terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O BRASIL DO JOÃO GILBERTO - E O MEU


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(João Gilberto e Bebel Gilberto - "Diga", de V.Paiva e D.Batista)


A música do João é o retrato primoroso de um país pacificado.

O Brasil do João é simples, é dócil, é perfeito; 
o Brasil do João é garboso, é alegre, é vencedor; 
o Brasil do João é cordial, é carinhoso, é encantador. 

O Brasil da voz e do violão do João Gilberto é a representação absoluta da delicadeza que anda esquecida; é onde tem morada a semente da solidariedade. 

O Brasil do João é o país onde quero viver.

Divulgação
Foto: http://www.metropoles.com/entretenimento/musica/joao-gilberto-faz-85-anos-recluso-o-artista-alimenta-a-aura-de-mito

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

ABBEY ROAD RURAL


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("Mr. Moonlight" - com o DUOFEL)


     A capa do disco Abbey Road dos Beatles é célebre - como célebres são os Beatles. Nela, os componentes do "quarteto fantástico" atravessam Abbey Road, em Londres, em uma faixa de segurança.

Galeria - capa abbey road - abre
(Capa do Abbey Road - fonte: http://rollingstone.uol.com.br/galeria/45-anos-depois-entenda-os-misterios-por-tras-da-capa-de-iabbey-roadi/#imagem0)

     Minha amiga Guta publicou hoje de manhã, no facebook, uma leitura da famosa capa em versão rural: quatro galinhas atravessando o caminho da roça.

     Linda !

Resultado de imagem para quatro galinhas atravessando abbey road 
(imagem publicada pela minha amiga Guta no Facebook)
Fonte: https://www.pinterest.pt/ebalches/abbey-road/

     Adorei a publicação. Afinal, morro de amores pelos Beatles e também já tive o privilégio de atravessar a famosa rua pulando feito menino - e com o coração batendo forte.

(cruzando Abbey Road - foto: arq. pessoal - abril/15)

     Sou do interior; sou de Guará, uma cidadezinha onde há muitos caminhos de roça... e por muitos dos quais já passei - e os Beatles, fantasiosamente, também! Pois o Philippe Kientzler registrou muito bem o dia em que eles lá estiveram. Nesse dia os Beatles atravessaram uma das ruas da cidade - a Rua José Bonifácio, creio eu. Os que os viram dizem que eles - os Beatles - estavam procurando o João, o Manu, o Zé Américo e o Zé Rubens para irem tocar juntos com o Daniel - o Dié - lá no quintal de sua casa.

(O dia em que os Beatles estiveram em Guará - postada por Regina Coelho no facebook - arte de Philippe Kientzler)

     E como a travessia de Abbey Road, a travessia do caminho da roça, a minha travessia, e a travessia dos Beatles de uma das ruas de Guará foram feitas à luz do dia, faço essa postagem pensando na versão rural de "Mr. Moonlight*" gravada pelo Luiz e pelo Fernando (o DUOFEL)... e fico imaginando todas essas travessias sendo feitas sob a luz do luar... a luz do luar descrita nessa mesma canção...

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*"Mister Moonlight" (senhor luar) - é uma canção composta por Roy Lee Johnson que foi gravada pelos Beatles e lançada por eles no álbum "Beatles for Sale", de 1964.

domingo, 20 de dezembro de 2015

A ÁRVORE


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("White Christmas" - de Irving Berlin)

     A árvore, quando devidamente cultivada, cresce, ganha força e se desenvolve. Daquela sementinha que foi um dia um simples anseio sobe um tronco, abrem-se galhos, dependuram-se folhas e pendem dela os frutos. 

     Em gratidão ela retribui com sombra, beleza e energia. A um leve sopro de vento suas folhas dançam em movimentos desiguais, como que procurando acenar com alegria para aquele que a observa.

     Depois de crescida, independente da nossa existência ou atenção, a árvore permanece assim, altiva, deslumbrante - e necessária.

(Ipê Amarelo na Rodovia Anhanguera - foto: arq. pessoal)

     As vezes, de uma forma simbólica, não partindo de uma semente viva, uma árvore cresce, dá folhas, flores e frutos: planta-se um tronco de madeira morta e a árvore vai se formando em folhas de papel-cartão com frutos que vão chegando a ela em forma de mensagens escritas. O número de galhos e de frutos se faz na mesma proporção da consideração que temos pelas pessoas que passam pela nossa vida. Como os frutos nos alimentam o corpo, as mensagens nos alimentam a alma.

