sábado, 28 de maio de 2011

MINHAS NOITES COM A MERCEDES SOSA


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Mercedes Sosa - "Gracias a la vida", de Violeta Parra)




     Decidido a participar da vida universitária com maior intensidade, deixei a reclusão monástica da pensão onde morava e fui morar em república com um grupo de colegas da universidade. O responsável pelo convite de mudança foi o meu amigo Fernando - boliviano de Santa Cruz, estudante de engenharia civil. Éramos cinco: cada um de um curso diferente. 

     Na noite em que fui conhecer a casa juntaram-se todos os moradores e houve uma integração muito grande entre nós - graças a um violão e, em especial, a muitas garrafas de um vinho de qualidade suspeita. Seguimos até o amanhecer nas negociações e investigações uns dos outros. Em primeiro lugar dos interesses tratados estavam o canto, as interpretações, as experiências musicais. Com as portas da casa abertas, a cada música cantada ali dentro um grupo novo de estudantes da nossa universidade, vizinhos dali, entrava sem anunciar. E, juntando-se a nós, sentavam-se e participavam de tudo.

(uma das reuniões musicais na república -1978 - arquivo pessoal)

     Quando um dos moradores da república, já de madrugada, me trouxe espontaneamente um prato de arroz com feijão requentado, tive a sensação de ter conquistado ali minha vaga. Ao final da minha visita, para que todos soubessem formalmente se eu podia ou não morar ali, o assunto foi colocado em discussão. E a deliberação nada teve a ver com o objeto principal da discussão: foi decidido que “Eu e a brisa”, do Johnny Alf, teria que ser tocada e cantada toda madrugada, e a “Carolina”, do Chico Buarque, podia ser a paixão comum de todos nós. Quanto a eu morar ou não ali – me disseram mais tarde - isso já havia sido aprovado anteriormente. Os demais detalhes de república, dinheiro, coisas práticas etc, outra hora, e com o passar do tempo, seria ajeitado. O importante era que mantivéssemos um bom nível musical dentro daquela casa. Topei tudo; não reivindiquei nada.

(Festa de República: eu, sentado, e meu amigo Lula - 1978)

     Mudei-me no dia seguinte carregado de uma ressaca humilhante. Eu estava feliz, pois todos ali, como eu, conheciam, gostavam e eram movidos a música. Passei então a ocupar um quarto com o Fernando, com endereço na cama de cima do beliche.


(Amigos em frente à república: Lula, Mauro, Fernando, e eu - fonte: JJoaquim) 

     Reconheço que minhas raízes musicais sempre foram divididas em duas vertentes: de um lado os Beatles e grupos adjacentes, incluindo-se aí o Renato e Seus Blue Caps e a turma da Jovem Guarda; e de outro lado o Chico Buarque, Tom Jobim, Nara Leão, Vinícius de Morais, Vandré e muitos outros.

     Mas a partir daí, nessa nova vida, e nos finais de noites de música, desenvolvia-se para mim uma nova vertente musical, mais universalista, mais solidária, mais social, numa voz linda, forte e sensível, vinda de uma fita k7, e a quem eu até então nunca havia me atentado: Mercedes Sosa. Suas músicas tinham um cunho social muito forte. Falavam de um canto para toda a gente, um canto solidário; alertava para a existência de crianças desamparadas pelas ruas; pedia que estendêssemos as mãos ao índio; sugeria que déssemos as mãos para que cantássemos à Liberdade; dava vivas aos estudantes, louvava os cantores, a América Latina... Deitado na escuridão e no silêncio do meu quarto, ouvindo aquela voz forte e delicada vindo de um aparelho de fita K7 colocado no chão, meu coração idealista apertava e crescia imensamente naquela casa materialmente pobre, porém riquíssima de música, poesia e valores humanos: minha alma saía pelo teto, estendia-se pelas ruas, pelas casas, pelas cidades... e invadia a Bolívia, Peru, Paraguai, Nicarágua, países de onde vinham alguns dos amigos estudantes que frequentavam nossa república.

     Quanto sofrimento e compaixão eu sentia – e sinto até hoje - ao ouvir as interpretações da Mercedes Sosa: “La Carta” contava os episódios de uma prisão injusta, sem piedade; quantas indagações pelos motivos que levaram Alfonsina a caminhar mar adentro, sem volta, em “Alfonsina y el mar”... A Amanda que saía de uma fábrica e caminhava pelas ruas, em “Te recuerdo Amanda” (do Victor Jara), era a mesma Amanda que nos vigiava do telhado da casa sem forro – pelo menos assim eu fantasiava.

     E assim, ouvindo isso noites e noites, eu ficava na cama com a Mercedes Sosa embalando meu sono até que meus olhos, exaustos, adormecessem.

