terça-feira, 3 de maio de 2011

ENTRE LIVROS E GOIABAS


“A man needs a little madness, or else he never dares to cut the rope and be free.”*
(Nikos Kazantzakis, in “Zorba, the Greek”)



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR)
 (Zorba's dance- trecho do filme Zorba o Grego - 1964)

     Delimitando meu espaço há paredes que me separam de outras pessoas as quais, como eu, também passam seus dias enclausuradas neste edifício. Olho ao meu redor e vejo estantes que comportam livros, que por sua vez armazenam ideias potenciais e ociosas. Do segundo andar me levanto para fechar a persiana para apagar o sol que me incomoda. Antes, observo um menino sem camisa, do outro lado da vidraça, aparentando uns quinze anos de vida, conduzindo um carrinho carregado de frutas. Goiabas. Uma senhora vai até ele. Depois de uma pequena conversa ela escolhe algumas goiabas no carrinho e, carregando uma sacolinha, despede-se dele, ambos com um sorriso no rosto. Cada qual segue seu rumo.

     Os automóveis passam apressados, outros meninos passam pedalando suas bicicletas. Eu, indiferente, fecho a persiana e volto à minha poltrona... mas começo a pensar nas pequenas trocas que suscitam vida. O pequeno diálogo do menino com aquela senhora, que simplesmente observei, faz com que eu involuntariamente troque a indiferença por alguma lucidez adormecida teimando em se mostrar. E me pergunto: “onde a vida pulsa com maior intensidade? No universo de mentes adormecidas dependuradas nas estantes, ou no calor do sol, nos pequenos diálogos reais cotidianos?” 

     Essas perguntas me trazem de volta o personagem de Anthony Quinn em “Zorba, o Grego”[i]. No filme, em vias de tomar um navio com destino a Creta, um tímido e acanhado escritor inglês depara-se com Zorba - um camponês grego, rústico e tosco. O escritor leva uma enorme caixa de livros onde estão contidos todos os valores e estímulos de sua vida. O camponês, sem bagagem alguma, pede para acompanhá-lo na viagem na condição de mão-de-obra faz-de-tudo. Ambos iniciam aí suas trocas. O camponês nutre um enorme gosto pela vida, fala alto, sorri, dança, se atira; o escritor, circunspecto, convivendo com o camponês vai se movendo nessas trocas, de mero expectador a um novo participante da vida e do mundo.
("Cena do filme 'Zorba, o greto' - fonte: http://changeisaconstantnow.blogspot.com.br/2011/12/zorba-greek-lived-full-catastrophe.html)

     Há nesses pensamentos uma pequena avaliação do significado do simples rompimento inexorável e potencial de cada hora, em contraposição à lenta fruição tangível de cada minuto em ligação efetiva com a vida.

     Há os que entendem que aqueles excessivamente dogmáticos não se sentiriam confortáveis em tomar conhecimento dessa história (do livro ou do filme). Há os que dizem que essa história transforma... Em relação ao questionamento em relação à vida e a maneira de vivê-la, trazidos pelo filme, Sêneca² ponderou: "Pequena é a parte da vida que vivemos; pois todo o restante não é vida, mas tempo."

     Pensando na advertência do Sêneca, fico com as perguntas: “quem é o escritor?”, “quem conhece e tem maior experiência de vida para falar a respeito dela?” 

     Fecho de vez por hoje a porta do meu escritório e vou, trocando passos pela calçada, tomar um café no posto de gasolina.


(ANTHONY QUINN, MUITOS ANOS DEPOIS DE "ZORBA...",
NOS DÁ LIÇÕES VIDA NO REENCONTRO COM
O COMPOSITOR DA TRILHA SONORA DO FILME:
CLIQUE NA SETA E SABOREIE)
(Anthony Quinn and Mikis Theodorakis - compositor da trilha sonora de "Zorba o Grego" -  Munique - 2000)
___________________________
*"Um homem necessita de um pouco de loucura;
de outra forma, ele nunca vai ousar cortar as amarras e tornar-se livre"

[i] “Zorba, o Grego” – filme – 1964 – Dir. Michael Cacoyannes (baseado no livro de Nikos Kazantzakis)
2 - Sêneca - célebre intelectual e escritor da época do Império Romano

10 comentários:

  1. Elias, o importante é ter corajem de cortar a corda, e aprender a voar...!!! Adorei esta crônica!!! Beijos!!!

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  2. Olá, Cleu... fico muito contente em receber seus comentários. Obrigado.

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  3. Nunca vi esse filme, e você sempre fala dele... Agora me interessei! Um dia te deixo me colocar em frente a TV pra assistir!

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  4. Octavio Verri Filho28 de novembro de 2014 19:43

    Esses textos certamente nos enriquecerão, bem como a vida cultural de Ribeirão Preto. Obrigado, Elias!

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  5. Caro amigo Elias, sua lembrança deste filme e a pessoa do Anthony Quinn que amamos dos pés à cabeça, só nos emocionam demais!
    Seu texto, seus comentários só nos põem a refletir o que realmente vale a pena nesta vida. Bonito seu olhar.
    O início: “A man needs a little madness, or else he never dares to cut the rope and be free.” diz tudo,
    Um grande abraço nosso.

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    1. Mais uma vez te agradeço pelo carinho e pelo comentário. De fato, o Anthony Quinn nos ensinou muito... e em especial a gostarmos dele.

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  6. Perscrutar o tempo, os sentimentos, a vida! Obrigado Elias, suas palavras ensinam e nos faz aproximar do essencial.

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    1. Que bom receber um comentário seu. Sua amizade, de tanto tempo, sempre me foi um grande ensinamento. Grande abraço.

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  7. Excelente para reflexão. Obrigado. As vezes precisamos de estímulos para entender que a vida não e a nossa, muitas vezes, intolerável rotina.

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    1. Caro comp., fico contente que tenha gostado. É para mim um grande estímulo ler suas palavras. Grande abraço:.

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