quarta-feira, 25 de novembro de 2015

ROBERTO GOYENECHE - EL POLACO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Roberto Goyeneche - "El último café", de Julio Sosa)

"La vida és un tango"*

     Para que eu aprendesse a gostar de tango foi necessário tempo. Tempo de vida. Anos. Não, não pense você, meu caro amigo, que eu o considerava um gênero ruim: ultrapassado, talvez. É que minha sensibilidade não estava desenvolvida o suficiente para ouvir atentamente o som do bandoneón, ou para entender as verdades contidas nas letras passionais, trágicas e sofridas que são próprias do tango - e que traduzem muito da realidade de nossa existência. Na verdade, até há pouco eu não estava amadurecido para poder sentir o quanto o tango é atual e próprio da natureza humana. 

     No entanto isso ainda não bastou para que eu pudesse reconhecer meus amores pelo tango.

(Fonte: http://club.doctissimo.fr/volver4/tango-peinture-151705/photo/willem-haenraets-tango-5103056.html)

     Foi necessário também que eu descobrisse o Roberto Goyeneche - conhecido como "El Polaco" -; que eu me apaixonasse pelas suas interpretações e pelo seu jeito de sutilmente pronunciar inclusive os pontos e as vírgulas daquilo que canta (inclusive reconhecido na letra de "Garganta con Arena"**). Quando ele solta a voz e diz o tango, expondo-se por inteiro, ele consegue fazer a fusão da fantasia com a realidade. E percebo que eu também me sinto assim, de alma exposta entre realidade e ficção quando o ouço cantar. Por isso acredito que o tango seja, de fato, uma das linguagens da alma!

     Ao interpretar um tango o Goyeneche escancara a autenticidade das paixões que aprisionamos em algum dos labirintos dos nossos instintos.

( Capa da biografia de Goyeneche - fonte: http://www.anobii.com/books/El_Polaco,_la_vida_de_Roberto_Goyeneche/01583de33cb0cf8b39)

     Se gosto da maneira que o Goyeneche canta e representa é porque posso ir além da convencionalidade de gestos, de palavras geometricamente ditas e de sorrisos exatos nos momentos oportunos. Se gosto das interpretações do Goyeneche é porque aprendi que posso me deixar ser naturalmente passional em relação às pessoas e às coisas de que gosto... ou, do contrário, a racionalidade excessiva, desprovida de um mínimo de paixão, pode acabar me matando.


El Último Café (Julio Sosa)

Llega tu recuerdo en torbellino,
Vuelve en el otoño a atardecer
Miro la garúa, y mientras miro,
Gira la cuchara de café.

Del último café
Que tus labios con frío,
Pidieron esa vez
Con la voz de un suspiro.

Recuerdo tu desdén,
Te evoco sin razón,
Te escucho sin que estés.
"Lo nuestro terminó",
Dijiste en un adiós
De azúcar y de hiel...

¡Lo mismo que el café,
Que el amor, que el olvido!
Que el vértigo final
De un rencor sin porqué...

Y allí, con tu impiedad,
Me vi morir de pie,
Medí tu vanidad
Y entonces comprendí mi soledad
Sin para qué...

Llovía y te ofrecí, ¡el último café
O Último Café

Suas lembranças chegam a mim feito um turbilhão,
E me levam para o outono a entardecer
Olho a garoa, e enquanto isso,
Mexe a colher de café.

O último café
Que seus lábios com frio
Pediram daquela vez
Com a voz de um suspiro.

Lembro-me de seu desdém,
Te evoco sem razão,
E te ouço sem que você esteja.
"O nosso terminou"
Disseste em um adeus
De açúcar e de fel ...

Assim como o café,
Que o amor, que o esquecimento!
Que a loucura final
De um rancor sem porquê ...

E ali, com sua impiedade,
Me vi morrer de pé,
Medi sua vaidade
E então eu compreendi minha solidão
Sem para quê ...

Chovia e eu te ofereci o último café!

*"La vida és un tango" (Argentina, 1939) - filme dirigido por Manuel Romero
**"Garganta con arena" - tango de Cacho Castaña composto em homenagem a Roberto Goyeneche

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

VAGAMENTE


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Vagamente" - Menescal/Bôscoli)


     Sou movido à música. Aprendi a ser assim. Dependendo do que ouço logo de manhã o meu estado de espírito fica definido para o dia todo. 

     E depois de ver e ler no jornal de hoje a miséria da condição humana vestida de lama, corrupção e tragédia, desbloqueei meu iphone e me deparei com uma postagem feita por alguém, no facebook, de uma foto da Sylvia Telles. Fiquei olhando para a foto. Antes que pudesse me deixar contaminar pelas notícias lidas, lembrei-me da delicadeza da voz da Sylvia Telles e das muitas madrugadas que passei com amigos de universidade tocando violão e conversando sobre música, escritores e artistas

     E foi lembrando vagamente destes retalhos de vida que terminei meu café, levantei-me da cadeira na cozinha, escovei os dentes, tranquei a porta, e saí de casa para o trabalho ouvindo no carro um CD da Sylvia Telles. E, no caminho, concluí:

     - Terroristas e seres gananciosos precisavam aprender a ouvir música: é por intermédio dela que adquirimos a condição de podermos nos humanizar e compreender o próximo sem a necessidade de julgar, lucrar ou dominar... e a gostar de gente.  