     Quase trinta anos passados, ainda mantenho contato com meus colegas de república. Recentemente reencontrei o “Tiãozinho” – engenheiro civil - construindo ruas em uma cidadezinha no norte do Estado de Tocantins... Só não tenho mais notícias do Fernando desde que ele, já graduado, tomou um velho trem, atravessou o pantanal, e voltou para a Bolívia.


RP, 27mai2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

CANÇÃO PARA GUARÁ: UM HINO E SEUS SÍMBOLOS*


 (Praça Nove de Julho - Guará/SP - foto: arq. pessoal)


 "Quero encantar o coração da juventude
com a virtude que temos cá;
que é ter no peito um coração como lareira
da hospitaleira gente amada de Guará."
(Canção para Guará -trecho- Prof. Joaquim Martins)


     Sempre que penso em alguma cidade ou em algum país fico analisando seus valores, sua cultura, a história do seu povo e os feitos dos seus herois. Encontro uma maneira de procurar entender um pouco de cada povo ouvindo atentamente a letra de seus hinos. Por intermédio deles fico com a ideia de que posso conhecer também os valores das pessoas que os entoam, conseguindo assim relacionar as pessoas aos seus lugares de origem. Isso me possibilita, pelo menos teoricamente, tentar compreender muitos dos seus gestos e manifestações, tanto individuais quanto coletivos.

     Em especial nas ocasiões de disputas esportivas, a possibilidade de conhecermos um pouco de cada povo é estimulada quando seus respectivos hinos são executados. A gente fica ouvindo o hino na TV, olhando as expressões nos rostos de cada atleta, sua postura, as cores de seu uniforme... Tudo isso vai fazendo nascer na mente da gente o desenho de um lugar, dos seus habitantes, das coisas que são por eles valorizadas. E a letra do hino, queira ou não, vai traçando um perfil generalizado dos habitantes daquele lugar.

     Alguns países reverenciam seus monarcas. Assim, o hino do Reino Unido: “Deus salve nossa graciosa Rainha! Vida longa, nossa nobre Rainha! Deus salve nossa Rainha! Enviai-a vitoriosa, alegre e gloriosa, ao longo reinar sobre nós, Deus salve a Rainha”. Também, o da Jordânia: “Vida longa ao rei! Vida longa ao rei! Sua posição é sublime, suas bandeiras tremulam em suprema glória”.

     Há também os hinos com tom religioso, como o hino das Ilhas Salomão: “Deus salve nossas Ilhas Salomão (...) abençoe todo seu povo e suas Terras com suas mãos protetoras. Alegria, paz, progresso e prosperidade; faça com que as nações vejam que os homens deveriam ser todos irmãos(...)”.

     A Austrália, por exemplo, é um dos países que cantam suas belezas: “Australianos alegremo-nos todos, por nós sermos jovens e livres; nós temos rica e áurea terra a labutar, nossa terra é cingida pelo mar. Nossa terra abunda em dons naturais, de beleza rica e rara (...)”.

     Alguns países enfatizam suas lutas, o caráter bélico da nação. Não me é nem um pouco confortável ouvir, no hino nacional da França: “Às armas cidadãos! Formai vossos batalhões! Marchemos, marchemos! Nossa terra do sangue impuro se saciará!”.

     Tampouco gosto de ouvir “Às armas! Às armas! Sobre a terra sobre o mar. Às armas! Às armas! Pela pátria lutar! Contra os canhões marchar, marchar!” no hino nacional de Portugal.

     É de estremecer esse trecho do hino nacional da Argélia: “Somos soldados em combate pela verdade, e por nossa independência lutamos. Quando falamos ninguém nos ouviu, então adotamos o som da pólvora para nosso ritmo, e o som das armas como nossa melodia (...)”.

     “Levantai-vos! Vós que recusais a escravatura! Com o nosso sangue e carne construiremos uma nova Grande Muralha! (...) Em desafio ao fogo inimigo, marcharemos!(...)” – diz “A Marcha dos Voluntários”, o hino da China.

     Essas coisas que fazem jorrar sangue, as de espírito segregacionista, do politicamente perfeito, já não mais condizem com os novos tempos, com o espírito humanitário que deve imperar nas relações entre as nações (coletivamente), e entre as pessoas (individualmente) - sejam elas de que cidade ou parte do mundo forem.

     Gosto do hino nacional brasileiro, em especial quando diz “teus risonhos, lindos campos têm mais flores”; ou “Brasil, de amor eterno seja símbolo”;   ou ainda “Paz no futuro e glória no passado”. É bonito, é dócil. Dá leveza, dá uma sensação de harmonia, mostra símbolos suaves como o sorriso dos campos, pelas flores, o amor eterno que desejamos, e o ideal da paz que aspiramos para todos os tempos.

