizer aos meus pais que ela estava namorando (sem que estivesse). Eu só queria fazer o circo pegar fogo - e a história era um prato cheio para as guerrinhas que acontecem entre irmãos. Como ela era ainda muito jovem, ouviu uma baita lição de moral e ainda foi punida com uma bronca terrível. E eu, hoje pensando no caso, lembrei que ainda tenho o crédito de uma premiação - que na época não recebi. Estávamos no final dos anos 60, e eu tinha meus nove ou dez anos de idade. Com o meu gesto - reconheço - acabara de me tornar um delator. 

     Sempre que ouço falar em delação o primeiro nome de que me lembro é o de Judas Iscariotis: por algumas moedas de prata ele entregou Jesus Cristo aos soldados romanos. No final, arrependido, suicidou-se.


Giotto1
"Beijo de Judas" - 1303/1305 - Giotto
Fonte: https://janeaustenrunsmylife.wordpress.com/2013/03/

     Antes de Judas, antes ainda do nascimento de Jesus Cristo, Brutus já havia traído Júlio César (o imperador romano) e conspirado para o seu assassinato. Brutus tem, assim, a fama de ser o primeiro traidor da história. Suicidou-se, no final.

     Muitos outros traidores apareceram por aí. Lembro-me de alguns.

     Augusto Pinochet traiu Allende no Chile. Foi acusado da prática de diversos crimes, sofreu infarto em prisão domiciliar, e morreu de parada cardíaca.

     Himmler, chefe da polícia nazista, tentou negociar a rendição da Alemanha aos aliados na segunda guerra. Tendo sido um dos responsáveis pela política de aprisionamento em campos de concentração e eliminação em massa, foi considerado criminoso. Também se suicidou.

     Tommaso Buscetta, que na década de 80 buscou refúgio aqui no Brasil, entregou o esquema da máfia na Itália. Como recompensa ganhou proteção especial e um dinheirão: morreu de câncer. No entanto, a máfia não deixou por menos: acabou com a vida de muitos de seus familiares.

     Na história do Brasil há dois "grandes" traidores: Calabar e Joaquim Silvério dos Reis.

     Quando os holandeses, na condição de invasores, aqui estiveram no século XVII, Domingos Fernandes Calabar os auxiliou em suas conquistas. Foi, por isso, taxado de traidor da pátria (apesar de alguns historiadores interpretarem seu envolvimento com os holandeses de forma diferente). Morreu na forca. Seus restos mortais foram esquartejados e espalhados em praça pública - assim como, futuramente, viriam a ser os restos mortais de Tiradentes.

     Joaquim Silvério dos Reis, na Inconfidência Mineira do século XVIII, para escapar de suas dívidas com a Coroa portuguesa, delatou seu amigo Tiradentes e todos os demais inconfidentes. Como premio ganhou do governo português pensão vitalícia e perdão por todas as dívidas.

     Com a deleção premiada, muito em voga hoje em dia, o investigado (ou acusado) ganha legalmente a oportunidade de tirar para si algum proveito: confessa um crime, delata os envolvidos, traz provas e novidades. Com isso é premiado com a redução dos danos na pena que lhe for aplicada.

     Não coloco em questão os méritos ou deméritos desta lei (Lei 12850/13)Mas entendo que ela ajuda muito na persecução criminal. Como consequência, a traição no Brasil passou a ganhar novos adeptos. Nomes como Roberto Jefferson, Delcídio do Amaral, Nestor Cerveró, Paulo Roberto Costa, Alberto Youssef, Marcelo Odebrecht, Joesley Batista e Ricardo Saud entraram para essa lista. E muitos outros também estão sinalizando interesse em engrossar esse caldo.

     Com tanta gente assim, a traição ficou banalizada. Surge um novo traidor-delator a cada dia. Tantos que Silvério dos Reis, que até há pouco ostentava o título de maior traidor do Brasil, corre o risco de perder essa sua posição de unanimidade no rol de nossos "gloriosos" traidores.