     O tronco morto é a semente pela renovação da amizade. Viajando de um endereço a outro chegam cartões em todas as cores e tamanhos, contendo mensagens manuscritas que vão se instalando ali, naquele tronco que um dia foi apenas um anseio. As mensagens traduzem a estação da vida de cada um dos remetentes. E àquele tronco são atadas fitas de cetim que simbolizam os galhos. Ao longo deles vão pendendo cartões, mensagens, saudações, relatos, poesias, histórias de vida, esperança, votos de saúde e de um Natal feliz.


(Minha mãe e sua árvore de amigos e mensagens)

     Todos os anos, desde o início do mês de Dezembro, minha mãe planta em sua sala de estar uma árvore assim. A meus olhos, o tronco de madeira tem as dimensões de um tronco de mangueira; galhos de cetim, tantos quanto os de um velho e imponente flamboaiã, nele vão sendo implantados no correr dos dias. Essa árvore torna-se colorida pelos seus galhos e pelas suas folhas. Estas, acenando dezenas de mensagens de amizade enviadas a ela por vizinhos e amigos cultivados ao longo do tempo, são os frutos que produzem a energia que a nutre com anseios de vida. Cada cartão que chega a ela pelo correio é motivo de festa e um renascer de alegrias.

     Quisera eu plantar em minha casa uma árvore simbólica dessas. Ainda conservo a ilusão de que muitas seriam as folhas e os frutos que seriam implantados nela - pois tenho muitos amigos, todos imprescindíveis.

     Mas ando meio desleixado. Por sinal dos tempos minha árvore tem nascido e crescido virtualmente com apenas um ou dois cliques. É evidente que os cliques podem gerar um fruto e encantar. Oxalá eu me dispusesse a me organizar e enviar mensagens de Natal com letras manuscritas em folhas-cartão postadas no correio. Elas poderiam mostrar assim, pelo reflexo do tempo revelado em minha caligrafia, minhas verdades que vão além do texto. Estaria assim deixando que os meus filhos, meus amigos, e os filhos de meus amigos percebessem o prazer da amizade ao verem e lerem mensagens expostas nas árvores montadas dessa forma. 

     Comprei algumas dezenas de cartões de Natal pensando em escrever mensagens e enviá-los pelo correio. Não escrevi nenhuma. Ficaram em branco. Cheguei... bom... acho que chegamos a um tempo em que não enviamos mais cartões. Substituímos um delicado costume antigo pela agilidade padronizada da tecnologia, e guardamos somente para nós mesmos as mensagens eletrônicas enviadas e recebidas...


(Ipê-roxo com seus anseios na Rodovia Anhanguera - foto: arq. pessoal)  

     Mas... "peraí"... Estou achando esse meu papo muito retrógrado! Não gosto de lamúrias. Não quero ficar aqui resistindo à praticidade das coisas. Gosto, utilizo, e fico maravilhado com tudo o que a tecnologia proporciona. Só lamento nunca ter plantado em minha sala de estar, na época do Natal, uma árvore de amizades e mensagens.

     Hoje, acomodado com a agilidade nas comunicações, fico pensando nos meus parentes e amigos. E enquanto clico mensagens, vou escrevendo à caneta o nome de cada um deles em uma folha do meu caderno. 

     Com isso espero que, neste Natal, todos aqueles a quem quero bem estejam felizes; que, aquecidos por abraços familiares, estejam se fartando de saúde.

     Desejo, enfim, um Feliz Natal a todos! E, muito especialmente, àqueles que por intermédio dos muitos cartões que penderam dos galhos das árvores cultivadas nos Natais pela minha mãe ao longo dos anos me mostraram o delicioso sabor do fruto da amizade.

(Flamboaiã em Araguari/MG - foto: arq. pessoal)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O MEU VIZINHO



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(Glenn Miller - "Moonlight Serenade")



Ao "Seu" Arthur

     A cada vez que mudamos de endereço ganhamos novos vizinhos. E por capricho do acaso ou acaso na escolha, estamos sujeitos a ter perto da gente vizinhos com o mais variado perfil.