     Mas hoje, passeando no blog da minha amiga Dorcília, me detive na letra do hino de minha cidade natal. Fiquei emocionado. Ouvi o hino seguidas vezes. Ele exalta valores universais e imateriais que, de fato, têm de sobra em Guará: o canto de pássaros, o carinho, a ternura, sentimentos fortes... Conheço seu compositor, e conheci seu arranjador – tive o privilégio de ser aluno e vizinho de ambos: eles próprios, assim como o Paulinho Branco, seu intérprete, traduzem tudo o que está representado no Hino de Guará.
 ("Canção para Guará" - adotada por lei como Hino de Guará)
     Fico imaginando que esse hino singelo, de uma cidade pequena, de uma gente simples, carinhosa, pode servir de alerta para novos valores em tempos de globalização, de competição desenfreada e padronização de mercados; ele propõe um novo modelo que faz com que os laços humanitários se sobreponham sobre as disputas, as vaidades, os interesses e divisões territoriais, tanto pela mensagem contida na letra quanto pela melodia. 

     Belíssimo hino: orgulho-me dele.


*Pesquisa de letras de hinos em: BERG, Tiago José. HINOS DE TODOS OS PAÍSES DO MUNDO. 1ª Ed. São Paulo: Panda Books, 2008
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CANÇÃO PARA GUARÁ
(Por Lei Municipal, “Hino de Guará”)
Letra e Música: Prof. Joaquim Aparecido Martins
Arranjo Musical e harmônico: Maestro Arthur Afonso Bini  

Quero cantar uma canção tão amorosa,
Tão carinhosa, como não há.
Quero cantar com uma voz doce e plangente,
Suave e quente, como a gente de Guará.

Terna cantiga do coração
De um povo irmão como não há.
Quero cantar como os pardais de madrugada
A terra amada desta gente de Guará.

Quero encantar o coração da juventude
Com a virtude que temos cá.
Que é ter no peito um coração como lareira
Da hospitaleira gente amada de Guará.

Cidade amiga, fértil torrão
Nesta região, igual não há.
Quero cantar com emoção nossa riqueza,
Nossa beleza, gente amada de Guará.  

(RP, 24mai2011)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O RÁDIO E OS DISCOS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Good Bye Media Man" - Tom Fogerty - 1972)


Ao Ramidão


     Aprendemos a viajar muito, e de todas as formas. A ausência de meios concretos é sempre responsável por nos impulsionar aos meios abstratos para conhecermos e desenharmos na mente artistas e lugares.

     De 1968 a 1972 uma banda norteamericana fez um sucesso danado misturando rock e country: Creedence Clearwater Revival. Muito novinhos ainda, eu e meu grupo de amigos de escola em cidade pequena, só tínhamos acesso aos lançamentos musicais por intermédio do rádio. Em especial, na Rádio Tupy de São Paulo, o programa Barros de Alencar fazia com que, pela música, passeássemos por países, cidades e lugares existentes e inexistentes. Era fácil passear assim: era só fechar os olhos e ouvir o programa. Em especial, durante as férias escolares, eu ficava esperando o início do programa. Mas eu não era o único. Meu amigo BF também fazia o mesmo. E quando, no programa, aparecia alguma música nova, eu ligava para ele, ou ele ligava pra mim, para fazermos nossos comentários.

(O meu amigo BF - foto: arq. pessoal - detalhe)

     Foi nesse programa de rádio que ouvi pela primeira vez “Good bye Media Man”, em gravação de Tom Fogerty*. Era o seu primeiro sucesso depois da separação, em 1972, do "Creedence" - grupo do qual fazia parte. Fiquei deslumbrado com aquela música. Mas, como música boa precisa ser ouvida à exaustão, era um sofrimento danado ficar "grudado" no rádio, em estações de ondas curtas – que eram as únicas que conseguíamos sintonizar na época. Ficávamos longas horas ouvindo rádio, na expectativa de ouvir a música ser tocada. E sempre comentávamos: “tocou tal música às tantas horas...você ouviu?”. Seria muito fácil ir a uma loja de discos e comprar o disco... Comprar... mas... cidade pequena... não tinha loja de discos (e nem banca de revistas). 

     Um belo dia chegaram à distribuidora de gás da cidade alguns “compactos” para venda. Eu, que vivia por ali, vi quando os discos chegaram. Dentre eles, “Good bye Media Man”. Fiquei desesperado de vontade de comprar o disco. Corri prá casa para encontrar meu pai e pedir a ele o dinheiro prá comprar o disco.

