quinta-feira, 28 de julho de 2016

AZUL PROVINCIANO ("AY, ESTE AZUL")


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Mercedes Sosa - "Azul Provinciano", de Pancho Cabral)


"A Terra é azul"
(Yuri Gagarin)


     Meu Deus... Que música! Que interpretação! Música e interpretação desesperadoramente lindas! Lindas e tristes ao mesmo tempo.

     De onde veio tanta inspiração? 

     Ao ouvir "Azul Provinciano", na interpretação da Mercedes Sosa, tenho vontade de conseguir me alojar na mente do autor.

     Não, não na mente. Pois "mente" implica em raciocínio, em elaboração que produz resultado. Não, não me serviria o racional. Meu anseio seria a detecção do instinto, do estágio primitivo, natural e irracional. Seria necessário adentrar na alma do autor. Na alma, onde, originariamente, os sentimentos e as sensações fluem sem elaboração. Somente instalado em sua alma eu poderia descobrir onde ele se encontrava e o que sentia quando a compôs. Queria poder sentir o mesmo... 

     Procuro compreender o estímulo interior que o levou a compô-la. Para onde olhava? O que enxergava?

     Estava acompanhado? Não, não creio que houvesse alguém ao seu lado. As atenções não poderiam estar divididas.

     Estava triste? Não, não poderia estar. O azul ao seu redor não permitiria isso...

     Estava inteiramente feliz? Também não creio que estivesse. O azul natural inspira beleza. E o belo, se verdadeiramente belo, faz doer. A felicidade não é dotada de exclusividade.

     Ele olhava para o azul, para o encontro entre o céu e a Terra. Via andorinhas, ouvia sinos, vidalas de adeus.

     E nesse estado, estava tomado de luz e de humanidade.

     Certamente estava só! Só e iluminado!

     Pois estando assim, iluminado, o homem se engrandece, ascende ao infinito e embeleza o universo - como ocorreu com Pancho Cabral ao compor "Azul Provinciano".    

("A cyclist on the beach" - França, Nord-Pas-de-Calais - postada no facebook por Lincoln Franco - fonte: https://500px.com/photo/135174331/the-cyclist-by-winterlight-photography )

Azul Provinciano (Ay Este Azul)
(Pancho Cabral)

Ay, este azul
Que les quiero contar como fue
Por momentos se queda en mi piel
Ilustrándome el paisaje aquel.

Ay, este azul
Golondrina que vuelve otra vez
Musicando mi zaguán de ayer
A esperarme de barco en la sed.

Ay, este azul
Provinciano se quiebra en mi voz
Como antigua vidala en adiós
Como un breve puñado de sol.

Ay, este azul
Ay, este azul

Ay, este azul
Que ha llegado a iniciarme en la luz
Con campanas de asombro tal vez
Habitando lo que nunca fue.

Ay, este azul, este azul
Es un verde también
Resolana brillando en el pez
Con un silbo enredado en la piel.

Ay, este azul
Solo quiere quedarse en mi voz
Como un duende mojándome
Y en vez
Este azul es un niño tal vez
Azul Provinciano (Ai Este Azul)


Ai, este azul
Eu quero lhes contar como foi
Por momentos fica na minha pele
Ilustrando aquela paisagem.

Ai, este azul
Andorinhas que voltam outra vez
musicando meu corredor ontem
a me esperar no barco na sede.

Ai, este azul
Provinciano se quebra na minha voz
Como antiga "vidala" no adeus
Como um breve punhado de sol.

Ai, este azul
Ai, este azul

Ai, este azul
Que há chegado a introduzir-me na luz
Com sinos de assombro talves
habitando o que eu nunca fui

Ai, este azul
é um verde também
"Rosolana" brilhando no peixe
Com um apito amaranhado na pele.

Ai, este azul
só quer ficar com minha voz
como um duende molhandome
e em vez
Este azul é um menino talvez



quarta-feira, 13 de julho de 2016

MERCEDES SOSA - SÃO PAULO, OUTUBRO DE 2007



(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
E PARA ASSISTIR EM SEGUIDA - letra no final)

(Mercedes Sosa - "Todo cambia", de Julio Numhauser - chileno)


"Tantas veces me mataron,
tantas veces me mori
Sin embargo estoy aqui
resucitando"
(da letra de "Como la cigarra"*)



     Há uns oito ou dez anos, por aí, vi a notícia de que a Mercedes Sosa viria a São Paulo para um show no "Via Funchal". Como as músicas por ela gravadas, assim como as gravadas pelo Chico Buarque, pela Billie Holiday, e pelo John Lennon fizeram parte do despertar dos meus valores, convidei meu sobrinho para juntos irmos vê-la. A oportunidade era única. Providenciei o ingresso, peguei um ônibus, e depois de 300 quilômetros de estrada, com meu sobrinho, saímos para o show.

