terça-feira, 29 de março de 2011

A MULHER EM TRÊS CECÍLIAS


("Retrato de Jeanne Hébuterne com chapéu grande" - Modigliani, 1917 - fonte:  http://amedeo-modigliani.paintings.name/hebuterne-straw-hat.php)

     A beleza feminina pode nos levar a sensações diferentes. Sensações e idealizações. Penso nisso ao relacionar três Cecílias conhecidas, da música e da literatura.

     A beleza dócil, que traz pureza e dependência à imaginação, está na Cecília do José de Alencar: a Cecy, do Pery. De tão meiga e pura foi objeto de cobiça masculina e desencadeou sequestros e envenenamentos. A cobiça, porém, não junta forças para unir. E foi o Pery, protetor da Cecy, quem amparou sua fragilidade, conduzindo-a mata adentro, pela vida adentro - como que a conduzir o europeu, simbolicamente, para dar início a um convívio pacífico entre índios e europeus. (Carlos Gomes, em música, traduziu muito bem essa jornada na segunda parte da abertura de "O Guarani")

     A uma Cecília assim, do século XVII, que guarda a impossibilidade de ser dona da vontade própria, que precisa de alguém para lhe indicar o caminho, contrapõe-se uma outra Cecília, fugaz, inconsequente, livre e instável, que coloca o homem inquieto diante dos seus impulsos; que, em seguida e após um desacerto, volta atrás e ama-o novamente - conforme a “Cecilia” descrita por Paul Simon em música de sua autoria.

Cecilia (Paul Simon)
 Cecilia, you’re breaking my heart, you’re shaking my confidence daily
Cecília, você está partindo meu coração, você está sacudindo minha confiança diariamente
Oh, Cecilia, I’m down on my knees, I’m begging you please to come home - come on home
Oh Cecília, estou de joelhos, estou implorando por favor volte prá casa - volte prá casa
Making love in the afternoon with Cecilia up in my bedroom
Fazendo amor à tarde com Cecília, lá no meu quarto
I got up to wash my face, when I come back to bed someon’s taken my place
Eu me levantei para lavar o meu rosto, quando voltei prá cama alguém havia tomado meu lugar
Jubilation, she loves me again, I fall on the floor and I’m laughing
Que grande alegria, ela me ama novamente, eu caio no chão e me deito rindo


     Além das duas Cecílias, a frágil/dependente e a instável/impulsiva, há uma outra que me parece um grande mistério, que inspira monólogos silenciosos; uma Cecília inatingível, que pode reagir de forma inesperada porque é desconhecida, sendo ou não forte ou frágil, que é observada, somente observada, para que o diálogo não a traga à realidade, como a “Cecília” do Chico Buarque e do Luiz Cláudio Ramos. A essa Cecília nada pode ser dito, pois ela precisa ser inacessível para que seu encanto não seja desfeito.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Video: "Cecilia" - Chico Buarque e Luiz Cláudio Ramos)

Cecília (Luiz C. Ramos/Chico Buarque)
Quantos artistas Entoam baladas Para suas amadas Com grandes orquestras
Como os invejo Como os admiro Eu, que te vejo E nem quase respiro
Quantos poetas Românticos, prosas Exaltam suas musas Com todas as letras
Eu te murmuro Eu te suspiro Eu, que soletro Teu nome no escuro
Me escutas, Cecília? Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença Palavras são brutas
Pode ser que, entreabertos Meus lábios de leve Tremessem por ti
Mas nem as sutis melodias Merecem, Cecília, teu nome Espalhar por aí
Como tantos poetas Tantos cantores Tantas Cecílias Com mil refletores
Eu, que não digo Mas ardo de desejo
Te olho Te guardo Te sigo Te vejo dormir


     E então, das três, qual retrata a mulher ideal?

     Prá mim, nenhuma. Prefiro que em cada mulher resida um pouco de cada uma das três Cecílias - e de tantas outras Cecílias. Que, nessa Cecília idealizada, resida a mulher frágil, a independente, a misteriosa... E que as três Cecílias (e tantas outras mais) coexistam e se despertem, em cada momento apropriado, em uma Cecília só... Mas essa ainda não foi nem escrita e nem cantada...