     Enquanto eu o esperava, sem conter minha ansiedade, peguei o telefone e liguei para o BF para lhe contar a novidade: “vou comprar o disco e poder ouvir a música a hora que eu quiser!”, disse-lhe eu.

     Mais tarde, com o dinheiro em mãos, fui correndo até a distribuidora de gás para comprar o disco. Mas, ao chegar lá, “cadê o disco...?” Tinha sido vendido! Chateado, só me restava lamentar com o BF o “sumiço” do disco. Peguei o telefone e liguei para ele.

     Ao receber a notícia, do outro lado da linha, ouvi do BF um sorriso meio sem graça a me contar que fora ele quem havia comprado o disco.

     Chateado, passamos alguns dias sem nos falarmos. Depois, porém, pensei melhor e  me senti até aliviado. “Menos mal”, pensei, “pelo menos o disco ficou em boas mãos”. Afinal, lá na casa do BF eu entrava e saía quando quisesse, ligava a vitrola, ouvia discos...

     Ainda hoje, quando nos encontramos, eu e o BF relembramos essa história e rimos muito. Mas ele, com o mesmo riso que deu quando me contou que tinha comprado o disco, apressa-se em dizer: “o disco tá lá em casa, passa lá prá gente ouvir”.

     A verdade é que aprendi a lição - mas dei o troco. Em 1973, quando chegou na distribuidora de gás “Rose Garden”, com a Lynn Anderson, que adorávamos ouvir no rádio, fui lá, escondi o disco (só tinha um), e só depois contei ao meu amigo que o disco tinha chegado e que EU o havia comprado: ERA MEU!

(Lynn Anderson - "Rose Garden" - 1973)

P.S.: O disco "Rose Garden" ainda está lá em casa.

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*Tom Fogerty - irmão do John Fogerty – Os dois, juntamente com Stu Cook e Doug Clifford formavam o Creedence. 

quarta-feira, 18 de maio de 2011

DEZOITO DE MAIO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("ODESSA" - do álbum "Odessa" - 1969 - The Bee Gees)

     Há datas que nunca esquecemos. A cada ano, naquele mesmo dia específico, alguma lembrança, alguma emoção sempre nos acompanha. Seja Natal, Ano-Novo, Independência do Brasil, aniversário de parente, amigo, filho, esposa, não importa: cada data que nos é importante inspira uma reflexão e uma expectativa diferente.

     Creio que o dia mais significativo para cada um de nós seja o dia do nosso aniversário de nascimento. Em geral acordamos esperando os cumprimentos dos familiares, dos amigos, das pessoas que gostam da gente. E, além dos cumprimentos que recebemos pessoalmente, também esperamos muito os telefonemas intercalados no dia, aquelas vozes que vêm láááá de longe expressando qualquer coisa pelo simples prazer de falar conosco, de nos trazer uma boa mensagem. Gosto especialmente dos telefonemas não protocolares, daqueles que a gente conversa amenidades, sem medo dos silêncios na fala, independentemente de ser aniversário ou não. Muitas vezes, no dia do meu aniversário, faço o que me agrada: tomo a iniciativa, ligo para as pessoas de quem gosto, e digo que é só para conversar... sem mencionar a data. E, se me felicitam, ótimo!; se não o fazem, não tem importância, pois a simples existência dessas pessoas faz bons os meus dias. Hoje, especificamente, é uma dessas datas que me são importantes: 18 de maio, dia do aniversário do meu amigo WF. Não sei quantos anos ele faz, mas isso não importa. Nem sei direito onde ele está morando, e nunca o encontro quando ligo para ele porque o número é sempre diferente, mas isso também não importa. O que me importa é que toda vez que o vejo nos abraçamos com a mesma amizade de sempre e conversamos assuntos inesgotáveis, como se tivéssemos apenas dado uma pequena pausa no tema de nossa conversa anterior. 

     Aos meus amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, humildemente peço: se virem o WF - o "Big Boy" -, digam a ele que sua amizade me é importante, e que eu o abraço no seu dia com o mesmo carinho e consideração de sempre.