Sylvia Telles U.S.A. (Original Album Plus Bonus Tracks)
 (Capa do disco "Sylvia Telles - U.S.A." - 1961 - fonte: http://www.amazon.co.uk/Sylvia-Telles-U-S-A-Original-Tracks/dp/B00L6G4GDO)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

CONVERSANDO COM O DEGIOVANI

SAO LUIZ DO PARAITINGA - SEM RABO E SEM CHIFRE 
(Capa do livro: fonte: http://www.livrariacultura.com.br/p/sao-luiz-do-paraitinga-sem-rabo-e-sem-chifre-42144901)

     Nem só para vender combustíveis serve um posto de gasolina. Em especial, se ele está situado em uma rodovia, nele também devem ser prestados serviços relativos à conservação e reparo de automóveis: borracharia, troca de óleo, lavagem, e consertos de emergência. Um bom posto serve, além disso, para proporcionar a sombra de uma árvore, sob a qual os viajantes podem estacionar o carro e "esticar as pernas", caminhar alguns passos até um lavatório, e descansar o corpo nas cadeiras de uma cafeteria ou lanchonete - que um bom posto também deverá ter. Aí então o posto de combustíveis fica completo.

     Mas além de tudo um posto de combustíveis à beira de uma rodovia também se presta a viabilizar encontros inesperados de pessoas que se conhecem, de quem se tem boas lembranças, mas que não se veem há muito tempo.

     Pois foi em um final de semana, em um posto de combustíveis assim que, viajando para São Paulo, encontrei o Degiovani.

     Vi-o ao meu lado mexendo em caixas de chocolate. Chamei-o pelo nome, mas ele não me reconheceu. Pudera! Creio que há uns quarenta anos não nos víamos. Dei detalhes de ruas, de fatos, de pessoas, de dias inteiros pedalando bicicleta em nossa cidade. Foi aí então que reapareci em suas lembranças. Sentou-se à mesa comigo e com a minha esposa e começamos a conversar. Falou-me de fotos, de amigos comuns, de fatos antigos, e em especial de livros. 

     Contei a ele de dos dois belíssimos livros que gentilmente o Celsinho - seu irmão e também meu amigo - havia me enviado de presente há algum tempo pelo correio: "Pedra na Contraluz"*, e "Dei bandeira, hein?"** - ambos de sua autoria; que, pelo carinho e pela consideração demonstrados, tal gesto havia me deixado bastante comovido.

(Capa-"Pedra na Contraluz" - Celso Lopes - fonte: http://www.livrariascuritiba.com.br/pedras-na-contraluz-icone-lv347431/p)

     O Degiovani, por sua vez, contou-me com entusiasmo de um livro por ele escrito em coautoria com Maria Alice Ferreira do Amaral Vieira: "São Luiz do Paraitinga - sem rabo e sem chifre"***. Contou-me que visitou a cidade de S.L.do Paraitinga e encantou-se por ela; que passou a visitá-la com frequência - em especial nos carnavais - e que, tomado de amores pelas suas histórias e tradições, com a Maria Alice escreveu e publicou o livro.

     Ali naquela conversa minha viagem já tinha valido à pena. 

     Mas além de um longo percurso ainda a percorrer, eu precisava cumprir um compromisso naquele dia em São Paulo. Depois de um bom papo entre xícaras de café com pão de queixo na lanchonete do posto - e que de minutos durou mais de hora - o Degiovani foi correndo ao seu carro, trouxe o seu livro, e presenteou-me com ele. E que belo livro!! 416 páginas de fotos, histórias de carnavais, narrativas, pesquisas... enfim, simplesmente maravilhoso.

 
 (Degiovani presenteando-me com o livro - foto: arq. pessoal)

     Terminamos nossa conversa com a sensação de que ainda havia muito a ser conversado.

     Dentro do carro, na sequência da viagem, minha esposa e eu fomos pensando com fala... Com um trabalho inspirado em uma cidade que não a sua, tão bem feito pelo Degiovani - e pela Maria Alice -, eu, como guaraense apaixonado, fiquei a desejar que um dia ele também venha a colocar em livro as pessoas, as tradições, os fatos e as fotos de Guará - sua e minha terra natal. Que, com seu trabalho e capricho de escritor, presenteie-nos e faça preservar a nossa História - assim como fez com São Luiz do Paraitinga.

     Parabéns Degiovani (e Maria Alice) pelo belo livro contando do Juca Teles e de S.L.do Paraitinga. Depois disso, caso ainda não o tenham feito, os Luizenses certamente reconhecerão os seus méritos e cuidarão de adotar cidadão honorário um filho natural de Guará.         


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*Lopes, Celso. Pedra na contraluz. São Paulo: Ícone, 2010 (contos)
**Lopes, Celso. Dei bandeira, hein?". São Paulo: Elipse Produções Visuais.
***Silva, Degiovani Lopes da; Vieira, Maria Alice Ferreira do Amaral. São Luiz do Paraitinga: sem rabo e sem chifre. São Paulo: Ed. do autor, 2012