RP, 29mar2011  

sexta-feira, 25 de março de 2011

CONQUISTAS A DURAS PENAS


Depois de termos uma tartaruga misteriosa (Florentina) e um cachorro inquieto (Buck) morando em casa (na verdade, em apartamento), adotamos há mais de dez anos uma cachorrinha de raça não definida que vivia pelas ruas da cidade. Demos a ela o nome carinhoso de “Neguinha”. Dócil, porém esfomeada, está sempre nos rodeando humildemente à espera de qualquer coisa a mais para comer.

Não bastassem os dois primeiros animais que viveram em casa, mais a Neguinha que lá ainda vive, eis que um belo dia, chegando para almoçar, “dou de cara” com um passarinho em uma gaiola na janela da minha biblioteca. Sem saber que sua chegada iria acontecer, logo descobri pelos olhares dos meus filhos e da minha esposa que a intenção deles era de termos em casa, definitivamente, mais um bicho: uma calopsita branca de cabeça amarelada, provida de um grande penacho. Não me manifestei, não disse nada no susto do primeiro momento; mas já previa o sofrimento coletivo pelo curto período de tempo que o passarinho iria viver. Afinal a Neguinha já havia se postado diante da janela, “vigiando” atentamente cada movimento do mais novo morador do apartamento. Aos olhos dela aquele passarinho, que estava ali pendurado na gaiola feito um frango assado em forno de padaria, em nosso primeiro descuido seria uma bela refeição para sua fome incessante. A calopsita, para mim, estava com os dias contados... 

(Fonte: Meu arquivo pessoal - "O Pito", em cima da minha cama) 
  
        Sentando-me à mesa do almoço naquele dia, perguntei a respeito do passarinho, onde o haviam encontrado, como o haviam trazido para casa... Para minha surpresa fico sabendo que, em visita ao mercado, o passarinho foi comprado por noventa reais.

NOVENTA REAIS!! Fiquei muito chateado. Um baita desperdício!! Noventa reais por um bicho que não iria durar muito. Pelo menos a lógica me dizia isso.

 Naquele dia o almoço me desceu torto e engasgado. Noventa reais... Mas, os olhares dos meus filhos não me permitiram dizer o que eu estava de fato pensando. Aceitei calado o passarinho.

        Passados alguns dias, lendo sozinho na sala de casa sob os olhares atentos da Neguinha, ouço alguém assobiando bem perto de mim. Olhei espantado para a Neguinha, que levantou as orelhas ao perceber que alguma coisa estava acontecendo.

(Vídeo: Marcha militar, tema de "The Bridge Over Kwai River" (A ponte sobre o Rio Kwai - 1957, dir. David Lean, vencedor do Oscar de 1958)

         "Não, não poderia ser a Neguinha assobiando", pensei comigo mesmo. Afinal, cachorro não nasceu para assobiar.

        Para minha surpresa, vindo da minha pequena biblioteca, a calopsita em fortes e afinados pios, assobiava maravilhosamente, incansavelmente e repetidas vezes a música tema do filme “A Ponte do Rio Kwai”. Fiquei encantado! Noventa reais... Barato! achei “de graça” por aquela preciosidade. Não preciso dizer que, a partir daí, todos nós em casa passamos a assobiar “A Ponte do Rio Kwai” para inspirar o canto da calopsita.... aliás, do “Pito”, nome que a calopsita conquistou pelo seu belo canto.

        Mas, olhando aquele passarinho, tão frágil, tão afinado, e pensando na música “A ponte do Rio Kwai”, vejo uma grande incongruência. Ora, essa música é uma marcha militar. É algo que nos remete a soldados, a metralhadoras, a tanques de guerra, a prisioneiros construindo uma ponte, como no filme... Uma avezinha, tão frágil, assobiando algo que nos remete a algo tão bruto, tão pesado... Será que o Pito aprendeu aquela música para intimidar a Neguinha? Pode ser... Afinal, depois de algum tempo, o Pito acrescentou “Atirei o pau no gato” ao seu repertório. Penso que com isso estava dizendo à Neguinha que, além de estar armada militarmente com os soldados de ”A Ponte do Rio kwai”, também já havia dado pauladas em gatos... e que poderia muito bem fazer o mesmo com um cachorro....

Eta passarinho valente!

P.S.: O Pito já mora em casa há quatro anos.   

