quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A FOTO DO MEU AVÔ


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
  (Jean Sablon - "J'attendrai", de Louis Poterat/Olivieri/Rastelli - 1933/1939)


"a facilidade com que hoje se tiram fotos 
é diretamente proporcional à facilidade 
com que nos esquecemos delas."
(João Pereira Coutinho (1))


     Imigrante sírio, meu avô paterno chegou no Brasil na primeira década do século XX. Falecido antes do meu tempo, não o conheci. Dos seus quatro irmãos, dois vieram para o Brasil, uma permaneceu em território da Síria (onde nasceu o Líbano em 1943), e o outro imigrou da Síria para a República Dominicana, no mar do Caribe (América Central).  

     Em visita a São Paulo, em agosto do ano passado, a Ana Cecília - uma das parentes dominicanas - trouxe-me de presente um registro fotográfico original de meu avô, o qual havia sido remetido a um primo seu por correio: elegantemente vestido em roupa clara, de botas, gravata e chapéu, calça presa por cinturão de couro com fivela de metal, ele segura o seu cavalo - meio de transporte do qual dispunha para mascatear tecidos, sabonetes, calçados, botões e lenços pelas fazendas e pequenos povoados.


("Meu avô" - 1922)

     No verso da foto, a data e uma pequena mensagem (literalmente transcrita abaixo): 

                    Guará, 15 de 9bro de 1922
                    querida sobrinho G.a
                    Envio como lembrança
                    a photo grafia seu tio
                    Elias A. Morun 

 (Anotações no verso da foto)
 
     Segurando a foto em minhas mãos, os pensamentos são inevitáveis: "Além da grafia original do remetente, há nela impressões digitais daqueles que nela tocaram... do meu avô que a enviou, de seu sobrinho que a recebeu, de tanta gente que não conheci, e de todos que a transportaram do papel para os olhos, e dos olhos para a memória... Há nela registros de tempo, de lugares e de pessoas."

     Antigamente as fotos eram irretocáveis, insubstituíveis - como irretocável e insubstituível é essa que ganhei. Velha, desgastada, amarelada, impressa em cartão fotográfico apropriado para a época, é um verdadeiro tesouro de família guardado para ser olhado, comentado e tateado de tempos em tempos.

     Navegando pela internet, vejo centenas de fotos maravilhosas sendo postadas todos os dias. São expressões faciais, sorrisos, famílias em festa, pessoas se abraçando, casas, lugares, cidades, carros, praias, copos, animais... Nunca foram tiradas tantas! Contudo, elas nunca tiveram tão pouco valor... Olhamos, "curtimos"... e passamos para a foto seguinte... 

     Em nossa memória parece não mais haver espaço para reter o que se foi. As fotos, em especial, têm permanecido frias e intactas, virtuais e descartáveis... na memória do computador. A qualquer momento, ou até mesmo nesse exato instante, poderão desaparecer por descaso nosso, vitimadas por apagões que o "sistema" está sujeito a sofrer. Assim, paradoxalmente com tantas fotos tiradas, corremos o risco de ficar sem as marcas e a memória do nosso tempo... . 

     Creio que ao olharmos uma imagem fotográfica antiga com os olhos, com as mãos e com o coração, o que nos humaniza, enche de saudade, esperança e contentamento, dando vida à nossa imaginação, não é a simples imagem impressa no papel, mas também, e especialmente, o contato físico com as impressões digitais vagas e imprecisas que na foto ficam gravadas para sempre. 



(1) Cronista do jornal "Folha de São Paulo". Crônica "Retratos de Famíla" - Caderno E8 Ilustrada - terça-feira, 07 de janeiro de 2014 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

ESSAS CASAS ANTIGAS...


(CLIQUE PARA OUVIR DURANTE A LEITURA)
("Revendo o passado", 1933, de Freire Júnior - violão: Baden Powell)


"A casa não é mais a mesma,
a casa não é mais casa,
é um grande navio que vai singrando o tempo
 que  vai embarcando e desembarcando gente no porto de cada domingo (...)"
(Rubem Braga, em "A casa viaja no tempo") 


     Toda casa guarda em si a lembrança daqueles que nela moraram. Em especial, dos seus primeiros moradores. Duas janelas, um pequeno portão de entrada, um alpendre, um jardim, árvores no quintal... Essa casa antiga, que vi em uma avenida movimentada, foi um dia projetada na mente de seu construtor. E foi erguida para abrigar uma família - que com ela sonhou.

("Essas casas antigas..." - foto: arq. pessoal - nov/13)

     Duas pequenas aberturas evidenciam a existência de um porão onde residem os segredos da casa. Seu piso muito provavelmente de madeira com tábuas longas - outrora sintecadas -, se ainda mantido, manifesta vidas vividas em suas marcas e estralos... É uma casa alta, com detalhes trabalhados em sua fachada. 

     Em outros tempos, certamente, em uma de suas janelas alguém se debruçava. Ficava olhando brincar as crianças na calçada... E ao vê-las, e ao ouvi-las, pensava no futuro que para elas poderia ser...

     Aos domingos, em cadeiras de descanso, do silêncio do alpendre, sentava-se e deixava a tarde passar. Pensava no que já havia realizado e no que ainda estava por realizar. 

     Nos dias de chuva via do alpendre os barquinhos de papel seguirem o curso de água nas sarjetas... "Quem os teria feito?", perguntava calado. Sonhava com longas viagens que não havia feito, mas que ainda poderiam ser... por seus filhos, porém. Os países do norte, a europa... 

     As árvores do quintal - provavelmente mangueiras... ou parreiras -, a cada ano, davam frutos que eram colhidos com cuidado para serem orgulhosamente distribuídos aos vizinhos. Estes retribuíam o carinho com bolinhos de chuva, suspiros, bom-bocados, doce de figo em calda... e sorrisos sinceros...

(Clóvis e Zezé, com uvas colhidas da parreira de seu quintal - foto postada pelo Clóvis no facebook - jan/14)

     Do jardim, as flores enfeitavam o olhar de quem passava pela calçada, assim como também enfeitavam a sala de estar onde a família recebia com café e sequilhos aqueles que os visitavam...

     Hoje transitamos pela avenida movimentada sem tempo ou vontade de olhar tudo o que aquela casa guarda... O senso comum parece ditar que "trata-se de um imóvel velho, acabado, desinteressante, que atrapalha a beleza fabricada pelo progresso..."

     Mas eu sou atraído por ela. Passo pela avenida e não consigo prosseguir sem parar para poder viajar em todos os seus detalhes. Assim, como testemunha do passar do tempo - que a casa é -, eu a vejo como uma antiga caravela ancorada no vasto oceano da cidade que se modifica. Casas assim têm personalidade; têm, nas paredes descascadas, uma história que as faz únicas... Elas guardam, em especial, as memórias da família que a construiu. São diferentes dos espaços frios, empacotados e despersonalizados que têm sido construídos por aí... onde moro eu, onde moramos todos nós, nessas cidades em linha reta vertical, pré-fabricadas, montadas, práticas... sem história, sem beleza, sem jardim, sem vida... e sem um quintal onde se possa plantar uma mangueira...