     Desde que precisei sair de casa para estudar, e até hoje, tive diversos tipos de vizinhos: bons, ruins, indiferentes, belicosos, ausentes, próximos e distantes. Seria um privilégio poder ter sempre um vizinho capaz de inspirar sentimentos bons, ou que pudesse proporcionar estímulos de vida e sabedoria pelo simples fato de ser vizinho e desenvolver algo interessante que pudesse ser visto em sua rotina de vida.

     Pois enquanto menino fui privilegiado pelo vizinho que tive. Morávamos - meus pais, minha irmã e eu - em uma casa que era (e ainda é) separada da casa do vizinho por um pequeno corredor. Ali vivia um maestro* com sua esposa. Da janela do quarto dos meus pais eu olhava sua sala de trabalho, por onde passavam estudantes que pouca ou nenhuma oportunidade de estudar música teriam em qualquer outra cidade - mas que, a custo nenhum, eram alunos do meu vizinho.

     Estando em casa, muito do meu tempo eu passava na biblioteca do meu pai. Ali, entre figurinhas do Príncipe Valente e ilustrações dos grandes enigmas do universo trazidos pela enciclopédia "Trópico", eu ficava ouvindo solfejos e notas de clarineta, acordeon, piano, saxofone, trombone e violão.

     No fundo de minha casa, da janela do meu quarto, eu podia ver o meu quintal e o quintal do meu vizinho. Debruçado nela eu acompanhava os ensaios noturnos semanais de sua orquestra, ...

("Bini e sua Orquestra" -baile de gala- foto postada por João Palma no facebook. Fonte: Walter Simões)

... dos grupos musicais por ele montados para animar bailes de carnaval, ...

("O Grupo de Carnaval" - o meu vizinho é o 7º da esquerda para a direita - foto postada por João Palma no facebook)

... e de sua banda que enchia de alegria a cidade quando saía pelas ruas tocando marchas, hinos e dobrados.

("A Banda - antigos integrantes" - fonte: Ivete Berto, postada no facebook)
 
     Hoje meu vizinho do norte é o espaço aéreo da rua onde moro; o do sul, um senhor de olhar vazio que murmura um "bom dia" protocolar sempre que  me vê no elevador; o do leste, duas senhoras misteriosas e carrancudas que têm cara de mal-estar e nunca sorriem; a oeste, o apartamento está fechado há anos e nunca vi ninguém ali. No andar de cima meu vizinho é um militar aposentado que, de forma arrogante, mal me cumprimenta; no de baixo,  um casal que nunca vejo e que por terem um filho recém nascido, reclamam de todo e qualquer som emitido no condomínio depois das dez da noite - conforme me contou o zelador. Do apartamento de qualquer um desses vizinhos nunca ouvi uma música sequer. 

     Com esse peso em todos os pontos cardeais, quero ainda um dia promover uma grande festa em minha casa. Meus convidados serão esses meus vizinhos. Quero poder contar a eles do vizinho que tive. Tenho o desejo e a ilusão de que esses meus vizinhos atuais, ao me ouvirem contar a história de meu vizinho antigo, irão se levantar de suas cadeiras e me abraçar com sorrisos largos, pedindo que eu coloque um disco do Glenn Miller para podermos dançar ao som de sua música, beber, rir alto, e celebrar a vida. E nós assim, em uma tremenda celebração de boa vizinhança, dançaremos em memória do vizinho genial que um dia eu tive. Um vizinho que, além de ter tido a paciência de ter me ensinado as primeiras notas e acordes de violão,...

('Meus primeiros acordes" - 1966 - foto: arq. pessoal)

... tornou-se doce lembrança... E, merecidamente, nome de escola na minha inesquecível cidade de Guará: a "Escola Técnica de Artes Maestro Arthur Affonso Bini".    

(Escola Técnica de Artes Arthur Affonso Bini - Fonte: http://www.megainterior.com.br/portal/?pg=noticia&id=593 - por Laurel Lopes)


* além de maestro foi empresário: dono de loja de móveis, vidraçaria e funerária.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

ROBERTO GOYENECHE - EL POLACO


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(Roberto Goyeneche - "El último café", de Julio Sosa)

"La vida és un tango"*

     Para que eu aprendesse a gostar de tango foi necessário tempo. Tempo de vida. Anos. Não, não pense você, meu caro amigo, que eu o considerava um gênero ruim: ultrapassado, talvez. É que minha sensibilidade não estava desenvolvida o suficiente para ouvir atentamente o som do bandoneón, ou para entender as verdades contidas nas letras passionais, trágicas e sofridas que são próprias do tango - e que traduzem muito da realidade de nossa existência. Na verdade, até há pouco eu não estava amadurecido para poder sentir o quanto o tango é atual e próprio da natureza humana. 