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(Mercedes Sosa - fonte: http://www.substantivoplural.com.br/mercedes-sosa-naquela-tarde/)


     Em um auditório enorme, lotado, amparada por duas pessoas e ainda apoiando-se em uma bengala, “La Negra”** entrou no palco. Sentou-se, sorriu, e abriu sua apresentação com “Como la cigarra” - uma música que fala de solidariedade e renascimento - do renascimento que ela parecia experimentar a cada vez que começava a cantar.

(Ingresso para o show - foto: arq. pessoal)

     Apesar das limitações físicas, a voz era a mesma que me havia ensinado a admirá-la. Na força e na docilidade de seu canto ainda estavam presentes, ideologicamente, uma arma para lutar pela vida e um ramalhete de flores para agradecer por tudo. A medida que as músicas iam sendo apresentadas eu cantava mentalmente com ela tudo o que conhecia: "Gracias a la vida", "Todo Cambia", "Ay este azul", "Alfonsina y el mar", "Solo le pido a Dios"... e muitas, muitas outras. Foram duas horas inesquecíveis.

     No ano seguinte àquele show ela foi embora. Partiu para sempre. Ficaram a voz, a lembrança daquela noite, e as lições de solidariedade e beleza contidas nas letras das músicas por ela gravadas... e que eu costumava ouvir sob uma luz minguada de uma república de estudantes, no final dos anos 70.


Todo Cambia

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo


Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Cambia el más fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante


Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia


Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera


Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Pero no cambia mi amor
Por más lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente


Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana


Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia

Pero no cambia mi amor

Tudo Muda

Muda o superficial
Muda também o profundo
Muda o modo de pensar
Muda tudo neste mundo


Muda o clima com os anos
Muda o pastor e seu rebanho
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Muda o mais fino brilhante
De mão em mão seu brilho
Muda o ninho o pássaro
Muda a sensação de um amante


Muda o rumo o andarilho
Ainda que isto lhe cause dano
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda


Muda o sol em sua corrida
Quando a noite o substitui
Muda a planta e se veste
De verde na primavera


Muda a pelagem a fera
Muda o cabelo o ancião
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Mas não muda meu amor
Por mais distante que eu me encontre
Nem a recordação nem a dor
De meu povo e de minha gente


O que mudou ontem
Terá que mudar amanhã
Assim como eu mudo
Nesta terra tão longínqua


Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda

Mas não muda meu amor...



________________________________  
*"Como la cigarra" (de Maria Elena Walsh - poetisa, musicista e escritora argentina): tantas vezes me mataram, tantas vezes me deixei morrer, no entanto estou aqui, renascendo.
**La Negra - apelido carinhoso dado à Mercedes Sosa.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

PARA VER AS MENINAS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Marias Monte - "Para ver as meninas", do Paulinho da Viola)


"Silêncio, por favor,
porque hoje eu vou fazer
ao meu jeito, eu vou fazer"
(Paulinho da Viola)


     "Crime", "pedalada", "fraude fiscal", "calote", "propina"... "explosão de caixa eletrônico", "milhões de dólares", "prisão"...  

     Essas notícias de crise, assalto, desvios de dinheiro, delatores, operações da polícia federal, "isso e aquilo", agridem: provocam enjoo.

     Eu as sinto como um baita soco no estômago. Dão ânsia de vômito.

     Não mereço! Ninguém merece!

     Apesar de estar sendo bombardeado por histórias assim o dia todo, todos os dias, estou certo de que não nasci para viver com ódio e mau humor... nem para ficar ouvindo pessoas que querem me induzir a isso.

     - "Tô" fora!

     P'rá escapar, por um breve momento que seja, o que me alivia mesmo é uma pausa de mil compassos... para (re)ver as meninas... minhas meninas, minhas musas, em seus anos dourados...

... a Norma Bengell, em "Os Cafajestes",
a Darlene Glória, em "Toda nudez será castigada",
a Vera Fischer, em "Perdoa-me por me traíres",
a Sônia Braga, em "Eu te amo",
a Sylvia Kristel, em "Emmanuelle,
a Annie Girardot, em "Viver por viver",
a Romy Schneider, em "A Piscina", 
a Natassja Kinski, em "Os amantes de Maria",
a Bete Mendes, na novela "Beto Rockfeller"...

... e ficar levitando sobre a Terra... entre as nuvens... tendo como limite o céu ornamentado pela lua e pelas estrelas - pelas minhas estrelas, pelas minhas meninas.

Norma Bengel em Os cafajestes, direção Ruy Guerra, 1962.
(Norma Bengell - fonte: http://sibila.com.br/cultura/sibila-debate-64-marcelo-ridenti/10274)

imagem
(Darlene Glória - http://www.70anosdecinema.pro.br/746-TODA_NUDEZ_SERA_CASTIGADA_(1973)

Vera Fischer no filme "Perdoa-me Por Me Traíres" (1980). #VeraFischer #Cinema #CinemaNacional #NelsonRodrigues #1980
(Vera Fischer - http://www.imgrum.net/user/fc_verafischer/1958963696/1064763879943947657_1958963696)


besta4 7dez
(Sônia Braga - http://www.luizberto.com/2014/12/07)

(Bete Mendes - http://novelasclassicas.blogspot.com.br/2011/06/novela.html)