RP, 25mar2011

terça-feira, 22 de março de 2011

BARACK OBAMA: - "HELLO, BROTHER"

(Vídeo: "Hello Brother", Louis Armstrong)

     O assunto dos últimos dias foi a visita ao Brasil do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Todos os meios de comunicação ocuparam-se de informar-nos de seus passos e de seus gestos, desde sua chegada a Brasília no sábado até sua partida para o Chile. Ligo a televisão, sintonizo o rádio, leio o jornal, recebo a Veja, e o assunto é o Obama. Como não me detive muito no acompanhamento de seus compromissos, pelo menos nos meus sonhos ele não esteve. Mas, claro, uma personalidade tão importante que simboliza uma mudança significativa nos direitos civis do mundo todo, partindo de sua ascensão à presidência dos Estados Unidos, não deixou de ser aplaudida por mim também. Reconheço tudo o que ele representa nesses tempos de tantas transformações.

     Em seus discursos fez questão de afirmar que os Estados Unidos e o Brasil podem ser parceiros na consolidação da democracia; ainda, que o Brasil é um exemplo para o mundo, pois que aqui uma vítima de regimes ditatoriais, assim como um ex-metalúrgico, também tem hoje condição de chegar à posição honrosa de representante de todos os brasileiros.

     No teatro Municipal, no Rio de Janeiro, Barack Obama traçou paralelos entre os rumos de ambos os países, desde a independência, passando pela libertação dos escravos, até o estágio atual da democracia.

     Todos nós o aplaudimos, mesmo sabendo que nem sempre (aliás, quase nunca) a fala ao público de qualquer político corresponde verdadeiramente ao negócio tratado em recintos fechados, onde se cuida do respeito a interesses tendenciosos de cada parte. Claro que há divergências de posições e interesses diferentes entre ambas as nações. Mas é bom que haja mesmo, pois tudo conta para isso, desde a formação cultural de cada nação, os valores religiosos, forma de colonização, até e em especial a frieza do norte em relação à cordialidade aqui herdada.

     Independentemente de interesses econônicos ou diferenças culturais de ambas as nações é bom que tanto Obama quanto Dilma, como representantes de seus respectivos países, não se esqueçam de que a prioridade e o caminho da paz e da realização do homem ainda está em valores bem mais simples e comuns a todo ser humano, independente de origem, raça, convicção religiosa ou política. Nesse sentido já nos alertou o grande “Satchmo”, o Louis Armstrong, em “Hello Brother”.

     Eis a letra:

HELLO BROTHER
(Bob Thiele/George D. Weiss)

A man wants to work for his pay
A man wants a place in the sun
A man wants a gal proud to say
That she’ll become his loving wife
He wants a chance
To give his kids a better life
Well hello, ah, hello hello, brother

You can travel all around the world
And back
You can fly or sail or ride
A railroad track
But no matter where you go
You’re gonna find
That people have the same things
On their minds
OLÁ IRMÃO

Um homem quer trabalhar para ser remunerado
Um homem quer um lugar ao sol
Um homem quer uma garota
Para com orgulho dizer
Que ela vai tornar-se sua esposa
Ele quer uma chance
De dar aos seus filhos uma vida melhor
Bem, olá, olá irmão...

Você pode viajar pelo mundo todo
E de volta
Você pode voar ou navegar, ou viajar de trem
Mas não importa onde você vá
Você vai descobrir
Que as pessoas têm as mesmas coisas
Em suas mentes

     Se eu pudesse ser ouvido, a letra dessa música seria a mensagem que eu entregaria para ambos os presidentes - do Brasil e dos Estados Unidos.

quinta-feira, 17 de março de 2011

NO CÉU DE EXUPÉRY


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Pink Floyd - "Us and them")


Sempre que estamos sozinhos temos que, de alguma forma, enfrentar os pensamentos que involuntariamente nos vêm - em especial quando estamos em uma poltrona de avião, em fileira com poltronas individuais, como eu me encontrava na semana passada. Nessas situações ficamos olhando o nada, tentando nos desviar de pensamentos ruins, pensando em coisas insignificantes ou ainda tentando decifrar os estímulos que nossas mentes nos apresentam.

Pois eu, na situação em que estava, saí do avião com o olhar e fiquei olhando pela janelinha o que Deus me apresentava. Vi poucas núvens logo abaixo, num dia de sol que se seguia a vários dias de chuva. Além das núvens, uma imensidão de verde de vários tons e em formas geométricas distintas umas das outras, delimitadas por cursos de água ou pequenas estradas em linhas bem definidas; além das núvens um silêncio imperativo, sem a agitação dos homens, sem a trepidação das cidades... uma paz definitiva.