     No entanto isso ainda não bastou para que eu pudesse reconhecer meus amores pelo tango.

(Fonte: http://club.doctissimo.fr/volver4/tango-peinture-151705/photo/willem-haenraets-tango-5103056.html)

     Foi necessário também que eu descobrisse o Roberto Goyeneche - conhecido como "El Polaco" -; que eu me apaixonasse pelas suas interpretações e pelo seu jeito de sutilmente pronunciar inclusive os pontos e as vírgulas daquilo que canta (inclusive reconhecido na letra de "Garganta con Arena"**). Quando ele solta a voz e diz o tango, expondo-se por inteiro, ele consegue fazer a fusão da fantasia com a realidade. E percebo que eu também me sinto assim, de alma exposta entre realidade e ficção quando o ouço cantar. Por isso acredito que o tango seja, de fato, uma das linguagens da alma!

     Ao interpretar um tango o Goyeneche escancara a autenticidade das paixões que aprisionamos em algum dos labirintos dos nossos instintos.

( Capa da biografia de Goyeneche - fonte: http://www.anobii.com/books/El_Polaco,_la_vida_de_Roberto_Goyeneche/01583de33cb0cf8b39)

     Se gosto da maneira que o Goyeneche canta e representa é porque posso ir além da convencionalidade de gestos, de palavras geometricamente ditas e de sorrisos exatos nos momentos oportunos. Se gosto das interpretações do Goyeneche é porque aprendi que posso me deixar ser naturalmente passional em relação às pessoas e às coisas de que gosto... ou, do contrário, a racionalidade excessiva, desprovida de um mínimo de paixão, pode acabar me matando.


El Último Café (Julio Sosa)

Llega tu recuerdo en torbellino,
Vuelve en el otoño a atardecer
Miro la garúa, y mientras miro,
Gira la cuchara de café.

Del último café
Que tus labios con frío,
Pidieron esa vez
Con la voz de un suspiro.

Recuerdo tu desdén,
Te evoco sin razón,
Te escucho sin que estés.
"Lo nuestro terminó",
Dijiste en un adiós
De azúcar y de hiel...

¡Lo mismo que el café,
Que el amor, que el olvido!
Que el vértigo final
De un rencor sin porqué...

Y allí, con tu impiedad,
Me vi morir de pie,
Medí tu vanidad
Y entonces comprendí mi soledad
Sin para qué...

Llovía y te ofrecí, ¡el último café
O Último Café

Suas lembranças chegam a mim feito um turbilhão,
E me levam para o outono a entardecer
Olho a garoa, e enquanto isso,
Mexe a colher de café.

O último café
Que seus lábios com frio
Pediram daquela vez
Com a voz de um suspiro.

Lembro-me de seu desdém,
Te evoco sem razão,
E te ouço sem que você esteja.
"O nosso terminou"
Disseste em um adeus
De açúcar e de fel ...

Assim como o café,
Que o amor, que o esquecimento!
Que a loucura final
De um rancor sem porquê ...

E ali, com sua impiedade,
Me vi morrer de pé,
Medi sua vaidade
E então eu compreendi minha solidão
Sem para quê ...

Chovia e eu te ofereci o último café!

*"La vida és un tango" (Argentina, 1939) - filme dirigido por Manuel Romero
**"Garganta con arena" - tango de Cacho Castaña composto em homenagem a Roberto Goyeneche

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

VAGAMENTE


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("Vagamente" - Menescal/Bôscoli)


     Sou movido à música. Aprendi a ser assim. Dependendo do que ouço logo de manhã o meu estado de espírito fica definido para o dia todo. 