(WF - foto de 1987 - do meu arquivo pessoal)

sábado, 14 de maio de 2011

TAMBÉM SOU FILHO DE DEUS

Lá em casa todos nós estamos cuidando da alimentação. Não que estejamos com excesso de peso – aliás, com muuuuito excesso de peso. Simplesmente queremos nos sentir bem. Eu, já há tempos, deixei de lado muito alimento gorduroso para aderir aos alimentos mais leves – “e saudáveis”, acrescenta meu filho. Nas refeições o policiamento é grande para que eu comece com uma salada multicolorida e variada, seguindo as orientações médicas domésticas. Mulher e filhos, estão todos entendendo das combinações dos alimentos – só eu que não. Mas sigo o que me dizem, “digamos”.
Gosto de observar no prato a combinação de cores e formas que as saladas proporcionam: folhas de alface verdinhas, cilindros brancos de palmito, circunferências de ervilhas verdes, grãos de um amarelo bem forte do milho em conserva, e muitas outras coisas... cenoura, repolho, couve-flor e beterraba... Quando colocado tudo isso em uma travessa para se levar à mesa, os vegetais, nas suas cores e formas, tornam-se uma tentação irresistível para se fazer uma bela obra de arte – no prato. Cada vegetal merece ocupar um ponto estratégico para que a combinação de cores estimule o desejo de comer. Assim, depois de temperada, a regra é nos fartarmos dos vegetais da salada para diminuirmos a ingestão dos alimentos mais pesados.

(imagem no site ruadireita.com)

Aquele prato volumoso de arroz com feijão passou a ser coisa do passado; as frituras, ninguém mais em casa dá bola prá elas; o torresminho, a gordura da carne e a pele de frango, não as como mais nem na imaginação.
Entretanto, já notei que quando me sento para almoçar ou jantar minha cachorrinha se senta no chão ao meu lado e acompanha cada gesto meu. Fico me perguntando se esse policiamento que ela me faz é espontâneo ou por determinação ou treino de alguém. Nessa questão, desconfio de todos! Ou será essa vigilância canina conseqüência da má criação que demos a ela - à Neguinha, minha cachorrinha. Ela passou mais de dez anos de sua vida comendo somente ração balanceada. Acho que ela, condenada à alimentação controlada, solidarizou-se a todos e me fiscaliza nas refeições. Quietinha no chão, ela faz olhos de coitada como que a me dizer: “é,  foi assim que você me ensinou a comer”. Apesar disso, quando não há ninguém por perto, ela abana a cauda sempre que vê minha mão estendida por baixo da mesa para oferecer-lhe alguma coisa que julga ser ruim para a minha saúde. Ela, “coitada”, para me ver bem – creio eu -, até sacrifica-se em devorar aquilo que para mim não seria bom. Acredito mesmo que, naquele momento em que uma mão surge por baixo da mesa com algum alimento sendo oferecido, ela, já não suportando mais esse negócio certinho de comer somente ração todos os dias, apressa-se em abocanhar seja lá o que for – antes que seu dono mude de ideia.
Mas hoje, chegando em casa, sozinho na cozinha, não fui além da salada no jantar. Comi certinho! Terminado o jantar controlado, percebi que um diabinho me atacou... e não me contive: cai em tentação e não livrei-me do mal. “Há momentos em que nem um Santo consegue se livrar do mal... de algum mal necessário”, creio eu. Em cima da geladeira me surgiu o diabinho em forma de goiabada cascão, vinda lá de Santa Rita, vermelho como as cores do inferno. Senti que ele pediu abrigo entre duas fatias branquinhas do queijo mineiro guardado na geladeira. Como não gosto de desagradar ninguém, nem mesmo aos seres mais desprezíveis – como os diabinhos – e como nossas boas ações não precisam ser expostas, abri o meu coração... e a boca: às escondidas, “entrei” no queijo com goiabada. Pensando bem, diante de queijo com goiabada, até os santos precisam ser perdoados. Fechei os olhos... e comi... sozinho...  às escondidas...
Mas eis que, para minha surpresa, naquele momento, senti um animal agarrar a minha perna abraçando-a e chacoalhando-a com força - como que a me alertar para que eu me contenha. ”Não”, compreendi logo... “nada fora feito às escondidas”. A Neguinha, cúmplice de minhas estravagâncias veladas, não resistindo às cores “daquilo”, me olha pedindo um pedaço – que ganha, prontamente. Mastigando rapidamente sem fechar a boca, e abanando a cauda, justifica sua cumplicidade comigo me dizendo, de forma contida e silenciosa: “os cães são filhos de Deus”. E eu, no pensamento, complemento: “e eu também”.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

TEMOS UMA REFERÊNCIA !


Mexendo em meus antigos guardados - recortes de jornal, textos antigos, fotografias - encontro o rascunho de uma manifestação que fiz no dia 20/12/2001. Na ocasião, homenageando o advogado Dr. Nehif Antônio,  foi realizada a cerimônia de descerramento de uma placa colocada na sala da OAB de Guará - que leva seu nome. Transcrevo aqui o texto na sua íntegra.
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Exma. Sra. Dra. A, Juíza de Direito da Comarca de Guará;
Dr. B, representante do Ministério Público;
Dr. C, Delegado de Polícia;
Dr. D, representante da OAB;
Demais autoridades, colegas advogados, amigos, amigas, sras. e srs.:

        Não podemos dizer que conhecemos alguém sem antes nos atentarmos para os fatos que moldaram a sua personalidade ao longo do tempo, presentes em um contexto mais amplo de um período da História.