     A redução dos danos da pena aplicada aos crimes praticados por delatores pode ocorrer. No entanto estou certo de que a culpa e a pecha de traidor-delator vai acompanhá-los intimamente pelo resto de suas vidas - assim como eu, que mesmo tendo recebido o perdão de minha irmã por aquela delação ocorrida há cerca de cinquenta anos, ainda hoje carrego no fundo da minh'alma o remorso, o peso e a vergonha de um dia ter sido um delator.

     Daí que, na esperança de ainda receber uma premiação pelo crédito de delator que tenho, e inspirado no Salmo 51:10 da Bíblia, peço a minha recompensa:

    - "Cria em mim, Senhor, um coração puro, e renova dentro de mim um espírito inabalável".

sábado, 20 de maio de 2017

ROSEMARIE



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Rosemarie" - Flying Machine)
https://www.youtube.com/watch?v=_vGFQXo2O98


Maninha,

     Da última vez que te vi você estava arrasada. Você chegou perto de mim em prantos. Sofria uma dor de amor que não tinha tamanho. Eu nada pude fazer senão te dar um abraço de amigo e te ouvir... ouvir o pouco que você conseguia dizer em soluços. Você não percebeu mas chorei suas lágrimas juvenis com minhas lágrimas adultas acobertadas por palavras que não consegui dizer.

     Compreendo o quanto foi doído para você. Em especial por ter acontecido em uma fase tão cheia de sonhos e idealizações em sua vida. E você, ainda tão jovem, tanta coisa pela frente...

     Imagino o quanto ainda esteja sofrendo. Sei que doeu. Doeu porque veio acompanhado de decepção, da sensação de ter sido trocada, de ter sido deixada de lado por alguém que não aprendeu a te conhecer. Doeu porque as decepções vão nos aproximando da natureza humana - e enxergar fundo dói.

Crying Girl by sas117
(Foto: http://sas117.deviantart.com/art/Crying-Girl-217104390)

     Ao mesmo tempo foi bom que tivesse acontecido, que tudo tivesse aparecido de forma clara. Amar é bom, mas é necessário que o amor venha acompanhado de reciprocidade, de admiração, de companheirismo... e requer tempo. O amor unilateral não faz sentido.

     Se tudo terminou é porque não valia a pena.

     Não vejo mais nenhum sentido em saber que você continua triste.

     Que tal então, Maninha, atender o pedido tão bonito, antigo e atual do "Flying Machine" em "Smile a little smile for me"? Volte a sorrir; me diga que voltou a sorrir. É um recomeço! Seu coração entenderá. Os olhos, ao refletirem esse esboço de esperança, vão ficar carregados do brilho e da alegria que são o retrato do seu encanto. 

     Te envio daqui um beijo: um beijo desse seu amigo de cabelos brancos que muito te admira, te quer bem, e quer te ver sempre feliz.

     Elias


Smile A Little Smile For Me
You really should accept
This time he's gone for good
He'll never come back now
Even though he said he would
So, darling, dry your eyes
So many other guys
Would give the world I'm sure
To wear the shoes he wore

Oh, c'mon smile a little smile for me, 
Rosemarie
What's the use in cryin' ?
In a little while you'll see, Rosemarie
You must keep on tryin'

I know that he hurt you bad
I know, darling, don't be sad and
Smile a little smile for me, Rosemarie, Rosemarie
I guess you're lonely now
Love's comin' to an end
But, darling, only now
Are you free to try again
Lift up your pretty chin
Don't let those tears begin
You're a big girl now
And you'll pull through somehow

Oh, c'mon smile a little smile for me, Rosemarie
What's the use in cryin'?
In a little while you'll see, Rosemarie
You must keep on tryin'

I know that he hurt you bad
I know, darling, don't be sad and
Smile a little smile for me, Rosemarie, Rosemarie
Smile a little smile for me, Rosemarie, Rosemarie

Dê um pequeno sorriso para mim

Você realmente deveria aceitar
Desta vez ele se foi de vez
Agora ele não voltará mais
Embora ele dissesse que voltaria
Então, querida, enxugue seus olhos
Muitos outros rapazes
Dariam o mundo - estou certo
Para estar no lugar dele
Oh, vamos lá, sorria um sorriso para mim, Rosemarie
De que adianta chorar?
Em um momento você verá, Rosemarie
Você realmente deveria tentar

Eu sei que ele a machucou muito
Eu sei, querida, não fique triste e
Sorria um pequeno sorriso para mim, Rosemarie...