(Foto: chegando em Ribeirão Preto, vista aérea - feita por mim, em 10/03/11)

Viajando assim, nessa outra viagem que fazia... verde, chão, núvem, avião... fiquei pensando nas primeiras viagens dos aviadores, em aviões primitivos, sem instrumentos de alta precisão, traçando as primeiras rotas de voo, enfrentando toda sorte de riscos imagináveis. Situações assim viveu o Exupéry, piloto de correio aéreo (além de grande escritor), que fez sua última viagem - sem retorno - nos anos finais da segunda guerra mundial.

     Ele comentava, em uma de suas reflexões, a inversão do céu. Ele dizia que aqueles que se encontram na terra olham para cima e veem o céu azul, as estrelas cintilando, tudo em perfeita harmonia. Por sua vez, os pilotos de avião, assim como ele, quando olhavam para baixo, viam as luzes acesas das cidades e enxergavam em cada luzinha a possibilidade de uma família reunida, de alguém meditando, trabalhando, conversando... Na escuridão da noite de piloto de avião que geralmente viajava sozinho a cidade iluminada representava o seu céu, o seu ideal de constelação que harmoniosamente brilha, com gente sorrindo, com casais se amando, e com crianças brincando... 

 (Foto: cidade do Cairo, Egito - vista aérea - em http://surfwithberserk.com/the-view-from-space)

Nessas reflexões do piloto-escritor senti a valorização do pulsar da vida, face ao medo da morte...

E foi com pensamentos assim que, sem que tivesse me dado conta, o avião pousou...  no céu do Exupéry, no solo de São Paulo.


RP, 17MAR2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

UM CERTO TIPO DE ALIMENTO

(Video: "Que teus olhos sejam atendidos" - viagem de pesquisa por Luiz Fernando Carvalho ao Líbano - parte 01)

Sexta-feira, final de tarde:

Sem qualquer identificação ou salamaleque, de uma forma direta e objetiva, recebo um telefonema do meu amigo Maan, libanês puro sangue:
        - Vamos tomar um café !
        Já o reconheço pela voz. Já sabemos de antemão o local, o qual confirmamos.
        - “Quantos minutos?”, pergunto eu, já me virando e trancando a porta do escritório. Eu, com algum percentual de sangue árabe, sei que é para no máximo dez minutos até a minha chegada para uma xícara de café que nos junte em uma mesa por pelo menos uma hora.
        Há tempos não conversamos. Mas, pronto... Um sorriso, um abraço, como se tivéssemos nos encontrado naquele mesmo dia, e a conversa flui...
        Sei que é assim, sei que é bom que seja assim e que se mantenha assim. Falamos de literatura, de raízes árabes, e de música. Em especial, mesmo sabendo que nem sempre nosso entendimento representa o consenso geral, falamos de etimologia e coisas difíceis de explicar. Mas, espiritualizados pelo café, logo achamos uma explicação para tudo. 
        Como fazemos eu e o Maan em nossas conversas, vi que o Khalil Gibran também explica; certamente com muito mais convicção do que nós. Numa carta para seu amigo Youssef Howayek, escrita em Boston no ano de 1911, (do livro “Auto Retrato de Khalil Gibran”), o Gibran explica a vida dos indivíduos orientais:
               
“Minha irmã está junto a mim e os amados parentes estão à minha volta, aonde quer que eu vá, e as pessoas nos visitam todo dia e toda noite, mas não me sinto feliz. Meu trabalho progride rapidamente, meus pensamentos são calmos e estou gozando de perfeita saúde, mas continuo carente de felicidade. Minha alma está faminta e sedenta de um certo tipo de alimento, porém, não sei onde achá-lo. A alma é uma flor celeste que não pode viver na sombra, mas os espíritos podem existir em qualquer lugar. Essa é a vida dos indivíduos orientais. São afetados pela obsessão das belas artes. Essa é a vida dos filhos de Apolo*, que estão exilados nesta terra estranha, cujo trabalho é estranho, cujo andar é vagaroso e cujo riso é um lamento.”

*Apolo – entre os gregos, deus da luz, do Sol, da força, da música, das artes, e ainda deus que simboliza o equilíbrio, a ordem, a harmonia, a claridade.


            Pensando bem, acho que o Maan e eu estamos assim, como o Gibran.