        O advogado hoje homenageado viveu 43 anos, entre 1929 e 1972. Nesse período de tempo o Estado de São Paulo insurgiu-se contra um golpe de Estado; o Brasil, na Itália, mostrou seu inconformismo com os movimentos de segregação de raças e desequilíbrio racional de algumas nações; muita gente deixou sua patria e veio morar em nosso país.

        Nesse tempo não havia fax ou internet. O telefonema era feito via telefonista; uma viagem a São Paulo era algo bem próximo de uma aventura; os cálculos eram feitos com lápis no papel.

        Tempos difíceis; tempo de procura de identidade nacional... Tempo de formação do caráter dos brasileiros daquela geração. Tempo de nova estruturação, de assombro pela concentração de poderes de um Estado Unitário, para nova ordem e esperança em amplas liberdades na Constituição Federal de 1946. Assim como no Estado Brasileiro refletiam os movimentos sociais correntes no mundo, seguia a nação as diversas guinadas desse Estado instável. O perfil político do Brasil molda decisivamente a formação cultural e individual de seu povo.

        Golpe de Estado, anos de chumbo, medo, reticências. No Brasil, dois partidos políticos; em Guará, dois partidos políticos. Quem tem coragem de manifestar desconforto e indignação? Não muitos. Mais fácil a omissão...


       O advogado hoje homenageado sempre expressou livremente suas convicções, advogou seus ideais, olhou mais além. Acreditou na legalidade sustentando a legitimidade. Manifestou repúdio às arbitrariedades. Falou, subiu em palanque... na verdade, não subiu em palanque... foi carregado aos palanques... Mas lá estava... 1968...

        Mahatma Gandhi, Martin Luther King, os Beatles,… uma nova história para o mundo. Juscelino Kubitscheck, Bossa-Nova, Ulysses Guimarães... um perfil diferente para o Brasil. Des. Valentin, Dr. Leão, Dr. Jair, Dr. Urbano, Sr. Alcides, Sr. Mário Nakano, Dr. Náufal, e muitos outros... nomes que permanecem em nossas mentes, em especial dos habitantes de Guará. Construíram nossa história; cada qual a seu modo contribuiu na formação de nossas convicções, nas convicções do Dr. Nehif Antônio. 

(Dr. Nehif Antônio, em foto de 1967 - arquivo pessoal)

        Convivi dia a dia, por 13 anos, com um tipo assim, inesquecível. Estive ao lado de um alvo de olhares curiosos em virtude de disparidades existentes entre limitação física e disposição para a vida.

        Convivi em Guará com um tipo idealista, com quem aprendi que o respeito pelo outro implica na confiança depositada na capacidade de pensar e construir inerentes a todo ser humano.

        Há pouco o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, em sua fragilidade, estende a mão aos menos privilegiados. Questão de valores, de desprendimento, de aceitação e de consciência de que se pode ir mais além, independentemente de luzes ou fogos de artifício. Também em Guará houve um tipo assim...

        Na História recente um governador comove o Brasil. Aceita os desígnios de Deus sem se deixar apequenar; não maldiz a sorte que lhe fora reservada. Essa determinação não é comum na fragilidade humana. Um mínimo do que não nos agrada sobrepõe-se a tudo que nos é deliberadamente oferecido: a graça da vida, o dom de enxergar, a emoção para sentir. Porque deixarmos que o acessório se sobreponha ao principal? Impulsionado pela esperança, pelo desejo e pela busca de vida, também em Guará houve um tipo assim...

        Lá se vão 30 anos. Seus exemplos não são nem modernos nem ultrapassados – são eternos. Ainda são recolhidas peças que marcaram sua personalidade e que foram transmitidas aos que o conheceram. Ainda me perguntam sobre ele, não só em Guará. Penso na imortalidade daqueles que deixam bons exemplos, no que significam como referência aos dotados de riqueza espiritual e capacidade de reflexão.

         Estamos sendo premiados. Estamos reacendendo uma referência aos que compreendem o quanto elas nos são decisivas. A valorização do entendimento, a consensualidade, o repúdio à tentativa de imposição de interesses unilaterais em prejuízo das necessidades coletivas, a aceitação do outro com seus valores e fraquezas... Temos uma referência!