Eu acho que você está solitária agora
O amor chegou a um fim
Mas, querida, somente agora
Você está livre para tentar novamente
Levante esse belo queixinho
Não deixe as lágrimas começarem
Agora você é uma garota crescida
E você sobreviverá de alguma maneira

Oh vamos lá sorria um sorriso para mim, Rosemarie
De que adianta chorar?
Em um momento você verá, Rosemarie
Você realmente deveria tentar

Eu sei que ele a machucou muito
Eu sei, querida, não fique triste e
Sorria um pequeno sorriso para mim, Rosemarie...
Sorria um pequeno sorriso para mim, Rosemarie...


quinta-feira, 4 de maio de 2017

BELCHIOR: TUDO OUTRA VEZ


ESCLARECIMENTO INICIAL:
Com a morte do Belchior fiquei me lembrando de uma noite, há muitos anos, quando, após uma apresentação sua, fui ao camarim e pude conversar rapidinho com ele. Dessa conversa guardei a impressão de que havia estado diante de um intelectual, um homem inquieto, que precisava estar em constante mudança para poder ser feliz. Não estranhei quando, em 2009, a mídia noticiou seu sumiço e posterior localização em uma pousada no interior do Uruguai: para mim, ele ainda andava em busca de sua felicidade. Agora, com sua morte, imaginei-o ainda solto pelo mundo, mas comunicando-me que, em algum momento, havia se encontrado. Nesse comunicado fictício que me faz, por carta, ele conta que está voltando para suas raízes -  onde assumidamente pode se encontrar e ser  feliz.


(Fonte - http://www.controversia.com.br/blog/2016/09/18/o-belchior-que-a-critica-vulgar-nao-viu/)


Paris, Maio de 2017

Meu querido amigo:

     O tempo passou mais depressa do que eu imaginava. Passou voando. Ele - o tempo - deveria ter piedade de nós e tratar de nos dar mais tempo para podermos compreender cada manifestação de vida, de cultura e arte que surge em nosso caminho. Pois mesmo depois de tantos anos, parece que foi ontem que deixei o Brasil para poder me procurar aqui na Europa. 

     Com o carinho de alguém que tem saudade de um amigo distante, enviei a você muitas mensagens e fotos via whatsapp. Passei a maior parte dos meus dias aqui em Paris, mas, não resistindo à proximidade dos locais em relação às nossas distâncias brasileiras, rodei por Versalhes, Rennes, Marselha, e outras cidadezinhas francesas, estendendo ainda as viagens para Florença, Barcelona, Bruxelas, Bruges, Amsterdã, Haia, Londres, Berlim, Viena, Budapeste, Praga, Atenas e muitas outras. 

     Todas as coisas que vi e fiz durante essa procura agora moram apenas nas minhas lembranças. O Portão de Brandemburgo, o museu da Anne Frank, as conversas na livraria em frente à "Science Po", as ruas de Bruges, o Partenon em Atenas, a cidade de Paris vista das escadarias de Sacre-Coeur, os vendedores ambulantes nas imediações da Torre Eiffel, os percursos de bicicleta do studio onde me hospedei até à universidade, as pessoas nas ruas, os artistas em frente aos pontos turísticos, as conversas com amigos e tudo o que vi estão comigo estando eu onde estiver.

     Há poucos dias, me procurando sozinho pela República Tcheca, vi o sol nascer de uma poltrona de ônibus. Pela janela, margeando a estrada estreita, um imenso campo de girassóis encheu o meu coração de verde e amarelo, de alegria, de encanto - e de saudade do Brasil.