     E depois de ver e ler no jornal de hoje a miséria da condição humana vestida de lama, corrupção e tragédia, desbloqueei meu iphone e me deparei com uma postagem feita por alguém, no facebook, de uma foto da Sylvia Telles. Fiquei olhando para a foto. Antes que pudesse me deixar contaminar pelas notícias lidas, lembrei-me da delicadeza da voz da Sylvia Telles e das muitas madrugadas que passei com amigos de universidade tocando violão e conversando sobre música, escritores e artistas

     E foi lembrando vagamente destes retalhos de vida que terminei meu café, levantei-me da cadeira na cozinha, escovei os dentes, tranquei a porta, e saí de casa para o trabalho ouvindo no carro um CD da Sylvia Telles. E, no caminho, concluí:

     - Terroristas e seres gananciosos precisavam aprender a ouvir música: é por intermédio dela que adquirimos a condição de podermos nos humanizar e compreender o próximo sem a necessidade de julgar, lucrar ou dominar... e a gostar de gente.  


Sylvia Telles U.S.A. (Original Album Plus Bonus Tracks)
 (Capa do disco "Sylvia Telles - U.S.A." - 1961 - fonte: http://www.amazon.co.uk/Sylvia-Telles-U-S-A-Original-Tracks/dp/B00L6G4GDO)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

CONVERSANDO COM O DEGIOVANI

SAO LUIZ DO PARAITINGA - SEM RABO E SEM CHIFRE 
(Capa do livro: fonte: http://www.livrariacultura.com.br/p/sao-luiz-do-paraitinga-sem-rabo-e-sem-chifre-42144901)

     Nem só para vender combustíveis serve um posto de gasolina. Em especial, se ele está situado em uma rodovia, nele também devem ser prestados serviços relativos à conservação e reparo de automóveis: borracharia, troca de óleo, lavagem, e consertos de emergência. Um bom posto serve, além disso, para proporcionar a sombra de uma árvore, sob a qual os viajantes podem estacionar o carro e "esticar as pernas", caminhar alguns passos até um lavatório, e descansar o corpo nas cadeiras de uma cafeteria ou lanchonete - que um bom posto também deverá ter. Aí então o posto de combustíveis fica completo.

     Mas além de tudo um posto de combustíveis à beira de uma rodovia também se presta a viabilizar encontros inesperados de pessoas que se conhecem, de quem se tem boas lembranças, mas que não se veem há muito tempo.

     Pois foi em um final de semana, em um posto de combustíveis assim que, viajando para São Paulo, encontrei o Degiovani.

     Vi-o ao meu lado mexendo em caixas de chocolate. Chamei-o pelo nome, mas ele não me reconheceu. Pudera! Creio que há uns quarenta anos não nos víamos. Dei detalhes de ruas, de fatos, de pessoas, de dias inteiros pedalando bicicleta em nossa cidade. Foi aí então que reapareci em suas lembranças. Sentou-se à mesa comigo e com a minha esposa e começamos a conversar. Falou-me de fotos, de amigos comuns, de fatos antigos, e em especial de livros. 

     Contei a ele de dos dois belíssimos livros que gentilmente o Celsinho - seu irmão e também meu amigo - havia me enviado de presente há algum tempo pelo correio: "Pedra na Contraluz"*, e "Dei bandeira, hein?"** - ambos de sua autoria; que, pelo carinho e pela consideração demonstrados, tal gesto havia me deixado bastante comovido.

(Capa-"Pedra na Contraluz" - Celso Lopes - fonte: http://www.livrariascuritiba.com.br/pedras-na-contraluz-icone-lv347431/p)

     O Degiovani, por sua vez, contou-me com entusiasmo de um livro por ele escrito em coautoria com Maria Alice Ferreira do Amaral Vieira: "São Luiz do Paraitinga - sem rabo e sem chifre"***. Contou-me que visitou a cidade de S.L.do Paraitinga e encantou-se por ela; que passou a visitá-la com frequência - em especial nos carnavais - e que, tomado de amores pelas suas histórias e tradições, com a Maria Alice escreveu e publicou o livro.

     Ali naquela conversa minha viagem já tinha valido à pena. 

     Mas além de um longo percurso ainda a percorrer, eu precisava cumprir um compromisso naquele dia em São Paulo. Depois de um bom papo entre xícaras de café com pão de queixo na lanchonete do posto - e que de minutos durou mais de hora - o Degiovani foi correndo ao seu carro, trouxe o seu livro, e presenteou-me com ele. E que belo livro!! 416 páginas de fotos, histórias de carnavais, narrativas, pesquisas... enfim, simplesmente maravilhoso.