        É natural que nos sintamos abatidos e desolados diante dos percalços naturais que encontramos, em especial nós, advogados. Mas, as referências nos fortalecem. Um homem determinado, gigante diante de todas as agruras, indelevelmente carregado nos corações daqueles que o conheceram. Nós o homenageamos hoje; nós o enaltecemos hoje, nós atribuímos a esta pequena sala o nome de um grande homem; de um homem cordial, advogado, filho de nossa querida cidade. Que seja símbolo de tolerância, de cordialidade sincera, do respeito e ética profissionais, da prevalência do direito natural sobre a litigiosidade barata, da esperança e da fraternidade entre as pessoas e as nações. Ele era assim e, por ter sido assim, é uma referência que nos dignifica.

        Louvando a escolha dos que o elegeram para atribuir a esta sala o seu nome, eu também aplaudo o meu pai, Dr. Nehif Antônio, nesse momento, reconhecendo e agradecendo o bom exemplo que dele recebemos, dentro e fora de casa, eu, minha mãe e minha irmã.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

BEIJO DE SAUDADE


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR)

 (Mariza e Tito Paris - "Beijo de Saudade", de B.Leza)


     Aquele que deixa sua terra natal depois de lá ter vivido a fase mais doce e verde da vida carrega consigo as marcas desse lugar. Seja lá para onde for, não há quem apague os encantos que ficam estocados no peito de quem parte.

     Há, no entanto, canais, elos – físicos ou não -, que ligam o local de onde se partiu ao local onde se está. Seja uma estrada de rodagem, estrada de ferro, um rio, um terminal rodoviário ou um aeroporto - mesmo se não houver nada disso - o desejo de que o vínculo se mantenha faz com que se procure identificar - ou criar - algum.

     Há uma música que fala bastante sobre isso: "BEIJO DE SAUDADE". Foi gravada no disco "Terra", de 2006, da Mariza, onde ela a interpreta com Tito Paris*.

     Essa música fala de alguém que, desejando de qualquer forma descobrir uma ligação entre Lisboa e Cabo Verde**, encontrou-a no Rio Tejo***. Pois são justamente as águas do Rio Tejo que o autor esforça-se por beijar. Ele, padecendo de saudades, deseja beijar as águas do Tejo para que elas, desaguando no mar, levem o seu beijo até sua terra natal.

     Assim, no primeiro trecho da letra, o pedido ao Rio Tejo:

“Ondas sagradas do Tejo, deixa-me beijar as tuas águas. Deixa-me dar-te um beijo, um beijo de mágoa, um beijo de saudade. Para levar ao mar, e o mar, à minha terra.”

     Nas estrofes seguintes, o mesmo pedido em crioulo cabo-verdiano, (língua não oficial de Cabo Verde) reforçando as raízes de quem de lá saiu, como que a dizer que foi embora, mas que guardou dentro de si tudo o que sua terra lhe ensinou.

     Há um lirismo apaixonado nessa figura do beijo que se quer ver transportado pelas águas, fazendo mais doída e desesperada ainda a saudade quando nos damos conta da pequena probabilidade daquele beijo, jogado pelo Tejo na imensidão do Oceano, vir a aportar em Cabo Verde. Imagino quantos sentiram e sentem uma saudade assim. Penso naqueles que estiveram exilados do Brasil em um tempo de triste memória. Lembro-me também do Vinícius de Moraes na letra do fado “Saudades do Brasil em Portugal”, onde ele encontra no mar a ligação afetiva entre Brasil e Portugal para amenizar suas saudades:
“O sal das minhas lágrimas de amor criou o mar que existe entre nós dois a nos unir e separar...”
     Há muitos anos um adolescente amigo meu deixou sua terra, sua cidadezinha de interior - que é também a minha – e foi para uma grande capital ganhar a vida jogando futebol. Ficou por lá. Muitos anos depois, contou-me: adolescente, sofrendo de vontade de voltar, tendo que ficar em função de seus compromissos, mas sentindo muita saudade de tudo o que havia deixado para trás, nas horas de desespero ia sozinho para a estação rodoviária daquela cidade grande... e lá ficava sentado por horas inteiras, olhando as pessoas, os ônibus que chegavam e que partiam, na esperança de ver passar alguém de sua terra, que seria a ligação ao seu mundo de menino, então distante, que havia ficado para trás...

(fonte: http://futebolalemao.ig.com.br/index.php/2010/10/04/imagens-do-dia-o-isolamento-de-podolski/)

RP, 05mai2011
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Obs.: A Mariza, que canta "Beijo de Saudade" com o Tito Paris, é Moçambicana. Porisso também tem motivos para querer beijar o Tejo...