(Fonte: http://lifeglobe.net/entry/7418)


     Promover buscas por intermédio de viagens é muito bom; porém fica melhor ainda quando temos alguém com quem compartilhar a emoção que sentimos no exato instante em que vemos algo que nos toca e nos transforma. A gente, assim, feito exilado, tem muito tempo para ficar pensando. E, se pensamos com o coração, descobrimos o valor e o sentido de nossas raízes, da família, dos amigos, e ainda "de quebra" podemos pelo menos tentar traçar nosso próprio destino. Pois foi nesse despertar que senti que era hora de voltar.

     Outra noite, depois disso, ainda aqui em Paris, bebendo e ouvindo música com um grupo de brasileiros, falando sobre distâncias e ausências, buscas e perdas, a saudade bateu forte. Precisava mesmo retornar ao meu país - à minha identidade. Como em um insight, o papo idealista de brasileiros em uma pequena sala estrangeira me despertou e me mostrou que, mesmo com tantas procuras, há um tempo em que a vida nos chama para nos aquietarmos em nosso lugar - e que o universo maior não é físico.

     É certo que andei perdido. Hoje sei que dentro de mim está todo o universo, e que somente em mim mesmo posso me encontrar. Pois então escrevo para te contar que estou voltando. Que preciso voltar. Chego no dia vinte, sexta-feira, onze da manhã, em Guarulhos. Gostaria de te ver logo no desembarque. Quero poder te abraçar, conversar contigo, te mostrar minhas novas composições, e ouvir de ti suas impressões a respeito delas.

     Por ora, distante e com frio, fico na expectativa de podermos nos rever. Receba um grande abraço meu com o entusiasmo de um homem que, despertando de um longo desencontro, aos setenta anos se sente renascer.

     Belchior

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(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
ACOMPANHANDO A LETRA)
"Tudo outra vez" - Belchior
fonte: https://www.youtube.com/watch?v=uUiycm1Mi-I

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TUDO OUTRA VEZ
(Belchior)

Há tempo muito tempo que eu estou longe de casa
E nessas ilhas cheias de distância
O meu blusão de couro se estragou
Ouvi dizer num papo da rapaziada
Que aquele amigo que embarcou comigo
Cheio de esperança e fé, já se mandou

Sentado à beira do caminho pra pedir carona
Tenho falado à mulher companheira
Quem sabe lá no trópico a vida esteja a mil
E um cara que transava à noite no "Danúbio azul"
Me disse que faz sol na América do Sul
Que nossas irmãs nos esperam no coração do Brasil

Minha rede branca, meu cachorro ligeiro
Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro
O fim do termo "saudade" com o charme brasileiro
De alguém sozinho a cismar
Gente de minha rua, como eu andei distante
Quando eu desapareci, ela arranjou um amante
Minha normalista linda, ainda sou estudante
Da vida que eu quero dar

Até parece que foi ontem minha mocidade
Com diploma de sofrer de outra Universidade
Minha fala nordestina, quero esquecer o francês
E vou viver as coisas novas, que também são boas
O amor/humor das praças cheias de pessoas
Agora eu quero tudo, tudo outra vez

Minha rede branca, meu cachorro ligeiro
Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro
O fim do termo "saudade" com o charme brasileiro
De alguém sozinho a cismar
Gente de minha rua, como eu andei distante
Quando eu desapareci, ela arranjou um amante
Minha normalista linda, ainda sou estudante
Da vida que eu quero dar

sábado, 15 de abril de 2017

CÍCERO DIAS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(GLÜCK - Orfeo ed Euridice - flauta: Jean Pierre Rampal)


"Eu vi o mundo... ele começava no Recife"
(Cícero Dias)


     Foi assistindo "A Coleção invisível"*, no final do ano passado, que Cícero Dias passou a existir para mim. No filme, um velho fazendeiro (Walmor Chagas) que havia perdido a visão era possuidor de uma valiosa coleção de gravuras de Cícero Dias. Ao ser visitado por um rapaz, o velho fazendeiro procurou mostrar e descrever a ele, com os olhos da memória, cada uma de suas gravuras. Com a consciência do valor e a paixão que nutria pelo seu acervo, ele olhava, vibrava e descrevia com encanto sobrenatural o tesouro que tinha - ou que um dia teve. 