RP, 11mar2011


quarta-feira, 9 de março de 2011

ALGUÉM CANTANDO

(Foto: Piscina do clube, com varanda e salão ao fundo - foto de 1973, recuperada com alguns defeitos)



"Sempre achei que quem viveu no interior está mais aparelhado para ver direito o Brasil. Nas cidades pequenas é que aprendemos a sentir de perto o vizinho, o pobre, o rico, o roceiro, o safado, o honesto, o desinteressado, o aproveitador, porque todos estão ao alcance do olhar e da informação, no ombro a ombro de cada dia."
(Antônio Cândido, no prefácio de "O Menino de São Benedito" - livro de crônicas de Luis Nassif, editora SENAC)


     Inevitavelmente, nesses dias de carnaval, somos remetidos a carnavais de outros tempos. Carnaval de cidade pequena, de bailes no clube... Revendo esses carnavais, revejo também o salão, a disposição das mesas, os lustres, as máscaras coladas nas paredes, e em especial o palco do clube da minha cidade. E ao rever isso, revejo também o Paulinho, um amigo muito admirado, com alguns anos a mais do que eu, e que vivia falando de música, de acordes e instrumentos musicais. Fomos amigos e colegas de sala numa fase especial em uma escola técnica; isso nos primeiros anos da década de 70. O Paulinho, na época namorando a C., apaixonadamente – pelo menos assim eu os percebia - foi componente de uma banda que abrilhantava bailes nas cidades da região. Tocavam muita música pop e ritmos dançantes para as últimas seleções da madrugada. Com muita freqüência a banda fazia bailes em Guará. Era bom, aos sábados, ir ao clube, jogar pinque-pongue, e ficar ouvindo através das portas fechadas, no início da tarde, o “conjunto” (a banda) ajustar o som em preparação para o baile da noite.

(Os Mongóis: "uma banda que abrilhantava os bailes" - foto: postada no facebook por Cleuza M. Teixeira)
 
     Uma vez, tendo o grupo já terminado seu ensaio, cheguei no clube e ouvi a voz do Paulinho pelas caixas de som, cantando sozinho, acompanhado somente de violão. Estranhei bastante aquela mudança, pois o estilo não era, em absoluto, o estilo do “conjunto”. Forcei um pouco a porta de entrada e, pela fresta, não vi ninguém no salão; no palco, sozinho, em um banquinho, somente ele debruçado no violão. Fiquei olhando seu jeito de tocar e cantar, e percebi que tinha o rosto voltado para o lado da piscina do clube. Ele parecia querer transpor a porta por intermédio de sua voz, transmitir uma mensagem e ao mesmo tempo captar, em quem ouvia, a emoção que aquela mensagem transmitia. Pensando nisso, olhando alternadamente e simultaneamente em direção ao palco e à piscina, notei poucas pessoas por ali. Mas a presença da C., namorada dele, deitada sozinha na beira da piscina, com o rosto voltado para o lado do salão de onde vinha o som, chamou-me à atenção. Eles pareciam estar se comunicando por intermédio da música. Aquele namoro à distância, por som de caixas acústicas, sem olhares, foi alguma coisa envolta em muita poesia. Sem ser percebido, ouvindo o Paulinho cantar, fiquei olhando para um e para outro, ele no palco, ela na piscina, e pensando no que o destino estaria guardando para eles...
     Da quela música, não me esqueci: "Você é linda", Roberto Carlos. 

(Clique e ouça a música)
(Video: "Você é Linda", do Roberto e do Erasmo, 1972)

     Pouco tempo depois, estavam casados. 


(Casamento - Paulinho e Cleuza - foto postada no facebook por Cleuza M. Teixeira)


 (Paulinho e Cleuza com a filha - foto postada no facebook por Cleuza M. Teixeira)

     Eis a letra.
VOCÊ É LINDA
(Roberto e Erasmo Carlos)

Você veio sorrindo não sei bem de onde
Um jeito tão puro de quem no futuro espera
O sorriso de alguém
Seu vestido sem curvas seu sonho guardando
Eu fico pensando no dia em que o sonho vier
Sua vida enfeitar
Não sei quem você é nem de onde você vem
Só sei que você é tão linda esperando neném
Esperando neném
Espero que tenha sido com muito amor
E seja quem for há de achar também você tão linda
Esperando neném
Seus desejos serão todos satisfeitos
Importante é que você saiba esperar
Sua voz ensaia a canção que um dia
Muitas vezes com ternura vai cantar
Você vive pensando que nome vai ter
O amor que do seu
Próprio amor vai nascer
E esse amor você nos braços vai ter
Não sei quem você é, nem de onde você vem
Só sei que você é tão linda esperando neném
Esperando neném
Espero que tenha sido com muito amor
E seja quem for há de achar também você tão linda
Esperando neném
Não sei quem você é, nem de onde você vem
Só sei que você é tão linda esperando neném
Esperando neném
Espero que tenha sido com muito amor
E seja quem for há de achar também você tão linda
Esperando neném
Tão linda
Esperando neném
Gordinha
Tão linda, tão linda
Esperando neném