*TITO PARIS - Nascido em Cabo Verde, aos 19 anos de idade emigrou para Portugal.
**CABO VERDE é um arquipélago formado por dez ilhas no Oceano Atlântico. Está situado na mesma linha da América Central, porém mais próximo da África. Foi colônia de Portugal.
***O RIO TEJO nasce na Espanha, corta metade desse país, cruza Portugal inteiro, e deságua no mar. Nesse percurso, passa por cidades espanholas como Toledo e Aranjuez antes de adentrar Portugal. Ali, passa por Santarém, Alcochete e outras mais antes de chegar a Lisboa, e desaguar no mar.


terça-feira, 3 de maio de 2011

ENTRE LIVROS E GOIABAS


“A man needs a little madness, or else he never dares to cut the rope and be free.”*
(Nikos Kazantzakis, in “Zorba, the Greek”)



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR)
 (Zorba's dance- trecho do filme Zorba o Grego - 1964)

     Delimitando meu espaço há paredes que me separam de outras pessoas as quais, como eu, também passam seus dias enclausuradas neste edifício. Olho ao meu redor e vejo estantes que comportam livros, que por sua vez armazenam ideias potenciais e ociosas. Do segundo andar me levanto para fechar a persiana para apagar o sol que me incomoda. Antes, observo um menino sem camisa, do outro lado da vidraça, aparentando uns quinze anos de vida, conduzindo um carrinho carregado de frutas. Goiabas. Uma senhora vai até ele. Depois de uma pequena conversa ela escolhe algumas goiabas no carrinho e, carregando uma sacolinha, despede-se dele, ambos com um sorriso no rosto. Cada qual segue seu rumo.

     Os automóveis passam apressados, outros meninos passam pedalando suas bicicletas. Eu, indiferente, fecho a persiana e volto à minha poltrona... mas começo a pensar nas pequenas trocas que suscitam vida. O pequeno diálogo do menino com aquela senhora, que simplesmente observei, faz com que eu involuntariamente troque a indiferença por alguma lucidez adormecida teimando em se mostrar. E me pergunto: “onde a vida pulsa com maior intensidade? No universo de mentes adormecidas dependuradas nas estantes, ou no calor do sol, nos pequenos diálogos reais cotidianos?” 

     Essas perguntas me trazem de volta o personagem de Anthony Quinn em “Zorba, o Grego”[i]. No filme, em vias de tomar um navio com destino a Creta, um tímido e acanhado escritor inglês depara-se com Zorba - um camponês grego, rústico e tosco. O escritor leva uma enorme caixa de livros onde estão contidos todos os valores e estímulos de sua vida. O camponês, sem bagagem alguma, pede para acompanhá-lo na viagem na condição de mão-de-obra faz-de-tudo. Ambos iniciam aí suas trocas. O camponês nutre um enorme gosto pela vida, fala alto, sorri, dança, se atira; o escritor, circunspecto, convivendo com o camponês vai se movendo nessas trocas, de mero expectador a um novo participante da vida e do mundo.
("Cena do filme 'Zorba, o greto' - fonte: http://changeisaconstantnow.blogspot.com.br/2011/12/zorba-greek-lived-full-catastrophe.html)

     Há nesses pensamentos uma pequena avaliação do significado do simples rompimento inexorável e potencial de cada hora, em contraposição à lenta fruição tangível de cada minuto em ligação efetiva com a vida.

     Há os que entendem que aqueles excessivamente dogmáticos não se sentiriam confortáveis em tomar conhecimento dessa história (do livro ou do filme). Há os que dizem que essa história transforma... Em relação ao questionamento em relação à vida e a maneira de vivê-la, trazidos pelo filme, Sêneca² ponderou: "Pequena é a parte da vida que vivemos; pois todo o restante não é vida, mas tempo."

     Pensando na advertência do Sêneca, fico com as perguntas: “quem é o escritor?”, “quem conhece e tem maior experiência de vida para falar a respeito dela?” 

     Fecho de vez por hoje a porta do meu escritório e vou, trocando passos pela calçada, tomar um café no posto de gasolina.


(ANTHONY QUINN, MUITOS ANOS DEPOIS DE "ZORBA...",
NOS DÁ LIÇÕES VIDA NO REENCONTRO COM
O COMPOSITOR DA TRILHA SONORA DO FILME:
CLIQUE NA SETA E SABOREIE)
(Anthony Quinn and Mikis Theodorakis - compositor da trilha sonora de "Zorba o Grego" -  Munique - 2000)
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*"Um homem necessita de um pouco de loucura;
de outra forma, ele nunca vai ousar cortar as amarras e tornar-se livre"

[i] “Zorba, o Grego” – filme – 1964 – Dir. Michael Cacoyannes (baseado no livro de Nikos Kazantzakis)
2 - Sêneca - célebre intelectual e escritor da época do Império Romano