A coleção invisível, um dos filmes brasileiros mais puros que já vi. Quem gosta de arte deve assistir. #arte #colecionador
(Walmor Chagas em "A Coleção Invisível" http://www.imgrum.org/user/betoandreao/175155986/1264183544453754613_175155986)

     Eu, particularmente, não conhecia o trabalho de Cícero Dias. Foi a partir do filme que o artista ganhou vida e existência para mim. Eu, porém, nada fiz para conhecê-lo melhor: não pesquisei, não li, não fui atrás.

     Mas a vida tem seus acasos. E como tudo o que nasce requer tempo para sua descoberta e seu devido amadurecimento, em uma viagem a Brasília tive oportunidade de me deparar com a obra do artista em exposição no "Centro Cultural Banco do Brasil". Fui vê-la. 


(Entrada da exposição - foto: arq. pessoal)

     Natural do Recife, Cícero Dias iniciou estudos de pintura e arquitetura no Rio. Não os concluiu. No Rio, em 1931, apresentou "Eu vi o mundo... ele começava no Recife" - uma obra com registros de sexualidade explícita. Ousada demais para a época, a obra causou escândalo. Consequentemente, três dos seus quinze metros de desenho tiveram que ser cortados.

     No início do Estado Novo no Brasil, em 1937, o país estava marcado pelo cerceamento da liberdade de expressão. O artista, então, perseguido pela ditadura Vargas, ouviu sugestão de Di Cavalcanti, deixou o Brasil, e partiu para a França. Foi viver em Paris.

     Mas também na Europa as coisas não andavam bem. Logo após a sua chegada, durante a segunda guerra mundial (1938-1945), Cícero foi feito prisioneiro pelos nazistas. Por fim, acabou sendo libertado em troca de prisioneiros alemães. Mesmo com tudo isso, estando integrado à vanguarda artística europeia, o Brasil não deixou de ser sua grande inspiração - por toda sua vida, em toda sua obra.

     Foi curiosa a coincidência de, pouco tempo depois de ter assistido "A Coleção invisível" e ter me interessado pelo trabalho do artista, poder viajar para Brasília e visitar exposição "Cícero Dias: um percurso poético (1907-2003)". Fiquei com a ideia absurda e infantil de que a exposição havia sido preparada especialmente para mim - para que eu o conhecesse.

     Na exposição foram apresentadas 125 de suas obras provenientes de museus brasileiros e de coleções particulares espalhadas pelo mundo. Vi ali aquarela sobre papel, óleo sobre tela, muitas fotos, cartas e documentos.

(fotos e documentos de Cícero Dias - foto: arq. pessoal)

     Mas de tudo o que havia em exposição, o que mais me trouxe contentamento foi poder olhar atentamente para o "Engenho Noruega" - a ilustração feita por Cícero Dias, em 1933, para a primeira edição de "Casa Grande & Senzala". 

Cícero Dias, 1933 Engenho Noruega (sugar cane mill where the artist was born) Pernambuco, BR
(Cícero Dias - "Engenho Noruega", 1933 
https://br.pinterest.com/aldorgm/farms-engenhos-e-fazendas/)

     Essa ilustração traz, com riqueza de detalhes, a vida na Casa Grande - e também na Senzala. Ao vê-la exposta na parede tirei muitas fotos e fiquei parado em frente a ela, abobado, olhando com desejo de reter o tempo e apontar, comentar e discutir com todos que passavam diante da ilustração, o quão maravilhosa e rica ela é - aquela ilustração da vida rural brasileira em um tempo que já se vai longe, mas que ficou guardado para sempre em virtude do talento do Cícero Dias - e, ainda, que expõe visualmente ao mundo, nos "Casa Grande & Senzala", a leitura que Gilberto Freyre fez da formação sociológica do Brasil.

     Cícero Dias é um artista brasileiro que merece ter seu trabalho divulgado e estudado com maior intensidade.     


(CLIQUE NA SETA PARA CONHECER UM POUCO MAIS 
DE CÍCERO DIAS)
(https://www.youtube.com/watch?v=snkY-kMrqcY&t=14s)

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*"A Coleção Invisível" - Brasil, 2013. Drama. Dir.: Bernard Attal