 
 (Degiovani presenteando-me com o livro - foto: arq. pessoal)

     Terminamos nossa conversa com a sensação de que ainda havia muito a ser conversado.

     Dentro do carro, na sequência da viagem, minha esposa e eu fomos pensando com fala... Com um trabalho inspirado em uma cidade que não a sua, tão bem feito pelo Degiovani - e pela Maria Alice -, eu, como guaraense apaixonado, fiquei a desejar que um dia ele também venha a colocar em livro as pessoas, as tradições, os fatos e as fotos de Guará - sua e minha terra natal. Que, com seu trabalho e capricho de escritor, presenteie-nos e faça preservar a nossa História - assim como fez com São Luiz do Paraitinga.

     Parabéns Degiovani (e Maria Alice) pelo belo livro contando do Juca Teles e de S.L.do Paraitinga. Depois disso, caso ainda não o tenham feito, os Luizenses certamente reconhecerão os seus méritos e cuidarão de adotar cidadão honorário um filho natural de Guará.         


___________________________
*Lopes, Celso. Pedra na contraluz. São Paulo: Ícone, 2010 (contos)
**Lopes, Celso. Dei bandeira, hein?". São Paulo: Elipse Produções Visuais.
***Silva, Degiovani Lopes da; Vieira, Maria Alice Ferreira do Amaral. São Luiz do Paraitinga: sem rabo e sem chifre. São Paulo: Ed. do autor, 2012

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

PORQUE HOJE É SEXTA-FEIRA


("O Beijo" - Gustav Klimt, 1908 - fonte: http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/)


Porque hoje é sexta-feira
não vou me importar com a torneira pingando,
não vou completar o cadastro no esocial,
não vou sofrer com o prazo processual.

Porque hoje é sexta-feira,
muito mais importantes são as palavras
que ao redor do mundo
são ditas pelos amantes apaixonados.

Porque hoje é sexta-feira
vou procurar ouvir os murmúrios cochichados,
debaixo de árvores, em quartos mal iluminados, 
em camas cobertas por lençóis que serão desarrumados...

Porque hoje é sexta-feira
os sussurros me bastam.

(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR E OUVIR)
(Herman's Hermits - "There's a kind of hush", do filme "Mrs. Brown, you've got a lovely daughter")




There's A Kind Of Hush

There's a kind of hush
all over the world tonight
All over the world you can hear the sounds
Of  lovers in love
You know what I mean

Just the two of us
and nobody else in sight
There's nobody else and I'm feeling good
Just holding you tight

So listen very carefully
Closer now and you will see what I mean
It isn't a dream
The only sound that you will hear
Is when I whisper in your ear
I love you
forever and ever

There's a kind of hush
All over the world tonight
All over the world you can hear the sounds
Of lovers in love

So listen very carefully
Closer now and you will see what I mean
It isn't a dream
The only sound that you will hear
Is when I whisper in your ear
I love you
Forever and ever

There's a kind of hush
All over the world tonight
All over the world
people just like us are fallin' in love
Yeah, they're fallin' in love
Hush, they're fallin' in love
Hush
Há uma espécie de silêncio

Há uma espécie de silêncio
Por todo o mundo, essa noite
Por todo o mundo, você pode ouvir o som
Dos amantes apaixonados
Você sabe o que quero dizer

Apenas nós dois
E ninguém mais aqui dentro
Não há ninguém mais e me sinto bem
Apenas te abraçando forte

Portanto ouça atentamente
Aproxime-se e verá o que digo
Não é um sonho
O único som que você ouvirá
É quando eu murmurar em seu ouvido ...
Eu te amo ...
para todo o sempre

Há uma espécie de silêncio
Por todo o mundo, essa noite
Por todo o mundo, você pode ouvir o som
Dos amantes apaixonados.

Portanto ouça atentamente,
Aproxime-se e verá o que digo
Não é um sonho
O único som que você ouvirá
É quando eu murmurar em seu ouvido...
Eu te amo...
Para todo o sempre.

Há uma espécie de silêncio
Por todo o mundo, essa noite
Por todo o mundo
Pessoas como nós estão começando a se amar
Sim, estão começando a se amar,
Silêncio, eles estão começando a se amar...
Silêncio...