RP, 07MARÇO2011

domingo, 6 de março de 2011

"JUST FOR TODAY" - GEORGE HARRISON

(Video: "Just For Today" - George Harrison; do CD "Cloud Nine" - 1987) 
(CLIQUE PARA OUVIR)

     Colocando para ouvir o CD “Cloud Nine” do George Harrison (1987), parei tudo o que estava fazendo para compreender a mensagem da letra de uma das músicas do disco: JUST FOR TODAY. Ouvi-a uma, duas, três vezes seguidas, pensando no que poderia ter inspirado o George a compor algo tão bonito, em um disco tão bem trabalhado.
     Passei a procurar maiores informações da época dos Beatles, e em especial da vida do George. Queria ir além do que da vida dele já é conhecido. Mas o George, não permitindo a invasão de sua privacidade, manteve reservas inclusive em relação à sua morte e ao seu sepultamento. Aliás, o corpo do George não foi sepultado, mas sim cremado. As cinzas, resultantes da cremação, foram espalhadas em um rio da Índia.
     George, que viveu 58 anos, teve dois irmãos e uma irmã (Peter, Harry, Louise). Na sua família o câncer foi impiedoso: sua mãe morreu em 1970, aos 58 anos de idade; em 1978, aos 70 anos, seu pai; nos anos 90 Harry (irmão), e em 2007 Peter (irmão) - todos de câncer.
     Louise, a irmã, dirige um hotel e é atuante pelas causas ambientalistas. 
     Talvez por conhecer estudos relativos a problemas de câncer, e por ter enfrentado isso por algum tempo, o George tenha optado por querer valorizar a vida a cada novo dia, como se cada dia fosse o último e o mais importante. Penso que ele deve ter assimilado isso após suas incursões na cultura indiana, em especial desenvolvendo meditação espiritual e transcendental.
     Talvez, em conseqüência dessas elaborações espirituais, George tenha feito com que haja em JUST FOR TODAY um alerta para que não deixemos que nossos problemas dominem nossas vidas e façam de nós pessoas tristes ou solitárias. Nas palavras do George, de forma ampliada, precisaríamos tentar viver um dia de cada vez, sem termos que lidar com todos os problemas da vida de uma só vez.

     Eis aqui a letra: 


Just For Today  (George Harrison)

Just for today
I could try to live through this day only
Not deal with all life's problems
Just for today

If just for one night
I could feel not sad and lonely
Not be my own life's problem
Just for one night

If just (for) today
I could try to live through this day only
Not deal with all life's problems
Just for today

If just for one night
I could feel not sad and lonely
Not be my own life's problem
Just for one night

Just for today
I could try to live through this day only
Not deal with all life's problems
Just for today

Just for today
Apenas Por Hoje

Apenas por hoje
Eu poderia tentar viver esse dia apenas
Sem lidar com todos os problemas da vida
Apenas por hoje

Se por apenas uma noite
Eu pudesse não me sentir triste ou solitário
Não me tornar o meu próprio problema de vida
Apenas por uma noite

Se apenas por hoje
Eu pudesse tentar viver esse dia apenas
Sem lidar com todos os problemas da vida
Apenas por hoje

Se por apenas uma noite
Eu pudesse não me sentir triste ou solitário
Não me tornar o meu próprio problema de vida
Apenas por uma noite

Se apenas por hoje
Eu pudesse tentar viver esse dia apenas
Sem lidar com os problemas da vida toda
Apenas por hoje

Apenas por hoje




(George Harrison - fonte: http://www.rockdequalidade.com/2011/06/documentario-sobre-george-harrison.html)

P.S.: Revendo essa música do George, por algum motivo e em correlação de idéias análogas, lembro-me da letra de NOITE DE PAZ da Dolores Duran. Nessa letra ela diz querer uma única noite [de paz] para que possa simplesmente descansar, sem esperança e sem sonho nenhum... Na verdade, o que parece incomodá-la, na letra, é a exigência de respostas imediatas a tudo, em frontal atropelo ao tempo natural que para tudo a vida requer.

A letra de NOITE DE PAZ está em http://letras.terra.com.br/dolores-duran/396860/